
Por Douglas Barreto da Mata
Dirijo-me à Vossa Excelência com todo respeito e liturgia que vosso cargo exige, agora confirmado pelos 192.231 sufrágios recebidos em 06 de outubro deste ano. Tens a chance de recriar as bases de um novo governo, agora fortalecido pela aprovação maciça do eleitor, ainda que, por óbvio, haja outras demandas e acordos políticos necessários à manutenção da governabilidade.
No entanto, por certo, hoje o vosso capital político está anos luz à frente daquele arrecadado ao fim de 2020. Não se trata de desprezar aliados e alianças, mas dar ao mandato a força e o nome que ele tem, Wladimir Garotinho, até porque, todos os analistas são unânimes em dizer que vós sois maior que o seu governo.
Não podemos ignorar que houve avanços desde o desastre anterior, personificado em Rafael Diniz, mas sua figura, é sim, central nisso tudo. Por isso, agora, a referência comparativa é o senhor consigo mesmo.
A cidade precisa de um governo com a vossa disposição e presença, com vossa agilidade, humor e ironia, enfim, com vossa resiliência, que nunca significou covardia, quando enfrentou a questão da Lei Orçamentária Anual (LOA), por exemplo. E vós sabeis que essa coragem institucional precisa contaminar sua equipe.
Coragem para ir além do óbvio, que não foi pouco fazer, como vimos, dada a destruição da cidade promovida pelo experimento rafaeliano. Seu time precisa mostrar compromisso, espírito público, senso de urgência, e mais, capacidade de inovar, fazer o que nunca foi feito. E mais: se houver dúvida de como tomar decisões, sempre difíceis, seu governo, orientado por Vossa Excelência, deve sempre escolher a solução que atenda mais gente e os que mais precisam. Sempre!
Só isso, nessa terra de bugres que se acham ilustrados, já seria uma enorme novidade. Desde a coleta de lixo, conservação urbana, mobilidade, educação, que avançou bastante, mas não pode parar. na saúde, um parágrafo à parte. Sim, os equipamentos estão sendo recuperados, mas carecem de gente treinada e capaz, e mais ainda, a saúde precisa, urgentemente, de uma guinada.
A redução da nefasta terceirização de serviços à rede de contratualização, que mostrou-se incapaz de solucionar as filas, exames, atendimentos de média e alta complexidade.
Entendo que não se manobra um Titanic como se fosse um pedalinho. Porém, é preciso apontar (e mudar) direções, e nesse caminho que estamos, com um monte de dinheiro destinado às entidades privadas, o colapso da saúde está pela frente.
Nem vou mencionar o caso recente (e recorrente) da Santa Casa de Misericórdia, suspeita de desvio de verbas federais da saúde, pois espero que seja uma exceção. A tão chamada revitalização do centro, que teve, por exemplo, em Vossa Excelência a iniciativa de mover equipamentos municipais para aquela região, é outro ponto importante. Torço que Vossa Excelência não incorpore uma visão higienista de remoção dos moradores em situação de rua, mas promova um programa que transforme moradores em situação de rua em moradores daquelas ruas, usando imóveis sem uso como moradias populares e dignas, dando nome, CEP, endereço àquelas pessoas, que querem reconexão com o mundo, mas com privacidade e um lugar deles.
A psiquiatria e a psicologia social explicam porque eles rejeitam abrigos coletivos, é só consultar quem entende desse assunto, sobre o qual tenho pouco saber. Minha intuição me diz que reconectar essas pessoas é lhes dar um lar, um lugar onde possam dizer às suas famílias onde moram, e então, receberem seus entes, reatando laços, promovendo retornos ou religando convivências. Isso não é invenção minha, há muitas cidades como exemplos. Ao mesmo tempo, essas pessoas podem ser contratadas para serviços adequados aos seus saberes, desde a ajuda na limpeza urbana, até como guias turísticos ou outras funções.
Os recursos para aluguéis dos imóveis podem ser negociados com proprietários, tendo sempre em vista a função social da propriedade, que implica, em último caso, aumento progressivo de impostos para edificações não utilizadas. O nome disso? Distribuição de renda, diminuição de distância entre ricos e pobres.
No transporte, ao que parece, Vossa Excelência terá que zerar tudo. O modelo atual falhou, não serve mais, nem aqui, nem em lugar algum. Cidades não conseguem bancar tarifas com orçamentos cada vez menores, e com um modelo de cidade que empurra cada vez mais os pobres para periferias, nos campos de concentração, chamados de conjuntos populares. Essa conta não fecha. Porém a demanda por mudança na mobilidade e habitação podem encontrar em Vossa Excelência uma saída, se resolver interromper a política de exílio de pobres para longe, reurbanizando comunidades, dotando comunidades de dignidade urbanística, mantendo as pessoas na cidade.
Cidade sem gente circulando morre. O centro é o coração, gente circulando é o sangue da cidade. Pobres e ricos vivendo e convivendo juntos. Os modelos de gestão de mobilidade têm que onerar que mais lucra com eles, e são trabalhadores assalariados os maiores prejudicados com o custo do transporte, que sabemos, retira renda das classes trabalhadoras. Quem deve pagar pelo transporte do trabalhador não é a cidade ou o trabalhador, ao menos, não em maior parte. Cabe ao empresário, ao patrão, o pagamento desse custo, porque é dele o lucro advindo do trabalho alheio. Sem considerar essa premissa, Vossa Excelência vai ser fiador de renovação de frota de um sistema tendente à falência.
Enfim, há muita coisa mais, mas acho que me estendi demais. Talvez em outra oportunidade, não falamos de cultura e seus agentes, de agricultura e agricultores, de servidores, etc. Fico por aqui, e rogo que Vossa Excelência tenha sucesso, não apenas em ter votos, isso já provou sua capacidade.
Citando Antonie de Saint-Exupéry, no seu famoso O Pequeno Príncipe: “És eternamente responsável por aquilo que cativas”.


