Levantamento preliminar no bairro encontrou uma reposição muito inferior ao número de árvores removidas. A pesquisa agora precisa verificar se esse padrão se repete em outras áreas da cidade
Uma das primeiras pesquisas que realizei como professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF) teve como objeto a arborização urbana em Campos dos Goytacazes. O estudo resultou na primeira dissertação concluída sob minha orientação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF, no já distante ano de 2001.
Uma das principais descobertas foi que a arborização dos bairros estudados acompanhava um critério de renda. O Flamboyant se destacou por ter mais árvores e maior diversidade de espécies. Outro dado importante: ali, o plantio havia ocorrido por iniciativa dos próprios moradores, e não do poder público municipal. Na época, o estudo registrou uma proporção de quatro vezes mais árvores no Flamboyant, em comparação com os bairros periféricos que foram analisados em uma mesma quantidade de metros quadrados.
Voltei recentemente a estudar a arborização urbana de Campos, motivado pela necessidade de compreender como a cidade está enfrentando o agravamento das mudanças climáticas, entre cujos efeitos está o aumento das temperaturas. Também pesou nessa decisão uma constatação empírica: vivemos um período de remoção acelerada de árvores, em parte associado às prioridades impostas pela ocupação das vias públicas por redes aéreas, inclusive as da concessionária de energia elétrica.
A ciência mostra que as árvores podem ajudar a reduzir o calor urbano por dois mecanismos principais. A copa intercepta parte da radiação solar, sombreando o solo, as calçadas e os edifícios; além disso, a evapotranspiração transfere energia para a evaporação da água, em vez de deixá-la aquecer as superfícies e o ar ao redor. A vegetação também pode melhorar o conforto térmico de quem caminha ou permanece nas ruas. A intensidade desses efeitos varia conforme as espécies, o tamanho e a densidade das copas, a disponibilidade de água, o desenho das ruas e a forma como os edifícios influenciam a circulação do ar. Por isso, arborizar exige planejamento, continuidade e escolha adequada das espécies, além de proteger as árvores já adultas, cujo porte oferece sombra que uma muda recém-plantada ainda não pode proporcionar.
As árvores também podem reter parte do material particulado em suas folhas e reduzir a exposição direta ao sol. Mas os efeitos sobre a qualidade do ar dependem do local e do desenho urbano: copas muito densas em ruas estreitas, por exemplo, podem alterar a circulação do ar e dificultar a dispersão de poluentes. A vegetação ainda pode contribuir para atenuar ruídos, embora esse efeito dependa da largura e da densidade da barreira vegetal. Portanto, a arborização favorece a saúde e o conforto urbano, mas não substitui medidas de controle das fontes de poluição, do ruído e do calor.
Um dos primeiros dados que estamos levantando em uma investigação de campo diz respeito ao número de árvores removidas das vias públicas e de mudas plantadas para, em tese, repor o estoque arbóreo. Decidimos começar pelo Flamboyant, que há 25 anos apareceu como o bairro mais arborizado e com maior diversidade de espécies entre os locais estudados.
Os números preliminares são reveladores de um verdadeiro massacre da serra elétrica acontecendo sob nossos narizes. Somente no Flamboyant, identificamos uma desproporção entre árvores removidas e plantadas de 5,2 para 1. Em outras palavras, para cada cinco árvores removidas, apenas uma foi reposta (ver a figura abaixo).
A perda de árvores pode significar menos sombra, maior exposição das superfícies à radiação solar e menor capacidade de resfriamento por evapotranspiração. Isso tende a agravar o desconforto térmico nas ruas e pode aumentar a necessidade de refrigeração em residências e estabelecimentos. A redução da vegetação também pode diminuir a retenção de partículas e a atenuação do ruído, embora a dimensão desses efeitos precise ser verificada por medições locais. A questão, portanto, vai muito além da estética: envolve conforto, saúde pública e desigualdade no acesso a condições ambientais mais seguras. Estudos de saúde pública associam os espaços verdes à redução da exposição ao calor excessivo, à poluição do ar e ao ruído, mas a intensidade dos benefícios depende do contexto urbano e da distribuição dessas áreas.
Se o Flamboyant ainda conserva uma cobertura arbórea superior à de muitos bairros periféricos, é razoável investigar se a situação nesses bairros é ainda mais grave. A hipótese de que a remoção de árvores não se restringe ao Flamboyant precisa ser testada com dados, mas o que observo cotidianamente torna essa investigação urgente.
Graças aos avanços no sensoriamento remoto e aos métodos de avaliação das árvores em campo, a pesquisa que estamos iniciando deverá alcançar outros bairros e incluir medições de diferentes variáveis relacionadas ao estoque arbóreo das vias públicas. Isso permitirá comparar não apenas a quantidade de árvores, mas também sua distribuição, a cobertura das copas, a diversidade de espécies e as condições em que as árvores estão crescendo.
Uma coisa é certa: se o padrão encontrado no Flamboyant se repetir em outras áreas, estaremos diante de um problema grave de preparação para a adaptação climática. Em Campos, essa necessidade parece estar sendo empurrada para as calendas. As árvores não substituem políticas mais amplas de adaptação, mas sua distribuição e conservação são parte concreta da resposta ao calor urbano — e precisam ser tratadas como infraestrutura pública, não como ornamento descartável.
O custo social da perda dessa infraestrutura pode ficar ainda mais evidente nos próximos meses, caso se confirmem as previsões de altas temperaturas e escassez de chuvas associadas ao El Niño. A cidade não pode esperar que o calor extremo torne impossível ignorar aquilo que a remoção das árvores já está anunciando.

