Bolsonaro e Zé Trovão, quem diria, uma telenovela legitimamente mexicana

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Tenho lido e ouvido incontáveis análises sobre o cenário criado pelas manifestações convocadas pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 7 de setembro e seu desdobramento mais óbvio, o misto de greve e locaute liderada pelo auto proclamado líder caminhoneiro (não sei por quê, mas lembrei aqui do auto proclamado presidente venezuelano Juan Guaidó)  Marcos Antônio Pereira Gomes, mais conhecido como Zé Trovão.

É que o desdobramento acabou resultando em bloqueios de estradas que, indo além das bravatas de palanque, obrigaram um contrito presidente Jair Bolsonaro a fazer um pronunciamento claramente a contragosto via Whatsapp onde pediu a desmobilização da categoria em nome, pasmemos todos, dos mais pobres, apenas para ser vítima de uma paródia impiedosa do humorista Marcelo Adnet (ver vídeo abaixo).

Agora se sabe que Pereira Gomes (a.k.a Zé Trovão), para evitar ser preso pela Polícia Federal, tinha se mandado para o México, pátria de famosos novelões. E de lá Zé Trovão foi do céu ao purgatório, visto que pode notar o seu lento abandono por parte do presidente da república, algo que já tinha ocorrido com outras figuras que se arvoraram a ser as mãos que transformariam os discursos de Jair Bolsonaro em ações reais, apenas para serem deixados ao léu.

Eu diria que, ao contrário de muitos analistas engalonados, eu modesto vejo que o presidente Bolsonaro acabou sendo enredado na teia que ele mesmo criou, pois agora se arrisca a perder o apoio de um grupo com conhecida capacidade de circulação não apenas de bens e mercadorias, mas também de conteúdos produzidos para acirrar a disputa política no Brasil. Esse desdobramento, convenhamos, promete abrir mais capítulos na telenovela mexicana em que acabamos enfiados nas últimas semanas.

Finalmente, vamos se daqui a pouco não aparece a Ana Raio para tentar salvar o Zé Trovão. É que tudo indica que se depender de Bolsonaro, Zé Trovão vai tomar o raio.

Quem estiver surpreso com o “Agro é Golpe” precisa ler o livro de Caio Pompeia

galvanO presidente da Aprosoja, o latifundiário sojeiro Antonio Galvan, sofreu busca e apreensão em investigação contra manifestações golpistas em 7 de setembro

O envolvimento de entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador na organização dos atos anti-democráticos programados para o dia 7 de setembro tem surpreendido muita gente.  Pessoalmente não compartilho dessa surpresa, pois estou concluindo a leitura do livro “Formação Política do Agro-Negócio” de autoria do antropólogo Caio Pompeia Ribeiro Neto, que foi publicado pela Editora Elefante em fevereiro de 2021.

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Apesar das normais oscilações que marcam o conteúdo de obras sobre assuntos complexos, o livro de Caio Pompeia faz uma excelente radiografia não apenas do nascimento do conceito de “agronegócio” na Universidade de Harvard, e seu posterior entranhamento na realidade brasileira a partir dos esforços corporativos e de docentes da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo, mas também da diligente ação dos líderes de corporações ligadas aos esforço de implantar uma agricultura “a la Revolução Verde” no Brasil e, nada de surpresa, entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador.

O livro mostra ainda que, apesar de fricções internas, os membros ligados ao designado “agro-negócio”  têm atuado desde a Assembleia Nacional Constituinte de 1988 para regredir direitos sociais e a proteção ao meio ambiente, mas também para impedir que a chamada agricultura familiar tenha acesso aos mesmos benefícios que os grandes proprietários rurais usufruem.

A partir dessa de capacidade de superar divergências localizadas a partir de interesses pontualmente opostos, os membros das entidades ruralistas vem agindo de forma coordenada e eficiente para impor no Congresso Nacional uma série de derrotas aos camponeses, quilombolas e povos indígenas.  Caio Pompeu oferece como exemplo a questão do Código Florestal onde a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja) conseguiu sistematizar uma frente unificada para impor no congresso sua agenda anti-social e anti-ambiental e, principalmente, anti-povos indígenas. Aliás, interessante notar que alguns dos aliados da Aprosoja no Congresso Nacional são figuras conhecidas por suas pautas regressivas, incluindo o hoje senador Luiz Carlos Heinze (PP/RS) que tanta vergonha tem passado na CPI da Pandemia.

Desta forma, o envolvimento direta da mesma Aprosoja nos esforços de realizar atos massivos contra o Supremo Tribunal Federal e contra o Congresso Nacional representa uma linha de continuidade de esforços que ocorrem há muito tempo, ainda que a entidade tenha se fortalecido após o “boom” de commodities que ocorreu nos governos do presidente Luis Inácio Lula da Silva. Aliás, este fortalecimento do agronegócio (i.e., latifundio agroexportador rebatizado) é mais um dos resultados das políticas dúbias que marcaram os anos em que o PT esteve à frente do governo federal brasileiro.

Assim, o envolvimento da Aprosoja no financiamento das ações antidemocráticas que visam criar o caos no sistema político brasileiro não é apenas coerente com sua história, mas também bastante alinhado com a visão de país em que seus dirigentes desejam que vivamos todos.

Editorial do “The Guardian” afirma que Jair Bolsonaro é uma ameaça para o Brasil e para o mundo

O presidente de extrema direita do Brasil deu rédeas soltas à COVID-19 e à destruição da Amazônia. Agora parece que ele planeja se apegar a tudo o que os eleitores disserem

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“É possível que, inspirado por Donald Trump, o Sr. Bolsonaro pense em se agarrar ao poder pelo uso da força? Não. É provável. ‘ Fotografia: Joédson Alves / EPA

Editorial do “The Guardian”

A perspectiva de o extremista de direita Jair Bolsonaro se tornar presidente do Brasil sempre foi assustadora . Era um homem com histórico de denegrir mulheres, gays e minorias, que elogiava o autoritarismo e a tortura. O pesadelo se revelou ainda pior na realidade. Ele não apenas usou uma lei de segurança nacional da época da ditadura para perseguir os críticos e supervisionou o maior aumento do desmatamento na Amazônia em 12 anos , mas também permitiu que o coronavírus se alastrasse sem controle, atacando as restrições de movimento, máscaras e vacinas. Mais de 60.000 brasileiros morreram apenas em março. “Bolsonaro conseguiu transformar o Brasil em um gigantesco buraco do inferno”, tuitou o ex-presidente da Colômbia, Ernesto Samper. recentemente. A disseminação da variante P1 mais contagiosa está colocando em perigo outros países .

Com uma pesquisa na semana passada mostrando 59% dos eleitores o rejeitando , Bolsonaro parece estar se preparando para um resultado desfavorável nas eleições do próximo ano. Na semana passada, ele demitiu o ministro da Defesa , um general aposentado e amigo de longa data que, no entanto, parece ter criticado as tentativas de Bolsonaro de usar as forças armadas como ferramenta política pessoal. Os comandantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea também foram demitidos – supostamente quando estavam prestes a renunciar.

O gatilho imediato para as demissões foi o retorno bombástico do ex-presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva, no mês passado, depois que um juiz anulou suas condenações criminais – abrindo a porta para ele concorrer novamente no ano que vem. Os ataques injuriosos de Lula ao presidente são amplamente vistos como o prenúncio de uma nova candidatura ao poder de um político carismático que continua muito popular em alguns setores.

É possível que, inspirado por Donald Trump, o Sr. Bolsonaro pense em se agarrar ao poder pelo uso da força? Não. É provável. As Forças Armadas já anularam a vontade do povo: o Brasil foi uma ditadura militar de 1964 a 1985. Quando a multidão invadiu o Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro, seu filho se opôs não ao ataque, mas à ineficiência: “Foi um movimento desorganizado . É uma pena ”, disse Eduardo Bolsonaro . “Se eles tivessem sido organizados, os invasores teriam se apoderado do Capitólio e feito demandas pré-estabelecidas. Eles teriam poder de fogo suficiente para garantir que nenhum deles morresse e para poder matar todos os policiais ou os congressistas que eles tanto desprezam ”.

Embora a saída dos chefes das forças armadas possa sugerir resistência a um plano de golpe, também permite ao presidente instalar aqueles que ele julga mais obedientes; os oficiais mais jovens sempre foram mais entusiasmados com Bolsonaro. Os políticos da oposição pressionam pelo impeachment , com um aviso: “Há uma tentativa aqui do presidente de organizar um golpe – e isto já está em andamento”.

Existe algum motivo para esperança. Ataques violentos do presidente e seus comparsas não conseguiram conter um ambiente vibrante de mídia, intimidar os tribunais ou silenciar os críticos da sociedade civil. Seu tratamento desastroso da COVID-19 parece estar causando dúvidas entre a elite econômica que anteriormente o abraçava. Algumas partes dos militares aparentemente compartilham desse mal-estar. A possibilidade do retorno de Lula é suficiente para concentrar mentes da direita em encontrar um candidato alternativo, menos extremista do que Bolsonaro. Pode ser irritante ver aqueles que ajudaram sua ascensão se posicionarem como os guardiões da democracia, ao invés de seus próprios interesses. Mas sua saída seria bem-vinda, pelo bem do Brasil e do planeta.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Editorial do “Washington Post” ataca Jair Bolsonaro por condução “charlatanesca” da pandemia da COVID-19 e por suas tentações autoritárias

O presidente Jair Bolsonaro não conseguiu impedir a COVID-19. Agora ele pode estar visando a democracia (brasileira)

bolsonaro wpO presidente brasileiro Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto, em Brasília, nesta quarta-feira. (Ueslei Marcelino / Reuters)

Opinião do Conselho Editorial do “The Washington Post”

O BRASIL ESTÁ vivendo um dos piores picos de infecções por covid-19 que o mundo já viu. Na quarta-feira, ele registrou 3.869 mortes, um recorde que representou quase um terço de todas as mortes por coronavírus no mundo naquele dia. Não há fim para a onda à vista: graças à espantosa incompetência do presidente Jair Bolsonaro e seu governo, apenas 2% dos brasileiros foram totalmente vacinados, e as medidas de bloqueio necessárias para retardar novas infecções, incluindo de uma variante altamente contagiosa que surgiu em Brasil, são praticamente inexistentes.

Em vez de lutar contra o coronavírus, Bolsonaro parece estar preparando as bases para outro desastre: um golpe político contra os legisladores e eleitores que poderiam removê-lo do cargo. Com alguns no Congresso ameaçando impeachment, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva emergindo como um potente adversário nas eleições do ano que vem, Bolsonaro despediu o ministro da Defesa nesta semana e os principais comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica saíram junto de seus postos.

Não foram dadas explicações, mas o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, era conhecido por tratar um presidente que se referiu às Forças Armadas no mês passado como “os meus militares.O Sr. Bolsonaro escolheu seu ex-chefe de gabinete para substituir o Sr. Azevedo e Silva e nomeou um policial próximo à sua família como o novo ministro da Justiça. As medidas foram suficientes para levar seis prováveis ​​candidatos à presidência a emitir uma declaração conjuntaalertando que “a democracia brasileira está ameaçada”. “O claro plano de apoio do Bolsonaro”,escreveu o editor-chefe Brian Winter no Americas Quarterly, “é ter tantos homens armados do seu lado quanto possível no caso de um impeachment ou um resultado adverso na eleição de 2022”.

Embora as instituições democráticas do Brasil sejam relativamente fortes após mais de três décadas de consolidação, há motivos para preocupação. Bolsonaro expressou abertamente sua admiração pela ditadura militar que governou o país nas décadas de 1960 e 1970. Admirador de Donald Trump, ele adotou a tática do ex-presidente dos Estados Unidos de alertar sobre fraude nas próximas eleições e exigir que os sistemas de votação eletrônica sejam substituídos por cédulas de papel. Ele apoiou as alegações de Trump sobre fraude eleitoral, e seu filho, um legislador que visitou Washington, DC, na véspera de 6 de janeiro, expressou consternação porque o ataque ao Capitólio não teve sucesso.

O Congresso brasileiro pode propor o impeachment de Bolsonaro por sua péssima gestão da pandemia, incluindo minimizar sua gravidade, resistir às medidas de saúde pública e promover curas charlatanescas. Mas as democracias dos Estados Unidos e da América Latina devem prestar atenção à medida que as eleições do próximo ano se aproximam – e deixar claro para Bolsonaro que uma interrupção da democracia seria intolerável. O presidente brasileiro já contribuiu muito para o agravamento da pandemia da COVID-19 em seu próprio país e, por meio da disseminação da variante brasileira, pelo mundo. Ele não deve ter permissão para também destruir uma das maiores democracias do mundo.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e foi publicado pelo “The Washington Post” [Aqui!].

Enquanto nos distraem com o fantasma de um golpe, o Brasil vira um imenso cemitério

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Golpe, que golpe? Toda a encenação feita em troca do ministro da Defesa e dos chefes das três forças não passa de uma imensa cortina de fumaça para nos cegar em face da grave crise sanitária e humanitária que assola o Brasil neste momento.

De fato, o pior golpe é o que estamos sofrendo com a negligência proposital no combate à pandemia da COVID-19. Enquanto nos distraem com tramas palacianas, o Brasil teve 3.780 mortes nas últimas 24h, e agora totaliza 317.646 vidas perdidas para Covid. Tivemos ainda 84.494 novos casos, com um total de 12.658.109 em pouco mais de um ano ano.

São famílias inteiras sendo ceifadas. São avôs e avós, filhas e filhos, netas e netos, sobrinhas e sobrinhos, primas e primos, tias e tios.  E também muitos que são parte da nossa família do destino que chegam para compor e cumprir papéis fundamentais nas nossas existências.

E é importante lembrar que toda essa dor e sofrimento não é acidente, mas um projeto friamente calculado e aplicado, atingindo principalmente os segmentos mais pobres da nossa população.

Então, modestamente acho que devemos rejeitar as distrações e nos concentrar no que é essencial neste momento, que é combater a pandemia e salvar o maior número de vidas que pudermos.

#VacinaParaTodosJá #VacinaEImpeachment

Pesquisa mostra aumento da rejeição a ideias golpistas no Brasil

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Por Ricardo Mendonça*

Em meio à pandemia, crise econômica e insinuações de uma guinada autoritária, a condescendência dos brasileiros à ideia de um golpe militar caiu. Com tendência de queda também estão as imagens de duas instituições vistas como alicerces do bolsonarismo: as Forças Armadas e as igrejas.

As informações aparecem na terceira rodada anual de uma pesquisa sobre o tema feita pelo Instituto da Democracia, grupo que reúne pesquisadores de onze instituições no Brasil e no exterior.

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O indicador mais eloquente é o que associa a defesa de um golpe ao temor em relação à criminalidade – um dos temas centrais na eleição de 2018. Naquele ano, 55,3% dos pesquisados entendiam que um golpe militar “seria justificável” numa situação de muito crime. Um ano depois, o indicador já havia recuado para 40,3%. Agora, baixou para 25,3%, menos da metade da taxa de 2018. De cada dez brasileiros, sete dizem “não” a essa hipótese.

A pesquisa foi feita entre 30 de maio e 5 de junho, uma semana após o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, dizer que a eventual apreensão do celular de Bolsonaro autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) poderia ter “consequências imprevisíveis”. O próprio presidente disse que jamais entregaria seu aparelho, o que configuraria desrespeito à ordem judicial. Na semana passada, foi a vez do também militar Luiz Eduardo Ramos, secretário de Governo, declarar ser “ultrajante e ofensivo” dizer que as Forças Armadas vão dar um golpe, mas ressaltou que o “outro lado” não pode “esticar a corda”.

Tendência parecida ocorre na simulação feita com a ideia de golpe associado a um quadro de corrupção generalizada – outro tema-chave das eleições de 2018, muito impactadas pela Lava-Jato.

Na época, pouco menos da metade da população pesquisada (47,8%) concordava que um golpe “seria justificável” numa situação de muita corrupção. Hoje, esse entendimento é compartilhado por 29,2%. Para um grupo duas vezes maior, 65,2%, corrupção não é justificativa para golpe militar.

Ainda mais altas são as taxas de rejeição à ideia de ruptura associada ao alto índice de desemprego (79,2% repelem) ou fechamento do Congresso ante uma situação de muita dificuldade (78% contra).

Com o debate sobre ruptura em voga por iniciativa de apoiadores do presidente, quem começa a pagar mais caro são as Forças Armadas.

O levantamento identificou sinais de corrosão na imagem da instituição. Erguido aos poucos desde o fim da ditadura (1964-1985), o sentimento de confiança aos militares caiu sete pontos desde 2018, de 33,9% para 27%. Mais preponderante agora é a taxa que reflete certa desconfiança em relação aos militares. Os que dizem confiar “mais ou menos” na instituição são a nova maioria, 33,8%.

Também não é bem vista a forte presença de militares em cargos de primeiro e segundo escalão, algo promovido por Bolsonaro desde a posse. Para 58,9% isso não ajuda a democracia. É quase o dobro dos 30,1% que não veem problema.

Constantemente presentes nas listas de campeãs em imagem positiva, as igrejas também começam a apresentar sinais de desgaste. A confiança incondicional (taxa dos que dizem confiar muito) recuou de 35,2% para 29,7% desde 2018.

“O eleitorado começa a se afastar dos temas mais clássicos do bolsonarismo”, diz o cientista político Leonardo Avritzer, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e um dos coordenadores do estudo. “O brasileiro tinha muita confiança nas Forças Armadas e nas igrejas. Já não tem mais tanto assim. A confiança não desabou, mas há sinais de deslocamento.”

Avritzer destaca, na contramão, indícios de alguma recuperação nas imagens de instituições tradicionalmente achincalhadas pelo eleitorado. A taxa dos que dizem não confiar no Congresso caiu de 56,3% para 37,2% em dois anos. “Até os partidos, que sempre são os últimos colocados, esboçam melhoria.” Nesse caso, o contingente dos que não confiam recuou de 76,9% para 66,9% no mesmo período. Os que dizem confiar “um pouco” subiram de 12,3% para 20,5%.

O pesquisador suspeita que parte disso pode ser atribuído à covid-19: “As pessoas enxergam na epidemia mais necessidade de apoio às instituições”. A percepção sobre o Judiciário confirma. Entre 2018 e 2019, a taxa dos que diziam não confiar no Judiciário havia subido de 33,9% para 38,2%. Agora, com pandemia e em meio a ataques de bolsonaristas ao STF, recuou para 21%. O grupo dos que confiam muito no Judiciário subiu de 8,3% para 13,6%. E os que confiam “mais ou menos”, de 28% para 39,4%.

A elevação do prestígio dessas instituições e a ampliação da repulsa à ideia de golpe, porém, não são acompanhadas por aumento da satisfação com a democracia. No ano passado, 32,9% diziam estar satisfeitos ou muito satisfeitos com o regime. Hoje são 25,1%.

Para Avritzer, isso ocorre porque grande parte da população associa a ideia de democracia ao funcionamento do governo: “Se a gestão ou a economia vai mal, a satisfação com a democracia cai. É uma ideia pouco sofisticada do conceito. Não pensam democracia como um valor”. O aumento da insatisfação com a democracia, de qualquer forma, não parece ter relação com tentações golpistas.

O Instituto da Democracia é formado por grupos de pesquisas de quatro instituições principais: UFMG, Iesp/Uerj, Unicamp e UnB. Participam outras cinco instituições nacionais (USP, UFPR, UFPE, Unama e IPEA) e duas estrangeiras (CES/UC e UBA). O estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa de MG. Foram ouvidas 1.000 pessoas por telefone. A margem de erro é de 3,1 pontos.

*Publicado originalmente no site Valor Econômico (acesse aqui a publicação original)

Glauber Braga reage a pedido de Luiz Eduardo Soares para que manifestantes pró-democracia evitem sair às ruas

O deputado Glauber Braga (PSOL/RJ) reagiu ao “alerta” do cientista político Luiz Eduardo Soares sobre a possibilidade dos protestos pró-democracia abrirem o caminho para um golpe de estado no Brasil

No dia de ontem, o  cientista político Luiz Eduardo Soares fez soar uma espécie de alerta para que os manifestantes pró-democracia não saiam às ruas no próximo domingo sob pena de facilitar a realização de um auto golpe por parte do presidente Jair Bolsonaro que poderia usar os protestos para infiltrar provocadores visando a implantação de um estado de sítio no Brasil.

Eu particularmente me achei incomodado com o tom do alerta emitido, pois o chamado de Luiz Eduardo Soares soou para mim como um misto de alarmismo e covardia política, pois em sua “carta aos democratas”, o cientista político não ofereceu nenhuma saída objetiva para a realização de protestos de rua. Aliás, ofereceu sim, indicou que o caminho é aderir ao manifesto pela democracia que ele e milhares de outras personalidades públicas fizeram publicar no último domingo em jornais de grande circulação. 

Já o deputado federal Glauber Braga (PSOL/RJ) foi além do incômodo e lançou uma réplica a Luiz Eduardo Soares em página oficial na rede social Facebook que eu considero bastante objetiva em termos dos desafios que se colocam para a defesa da democracia no Brasil. O texto de Glauber Braga segue abaixo em sua íntegra.

Ao Luiz Eduardo Soares:

Com todo respeito, eu gostaria muito de saber o que você propõe Luiz Eduardo? Porque a sua tese nos leva a esperar as próximas eleições, se é que elas acontecerão. Ou temos dúvidas de que Bolsonaro vai sempre ameaçar com fechamento de regime? Quem estava ou vai pra rua não o faz por duvidar do que Bolsonaro possa fazer. Faz exatamente por considerar a necessidade presente, a urgência e o que possa estar por vir. Pergunto. Se houver recuo do lado de cá, Bolsonaro vai recuar do lado de lá? Não.  Se houver recuo do lado de cá, por conta das ameaças, Bolsonaro segue avançando do lado de lá? Tudo indica que sim. Então não restam tantas opções assim. Entendendo todas as dificuldades, vou seguir com as torcidas antifascistas. A não ser que me apresente uma proposta melhor. Por enquanto só vi uma carta incentivando ao não movimento, sem nenhuma proposta de ação concreta.

Com o argumento dos efeitos da pandemia eu não reajo da mesma forma. Ao contrário. Acho que  traz uma reflexão importante que devemos mesmo considerar e pensar muito. Não é uma decisão fácil.

Reajo ao seu texto Luiz Eduardo por trazer argumento que não deixa outra opção além do recuo frente às ameaças. E faz mais: coloca a responsabilidade em quem não adota a sua tese pelas prováveis consequências que desenha. Eu poderia apontar o dedo pra você e dizer: a responsabilidade é sua que não está fazendo o que deveria e etc, etc… mas aí sim eu estaria sendo um irresponsável e não entendendo a complexidade do cenário e a sua autonomia pra tomar o rumo que considere mais eficaz no combate ao fascismo. Não quero convencer você Luiz Eduardo a estar na rua, mas que não venha querer responsabilizar pelo fechamento de regime quem foi ou estará. O responsável pelo fechamento de regime, se ele vier a acontecer, é Jair Bolsonaro. Quem está se colocando em risco na rua o faz também porque está preocupado com essa possibilidade iminente.

Deputado federal Glauber Braga (PSOl/RJ)

Pandemia e golpe de estado no Brasil?

bolsonaro-manifestaçãoContrariando orientações do Ministério da Saúde, Jair Bolsonaro saúda apoiadores que podem golpe de estado em meio à pandemia da COVID-19.

Começo esta postagem mostrando o gráfico da curva ascensional dos casos de infecção do coranavírus nos países que se tornaram o epicentro desta pandemia.  A partir dessa curva se pode notar que o Brasil caminha para em breve substituir um grupo de países que até agora liderou a corrida das infecções e mortes (i.e., Espanha, Itália e Alemanha), e deverá passar a disputar o primeiro lugar nos dois quesitos com os EUA.

curva ascensão

O fato é que neste início de segunda-feira (04/05), o Brasil já ocupa o 10o no número de infecções, o 7o  no número de óbitos e o 2o  no número de casos graves. E, pior, como a tendência de crescimento está evidente na curva ascensional mostrada acima, tudo indica que teremos semanas bastante difíceis pela frente, na medida em que a pandemia deverá se alastrar para cidades médias e pequenas, mais do que já se alastrou. O momento então é de extremo cuidado e de persistência nas medidas de isolamento social, cuidados com a higiene pessoal e uso de máscaras faciais.  Tais cuidados já estão mais do que anunciados como as únicas formas de se evitar o alastramento do coronavírus.

Enquanto isso a pandemia come solta pelo país afora, o presidente Jair Bolsonaro mais uma vez reuniu seus apoiadores e se misturou a eles em claro confronto com as recomendações emanadas do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde. E em meio a desfiles de bandeiras estrangeiras na rampa do Palácio do Planalto (no caso as bandeiras dos EUA e de Israel como mostra a imagem abaixo), Jair Bolsonaro dá a entender que pode realizar um golpe de estado com o apoio das forças armadas.

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Ainda que não se possa desprezar o pendor autoritário do presidente da república, prefiro chamar a atenção para outro aspecto da aglomeração de ontem: apesar de barulhenta e cheia de atos anti-democráticos contra profissionais da mídia corporativa, a aglomeração expressou em quantidade o real apoio que Bolsonaro possui na população brasileira, qual seja, um apoio residual (ver imagem abaixo mostrando tomada aérea da aglomeração em frente do Palácio do Planalto).

Apesar de ruidosa, a manifestação pró-golpe de estado foi raquítica em termos de participantes, revelando o real tamanho de Jair Bolsonaro.

Outro aspecto que me parece merecer a atenção que a mídia corporativa não tem nada. Ao chamar seus apoiadores para se aglomerarem em público, contradizendo tudo o que se sabe sobre as vias de disseminação do coronavírus, Bolsonaro está (consciente ou inconscientemente) possibilitando que seus apoiadores adoeçam em taxas maiores do que aqueles que estão aderindo ao isolamento social.

Essa propensão de colocar seus apoiadores em um processo de sacrifício em nome da causa lembra o que fez o pastor Jim Jones que,  em 18 de novembro de 1978,  resultou na morte de 918 pessoas  em um misto de suicídio coletivo e assassinatos em Jonestown, uma comuna fundada pelo fundador do Templo Popular.  Um aspecto que é pouco falado sobre Jim Jones é que ele viveu um ano no Brasil antes de se instalar na Guiana. Além disso, as ideias de Jones tinham um pendor socialista.  Mas o maior problema é que, ao contrário de Jones que sacrificou apenas seus seguidores, a indiferença de Jair Bolsonaro em relação ao potencial letal do coronavírus pode exportar as mortes para além daqueles que professam suas ideias.

Resta saber o que vão fazer os setores que apoiaram e continuando apoiando a via ultraneoliberal do atual governo. Até onde eu sei sobre determinadas figuras, não há muita propensão ao suicídio coletivo em nome de qualquer causa que seja. Essa indisposição para o auto-sacrifício por parte dos segmentos das elites que ainda o apoiam deverá pesar nas decisões que já devem estar em curso sobre o destino do presidente Jair Bolsonaro.

Em tempo, quando atacou as medidas de isolamento social, o empresário bolsonarista Junior Durski, proprietário do Madero, estimou que o Brasil não “poderia parar por 5 ou 7 mil mortes“.  Pois bem, o Brasil já ultrapassou o limite superior das previsões de Junior Durski e parece rumar para um recorde fúnebre sem precedentes na sua história recente. Por onde será que Durski anda e o que ele tem a nos dizer agora? 

Brasil é o primeiro país a reconhecer a “Guaidó de saias” autoproclamada na Bolivia

Expulso o presidente constitucional Evo Morales, a direita boliviana seguiu um script que já foi aplicado em outros países e tentado na Venezuela com o uso do deputado Juan Guaidó.  O enredo é sempre o mesmo: forças de direita começam um lento e gradual processo de questionamento de governantes eleitos por sistemas vigentes para mais à frente desembocar em um processo de crise institucional. Para isso contam com a ingerência de forças externas e com o uso de redes sociais que propagam “fake news”  aos borbotões com os quais a mídia corporativa finaliza o enredo da “crise institucional”.

Na Venezuela só não deu certo (até agora) porque Hugo Chavez promoveu uma profunda reestruturação na cadeia de comando das forças armadas daquele país, o que privou as oligarquias do braço armado com quem impõe a derrubada de governantes que nem sendo os esquerdistas que são feitos parecer. Até aqui na Venezuela, o deputado Juan Guaidó, que se proclamou presidente em praça pública, continua solto por absoluta conveniência para que Nicolás Maduro mantenha o sistema político em suas mãos.

Agora a fórmula “Guaidó” acaba de ser aplicada na Bolívia com a derrubada de Evo Morales e a autoproclamação da senadora de direita Jeanine Añez que aproveitou a falta de quórum de uma sessão do congresso para reclamar a faixa presidencial, a qual lhe foi prontamente entregue por oficiais militares (ver foto abaixo).

guaidó de saiasSenadora de direita Jeanine Añez recebe faixa presidencial após se auto-proclamar presidente de um militar fardado

O quadro que se forma na Bolívia é bastante complexo, na medida em que mesmo com Evo Morales fora do poder, o seu partido, o Movimento Al Socialismo (MAS), é majoritário no congresso, o que deverá criar graves dificuldades para que Añez possa se manter no cargo para o qual se autoproclamou. A questão é que todas as indicações é de que ela deverá ser sustentada no poder por uma vasta aliança que possui como principais garantidoras as forças policiais e militares que derrubaram Morales.

Quem não conseguiu ficar de fora desse imbróglio foi o ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, Ernesto Araújo, que tornou o Brasil o primeiro país a reconhecer a presidência autoproclamada de Jeanine Añez.  Esta ação intempestiva acaba removendo o Brasil de qualquer eventual diálogo para estabilizar a situação política boliviana, além de nos colocar como alvos preferenciais de potenciais refregas que possam ocorrer no país vizinho.

Há quem veja no que está ocorrendo na Bolívia uma espécie de laboratório para um eventual golpe militar no Brasil.  Ainda que nada possa ser negligenciado em uma conjuntura política tão complexa como a que atravessa a América do Sul neste momento, creio que o principal risco de contaminação é reverso, pois as fortes mobilizações que continuam ocorrendo em países como Chile, Equador e a própria Bolívia podem cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde) chegar ao Brasil em função da magnitude da crise social que vivemos atualmente.