A democracia do Google, Facebook e YouTube? Apontamentos sobre o viés ideológico dos motores de busca

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Por Lucas Malaspina

Quando Mark Zuckerberg decidiu anunciar o surgimento do Internet.org, a raiva não tardou em aparecer. Como explicou acertadamente Daniel Leisegang em “Facebook salvará o mundo”, publicado en español por Nueva Sociedad, este projeto surgido em 2013 tinha uma fachada humanitária: permitir acesso à Internet a uma enorme quantidade de cidadãos do Terceiro Mundo que ainda está fora da aldeia global. Para o caso, a ideia era romper as barreiras que impedem, por exemplo, que dois terços  ​​da população índia pudessem se unir ao Facebook.

Além da Índia, o projeto aspirava chegar a um total de 100 países. Acusada de violar a neutralidade da internet, o Facebook teve que trocar o nome do seu projeto: de Internet.org passou a se chamar Free Basics.  E o Facebook teve que se retirar da Índia em 2015 devido à grande quantidade de críticas que recebeu. Por quê?  Porque Facebook não está disponível em secas, mas se tratava de um aplicativo para telefones celulares para os setores de menos recursos da Índia podiam acessar uma versão diminuída da Internet. A ideia, originalmente impulsada com o espírito de que “a conectividade é um direito humano”, terminou mostrando que Zuckerberg pretendia era se apropriar de uma massa gigantesca de dados de uma quantidade significativa dos pobres do mundo (para monetarizá-los).

Facebook está salvando al mundo

Quem decidiria quais serviços estariam disponíveis no aplicativo? De acordo com Chris Daniels, vice-presidente da empresa, a decisão seria tomada pelo Facebook, o governo de cada país e o operador de telecomunicações associado ao projeto. Com razão, poderíamos afirmar que, se a “internet é um direito humano”, com o Free Basics, o Facebook aspirava regulares os “direitos humanos recortados” de metade da população mundial (aquela que não possui acesso à Internet). Estas políticas que ampliam a brecha digital tem que ter pouca inveja do modelo de Coreia do Norte, onde a maioria só tem acesso a uma uma modesta Intranet local que tem apenas 28 páginas disponíveis com conteúdo fiscalizados pelo governo de Kim Jong Un (a exceção é constituída, óbvio, pela elite governante). O Free Basics, que se encontrada em uma fase muito embrionária, tinha em Novembro de 2016 uns 40 milhões de usuários.

Na América Latina, o Free Basics foi implementado em 3 países (dos 23 que se uniram ao projeto em nível mundial) Colômbia, Guatemala e também a Bolívia, cuja inclusão no programa evidencia a discussão insuficiente sobre os problemas do monopólio da informação na área digital por parte dos governos populistas (ou, neste caso, sua colaboração/subordinação a esses monopólios).

O Free Basics não permite acesso ao Google, o mecanismo de busca mais popular do mundo, mas sim ao Bing (de propriedade da Microsoft que possui ações do Facebook).  E o que acontece com os 49,6% (3,7 bilhões de pessoas) que possuem internet sem (aparentes) restrições e dos quais 90% são usuários do Google. Podemos realmente nos gabar de usar uma internet realmente livre e neutra?

Efeito da Manipulação de Motores de Pesquisa

A expressão “Efeito da Manipulação dos Motores de Pesquisa” (Seme, em sua sigla em inglês) foi usada em agosto 2015 por Robert Epstein e Ronald E. Robertson, dois pesquisadores estadunidenses que demonstraram que era possível prever o voto de 20% ou mais de eleitorese indecisos em função dos resultados que o Google oferecia. Em vários artigos e entrevistas, Epstein se refere ao seu estudo e afirma que “em alguns grupos demográficos, “até 80% dos eleitores” podiam mudar suas preferencias eleitorais de acordo com os resultados oferecidos pelo Google [1]. Em Fevereiro de 2016, a mídia inglesa foi palco de uma grande polêmica sobre a ingerência do Google nas preferenciais dos eleitores [2].

Este não só é um problema das democracias ocidentais. Segundo linguista francesa Barbara Cassin, autora do “Googleame: a segunda missão dos Estados Unidos”, o Google teria cedido ao governo da China os perfis de seus usuários, o que permitiu às autoridades chinesas identificar e até prender dissidentes. Para provar o viés ideológico dos motores de pesquisa, Cassin afirmou que se num país diferente da China, o usuário pode obter dados sobre a repressão dos manifestantes naquela praça de Beijing. Mas se o usuário do Google usá-lo dentro da China, ele só obterá referências urbanas pacíficas para a praça”.

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Obviamente, o Google não admite este viés ideológico implícito em seu engenho de busca, mas as recentes políticas da empresa para ajudar a “combater o terrorismo” em geral e o Estado Islâmico (ISIS) em particular, mostrou concretamente o modo em que funciona seu poder sobe as decisões das pessoas. Esse é o caso do Jigsaw [3], um programa piloto de Google baseado em seu sistema de publicidade, mas com um objetivo comercial zero, mas sim político. O plano é localizar usuários propensos a aceitar a mensagem do ISIS, e oferecer-lhes uma série de anúncios específicos através dos quais eles são secretamente redirecionados para conteúdos que refutam as teses do ISIS, e que poderia ajudar a remover de suas cabeças a ideia de se juntar ao ‘Califado’. Poucos poderiam afirmar que o Google convence as pessoas a rejeitar o ISIS, mas é claro que isso revela que o Google está longe de ser “neutro” ou “objetivo” e, pelo contrário, chama a atenção para as possibilidades de manipulação dos usuários.

Batalha contra  as “Fake News” ou a Censura 2.0?

Os tempos mudaram, e com eles também o que encontramos na internet. Em 2010, ao pesquisar sobre política no Google, apenas 40% dos resultados eram fornecidos pela mídia. Já em 2016, essa porcentagem era próxima de 70%. Em 25 de abril de 2017, o Google anunciou que implementou mudanças em seu serviço de pesquisa para tornar mais difícil para os usuários acessar o que eles chamaram de “informações de baixa qualidade”, como “teorias de conspiração” e “notícias falsas”. O Facebook também aplicou uma política similar.

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O Google disse que o objetivo central da mudança em seu algoritmo de busca era proporcionar maior controle na identificação de conteúdo considerado censurável. Ben Gomes, em nome da empresa, afirmou que “melhoramos nossos métodos de avaliação e fizemos atualizações algorítmicas” para “produzir conteúdo mais autorizado”. O Google continuou: “Atualizamos nossas diretrizes para avaliar a qualidade da pesquisa para fornecer exemplos mais detalhados de páginas da Web de baixa qualidade para os avaliadores marcarem corretamente”. Esses moderadores são instruídos a marcar “experiências irritantes para o usuário”, incluindo páginas que apresentam “teorias de conspiração”. De acordo com o Google, essas alterações se aplicam a menos que “a consulta indique claramente que o usuário está buscando um ponto de vista alternativo”.

Desde que o Google implementou as mudanças no seu motor de busca, menos pessoas acessaram a sitíos de notícia de esquerda, progressitas ou opositores de guerras.  Com base na informação disponível nas análises de Alexa, alguns ds sites que experimentaram diminuição no seu ranking de acessos incluem  WikiLeaks, Truthout, Alternet, Counterpunch, Global Research, Consortium News, WSWS,  a Associação Americana de Liberadades Civis (a ACLU) e até a Anistia Internacional . Também no caso do Facebook, o editor do KRIK, um site independente da Sérvia, publicou suas queixas no The New York Times, explicando como as mudanças para combater (aparentemente) as “fake news” prejudicaram seriamente o seu veículo [4].

 Curiosamente, pouco antes dessa decisão do Google, o “The Washington Post” publicou um artigo intitulado “Os esforços de propaganda russos ajudaram a espalhar falsas notícias durante as eleições”. Neste artigo foi citado um grupo anônimo conhecido como PropOrNot que compilou uma lista de falsos sites de notícias espalhando “propaganda russa”. Em 7 de abril de 2017, a Bloomberg News informou que o Google estava trabalhando diretamente com The Washington Post para “verificar” os artigos e eliminar as “fake news” . Isto foi seguido pela nova  metodologia de busca do Google: dos 17 sites declarados “fake news” pela lista negra do Washington Post, 14 caíram em seus rankings globais. A diminuição média no alcance global deste sites foi de 25%, e alguns sites tiveram quedas de 60%. A suspeita  é de que o Google se aliou com os  poderosos meios tradicionais para discriminar a mídia alternativa e independente é reforçada pela ligação desses fatos.

Além do seu próprio mecanismo de busca, o Google controla o YouTube, uma empresa que eles compraram em 2006 (um ano após sua fundação). O YouTube paga os produtores de vídeos a partir de  certa quantidade de visualizações colocando anúncios   sobre eles, atuando como intermediário entre as grandes empresa os produtores de vídeo. A mudança mais séria no YouTube veio como resultado de relatórios como o do  The Wall Street Journal, que publicaram que  anúncios mostrados em vídeos do YouTube  mostravam extremismo e ódio [5]. Quando os grandes anunciantes, como a AT & T e a Johnson & Johnson, retiraram seus anúncios, o YouTube anunciou que tentaria tornar o site mais aceitável para os anunciantes “assumindo uma posição mais forte com respeito a conteúdos ofensivos e depreciativos”. Com esses novos algoritmos, o Google prejudicou os produtores de vídeos progressistas e independentes, causando o que eles chamavam de adpocalypse (apocalipse de anúncios). Basicamente, o mecanismo implementado acabou condenando esses conteúdos alternativos e obrigou os produtores de vídeo para que evitassem evitar opiniões ou pontos de vista censuráveis , de acordo com os padrões políticos do Google / YouTube [6].

Com base em seu estudo, Epstein questionou se o Google e Facebook decidem o que são “fake news” e quais seriam elas. Epstein considera que a posição monopolista do Google e do Facebook os transforma em uma espécie de super editor jornalístico mundial. As práticas do Google em relação aos algoritmos que regulam os motores de busca não só tiveram implicações políticas, mas também comerciais. No âmbito da sua regulamentação antitruste, a Comissão Europeia multou Google com US $ 2,7 bilhões por manipulá-los para direcionar os usuários para o seu próprio serviço de compras, o Google Shopping, usando sua posição dominante [7 ].

A escuridão dos algoritmos: problema democrático elementar

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Cathy O’Neil, uma pesquisadora da área da Matemática e autora do livro “Armas matemáticas de destruição”, adverte sobre a “confiança cega” depositada nos algoritmos para obter resultados objetivos. Segundo ela, a arquitetura da Internet tem uma tremenda influência sobre o que é feito e o que é visto; algoritmos influenciam qual conteúdo se estende mais no Facebook ou aparece no topo das buscas do Google. No entanto, os usuários não estão cientes disso, nem são capazes de entender como os dados são coletados, e como eles são classificados.

Se o Free Basics foi criticado por tentar conectar os desconectados do Terceiro Mundo a uma conexão de segunda classe, acreditando que a Internet é igual ao Facebook, não se pode negar que para a cidadania digital de “primeira classe” o Google é praticamente o mesmo que a Internet,  pois é aquele que nos permite acessar seus conteúdos de forma organizada. Desta forma, a falta de transparência dos algoritmos torna-se um problema democrático elementar. Após uma década de governos populistas ou progressistas na América Latina, não foram tomadas medidas para controlar o poder desses monopólios de informação, e a discussão sobre este tema está completamente atrasada. Mesmo a esquerda dos países desenvolvidos não veio propor um programa conjunto. Talvez, uma das tarefas mais urgentes.

Este artigo foi originalmente publicado em espanhol no site Nueva Sociedad : Democracia y política en América Latina [Aqui!]

O que diria George Orwell ? Wikileaks libera informações sobre ações de contra-inteligência digital da CIA

A grande notícia do dia de hoje é a liberação de um mega pacote de dados pelo site Wikileaks (Aqui!) sobre as ações de contra-inteligência da Agência Central de Inteligência (CIA) que incluem o hackeamento de telefones, computadores e até televisores.(Aqui!Aqui!Aqui!Aqui! e Aqui!).

Pelo menos uma fonte crível na questão das formas de ação da contra-inteligência estadunidense, o ex-analista da Agência Nacional de Segurança (NSA), Edward Snowden, já utilizou a sua conta pessoal no Twitter para indicar que o pacote de dados liberado pelo Wikileaks parece ser genuíno (Aqui!).

wiki cia 2

A novidade deste vazamento não é tanto por se confirmar algo que se desconfiava estar ocorrendo, visto a fragilidade dos sistemas de segurança da maioria dos equipamentos que usam os sistemas operacionais da Apple e da Google.   Na verdade, a novidade mesmo é o fato de que a própria CIA foi hackeada e teve seus “modus operandi” dissecado por sabe-se-lá-quem, e que depois repassou para o Wikileaks vazar.

De toda forma, esse vazamento deverá ter alguns efeitos imediatos. O primeiro será um baque nas vendas dos televisores inteligentes da multinacional sul coreana SAMSUNG que aparentemente é a única marca que já foi transformada em zumbi pelos hackers da CIA. O segundo efeito deverá ser um aumento considerável nas medidas de segurança dos usuários dos sistemas não apenas da Apple e da Google, mas também do Linux que até agora era citado como quase impossível de ser hackeado.

Há ainda que se reconhecer o fato de que o Wikileaks que já era dado como morto e inútil por muitos, conseguiu aparentemente está mais vivo do que nunca. 

Por último, outro efeito inevitável desse vazamento será um aumento da demanda pelo livro “1984” do escritor inglês George Orwell que antecipou esse tempo onde a ingerência do Estado na área privada dos indivíduos, visando obviamente o controle social das massas, seria total (Aqui!). E 68 anos depois da primeira edição de “1984”  eis estamos aqui todos nós sob o olhar atento do “Grande Irmão” que no final não era comunista, mas sim o suposto campeão dos valores democráticos. George Orwell certamente iria apreciar essa ironia.

Dá para confiar no Google? Entrega de dados do Wikileaks ao FBI mostra que não!

O jornal britânico “The Guardian” colocou no ar neste domingo uma matéria assinada pelos jornalistas Ed Pilkington and Dominic Rushe mostrando que a Google demorou “quase” três anos para informar ao Wikileaks que havia passado informações concernentes a membros do grupo ao governo estadunidense, mais precisamente para o FBI (Aqui!).

Apesar de já fazer algum tempo que o Wikileaks vinha denunciando o Google por colaborar o governo dos EUA no esforço massivo de violar a privacidade de usuários da internet, esta confirmação certamente contribuirá para um acirramento nas relações entre as duas partes.

O mais grave é que se suspeita que os dados passados pela Google para o FBI se referem a um processo criminal que corre em segredo de justiça, tendo como motivo o massivo vazamento de documentos secretos por parte do Wikileaks, e que levaram ao encarceramento de Bradley Manning e ao exílio de Julian Assange dentro da embaixada do Equador em Londrres..

Agora fica mais claro que podemos até usar as ferramentas associadas ao Google, mas que com o devido grau de desconfiança em relação à prometida confidencialidade de contas de correio eletrônico. É que para quem entregou dados de pessoas ligadas ao Wikileaks, entregar os de pessoas comuns é nada.

Julian Assange: Negócio do Google e Facebook é a destruição da privacidade

Julian Assange

Julian Assange é fundador do WikiLeaks, atualmente está refugiado na Embaixada do Equador em Londres

Negócio do Google e Facebook é a destruição industrial da privacidade

O fim da privacidade amplia o desequilíbrio de poder entre as elites e o resto do mundo

por Julian Assange, no New York Times, via UOL

Hoje, dizer que o livro “1984″ de George Orwell foi profético já é um clichê jornalístico, e suas profecias são um lugar-comum da modernidade. Sua leitura agora pode ser uma experiência entediante. Comparados às maravilhas oniscientes do estado de vigilância atual, os dispositivos do Big Brother — televisores vigilantes e microfones ocultos — parecem pitorescos, até mesmo reconfortantes.

Tudo sobre o mundo que Orwell imaginou tornou-se tão óbvio que temos dificuldade com as deficiências narrativas do romance.

Impressiono-me mais com outro dos seus oráculos: um ensaio de 1945 intitulado “Você e a Bomba Atômica,” em que Orwell antecipa mais ou menos a forma geopolítica do mundo no meio século que se seguiu. “Épocas em que a arma dominante é cara ou difícil de fazer”, ele explica. “Será uma era de despotismo, ao passo que, quando a arma dominante é barata e simples, as pessoas comuns têm uma chance. Uma arma complexa deixa o forte mais forte, enquanto uma arma simples — desde que não haja resposta a ela — fortalece os fracos”.

Ao descrever a bomba atômica (que havia sido lançada apenas dois meses antes em Hiroshima e Nagasaki) como uma “arma inerentemente tirânica”, ele prevê que ela irá concentrar o poder nas mãos de “dois ou três superestados monstruosos” com avançadas bases de indústria e pesquisa necessárias para produzi-la. E se, ele pergunta, “as grandes nações sobreviventes fizessem um acordo tácito para nunca usar a bomba atômica uma contra a outra? E se elas apenas a usassem, ou ameaçassem usá-la, contra povos incapazes de retaliar?”.

O resultado provável, ele conclui, seria “uma época tão horrivelmente estável quanto os impérios de escravos da antiguidade”. Ao inventar o termo, ele prevê “um permanente estado de ‘guerra fria’: uma paz sem paz”, em que “os povos e as classes oprimidas têm menos perspectivas e esperança”.

Há paralelos entre a época de Orwell e a nossa. Por um lado, nos últimos meses, fala-se muito sobre a importância de “proteger a privacidade”, mas pouco sobre por que isso é importante. Não é, como nos querem fazer acreditar, que a privacidade seja inerentemente valiosa. Isso não é verdade. A verdadeira razão está no cálculo do poder: a destruição da privacidade amplia o desequilíbrio de poder existente entre as facções que decidem e o povo, deixando “os povos das classes oprimidas”, como Orwell escreveu, “ainda mais sem esperança”.

O segundo paralelo é ainda mais grave e menos compreendido. Nesse momento, mesmo aqueles que lideram o ataque contra o estado de vigilância continuam a tratar a questão como se ela fosse um escândalo político, culpa de políticas corruptas de alguns homens maus, que devem ser responsabilizados. Acredita-se que as sociedades precisem apenas aprovar algumas leis para corrigir a situação.

O câncer é muito mais profundo do que isso. Vivemos não só em um estado de vigilância, mas em uma sociedade de vigilância. A vigilância totalitária não está apenas em nossos governos; está incorporada na nossa economia, em nossos usos mundanos da tecnologia e em nossas interações cotidianas.

O conceito da internet — uma rede única, global, homogênea que abrange o mundo todo — é a essência de um estado de vigilância. A internet foi construída em um modo de vigilância amigável porque os governos e organismos comerciais importantes assim o quiseram. Havia alternativas a cada passo do caminho. Elas foram ignoradas.

Em sua essência, empresas como o Google e o Facebook estão no mesmo ramo de negócio que a Agência de Segurança Nacional (NSA) do governo dos EUA. Elas coletam uma grande quantidade de informações sobre os usuários, armazenam, integram e utilizam essas informações para prever o comportamento individual e de um grupo, e depois as vendem para anunciantes e outros mais. Essa semelhança gerou parceiros naturais para a NSA, e é por isso que eles foram abordados para fazer parte do PRISM, o programa de vigilância secreta da internet. Ao contrário de agências de inteligência, que espionam linhas de telecomunicações internacionais, o complexo de vigilância comercial atrai bilhões de seres humanos com a promessa de “serviços gratuitos”. Seu modelo de negócio é a destruição industrial da privacidade. E mesmo os maiores críticos da vigilância da NSA não parecem estar pedindo o fim do Google e do Facebook.

Recordando as observações de Orwell, há um lado “tirânico” inegável na internet. Mas ela é muito complexa para ser inequivocamente classificada como um fenômeno “tirânico” ou “democrático”.

Quando os povos começaram a formar cidades, foram capazes de coordenar grandes grupos pela primeira vez e rapidamente ampliar a troca de ideias. Os consequentes avanços técnicos e tecnológicos geraram os primórdios da civilização humana. Algo semelhante está acontecendo em nossa época. É possível se comunicar e fazer negócios com mais pessoas, em mais lugares em um único instante de modo nunca antes visto na história. A mesma evolução que facilita a vigilância da nossa civilização, dificulta sua previsibilidade. Grande parte da humanidade teve facilitada a busca pela educação, a corrida para o consenso e a competição com grupos de poder entrincheirados. Isso é encorajador, mas a menos que seja cultivado, pode ter vida curta.

Se há uma analogia moderna do que Orwell chamou de “arma simples e democrática”, que “fortalece os fracos”, ela seria a criptografia, a base da matemática por trás do bitcoin e dos programas de comunicações mais seguros. A produção é barata: um software de criptografia pode ser produzido em um computador doméstico. E a distribuição é ainda mais barata: um programa pode ser copiado de uma forma que objetos físicos não podem. Mas também é insuperável — a matemática no coração da criptografia moderna é sólida e pode suportar o poder de uma superpotência. A mesma tecnologia que permitiu que os aliados criptografassem suas comunicações de rádio para protegê-las contra interceptações, agora pode ser baixada através de uma conexão com a internet e instalada em um laptop barato.

Considerando-se que, em 1945, grande parte do mundo passou a enfrentar meio século da tirania em consequência da bomba atômica, em 2015 enfrentaremos a propagação inexorável da vigilância em massa invasiva e a transferência de poder para aqueles conectados às suas superestruturas. É muito cedo para dizer se o lado “democrático” ou o lado “tirânico” da internet finalmente vencerá. Mas reconhecê-los — e percebê-los como o campo de luta — é o primeiro passo para se posicionar efetivamente junto com a grande maioria das pessoas.

A humanidade agora não pode mais rejeitar a internet, mas também não pode se render a ela. Ao contrário, temos que lutar por ela. Assim como os primórdios das armas atômicas inaugurou a Guerra Fria, a lógica da internet é a chave para entender a iminente guerra em prol do centro intelectual da nossa civilização.

FONTE: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/julian-assange.html

Wikileaks prepara novo vazamento de arquivos secretos

Getty Images

Julian Assange

Julian Assange: ativista criticou a centralização da informação em poucas mãos e acusou o Google de manter estreitas relações com o governo americano

Da EFE

Lisboa – O fundador do Wikileaks, Julian Assange, revelou neste domingo que a organização prepara um novo vazamento de arquivos secretos e criticou o Google por considerá-lo a serviço do governo dos Estados Unidos.

As declarações foram dadas durante participação em um fórum sobre “Vigilância de Massas” no Festival de Cinema de Lisboa e Estoril (Leffest), por meio de teleconferência, já que continua recluso na embaixada do Equador em Londres.

O ativista australiano não forneceu detalhes sobre o conteúdo do vazamento nem a data que os arquivos serão divulgados.

Durante o discurso, Assange fez duras críticas ao governo e às agências de inteligência americanas por tentarem controlar o maior número possível de dados em nível mundial. Ele destacou que apesar dos muitos ataques contra o Wikileaks, a organização conseguiu sobreviver e segue funcionando.

“Não conseguiram destruir nem um só documento, eles (americanos) perderam”, ressaltou o ativista australiano, refugiado na representação diplomática do Equador em Londres desde julho de 2012, após a Corte Suprema Britânica ter autorizado sua extradição para a Suécia.

Os suecos acusam Assange de ter cometido crimes sexuais no país, fato negado pelo ativista. Ele afirma que a extradição é interesse dos Estados Unidos, que quer ele seja julgado assim como Chelsea Manning, soldado que vazou documentos diplomáticos para o Wikileaks em 2010 e condenado a 35 anos de prisão.

Chelsea Manning, ex-analista de inteligência do exército americano, era conhecida como Bradley Manning na época do vazamento, e passou por uma operação de mudança de sexo. A militar atuou em operações americanas no Iraque.

O fundador do Wikileaks defendeu que a principal ameaça de segurança em nível mundial é o poder ilimitado das agências de inteligência. Ele descartou que a vigilância em massa seja o método mais adequado para combater o terrorismo.

Assange criticou a centralização da informação em poucas mãos, algo que, em sua opinião, transformaria o mundo em totalitário, e acusou o Google de manter estreitas relações com o governo americano. 

FONTE: http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/wikileaks-prepara-novo-vazamento-de-arquivos-secretos

Europeus se mobilizam para não se tornar colonos digitais das gigantes norte-americanas. E nós?

An anti-Google protest banner hung outside a developer's conference in San Francisco.

O jornal britânico “The Guardian” acaba de postar um artigo assinado por Julliette Garside analisando um movimento de resistência digital ao domínio que corporações estadunidenses vem exercendo sobre a internet (Aqui!). O que os europeus estão questionando é o poder que corporações como a Amazon, Apple, Facebook e Google possuem hoje sobre a internet, o que comprometeria a liberdade digital.

Expressões como “capitalismo brutal da informação”, “colônias digitais” e até o “direito de desaparecer” aparecem no artigo de Garside como um reflexo do debate que está ocorrendo na Europa para que se diminua o poder que essas corporações possuem no mundo digital.

E quanto a nós, a inexistência deste tipo de consciência cibernética é agravada pela visão ingênua de que a internet é um território ainda livre. Esse tipo de visão não foi sequer arranhada pelas denúncias de Edward Snowden que apontaram que as gigantes da internet como Google e Yahoo realmente colaboraram com o programa de espionagem desenvolvido pela National Security Agency.

Essa reação ao domínio das corporações que dominam hoje a internet é provavelmente uma das fronteiras mais avançadas do debate sobre democracia no Século XXI. Quanto antes começarmos a fazer o debate que os europeus já estão fazendo, maiores serão as chances de que possamos superar a hipnose coletiva que hoje nos torna consumidores ávidos de uma cibersfera fortemente controlada por interesses corporativos.