Países ricos não têm nenhum plano para cumprir suas promessas de financiamento climático, indica relatório

Membros do G7 anunciaram recuperação verde pós-pandemia em 2020, enquanto investiam

tearfund
US $190 bi em combustíveis fósseis, revela Tearfund Os planos de financiamento climático dos países desenvolvidos são fracos e imprevisíveis, alerta o relatório da CARE divulgado hoje (3/6) . O estudo “Compromissos Ocos” analisou 24 planos recentes anunciados pelos países ricos e afirma que nenhum deles forneceu informações sobre como e quando as promessas serão cumpridas. A pesquisa afirma também que os países não explicam de que forma seus novos compromissos contribuem com a meta de US $100 bilhões para o financiamento climático das nações pobres estabelecida na Conferência do Clima de Copenhague (COP15), em 2009, para o ano de 2020.

O tema deve estar na pauta do próximo encontro do G7, quando líderes de Reino Unido, Canadá, EUA, Alemanha, França, Japão e Itália se encontrarão na Cornualha, Inglaterra, entre 11-13 de junho. Coréia do Sul, Austrália, Índia e África do Sul também participarão do evento como convidadas.

A recuperação da economia após a COVID-19 também será assunto do G7. Enquanto as principais economias anunciavam em 2020 projetos para “reconstruir melhor”, com sustentabilidade e justiça social, os países do G7 injetaram quase US ﹩190 bilhões em combustíveis fósseis no mesmo período, revela um levantamento liderado pela Tearfund, uma agência internacional cristã de ajuda humanitária.

Segundo a pesquisa, carvão, petróleo e gás receberam US $189 bilhões em apoio, em comparação com US $147 bilhões para formas limpas de energia, desde o início da pandemia. Nos planos de recuperação, mais de 8 em cada 10 dólares foram comprometidos com combustíveis fósseis sem nenhuma contrapartida verde.

O histórico recente do Reino Unido destaca a tensão entre as ambições verdes do governo e as decisões de gastos reais do Tesouro: o país assumiu os maiores compromissos per capita com os combustíveis fósseis do G7, com apenas 4% deste apoio tendo qualquer critério de sustentabilidade associado. Por outro lado, o Reino Unido anunciou o fim do apoio público a projetos de combustíveis fósseis no exterior e a proibição em 2030 de novos carros a gasolina e diesel.

Além da Tearfund, colaboraram com a pesquisa o Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável ( IISD ) e a ODI , que trabalharam com organizações em cada país para analisar 517 políticas aprovadas desde o início da pandemia.

“Se cada um dos líderes do G7 não anunciar claramente em Cornualha, no dia 11, um aumento significativo no financiamento climático para cumprir e superar sua promessa de US $100 bilhões até 2020 e aumentar em trilhões de dólares as medidas de recuperação verde global, isso só pode ser interpretado como uma quebra maciça de confiança e responsabilidade”, avalia Tasneem Essop, diretora executiva da Climate Action Network.

Para Mohamed Adow, diretor do think tank Power Shift Africa, as descobertas dos dois estudos são “terríveis”. “O processo da ONU, e de qualquer negociação razoável, só funciona se uma das partes puder confiar na outra para fazer o que foi acordado, o que foi prometido. Os países mais ricos prometeram 100 bilhões de dólares até 2020 e ainda assim decidiram simplesmente não cumprir esta obrigação”, declarou.

A jovem ativista Vanessa Nakate, do Fridays For Future Uganda, afirmou que os países ricos têm “obrigação moral” de ajudar países pobres na transição dos combustíveis fósseis. “A demanda por eletricidade na África pode dobrar nos próximos dez anos e, com o atraso dos países ricos, o dinheiro está saindo de seus bancos para construir mais infraestrutura de combustíveis fósseis que nós não queremos.”

Diann Black-Layne, embaixadora de Antígua e Barbuda, comentou os resultados em evento da ONU, e afirmou em nome do grupo de países-ilha (AOSIS) que o financiamento climático não pode ser confundido com financiamento ao desenvolvimento. “O financiamento necessário para se recuperar após um furacão não é financiamento para o desenvolvimento. Sejamos claros: o financiamento climático paga pelo impacto da poluição de outros”.

O boicote ao Brasil virá, resta agora saber apenas a sua amplitude

boicote

As ações arrogantes e mal educadas de membros do governo federal, a começar pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, em relação às críticas ao atual ciclo de desmatamento e queimadas na Amazônia já causaram um dano diplomático significativo.  A coisa é tão grave que neste final de semana os líderes da 7 maiores economias do mundo (o G-7) estarão debatendo medidas para conter o estrago ambiental que ameaça a sustentação do clima da Terra, sem que o Brasil seja sequer convidado a dar explicações sobre o que está acontecendo ou, tampouco, sobre o que fará (em tese) para conter o fogo que consome áreas derrubadas e não derrubadas em toda a Amazônia brasileira.

Ainda que não existe unanimidade sequer dentro da União Europeia sobre como proceder em relação ao Brasil (fato que deve estar sendo festejado dentro dos gabinetes do governo Bolsonaro), há que se lembrar que para a ratificação do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul todos os países que compõe o bloco europeu precisam aprovar  a medida em seus respectivos congressos nacionais. E já se sabe que pelo menos na França, Irlanda e Finlândia, a oposição a essa ratificação será enorme.

Mas indo além dos interesses representados pelos governos nacionais há algo que parece não estar sendo considerado pelos analistas de plantão.  O fato é que há um crescente movimento social em toda a Europa e em outras partes do mundo contra a destruição da Amazônia. Os membros do governo Bolsonaro e seus apoiadores dentro da sociedade brasileira parecem não compreender que vivemos em um tempo que a informação é distribuída com velocidade extrema, mas não apenas para disseminar a visão canhestra de nacionalismo entreguista que eles parecem abraçar, o que despreza ferozmente as consequências políticas e econômicas do abraço mortal entre os interesses das grandes corporações econômicos e  a destruição ambiental. 

Protesto realizado na última 6a. feira (23/08) em frente da Embaixada do Brasil em Zurich na Suiça

O fato inescapável é que as centenas de manifestações que ocorreram pelo mundo afora contra o Brasil e seu governo anti-ambiental estão colocando em marcha um processo político que terá fortes impactos econômicos. É que movimentos de boicote a produtos agrícolas brasileiros, como o que foi iniciado pelo chefe executivo da rede sueca de supermercados Paradiset, Johannes Cullberg, estão começando a tocar corpo e caminham para um processo de unificação.  O centro gravitacional destes movimentos é a rejeição da compra de todo produto brasileiro que possa ser associado ao desmatamento da Amazônia, a começar por soja e carne bovina. 

cullbergJohannes Cullberg, CEO da rede sueca de mercearias orgânicas Paradiset, foi o primeiro a lançar o boicote a produtos brasileiras por causa do uso excessivo de agrotóxicos e do desmatamento na Amazônia.

Alarmados com o espectro de um boicote generalizado, os barões do agronegócio brasileiro estão buscando formas de impedir que isso aconteça. Mas conspira contra eles o fato de que já foi formada a imagem de que o governo brasileiro, sob a batuta de Jair Bolsonaro, representa um risco para a sobrevivência do planeta. E contra esse tipo de imagem poderosa há muito pouco o que possa fazer em termos de campanhas publicitárias. É que para cada peça que defenda o agronegócio logo surgirão centenas de imagens e vídeos mostrando didaticamente a destruição que eles e outros agentes econômicos estão causando legal ou ilegalmente nas florestas da Amazônia.

fogoMosaico de imagens de satélite Landsat criado pela National Space Agency (NASA) mostra os principais pontos de fogo na América do Sul.

Em suma, um boicote aos produtos agrícolas se tornou inevitável. Resta saber o tamanho e a amplitude que ele terá.  E o principal culpado pelo aprofundamento da crise econômica brasileira tem nome e endereço: Jair Messias Bolsonaro, Palácio do Planalto, D.F., Brasil.