As veias abertas do Peru

Grande riqueza em recursos naturais são o pano de fundo da queda do presidente Castillo

peru golpeTerra devastada: recursos minerais são extraídos no Peru sem consideração e sem benefício para a população em geral (mina de ouro Yanacocha)

Por Thorben Austen para o “JungeWelt”

Em artigo do portal de internet geopoliticaeconomica.com o jornalista Benjamin Norton lança luz sobre os possíveis antecedentes econômicos do golpe no Peru e o papel desempenhado pelos EUA. Segundo o artigo publicado em espanhol e inglês em 20 de janeiro, a embaixadora dos Estados Unidos no Peru, Lisa S. Dougherty Kenna, já havia se reunido com o então secretário de Defesa um dia antes do impeachment e prisão do presidente Pedro Castillo no Parlamento, em 1º de dezembro. 7 Conheci Emílio Gustavo Bobbio. Bobbio foi o sexto secretário de Defesa de Pedro Castillo desde que assumiu o cargo em 28 de julho de 2021 e foi nomeado apenas um dia antes de Kenna se encontrar. No dia seguinte, ele desempenhou um papel duvidoso nos acontecimentos que levaram à destituição do chefe de Estado de esquerda.

Castillo queria dissolver o parlamento e convocar novas eleições em resposta ao quinto processo de impeachment contra ele. Mauro Valderrama, do Partido Comunista do Peru (PCP), expressou a suspeita em uma entrevista ao jW em dezembro de que Castillo havia sido “manipulado pelas forças armadas ao tomar essa decisão”. Assim que foi anunciada a dissolução do parlamento, seus ministros começaram a renunciar e Bobbio voltou o exército contra o presidente.

Depois que Castillo foi preso e a vice-presidente anterior Dina Boluarte foi nomeada chefe de Estado, o embaixador Kenna – segundo informações da imprensa também funcionário do Serviço Secreto dos EUA da CIA por nove anos – se reuniu em 18 de janeiro com Óscar Vera Gargurevich, que após o  golpe parlamentar foi nomeado Ministro de Energia e Minas em 10 de dezembro, bem como vice-ministros de vários departamentos. Um “diálogo institucional de alto nível” ocorreu entre “o Peru e os Estados Unidos”, twittou o ministério peruano no mesmo dia, que “discutiu questões de desenvolvimento da mineração”.

O artigo de Norton explica: “O Peru é um país rico em recursos naturais, especialmente minerais. Os colonialistas espanhóis exploraram as reservas significativas de prata e ouro da nação sul-americana, e hoje o Peru é visto como um centro de recursos altamente lucrativo por corporações transnacionais. Segundo um estudo da privada “Universidad del Pacifico” em Lima, o Peru é “um dos principais exportadores mundiais de cobre, chumbo, zinco, estanho, prata e ouro (…). Nos últimos anos, a mineração contribuiu com cerca de 13% do produto interno bruto do Peru e foi responsável por mais de 70% das exportações. Essa atividade é tema central de discussão na política nacional e uma das causas recorrentes de conflitos sociais”, diz o texto publicado em 2021. No ano passado, no contexto da guerra econômica ocidental contra a Rússia, aumentou a importância da exportação de gás liquefeito para a Europa. Eles aumentaram 85% nos primeiros oito meses de 2022 em comparação com o ano anterior. Em abril de 2022, por exemplo, o gás liquefeito peruano era exportado apenas para a Europa, sendo a Espanha e a Grã-Bretanha os principais compradores por lá. Antes de 2022, a maior parte do gás liquefeito do Peru era enviada para o Japão, Coreia do Sul e China, escreve Os principais compradores são a Espanha e a Grã-Bretanha. Antes de 2022, a maior parte do gás liquefeito do Peru era enviada para o Japão, Coreia do Sul e China, escreve Os principais compradores são a Espanha e a Grã-Bretanha. Antes de 2022, a maior parte do gás liquefeito do Peru era enviada para o Japão, Coreia do Sul e China.

O professor do ensino fundamental e sindicalista Pedro Castillo surpreendentemente venceu o segundo turno das eleições em 2021 com a atual presidente de fato Dina Boluarte como representante por uma margem muito pequena sobre a candidata de extrema direita Keiko Fujimori. Apesar da turbulência interna, várias remodelações de gabinete e processos de impeachment movidos pela maioria parlamentar de direita, Castillo lutou para colocar em prática o slogan do Peru Libre de seu partido, “Sem pobreza em um país rico”.

Castillo orientou-se pelos programas clássicos dos governos de esquerda do continente nos últimos vinte anos. Lucros maiores por meio de novos contratos de concessão e aumento da tributação sobre a exploração dos recursos minerais devem financiar os programas sociais. Para romper com o papel da América Latina como fornecedora de matérias-primas no longo prazo, uma indústria separada deveria ser construída. Após o golpe parlamentar de 7 de dezembro, Esse plano parece ter falhado, por enquanto.


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Este artigo escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [ Aqui!].

Marcos do Val e sua verdade inconveniente: a trama de Jair Bolsonaro e seu entorno para impedir a posse de Lula

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Língua afiada de Marcos do Val se mostra mais perigosa do que a “arminha” do dedo em riste e coloca Jair Bolsonaro em mãos lençóis

De ontem para hoje o senador Marcos do Val (Podemos-ES) adiantou uma bomba que agora aparece na capa da revista Veja: uma suposta trama para a realização de um golpe de estado envolvendo diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro e hoje retornado ao cárcere, o ex-deputado Daniel Silveira (PL/RJ) (ver imagem abaixo).

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Eis que lendo os detalhes presente na matéria produzida pela Veja a partir das denúncias feitas por Marcos do Val (que frisemos sempre foi da base legislativa do governo Bolsonaro), fica ainda mais confirmado que existiram ações para anular o resultado das eleições presidenciais, impedir a posse do presidente Lula, e manter Jair Bolsonaro no cargo (e, sim, realizar a prisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF) presidente do Tribunal Superior Eleitoral).

Em qualquer país com instituições funcionando minimamente, me parece óbvio que Jair Bolsonaro e os demais participantes  (os quais precisam ser identificados e nomeados) dessa trama rocambolesca já estariam sendo presos para impedir qualquer intenção similar no futuro. É que mais essa indiscrição feita por alguém do entorno de Jair Bolsonaro mostra o que já era mais ou menos sabido, qual seja, que havia efetivamente não apenas o desejo, mas também tratativas para a realização de um golpe de estado no Brasil.

E, pior, que esse golpe de estado visava permitir, entre outras coisas, que fosse continuado o genocídio que estava sendo cometido contra os povos indígenas, a começar pelo mais caso mais notório que é o do povo Yanomami. 

Agora vamos como se comportam os chefes dos três poderes em relação a essa situação. Se passar pano ou vão tomar o tipo de atitude que este caso requer.

A extrema-direita na América Latina é uma serva de seus senhores

Na América Latina, a extrema-direita está tentando garantir esferas de influência para os Estados Unidos. Tentativa de golpe no Brasil é um exemplo disso

bolso fascista

Bolsonaristas invadem Palácio do Planalto em Brasília no dia 8 de janeiro

Por Volker Hermsdorf para o JungeWelt

No Brasil, em 8 de janeiro, ficou novamente demonstrado que a direita latino-americana e seus partidários só respeitam os resultados das eleições se saírem vitoriosos. Outros exemplos incluem os golpes apoiados pelos EUA na Guatemala (1954), Chile (1973), Honduras (2009), Paraguai (2012), Bolívia (2019) e Peru (2022). Os recentes acontecimentos no Brasil “têm o potencial de se repetir em outros países latino-americanos que os EUA  consideram como sua esfera de influência”, alertou o diário chinês Global Times na terça-feira da semana passada sobre novas tentativas de golpe.

Enquanto as elites econômicas nacionais e os políticos conservadores de direita na América Latina estão preocupados principalmente em manter um sistema que lhes garanta poder, influência e lucros não diminuídos, para os EUA recuperar seu “quintal” é uma questão de sobrevivência para garantir sua presença global poder econômico. O fascista confesso Jair Bolsonaro, que posou em frente a uma bandeira dos Estados Unidos durante a campanha eleitoral, era o candidato preferido de Washington. O governo Biden também há muito apoia um governante no ex-presidente brasileiro, que tem laços estreitos com os responsáveis ​​pela invasão do Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021. De acordo com uma reportagem do canal de notícias americano CNBC Bolsonaro será assessorado pelo ex-estrategista-chefe da Casa Branca, Stephen Bannon. O confidente próximo de Donald Trump pôs em dúvida os resultados das eleições presidenciais dos EUA em 2020 após sua derrota eleitoral e agora segue a mesma estratégia no Brasil. Enquanto Bolsonaro declarou após os ataques a prédios do governo em Brasília que saquear instalações públicas “violava as regras para manifestações pacíficas”, Bannon comemorou os atacantes na plataforma de direita Gettr como “combatentes da liberdade brasileira”. O serviço de mensagens curtas Gettr , fundado pelo ex-porta-voz de Trump, Jason Miller, já financiou eventos do “CPAC Brasil”, desdobramento da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) dos Estados Unidos.

O CPAC de extrema direita é um dos grupos por trás da atual agitação no Brasil, disse Zhou Zhiwei, especialista em estudos latino-americanos da Academia Chinesa de Ciências Sociais, ao Global Times. O fato é que esses “defensores da liberdade e da democracia” declararam guerra aos governos progressistas da América Latina. Em junho passado, em conferência da CPAC em Brasília, o filho de Bolsonaro, Eduardo, recebeu, entre outros, o candidato à presidência chileno de extrema direita José Antonio Kast, que perdeu para o atual titular Gabriel Boric em 2021, e o político argentino Javier Milei, que planeja uma candidatura presidencial para 2023. Então, em novembro, uma conferência da CPAC na Cidade do México colocou os participantes no clima de “combates duros”. Entre os torcedores estavam Eduardo Bolsonaro, que pediu “quebrar o monopólio da esquerda nas ruas”, e Luis Fernando Camacho, governador do departamento de Santa Cruz, que falou da Bolívia.

Com o apoio de Jair Bolsonaro e seus apoiadores, os democratas americanos também apoiaram forças promovidas por Donald Trump. No entanto, Bolsonaro, que, a pedido, havia expulsado do país cerca de 8.200 médicos cubanos e concluído sua saída da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), decepcionou ainda mais as expectativas do governo dos Estados Unidos. Os planos de as empresas americanas assumirem a petrolífera semiestatal Petrobas fracassaram e o país permaneceu como membro do grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), no qual os EUA veem uma ameaça aos seus interesses. Com os “bolsonaristas” vistos como candidatos incertos por causa das expectativas e influência frustradas de Trump, e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda empoderado, pelo menos temporariamente, por sua recente ação de reprimir a invasão do Supremo Tribunal Federal, do Congresso e o Palácio Presidencial, Washington está suscetível de tentar fomentar conflitos internos e criar o caos no futuro, a fim de minimizar a influência do país. A política dos EUA em relação a Cuba, Venezuela e Nicarágua prova que o presidente dos EUA, Joseph Biden, e os estrategistas do Partido Democrata também estão seguindo as demandas agressivas da linha dura de ultradireita por tais objetivos. fomentar conflitos internos e criar o caos para minimizar a influência do país. A política dos EUA em relação a Cuba, Venezuela e Nicarágua prova que o presidente dos EUA, Joseph Biden, e os estrategistas do Partido Democrata também estão seguindo as demandas agressivas da linha dura de ultradireita por tais objetivos. fomentar conflitos internos e criar o caos para maximizar a influência do país. A política dos EUA em relação a Cuba, Venezuela e Nicarágua prova que o presidente dos EUA, Joseph Biden, e os estrategistas do Partido Democrata também estão seguindo as demandas agressivas da linha dura de ultradireita por tais objetivos.

Uma razão para isso é a influência cada vez menor dos EUA na transição de uma ordem mundial unipolar para multipolar. Segundo Zoltan Pozsar, analista do Credit Suisse, em 27 de dezembro, a nova ordem não será moldada pelos países industrializados do G7 ocidental, mas pelas economias emergentes dos países do BRICS. A expansão para o “BRICS plus” promovida pela China e pela Rússia tornará ainda mais difícil para a economia americana o acesso a matérias-primas na Eurásia, Oriente Médio e África. “A Ucrânia é um buraco negro e uma UE fraca, forçada por Washington a comprar gás natural liquefeito (GNL) dos EUA a preços absurdamente altos, não tem recursos essenciais para o império saquear”, destacou o jornalista brasileiro Pepe Escobar na revista online The Cradleum cenário sombrio para os EUA. O jornalista científico salvadorenho Igor Iván Villalta Sorto escreveu no portal online Resumen Latinoamericano que “se os Estados Unidos perderem seu domínio global, mas mantiverem a América Latina, ainda poderão ser muito fortes, dada a riqueza de recursos do continente”. Regimes amigáveis ​​aos EUA em países com reservas minerais particularmente grandes, como Argentina, Bolívia e Chile (lítio), Venezuela (petróleo), Peru (prata, molibdênio), Brasil (ferro, estanho) e até Cuba (cobalto) poderiam, portanto, tornar a economia uma questão de sobrevivência.


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Este escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Uma seita no filme errado, esse é o Bolsonarismo no Brasil

Durante anos, milhões de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro foram incitados com a retórica da guerra civil. Após o assalto às instituições no domingo, a radicalização deve continuar

09_BrasiliaAinda não chegou com os dois pés na realidade: muitos participantes do assalto ao distrito governamental se isolam em um mundo paralelo. Foto: André Borges, Keystone

Por Philipp Lichterbeck , Rio de Janeiro, para o Woz

Quem quiser entender a tentativa de golpe ocorrida na capital brasileira, Brasília, no domingo, deve primeiro examinar a mentalidade dos apoiadores de Jair Bolsonaro. Observadores especialmente de esquerda tendem a descartá-los como fascistas, racistas e sexistas da classe média e alta branca. O bolsonarismo penetrou em todas as classes sociais e de forma alguma pode ser atribuído a uma cor de pele ou gênero específico. É verdade que, por exemplo, quase nenhum negro esteve envolvido na invasão do distrito governamental de Brasília, mas o número de “pardos” (como são chamados aqui os descendentes de negros e brancos) foi enorme. Foi igualmente impressionante quantas mulheres participaram entusiasticamente dos motins antidemocráticos.

Outra coisa é crucial: a firme crença dos bolsonaristas de que o Brasil está em perigo por causa da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, sim, que sua vitória eleitoral em outubro só foi possível por fraude, porque o “povo” tinha esse ladrão condenado e gangsters finalmente nunca eleitos. Os bolsonaristas acreditam firmemente que defenderam a pátria, a liberdade, a verdade e, em última análise, a verdadeira democracia.

Prólogo de um mês

Lula, por outro lado, estão convencidos, planeja instaurar uma ditadura comunista, dissolver a família tradicional, restringir a prática da religião cristã e abolir a liberdade de expressão. Além disso, Lula representa para ela – não totalmente errado – a típica disputa pelo poder em Brasília, onde um grande número de partidos e personalidades podem ser providos de cargos e cargos.

Os bolsonaristas, portanto, se veem como lutadores da liberdade que tentam fazer valer a verdadeira vontade do povo, que é reprimida pelas instituições estatais em interação com a “grande mídia”. É uma crença que se confirma a cada dia no mundo paralelo em que muitos bolsonaristas se isolaram. Apenas as informações que circulam ali apóiam suas ideias. Qualquer coisa que contradiga isso é ignorado ou reinterpretado sofisticamente. O bolsonarismo é impensável sem as redes sociais.

O movimento, com sua cosmovisão hermética e retórica quase religiosa da salvação, em última análise, assemelha-se a uma seita. Isso também explica a perseverança com que milhares acamparam em frente a quartéis por todo o Brasil desde a vitória eleitoral de Lula, exigindo um golpe militar. Eles se consideram legítimos para se opor a um governo ilegítimo; os fascistas são os outros para eles.

E não se esqueça: não se trata de uma minoria perdida. 58,2 milhões de brasileiros votaram em Bolsonaro, ou seja, 49,1% dos que votaram. Com 60,3 milhões de votos, Lula da Silva recebeu apenas 1,8 ponto percentual a mais.

Os acampamentos foram o prólogo de um mês para a tomada de Brasília. Após uma marcha de protesto, os bolsonaristas romperam cordões policiais inadequados e invadiram o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto. Quebraram janelas e móveis, destruíram obras de arte, atearam fogo, urinaram e defecaram em móveis e jogaram aparelhos eletrônicos no chão. Obras de arte, armas e câmeras também foram aparentemente roubadas. O prejuízo pode chegar a milhões.

O que chamou a atenção em tudo isso foi que a polícia militar no Brasil, conhecida por sua brutalidade, não interveio e alguns policiais até tiraram selfies com os invasores. Não é segredo que as forças de segurança do Brasil são um reduto do bolsonarismo.

A dura resposta de Lula

Embora inicialmente se tenha dito que a polícia havia sido surpreendida pela agressividade dos manifestantes, logo surgiu a suspeita de que havia cálculo por trás da passividade. O serviço interno de inteligência do Brasil, ABIN, aparentemente alertou os responsáveis ​​​​em Brasília no início de que milhares de várias partes do país estavam a caminho para invadir a Praça dos Três Poderes. Agora o chefe de polícia da capital, ex-ministro de Bolsonaro, foi demitido e o governador de Brasília foi afastado do cargo.

O assalto às instituições não foi espontâneo. Os apelos à invasão dos centros de poder do país já circulavam nas redes bolsonaristas há dias. Instruções para ação também foram compartilhadas; dizia-se, por exemplo, que a invasão só deveria ser tentada quando uma massa crítica de pessoas se reunisse. A polícia agora está investigando quem estava por trás dessas ligações e quem financiou as viagens de ônibus que trouxeram os manifestantes a Brasília. Cerca de uma centena de empresas e firmas bolsonaristas são suspeitas, muitas das quais já haviam apoiado os acampamentos de protesto em frente ao quartel.

Os tumultos foram interrompidos no domingo depois que o presidente Lula da Silva, que estava em São Paulo, emitiu um decreto dando ao governo federal o comando do aparato de segurança da capital. Ele anunciou com raiva que os “vândalos e fascistas” seriam punidos. Novas unidades policiais chegaram prontamente à Praça dos Três Poderes; expulsaram os invasores e prenderam algumas centenas deles. Na segunda-feira, a polícia desmantelou os acampamentos em frente aos quartéis em todo o país. Em Brasília, cerca de 1.200 bolsonaristas foram detidos em um pavilhão esportivo para verificar a prática de atos criminosos.

Foi o início da dura resposta do Estado brasileiro. O juiz constitucional Alexandre de Moraes, que já é odiado entre os bolsonaristas por sua repressão aos produtores e divulgadores de notícias falsas, ordenou que as listas de hóspedes de hotéis e pousadas em Brasília sejam revisadas e dados de geolocalização e imagens de câmeras de vigilância sejam analisados. A conduta da polícia local também faz parte da investigação. Isso é facilitado pelo fato de os bolsonaristas filmarem sua invasão e postarem gravações de seus crimes em celulares como troféus. Em sensacional discurso na terça-feira, Moraes afirmou que não haveria “apaziguamento” contra os “terroristas”: “Se o apaziguamento tivesse funcionado, não teríamos a Segunda Guerra Mundial”,

Nos grupos de comunicação bolsonaristas, mas também na Jovem Pan (a contraparte brasileira da direitista norte-americana Fox News), fala-se agora do início da ditadura comunista que Lula sempre planejou. Os bolsonaristas presos foram tratados como prisioneiros em campos de concentração e os crimes em Brasília foram cometidos por provocadores plantados pela esquerda.

O grande perdedor

O assalto às instituições brasileiras era previsível. É o resultado da retórica incitante à guerra civil que o ex-presidente Bolsonaro, políticos aliados a ele, pastores evangélicos, influenciadores e empresários vêm promovendo há anos. Alguns denunciantes online ganharam muito dinheiro com suas postagens nas mídias sociais – e, portanto, um interesse em mais radicalização.

Mas eles podem ter ido longe demais. Políticos da esquerda à direita concordaram que os “terroristas” e os “conspiradores golpistas” deveriam ser punidos em toda a extensão da lei. Lula da Silva conseguiu se apresentar como um poderoso chefe de Estado que assume o comando e toma decisões. Já na segunda-feira convocou governadores de todos os partidos, ministros e os juízes constitucionais de Brasília para demonstrar união. A maioria dos observadores concordou: a jovem democracia brasileira, com apenas 35 anos, provou ser defensiva e forte no final.

O grande perdedor é Jair Bolsonaro. Só mais tarde ele reportou da Flórida para se manifestar no Twitter contra os atos de violência em Brasília. Suas ligações não foram atendidas. Como se o bolsonarismo não precisasse mais disso.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Woz” [Aqui!].

Golpe de estado Tabajara explicita condição de economia dependente do Brasil

Impeachment Tabajara

A essas alturas do campeonato está mais do que claro que as hordas da extrema-direita que realizaram o quebra quebra em Brasília eram parte de uma engrenagem política mais ampla que buscava realizar mais um golpe de Estado na república brasileira. A coisa só não andou como os idealizadores desse coup d´etat exageraram nos tons das Organizações Tabajara do mesmo. 

A descoberta da minuta de decreto de fechamento da Justiça Eleitoral na casa do ex-ministro Anderson Torres é apenas um detalhe na longa lista de tabajarices cometidas, ao que tudo indica, pelo grupo que cerca (cercava?) mais diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro. O simples fato de que Anderson Torres se mandou para Orlando (mesma cidade onde Jair Bolsonaro se encontra) deixando para trás a tal minuta é um daqueles momentos Tabajara que parecem até armação.

Mas deixando de lado as bizarrices de Jair Bolsonaro e seus colegas, o que me chama a atenção é que mais este golpe não se consumou porque não teve o devido suporte das potências centrais, a começar pelo governo dos EUA, que resolveram apostar na capacidade política de Lula para manter o Brasil em sua condição de economia dependente. É essa faceta que vejo pouco analistas apontando, na medida em que se o governo Biden decidisse apoiar a imposição de um governo não eleito, o mais provável é que as tropas militares já estivessem nas ruas para impondo essa realidade.

Nesse sentido, os desafios que se colocam para o governo Lula são ainda maiores, pois sem a devida organização dos amplos setores que deram o terceiro mandato para Luís Inácio Lula da Silva, uma mudança de humor nas potências centrais significará a imposição de um governo não eleito pela população.

Por outro lado, é fato que existe neste momento uma tentativa de romper as estruturas políticas e econômicas que foram criadas ao final da Segunda Guerra Mundial sob a liderança da China. Um dos aspecto mais marcantes desse processo são os esforços de “desdolarizar” a economia mundial com muitos negócios sendo fechados em outras moedas, incluindo o Rublo russo e Yuan chinês.  Se esse processo avançar como parece que irá,  é possível que as pressões sobre Lula e seu governo de frente ampla sejam ainda maiores.

No que isso tudo vai dar, ainda não é possível afirmar. Mas está claro que uma das consequências do golpe Tabajara que foi aparentemente tentado sem sucesso será explicitar a encruzilhada em que o Brasil está metido neste momento.

Bolsonarismo inova e propõe golpe de estado via manuscrito

torres bolso

O ex-ministro da Justiça Anderson Torres está cada vez mais afundado em um enredo golpista

Os próximos dias deverão ser muito interessantes após a Polícia Federal ter informado que encontrou na residência do ex-ministro Anderson Torres um manuscrito que seria a base para uma espécie de golpe de estado via intervenção na justiça eleitoral. As primeiras explicações vindas dos advogados de Torres são tão pouco favoráveis a ele que dá para pensar que há agora uma grande confusão reinando nas hostes do que se convenciona rotular de “bolsonarismo”.

anderson torres golpe

Após esse manuscrito ter sido encontrado fica a dúvida sobre o retorno ao Brasil não de Torres, mas de Jair Bolsonaro. É que um dos argumentos apresentados pela defesa de Torres é que alguém levou o tal manuscrito para ser apreciado para possível transformação em ato legal. Um desdobramento natural dessa informação é que se faça uma análise caligráfica para determinar quem teria sido o autor da proposta. Se as análises determinarem que a caligrafia não é a de Torres, uma primeira pergunta a ser feito ao ex-ministro da Justiça é de quem ele teria recebido o manuscrito.

Para piorar a situação de Torres, esse tal manuscrito não foi o único documento recolhido na casa de Anderson Torres. Como sempre ocorre brevemente será vazada para a mídia corporativa a informação de quais os outros documentos recolhidos pela Polícia Federal.

Como esses documentos fazem parte das atividades oficiais de Anderson Torres, o mínimo que se pode atribuir a ele é a não transmissão dos mesmos ao novo ministro da Justiça, Flávio Dino. Mas entre outros desdobramentos podem vir as acusações de prevaricação, o que, convenhamos, não é nada bom para Torres.

Resta saber se Anderson Torres, que é delegado da Polícia Federal, vai querer segurar essa bomba toda sozinho ou vai rapidamente demandar o usufruto de uma delação premiada.  

Mas uma coisa é certa: pode-se dizer tudo sobre Jair Bolsonaro e seus operadores, mas que não sejam criativos. Afinal, não me recordo de qualquer outro exemplo de que a prova da preparação de um golpe de estado via anulação dos resultados de uma eleição seja deixada para trás como se fosse um guardanapo onde se rascunhou um poema.

Tentativa de golpe no Brasil

Apoiadores do ex-presidente de direita invadem prédios do governo. Aviso de novos ataques

golpe brasiliaCom força bruta: bolsonaristas se envolvem em embate com policiais militares (Brasília, 01/08/2023)

Por Volker Hermsdorf para o JungeWelt

Após a fracassada tentativa de golpe no Brasil, o chefe de Estado Luiz Inácio Lula da Silva deu os primeiros passos. “Os atacantes serão punidos e também vamos descobrir quem os financiou”, anunciou após inspecionar os estragos na noite de domingo (horário local). No fim de semana, simpatizantes do ex-presidente fascista brasileiro Jair Bolsonaro invadiram vários prédios do governo na capital Brasília após uma manifestação anunciada anteriormente na Internet sob o lema “Tomada de Poder”. Quebraram portas e janelas do Congresso, arrombaram gabinetes de parlamentares, ocuparam o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal e convocaram os militares para dar um golpe contra Lula.

Depois que a Polícia Federal conseguiu retomar o controle do complexo, uma das primeiras reações foi demitir o chefe da segurança da capital, o ex-procurador-geral de Bolsonaro, Anderson Torres. A Procuradoria-Geral da República pediu à Suprema Corte a emissão de mandados de prisão contra Torres e outros funcionários responsáveis ​​por “atos e omissões” que levaram aos distúrbios. “Foi um crime anunciado contra a democracia, contra a vontade dos eleitores e por outros interesses. O governador e seu ministro da Segurança, apoiador de Bolsonaro, são os responsáveis ​​por tudo o que aconteceu”, disse a líder do Partido dos Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffmann, no Twitter.

O ministro da Justiça, Flávio Dino, descreveu os incidentes como uma “tentativa de golpe” e o chefe de Estado, Lula da Silva, lembrou declarações de Bolsonaro de que, em caso de derrota eleitoral – aludindo ao ataque de apoiadores de Trump ao Capitólio dos EUA em 6 de janeiro, 2021 – um “problema pior do que nos EUA” havia anunciado. “Você sabe que houve declarações do ex-presidente incentivando isso”, disse Lula. Bolsonaro, que fugiu para a Flórida pouco antes de seu sucessor tomar posse, rejeitou suas alegações. A pilhagem de edifícios públicos viola “as regras para manifestações pacíficas”.

A condenação inicialmente unânime dos eventos por governos estrangeiros e chefes de estado revela diferenças sutis em uma inspeção mais detalhada. Enquanto presidentes latino-americanos como Andrés Manuel López Obrador (México), Alberto Fernández (Argentina), Miguel Díaz-Canel (Cuba), Nicolás Maduro (Venezuela) ou, por exemplo, o vice-presidente do Senado russo, Konstantin Kossatschow, descreveram os motins como “tentativa de golpe” pela direita, os principais políticos europeus e norte-americanos evitaram o termo – pelo menos nas primeiras declarações. O presidente dos EUA, Joseph Biden, chamou os eventos de “ultrajantes”. O chanceler federal Olaf Scholz, a ministra das Relações Exteriores Annalena Baerbock e a presidente da Comissão da UE, Ursula von der Leyen, viram isso de forma unânime e vaga como um “ataque à democracia”. que não pode ser tolerado. Enquanto isso, a aliança regional de estados “Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos” (ALBA-TCP) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), de 33 países, alertaram sobre novas ações desestabilizadoras do direita.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado para o jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

A tentativa de golpe: senilidade do empresariado brasileiro

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POR LUCIANE SOARES DA SILVA*

O empresário Luciano Hang, conhecido por ser um tipo de cover do Louro José, usou um grupo de Whatsaap para tramar um golpe de Estado caso o atual presidente Jair Bolsonaro perca as eleições. O grupo conta com Afrânio Barreira Filho, Luiz André Tissot, Marco Aurelio Raymundo, José Isaac Peres Ivan Wrobel, José Koury e Meyer Joseph Nigri.

Eu ousaria pensar nesta estratégia como um poderoso indicador de desespero. Não apenas pela irracionalidade e imbecilidade explicitadas na proposta, mas principalmente pela “saída “ na qual eles parecem acreditar. Ou seja, melhor implodir de vez uma economia já em farrapos e manter nossos lucros. Mas isto já é assunto superado. Ninguém desconhece que esta sempre foi a opção de nossa elite.

Ontem ao passar pela praça observei o Data Toalha em uma banca de jornal após tomar café em uma padaria central na qual um pastor tentava ganhar o voto de um cidadão “anti política” para Bolsonaro. De voz mansa e sorriso largo, estava ali o instrumento divino da eleição de 2018.

Do outro lado da rua, mulheres em trabalho mais que precarizado gritavam com aquela voz aguda e estridente “empréstimo, empréstimo com o auxílio Brasil”. Oito da manhã de uma segunda de agosto. Provavelmente a população das periferias Brasil afora, acordava com um único objetivo: garantir o mínimo para alimentação do dia. Com o auxílio e vivendo um período de desemprego que se manteve após a pandemia. O centro cheio de lojas fechadas não é privilégio de pequenas cidades. Olhem hoje o centro do Rio de Janeiro. 

Uma elite com saudades da Ditadura e em alguns casos, do Império (sofre coração), não tem qualquer ambição em relação ao quadro geral do país. Se o golpe for um atalho para manter trabalho análogo a escravidão, ainda melhor. Vocês percebem? Não é uma questão de competição capitalista sustentada na mão autoritária do regime. É mais profunda. O desejo, pode parecer um misto de sadismo, suicídio e estupidez, é retroceder o trabalhador à condições tão precárias, que mesmo um dono de usina gritaria: “alimente  este escravo porque ele trabalha por dois”. Como não é mais necessário um “escravo” que trabalhe por dois, a questão não é apenas ética ou jurídica (talvez nem seja o caso). É (também) estética: “não tolero esta gente na Universidade”. É de dominação patriarcal: “não consigo mais quem trabalhe e durma na minha casa”. É de desprezo e desconsideração: “vamos dar um prêmio perto das eleições aos funcionários” (traduza-se por compra de voto, prática ilegal). É a luta de classes banhada no racismo mais atroz das Américas. Aquele no qual só poderá existir uma elite se forem mantidas as condições de humilhação dos trabalhadores.

Hoje é aniversário do meu pai. Ele trabalhou desde os seus 18 anos, serviu quartel, carregou de tudo. Até peça de usina hidrelétrica. Nunca desejou ter o que seu patrão tinha. Nunca foi dedo duro de colegas. Meu pai tem uma consciência de classe intuitiva. Desconfia muito das posições sociais de ostentação. Por uma razão simples: ele sabe que cada bloco de mármore dos donos de shopping golpista, foi carregado por gente como ele. Que vive na zona norte de Porto Alegre ou em centenas de bairros de trabalhadores país afora.

O problema desta eleição é que tem muita gente como ele pouco interessada em trocar o auxílio, o prêmio ou a ameaça por voto em Bolsonaro. E sabem que momento é este ? É aquele momento assustador e que o trabalhador, empregado ou não, nada tem a perder. Não é um momento revolucionário. Mas é o suficiente para colocar esta elite em desespero.

E eu ? Como digo com frequência, acho é pouco.

*Luciane Soares da Silva é é docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce)

Bolsonaro e Zé Trovão, quem diria, uma telenovela legitimamente mexicana

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Tenho lido e ouvido incontáveis análises sobre o cenário criado pelas manifestações convocadas pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 7 de setembro e seu desdobramento mais óbvio, o misto de greve e locaute liderada pelo auto proclamado líder caminhoneiro (não sei por quê, mas lembrei aqui do auto proclamado presidente venezuelano Juan Guaidó)  Marcos Antônio Pereira Gomes, mais conhecido como Zé Trovão.

É que o desdobramento acabou resultando em bloqueios de estradas que, indo além das bravatas de palanque, obrigaram um contrito presidente Jair Bolsonaro a fazer um pronunciamento claramente a contragosto via Whatsapp onde pediu a desmobilização da categoria em nome, pasmemos todos, dos mais pobres, apenas para ser vítima de uma paródia impiedosa do humorista Marcelo Adnet (ver vídeo abaixo).

Agora se sabe que Pereira Gomes (a.k.a Zé Trovão), para evitar ser preso pela Polícia Federal, tinha se mandado para o México, pátria de famosos novelões. E de lá Zé Trovão foi do céu ao purgatório, visto que pode notar o seu lento abandono por parte do presidente da república, algo que já tinha ocorrido com outras figuras que se arvoraram a ser as mãos que transformariam os discursos de Jair Bolsonaro em ações reais, apenas para serem deixados ao léu.

Eu diria que, ao contrário de muitos analistas engalonados, eu modesto vejo que o presidente Bolsonaro acabou sendo enredado na teia que ele mesmo criou, pois agora se arrisca a perder o apoio de um grupo com conhecida capacidade de circulação não apenas de bens e mercadorias, mas também de conteúdos produzidos para acirrar a disputa política no Brasil. Esse desdobramento, convenhamos, promete abrir mais capítulos na telenovela mexicana em que acabamos enfiados nas últimas semanas.

Finalmente, vamos se daqui a pouco não aparece a Ana Raio para tentar salvar o Zé Trovão. É que tudo indica que se depender de Bolsonaro, Zé Trovão vai tomar o raio.

Quem estiver surpreso com o “Agro é Golpe” precisa ler o livro de Caio Pompeia

galvanO presidente da Aprosoja, o latifundiário sojeiro Antonio Galvan, sofreu busca e apreensão em investigação contra manifestações golpistas em 7 de setembro

O envolvimento de entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador na organização dos atos anti-democráticos programados para o dia 7 de setembro tem surpreendido muita gente.  Pessoalmente não compartilho dessa surpresa, pois estou concluindo a leitura do livro “Formação Política do Agro-Negócio” de autoria do antropólogo Caio Pompeia Ribeiro Neto, que foi publicado pela Editora Elefante em fevereiro de 2021.

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Apesar das normais oscilações que marcam o conteúdo de obras sobre assuntos complexos, o livro de Caio Pompeia faz uma excelente radiografia não apenas do nascimento do conceito de “agronegócio” na Universidade de Harvard, e seu posterior entranhamento na realidade brasileira a partir dos esforços corporativos e de docentes da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo, mas também da diligente ação dos líderes de corporações ligadas aos esforço de implantar uma agricultura “a la Revolução Verde” no Brasil e, nada de surpresa, entidades ligadas ao latifúndio agro-exportador.

O livro mostra ainda que, apesar de fricções internas, os membros ligados ao designado “agro-negócio”  têm atuado desde a Assembleia Nacional Constituinte de 1988 para regredir direitos sociais e a proteção ao meio ambiente, mas também para impedir que a chamada agricultura familiar tenha acesso aos mesmos benefícios que os grandes proprietários rurais usufruem.

A partir dessa de capacidade de superar divergências localizadas a partir de interesses pontualmente opostos, os membros das entidades ruralistas vem agindo de forma coordenada e eficiente para impor no Congresso Nacional uma série de derrotas aos camponeses, quilombolas e povos indígenas.  Caio Pompeu oferece como exemplo a questão do Código Florestal onde a Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja) conseguiu sistematizar uma frente unificada para impor no congresso sua agenda anti-social e anti-ambiental e, principalmente, anti-povos indígenas. Aliás, interessante notar que alguns dos aliados da Aprosoja no Congresso Nacional são figuras conhecidas por suas pautas regressivas, incluindo o hoje senador Luiz Carlos Heinze (PP/RS) que tanta vergonha tem passado na CPI da Pandemia.

Desta forma, o envolvimento direta da mesma Aprosoja nos esforços de realizar atos massivos contra o Supremo Tribunal Federal e contra o Congresso Nacional representa uma linha de continuidade de esforços que ocorrem há muito tempo, ainda que a entidade tenha se fortalecido após o “boom” de commodities que ocorreu nos governos do presidente Luis Inácio Lula da Silva. Aliás, este fortalecimento do agronegócio (i.e., latifundio agroexportador rebatizado) é mais um dos resultados das políticas dúbias que marcaram os anos em que o PT esteve à frente do governo federal brasileiro.

Assim, o envolvimento da Aprosoja no financiamento das ações antidemocráticas que visam criar o caos no sistema político brasileiro não é apenas coerente com sua história, mas também bastante alinhado com a visão de país em que seus dirigentes desejam que vivamos todos.