Campos dos Goytacazes: a riqueza do petróleo, a pobreza persistente e as contradições reveladas pelas urnas

Com mais de 200 mil moradores inscritos no Cadastro Único, Campos deu uma vitória expressiva a Flávio Bolsonaro no primeiro turno presidencial. A aproximação da família Garotinho com o bolsonarismo ajuda a compreender esse resultado, mas também levanta uma pergunta incômoda: quem assumiria a responsabilidade por eventuais cortes nas políticas sociais?

A riqueza petrolífera e a persistência da pobreza

Os números do Cadastro Único (CadÚnico) revelam uma das contradições mais marcantes de Campos dos Goytacazes. Em um município historicamente beneficiado pelas receitas da exploração petrolífera, aproximadamente 212 mil moradores estão inscritos no cadastro federal, representando mais de 40% da população. Embora a inscrição no CadÚnico não signifique necessariamente o recebimento do Bolsa Família, esses números evidenciam a dimensão da vulnerabilidade socioeconômica em uma cidade onde a riqueza gerada pela exploração dos recursos naturais continua apresentando uma distribuição profundamente desigual.

A questão central não é a existência de políticas de transferência de renda, que representam instrumentos indispensáveis de proteção social, mas a dificuldade histórica de transformar a riqueza petrolífera em condições dignas de vida para a maioria da população. Enquanto os sinais da concentração de riqueza se multiplicam na paisagem urbana campista, milhares de famílias continuam dependendo de políticas públicas para assegurar suas necessidades básicas. Afinal, de que adianta uma cidade ostentar riqueza se uma parcela tão expressiva de seus habitantes permanece economicamente vulnerável?

O que revelam os resultados eleitorais?

Essa realidade ganha contornos particularmente interessantes quando confrontada com os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. Em Campos, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 160.859 votos (59,10% dos válidos), enquanto Lula (PT) obteve 91.105 votos (33,47%). Dos 370.466 eleitores aptos, 80.008 não compareceram às urnas, enquanto 7.954 votaram em branco e 10.340 anularam seus votos. Somadas, as abstenções e os votos brancos e nulos alcançaram 98.302 eleitores, aproximadamente 26,5% do eleitorado municipal.

Esses números revelam uma combinação que merece investigação: uma cidade com elevada vulnerabilidade social, uma vitória expressiva de um candidato identificado com propostas econômicas liberais e um contingente considerável de eleitores que não registraram votos válidos. Evidentemente, não se pode concluir que os beneficiários de programas sociais tenham votado majoritariamente em qualquer candidato. Entretanto, cabe perguntar quais fatores políticos, culturais e econômicos ajudam a explicar essa configuração eleitoral.

A família Garotinho como correia auxiliar do bolsonarismo

Uma parte da resposta pode estar na atuação da família Garotinho, cuja influência política em Campos atravessa décadas. A aproximação de Wladimir Garotinho com Flávio Bolsonaro não foi apenas circunstancial: o ex-prefeito filiou-se ao PL e assumiu papel na coordenação regional da campanha presidencial, colocando sua experiência política e sua inserção territorial a serviço do projeto eleitoral bolsonarista. Anthony Garotinho, apesar de suas divergências com integrantes do PL fluminense, também declarou que votaria em Flávio Bolsonaro em um segundo turno contra Lula.

Nesse sentido, é possível interpretar a atuação de integrantes da família Garotinho como uma espécie de correia auxiliar eleitoral do bolsonarismo em Campos dos Goytacazes. Essa aproximação é especialmente relevante porque a família construiu grande parte de sua trajetória política associando sua imagem ao atendimento das necessidades das camadas populares e à implementação de políticas sociais. A hipótese é que essa transferência de capital político tenha ajudado a aproximar o bolsonarismo de segmentos populares historicamente vinculados aos Garotinho, embora não existam dados suficientes para quantificar esse efeito.

Assim, a aparente contradição entre vulnerabilidade social e preferência eleitoral por Flávio Bolsonaro torna-se menos surpreendente. Afinal, as escolhas eleitorais não decorrem exclusivamente da condição econômica, sendo também mediadas por lideranças locais, relações de confiança e identificações políticas construídas ao longo de muitos anos. A aliança de ocasião entre setores do garotismo e o bolsonarismo oferece, portanto, uma hipótese explicativa relevante para o resultado eleitoral campista.

O Bolsa Família e os riscos para a proteção social

Há, entretanto, uma questão que não deveria ficar ausente desse debate. Durante o governo de Jair Bolsonaro, o Bolsa Família foi extinto como programa específico e substituído pelo Auxílio Brasil, mantendo-se as transferências federais de renda sob outras regras. Em 2023, o governo Lula restabeleceu o Bolsa Família. Essa trajetória demonstra que mudanças de governo podem alterar substancialmente o desenho, os critérios e o financiamento das políticas de proteção social.

Embora Flávio Bolsonaro tenha declarado que pretende manter o Bolsa Família, permanecem questões sobre a compatibilidade entre a preservação dos benefícios e propostas de contenção de despesas públicas. Não seria correto afirmar que sua eleição significaria necessariamente o fim do programa, mas é legítimo exigir esclarecimentos sobre as garantias orçamentárias e institucionais de sua continuidade. Afinal, preservar o nome de uma política pública não significa necessariamente preservar seus valores, sua cobertura e suas condições de acesso.

Nesse contexto, cabe formular uma hipótese: como se comportaria o eleitorado campista se houvesse maior conhecimento sobre os possíveis efeitos das diferentes propostas econômicas para o financiamento das políticas sociais? A resposta não pode ser presumida, mas a pergunta ganha importância diante da quantidade de famílias que dependem direta ou indiretamente dessas políticas.

Quem vai levantar a lebre sobre o futuro do Bolsa Família?

A pergunta ganha especial importância em Campos, onde a vulnerabilidade social convive com uma estrutura política marcada pela influência de lideranças tradicionais. A aproximação de integrantes da família Garotinho com o bolsonarismo acrescenta uma dimensão ao problema: como essas lideranças conciliam sua trajetória de identificação com políticas sociais com o apoio a um candidato cujas propostas de ajuste das despesas públicas precisam ser examinadas quanto aos seus possíveis efeitos sobre a proteção social?

Quem pode levantar essa discussão? A imprensa local, os pesquisadores das universidades públicas, as organizações comunitárias, os movimentos sociais e as próprias famílias beneficiárias têm condições de cobrar respostas verificáveis. A responsabilidade também recai sobre os candidatos e suas lideranças locais, que devem explicar como pretendem conciliar seus compromissos sociais com suas propostas fiscais.

A questão já entrou na disputa nacional. Flávio Bolsonaro reafirmou que pretende manter o Bolsa Família e o Farmácia Popular. Ao mesmo tempo, notícias sobre possíveis mudanças nas despesas obrigatórias suscitaram questionamentos sobre o alcance do ajuste fiscal defendido por sua candidatura. A campanha nega que algumas dessas medidas estejam em seu programa. Por isso, o debate precisa ultrapassar tanto as promessas genéricas quanto as acusações sem comprovação.

E se a conta chegar? Quem vai embalar Mateus?

O caso de Campos dos Goytacazes expõe três questões interligadas: por que décadas de exploração petrolífera não foram suficientes para reduzir de maneira mais expressiva a vulnerabilidade social; como essa realidade se relaciona com as escolhas políticas dos habitantes; e em que medida a influência de lideranças tradicionais, como os Garotinho, contribui para organizar e transferir apoios eleitorais.

Mas há uma última questão, que merece uma pitada de ironia. Imaginemos, por hipótese, que Flávio Bolsonaro seja eleito e, contrariando suas declarações atuais, resolva restringir significativamente ou mesmo extinguir o Bolsa Família. Como se comportariam seus aliados nos governos estadual e municipal? Defenderiam a preservação dos benefícios, buscariam recursos próprios para compensar as perdas ou procurariam justificar as decisões tomadas em Brasília?

A questão não seria apenas política. Uma redução expressiva das transferências federais atingiria diretamente a renda das famílias mais pobres e poderia diminuir a circulação de dinheiro nos bairros populares, afetando pequenos mercados, farmácias, padarias e outros estabelecimentos comerciais. Em uma cidade onde a vulnerabilidade social alcança uma parcela tão significativa da população, os efeitos econômicos e sociais poderiam ultrapassar amplamente o universo dos beneficiários diretos.

E quem assumiria a responsabilidade por essas consequências? É nesse ponto que a sabedoria popular oferece duas expressões particularmente apropriadas: “filho feio não tem pai” e “quem pariu Mateus que o embale”. Em um cenário de redução dos benefícios, seria interessante observar se os três níveis de governo assumiriam suas respectivas responsabilidades ou se começaria uma interminável disputa para descobrir quem deveria embalar Mateus.

Afinal, não seria surpreendente que, diante de uma eventual deterioração das condições sociais, cada esfera de governo apontasse para outra, enquanto as famílias afetadas continuariam esperando por soluções. O governo federal poderia invocar a necessidade de ajuste fiscal; o estadual, suas limitações orçamentárias; e o municipal, a falta de recursos para compensar as perdas. Tudo isso, evidentemente, em nome da responsabilidade administrativa.

No fim das contas, a ironia seria esta: na hora de celebrar a vitória eleitoral, Mateus teria muitos pais; na hora de enfrentar as consequências sociais de eventuais cortes, talvez ninguém quisesse assumir a tarefa de embalá-lo. E há um detalhe particularmente saboroso nessa história: Anthony Garotinho também é Mateus, ao menos no nome. Resta saber se, diante de uma eventual redução do Bolsa Família, o experiente político campista estaria disposto a embalar o Mateus que ajudou a colocar no colo dos eleitores ou se preferiria recorrer à velha máxima de que filho feio não tem pai. Afinal, quando se trata de repartir os dividendos eleitorais, sempre aparecem muitos parentes; quando chega a conta da pobreza, corre-se o risco de descobrir que Mateus ficou órfão nos três níveis de governo.

O apito para cachorro de Flávio Bolsonaro: barulho contra o STF, silêncio sobre o ataque planejado aos direitos dos trabalhadores

Flávio Bolsonaro e o comando de sua campanha continuam investindo nas promessas de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. Segundo informações divulgadas pelo UOL, o afastamento de integrantes da Corte já é apresentado por membros da campanha como um marco de um eventual governo. Enquanto isso, Rogério Marinho, coordenador da candidatura, defende uma mudança nas regras do Senado para facilitar o encaminhamento desses pedidos. O confronto institucional ocupa, assim, o lugar que deveria ser destinado à explicação de como pretendem governar o país.

Considero que essa insistência funciona como um “apito para cachorro”: uma mensagem que mobiliza a base bolsonarista, reativa ressentimentos e transforma o STF no inimigo em torno do qual todos devem cerrar fileiras. O conflito também cumpre uma função eleitoral conveniente: desvia a atenção das consequências materiais do programa econômico. A Folha de S.Paulo noticiou justamente que a campanha explora a crise do Supremo enquanto evita detalhar suas propostas econômicas. Minha leitura é que o barulho ajuda a dispensar explicações sobre quem pagará a conta do ajuste prometido.

É nesse terreno que os trabalhadores precisam concentrar sua atenção. A desvinculação dos reajustes das aposentadorias dos aumentos reais do salário mínimo foi atribuída a integrantes da campanha em publicação da CUT. Posteriormente, Adolfo Sachsida afirmou, conforme noticiou a Reuters, que a vinculação seria preservada. Essa negativa precisa ser registrada, mas também confrontada com compromissos claros: quais despesas serão cortadas, quais direitos serão preservados e como pretendem realizar o ajuste fiscal anunciado? O eleitor merece conhecer essas respostas antes de entregar seu voto.

O mesmo cuidado vale para a Previdência. Rogério Marinho sinalizou a intenção de promover outra revisão do sistema, mas os parâmetros dessa mudança permanecem sem esclarecimento suficiente. Não há confirmação sólida, nas fontes consultadas, de que aposentadorias aos 65 anos para mulheres e aos 70 para homens constituam uma proposta oficial da candidatura. Há, contudo, motivo para cobrar uma resposta inequívoca sobre o aumento das idades e o endurecimento das condições de acesso ao benefício. Deixar esse debate para depois da eleição significa pedir autorização para governar sem apresentar previamente o tamanho do sacrifício exigido.

Retirar dos benefícios os ganhos reais associados à valorização do salário mínimo significaria excluir aposentados dessa melhoria de renda. Elevar a idade de aposentadoria, por sua vez, imporia mais anos de trabalho a pessoas que já enfrentam desgaste físico, desemprego e dificuldade de permanecer no mercado formal. Para as mulheres, seria preciso considerar ainda a sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidado. Aquilo que aparece nas planilhas como contenção de despesas se traduz, na vida cotidiana, em menos proteção e mais insegurança.

Por isso, a resposta ao apito precisa trazer a discussão de volta ao salário, à aposentadoria, à jornada e aos serviços públicos. O STF deve estar sujeito ao escrutínio público, como qualquer instituição, mas transformar o impeachment de seus ministros em promessa central de campanha favorece uma eleição movida pelo ressentimento e esvazia o debate sobre direitos. Enquanto Flávio Bolsonaro aponta para o Supremo, cabe aos trabalhadores conferir o que seu grupo pretende fazer com o bolso e com o futuro de quem vive do próprio trabalho. O entusiasmo com a revanche pode acabar servindo de autorização para um novo ataque às condições de vida da maioria.

A Globo perdeu a hegemonia!

Lá se ia o ano de 1989. Às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, Fernando Collor e Lula estavam diante das câmeras da TV Globo. Collor tinha uma pilha de pastas, entre elas a rosa, que ficaria mais famosa. Nunca se soube o que elas continham, mas a edição meticulosa da emissora fez parecer que ali havia segredos que Lula temia ver expostos durante o debate. Com a edição das imagens, Collor venceu a eleição. Depois, confiscou as cadernetas de poupança e sofreu impeachment, tudo em rápida sucessão. Ficou a demonstração de que, quando queria, as Organizações Globo podiam eleger quem bem entendessem.

Trinta e sete anos depois, com outra eleição presidencial em curso, assistimos a uma espécie de fantasma da TV Globo tentando operar mais uma disputa. Mais uma vez, Lula se defronta com o aparente escolhido dos irmãos Marinho: o controverso Flávio Bolsonaro. Diante dele, duas perspectivas: tornar-se presidente e ganhar imunidade temporária ou enfrentar um número indefinido de pendências judiciais, algumas com potencial para levá-lo à prisão. Nada no currículo do primogênito de Jair Bolsonaro, porém, parece abalar a preferência dos irmãos Marinho, que têm trabalhado consistentemente para oferecer a Flávio a melhor cobertura, na expectativa de derrotar Lula mais uma vez.

No meio do caminho, surgiu outro debate, para o qual a TV Globo havia preparado um roteiro cheio de armadilhas para Lula. A coisa parecia tão evidente que Lula, supostamente contrariando até sua equipe de campanha, decidiu dar de ombros para a emissora e gastar seu tempo no Flow, um podcast com público expressivo, mas sem a amplitude da cobertura da TV Globo. A emissora se preparou para tirar o melhor proveito da ausência: colocou uma cadeira vazia com o nome do presidente e abriu espaço para perguntas dirigidas ao “participante fujão”.

Tudo ia bem até o TSE e o STF entrarem em campo para retirar a cadeira e as perguntas e ainda colocarem no debate o estrepitoso candidato do Missão, Renan Santos, de quem Flávio Bolsonaro parece ter mais pavor do que de Lula. Com isso, o primogênito de Jair também resolveu fugir do palco da TV Globo e se dedicar a uma transmissão ao vivo em seu próprio canal no YouTube. Restou à emissora suspender o debate. O resto é história.

Uma história que marca uma mudança profunda na forma de fazer comunicação no Brasil — e talvez no mundo. Como o próprio Lula disse, com bastante acerto, o formato da TV Globo, com muitos candidatos, já não acompanha as formas e a velocidade que a comunicação de massa assumiu na era das lives e dos podcasts. Enquanto a emissora e muitos outros veículos da mídia corporativa ainda lutam para se ajustar, a decisão inicial de Lula mostrou-se particularmente aguda e sintonizada com esses novos tempos.

A esquerda, em geral, já deveria ter percebido que a banda agora toca assim. Mas ainda insiste em formas ultrapassadas de comunicação, abrindo espaço para a hegemonia da extrema direita nesse terreno.

Para os irmãos Marinho, a manhã desta sexta-feira deve estar sendo particularmente dura. Não apenas pela suspensão de um debate de primeiro turno, mas porque ficou mais claro do que nunca que a TV Globo, seus articulistas e seus produtores de conteúdo perderam a hegemonia que mantiveram por décadas — e que agora estamos diante de uma nova fronteira da comunicação, mais caótica e acelerada. Pensando bem, só por isso já valeu a pena acompanhar eleições que pouco discutiram os grandes desafios postos diante da sociedade brasileira.

Como diz a frase: “O rei está morto. Viva o rei!”

Globo arma o palco; os protagonistas fogem — e sobram as candidaturas anãs

Até poucas horas atrás, a ausência de Lula no debate da TV Globo era tratada como uma oportunidade para Flávio Bolsonaro ocupar sozinho o centro do palco. À esquerda, a crítica era direta: ao trocar o confronto com os adversários por uma entrevista no Flow Podcast, Lula deixaria o espaço televisivo aberto para que seu principal concorrente reinasse sem contestação. A decisão do TSE alterou esse roteiro. A ministra Estela Aranha proibiu a exibição do púlpito vazio reservado a Lula e também que os candidatos presentes lhe dirigissem perguntas, por entender que isso permitiria ataques sem resposta no próprio debate. Flávio Bolsonaro anunciou então que não participaria, chamando a decisão de censura.  

O episódio teve outro elemento judicial decisivo. O TSE autorizou a participação de Romeu Zema, do Novo, considerando a composição atual da bancada do partido. Renan Santos, do Missão, também tentou entrar no debate, mas seus pedidos foram rejeitados pelo TSE e pelo STF. A ausência de Lula, portanto, não abriu automaticamente uma vaga para Renan: a emissora tinha liberdade para convidar outro candidato, mas não obrigação de fazê-lo.  

O resultado é um roteiro que ninguém parecia ter previsto: Lula estará fora do estúdio, mas terá uma entrevista no Flow na mesma noite; Flávio, que inicialmente pretendia comparecer e explorar a ausência do presidente, agora também desistiu. O candidato que, segundo a leitura de seus estrategistas, poderia transformar o debate em confronto com Lula acabou sem o palco que esperava — e, ao menos por enquanto, com um vazio na agenda pública a poucos dias do primeiro turno.  

A cadeira que a Rede Globo não poderá mostrar para representar a ausência de Lula acabou ganhando uma irmã: a cadeira que ficará vazia porque Flávio Bolsonaro desistiu de comparecer. A emissora terá de se contentar com um debate que não reunirá nenhum dos dois principais candidatos à Presidência — um verdadeiro debate de candidaturas anãs, esvaziado justamente quando deveria concentrar a atenção do eleitorado. A ironia é que Flávio, que pretendia fazer da ausência de Lula o eixo de sua atuação, retirou-se depois que as condições do debate mudaram. Lula estará em outro palco, no Flow Podcast; Flávio, por ora, não estará em palco algum.

Isso não significa que a decisão de Lula esteja acima de crítica. Debates públicos são espaços importantes de prestação de contas, e o presidente poderia ter escolhido enfrentar diretamente seus adversários. Mas também é preciso reconhecer que ele não desapareceu da cena: optou por outro formato de comunicação, com grande alcance digital, enquanto a campanha adversária avaliou que o debate seria uma oportunidade de concentrar ataques sobre sua ausência. O eleitor terá de julgar as duas escolhas — comparecer a um podcast ou a um debate, e desistir de um confronto depois que suas condições mudaram.

Há aqui uma ironia política evidente. A cadeira vazia de Lula, que em 2006 foi exibida pela Globo e se converteu em poderosa imagem de campanha contra o então presidente, não poderá ser reproduzida neste debate. A decisão judicial limita a capacidade da emissora de transformar a ausência em peça visual e impede que os candidatos façam do presidente ausente um interlocutor fictício, sem direito de resposta. Flávio, que parecia contar com esse recurso, decidiu não comparecer.  

O episódio revela, ainda, uma transformação mais ampla na política brasileira. A Globo continua sendo uma organização de enorme alcance e capacidade de pautar o debate público, mas já não controla sozinha o palco, o formato e a audiência da disputa. Um candidato pode trocar seu debate por um podcast; decisões judiciais podem alterar as regras do espetáculo; e um concorrente pode abandonar o programa quando percebe que o roteiro previsto deixou de funcionar. Em um passado não distante, seria difícil imaginar que o debate final da maior emissora do país perdesse, na véspera, os dois candidatos mais votados nas pesquisas.  

A democracia brasileira aparece, nesse episódio, ao mesmo tempo resistente e vulnerável. Resistente porque há regras eleitorais, contestação judicial e limites à tentativa de converter a ausência de um candidato em arma unilateral de campanha. Vulnerável porque a discussão programática cede lugar à disputa por formatos, vantagens de imagem e controle da narrativa; porque os principais candidatos podem evitar o confronto direto; e porque decisões judiciais, ainda que fundamentadas, passam a definir em tempo real o desenho de um dos espaços mais visíveis da campanha.

No fim, a cadeira que não poderá ser mostrada acabou expondo outra ausência: a de um debate político capaz de reunir os principais concorrentes diante do eleitorado. A Globo terá uma cadeira a menos — a de Flávio Bolsonaro — e um debate sem Lula e sem Flávio, reduzido às candidaturas que restaram no estúdio. O fato de a emissora já não conseguir garantir esse encontro como acontecimento central talvez seja o sinal mais eloquente de que o sistema político e comunicacional brasileiro mudou. Resta saber se essa mudança amplia a pluralidade democrática ou apenas fragmenta ainda mais a esfera pública.

Rolex de R$ 305 mil, festas e suspeita de lobby: as revelações do ex-sócio de Flávio Bolsonaro

Reportagem do PlatôBR reúne relatos sobre festas com garotas de programa, um Rolex de R$ 305 mil, despesas pessoais pagas por terceiros e uma possível intermediação junto ao ministro Kassio Nunes Marques

A reportagem publicada pelo PlatôBR em 29 de setembro reúne mensagens, documentos e relatos de Alexandre Santini, ex-sócio de Flávio Bolsonaro. Segundo o veículo, esse material aponta que o senador teria participado de festas com garotas de programa, recebido presentes e despesas de alto valor pagos por pessoas próximas e atuado para aproximar interesses de um cliente do ex-sócio do ministro Kassio Nunes Marques, do STF. Entre os itens citados estão um Rolex avaliado em R$ 305 mil e equipamentos de academia que teriam custado mais de R$ 90 mil. São alegações que exigem apuração rigorosa, contraditório e respostas dos envolvidos — não conclusões antecipadas sobre responsabilidade criminal.

Flávio Bolsonaro não respondeu às perguntas relatadas pelo UOL e, questionado por jornalistas, evitou comentar o caso. A assessoria de Nunes Marques afirmou que o ministro recebe parlamentares de todos os partidos e que isso não compromete sua imparcialidade; essa resposta, porém, não esclarece por si só as circunstâncias específicas mencionadas na reportagem.

O aspecto que merece atenção para além do conteúdo da denúncia é a dimensão dada a ela pelos grandes veículos. Há uma diferença entre publicar uma matéria e incorporá-la de fato à agenda pública: acompanhar os desdobramentos, cobrar explicações, contextualizar as relações políticas e manter o assunto visível. Uma cobertura concentrada em notas breves, ou que rapidamente desaparece das manchetes, pode reduzir o peso público de revelações relevantes justamente quando o personagem envolvido disputa a Presidência.

Não é correto afirmar que toda a mídia corporativa ignorou o caso: UOL e Folha, por exemplo, publicaram matérias sobre a reportagem, e outros veículos também repercutiram seus elementos. A questão, portanto, não é uma ausência absoluta, mas a intensidade, a continuidade e o destaque concedidos. É aí que a comparação com a cobertura de notícias envolvendo Lula e sua família se torna pertinente: quando denúncias atingem o presidente ou seus parentes, elas frequentemente ocupam o centro do noticiário por dias, com sucessivas entrevistas, análises e cobranças. Se revelações sobre Flávio Bolsonaro recebem tratamento mais discreto ou episódico, a assimetria precisa ser exposta e discutida.

Essa diferença de tratamento não prova, por si só, uma coordenação editorial para favorecer uma candidatura. Mas seus efeitos são políticos, ainda que não haja uma ordem explícita: o que ganha destaque se torna assunto nacional; o que recebe pouca atenção corre o risco de ser tratado como ruído. Em uma eleição presidencial, a seleção e a hierarquização das notícias influenciam o que os eleitores conseguem conhecer e comparar.

O caso também não pode ser reduzido à vida privada do filho primogênito de  Jair  Bolsonaro. O interesse público está nas perguntas sobre presentes de alto valor, despesas pessoais pagas por terceiros e possíveis intermediações em favor de interesses privados junto a um ministro do STF. Se confirmadas, essas circunstâncias levantarão questões éticas, políticas e, dependendo das provas e do enquadramento jurídico, legais. Desta forma, cabe à mídia corporativa esclarecer o que os documentos comprovam, o que permanece como alegação e quais respostas ainda faltam.

A mídia corporativa tem a obrigação de tratar todos os candidatos com os mesmos critérios. Mas, quando reserva manchetes, comentários e cobranças insistentes para Lula e sua família e oferece a Flávio Bolsonaro um noticiário mais contido diante de revelações  claramente graves, deixa de apenas selecionar notícias: pratica dois pesos e duas medidas com consequências eleitorais. Depois, será difícil invocar com credibilidade o direito à liberdade de expressão para se apresentar como vítima de censura, se esse direito tiver sido usado seletivamente para favorecer uma candidatura e poupar seus candidatos de um escrutínio público proporcional. O silêncio também comunica — e, neste caso, pode funcionar como peça de campanha.

Flávio Bolsonaro, a padroeira e o lobo: credibilidade não se recupera por decreto

A reportagem de Marina Verenicz, publicada pelo InfoMoney em 24 de agosto, registra uma declaração que ajuda a compreender o embaraço de Flávio Bolsonaro na polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Ao anunciar que um de seus primeiros atos como presidente seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, o candidato fez um aceno explícito ao eleitorado evangélico e colocou a autoridade presidencial a serviço de uma afirmação religiosa. Agora, essa mesma declaração dificulta sua tentativa de convencer o público de que não pretende transportar para o governo a instrumentalização da fé que pratica na campanha.

É preciso distinguir, contudo, a declaração documentada da intenção que lhe foi atribuída. A promessa de Flávio Bolsonaro não comprova que ele pretenda retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Como explicou Filipe Pereira, da CNN Brasil, conteúdos nas redes associaram sua fala a um projeto antigo, arquivado em 2008. A notícia do InfoMoney, portanto, não desmente seu desmentido, mas ajuda a compreender por que ele encontra dificuldades para encerrar a controvérsia: foi o próprio candidato quem prometeu usar a Presidência para decretar o pertencimento religioso do país.

Também seria equivocado tratar uma referência a Jesus Cristo como necessariamente hostil aos católicos, cuja fé é cristã. O problema está no uso eleitoral dessa linguagem e na expectativa que ela produz sobre o exercício do poder. Ao apresentar uma declaração religiosa como providência inaugural de governo, Flávio Bolsonaro oferece motivos para questionar como lidaria com a diversidade de crenças da sociedade brasileira. Depois disso, torna-se politicamente mais difícil assegurar que suas promessas confessionais não terão consequências para quem está fora do segmento que busca mobilizar.

Essa dificuldade se agrava pelo histórico de suas próprias negativas. Em reportagem publicada na Folha de S.Paulo em 13 de maio, Raphael Di Cunto mostrou que Flávio Bolsonaro havia negado qualquer contato com Daniel Vorcaro dois meses antes de admitir que conhecia o banqueiro e que lhe pedira financiamento para o filme sobre Jair Bolsonaro. Nesse episódio, a contradição não depende de interpretação adversária: a versão inicial foi desmentida pelo reconhecimento posterior do próprio senador. É um antecedente que compromete a força de sua palavra quando surge uma nova controvérsia.

Cabe aqui a comparação com a fábula de “Pedro e o Lobo”: depois de anunciar repetidamente um perigo inexistente, Pedro perde a confiança dos moradores e acaba sozinho quando o lobo finalmente aparece. A analogia com Flávio Bolsonaro está no mecanismo de desgaste da credibilidade. Quem já apresentou uma negativa incompatível com os fatos pode encontrar resistência quando precisa ser acreditado, inclusive numa ocasião em que esteja dizendo a verdade. Isso não torna verdadeiro o boato sobre Nossa Senhora Aparecida, mas explica por que seu enfrentamento exige mais do que uma declaração indignada.

Flávio Bolsonaro se vê, assim, diante de uma dificuldade produzida pela combinação entre sua retórica religiosa e a confiança que ele próprio ajudou a corroer. A promessa registrada pelo InfoMoney oferece combustível à controvérsia, enquanto a contradição no caso Vorcaro enfraquece sua capacidade de apagá-la. O candidato pode negar uma intenção que não foi demonstrada, mas não pode exigir que o eleitorado esqueça suas palavras anteriores. Para quem prometeu decretar a quem pertence o Brasil, fica uma lição inconveniente: credibilidade não se recupera por decreto.

Com Vorcaro, Flávio mentiu pelos cotovelos e passou liso; com Nossa Senhora, o buraco parece ser mais embaixo

O imbróglio envolvendo Nossa Senhora Aparecida continua dando tração e, a cada tentativa de encerrá-lo, parece ganhar uma nova camada. O que começou com a atribuição incorreta a Flávio Bolsonaro de um antigo projeto destinado a alterar o título de Padroeira do Brasil rapidamente deixou de ser apenas uma controvérsia sobre erro jornalístico. A reação da campanha, as decisões do ministro do TSE André Mendonça, o pedido de prisão de um servidor da Presidência, o tratamento dispensado à jornalista Maria Cristina Fernandes e a explosão das buscas pelo assunto transformaram o episódio numa questão política muito maior.

As reportagens publicadas pelo ICL Notícias, UOL e Jornal GGN, somadas ao artigo de Renato Rovai na Revista Fórum, permitem observar essa mudança de escala. O ponto central já não é apenas saber quem apresentou o projeto original — questão facilmente verificável —, mas entender por que Nossa Senhora Aparecida entrou com tamanha força na campanha presidencial de 2026 e por que as tentativas de retirar o assunto da circulação parecem contribuir para mantê-lo vivo.

De um erro factual a um problema político

É preciso começar pelo que está documentado. Flávio Bolsonaro não apresentou projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil e nega defender essa proposta. O projeto que efetivamente existiu foi o PL 2.623/2007, apresentado pelo então deputado federal Victório Galli, que pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta acabou arquivada em 2008.

A correção desse erro, entretanto, não encerrou a história. Nossa Senhora Aparecida entrou definitivamente na campanha, provocando milhões de interações nas redes sociais, forte crescimento das buscas no Google e uma sucessão de iniciativas políticas e judiciais que continuam alimentando o assunto.

O fantasma de Victório Galli

Há um detalhe importante que impede que o projeto seja tratado simplesmente como uma curiosidade legislativa de quase vinte anos atrás. Victório Galli não é uma personagem desconectada do bolsonarismo. Depois de apoiar Jair Bolsonaro, foi assessor especial da Presidência da República durante seu governo, trabalhando na articulação com a Câmara dos Deputados.

Mais importante para a controvérsia atual, Galli está novamente nas urnas em 2026, concorrendo a deputado federal pelo PP em Mato Grosso, e declarou-se aliado de Flávio Bolsonaro. Isso significa que, embora seja incorreto atribuir ao candidato presidencial o projeto de 2007, também não existe razão institucional para considerar impossível que uma proposição semelhante volte ao Congresso.

Caso Galli seja eleito, poderá apresentar novamente uma proposta com conteúdo semelhante. Não há evidência de que tenha anunciado que fará isso, tampouco de que Flávio Bolsonaro apoiaria tal iniciativa. Mas uma eventual presença simultânea de Galli na Câmara dos Deputados e de Flávio Bolsonaro na Presidência da República certamente daria ao velho projeto um contexto político inteiramente diferente daquele existente quando foi arquivado.

Quando o desmentido produz mais notícia

A reação da campanha contribuiu para ampliar a controvérsia. A pedido de Flávio Bolsonaro, o ministro do TSE André Mendonça determinou a retirada de publicações que atribuíssem ao candidato ou à sua família a intenção de retirar o título de Nossa Senhora Aparecida. Segundo reportagem de Juliana Dal Piva para o ICL Notícias, a decisão alcançou uma extensa relação de publicações e estabeleceu mecanismo para remoção de conteúdos futuros considerados substancialmente equivalentes.

A discussão passou então do conteúdo originalmente falso para uma questão institucional bem mais delicada: até onde pode ir a Justiça Eleitoral no combate à desinformação sem produzir restrições excessivamente amplas ao debate político?

O assunto ganhou outra dimensão quando a campanha de Flávio Bolsonaro pediu ao Ministério Público Eleitoral a prisão preventiva de George Marques, servidor da Presidência que havia compartilhado uma publicação relacionada ao episódio. Segundo reportagem de Letícia Casado e Julia Affonso no UOL, foram solicitadas também busca e apreensão de equipamentos, suspensão do exercício da função pública e restrições ao uso das redes sociais.

Assim, uma controvérsia que poderia talvez ter terminado com uma correção jornalística passou a produzir decisões judiciais, pedidos de prisão, discussões sobre liberdade de expressão e, inevitavelmente, novas manchetes.

Maria Cristina Fernandes e a liberdade de imprensa

O artigo de Renato Rovai publicado na Revista Fórum acrescenta outra dimensão ao episódio ao discutir o tratamento dispensado à jornalista Maria Cristina Fernandes após a divulgação da informação incorreta.

Erro jornalístico precisa ser corrigido, como efetivamente ocorreu. Mas uma democracia também precisa preservar a diferença entre erro jornalístico, interpretação política, desinformação deliberada e atividade criminosa. Quando essas fronteiras começam a desaparecer, a questão deixa de envolver apenas determinado jornalista e passa a alcançar o próprio ambiente em que a imprensa exerce sua função durante uma campanha eleitoral.

E existe aqui uma questão adicional: corrigir uma informação não significa decretar o desaparecimento do assunto que ela colocou em circulação. Jornalistas continuam tendo o direito — e, dependendo do caso, o dever — de investigar as relações políticas, religiosas e institucionais que emergiram da controvérsia.

Nossa Senhora viralizou

Talvez o maior problema para a campanha de Flávio Bolsonaro esteja justamente onde decisões judiciais possuem alcance limitado: o assunto ganhou vida própria. O levantamento divulgado pelo Jornal GGN, com base em dados da Casa Galileia, registrou 7.712 ocorrências e 6,32 milhões de interações relacionadas à controvérsia. No Google, combinações de buscas envolvendo Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida tiveram crescimento excepcional, enquanto a procura por “Nossa Senhora Aparecida Padroeira” cresceu fortemente. Esses indicadores não demonstram quantas pessoas aderiram a determinada interpretação, mas mostram inequivocamente a dimensão do interesse despertado pelo episódio.

Pode-se remover uma publicação, corrigir uma reportagem e contestar judicialmente uma informação falsa. O que não se consegue apagar com a mesma facilidade são as perguntas que milhões de pessoas passaram a fazer depois que a história entrou na esfera pública.

E Nossa Senhora começa a cobrar a conta

É justamente aqui que aparece um possível custo político para Flávio Bolsonaro. Tudo isso ocorre num momento particularmente importante da campanha presidencial. Cada entrevista destinada a explicar o episódio, cada petição judicial, cada reação a uma postagem, cada pedido de remoção e cada nova manchete sobre Nossa Senhora Aparecida consomem tempo, energia política e recursos que poderiam estar sendo empregados em outras frentes da campanha.

Há ainda uma ironia particularmente incômoda. Levantamento publicado pela agência de checagem Aos Fatos identificou ao menos 43 declarações consideradas enganosas de Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Daniel Vorcaro e o caso Banco Master, apontando sucessivas mudanças de versão à medida que novas informações vieram a público.

É justamente um candidato enfrentando questionamentos dessa natureza sobre sua própria credibilidade que agora precisa convencer o eleitorado de que, no caso de Nossa Senhora Aparecida, a informação divulgada sobre ele é falsa. Uma coisa evidentemente não transforma a outra em verdade: o fato de alguém ter sido acusado de fazer afirmações enganosas sobre determinado assunto não autoriza que se atribua a essa pessoa algo que ela não fez. Mas a ironia política permanece difícil de ignorar.

Depois das controvérsias envolvendo Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro encontra-se agora na posição de exigir que sua palavra seja prontamente aceita justamente quando afirma estar sendo vítima de uma informação falsa. E credibilidade política, depois de desgastada, não é algo que possa ser recomposto por decisão judicial.

Talvez esteja aí o maior problema produzido por esse imbróglio. Nossa Senhora Aparecida não é candidata a nada, mas conseguiu ocupar um espaço considerável na campanha presidencial de 2026. E, num momento particularmente chave da disputa, cada dia dedicado a tentar retirar a santa da eleição significa energia, tempo e recursos que Flávio Bolsonaro deixa de utilizar para tentar colocar a si próprio na Presidência.

As bruxas rondam Flávio Bolsonaro: Nossa Senhora Aparecida entra na campanha presidencial

O projeto contra o título da Padroeira não é de Flávio, mas seu autor virou assessor de Jair Bolsonaro, enquanto a aproximação da família com setores do evangelicalismo conservador ajuda a explicar por que essa velha história voltou para assombrar a campanha presidencial

A eleição presidencial ganhou nos últimos dias um componente religioso que talvez ninguém imaginasse capaz de produzir tamanho ruído: entrou no debate a antiga proposta de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil e as possíveis conexões políticas entre aquele episódio e o ambiente religioso que hoje cerca a candidatura de Flávio Bolsonaro. É importante começar estabelecendo que não existe projeto de autoria de Flávio Bolsonaro com esse objetivo, nem evidência disponível de que o candidato tenha assumido pessoalmente essa proposta. Mas, como diz a conhecida frase, “no creo en brujas, pero que las hay, las hay”, pois a inexistência dessa ligação direta não significa que as conexões políticas e religiosas existentes em torno dessa história devam simplesmente ser ignoradas.

O projeto existiu — mas não era de Flávio Bolsonaro

Em dezembro de 2007, o então deputado federal Professor Victorio Galli apresentou o PL 2.623/2007, propondo modificar a Lei 6.802/1980 para que Nossa Senhora Aparecida deixasse de ser denominada “Padroeira do Brasil” e passasse a ser definida como “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O próprio Galli escreveu na justificativa que a alteração retiraria o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, argumentando que o Estado brasileiro, por ser laico, não deveria possuir padroeiro. O projeto acabou rejeitado e arquivado em agosto de 2008.

Portanto, o projeto existiu, mas não era de Flávio, Jair ou Eduardo Bolsonaro, e esse ponto precisa ser estabelecido para que não se transforme uma conexão política posterior em falsa autoria. A história, entretanto, possui um epílogo que não pode simplesmente ser ignorado: Victorio Galli, pastor ligado à Assembleia de Deus e posteriormente integrante do PSL, aproximou-se do bolsonarismo e, em 2019, foi nomeado assessor especial da Presidência da República durante o governo Jair Bolsonaro. Não é correto transferir retroativamente para a família Bolsonaro a responsabilidade por um projeto apresentado por Galli doze anos antes dessa nomeação, mas tampouco seria razoável fingir que o autor daquela proposta permaneceu completamente estranho ao universo político construído posteriormente em torno do bolsonarismo.

Quando religião e projeto político começam a se misturar

Existe ainda outro elemento que ajuda a compreender por que uma história tão antiga voltou ao debate em 2026. Flávio Bolsonaro vem construindo publicamente sua candidatura com forte utilização de símbolos e linguagem religiosa, chegando a declarar que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Independentemente da intenção atribuída ao candidato, uma frase desse tipo adquire inevitável significado político quando pronunciada por alguém que pretende presidir um país constitucionalmente laico e caracterizado por enorme diversidade religiosa.

É nesse terreno que aparece a interpretação desenvolvida pelo pesquisador Fábio Py por meio do conceito de cristofascismo. Ao analisar a construção religiosa em torno de Flávio Bolsonaro, Py identifica uma narrativa baseada em “chamado”, “missão” e escolha divina, transportando categorias teológicas para o terreno da disputa política. Trata-se de uma categoria analítica utilizada pelo pesquisador, e não de uma caracterização consensual de Flávio Bolsonaro ou dos evangélicos brasileiros, mas ela oferece uma chave interpretativa importante para compreender a utilização crescente de uma gramática religiosa na disputa pelo poder.

Também são documentadas as aproximações de Flávio Bolsonaro com lideranças e grandes denominações evangélicas, entre elas figuras como André Valadão e Silas Malafaia, ainda que as relações com essas lideranças não sejam necessariamente lineares e tenham atravessado momentos de aproximação, tensão e recomposição. Nada disso demonstra que Flávio Bolsonaro pretenda retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, mas ajuda a compreender por que essa questão encontra combustível político, especialmente quando religião e campanha eleitoral passam a compartilhar uma linguagem na qual as fronteiras entre fé, identidade religiosa e projeto de poder se tornam cada vez menos nítidas.

O paradoxo da padroeira

É justamente aqui que aparece a maior ironia dessa história, pois Flávio Bolsonaro chegou à disputa presidencial convivendo com controvérsias muito mais diretamente relacionadas à sua própria trajetória política. O antigo caso das chamadas “rachadinhas”, por exemplo, terminou sem processo criminal depois da anulação judicial de provas, embora tenha deixado questões que continuam sendo debatidas publicamente. Mais recentemente, seu nome voltou a aparecer associado a denúncias e investigações envolvendo corrupção, lavagem de dinheiro e relações políticas com personagens sob investigação, acusações que precisam ser tratadas como tais enquanto não houver decisões judiciais que estabeleçam responsabilidades.

Nesse contexto, seria politicamente curioso que uma candidatura capaz de atravessar denúncias de grande gravidade encontrasse uma dificuldade particularmente sensível em uma controvérsia essencialmente religiosa e simbólica. Isso ocorre porque símbolos religiosos operam em uma dimensão diferente daquela dos inquéritos, processos e investigações: eles mobilizam identidade, pertencimento e memória coletiva, e Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar especialmente poderoso nesse universo para milhões de brasileiros.

O episódio traz inevitavelmente à memória o famoso “chute na santa”, ocorrido em 1995, quando o ataque de um bispo da Igreja Universal a uma imagem de Nossa Senhora Aparecida provocou enorme reação social e colocou sob tensão as relações entre determinados segmentos evangélicos e católicos. Três décadas depois, ninguém chutou imagem alguma e não existe projeto de Flávio Bolsonaro retirando o título da padroeira, mas a memória histórica permanece disponível e pode ser reativada rapidamente quando aparecem elementos capazes de sugerir novamente um conflito entre determinados projetos religiosos e símbolos profundamente enraizados no catolicismo popular brasileiro.

Por isso, talvez a pergunta politicamente mais interessante não seja se Flávio Bolsonaro pretende retirar Nossa Senhora Aparecida do posto de Padroeira do Brasil, pois até agora as evidências disponíveis não sustentam essa afirmação. A questão mais reveladora está em compreender por que essa associação adquiriu plausibilidade política, já que ela não nasceu do nada: existe um projeto verdadeiro apresentado por um parlamentar evangélico que posteriormente trabalhou no governo Jair Bolsonaro; existe uma crescente associação política entre a família Bolsonaro e setores conservadores do evangelicalismo; e existe uma candidatura presidencial que incorporou explicitamente a linguagem religiosa à sua estratégia política.

É justamente nesse intervalo entre aquilo que não pode ser atribuído diretamente a Flávio Bolsonaro e as conexões políticas que efetivamente existem que está o aspecto mais interessante desta história. Se a controvérsia religiosa adquirir importância na campanha, haverá uma ironia difícil de ignorar: depois de atravessar denúncias de rachadinhas, suspeitas financeiras e outras controvérsias graves sem que nenhuma delas, isoladamente, tenha encerrado sua trajetória política, Flávio Bolsonaro poderá descobrir que a mistura entre religião e política também produz riscos inesperados para quem dela procura retirar dividendos eleitorais. Afinal, quando a religião é trazida para dentro da arena política, ninguém controla completamente quais símbolos, memórias e contradições serão despertados.

E talvez seja exatamente por isso que o velho ditado se encaixe tão bem neste episódio: no creo en brujas, pero que las hay, las hay.

Quando a Meta decide o que o Brasil pode ver: o estranho caso do vídeo de Fábio Porchat

Há momentos em que um episódio aparentemente pontual revela algo muito maior do que ele próprio. O que aconteceu nesta quarta-feira (23/9) com o perfil da série “Revelando”, apresentado por Fábio Porchat, é um desses casos.

O Instagram, plataforma controlada pela Meta, retirou temporariamente do ar o perfil da série justamente quando um de seus episódios mais controversos e de maior repercussão começava a alcançar milhões de pessoas. O vídeo aborda as relações entre a Igreja Batista da Lagoinha, a família Vorcaro e o Banco Master, além de trazer informações sobre relações financeiras e políticas que aparecem nas investigações em curso.

A justificativa inicial da Meta foi praticamente um exercício de opacidade: o conteúdo teria violado os “padrões” da plataforma. Qual padrão teria sido violado, qual trecho teria provocado a remoção e quais critérios foram utilizados para tomar a decisão não foram esclarecidos de forma suficientemente clara. Depois, veio a reviravolta: a Meta realizou uma “revisão interna”, devolveu o perfil ao ar e pediu desculpas pelo ocorrido.

É exatamente nesse ponto que o episódio deixa de ser apenas uma ocorrência envolvendo uma rede social e passa a ser uma questão de democracia. Não há, até aqui, elementos públicos suficientes para afirmar que a Meta tenha retirado o conteúdo deliberadamente para proteger a Igreja Batista da Lagoinha, Daniel Vorcaro, o Banco Master, algum político ou qualquer outro personagem mencionado na reportagem. Seria irresponsável transformar essa possibilidade em certeza. Mas também seria ingênuo ignorar que uma empresa privada possui hoje a capacidade de retirar temporariamente uma reportagem do espaço público sem precisar explicar imediatamente, de forma satisfatória, por que tomou essa decisão.

Quem decide o que pode circular?

É preciso começar por uma distinção importante. É legítimo que uma plataforma privada estabeleça regras de utilização e disponha de mecanismos de moderação. Diante da quantidade gigantesca de conteúdos publicados diariamente nas redes sociais, algum tipo de moderação é inevitável. O problema surge quando uma plataforma retira do ar um conteúdo jornalístico de evidente interesse público, não informa claramente qual regra foi violada e, algumas horas depois, simplesmente volta atrás.

Nesse caso, permanecem perguntas relevantes: qual regra foi efetivamente violada? Quem tomou a decisão de retirar o perfil? A decisão foi automatizada ou tomada por uma pessoa? Houve denúncias contra o conteúdo? Por que a revisão posterior chegou a uma conclusão diferente? E, se a primeira decisão estava errada, quantas outras decisões semelhantes podem permanecer sem revisão?

Essa questão vai muito além de Fábio Porchat, do Banco Master ou da Igreja Batista da Lagoinha. Ela diz respeito ao funcionamento da democracia digital e ao poder crescente das grandes plataformas sobre a circulação da informação.

Durante décadas, aprendemos a discutir censura pensando no Estado, nos governos e nos órgãos de repressão. A experiência contemporânea acrescentou um novo personagem a essa equação: as grandes plataformas digitais. Elas não são governos e não devem ser confundidas com governos, mas possuem uma capacidade extraordinária de interferir na circulação da informação e, consequentemente, nas condições em que o debate público acontece.

O algoritmo também produz efeitos políticos

Existe uma tendência de imaginar que uma decisão algorítmica é necessariamente neutra porque não foi tomada diretamente por uma pessoa. Não é. Algoritmos são construídos segundo critérios definidos por empresas, treinados com determinados conjuntos de dados e submetidos a regras estabelecidas por seres humanos. Quando esses sistemas classificam um conteúdo como inadequado, perigoso ou passível de remoção, produzem consequências concretas.

Um erro algorítmico pode silenciar uma reportagem; uma denúncia em massa pode provocar a retirada de um conteúdo; uma classificação equivocada pode reduzir drasticamente seu alcance; e uma decisão tomada em poucos segundos pode atingir uma audiência que levou meses ou anos para ser construída. Portanto, mesmo que ninguém dentro da Meta tenha decidido conscientemente retirar a reportagem de Fábio Porchat, o efeito político da decisão continua existindo. A ausência de intenção política não elimina necessariamente o efeito político de uma decisão tomada por uma plataforma.

Essa talvez seja uma das questões mais importantes colocadas pelo episódio. Um erro de moderação pode retirar uma reportagem do alcance de milhões de pessoas, uma classificação equivocada pode interromper a circulação de uma investigação e uma denúncia coordenada pode produzir efeitos semelhantes aos de uma decisão editorial. Uma empresa pode posteriormente corrigir tudo, mas o dano à circulação da informação já terá ocorrido.

E o que exatamente estava sendo investigado?

O episódio do Revelando não trata de uma fofoca sobre celebridades. O roteiro procura estabelecer conexões entre a Igreja Batista da Lagoinha e a família Vorcaro, passando por relações familiares, doações, negócios e política. A narrativa parte, entre outros elementos, do casamento de Natália Vorcaro com Fabiano Zettel, celebrado por André Valadão, e reconstrói relações que remontam a décadas.

O programa também aborda as investigações envolvendo o Banco Master e a atuação atribuída pela Polícia Federal a Fabiano Zettel, além de apresentar informações sobre doações políticas e sobre as relações de Daniel Vorcaro com integrantes da política brasileira.

É justamente aqui que uma ressalva precisa ser feita. Investigação não é condenação, prisão preventiva não é sentença e suspeita não é prova definitiva. O próprio texto de apresentação do episódio registra que Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel estavam presos preventivamente e não haviam sido condenados até a publicação do vídeo.

Essa cautela é necessária porque jornalismo investigativo não pode ser confundido com julgamento antecipado. Mas a existência dessa cautela não diminui a relevância pública das perguntas apresentadas pela reportagem. Ao contrário, é justamente porque essas questões envolvem dinheiro, instituições religiosas, sistema financeiro e política que elas precisam ser discutidas publicamente.

A remoção acabou produzindo o efeito contrário

Há ainda um elemento quase irônico nessa história. O episódio já havia alcançado enorme repercussão no YouTube, e a retirada do perfil do Revelando no Instagram acrescentou um novo componente à história: a própria intervenção da Meta.

De repente, milhares de pessoas passaram a discutir não apenas o conteúdo da reportagem, mas também a pergunta sobre por que ela havia sido retirada. O episódio deixou de ser apenas uma reportagem sobre Banco Master, Lagoinha, Vorcaro e política e passou a ser também uma reportagem sobre o poder das plataformas de decidir o que circula.

Esse é um dos paradoxos da comunicação digital contemporânea: uma intervenção destinada a reduzir a circulação de determinado conteúdo pode produzir exatamente o efeito contrário quando desperta uma discussão sobre liberdade de expressão e controle das plataformas.

O pedido de desculpas não encerra o problema

A Meta merece ser cobrada não apenas pela decisão inicial, mas também pela falta de transparência sobre ela. Se houve um erro, é importante saber qual foi o erro. Se houve uma denúncia, é importante saber como ela foi processada. Se houve uma decisão automatizada, é importante saber por que o sistema classificou o conteúdo daquela maneira. Se houve uma decisão humana, é importante saber quais critérios foram utilizados.

Não se trata de exigir que a Meta revele mecanismos internos que possam comprometer seus sistemas de segurança. Trata-se de algo mais simples: transparência sobre decisões que interferem diretamente na circulação de informação de interesse público.

A empresa devolveu o perfil e pediu desculpas. Isso é positivo. Mas uma pergunta continua sem resposta: por que o perfil foi retirado em primeiro lugar?

O poder das Big Techs é um problema democrático

O caso também deveria servir para ampliar uma discussão que frequentemente fica escondida atrás das guerras políticas do cotidiano. As grandes empresas de tecnologia acumularam um poder gigantesco sobre a comunicação contemporânea. Elas determinam quais conteúdos serão recomendados, quais serão reduzidos em alcance, quais receberão advertências, quais poderão ser monetizados e quais serão removidos.

Em determinadas circunstâncias, essas empresas também podem determinar quais contas inteiras poderão desaparecer temporariamente do espaço público. Isso significa que parte significativa daquilo que chamamos de “opinião pública” é hoje mediada por empresas privadas que não foram eleitas por ninguém.

Esse fato não significa que essas empresas sejam necessariamente inimigas da democracia. Significa que seu poder precisa ser submetido a mecanismos de transparência e responsabilização compatíveis com a dimensão que alcançaram. Uma coisa é administrar uma rede social. Outra, muito diferente, é possuir a capacidade de interferir na circulação de informações que interessam a milhões de cidadãos.

Hoje foi Porchat. Amanhã pode ser qualquer outro

É justamente por isso que seria um erro transformar esse episódio em uma disputa entre quem gosta ou não de Fábio Porchat, entre apoiadores ou críticos da Lagoinha, ou entre simpatizantes e adversários de qualquer corrente política. O problema é maior.

Hoje é uma reportagem sobre o Banco Master. Amanhã poderá ser uma investigação sobre corrupção ambiental. Depois poderá ser uma denúncia envolvendo uma empresa multinacional. Em outro momento poderá ser uma reportagem sobre abusos cometidos por uma autoridade pública. Em todos esses casos, haverá alguém utilizando uma plataforma privada para decidir se aquela informação merece ou não continuar circulando.

É por isso que a democracia digital não pode depender exclusivamente da boa vontade dos donos das plataformas. Precisamos de regras claras, transparência, mecanismos de recurso e capacidade efetiva de escrutinar decisões que tenham impacto relevante sobre a circulação da informação.

O episódio deixa uma pergunta incômoda

O caso Fábio Porchat não permite, neste momento, afirmar que houve censura deliberada por parte da Meta. Mas permite afirmar algo talvez ainda mais importante: uma empresa privada foi capaz de retirar temporariamente do espaço público um conteúdo jornalístico de enorme repercussão e depois restaurá-lo sem oferecer uma explicação suficientemente detalhada sobre a origem da primeira decisão.

Isso deveria preocupar qualquer pessoa interessada no funcionamento da democracia, independentemente de concordar ou não com Fábio Porchat, com o Revelando, com a Igreja Batista da Lagoinha, com os personagens citados na reportagem ou com qualquer uma das interpretações apresentadas no episódio.

Liberdade de expressão não significa apenas ter a possibilidade formal de produzir uma informação. Na sociedade contemporânea, significa também ter condições para que essa informação circule. E aquilo que não circula dificilmente consegue participar efetivamente do debate público.

Esse é o ponto que não deveria ser perdido em meio à disputa política em torno do vídeo. A Meta voltou atrás, mas o episódio deixou exposta uma questão que continuará conosco por muito tempo: quem vigia os vigilantes da esfera pública digital?

Mais importante ainda, o caso nos obriga a perguntar quem garante que um erro de uma plataforma privada não se transforme, mesmo que por algumas horas, em uma forma de silêncio público.

Assista ao episódio completo

O episódio “Revelando: Grandes Igrejas, Master Negócios”, apresentado por Fábio Porchat, está disponível no YouTube.

Assista ao vídeo completo no YouTube

Flávio Bolsonaro 2027–2030: Paulo Lindesay coloca as propostas na lupa

Em meio à campanha presidencial de 2026, compreender aquilo que está efetivamente sendo proposto pelos candidatos é mais importante do que acompanhar apenas discursos, slogans e peças de propaganda eleitoral. É com esse objetivo que disponibilizo aos leitores do Blog do Pedlowski o infográfico interativo produzido por Paulo Lindesay, que sistematiza e analisa criticamente propostas associadas ao programa apresentado por Flávio Bolsonaro para um eventual governo entre 2027 e 2030.

O material está organizado em dez eixos temáticos e dedica atenção especial às possíveis repercussões das propostas sobre Previdência Social, regimes próprios de previdência dos servidores, reforma administrativa, relações de trabalho, segurança pública, soberania nacional e dívida pública. Há ainda gráficos sobre a trajetória projetada da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), pagamento de juros e déficit nominal.

Um dos méritos do infográfico é justamente procurar deslocar a discussão do terreno abstrato das promessas eleitorais para suas possíveis consequências econômicas e sociais. No caso da Previdência, por exemplo, Paulo Lindesay discute os efeitos que mudanças na política de reajustes e nos regimes previdenciários poderiam produzir sobre trabalhadores, aposentados e servidores públicos. Na reforma administrativa, concentra sua análise em estabilidade, concursos, vínculos temporários, aposentadorias e mudanças nas relações entre Estado e funcionalismo.

O mesmo ocorre na discussão sobre segurança pública e soberania. O infográfico relaciona a proposta de tratar organizações criminosas brasileiras como organizações terroristas às possíveis implicações jurídicas e geopolíticas dessa classificação, especialmente quanto à cooperação e à atuação dos Estados Unidos no combate ao crime organizado. Também examina as possíveis consequências de um maior alinhamento internacional para setores e recursos considerados estratégicos.

É importante fazer uma ressalva metodológica. O infográfico não deve ser lido como se fosse o próprio plano de governo de Flávio Bolsonaro. Trata-se de uma análise produzida por Paulo Lindesay a partir de propostas, declarações, documentos e outras fontes. Consequentemente, o leitor encontrará tanto informações sobre propostas efetivamente apresentadas quanto interpretações críticas sobre seus possíveis efeitos. Essa distinção é fundamental e, ao mesmo tempo, constitui um convite para que cada leitor confronte a análise com as fontes indicadas no próprio material e com o programa oficial da candidatura.

Em uma eleição na qual boa parte do debate tende a ser reduzida a personagens, slogans e disputas nas redes sociais, materiais desse tipo oferecem outra possibilidade: discutir políticas concretas e perguntar quem ganha, quem perde, quanto custa e quais transformações institucionais poderão resultar das escolhas feitas nas urnas.

Por isso, agradeço a Paulo Lindesay pela elaboração e pelo compartilhamento do material e o disponibilizo aos leitores do Blog do Pedlowski como contribuição ao debate público. Independentemente da posição política de cada um, vale examinar as propostas, conferir suas fontes e refletir sobre suas possíveis consequências para o Brasil a partir de 2027.

O  leitor pode acessar e navegar pelo infográfico interativo completo elaborado por Paulo Lindesay [Aqui!].