A blitz em Wilson Witzel e o aprofundamento da crise política no Brasil

witzel bolsoO hoje governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC/RJ), posando com camisa do então candidato Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018.

A população do Rio de Janeiro amanheceu mais uma vez com notícias de ações da Polícia Federal para apurar supostas irregularidades na área da Saúde cometidas por um governador em exercício, no caso o ex-juiz Wilson Witzel. Essa operação alcunhada de “Placebo” por causa de alegado superfaturamento na montagem dos famigerados hospitais de campanha é uma espécie de “déjà vu” porque nos últimos anos tivemos casos rumorosos envolvendo os ex-governadores Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão.

A diferença nesse caso é a rara celeridade com que a detecção das supostas irregularidades no governo estadual do Rio de Janeiro resultou em uma operação da Polícia Federal que a mídia corporativa informa está vasculhando endereços oficiais e pessoais de Wilson Witzel.  E, curiosamente, com um destacamento da Polícia Federal lotada no Distrito Federal.

Essa celeridade inaudita já levanta o espectro da perseguição política por parte do presidente Jair Bolsonaro que hoje tem em Witzel um enorme desafeto. Contribuiu para a presença desse espectro, as declarações de véspera da deputada federal Carla Zambelli (PSL/SP) (uma das ardorosas aliadas da família Bolsonaro no congresso nacional) que teria previsto com o poder de um oráculo a deflagração da operação policial de hoje. Se isso for confirmado, há, inclusive que se apurar se isso não contribuiu para a destruição de provas, já que entre o anúncio de Zambelli e a deflagração da operação Placebo passaram-se horas suficientes para destruir um caminhão de provas.

Mas colocando-se de lado a evidente disputa política que ocorre atualmente entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador fluminense, ninguém pode discordar de que é necessário apurar se realmente, em meio a uma pandemia letal, ocorreram crimes contra o estado do Rio de Janeiro com a prática de sobrepreço, por exemplo.  Ser contra a apuração e a punição de crimes de corrupção não parece razoável, especialmente se isso ocorre quando milhares de pessoas estão pessoas por falta de estruturas próprias de saúde.

Além disso, é preciso lembrar que, embora brigados no momento, Jair Bolsonaro e Wilson Witzel são praticamente inseparáveis em termos ideológicos, especialmente no que tange ao uso da força extrema para obter um apaziguamento social que se mostra totalmente deletério para o interesse da maioria pobre da população fluminense. A ligação entre Bolsonaro e Witzel é tão grande que o secretário de Ciência e Tecnologia, Leonardo Rodrigues, um dos acusados de terem praticados crimes de corrupção, é o segundo suplente do senador Flávio Bolsonaro, tendo convivido de forma próxima com o próprio presidente Jair Bolsonaro.

xleonardo_flavio.jpg.pagespeed.ic.YTdaazNep0Leonardo Rodrigues, suplente de Flávio Bolsonaro e atual secretário de Ciência e Tecnologia Foto: Reprodução / Redes Sociais

Além disso, sob o comando de Wilson Witzel, as polícias do Rio de Janeiro adotaram uma tática de violência extrema dentro de comunidades controladas pelo narcotráfico, o que motivou o jornal estadunidense a publicar uma longa matéria intitulada “License to Kill: Inside Rio´s Record Year of Police Killings” (ou em português “Licença para matar: dentro do ano recorde de assassinatos pela polícia”). Nesse sentido, há ainda que se lembrar que mesmo durante a pandemia da COVID-19, ocorreram diversos assassinatos de jovens negros dentro de comunidades da cidade do Rio de Janeiro, sendo que em algumas delas as operações policiais ocorreram durante a distribuição de cestas básicas para famílias que se encontram em dificuldades para adquirir alimentos.

license to killMatéria publicada pelo “The New York Times” no dia 18 de maio de 2020 abordou as ações letais em número recorde realizadas pela polícia fluminense em comunidades pobres da região metropolitana do Rio de Janeiro em 2019.

Desta forma, me parece que qualquer propensão a tomar posição em favor de Wilson Witzel em razão da possível interferência do presidente Jair Bolsonaro deverá levar em conta os diversos aspectos envolvendo não apenas os fatos já publicizados sobre as acusações de corrupção envolvendo o governo do Rio de Janeiro, mas também a natureza da relação política que levou os dois ao poder.

De toda forma, há ainda que se esperar o pronunciamento do governador Wilson Witzel, um ex-juiz com esperada experiência na análise processual deste tipo de operação. Se ele encontrar furos nos procedimentos que levaram à autorização da operação Placebo, é bem provável que ele saia rapidamente da defesa para o ataque. E dependendo do calibre que ele tiver nas mãos para realizar este contra-ataque, é bem possível que tenhamos um aprofundamento ainda maior da crise política que hoje se mistura com o avanço da pandemia da COVID-19.

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