Grande parte das emissões por desmatamento estão embutidas em commodities agrícolas consumidas na China e na Europa

Segundo artigo publicado recentemente no jornal científico Global Environmental Change, do total das emissões de CO2 relacionadas ao desmatamento em florestas tropicais entre 2010 e 2014, de 29% a 39% estão vinculadas a commodities exportadas, principalmente gado e produtos oleaginosos como soja e óleo de palma.

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Por Caspar Trimmer e Cristiane Fontes para a Trase em Português

A produção agrícola é a principal causa do desmatamento em florestas tropicais e a segunda maior fonte de emissões de gases de efeito estufa, como demonstram vários estudos publicados nos últimos anos. Cerca de 80% da perda de florestas é impulsionada pela expansão de pastagens e terras cultiváveis, e aproximadamente 15% das emissões estão vinculadas apenas à pecuária, segundo relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura).

Um novo estudo revela que uma grande parte dessas emissões está embutida em commodities agrícolas e florestais exportadas, principalmente óleo de palma, soja, gado (carne bovina e couro) e produtos de madeira (incluindo papel).

Publicada na edição de maio de 2019 do Global Environmental Change e disponível on-line, a pesquisa mostra que mais da metade das 2,6 Gt de CO2 das emissões líquidas emitidas anualmente por desmatamento entre 2010 e 2014 está vinculada à pecuária e produtos oleaginosos, principalmente soja e óleo de palma. O artigo descobriu ainda que de 29% a 39% dessas emissões de CO2 estão vinculadas ao comércio internacional de commodities agrícolas, dependendo do modelo adotado.

Javier Godar, pesquisador sênior do Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI, em inglês) e co-fundador da Trase, é um dos autores do artigo. O trabalho, que tem como autores principais Florence Pendrill e Martin Persson, da Chalmers University, foi elaborado em colaboração com pesquisadores do Centro de Pesquisas de Biodiversidade e Clima Senckenberg, na Alemanha, e da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia.

De acordo com Godar, o estudo é um passo importante para entender o papel do comércio internacional de commodities agrícolas nas emissões globais, porque pela primeira vez todos os países tropicais foram analisados e calculados não apenas as emissões para os fluxos diretos, mas também o consumo de produtos mais complexos em que as commodities agrícolas estão embutidas.

“O resultado mais surpreendente está relacionado ao fato de que as emissões por desmatamento embutidas nas commodities agrícolas exportadas rivalizam com as emissões da produção agrícola e pecuária dos países importadores. Isso ressalta a necessidade de incluir as emissões extraterritoriais na contabilidade nacional e do apoio e financiamento por parte dos países consumidores a políticas de combate ao desmatamento e práticas agrícolas mais sustentáveis nos países produtores”, afirma o pesquisador.

Uma imagem complexa

O documento também mostra uma grande variação entre países e commodities vinculadas às emissões por desmatamento. Por exemplo, a América Latina exporta 23%-34% de suas emissões em suas commodities agrícolas e florestais. Destes, 71–89% estão em oleaginosas e 11–21% em carne de gado. A região da Ásia-Pacífico exporta uma parcela maior de suas emissões (44–49%) e a África, uma parcela menor (9–32%).

Em todo o mundo, as exportações de produtos oleaginosos respondem por 62–76% das emissões relacionadas ao desmatamento, principalmente provenientes da Ásia-Pacífico e da América Latina para a Europa, China e Oriente Médio.

O mesmo vale para outras culturas de alto valor, como cacau, café, chá e especiarias, com 68–75% das emissões exportadas.

 

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Resumo das emissões embutidas na produção para grupos de commodity por região

Do produtor para o consumidor

A Europa e a China são os principais importadores de gado e produtos oleaginosos advindos de florestas tropicais. Para muitos países desenvolvidos, as emissões por desmatamento embutidas nas importações rivalizam ou excedem as emissões da agricultura doméstica. O desmatamento foi responsável por cerca de um sexto da pegada de carbono de uma dieta padrão na União Europeia (UE), por exemplo.

Os resultados do estudo podem ainda orientar políticas de mitigação aos impactos das mudanças climáticas.

Além de reforçar que os esforços para reduzir o desmatamento tropical devem se concentrar em um punhado de commodities e de relações comerciais, os autores sugerem que impostos em produtos alimentícios exportados poderiam ajudar a lidar com as pegadas de carbono por desmatamento de alguns produtos agrícolas e florestais.

“Se você der suporte aos países tropicais em seu trabalho para proteger a floresta tropical, e der aos agricultores alternativas ao desmatamento para aumentar a produção, isso pode ter um grande impacto”, acrescenta a autora principal, Florence Pendrill.

No entanto, os autores enfatizam que as intervenções nos países produtores são essenciais, pois a demanda doméstica ainda é responsável por mais da metade das emissões relacionadas ao desmatamento.

O estudo foi parcialmente financiado pelo PRINCE, projeto que explorou novos indicadores ambientais relevantes para a política de consumo da Suécia.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Trase em Português [Aqui!]

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