A Ford alça voo do Brasil (por Olívio Dutra)

olivioOlívio Dutra. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Por Olívio Dutra (*)

O desenvolvimento econômico e material com menor custo para si e maior aporte de subsídios e recursos públicos para expansão de seus negócios, norteiam o planejamento estratégico das empresas transnacionais, em especial as do setor automobilístico. A sua instalação, em um território ou país no globo, é uma decisão de mercado, avaliada por satélites e importa-se pouco com impactos sociais, econômicos, ambientais e culturais, tanto quando de sua aterrissagem como quando de sua decolagem.

Assim pretendia agir a Ford há 20 anos no RS. Encontrou resistência do Governo da Frente Popular, que se instalava, à essa lógica perversa. Orquestrou, com suas influências políticas e sua generosa conta publicitária, uma oposição insidiosa ao novo governo. Pretendia sequer prestar contas do dinheiro público já recebido. Não logrou o intento. Perdeu, inclusive, no Judiciário. O resto da história é sabido.

A Ford agora está alçando voo para outras paragens, fora do Brasil, depois de ter torcido por um novo governo federal que flexibilizasse as leis trabalhistas, previdenciárias, enfraquecesse os sindicatos, desregulamentasse normas de controle público, etc.

A estratégia é a mesma, os discursos de seus, às vezes, discretos outras nem sempre, declarados apoiadores, é que são diferentes segundo as conveniências das políticas dos governantes com os quais se alinham.

Mais um momento semelhante aquele da condenação da Ford a ressarcir o Estado do Rio Grande do Sul por quebra unilateral de contrato, para lembrar de pessoas importantes que mantiveram paciência, coesão e firmeza na sustentação da política da Frente Popular de respeito à coisa pública, ao dinheiro público e na afirmação e prática de um governo democrático, participativo e republicano sob o qual o RS se desenvolveu social e economicamente acima da média nacional do período: Miguel Rossetto, ZECA MORAES (in memoriam) e sua equipe, Paulo Torelli, Guaracy Cunha, Flávio Koutzii, Sérgio Kapron e outros(as).

(*) Olívio Dutra foi governador do Rio Grande do Sul de 1999 a 2002

fecho

Este artigo foi publicado originalmente pelo site Sul21 [Aqui!].

A partida da Ford, o oráculo de Olívio, e o “Capitalismo sem consumidores” de Bolsonaro

fordDepois de fechar fábrica em São Bernardo do Campo em 2015, Ford anunciou encerramento de produção em três unidades restantes no Brasil

Quando em 1999 o então governador petista do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, recusou as condições impostas pela multinacional Ford para se manter no município de Guaiba, o mundo quase caiu sobre a cabeça dele. Olívio, do alta de sua sabedoria, lançou o oráculo de que quando a Ford se sentisse na necessidade de abandonar o Brasil, o faria sem dó nem piedade. Eis que cerca de 22 anos depois, e R$ 22 bilhões de isenções fiscais indo pelo ralo, a profecia de Olívio Dutra se confirmou, e a multinacional estadunidense anunciou que vai fechar suas unidades de produção no Brasil dentro de um processo de reestruturação global.

O anúncio da partida da Ford caiu como uma bomba e tornou agitada a tarde/noite dos noticiários televisivos,  promovendo ainda o rápido aparecimento de explicações sobre o porquê da decisão (que de abrupta não tem nada).  As mais comuns giraram em torno de um suposto atraso das reformas ultraneoliberais do governo Bolsonaro como sendo a mola propulsora da decisão.  Em outras palavras, a Ford estaria abandonando o Brasil porque as reformas que retiraram direitos trabalhistas e sociais e diminuíram agudamente o investimento público ainda precisam ser aprofundadas, e mais arrocho seja imposto ao povo brasileiro.

wp-1610454585550.jpg

Em minha opinião, a convocação para que haja ainda mais arrocho e mais desestatização é da mesma natureza do problema enfrentado por alguém que tomou veneno para morrer, mas continuando vivo, procura tomar mais para completar o serviço.  É que, dentre outras muitas razões,  a Ford está abandonando o Brasil porque faltam compradores para seus carros, visto o encolhimento da massa de consumidores aptos que as reformas supostamente milagrosas vêm gerando no nosso país. Já escrevi algum tempo atrás que as reformas neoliberais iniciadas com Fernando Collor, continuadas por FHC, abrandadas com Lula e Dilma, e retomadas com força extrema por Michel Temer, estavam criando um “capitalismo sem consumidores” no Brasil, com um encolhimento ainda maior do número de brasileiros aptos a consumir bens caros, como automóveis, por exemplo.

De toda forma, a conjuntura aberta pela partida da Ford permitirá a realização de um debate sobre o modelo econômico que está sendo executado pela dupla Bolsonaro/Guedes, na medida em que os anúncios feitos nesse início de ano, a começar pelo fechamento de centenas de agências do Banco do Brasil, mostram que a disposição é aprofundar o modelo do “capitalismo sem consumidores”, abrindo caminho para uma ampliação ainda maior de massa de desempregados e dos brasileiros colocados na miséria extrema. E uma pista para um futuro modelo: não sairemos da condição de país capitalista sem consumidores se a aposta for no aumento da dependência da exportação de commodities agrícolas e minerais.