Campos dos Goytacazes: enquanto a crise climática esquenta a cidade, as árvores continuam sendo exterminadas

Pesquisa da UENF apresentada hoje na UFF Campos revela que, no Flamboyant, foram identificadas 2,4 árvores cortadas para cada muda plantada, expondo a contradição entre a destruição da arborização pública e a necessidade urgente de adaptação à crise climática

Há algum tempo venho chamando a atenção dos leitores do Blog do Pedlowski para um processo que considero particularmente preocupante em Campos dos Goytacazes: a eliminação sistemática de árvores que compõem a arborização pública da cidade. O que poderia parecer, à primeira vista, um conjunto de episódios isolados de cortes e podas radicais começa a adquirir contornos mais graves à medida que avançam os levantamentos científicos sobre a situação da cobertura arbórea urbana. O caso do bairro Flamboyant, que já havia sido objeto de uma postagem anterior neste blog, oferece agora evidências adicionais de que estamos diante de um processo de empobrecimento ambiental que não pode continuar sendo tratado com indiferença pelo poder público municipal.

Os novos dados fazem parte da pesquisa intitulada “Arborização Urbana como Estratégia de Mitigação de Desigualdades Socioambientais e Adaptação Climática”, desenvolvida por Cristian Ferreira Corrêa e por mim, no âmbito do Setor de Estudos sobre Sociedade e Meio Ambiente, vinculado ao Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA), do Centro de Ciências do Homem (CCH) da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF). O trabalho foi apresentado hoje (8 de outubro), durante a III Semana do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, Ambiente e Políticas Públicas (PPGDAP), realizada na UFF Campos. A investigação busca compreender em que medida a arborização urbana está sendo tratada como um instrumento efetivo de adaptação climática em Campos dos Goytacazes, especialmente quando consideradas as profundas desigualdades socioambientais que caracterizam a cidade.

O novo levantamento, realizado com auxílio da plataforma KoboToolbox e de técnicas de geoprocessamento no QGIS, identificou 84 registros de árvores cortadas e apenas 35 de mudas plantadas, totalizando 119 ocorrências nos setores Flamboyant I e II. Em termos proporcionais, isso significa que foram registradas aproximadamente 2,4 árvores removidas para cada muda plantada. O resultado é particularmente preocupante porque o plantio de uma muda não representa a reposição imediata dos serviços ambientais oferecidos por uma árvore adulta, cuja copa pode levar décadas para atingir dimensões equivalentes. Portanto, mesmo que o número de mudas plantadas fosse igual ao de árvores removidas, isso não significaria necessariamente a recuperação da cobertura vegetal perdida.

Esses números ampliam e reforçam a denúncia apresentada anteriormente neste blog, quando trabalhávamos com uma malha de dados inferior àquela agora disponível. Naquela ocasião, já era possível identificar sinais preocupantes de redução da arborização pública do Flamboyant. Com a ampliação do levantamento e a incorporação de novos registros georreferenciados, a situação aparece com maior nitidez: não estamos simplesmente diante de substituições pontuais de árvores, mas de um desequilíbrio expressivo entre remoção e reposição. O mapa produzido pela pesquisa também revela que as ocorrências de corte estão distribuídas por diferentes partes do bairro, o que enfraquece a interpretação de que se trata de um problema restrito a uma única rua ou a um conjunto muito localizado de intervenções.

Há ainda um aspecto histórico que torna esses resultados especialmente reveladores. Pesquisas realizadas na UENF desde o início dos anos 2000, incluindo o trabalho de Victor Andrade Carneiro da Silva (2001) e um artigo científico que publiquei com colaboradores em 2003 na revista Urban Ecosystems, demonstraram que a arborização urbana em Campos dos Goytacazes apresenta uma distribuição profundamente desigual. Naquele momento, o Flamboyant aparecia como um bairro relativamente privilegiado em termos de quantidade e diversidade de árvores, especialmente quando comparado ao Parque Prazeres, onde a cobertura vegetal era significativamente mais escassa. A existência dessa desigualdade estava associada às diferenças de renda, ao valor da terra e às formas de produção e apropriação do espaço urbano.

O que os novos dados sugerem é que até mesmo bairros anteriormente beneficiados por uma cobertura arbórea relativamente expressiva estão passando por um processo de deterioração de suas condições ambientais. Isso não significa que as desigualdades identificadas anteriormente tenham desaparecido, mas que elas podem estar sendo acompanhadas por um processo mais amplo de perda de arborização pública. A situação do Flamboyant, somada às intervenções que vêm sendo observadas em outras áreas de Campos dos Goytacazes, inclusive no Jardim São Benedito, levanta a hipótese de que o problema não esteja restrito a um único bairro, mas corresponda a uma dinâmica disseminada pela cidade. Evidentemente, a confirmação científica dessa hipótese exigirá levantamentos em outras localidades, algo que está previsto nas próximas etapas da pesquisa.

O aspecto mais contraditório desse processo é que ele ocorre justamente quando a crise climática exige das cidades uma transformação profunda de suas políticas de planejamento e gestão ambiental. Em um contexto de elevação das temperaturas, aumento da frequência e da intensidade de episódios de calor extremo e crescente vulnerabilidade das populações urbanas, a preservação e a ampliação da arborização deveriam constituir prioridades absolutas da administração pública. Afinal, as árvores não são meros elementos decorativos da paisagem. Elas proporcionam sombra, contribuem para a regulação das temperaturas, melhoram a qualidade do ar, favorecem a infiltração da água no solo e oferecem condições ambientais que influenciam diretamente a saúde e o bem-estar da população.

No caso de Campos dos Goytacazes, onde as altas temperaturas já representam um componente importante do desconforto ambiental cotidiano, a eliminação de árvores adultas tende a agravar ainda mais as condições térmicas das ruas e dos espaços públicos. A combinação entre superfícies impermeabilizadas, expansão das áreas construídas e redução da cobertura vegetal cria condições favoráveis ao aumento das temperaturas locais, com consequências especialmente severas para pedestres, trabalhadores expostos ao sol, idosos e crianças. Em outras palavras, ao permitir que a cidade perca árvores sem uma reposição ambientalmente adequada, estamos contribuindo para tornar a vida urbana progressivamente mais difícil justamente no momento em que deveríamos investir em mecanismos de adaptação às mudanças climáticas.

Existe também uma questão política que não pode ser ignorada. Quem decide quais árvores serão cortadas? Quais critérios técnicos justificam essas remoções? Onde estão os programas de reposição e de acompanhamento das mudas plantadas? Existe um planejamento municipal capaz de estabelecer metas verificáveis de ampliação da cobertura arbórea? E, sobretudo, de que maneira a população participa das decisões que afetam diretamente as condições ambientais dos bairros onde vive? Essas perguntas são fundamentais porque a arborização pública não pode ficar submetida exclusivamente a decisões administrativas pontuais, tampouco aos interesses particulares de quem eventualmente considera uma árvore um obstáculo à utilização de calçadas, à circulação de veículos ou à valorização imobiliária.

A pesquisa que estamos desenvolvendo no LEEA/CCH/UENF pretende avançar justamente nessa direção, combinando levantamentos georreferenciados, entrevistas com representantes do poder público e consultas à população. A próxima etapa também incluirá o bairro Parque Prazeres, permitindo verificar se as desigualdades socioambientais identificadas há mais de duas décadas persistem e como se manifestam nas atuais práticas de gestão da arborização urbana. Trata-se de uma investigação que procura ultrapassar a simples contagem de árvores para compreender as relações sociais, econômicas e políticas que determinam quem dispõe de melhores condições ambientais e quem permanece mais exposto aos efeitos da degradação urbana.

O que já é possível afirmar, entretanto, é que os resultados obtidos no Flamboyant deveriam servir como um sinal de alerta para o governo municipal. Em uma cidade que enfrenta os desafios da crise climática, não faz sentido continuar tratando a arborização como uma questão secundária, sujeita a intervenções fragmentadas e sem transparência suficiente quanto aos seus efeitos cumulativos. Se a tendência observada no Flamboyant estiver ocorrendo em outros bairros, Campos dos Goytacazes poderá estar comprometendo uma das formas mais acessíveis e eficazes de adaptação ao aumento das temperaturas urbanas. Mais grave ainda é perceber que esse processo parece avançar sem que exista um debate público à altura de suas consequências ambientais e sociais.

A pergunta que fica é bastante simples: em uma cidade que precisa urgentemente de mais sombra, mais árvores e melhores condições ambientais, por que estamos assistindo à destruição justamente da vegetação que poderia ajudar a protegê-la dos efeitos da crise climática? Se o poder público municipal possui uma explicação técnica convincente para esse aparente contrassenso, seria importante que a apresentasse à população. Afinal, a crise climática não espera, e uma árvore adulta eliminada hoje não será substituída, em suas funções ambientais, por uma muda recém-plantada amanhã. Enquanto isso, a conta desse processo de empobrecimento ambiental tende a ser paga por todos os habitantes de Campos dos Goytacazes, especialmente por aqueles que já enfrentam as maiores dificuldades para suportar as temperaturas cada vez mais elevadas.

Massacre da serra elétrica no Flamboyant: para cada cinco árvores removidas, uma muda plantada

Levantamento preliminar no bairro encontrou uma reposição muito inferior ao número de árvores removidas. A pesquisa agora precisa verificar se esse padrão se repete em outras áreas da cidade

Uma das primeiras pesquisas que realizei como professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) teve como objeto a arborização urbana em Campos dos Goytacazes. O estudo resultou na primeira dissertação concluída sob minha orientação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF, no já distante ano de 2001.

Uma das principais descobertas foi que a arborização dos bairros estudados acompanhava um critério de renda. O Flamboyant se destacou por ter mais árvores e maior diversidade de espécies. Outro dado importante: ali, o plantio havia ocorrido por iniciativa dos próprios moradores, e não do poder público municipal. Na época, o estudo registrou uma proporção de quatro vezes mais árvores no Flamboyant, em comparação com os bairros periféricos que foram analisados em uma mesma quantidade de metros quadrados.

Voltei recentemente a estudar a arborização urbana de Campos, motivado pela necessidade de compreender como a cidade está enfrentando o agravamento das mudanças climáticas, entre cujos efeitos está o aumento das temperaturas. Também pesou nessa decisão uma constatação empírica: vivemos um período de remoção acelerada de árvores, em parte associado às prioridades impostas pela ocupação das vias públicas por redes aéreas, inclusive as da concessionária de energia elétrica.

A ciência mostra que as árvores podem ajudar a reduzir o calor urbano por dois mecanismos principais. A copa intercepta parte da radiação solar, sombreando o solo, as calçadas e os edifícios; além disso, a evapotranspiração transfere energia para a evaporação da água, em vez de deixá-la aquecer as superfícies e o ar ao redor. A vegetação também pode melhorar o conforto térmico de quem caminha ou permanece nas ruas. A intensidade desses efeitos varia conforme as espécies, o tamanho e a densidade das copas, a disponibilidade de água, o desenho das ruas e a forma como os edifícios influenciam a circulação do ar. Por isso, arborizar exige planejamento, continuidade e escolha adequada das espécies, além de proteger as árvores já adultas, cujo porte oferece sombra que uma muda recém-plantada ainda não pode proporcionar. 

As árvores também podem reter parte do material particulado em suas folhas e reduzir a exposição direta ao sol. Mas os efeitos sobre a qualidade do ar dependem do local e do desenho urbano: copas muito densas em ruas estreitas, por exemplo, podem alterar a circulação do ar e dificultar a dispersão de poluentes. A vegetação ainda pode contribuir para atenuar ruídos, embora esse efeito dependa da largura e da densidade da barreira vegetal. Portanto, a arborização favorece a saúde e o conforto urbano, mas não substitui medidas de controle das fontes de poluição, do ruído e do calor. 

Um dos primeiros dados que estamos levantando em uma investigação de campo diz respeito ao número de árvores removidas das vias públicas e de mudas plantadas para, em tese, repor o estoque arbóreo. Decidimos começar pelo Flamboyant, que há 25 anos apareceu como o bairro mais arborizado e com maior diversidade de espécies entre os locais estudados.

Os números preliminares são reveladores de um verdadeiro massacre da serra elétrica acontecendo sob nossos narizes. Somente no Flamboyant, identificamos uma desproporção entre árvores removidas e plantadas de 5,2 para 1. Em outras palavras, para cada cinco árvores removidas, apenas uma foi reposta (ver a figura abaixo).

A perda de árvores pode significar menos sombra, maior exposição das superfícies à radiação solar e menor capacidade de resfriamento por evapotranspiração. Isso tende a agravar o desconforto térmico nas ruas e pode aumentar a necessidade de refrigeração em residências e estabelecimentos. A redução da vegetação também pode diminuir a retenção de partículas e a atenuação do ruído, embora a dimensão desses efeitos precise ser verificada por medições locais. A questão, portanto, vai muito além da estética: envolve conforto, saúde pública e desigualdade no acesso a condições ambientais mais seguras. Estudos de saúde pública associam os espaços verdes à redução da exposição ao calor excessivo, à poluição do ar e ao ruído, mas a intensidade dos benefícios depende do contexto urbano e da distribuição dessas áreas. 

Se o Flamboyant ainda conserva uma cobertura arbórea superior à de muitos bairros periféricos, é razoável investigar se a situação nesses bairros é ainda mais grave. A hipótese de que a remoção de árvores não se restringe ao Flamboyant precisa ser testada com dados, mas o que observo cotidianamente torna essa investigação urgente.

Graças aos avanços no sensoriamento remoto e aos métodos de avaliação das árvores em campo, a pesquisa que estamos iniciando deverá alcançar outros bairros e incluir medições de diferentes variáveis relacionadas ao estoque arbóreo das vias públicas. Isso permitirá comparar não apenas a quantidade de árvores, mas também sua distribuição, a cobertura das copas, a diversidade de espécies e as condições em que as árvores estão crescendo.

Uma coisa é certa: se o padrão encontrado no Flamboyant se repetir em outras áreas, estaremos diante de um problema grave de preparação para a adaptação climática. Em Campos, essa necessidade parece estar sendo empurrada para as calendas. As árvores não substituem políticas mais amplas de adaptação, mas sua distribuição e conservação são parte concreta da resposta ao calor urbano — e precisam ser tratadas como infraestrutura pública, não como ornamento descartável.

O custo social da perda dessa infraestrutura pode ficar ainda mais evidente nos próximos meses, caso se confirmem as previsões de altas temperaturas e escassez de chuvas associadas ao El Niño. A cidade não pode esperar que o calor extremo torne impossível ignorar aquilo que a remoção das árvores já está anunciando.