Produção de carne bovina emite mais do que o dobro do limite das metas de gases de efeito estufa

Produção de carne bovina emite mais do que o dobro do limite das metas de gases de efeito estufa

Em 2023, o Brasil bateu recorde na exportação de carne bovina, com 2,29 milhões de toneladas vendidas para 157 países 

Luciana Constantino | Agência FAPESP

Um dos pilares da economia brasileira e um dos setores responsáveis pelas maiores emissões de gases de efeito estufa, a produção de carne bovina no Brasil, da forma como é feita atualmente, emite mais do que o dobro do limite necessário para cumprir metas ambientais internacionais. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa publicada na revista Environmental Science and Pollution Research.

O trabalho traz uma avaliação de cenários preditivos de emissões, juntamente com uma valoração econômica. As pesquisadoras calcularam que as emissões do setor podem variar de 0,42 a 0,63 gigatonelada de CO2 equivalente (GtCO2e) até 2030, enquanto o limite para atender à meta da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) seria de 0,26 GtCO2e. Por outro lado, estratégias de mitigação ao longo da cadeia produtiva poderiam evitar perdas de até US$ 42,6 bilhões e garantir maior competitividade.

A NDC (sigla em inglês para Nationally Determined Contributions) é o compromisso que os países assumiram no Acordo de Paris, assinado em 2015 e que passará por revisão neste ano até a COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), a ser realizada em Belém (PA).

No compromisso estão as metas de redução de emissões dos países, com diretrizes para a transformação do modelo de desenvolvimento, abrangendo todos os setores da economia. O objetivo global é limitar o aumento da temperatura média do planeta a 1,5°C em relação ao período pré-industrial (entre 1850 e 1900). Esse limite, no entanto, vem sendo colocado em risco – 2024 foi o ano mais quente da história, com aumento médio da temperatura global de 1,55°C, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

O estudo usou como base a NDC em vigor até 2024 – redução das emissões em 43% até 2030 em comparação a 2005. Em novembro, o Brasil entregou à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) a nova contribuição, com o compromisso de reduzir as emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 850 milhões e 1,05 bilhão de toneladas de CO2 equivalente até 2035 – uma queda de 59% a 67% em comparação aos níveis de 2005.

“Sabemos da importância do setor de carne bovina não só para a economia como para o cardápio dos brasileiros. Nosso objetivo não é dizer: produzam ou comam menos carne, mas sim trazer uma discussão sobre a forma atual de produção, que vem atrelada ao desmatamento, a altas emissões e sem adotar técnicas sustentáveis. Assim, não conseguiremos cumprir as metas climáticas estabelecidas. Nossas descobertas mostram que é preciso adotar na cadeia produtiva práticas que mitiguem as emissões. Isso contribui também com a redução dos custos associados às mudanças climáticas”, diz a primeira autora do artigo, a bióloga Mariana Vieira da Costa, do Laboratório de Economia, Saúde e Poluição Ambiental (Lespa) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

No trabalho, as autoras usaram o chamado custo social do carbono (CSC), uma forma de quantificar o impacto financeiro das emissões na sociedade, sendo uma referência para a construção de políticas climáticas e tomada de decisões.

O CSC representa os custos econômicos causados pela emissão de uma tonelada de CO2, incluindo impactos não comerciais sobre o meio ambiente e a saúde humana e incorporando consequências, como perdas na agricultura e danos provocados por eventos climáticos extremos. Esses custos podem ser reduzidos ou redirecionados para investimentos em práticas de produção pecuária mais sustentável por meio de políticas públicas e linhas de crédito acessíveis.

Segundo a pesquisa, o potencial de redução de custos varia entre US$ 18,8 bilhões e US$ 42,6 bilhões até 2030 dependendo do cumprimento das metas.

Em 2023, o Brasil bateu recorde na exportação de carne bovina, com 2,29 milhões de toneladas vendidas para 157 países, atingindo um faturamento de US$ 10,55 bilhões. As cientistas consideraram a relevância da exportação de carne bovina para o Brasil ao calcular quanto estaria disponível para consumo interno em 2030, caso a produção fosse reduzida para se manter dentro do limite de emissão de 0,26 GtCO2e, necessário para o cumprimento da NDC. O resultado obtido foi de 2 a 10 kg de carne bovina per capita (no ano).

“Sempre quis estudar a relação da pecuária bovina com as mudanças climáticas. No início, tivemos dificuldades de encontrar dados mais refinados. Por isso, criamos nosso indicador”, complementa Costa, que contou com a orientação da professora Simone Miraglia, líder do Lespa-Unifesp e coautora do artigo juntamente com a bióloga Daniela Debone.

Para Miraglia, os resultados são importantes, pois, se não houver reduções expressivas nas emissões de gases de efeito estufa, o aumento da temperatura média global acarretará impactos econômicos adicionais, como a redução da produção agrícola, o aumento dos incêndios florestais e a intensificação dos efeitos sobre a saúde, incluindo a mortalidade, por exemplo.

Cenário

Em um período de quase quatro décadas (1985 a 2022), a área ocupada pela agropecuária no Brasil cresceu 50%, ficando em 282,5 milhões de hectares – um terço do território nacional. Do total, 58% são de pastagens (atualmente em 164,3 milhões de hectares), de acordo com levantamento do MapBiomas.

Cerca de 64% da expansão da agropecuária foi resultado do desmatamento para pastagem (64,5 milhões de hectares). Esse crescimento se deu, principalmente, na Amazônia, levando o bioma a superar o Cerrado em área de pastagem.

As cientistas apontam a necessidade de sinergia entre pesquisa e produtores rurais com o objetivo de promover práticas de produção mais eficientes e de baixa emissão, buscando técnicas e tecnologias ambientalmente sustentáveis. Além disso, destacam o papel que o governo federal pode desempenhar na mediação e integração da pesquisa e da adoção de tecnologias pelos produtores.

Citam que, embora o Plano ABC+ atualmente facilite investimentos dos pecuaristas em práticas intensivas, sua adoção ainda é baixa. O Plano de Adaptação e Baixa Emissão de Carbono na Agricultura (ABC+) é uma agenda do governo brasileiro, a ser executada entre 2020 e 2030, que dá continuidade à política setorial para enfrentamento à mudança do clima no setor agropecuário. Além de criar e fortalecer mecanismos para adoção de sistemas e práticas de produção sustentáveis, busca diversificar fontes e instrumentos financeiros e fiscais.

Costa destaca que a diversificação de incentivos, como isenções fiscais e a implementação de créditos de carbono, é essencial para estimular e promover mudanças significativas em larga escala no setor.

O trabalho teve o apoio da FAPESP por meio de bolsa de estudo a Costa e de outro projeto com abordagem para analisar emissão de gases de efeito estufa, mudanças climáticas e indicadores de saúde.

O artigo Brazilian beef production and GHG emission – social cost of carbon and perspectives for climate change mitigation pode ser lido em: https://link.springer.com/article/10.1007/s11356-025-36022-1.


Fonte: Agência Fapesp

Coalizão Brasil adverte que nova meta climática do país ignora necessidade urgente de corte das emissões de gases do efeito estufa pelo desmatamento

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 Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento multissetorial composto por mais de 300 empresas, organizações da sociedade civil, setor financeiro e academia, vê com preocupação a revisão da meta climática brasileira (NDC) junto à Organização das Nações Unidas.

Para a entidade, a revisão frustra expectativas por ignorar a necessidade urgente de corte das emissões de gases de efeito estufa pelo desmatamento. Também preocupa o fato de que o texto desconsidera compromissos internacionais firmados em Glasgow no ano passado, durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26), tais como a Declaração de Florestas e o acordo sobre emissões de metano. Por fim, o movimento assinala que o texto foi construído sem um processo de consulta à sociedade.

Segundo a nota da Coalizão Brasil, essas lacunas demonstram que o Brasil não está suficientemente engajado no combate ao desmatamento, que é fundamental para o combate às mudanças climáticas.

Confira a seguir a íntegra da nota:

Nova meta climática do Brasil ignora urgência de corte de emissões de gases de efeito estufa provocadas pelo desmatamento

O Brasil acaba de apresentar a revisão de sua meta climática, a NDC, junto à Organização das Nações Unidas. Frustrando expectativas, não estabeleceu metas vinculantes ou apresentou as ações setoriais que pretende implementar para cumprir o compromisso assumido na Declaração de Florestas, assinada em Glasgow no ano passado, durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26). Também ignorou a promessa de reduzir as emissões de metano em 30% até 2030, estabelecida em outro acordo firmado na Escócia. No texto entregue à ONU, há apenas uma breve menção à eliminação do desmatamento ilegal até 2028, sem detalhes sobre como seria atingida.

A nova NDC foi construída sem um processo de consulta à sociedade, e suas lacunas demonstram que o Brasil não está suficientemente engajado no combate ao desmatamento, uma operação fundamental para o combate às mudanças climáticas. Do total de emissões de gases de efeito estufa do país, 44% são provocadas por mudanças de uso da terra, em especial o desmatamento.

É cada vez mais nítido o perigo que paira sobre o futuro da Amazônia. O primeiro trimestre de 2022 registrou a maior ocorrência de alertas de desmatamento na Amazônia desde o início da série histórica, em 2016. Segundo o sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram mapeados 941,3 km² de floresta perdida entre janeiro e março, um avanço de 64,1% ante o visto no mesmo intervalo em 2021 (573,3 km²).

A redução do desmatamento é uma questão urgente. O país já trilhou este caminho — entre 2004 e 2012, conseguiu diminuir o índice de desmate na Amazônia em 84% — e tem condições de fazê-lo mais uma vez. Precisa, portanto, traçar uma política pública comprometida a atingir resultados concretos e ambiciosos. Também é importante contar com o Fundo Amazônia, que financia diversas iniciativas voltadas à conservação do bioma, inclusive o fornecimento de infraestrutura para ações de comando e controle contra ilícitos ambientais. O retorno da aplicação dos recursos, congelado desde 2019, está em análise no Supremo Tribunal Federal.

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimentado formado por mais de 300 representantes do agronegócio, sociedade civil, setor financeiro e academia, apresentou seis ações que levariam à queda rápida do desmatamento e, por consequência, das emissões provocadas por esta atividade:

· Intensificação da fiscalização, com exemplar responsabilização pelos ilícitos ambientais identificados;

· Aceleração urgente do processo de análise e validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e suspensão imediata de todos os registros sobrepostos a terras indígenas, florestas públicas não-destinadas e áreas embargadas, bem como nos casos de desmatamento sem autorização legal;

· Retomada imediata do ordenamento territorial, iniciando-se pela demarcação de terras indígenas e territórios quilombolas já oficialmente definidos, além da destinação de 10 milhões de hectares de florestas públicas para implementação de unidades de conservação;

· Ampliação da governança e regulação do Banco Central para financiamentos sob critérios socioambientais rigorosos;

· Transparência, rastreabilidade e rigor nas autorizações de supressão da vegetação; e

· Suspensão de processos de regularização fundiária em áreas onde tenha ocorrido desmatamento após julho de 2008.

A Coalizão continua promovendo o diálogo sobre o uso sustentável da terra, por entender que a revitalização da Amazônia é uma grande oportunidade para o desenvolvimento do país. Da mesma forma, também é fundamental honrar os compromissos estabelecidos por lei e os assinados em convenções internacionais. O futuro do país está diretamente relacionado à conservação da floresta em pé.

Grande parte das emissões por desmatamento estão embutidas em commodities agrícolas consumidas na China e na Europa

Segundo artigo publicado recentemente no jornal científico Global Environmental Change, do total das emissões de CO2 relacionadas ao desmatamento em florestas tropicais entre 2010 e 2014, de 29% a 39% estão vinculadas a commodities exportadas, principalmente gado e produtos oleaginosos como soja e óleo de palma.

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Por Caspar Trimmer e Cristiane Fontes para a Trase em Português

A produção agrícola é a principal causa do desmatamento em florestas tropicais e a segunda maior fonte de emissões de gases de efeito estufa, como demonstram vários estudos publicados nos últimos anos. Cerca de 80% da perda de florestas é impulsionada pela expansão de pastagens e terras cultiváveis, e aproximadamente 15% das emissões estão vinculadas apenas à pecuária, segundo relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura).

Um novo estudo revela que uma grande parte dessas emissões está embutida em commodities agrícolas e florestais exportadas, principalmente óleo de palma, soja, gado (carne bovina e couro) e produtos de madeira (incluindo papel).

Publicada na edição de maio de 2019 do Global Environmental Change e disponível on-line, a pesquisa mostra que mais da metade das 2,6 Gt de CO2 das emissões líquidas emitidas anualmente por desmatamento entre 2010 e 2014 está vinculada à pecuária e produtos oleaginosos, principalmente soja e óleo de palma. O artigo descobriu ainda que de 29% a 39% dessas emissões de CO2 estão vinculadas ao comércio internacional de commodities agrícolas, dependendo do modelo adotado.

Javier Godar, pesquisador sênior do Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI, em inglês) e co-fundador da Trase, é um dos autores do artigo. O trabalho, que tem como autores principais Florence Pendrill e Martin Persson, da Chalmers University, foi elaborado em colaboração com pesquisadores do Centro de Pesquisas de Biodiversidade e Clima Senckenberg, na Alemanha, e da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia.

De acordo com Godar, o estudo é um passo importante para entender o papel do comércio internacional de commodities agrícolas nas emissões globais, porque pela primeira vez todos os países tropicais foram analisados e calculados não apenas as emissões para os fluxos diretos, mas também o consumo de produtos mais complexos em que as commodities agrícolas estão embutidas.

“O resultado mais surpreendente está relacionado ao fato de que as emissões por desmatamento embutidas nas commodities agrícolas exportadas rivalizam com as emissões da produção agrícola e pecuária dos países importadores. Isso ressalta a necessidade de incluir as emissões extraterritoriais na contabilidade nacional e do apoio e financiamento por parte dos países consumidores a políticas de combate ao desmatamento e práticas agrícolas mais sustentáveis nos países produtores”, afirma o pesquisador.

Uma imagem complexa

O documento também mostra uma grande variação entre países e commodities vinculadas às emissões por desmatamento. Por exemplo, a América Latina exporta 23%-34% de suas emissões em suas commodities agrícolas e florestais. Destes, 71–89% estão em oleaginosas e 11–21% em carne de gado. A região da Ásia-Pacífico exporta uma parcela maior de suas emissões (44–49%) e a África, uma parcela menor (9–32%).

Em todo o mundo, as exportações de produtos oleaginosos respondem por 62–76% das emissões relacionadas ao desmatamento, principalmente provenientes da Ásia-Pacífico e da América Latina para a Europa, China e Oriente Médio.

O mesmo vale para outras culturas de alto valor, como cacau, café, chá e especiarias, com 68–75% das emissões exportadas.

 

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Resumo das emissões embutidas na produção para grupos de commodity por região

Do produtor para o consumidor

A Europa e a China são os principais importadores de gado e produtos oleaginosos advindos de florestas tropicais. Para muitos países desenvolvidos, as emissões por desmatamento embutidas nas importações rivalizam ou excedem as emissões da agricultura doméstica. O desmatamento foi responsável por cerca de um sexto da pegada de carbono de uma dieta padrão na União Europeia (UE), por exemplo.

Os resultados do estudo podem ainda orientar políticas de mitigação aos impactos das mudanças climáticas.

Além de reforçar que os esforços para reduzir o desmatamento tropical devem se concentrar em um punhado de commodities e de relações comerciais, os autores sugerem que impostos em produtos alimentícios exportados poderiam ajudar a lidar com as pegadas de carbono por desmatamento de alguns produtos agrícolas e florestais.

“Se você der suporte aos países tropicais em seu trabalho para proteger a floresta tropical, e der aos agricultores alternativas ao desmatamento para aumentar a produção, isso pode ter um grande impacto”, acrescenta a autora principal, Florence Pendrill.

No entanto, os autores enfatizam que as intervenções nos países produtores são essenciais, pois a demanda doméstica ainda é responsável por mais da metade das emissões relacionadas ao desmatamento.

O estudo foi parcialmente financiado pelo PRINCE, projeto que explorou novos indicadores ambientais relevantes para a política de consumo da Suécia.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Trase em Português [Aqui!]