Um aborto a cada quatro grávidas

A cidade em que o agrotóxico glifosato contamina o leite materno e mata até quem ainda nem nasceu

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Por Nayara Felizardo para o “The Intercept”

O FILHO DE MARIA Félix, de 21 anos, resistiu pouco mais de seis meses de gestação. Morreu ainda no ventre, com apenas 322 gramas. A causa do aborto, que aconteceu com 25 semanas de gravidez, foi má formação: o bebê tinha o intestino para fora do abdômen e também problemas no coração. Não é incomum que as mães da região percam seus filhos precocemente. O bebê de Maria, ao que tudo indica, foi mais uma vítima precoce do agrotóxico glifosato, usado em grandes plantações de soja e de milho em Uruçuí, a 459 km de Teresina, no Piauí.

O mesmo veneno que garante a riqueza dos fazendeiros da cidade, no sul do estado, está provocando uma epidemia de intoxicação com reflexo severo em mães e bebês. Estima-se que uma em cada quatro grávidas da cidade tenha sofrido aborto, que 14% dos bebês nasçam com baixo peso (quase do dobro da média nacional) e que 83% das mães tenham o leite materno contaminado. Os dados são de um levantamento do sanitarista Inácio Pereira Lima, que investigou as intoxicações em Uruçuí na sua tese de mestrado em saúde da mulher pela Universidade Federal do Piauí.

Conheci a história de Maria Félix Costa Guimarães na maternidade do hospital regional Tibério Nunes, na cidade de Floriano. É para lá que as mulheres de Uruçuí são encaminhadas quando têm problemas na gravidez. Nos primeiros exames, feitos em julho, já havia sido identificada a má-formação no feto. Em setembro, no leito do hospital, encontrei a jovem, que lia a Bíblia e se recusava a comer. Carregava um olhar entristecido, meio envergonhado. Ela tinha sofrido o aborto no dia anterior e aguardava o médico para fazer uma ultrassom e se certificar de que não seria necessária a curetagem (cirurgia para retirada de restos da placenta).

Maria não tinha condições emocionais para conversar, por isso falei com a sua tia, a intercept 2funcionária pública Graça Barros Guimarães. Ela não sabia sobre a pesquisa realizada em Uruçuí, mas acredita nos resultados apontados por Lima. “Se a gente for avaliar, o agrotóxico causa problema respiratório e de alergia. Então é claro que se a mulher tiver grávida, o bebê pode se contaminar também”.

Graça me contou que a sobrinha sempre esteve rodeada de fazendas de soja. A casa onde vive, em Uruçuí, fica a cerca de 15 km de uma plantação. Antes, ela morava na zona rural do município de Mirador, no Maranhão, onde também há plantio de soja. “Os fazendeiros tomaram conta de tudo.”

 

Laudo do ultrassom que constatou a morte do bebê. ‘A principal consequência é a atrofia de alguns órgãos’, diz o médico.Imagem: Reprodução

 Em meados de agosto estive em Uruçuí para conversar com profissionais da saúde e com os trabalhadores agrícolas. Eu queria entender como viviam as pessoas no município contaminado pelo glifosato, e se elas tinham noção de que o problema existe. Também liguei para o pesquisador Inácio Pereira Lima, que culpa o agronegócio pelo adoecimento das pessoas. “Tudo isso é consequência do modelo de desenvolvimentoeconômico em que só o lucro está em foco, independente das consequências negativas para a população”, ele me disse.

Epidemia de glifosato

O glifosato é o agrotóxico mais usado no Brasil. É vendido principalmente pela Monsanto, da Bayer, com o nome comercial de Roundup. Seus impactos na saúde humana são tão conhecidos que o Ministério Público pediu que sua comercialização fosse suspensa no Brasil até que a Anvisa fizesse sua reavaliação toxicológica. Em agosto, a justiça aceitou e o glifosfato foi proibido. A suspensão foi classificada como um “desastre” pelo ministro da Agricultura, Blairo Maggi, e foi duramente combatida por ruralistas e pela indústria.

A decisão, no entanto, foi derrubada pela justiça em segunda instância poucas semanas depois. Maggi – que também é conhecido como “rei da soja” – não escondeu o seu entusiasmo com a liberação do agrotóxico:

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A Monsanto diz que o produto é seguro, mas e-mails da empresa divulgados no ano passado mostram que ela pressionou cientistas e órgãos de controle nos EUA para afirmarem que o glifosato não causa câncer. Isso não impediu a Monsanto de ser condenada a pagar mais de R$ 1 bilhão a um homem que está morrendo de câncer nos Estados Unidos. Cerca de 4 mil ações parecidas estão em curso naquele país.

O produto representa quase a metade de todos os agrotóxicos comercializados no Piauí. O pesquisador Lima explicou que a presença da substância no leite materno indica a contaminação direta ou que as quantidades utilizadas na atividade agrícola da região são tão elevadas, que o excesso não foi degradado pelo metabolismo da planta. As mulheres estudadas por ele sequer trabalham nas lavouras: elas estão intoxicadas porque fazem limpeza, cozinham nas fazendas ou porque comeram o herbicida nos alimentos. Lima, em sua tese, explica que o organismo é contaminado pela pele e vias respiratória e oral.

Mulheres, as maiores vítimas

Pelos registros do hospital regional de Uruçuí, os abortos ocorrem geralmente em mulheres entre 20 e 30 anos, que chegam até a 10ª semana de gestação. O número elevado de casos é citado por Iraídes Maria Saraiva, enfermeira plantonista. “São muitas as mulheres que chegam com sangramento ou já com o ultrassom mostrando que o feto não tem batimentos cardíacos. A maioria desses abortos são espontâneos”, me disse.

Muitas mulheres têm a gravidez interrompida logo nas primeiras semanas. Sem saber que estão grávidas, elas seguem trabalhando cercadas pelo glifosato. Quando descobrem, já não há mais o que fazer. “Dificilmente é a primeira gravidez e elas não têm doenças pré-existentes. Quer dizer, são mulheres jovens que aparentam ser saudáveis”, observou a enfermeira.

Há ainda as que sabem que estão esperando um filho mas não podem deixar o trabalho, simplesmente porque dependem do salário. As que passam da fase mais crítica e levam a gravidez até o fim correm alto risco de ter má formação do feto.

Na maternidade de Floriano, o coordenador do setor de obstetrícia Luiz Rosendo Alves da Silva já viu muitos casos de aborto e de má-formação. Ele acredita na culpa dos agrotóxicos. “É uma contaminação lenta, gradual e diária. A principal consequência é a atrofia de alguns órgãos, principalmente coração e pulmão”.

Alanne Pinheiro, enfermeira do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest), observa que as mulheres estão expostas aos agrotóxicos de forma mais perigosa do que os homens que trabalham diretamente na aplicação do veneno. “Elas ficam na cozinha ou fazem a limpeza das fazendas e acabam inalando o agrotóxico de forma indireta. Como não usam roupas especiais, sofrem mais o efeito da intoxicação passiva.”

PIB alto, salário baixo

A cidade de 21 mil habitantes tem as características comuns do interior, onde a vida acontece sossegada e todo mundo se conhece. Quase um terço da população vive na zona rural. No percurso de 40 km do centro até o Assentamento Flores – onde moram muitos dos trabalhadores com quem eu pretendia conversar – quase não há árvores, exceto em pontos isolados ao redor da casa grande, a sede da fazenda. A sensação é de um enorme deserto e uma riqueza distribuída entre poucos.

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Na pacata Uruçuí, mesmo quem não trabalha diretamente na agricultura está sendo contaminado. Foto: Divulgação/Prefeitura Municipal de Uruçuí

Uruçuí não é um município pobre. O PIB per capita, de R$ 49 mil, era o 2º maior do Piauí em 2015, último ano da pesquisa do IBGE. Perdia apenas para a cidade vizinha, a também agrícola Baixa Grande do Ribeiro. Mas na prática, o salário dos trabalhadores é de R$ 1.900 por mês, em média.

Quem enriquece de verdade são os fazendeiros. A maioria deles saiu do sul do Brasil para o cerrado piauiense em busca de terras e do clima ideal para o plantio de suas lavouras. Outros ocupam ou já ocuparam cargos na política como deputados ou vereadores. É o caso do ex-deputado estadual Leal Júnior, eleito três vezes para o mesmo cargo, e da vereadora de Uruçuí Tânia Fianco.

Joana* trabalhou como cozinheira na Fazenda Serra Branca há sete anos. Ela conta que o cheiro do agrotóxico chega até as trabalhadoras, mesmo quando elas não estão nos locais onde o veneno é aplicado. “Dependendo da posição do vento, a gente sentia. E se tivesse aplicando com o avião, era mais forte. Às vezes eu chegava em casa com dor de cabeça e sabia que era do veneno”, lembra ela, que prefere não se identificar. “Sabe como é, né? A gente depende das fazendas”, conforma-se. O marido ainda trabalha no agronegócio.

Se os males causados pelos agrotóxicos se limitassem às mães e aos seus bebês, o problema já seria grave o bastante, mas o sanitarista Inácio Pereira Lima faz um alerta. “Como minha pesquisa foi voltada para a mulher, coletei amostras biológicas exclusivas; por isso foi o leite. Mas, se a pesquisa fosse da população em geral, poderia optar por outro tipo de amostra como sangue ou urina. E talvez chegasse a esses mesmos resultados. Ou seja, toda a população está sob risco, e não só as mães que amamentam”, me explicou o pesquisador.

Ouvi de muitas pessoas da cidade que alguns fazendeiros não são simpáticos com quem os contraria. O conselho que todo mundo me deu foi: “Não fale com eles”. As fazendas têm seguranças armados.

Decidi ir ao escritório da Fazenda Canel, administrada pelas famílias Bortolozzo e Segnini, originárias de Araraquara, no interior de São Paulo. Eles se instalaram no Piauí há 30 anos e são os pioneiros no plantio de soja no estado. Eu queria entender a posição deles. Todos se negaram a conversar comigo. Funcionários justificaram que os responsáveis estavam “viajando para o exterior”.

Mais medo de demissão do que de doença

Na cidade onde quase todo mundo se conhece, o mesmo segredo é compartilhado. Ninguém fala para os profissionais de saúde quando sente os efeitos do agrotóxico no organismo, e dificilmente o hospital é procurado. Se a intoxicação for mais grave, os trabalhadores escondem dos médicos sua possível causa. É muito difícil detectar laboratorialmente doenças causadas por agrotóxico. Se o paciente não fala, muitas internações provocadas pelos químicos não caem na conta deles.

A enfermeira Alanne Pinheiro me disse que as pessoas têm medo de perder o emprego. “Se eles disserem que estão doentes por causa dos agrotóxicos, aquilo pode repercutir na cidade e ficar mal pro fazendeiro. Os trabalhadores têm mais medo de demissão do que de uma doença.”

Há ainda a falta de conhecimento sobre os riscos dos agrotóxicos. “Eles nem acreditam que possa acontecer algum problema grave porque os danos só aparecem a longo prazo. Não existe a percepção de que os males se acumulam e podem trazer doenças irreversíveis, como um câncer que já se descobre em metástase”, diz Alanne.

Um possível exemplo é João*, marido de Helena*. Conversei com ela porque João sai cedo para a Fazenda Nova Aliança e só chega à noite. Este ano, o trabalhador teve uma alergia nos braços, mas decidiu tratar em casa. Sem avaliação médica e sem exames, João se auto-medicou. “Acho que não foi agrotóxico, porque ele é pedreiro e não mexe com veneno. Deve ter sido por causa do cimento”, opina a mulher.

É comum que os moradores atribuam os sintomas da intoxicação a outras causas. “Os pacientes chegam com queixas vagas, como ardência nos olhos. Mas, quando a gente começa a investigar, eles não falam tudo”, comenta a enfermeira Iraídes. Nas raras vezes em que vão ao hospital, são levados por algum funcionário da fazenda. Com essa vigília, o medo de perder o emprego é maior e a saúde fica em segundo plano.

O Centro de Referência em Saúde do Trabalhador está tentando evitar o alto índice de subnotificação: eles treinam os enfermeiros e médicos para que notifiquem os casos de intoxicação quando perceberem os sintomas, independente do que afirmam os pacientes.

Tecnologia para o lucro

Geivan Borges da Silva é técnico em agropecuária e presta assessoria para muitos fazendeiros de Uruçuí. Ele defende que o uso de sementes transgênicas reduz a necessidade de agrotóxicos. “Quase 100% das áreas plantadas aqui são de variedades transgênicas, resistentes a muitos tipos de praga e ervas daninhas”, ameniza.

Na verdade, as provas científicas dizem o contrário. O dossiê sobre agrotóxicos da Abrasco, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, mostra que o uso de transgênicos aumentou a necessidade de defensivos agrícolas. É só olhar para a soja, campeã no uso de agrotóxicos: 93% da safra é transgênica, e a quantidade de litros de produtos químicos aumentou mesmo assim.

Na região sul do Piauí, as sementes de milho, soja e algodão também são vendidas pela Monsanto, a mesma que fornece o glifosato, de acordo com o cadastro de junho de 2018 da Agência de Defesa Agropecuária do Piauí, a Adapi.

Outra tecnologia defendida por Silva é a que minimiza a disseminação do agrotóxico no ar: usa-se um produto que aumenta o peso da gota, fazendo com que ela desça diretamente na planta e não disperse com o vento. “Tudo é agricultura de precisão para reduzir os custos”, argumenta.

É certo que essas tecnologias otimizam a produção agrícola, mas elas foram incapazes de evitar a intoxicação de Emanuel*, que trabalha como operador de máquina de aplicação de agrotóxico na Fazenda Condomínio União 2000.

Após um ano trabalhando, Emanuel sentiu tontura, fraqueza, ardência nos olhos e chegou a vomitar. Quem conta essa história é a esposa dele, Rosa*. “Nós fomos pro hospital e quando saiu o resultado do exame, deu que tinha agrotóxico no sangue. A médica passou remédio, mandou ele se afastar do trabalho por um tempo e tomar muito leite”.

Emanuel melhorou, mas há três anos voltou para o mesmo ofício. “Ele já me disse que só fica até o final desse ano. Não vale a pena perder a saúde por causa de dois mil por mês”, diz Rosa. Eram 18h quando me despedi. O marido dela ainda não tinha chegado. Ele trabalha para a vereadora Tânia Fianco, do PSDB.

No Brasil, o Projeto de Lei conhecido como PL do Veneno pretende liberar mais rapidamente vários produtos, entre eles muitos que são à base de glifosato. O lobby da indústria é pesado, e ataca sobretudo a Anvisa, agência reguladora suscetível a todo tipo de pressão e que já mostrou que está disposta a fazer o jogo das grandes corporações.

*Os nomes dos trabalhadores foram alterados para preservar suas identidades.

Foto em destaque: ultrassom que constatou a má-formação no filho de Maria Félix. Ele morreu ainda no útero, com 25 semanas, por causa de má-formação no abdômen e no coração.


Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo site jornalístico “The Intercept” [ Aqui!]

Bayer sofre queda acentuada nas bolsas após segunda condenação ligada ao uso de Roundup (Glifosato)

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Segunda condenação na Califórnia por causa da associação com o Linfoma de Non Hodgkin transforma o Round Up (Glifosato) em grande dor de cabeça para a multinacional alemã Bayer.

A segunda condenação imposta ao Glifosato por um tribunal do estado da Califórnia causou um terremoto para a multinacional alemã Bayer nas bolsas de valores. Como informou hoje o jornal Financial Times, uma corte federal de San Francisco acatou ontem os argumentos apresentados pelos advogados de Edwin Hardeman foi um “fator substancial” para causar-lhe um câncer do tipo Linfoma de Non Hodgkin.

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Queda nos valor das ações da Bayer após condenação na Califórnia. Fonte: Financial Times.

O problema para a Bayer é que existem cerca de outros 11.000 casos em tramitação apenas em tribunais estadunidenses, e nos dois casos já julgados houve a condenação em função do reconhecimento de que o contato prolongado com o Glifosato pode ser um fator causal no desenvolvimento do Linfoma de Non Hodgkin.

Segundo analistas consultados pelo Financial Times apontaram que a recente queda no preço das ações da Bayer fez com que os mercados já tivessem um risco de litígios de mais de  R$ 110 bilhões apenas nos casos arrolados nos EUA.

Enquanto isso aqui no Brasil, o Glifosato ganhou sinal verde da ANVISA para continuar a ser um dos principais agrotóxicos sendo consumidos em território nacional.  Isso, no entanto, não deverá impedir que também aqui a Bayer venha a ter dores de cabeça (e perdas igualmente altas) por causa de processos de pessoas que eventualmente desenvolveram o Linfoma de Non Hodgkin. 

Liberado pela Anvisa no Brasil, nos EUA glifosato recebe segunda condenação por causar câncer

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A decisão no caso de Edwin Hardeman vem depois de um veredicto histórico no ano passado que disse que o Roundup causou o câncer terminal de outro homem. Foto: Josh Edelson / AFP / Getty Images

Enquanto no Brasil o herbicida Glifosato teve renovada a autorização para comercialização pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária por meio da Nota Técnica 23/2018 e a sua fabricante, a multinacional Bayer, continua fazendo rios de dinheiro por causa disso, nos EUA as coisas estão caminhando num sentido completamente oposto.

É que como informou a Agência Reuters, um segundo juri federal decidiu nesta 3a. feira (19/03) que o contato com o Glifosato foi responsável  pelo desenvolvimento de um câncer do tipo Linfoma de Non Hodgkin em Edwin Hardeman, um homem de 70 anos que trabalhou mais de 30 anos da aspersão de glifosato.

O problema para a Bayer, que adquiriu a Monsanto pela bagatela de US$ 63 bilhões em 2018, é que este caso foi apenas o segundo dos cerca de 11.200 processos de pessoas que acreditam que sua saúde foi prejudicada pelo contato constante com o Glifosato.  O primeiro processo, movido por Dwayne Lee Johnson, teve uma condenação de US $ 289 milhões em agosto, mas que depois foi reduzido US $ 78 milhões na segunda instância, e agora está em uma instância superior.

O pior para Bayer é que no dia 28 de Março outro processo similar será analisado por outor juri, agora envolvendo um casal que postula que o Glifosato está na origem do Linfome de Non Hodgkin que os acometeu.

É por isso que eu venho afirmando que o Brasil acabará sendo transformado numa espécie de zona de sacrifício  capitalista, pois só aqui substâncias que já foram ou estão sendo banidas em outras partes do mundo acabam ganhando passa livre de quem deveria zelar pela saúde pública.

Deutsche Welle faz matéria sobre o massacre das abelhas no Brasil

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Por que o Brasil deveria se importar com a morte de abelhas

País enfrenta mortandade de colmeias em vários estados. Diminuição das espécies tem impactos na agricultura, meio ambiente e economia. Mas tema ainda é negligenciado.

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A morte de abelhas não é um fenômeno recente: é observada por pesquisadores ao menos desde a década passada. No entanto, nos últimos meses a mortandade alcançou números alarmantes no Brasil.

“A morte de abelhas não é só um risco para o Brasil, mas para o mundo todo. Quando se pensa em abelhas, se pensa em mel. O principal produtos delas, porém, é a polinização”, afirma Fábia Pereira, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na área de Apicultura.

Apenas nos últimos três meses, 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas por apicultores no país, segundo um levantamento feito pela ONG Repórter Brasil em parceria com a Agência Pública. A grande maioria dos casos foi registrada no Rio Grande Sul, seguido por Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e São Paulo.

Além da morte em massa de colmeias em apiários, cinco espécies nativas de abelhas estão ameaçadas de extinção – três delas habitam a Mata Atlântica, uma o Cerrado e outra o pampa gaúcho. Não há dados, porém, sobre a mortandade em comunidades selvagens.

As abelhas são responsáveis pela polinização de cerca de 70% das plantas cultivadas para alimentação, principalmente frutas e verduras. Sua morte coloca em risco a agricultura e, consequentemente, a própria a segurança alimentar. Sem elas, o ser humano enfrentaria uma mudança drástica na sua dieta, que ficaria restrita apenas a culturas autopolinizáveis, como feijão, arroz, soja, milho, batata e espécies de cereais.

Além da agricultura, as abelhas são ainda agentes fundamentais para a polinização de florestas nativas. Seu desaparecimento poderia desencadear a morte de ecossistemas inteiros. “Se o homem parasse de fazer qualquer outra intervenção ambiental, e as abelhas apenas sumissem, haveria um desaparecimento da mata correspondente a entre 30% e 90% do que temos hoje, provocando um processo de extinção em cadeia até chegar em nós que estamos no topo”, ressalta Pereira.

Essa mortandade tem ainda potencial para impactar a economia brasileira. O país é o oitavo produtor mundial de mel e, em 2017, as exportações totalizaram 121 milhões de dólares. A diminuição na produção diante da redução do número de colmeias resultaria numa queda nas vendas. Além disso, em caso de mortes causadas por agrotóxicos, resíduos destas substâncias possivelmente poderiam ser encontrados no mel, o que levaria compradores estrangeiros a rejeitarem o produto brasileiro.

“A exportação para a Europa é muito exigente, e qualquer resíduo é detectado. O mel que foi produzido nos últimos meses está contaminado. No exterior, ninguém vai querê-lo, e não há um mercado interno suficiente para a quantidade produzida. Isso vai desestimular a apicultura”, afirma o engenheiro agrônomo Aroni Sattler, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Números alarmantes

A morte de abelhas começou a chamar a atenção mundial a partir da identificação do Distúrbio do Colapso das Colônias (CCD), em 2006 nos Estados Unidos, quando um forte surto dizimou milhares de colmeias. Na Europa, fenômenos semelhantes estão sendo observados desde o fim da década de 1990. Pesquisadores descobriram que, além das doenças e da redução do habitat das espécies, os agrotóxicos são um dos fatores que desencadeia essa mortandade.

Além da toxidade elevada de alguns defensivos agrícolas, contribui para esse cenário o uso incorreto destas substâncias. Elas são aplicadas durante o dia, quando as abelhas estão fora das colmeias, sem seguir parâmetros de segurança e sem comunicar apicultores para que possam deixar as caixas fechadas.

No atual caso brasileiro, pesticidas à base de neonicotinoiedes e de fipronil foram os principais agentes causadores das mortes. “O histórico da mortandades agudas que temos constatado deixa muito claro a sua relação com o uso de agrotóxicos”, ressalta Sattler, especialista em apicultura.

No Rio Grande do Sul, onde mais de 400 milhões de abelhas morreram só no primeiro trimestre, 80% das mortes foi causada pelo fipronil, inseticida usado amplamente em lavouras de monoculturas, mas também em pequenas propriedades rurais. A substancia é ainda muito popular no extermínio de formigas e em remédios veterinários para controle de insetos, como pulgas. Em Santa Catarina, resquícios do pesticida foram detectados em colmeias mortas entre o fim do ano passado e início deste.

“Precisamos começar a questionar o modelo agrícola atual. Os efeitos da expansão do monocultivo baseados em agrotóxicos estão comprovados. Os Estados Unidos tinham 6 milhões de colmeias na década de 1940, e hoje estão com cerca de 2,5 milhões”, destaca Sattler.

Pressão popular

Na Europa, a morte abelhas é há alguns anos um tema presente na mídia e na política. Em 2017, um estudo chamou atenção da opinião pública alemã ao revelar que as populações de insetos voadores haviam recuado 75% ao longo de 25 anos no país. A pesquisa desencadeou um debate sobre a questão.

Atualmente na Alemanha, a iniciativa popular “Salvem as abelhas” que forçar o governo da Baviera a buscar soluções para a diminuição da biodiversidade. A proposta prevê o incentivo à agricultura orgânica, proteção de matas ciliares, a ampliação da ligação de habitats naturais e o banimento de agrotóxicos.

A pressão popular e de ativistas ambientais foi fundamental para a União Europeia (UE) aprovar no ano passado a proibição de três substâncias neonicotinoides – clotianidina, imidacloprida e tiametoxam, que danificam o sistema nervoso central de insetos, incluindo as abelhas. Já a França foi mais além e baniu cinco inseticidas desta categoria de derivados da nicotina.

Já o fipronil teve seu uso restrito na Europa. Proibida completamente na França desde 2004 e, posteriormente, em vários países europeus, a aplicação do pesticida na União Europeia foi limitada em 2013 a cultivos em estufas e de alho-poró, cebola, cebolinha e couve. A substância também é banida da indústria alimentícia do bloco, podendo ser usada apenas para combater pulgas, piolhos e carrapatos de animais domésticos.

A Europa patina, porém, ainda no banimento do glifosato, outro defensivo agrícola que, segundo uma pesquisa divulgada no ano passado, é prejudicial às abelhas.

Enquanto países europeus estão reavaliando e restringindo o uso de agrotóxicos, o Brasil nos últimos meses tem incentivado a liberação de defensivos agrícolas. Em relação às abelhas, o tema ainda é negligenciado, ainda mais diante do impacto que a extinção destas espécies pode ter.

“Apesar de todos os esforços, ainda não conseguimos sensibilizar suficientemente o público em geral e o próprio governo sobre a importância de trabalharmos na proteção das abelhas. Já foram realizados eventos sobre o assunto, reuniões explicando a importância das abelhas e com sugestões de políticas públicas, mas ainda precisamos avançar nas ações efetivas”, ressalta Pereira.

Satller tem opinião semelhante. “A situação é bastante grave, mas ainda dá para reverter”, afirma o pesquisador, que defende o questionamento do atual modelo do agronegócio no país e a restrição do uso indiscriminado de agrotóxicos

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A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas

Esta matéria foi publicada originalmente publicada pela Deustche Welle [ Aqui!]

Cientistas descobrem herbicida natural que pode substituir glifosato

Eles encontraram uma molécula de açúcar que é inofensiva para as células humanas.

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Por Redação CicloVivo

Pesquisadores da Universidade de Tübingen, na Alemanha, descobriram uma substância natural que pode competir com o controverso herbicida glifosato. Trata-se de uma recém-descoberta molécula de açúcar sintetizada a partir de cianobactérias que inibe o crescimento de vários microorganismos e plantas, mas é inofensiva para humanos e animais. O estudo foi conduzido pelo Dr. Klaus Brilisauer, professor Stephanie Grond (Instituto de Química Orgânica) e professor Karl Forchhammer (Instituto de Interfaculdade de Microbiologia e Medicina de Infecção) e foi publicado na revista Nature Communications.

Ingredientes ativos para uso farmacêutico ou agrícola geralmente se originam de substâncias naturais. Estas substâncias podem consistir em estruturas químicas complexas, mas também podem ser relativamente simples. A engenhosidade desses ingredientes ativos geralmente reside em sua simplicidade: os antimetabólitos interagem com os processos vitais da célula, imitando os produtos metabólicos. Isso interrompe o processo biológico, que pode inibir o crescimento celular ou até mesmo matar a célula.

Químicos e microbiologistas da Universidade de Tübingen descobriram um antimetabólito muito incomum com uma estrutura química impressionantemente simples: uma molécula de açúcar com o nome científico de “7-deoxy-sedoheptulose (7dSh)”. Ao contrário dos carboidratos comuns, que normalmente servem como fonte de energia para o crescimento, essa substância inibe o crescimento de várias plantas e microorganismos, como bactérias e leveduras. A molécula de açúcar bloqueia uma enzima chave da via do chiquimato, uma via metabólica que ocorre apenas em microorganismos e plantas. Por essa razão, os cientistas classificam a substância como inofensiva para humanos e animais e já demonstraram isso em estudos iniciais.

O raro açúcar foi isolado das culturas da cianobactéria de água doce Synechococcus elongatus, que é capaz de inibir o crescimento de cepas bacterianas relacionadas. Enquanto procuravam a causa dessa inibição do crescimento, os cientistas conseguiram decifrar a estrutura do composto natural. 

Em detalhe, os cientistas descobriram que o 7dSh bloqueia a DHQS (Dehydroquinatesynthase), uma enzima da via do chiquimato. Um dos inibidores mais conhecidos desta via metabólica até agora é o herbicida glifosato. “Em contraste com o glifosato, o açúcar desoxi recém-descoberto é um produto totalmente natural. Acreditamos que ele tem boa degradabilidade e baixa ecotoxicidade”, afirma o Dr. Klaus Brilisauer. Até agora, o 7dSh inibe o crescimento das plantas de forma promissora. “Vimos aqui uma excelente oportunidade de usá-lo como um herbicida natural”, completa. 

Os cientistas esperam substituir a longo prazo os herbicidas controversos, que representam um risco para a saúde. No entanto, a eficácia no campo, a degradabilidade do solo e a inofensividade para o gado e os seres humanos, em relação ao 7dSh, ainda precisam ser mais investigadas em estudos abrangentes de longo prazo.

O estudo completo, em inglês, pode ser lido aqui.


Este artigo foi originalmente publicado pelo site CicloVivo [Aqui!]

Sob os auspícios do governo Bolsonaro, Brasil está se tornando o último refúgio de agrotóxicos banidos no resto do mundo

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A Rede Brasil Atual publicou hoje a péssima notícia de que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) resolveu desprezar o conhecimento científico existente sobre a relação entre o agrotóxico Glifosato e o desenvolvimento de diversos tipos de tumores cancerígenos (sendo  o temível Linfoma de Non-Hodgkin (LNH) o mais conhecido deles) e fez publicar a Nota Técnica 23/2018 onde o herbicida mais usado no mundo é exonerado de quaisquer responsabilidade pelo desenvolvimento de tumores sólidos e não sólidos. 

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Ativistas pressionam Comissão Européia para que haja o completo banimento do Glifosato. A França foi o primeiro país a banir o produto, mas outros deverão seguir o exemplo.

A primeira coisa que se deve notar é que pesquisa recente  publicada em fevereiro de 2019 pela revista Mutation Research, e que foi realizada por pesquisadores ligados à Enviromental Protection Agency (EPA) apontou no sentido totalmente oposto à Nota Técnica 23/2018, notadamente no caso do LNH.

À luz de uma pesquisa de inquestionável soludez científica, os técnicos da ANVISA certamente poderão reconhecer que se equivocaram em exonerar o Glifosato de seu potencial para desenvolver tumores cancerígenos. Mas acredito que isto não ocorrerá por um simples motivo: existem outros agrotóxicos ainda mais perigosos e banidos em outras partes do mundo que continuam sendo livre e legalmente vendidos no Brasil.

O exemplo mais expressivo da permissividade da legislação brasileiro quanto ao uso de agrotóxicos que já foram banidos em outros países é o Paraquat que foi desenvolvido pela multinacional Syngenta (hoje absorvida pela multinacional chinesa ChemChina).

A má reputação do Paraquate (que no Brasil é vendido sob o nome de fantasia Gramaxone e fabricado pela Nortox) se deve ao fato de que seu princípio ativo tem sido associado ao desenvolvimento de vários tipos de doença, incluindo depressão, danos ao sistema neurológico que podem resultar no desenvolvimento da Síndrome de Parkinson e câncer de pele.

Devido ao amplo conhecimento científico dos danos causados pelo Paraquate à saúde humana fizeram com que a China, que hoje é o maior produtor desta substância e responsável por 80% da produção mundial, decidisse suspender completamente a sua produção e venda em escala mundial em setembro de 2020, já tendo banido o consumo interno em 2016.

Enquanto isso no Brasil, a Anvisa postergou o banimento do Paraquate para setembro de 2020, justamente para o mesmo período em que a China deixará de ofertar o produto em escala mundial. E ainda assim, os representantes do latifúndio agro-exportador está pressionando pela manutenção das vendas do Paraquate no Brasil!

Mas os casos do Glifosato e do Paraquate estão longe de ser únicos, pois o governo Bolsonaro, por meio do Ministério da Agricultura comandado pela deputada federal e “musa do veneno” Tereza Cristina (DEM/MS), vem trabalhando para aprovar via um “fast track” a aprovação de várias substâncias banidas em outras partes do mundo, inclusive nos EUA. Com isso, o  Brasil vem se tornando uma espécie de zona preferencial para a venda de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo. Os resultados desse afã por venenos que o resto do mundo já proibiu certamente terá consequências desastrosas para os agricultores e consumidores brasileiros.

Tereza Cristina (DEM/MS), atual ministra da Agricultura, foi uma das principais defensoras do “Pacote do Veneno” no Congresso Nacional.

Entretanto, como já venho dizendo, que ninguém se surpreenda se em um futuro não mito distante, boa parte da produção agrícola brasileira for colocada sob um rígido cordão sanitário por causa da ação irresponsável em face do uso intensivo e descontrolado de agrotóxicos banidos.  Em outras palavras, o chamado “Projeto de Mefistófeles” ainda sairá muito caro para o Brasil.

Estudo encontra glifosato em amostras de vinho e cerveja vendidos nos EUA

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Um estudo realizado por um grupo de proteção aos consumidores no estado da Califórnia, o CALIFORNIA PUBLIC INTEREST RESEARCH GROUP, encontrou diferentes níveis de contaminação pelo herbicida Glifosato em 19 de 20 amostras analisadas para algumas das marcas mais consumidas de vinho e cerveja. O estudo foi tornado público no último dia 25 de Fevereiro e traz uma sértie de alertas para o controle de resíduos deste agrotóxico, ainda que seus autores reconheçam que os níveis de concentração encontrados nas amostras analisadas ainda foram consideravelmente baixos.

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Entre as marcas de vinho, a maior concentração de Glifosato foi encontrado  no “Sutter Home Merlot” com 51,4 ppb (partes por bilhão) ou 51,4 ug/L , enquanto nas cervejas a marca chinesa Tsingtao Beer foi a que destacou com 49,7 ppb. Entretanto, marcas famosas como Coors and Miller Lite também apresentaram concentrações de 25 ppb.

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Os autores do relatório enfatizaram que os níveis de glifosato encontrados não são necessariamente perigosos, mas que  ão preocupantes os riscos potenciais para a saúde. Segundo eles, o surpreendente é que o glifosato encontrou seu caminho em quase todos os tipo de cerveja e vinho testados, incluindo produtos orgânicos. Isso indicaria que os consumidores que quiser evitar o glifosato, devido aos seus efeitos na saúde, teriam dificuldades em fazê-lo.

O relatório concluiu que dada a onipresença do glifosato encontrada em muitos alimentos testados por outros cientistas e grupos, e a quantidade de glifosato pulverizado em todo o território estadunidesne as pessoas estão constantemente sendo expostas ao glifosato.

Como estão emergindo cada vez mais evidências das ligações do glifosato com diferentes tipos de câncer, os resultados deste estudo deverão trazer sérias consequências para os fabricantes de vinhos e cervejas que desejem vender seus produtos nos EUA. Enquanto isso no Brasil, o governo Bolsonaro vem aprovando uma quantidade absurda de agrotóxicos muito mais tóxicos do que o glifosato, sem que haja qualquer tipo de reação palpável até o momento. 

Quem desejar acessar o relatório da CALIFORNIA PUBLIC INTEREST RESEARCH GROUP, basta clicar [Aqui!]

Mais de 11.000 pessoas estão processando a Bayer por causa do risco de câncer associado ao uso do Glifosato

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Por David Meyer para a revista Fortune

A Bayer está agora enfrentando cerca de 11.200  processos judiciais por causa das implicações negativas para a saúde do Roundup e do Ranger Pro, seus herbicidas à base de glifosato.

A gigante alemã revelou a figura na quarta-feira ao anunciar seus resultados para o ano fiscal de 2018. As vendas no ano subiram 13% e o EBITDA antes de itens especiais cresceu 2,8%, mas o lucro líquido do ano caiu mais de três quartos devido a um encargo de prejuízo de US $ 3,8 bilhões e outro encargo de US $ 2,3 bilhões em conexão com a aquisição da Monsanto, fabricante do Roundup.

“Nos últimos anos, temos sistematicamente desenvolvido em uma empresa de ciências da vida, claramente alinhado às megatendências em saúde e agricultura e unidos sob a forte marca guarda-chuva Bayer”, disse o presidente da Bayer, Werner Baumann. “A aquisição na área agrícola nos elevou à posição número um nesse mercado. A integração com a Monsanto teve um excelente começo ”.

As ações da Bayer, que tiveram grandes perdas no ano passado de julgamentos judiciais relacionados ao glifosato, subiram 4,7% no anúncio dos resultados. A empresa está atualmente apelando contra uma decisão que diz que seus produtos da Monsanto são responsáveis pelo câncer do jardineiro Dewayne Johnson. Mais sete casos estão previstos para ir a tribunal este ano – na verdade, um começou esta semana. No final de 2018, a Bayer disse que sabia de 9.300 demandantes. Isso significa um aumento de 20% nas reclamações em apenas três meses. “Temos a ciência do nosso lado e continuaremos a defender vigorosamente esse importante e seguro herbicida para uma agricultura moderna e sustentável”, disse Baumann.


Este artigo foi publicado originalmente em inglês pela revista Fortune [Aqui!]

“Menos amor, mais glifosato” derruba o mito da dominação marxista nas universidades brasileiras

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Menos amor, mais glifosato, a mensagem “engraçada” de estudantes de Agronomia da Universidade Federal de Goiás.

Encontrei a notícia abaixo circulando pela minha linha do tempo na rede social Facebook e, apesar, de ser quase 2 anos velha, a mesma me parece muito útil para o necessário debate acerca de uma suposta dominação do “Marxismo Cultural” nas universidades brasileiras, especialmente as públicas.  Essa fotografia que foi retirada da página oficial da EMATER de Goiás mostra um grupo de estudantes do curso de Agronomia da Universidade Federal de Goiás fazendo uma estranha apologia do herbicida mais vendido no mundo, o Glifosato, que hoje se encontra sob profundo escrutínio por suas supostas relações causais com o Linfoma de Non-Hodgkin, uma forma bastante agressiva de câncer que atinge células sanguíneas.

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Pois bem, mesmo que a relação causal do glifosato com o Linfoma de Non-Hodgkin seja motivo de controvérsia, o que de fato ela segue sendo, o que pode levar a um grtupo de jovens estudantes e futuros engenheiros agronômos, que estão sendo formados por uma universidade pública, a exporem uma mensagem tão acientífica como esta? E, pior, ainda lucrarem com isso já que cada camiseta era vendida a R$ 35,00!

Afora a questão imediata do que significa espalhar que venenos agrícolas são mais importantes que o amor, o problema mais de fundo se refere à própria formação curricular que está sendo dada a esses estudantes. É que não há como simplesmente aparecer a ideologia do “veneno vencendo o amor” do nada. Há que haver firmada uma profunda convicção de que agrotóxicos não só são “seguros”, mas como podem ser motivo de piadas e formas de profundo de renda até com camisetas vestidas por estudantes.

E voltando à questão inicial da suposta invasão do “Marxismo Cultural” nas universidades públicas, o que este caso escancara é que o problema que nos aflige é de natureza bem diversa, e começa pela aceitação de que temos de naturalizar os inevitáveis riscos trazidos por um modelo produtivo que reconhecidamente é viciado em venenos agrícolas. Essa aceitação tem tudo a ver com uma lógica que não tem como estar associada a qualquer variante (real ou imaginada) do Marxismo.

Finalmente, eu fico curioso para saber se a coordenação do curso de Agronomia da Universidade Federal de Goiás adotou algum tipo de medida pedagógica para aumentar o grau de consciência dos estudantes e futuros profissionais  sobre as implicações sociais, ambientais e econômicos do alto uso de venenos agrícolas pela agricultura brasileira. E quando falo de pedagógica, isto falando no sentido literal da palavra. É que a suposta piada contida na camiseta dos estudantes goianos revela, acima de tudo, que eles não entendendo a gravidade do problema com que terão de se defrontar na sua vida profissional.

 

Argentina: o fundo de um afluente do Rio Paraná tem mais glifosato que um campo de soja

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Um estudo recente da Conicet detectou a presença alarmante de agroquímicos e metais pesados ​​na bacia de um dos principais rios do país.

“Não há nenhuma razão de Estado e dos interesses económicos das empresas para justificar o silêncio quando se trata de saúde pública”, disse o pesquisador Andres Carrasco (1946-2014), o cientista argentino célebre que desafiou a política estabelecimento e seus pares-a denunciar os efeitos nocivos do uso de glifosato em cultivos transgênicos quando ninguém fez.

Essa mesma frase lembrou Dr. Damian Marino, CONICET pesquisador e professor da Faculdade de Ciências Exatas da Universidade Nacional de La Plata (UNLP), durante uma palestra no Chaco, que apresentou os resultados de estudos que comprovaram a presença de resíduos de agroquímicos e metais pesados ​​nas águas do rio Paraná.

Como para os detalhes, a biólogo revelou que na secção superior da bacia “não há concentrações de vários insecticidas para uso agrícola”, enquanto que a partir da média para baixo “contém uma contaminação múltipla” com alguns metais e especialmente com glifosato.

“Eles são os sites mais afetados. O glifosato é uma molécula dominante. O Paraná está com problemas “, destacou Marino.

Ele também explicou que, se levadas em conta as normas internacionais, amostras excederam por uma ampla níveis toleráveis ​​presença de margem em relação ao inseticida endosulfan (proibida no país em 2013), e seus substitutos mais tarde: clirpirifós e cipermetrina.

“A publicação científica globalmente validada diz que todas as amostras de água excederam, pelo menos para alguns dos pesticidas, o nível de orientação recomendado para toda a biota aquática e recomenda a articulação de políticas imediatas. Hoje, no mercado mundial, 90 por cento dos pesticidas é o glifosato e os restantes 10% é dividido entre clirpirifós, cipermetrina e endosulfan “, ele disse e mencionou que resultados semelhantes foram obtidos no Rio Paraguai, que também foi incluído no trabalho.     

Os monitoramentos ambientais sobre as bacias Rio Paraná foram definidos em três fases: a primeira foi em 2013, o segundo, em 2016 e, mais recentemente, em Janeiro de 2017, com a presença de produtos agroquímicos em água e sedimento foi ratificado (lama de baixo).

“As amostras foram tomadas na foz dos córregos ou rios que drenam a partir do interior em direção Paraná, a fim de ver o gotejamento permanente sobre o grande rio”, disse Marino, que durante cinco anos (2010-2015) Ele realizou um trabalho de pesquisa sobre o estado dos recursos hídricos na área de Pampa del Índio, junto com a Dra. Alcira Trinelli, especialista em química da UBA e Conicet.

O especialista disse que, a partir das amostras obtidas, os efeitos letais (organismos mortos) e subletais (alteração de desenvolvimento e reprodução) foram analisados. “O que importa que se obteve é ​​que as concentrações de metais não excedeu os níveis de guias”, revelou, e apontou que apenas o chumbo encontrado em quase todas as amostras de sedimentos, abaixo das quantidades aceites, verificando o impacto das actividades humanas das cidades que cruza o Paraná em sua bacia.

Como exemplo, ele mencionou que as águas dos rios San Lorenzo, Saladillo e Pavón possuem sedimentos com concentrações mais altas que causam efeitos letais nos organismos. Em tanto, as implicações subletales foram notadas na alta cuenca (província de Buenos Aires), com alterações no crescimento ligadas a altos níveis de plaguicidas.       

“Olhando para os resultados, vimos que o glifosato estava preso em partículas em suspensão ou fazendo parte do sedimento. A partir da bacia média, a concentração começou a aumentar. E quando chegou ao auge de Luján, aumentou muito “, disse ele.

Levando números explicação e comparações advertiu níveis de glifosato mais AMPA (metabólito na degradação glifosato) encontrados na bacia do rio “são cerca de quatro vezes as concentrações podem estar em um campo plantado com soja”. Então ele concluiu:”O fundo de um rio que deságua no Paraná tem mais glifosato do que um campo de soja.”

Há mais: todas as amostras de água, material em suspensão e sedimento de fundo tiveram presença de inseticidas projetados para matar insetos. “Isso mostra que os inseticidas estão distribuídos em toda a bacia”, disse o pesquisador.

Biodiversidade no outono

O contexto inicial em que Marino localizou sua apresentação foi o relatório do Planeta Vivo, uma organização internacional que produz um índice que mede a biodiversidade do planeta. Este índice foi feito em 10 mil espécies de diferentes tipos. “É visto que entre 1970 e 2010, houve um declínio de 52% das populações em todo o mundo. Mas na América Latina o valor é de 80%. Não é que há menos espécies, mas que os grupos populacionais são menores “, disse ele, e passando para a experiência diária, ele explicou que as pessoas podem observar a presença de quantidades menores de rãs ou peixes.

Como um conceito emergente do relatório, ele enfatizou que em menos de duas gerações humanas, metade da população de espécies que estiveram na Terra durante toda a sua evolução foi destruída. Enquanto isso, usando o conceito de Pegada Ecológica, que é medido em vários países, disse que “a Argentina tem essencialmente uma pegada baseada em sistemas agro-produtivos”.

Então ele disse outra dados gráficos: tomar biocapacidade, ou seja, o quanto você pode oferecer ao mundo sobre o que está sendo usado, e cruzando com informações sobre a evolução da população, pode ser visto que o 08 de agosto de 2016 a humanidade consumiu todos os recursos naturais desse ano. “De lá, consumimos recursos a crédito, estamos levando-os para as gerações futuras. A última vez que saímos foi em dezembro de 1970. Hoje estamos consumindo um ano e meio de planeta. Algo não está indo “, ele avisou.

Nesse sentido, ele ressaltou que os pesticidas “são uma pegada que estamos deixando para os sistemas ecológicos” e disse que eles têm um conceito dinâmico associado a eles. A partir do momento da aplicação, os processos ocorrerão na atmosfera, no solo e outros que ligam o solo à água. Eles são todos dados simultaneamente “.    

O caso de Pampa del Indio

Depois de encontrar o glifosato na água usada para consumo em Pampa del Indio em 2012, a medida provisória teve efeitos e as pulverizações pararam de ser feitas em superfícies perto de cidades. Este foi resumida Doctor química da UBA e CONICET científica, Alcira Trinelli, que durante meia década água estudado para beber e para irrigação na localidade Chaco e lugares na área onde a população indígena é a vulnerabilidade social predominante e de alta .  

“Sabíamos que naquela época havia aviões fumigando sem restrições sobre o afastamento das áreas povoadas. Encontramos níveis elevados, como 500 partes por bilhão na entrada da estação de tratamento de água “, disse Alcira Trinelli.

Trinelli explicou que as amostras foram coletadas na estação de tratamento de água, tanques de água da escola, águas de Napa, Pampa Chica, Lote 4, Campo Medina e Campo Nuevo; o rio Bermejo e a rede de água Presidencia Roca. Houve campanhas de amostragem em 2012, 2013 e 2014.

“Graças à medida de precaução que foi registrada logo após as amostras em que o glifosato foi encontrado, a partir de 2013, as amostras não foram detectadas novamente”, disse ele. A coisa mais preocupante, ele lembrou, era a água analisada na área de Campo Medida, que misturava vários contaminantes.

O estudo em Pampa del Indio surgiu um pedido expresso da comunidade Qom na região, a falta de acesso à água de qualidade, e foi financiado por uma voluntária, concede o secretário de Políticas Universitárias e da própria universidade.

Como detalha Trinelli, o objetivo foi analisar a qualidade da água para consumo e irrigação, e assim poder gerar uma ferramenta científica que serviria para sustentar as reivindicações de acesso à água. “Em todos os lugares encontramos algum tipo de tóxico, exceto no rio Bermejo e na presidencia Roca”, concluiu o especialista.

Fonte: Foro Ambiental / Diario Norte

Links para pesquisar documentos (em Inglês): 


Este texto foi publicado originalmente em Espanhol pelo Foro Ambiental [Aqui!]