Forças-tarefas da Lava Jato e Greenfield divulgam nota pública sobre decisão do ministro Dias Toffoli

Magistrado suspendeu investigações e processos instaurados a partir do compartilhamento de informações fiscais e bancárias com o MP

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Os procuradores da República que integram as forças-tarefas das operações Lava Jato e Greenfield divulgaram na tarde desta quarta-feira (17), nota pública sobre decisão do ministro Dias Toffoli. Confira:

“As forças-tarefas das operações Greenfield e Lava Jato em Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro externam grande preocupação em relação à decisão monocrática emitida pelo presidente do E. STF, Min. Dias Toffoli, que determinou a suspensão de investigações e processos instaurados a partir do compartilhamento com o Ministério Público de informações fiscais e bancárias sobre crimes “que foram além da identificação dos titulares das operações bancárias e dos montantes globais”, sem prévia decisão do Poder Judiciário. 

A referida decisão contraria recomendações internacionais de conferir maior amplitude à ação das unidades de inteligência financeira, como o COAF, inclusive em sua interação com os órgãos públicos para prevenir e reprimir a lavagem de dinheiro. 

As forças-tarefas, ao longo dos últimos cinco anos, receberam inúmeras informações sobre crimes da Receita, do COAF e do BACEN, inclusive a partir da iniciativa dos órgãos quando se depararam com indícios de atividade criminosa. A base para o compartilhamento na última situação é o dever de autoridades de comunicar atividade criminosa identificada. 

Embora seja inviável identificar imediatamente quantos dos milhares de procedimentos e processos em curso nas forças-tarefas podem ser impactados pela decisão do E. STF, esta impactará muitos casos que apuram corrupção e lavagem de dinheiro nas grandes investigações e no país, criando risco à segurança jurídica do trabalho.

A suspensão de investigações e processos por prazo indeterminado reduz a perspectiva de seu sucesso, porque o decurso do tempo lhes é desfavorável. Com o passar do tempo, documentos se dissipam, a memória de testemunhas esmorece e se esvai o prazo de retenção pelas instituições de informações telefônicas, fiscais e financeiras.

Por tudo isso, as forças-tarefas ressaltam a importância de que o caso seja apreciado, com a urgência possível, pelo plenário do Supremo Tribunal Federal, manifestando confiança de que a Corte definirá a questão com a necessária urgência, conferindo segurança jurídica para o desenvolvimento das investigações e processos suspensos”.

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Este texto foi produzido pela Assessoria de Comunicação da Procuradoria da República no Rio de Janeiro.

O filho de Bolsonaro (Flávio) entendeu tudo errado em relação às mudanças climáticas

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Por Ignacio Amigo para a ClimaTracker.org

Flávio Bolsonaro, um dos filhos do presidente do Brasil, escreveu um artigo de opinião em que nega as mudanças climáticas. Assinado com um colega senador, Márcio Bittar, o texto é cheio de falsidades e mentiras descaradas. Nos parágrafos seguintes, vamos desmascarar algumas de suas alegações selvagens. Como eles não apóiam suas declarações com qualquer tipo de evidência, será a palavra deles contra a ciência.

“Sabe-se que a ideologia verde tem sido um paraíso para os esquerdistas de todos os tipos. Há um emaranhado complexo de grupos anticapitalistas defendendo a irracionalidade e gerando um falso consenso científico ”

A política verde não é, de modo algum, uma exclusividade da esquerda. O acordo de Paris foi assinado por governos de todos os tipos, da Venezuela à Arábia Saudita. Não há “falso consenso científico” em torno das mudanças climáticas, apenas consenso científico. Organizações científicas em todo o mundo e órgãos intergovernamentais concordam que o aquecimento global é real e está sendo causado pela ação humana. Você pode encontrar mais informações no site da NASA.

“O mais famoso e refutado [discurso apocalíptico] é que o aquecimento global é causado por humanos. Outros existiam: a preservação do mico-leão-dourado [um primata endêmico e ameaçado do Brasil], a destruição da camada de ozônio, o fim da biodiversidade, a superpopulação, a Amazônia como o pulmão do mundo, entre outras mentiras repetidas ”

Uma estratégia comum para espalhar notícias falsas é misturar fatos reais com mentiras. Mas este não é o caso. Aqui os autores simplesmente listam fatos bem estabelecidos e exemplos de sucesso e os chamam de “mentiras”.

O mico-leão-dourado estava quase extinto há 60 anos, devido ao desmatamento na Mata Atlântica do Brasil. Desde então, uma campanha de conservação de sucesso ajudou a espécie a sobreviver e o número de indivíduos aumentou substancialmente. Se você quiser ler mais sobre a história do mico-leão-dourado, você pode ler este estudo da Universidade de Utrecht.

A destruição da camada de ozônio é um fato bem documentado. Foi descrita pela primeira vez nos anos 70 por Payul Crutzen, Mario Molina e Sherwood Roland, que ganhou o Prêmio Nobel em 1995 por essas descobertas. A ciência é a seguinte: compostos presentes em aerossóis e refrigeradores chamados gases de clorofluorocarbonetos, se decompõem na estratosfera gerando cloro. As moléculas de cloro, por sua vez, reagem com as moléculas de ozônio, esgotando-as. Isso tem sérias conseqüências, porque as moléculas de ozônio absorvem radiações ultravioletas do sol que, entre outras coisas, causam câncer. Essas descobertas levaram ao Protocolo de Montreal sobre Substâncias que Destroem a Camada de Ozônio, adotado em 1987 por todos os países da ONU. Desde então, os níveis de ozono aumentaram. Erik Solheim, chefe da ONU para o Meio Ambiente, descreveu o protocolo como “um dos acordos multilaterais de maior sucesso na história”. Você pode aprender mais sobre a destruição do ozônio nesta peça da National Geographic.

A perda de biodiversidade é outra questão premente do nosso tempo. Muitos estudos científicos mostram que as taxas de extinção de espécies são maiores agora do que em estágios pré-humanos. Aqui está um exemplo de um estudo de 2014 publicado na Science: “As taxas atuais de extinção são cerca de 1000 vezes a taxa de fundo de extinção [taxa antes dos humanos]. Estes são mais elevados do que o estimado anteriormente e provavelmente ainda são subestimados ”.

A superpopulação também é real. O número de humanos na Terra aumentou três vezes mais entre 1900 e 2000 do que durante o resto da era humana. Embora os números sugiram que possamos estar perto de alcançar o pico, a população humana continuará a crescer nas próximas décadas. Isto tem várias implicações, especialmente considerando que as mudanças climáticas e a população humana estão inter-relacionadas e que as cidades continuarão a crescer à custa das áreas rurais. Confira este site para mais dados e fatos sobre a população humana.

Pode soar como um clichê, mas a floresta amazônica é o pulmão da Terra. É a maior floresta tropical do mundo. Libera uma parte substancial do oxigênio que respiramos e regula o ciclo da água na região.

“Eles até dizem que as florestas criam chuvas, desafiando o conhecimento bem estabelecido do ciclo da água: evaporação dos oceanos, lagos, rios (calor do sol), condensação (nuvens) e precipitação (chuvas). Há florestas densas porque há chuvas intensas ”

Embora seja verdade que as chuvas afetam as florestas, isso não significa que as florestas não afetam as chuvas. Por exemplo, as árvores são críticas para reter a água no solo. Sem árvores, as chuvas degradam o solo e a água cai. Um estudo publicado na Science em 2016 mostrou que a umidade do solo afeta os padrões de chuva. Outro estudo de 2017 publicado na PNAS mostra que o vapor de água das árvores na Amazônia desencadeia as chuvas que iniciam a estação chuvosa. Você pode ler sobre este estudo nesta peça chamada “Árvores na Amazônia fazem sua própria chuva”.

“Você só precisa pesquisar para saber que humanos podem mudar o clima local, mas não o clima global. Houve momentos em que a produção humana era pequena e o mundo era mais quente. Apesar do aumento nas emissões de CO2, dizem os cientistas, o mundo está passando por um resfriamento global ”

Conforme observado acima, há uma grande quantidade de pesquisas indicando que os seres humanos estão mudando o clima global. Você pode ler mais sobre isso nesta história da National Geographic. Os cinco anos mais quentes registrados são, nesta ordem, 2016, 2015, 2017, 2018 e 2014. Não há evidências que sugiram que o resfriamento global está ocorrendo e os fatos mostram exatamente o contrário.

“Está bem estabelecido que os grandes reguladores climáticos são o sol, os oceanos e os vulcões. Nada disso pode ser alcançado pela ação humana ”.

Os seres humanos estão mudando a atmosfera, que por sua vez tem um impacto sobre a radiação solar que atinge a Terra. Nós também estamos poluindo os oceanos e a mudança climática está piorando ainda mais. Erupções vulcânicas podem afetar o clima, mas os autores provavelmente estão exagerando sua importância.

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pela ClimateTracker [Aqui!]

Projeto de lei para extinção da reserva legal trará mais devastação ambiental

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Fim da reserva legal servirá para legalizar o que atualmente é crime.

No que se apresenta como mais um ataque ao sistema nacional de meio ambiente, a dupla formada pelos senador Flávio Bolsonaro (PSL/RJ) e Márcio Bittar (MDB/AC) apresentaram projeto de lei com o objetivo de revogar o quarto capítulo do Código Florestal, chamado de “Da área de reserva legal”.

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Se consumada a aprovação desse projeto de lei, o que teremos será uma ampliação desenfreada da devastação dos biomas florestais brasileiros, em especial o Amazõnico para onde convergem todos os interesses manifestos de exploração de seus recursos naturais.

A alegação por detrás desse atentado contra não apenas as nossas florestas, mas principalmente a biodiversidade que as mesmas possuem e os serviços ambientais que fornecem. Também sofrerão as duras consequências do que promete ser um avanço descontrolado do desmatamento as comunidades tradicionais e povos indígenas que dependem do que as florestas fornecem para garantir sua reprodução social e sobrevivência econômica.

Como estudioso do processo de desmatamento da Amazônia, com diversas publicações em revistas internacionais de alto impacto desde 1993, posso testemunhar que hoje há mais terra desmatada do que se necessita para cultivar ou plantar pastagens. A quantidade de terra desmatada que se tornou improdutiva é significativamente alta, e a remoção das florestas atende a outras interesses que não os alegados pelos dois senadores.

Um detalhe a mais que me faz ser totalmente contra esse projeto pró-desmatamento é o fato de ser junto com meus irmãos e irmã o co-proprietário de uma área de 17 ha de floresta ombrófilo mista que contém centenas de árvores de auracaria, e por onde passam 3 riachos que seguem fornecendo água para as propriedades vizinhas. Essa floresta só existe porque meu avô paterno cumpriu por mais de 70 anos as regras relacionadas à reserva legal.  E é nesse fragmento que ainda resistem inúmeras espécies de pássaros, serpentes, insetos e orquídeas.  E, apesar do custo anual com a manutenção de cercas e aceros, temos atualmente um início de retorno econômico com a apicultura, o que deverá ao menos subsidiar o o pagamento  desses serviços.  E isso tudo só é possível por causa da reserva legal que agora querem extinguir.

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Propriedade familiar que já foi uma reserva legal por mais de 70 anos: é esse tipo de estratégia de conservação que será exterminada pelo projeto de Flávio Bolsonaro e Márcio Bittar.

Venho dizendo e repito que todos esses ataques à proteção ambiental de ecossistemas e biomas nacionais ainda custará cara ao Brasil, e não me surpreenderei se houver a imposição de barreiras comerciais por causa da destruição que está sendo permitida ou engendrada pelo governo Bolsonaro. 

Aliás, a recente suspensão do jantar de entrega de um prêmio ao presidente Jair Bolsonaro nas dependências do Museu de História Natural se deveu justamente por causa dos ataques realizados contra a proteção ambiental na Amazônia.  Mas essa refrega não parece ter sido bem compreendida no âmbito dos apoiadores da destruição ambiental no Brasil. Disso certamente resultarão novas e mais dolorosas lições.

 

Flávio Bolsonaro e a suprema irresponsabilidade de um neófito

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Movimento Hamas emitiu comunicado de imprensa que irritou o senador Flávio Bolsonaro.

O agora (ou seria ainda?) senador Flávio Bolsonaro mostrou o característico pavio curto que parece caracterizar a sua família e respondeu a uma crítica do movimento “Hamas” dizendo (ou desejando) que queria que o movimento palestino explodisse (ver imagem abaixo)

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A mídia corporativa informa que provavelmente orientado por pessoas mais racionais que o acompanham na viagem que ainda realiza a Israel, Flávio Bolsonaro apagou o tweet em que informava ao Hamas seu desejo de que se explodisse.

O primeiro problema aqui é que o Hamas possui notório conhecimento em mídias digitais e certamente não só de um “print” no tweet com o desejo do filho mais velho de Jair Bolsonaro, como já o está circulando em suas mídias.

O segundo problema, que decorre diretamente do primeiro, é que faltou a um senador da república o mínimo de sensibilidade ao se dirigir a um movimento que já demonstrou forte capacidade de ação militar e de usar com grande êxito táticas heterodoxas típicas da guerra de guerrilha.

Juntados os dois erros, o que temos é um agravamento do risco político causado pela visita e dos compromissos firmados pelo presidente Jair Bolsonaro com o líder israelense Benjamin Netanyahu.

Outro aspecto que gostaria de ressaltar é a impossibilidade de concretização de desejos de boa parte da mídia corporativa de que o alto número de militares no governo Bolsonaro serviria como uma espécie de contrapeso racional às manifestações intempestivas que brotam do presidente e de seus três filhos.  O que está provocação ao Hamas demonstra é que eles são incontroláveis e impulsionados por sua condição de neófitos em ação política internacional estão a nos causar danos irreparáveis nas relações comerciais, e ainda nos expondo a uma possível fúria do Hamas. Simples, mas ainda assim totalmente trágico.

 

Fala fraca e fuga de coletiva de imprensa em Davos explicitam esclerose precoce do governo Bolsonaro

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O presidente Jair Bolsonaro, no Fórum Econômico Mundial em Davos Foto: Fabrice Coffrini / AFP

Se a repercussão da aparição meteórica na mesa de abertura da edição de 2019 do Fórum Econômico Mundial de Davos já não tivesse sido ruim o suficiente para a imagem de Jair Bolsonaro e um governo em estágio inicial, a coisa ficou pior ainda com a fuga de uma entrevista coletiva onde o presidente e seus principais ministros deveriam expor seus projetos para o Brasil.

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Essa imagem me traz inclusive à lembrança o cantor Nelson Gonçalves e aquela canção que diz que “naquela mesa está faltando ele” (ressalvando-se que no caso de Davos a ausência foi coletiva).

O cenário fica ainda pior para Jair Bolsonaro e seu governo quando se vê que ele esteve disponível para entrevistas no melhor estilo “chapa branca” com veículos da mídia corporativa brasileira que optaram por aderir ao seu projeto político, sabe-se lá por quais razões.

Se essa tática de fugir de situações complicadas para falar com a “imprensa amiga” funciona no Brasil, isso não quer dizer que funcionará fora dele.  E Bolsonaro deveria ter sido melhor orientado nesse sentido, mas o problema é que não foi.

Para adicionar pitadas fortes de constrangimento há ainda o vaivém em torno do escândalo que cerca seu primogênito,  o senador eleito pelo Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro, cujo caso evoluiu da, dizem, corriqueira subtração de parte dos salários de assessores na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para questões bem mais complexas que envolvem negócios com imóveis no melhor estilo “the Flash” para problemas bem mais delicados como o envolvimento com milicianos, incluindo a concessão de emprego para a mãe e a esposa de um deles.

Após parecer que iria jogar o filho “ao mar” para se livrar de possíveis ligações perigosas dizendo que se “ele (Flávio Bolsonaro) errou e isso ficar provado, eu lamento como pai, mas ele vai ter que pagar“; Jair Bolsonaro usou uma das entrevistas “chapa branca” para dizer que o alvo é ele e seu primogênito seria só vítima de um jogo sujo. Ao fazer isso, consciente ou inconscientemente, o presidente do Brasil se reaproximou da frigideira política em que o filho está sendo assado.

Se tudo não estivesse com cara de pudim desandado, Jair Bolsonaro resolveu se envolver diretamente na aventura política de remover Nicolás Maduro do poder na Venezuela. É que ao alinhar o Brasil automaticamente à posição do governo estadunidense que quer impor a derrubada de Maduro, Jair Bolsonaro corre o risco de alienar parceiros comerciais importantes como a Rússia e a China.  Uma amostra do preço deste tipo de alinhamento já foi dada  pela Arábia Saudita que suspendeu a compra de carne de frango de 33 frigoríficos brasileiros  como uma forma velada de protesto contra a anunciada mudança da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.

Entre os frigoríficos de carne de frango suspensos pela Arábia Saudita, estão unidades da BRF e JBS

Getty Images. Entre os frigoríficos de carne de frango suspensos pela Arábia Saudita, estão unidades da BRF e JBS.  Fonte: Economia IG. 

A questão é que hoje a saúde balança comercial brasileira depende diretamente da venda de suas commodities agrícolas e minerais para países que estão mostrando posições distintas não apenas no caso da Venezuela e da localização de suas embaixadas em Israel.  Se a posição da Arábia Saudita for seguida por outros países, a crise só tenderá a aumentar.

Todas estas sinalizações apontam para a ocorrência de uma esclerose altamente precoce do governo Bolsonaro. Se ainda nem chegamos ao final do primeiro mês e o novo congresso ainda nem foi instalado, imaginemos o que poderá acontecer ao longo de 2019. Por tudo o que se viu até agora, o calvário de Jair Bolsonaro e seus filhos está apenas começando (para usar uma imagem tão a gosto de sua base neopentescotal). Resta saber se o presidente saberá lidar com todas as pressões que apontam no horizonte.

Estréia de Bolsonaro em Davos foi ofuscada pelo crescente escândalo em torno do filho

Flávio Bolsonaro nega que jornal brasileiro afirma ter empregado uma vez a mãe e a esposa de um suposto líder do esquadrão da morte

Jair Bolsonaro diz que vai “abrir” a economia do Brasil em discurso pró-negócios em Davos – vídeo

Por Tom Phillips, correspondente para a América Latina do “The Guardian”

O presidente de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, usou sua estréia internacional para soar a sentença de morte para a esquerda “bolivariana” da América do Sul e proclamar uma nova era conservadora de governança limpa e piedade na região.

Mas sua aparição concisa no Fórum Econômico Mundial na terça-feira foi ofuscada por um escândalo de bola de neve envolvendo um de seus filhos, o recém-eleito senador Flávio Bolsonaro.

Enquanto o presidente – que chegou ao poder prometendo libertar o Brasil da corrupção e da criminalidade – se preparou para subir ao palco em Davos, relatórios em um dos principais jornais brasileiros ligaram seu filho a membros de um grupo de extermínio do Rio de Janeiro chamado Escritório do Crime.

O jornal O Globo afirmou que durante o período de Flávio Bolsonaro como legislador do Rio, ele empregou a mãe e a esposa do suposto líder da gangue, um ex-agente Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Adriano Magalhães da Nóbrega.

Nóbrega, que supostamente está fugindo após a polícia atacar seu grupo com uma operação apelidada de Os Intocáveis“, é acusado de ser um membro sênior do que O Globo chamou de “a mais letal e secreta falange de pistoleiros” do Rio de Janeiro.

A polícia e os promotores  suspeitam que membros do Escritório do Crime estão por trás do assassinato ainda sem solução da vereadora Marielle Franco, da cidade do Rio de Janeiro, no ano passado.

O Globo também afirmou que a suposta esposa e mãe do gângster haviam sido recomendadas a Flávio Bolsonaro por Fabrício Queiroz, um amigo de longa data do presidente brasileiro que foi fotografado socializando com Jair Bolsonaro em uma foto onde os dois homens aparecem sem camisas.

Marcelo Freixo, legislador de esquerda e amigo de Marielle Franco, estava entre os que exigiam respostas nesta terça-feira. “A família Bolsonaro deve as explicações à sociedade”, ele twittou.

Flávio Bolsonaro rejeitou o relatório – que segue um punhado de outras alegações prejudiciais sobre suas transações financeiras – e afirmou que ele era a “vítima de uma campanha de difamação” destinada a ferir seu pai. “Aqueles que cometeram erros devem ser responsabilizados por seus atos”, disse ele em um comunicado.

Celso Rocha de Barros, colunista político do jornal Folha de São Paulo, disse: “A família Bolsonaro deve estar em pânico”.

“É difícil medir as repercussões que isso pode ter … É uma bomba – uma bomba nuclear”, acrescentou Barros.

O crescente escândalo abalou as promessas de Jair Bolsonaro em Davos de encabeçar uma cruzada contra a corrupção e o crime organizado.

Durante um breve discurso de seis minutos na cúpula anual, Bolsonaro disse esperar que o mundo veja seu “novo” Brasil mais limpo com novos olhos depois de um escândalo maciço de corrupção que devastou a elite política do país.

“Assumi o Brasil em meio a uma profunda crise ética, moral e econômica. Estamos comprometidos em mudar nossa história… Queremos governar pelo exemplo ”, declarou Bolsonaro.

O nacionalista de extrema-direita lançou-se como porta-bandeiras da nova vanguarda conservadora da América Latina. “Não queremos uma América bolivariana”, disse ele, em referência ao falecido presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que esperava unir o continente com uma aliança de líderes progressistas.

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Um dos principais jornais do Brasil ligou Flávio Bolsonaro a membros de um grupo de extermínio do Rio de Janeiro chamado Escritório do Crime. Foto: Sergio Moraes / Reuters

Bolsonaro disse ainda que os líderes de direita, como o argentino Mauricio Macri e o chileno Sebastián Piñera, estavam determinados que “a esquerda não prevalecerá nesta região”.

O presidente brasileiro também se pintou como um estadista global em busca de “um mundo de paz, liberdade e democracia”. “Com o slogan: ‘Deus acima de tudo’, acredito que nossas relações [com o mundo] trarão progresso interminável para todos”, declarou Bolsonaro.

Observadores políticos e membros da audiência não se impressionaram com a aparição de Bolsonaro no cenário mundial.

“Ele me assusta … o Brasil é um país grande e merece alguém melhor”, disse o economista Robert Shiller, ganhador do Nobel, ao jornal Valor Econômico.

Outro membro da audiência supostamente reclamou: “[Um] desastre. Eu queria gostar dele, mas ele não disse nada. Por que ele veio?

Bolsonaro pressiona líder venezuelano com promessa de “restabelecer a democracia”

De Barros chamou o discurso curto de Bolsonaro de um “fiasco” genérico que provavelmente havia sido cortado por causa do escândalo que se desenrolava em casa.

Falando na véspera do discurso de Davos de Bolsonaro, José Roberto de Toledo, um jornalista político da revista Piauí, disse que sua popularidade interna permaneceu alta.

“A confiança do consumidor é a maior em anos… o dinheiro vem do exterior. O dólar caiu. O mercado de ações está quebrando recordes … Ninguém pode suportar mais cinco anos de crise. Todo mundo quer apertar o botão de reiniciar.

Mas ele especulou que Bolsonaro pagaria um preço político pelo crescente cheiro de corrupção em torno de seu filho. “Flávio colocou uma espada [de Dâmocles] sobre a cabeça de seu pai que será usada para chantageá-lo, no congresso, nos tribunais, nas redes sociais e na imprensa. Será um peso que ele sempre terá que carregar – e a probabilidade é que esse peso cresça com o tempo ”.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês pelo “The Guardian” [Aqui!]

O dia em que 45 virou 6: uma síntese do tamanho do buraco onde o Brasil se meteu

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O presidente Jair Bolsonaro discursa no Fórum Econômico Mundial de Davos. Discurso que deveria durar 45 minutos, durou apenas 6.
Nas primeiras três semanas do governo Bolsonaro ficamos sendo brindados com a informação de que o novo presidente brasileiro iria discursar por 45 minutos no Fórum Econômico de Davos para apresentar ao mundo a sua visão de futuro do Brasil.
Acabo de saber que os 45 minutos viraram 6, o que num jogo de futebol significaria dizer que em vez de se jogar todo o tempo regulamentar, o juiz fosse obrigado a parar a partida quando os times ainda estavam se estudando. Em outras palavras, o que era para ser o ponta inicial para os investidores internacionais, acabou sendo uma espécie de “micro discurso” de generalidades superficiais.
Mas o que esperar deste governo senão pitadas intermináveis de situações bizarras que vão rapidamente tornando este governo uma aposta para lá de arriscada por parte das elites brasileiras? O problema é que a maior parte da elite brasileira nem vive no Brasil, preferindo ir ao país apenas para recolher as fortunas acumuladas na especulação financeira. Vão e voltam do Brasil em seus jatinhos privados, e a maioria dos brasileiros que se dane.
Por outro lado, é compreensível que Jair Bolsonaro estivesse nervoso em Davos. É que ali se joga um jogo para o qual ele nunca realmente se preparou. Não falo nem da incapacidade de se comunicar em língua inglesa, pois o ex-presidente Lula também não falava a língua de Shakespeare e sempre sai bem. A ponto de termos aquela cena durante um encontro do G-20 em que Barack Obama e Lula trocaram amabilidades com a conjunta de um intérprete (ver vídeo abaixo). Mas Lula é Lula, e Bolsonaro e Bolsonaro.


Para complicar ainda mais a situação do governo Bolsonaro, hoje tivemos a prisão de membros de uma milícia que estariam implicados na morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. A ligação com o governo Bolsonaro veio a público fato que dois dos milicianos arrolados no caso foram alvo de homenagens por Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Se isso não fosse ruim o suficiente, a mãe de um deles foi assessora de Flávio Bolsonaro no mesmo gabinete em que ele hospedeu Fabrício Queiróz.
Em suma, como eu já havia dito aqui, este governo que ainda não chegou ao fim do seu primeiro mês está dando todos sinais de esclerose precoce. O problema é o que vem pela frente se o paciente não sobreviver por muito tempo.