H&M amplia boicote sueco ao Brasil. Outras grandes empresas podem ser juntar ao movimento

H&MA cadeia H&M é a segunda maior do mundo no ramo da modo e o boicote da empresa contra o couro produzido no mundo deverá ter consequências amplas para a produção brasileira de couro.

A multinacional sueca Hennes & Mauritz (ou simplesmente H&M) anunciou hoje que suspenderá suas compras de couro brasileiro em função da devastação que está ocorrendo por causa das queimadas na Amazônia brasileira.

h&m 1

A H&M é a segunda maior cadeia de produtos de moda do mundo comunicou oficialmente que “devido aos graves incêndios na parte brasileira da floresta amazônica e às conexões com a produção de gado, decidimos proibir temporariamente o couro do Brasil”. E seu comunicado a H&M afirmou ainda que a “a proibição permanecerá ativa até que existam sistemas de garantia credíveis para verificar se o couro não contribui para danos ambientais na Amazônia”.

Há que se lembra que foi na Suécia que em junho de 2019 foi lançado o primeiro boicote formal conta produtos brasileiros por causa do uso excessivo de agrotóxicos e do desmatamento na Amazônia. Naquela ocasião, o boicote foi declarado pelo fundador e CEO da rede de mercearias especializadas em produtos orgânicos Paradiset, Johannes Cullberg. 

Se naquela ocasião a embaixada brasileira em Estocolmo enviou uma carta para pressionar Cullberg a suspender o seu boicote aos produtos brasileiros. Entretanto,  Johannes Cullberg não apenas não cessou o boicote, mas como começou uma campanha na Suécia e em toda a Europa para ampliar o processo que ele iniciou em sua empresa. O esforço de Cullberg já está causando fortes pressões por partes de consumidores suecos sobre as grandes redes de supermercados da Suécia.

icaA cadeia de supermercados sueca Ica não descarta um boicote aos produtos brasileiros.

Agora, vamos ver como se comporta o governo Bolsonaro em face de ampliação do movimento de boicote a commodities agrícolas que já causando perdas milionárias ao agronegócio brasileiro, de onde saiu um vigoroso apoio à candidatura presidencial de Jair Bolsonaro.

Por causa da Amazônia, de Portugal à Suécia cresce a pressão pelo boicote à carne brasileira

boicote

Dois jornais europeus (um de Portugal e outro da Suécia) publicaram de ontem para hoje matérias que colocam claramente em xeque as exportações da carne bovina produzida pelo Brasil por causa do atual ciclo de desmatamento e fogo que está ocorrendo na Amazônia brasileira.

carne brasileiracarne suecia

No caso português, a matéria assinada pela jornalista Margarida Cardoso informa que um número crescente de açougues e restaurantes portugueses estão trocando a carne brasileira por aquelas produzidas no Uruguai e na Argentina. A razão para isto é simples: os portugueses estão questionando cada vez mais a procedência da carne que irão consumir. 

Essa propensão dos portugueses a não querer consumir carne oriunda de desmatamentos realizados na Amazônia brasileira também está aparecendo em outros países da Europa, incluindo a Suécia que foi palco da primeira convocação de boicote aos produtos agrícolas brasileiros por meio de uma convocação realizada pelo CEO da rede de mercearias orgânicas Paradiset, Johannes Cullberg (ver vídeo abaixo dirigido aos brasileiros).

Um elemento novo que está surgindo nos países europeus é que a população parece não estar disposta a esperar pela ação de seus governos para impor de forma difusa um boicote popular aos produtos brasileiros. Esse boicote de natureza popular será mais difícil de ser combatido pelos próprios governantes europeus que não têm demonstrado muita disposição para enfrentar as políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro, a começar por Angela Merkel que continua defendendo o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, apesar do que está acontecendo na Amazônia.

Diante do quadro que está se formando na Europa, fico curioso sobre como se comportarão os barões do agronegócio exportador diante dos danos evidentes que as políticas anti-ambientais implantadas pelo governo Bolsonaro estão tendo sobre seus lucros.

Siemens declara boicote à mineração em áreas indígenas no Brasil

mineração áreas indigenas

A multinacional alemã Siemens informou hoje em sua página oficial na rede social Twitter que não fornecerá equipamentos nem apoio logístico para a realização de atividades de mineração em áreas indígenas  no Brasil (ver imagem abaixo).

siemens

Segundo a declaração bastante sucinta, a Siemens informou que  o respeito pelos direitos humanos seria “um princípio central” nas suas atividades em todo o mundo.

O fato é que o movimento de boicote às relações comerciais com o Brasil está crescendo rapidamente, muito em função das declarações desastradas que estão emanando do interior do governo federal, muitas deles pelo próprio presidente da república. Pelo jeito, só quando o somatório das diversas ações de boicote ficar claro é que o alarme será soado no empresariado nacional. Mas, talvez, quando isso acontecer a vaca já vai ter ido para o brejo.

O Brasil na imprensa alemã (28/08)

Queimadas na Amazônia continuam dominando o noticiário na Alemanha. Mídia atribui desastre à política ambiental de Bolsonaro e sua ligação com o agronegócio. Mas consumidores alemães também são responsáveis, diz revista.

queimada“Imagens de florestas tropicais queimadas e troncos de árvore carbonizados correm o mundo”

Süddeutsche Zeitung – Dias de fogo (26/08)

Em face dos devastadores incêndios na Amazônia, cresce a pressão para que o Brasil mude sua política ambiental. Também o ministro alemão do Exterior, Heiko Maas, propõe agora que o Brasil seja pressionado a adotar uma maior proteção climática por meio do acordo comercial com o Mercosul. “O fato de o acordo com o Mercosul ter sido finalmente resolvido nos dá oportunidades e meio de pressão para influenciar o que lá acontece”, disse o político social-democrata nesta segunda-feira. Ele acrescentou que existem certos valores e padrões “sem os quais nós não embarcamos”. O presidente francês, Emmanuel Macron, também fez comentários similares.

(…)

As Forças Armadas brasileiras começaram a jogar água nas áreas de incêndio com aviões de transporte Hércules. Ao mesmo tempo, a polícia está investigando os organizadores do chamado Dia do Fogo. A mídia local relatou que fazendeiros teriam combinado de queimar grandes áreas ao mesmo tempo, para dar espaço para pastos e plantações de soja. O ministro da Justiça, Sergio Moro, tuitou: “Incêndios criminosos na Amazônia serão severamente punidos.”

Esse é um novo tom, já que o presidente Jair Bolsonaro vem incentivando os agricultores a produzir fatos. O Ministério do Meio Ambiente teria tido conhecimento do planejado “Dia do Fogo”, mas não fez nada, segundo tuitou o jornalista investigativo Glenn Greenwald, que mora no Brasil. A diretora da Fundação Heinrich Böll no Rio de Janeiro, Annette von Schönfeld, também não vê mudanças políticas. “O governo Bolsonaro realmente não tem nenhum pensamento de política ambiental”, disse.

Spiegel Online – O negócio bilionário com os recursos naturais do Brasil (23/08)

Jair Bolsonaro ainda tem grandes planos para a Amazônia. Ele queria fazer da imensa área em torno do mais poderoso rio do mundo a “alma econômica” do Brasil, como anunciou o presidente recentemente durante uma visita à cidade de Manaus. “Nossa Amazônia, a região mais rica do planeta Terra”, disse Bolsonaro, acrescentando que ela pode se tornar o ponto de partida para uma nova recuperação econômica por todo o país. Em harmonia com a proteção ambiental, é claro.

O aumento dramático no desmatamento desde que Bolsonaro assumiu em janeiro ainda era uma questão regional na Amazônia naquela época. Mas agora as imagens de florestas tropicais queimadas, troncos de árvore carbonizados, grandes clareiras estéreis e o céu cinza escuro sobre São Paulo correm o mundo. E as estatísticas do instituto de pesquisa estatal Inpe parecem dar razão a todos os críticos, que sempre alertaram que a Amazônia seria impiedosamente explorada sob a égide de Bolsonaro.

(…)

Bolsonaro havia anunciado que reduziria as multas por delitos ambientais, reduziria os controles e liberaria as reservas indígenas para a mineração. Para ele, a conservação da natureza deve estar subordinada aos interesses da economia. E existem algumas empresas, corporações e indústrias que ganham muito dinheiro com a exploração da Amazônia. Em primeiro lugar está a poderosa indústria agrícola.

Focus Online – Nossa fome por carne e soja alimenta os incêndios florestais no Brasil (24/08)

As florestas tropicais do Brasil se tornaram um brinquedo das corporações do agronegócio. Onde hoje há incêndios, tem gado pastando amanhã. Os consumidores na Alemanha também são responsáveis pela ameaça à Região Amazônica. O maior apetite, no entanto, é dos chineses.

As imagens da floresta tropical em chamas no Brasil estão causando preocupação em todo o mundo. Embora os incêndios aconteçam a milhares de quilômetros da Alemanha, o desastre do outro lado do Atlântico também tem a ver com o comportamento do consumidor na Europa. Acima de tudo, o desejo por bifes suculentos e costeletas quentes alimenta o desmatamento e a queimada de grandes áreas na Amazônia.

“É claro que nossas ações na Alemanha têm muito a ver com a perda da floresta tropical”, diz o professor da economia mundial de alimentos da Universidade de Göttingen, Matin Qaim. “Por exemplo, estamos importando grandes quantidades de soja como ração para nossos bovinos e suínos, e o aumento do cultivo da soja está contribuindo para o corte de florestas tropicais no Brasil.”

__________________________________

Este compêndio de notícias da imprensa alemã sobre a catástrofe ambiental na AmaZônia foi originalmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

Amazônia em chamas: couro, carne e soja são as primeiras baixas da catástrofe ambiental causada pelo governo Bolsonaro

amazon burning

O portal UOL publicou hoje um artigo assinado pelo jornalista Lucas Borges Teixeira onde são informadas as primeiras retaliações por governos estrangeiros e corporações multinacionais contra um portfólio que inclui couro, carne e soja contra o qual se inicia um boicote por causa das queimadas que estão consumindo áreas consideráveis na Amazônia brasileira.

Há que se notar que quando o fundador e CEO da rede sueca de mercearias orgânicas Paradiset, Johannes Cullberg, deu o pontapé inicial no que agora pode se transformar um amplo boicote comercial às commodities agrícolas produzidas no Brasil, muita gente deu de ombros e desconsiderou a iniciativa em função do tamanho relativamente pequeno da empresa. 

timberland

Entretanto, agora são empresas como a Nestlé e o conglomerado VF Corp (dono de marcas como KIippling, Timberland e Vans) e a Mowi (maior produtora de salmão do mundo) que estão se movendo para punir o Brasil por causa das queimadas na Amazônia. Além disso, o governo da Finlândia vem insistindo em boicote à carne brasileira. Quando colocados juntas, essas ações antecipam um processo de boicote que poderá ser devastador para a capacidade do Brasil de colocar suas commodities agrícolas em grandes mercados internacionais.

Enquanto isso no Brasil, o governo Bolsonaro insiste em uma posição que mistura arrogância com ignorância e oferece sinalizações claras que continuará desmontando a governança ambiental e os mecanismos de comando e controle existentes na Amazônia com o fechamento de escritórios do IBAMA em vários estados amazônicos. Além disso, persiste o discurso de revisão da demarcação de áreas indígenas e a abertura dessas terras à exploração por latifundiários e mineradoras.

A postura do governo Bolsonaro se assemelha a um jogador de pôquer que insiste em jogar todo o dinheiro que possui, apesar de ter ao seu dispor cartas que significam derrota certa, por acreditar que se pode blefar e sair ileso porque os adversários jamais vão pagar para ver. 

O problema é que, dados os grandes interesses em jogo por causa da importância estratégica da Amazônia na mitigação das mudanças climáticas globais, esta insistência em blefar pode trazer efeitos econômicos desastrosos para o Brasil. 

Para piorar todo esse cenário conspira o fato de que o pico das queimadas na Amazônia brasileira normalmente ocorre anualmente ao longo da primeira quinzena de setembro por motivos que se relacionam ao simples fato de que as florestas derrubadas demoram algum tempo para alcançar o ponto ideal de flamabilidade. Por isso, é bem provável que ainda vejamos grandes manifestações contra o Brasil no exterior ao longo do mês de setembro. A ver!

Amazônia em chamas: pirosoberania para devastar é o lema do governo Bolsonaro

amazonia-770x432

As ações do governo Bolsonaro confirmam que estamos diante de um executivo federal que está fortemente determinado a colocar o Brasil em um curso de irreversível recolonização, sendo os EUA o candidato favorito a ser a nossa nova metrópole tuteladora.  Só assim para se entender a recusa em aceitar cerca de R$ 90 millhões oferecidos pelo G-7 para auxiliar no combate aos incêndios devastadores que estão hoje ameaçando áreas inteiras da Amazônia inteira.

O interessante é que o mesmo governo que trabalha para nos transformar em uma espécie de neocolônia estadunidense age para fazer parecer que a recusa do auxílio financeiro (pequeno e claramente insuficiente, diga-se de passagem) seria uma espécie de ato em defesa da soberania nacional que estaria ameaçada pelo presidente da França, Emmanuel Macron. 

Nessa versão rocambolesca daquilo que eu já rotulei de “pirosoberania”, tivemos de ouvir o porta-voz da presidência da república, o general da reserva Otávio Santana do Rêgo Barros, que afirmou que sobre a Amazôniafalam os brasileiros e as Forças Armadas”.   A afirmação do general porta-voz seria reconfortante se o exército brasileiro não estivesse ponderando liberar 25.000 recrutas por falta de recursos financeiros.

Mais expressiva dessa versão de defesa da soberania em relação às manifestações de Emmanuel Macron são os insistentes discursos do presidente Jair Bolsonaro no sentido de abrir a Amazônia para ser explorada diretamente pelos EUAAparentemente a intromissão na soberania só aparece mesmo quando a discussão gira em torno da proteção do meio ambiente e dos povos indígenas. 

O problema para Jair Bolsonaro é que nem nos EUA a devastação da Amazônia tem apoio completo, com setores importantes se mobilizando neste momento para denunciar a devastação causada na região por uma combinação de omissão estatal que propiciou a ação livre de madeireiros, garimpeiros e grileiros.  Pior ainda será a situação se o presidente Donald Trump for apeado do poder nas eleições presidenciais que ocorrerão em 2020 e for substituído por um democrata que se alinhe mais com a visão que emanada da maioria dos líderes do G-7.

Por isso, todos os arroubos discursivos que estão sendo cometidos por Jair Bolsonaro e seus ministros contra as posições enunciadas por Emmanuel Macron podem até ser apresentados como defesa da soberania nacional, mas não resolvem a questão essencial que é o fato de que o controle sobre a Amazônia, caso a devastação em curso continue sendo tolerada, passará  inevitavelmente por um debate sobre os mecanismos de controle internacional.

Mas antes disso é possível que assistamos ao recrudescimento dos pedidos de boicote às commodities brasileiras vindas das áreas desmatadas na Amazônia.  Quando isso acontecer, e vai acontecer, vamos ver como ficarão os membros do governo Bolsonaro que hoje posam de valentes e recusam a ajuda externa para combater a devastação que suas políticas anti-ambientais trataram de acelerar.

Finalmente, quero notar aqui o massacre sofrido pelo ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, no programa Roda Viva que ocorreu no dia de ontem (26/08). A clara incapacidade de Salles em responder a questões básicas levantadas pela competente bancada de jornalistas e a insistência de se comportar como um “Rolando Lero” são a melhor expressão da eficiência das políticas anti-ambientais existentes no Brasil. Mas, mesmo assim, não deixa de ser lamentável notar a que ponto chegamos graças à presença de um personagem como esse à frente de uma área tão estratégica para o destino do Brasil.

Mídia brasileira “passa o pano” para livrar Jair Bolsonaro de suas responsabilidades na Amazônia

fogo-amazonia

Li as manchetes das matérias que dominam as capas dos principais veículos da mídia corporativa brasileira e o que vi pode ser sintetizado como um esforço coletivo de “passar o pano” na imagem combalida de Jair Bolsonaro que está completamente chamuscada pelos incêndios devastadores que suas políticas anti-ambientais alimentam na Amazônia e por seus excessos na rede social Twitter, incluindo o ataque sexista à primeira dama da França, a qual já foi vigorosamente respondido por Emmanuel Macron.

Aliás, no tocante às manifestações de Emmanuel Macron, o que verifiquei foi a existência de uma tentativa de mostrá-lo como voz isolada dentro do G-7 e que teria sido derrotado em suas postulações em relação ao controle internacional da Amazônia, caso o Brasil continue permitindo a devastação de uma região que possui papel estratégico no controle das mudanças climáticas.

Aqui é preciso que ninguém caia nesse engano, pois não apenas Emmanuel Macron não é uma voz isolada, pois outros países membros da União Europeia estão dispostos a seguir a mesma orientação da França.  O que parece ter havido na reunião do G-7 foi a tomada de uma posição mais pragmática em prol dos interesses comerciais dos seus membros, principalmente os da Alemanha e da Espanha. Entretanto, os bombeiros dentro do G-7 não vão poder conter a disposição de medidas punitivas contra o Brasil se não houver uma reversão das posições expressas publicamente pelo presidente Jair Bolsonaro sobre o que eu caracterizei como sendo o exercício da “pirosoberania”. 

Outra coisa que precisa ser mencionada é que mais uma vez foram os veículos internacionais que expuseram a verdadeira dimensão da tragédia que continua ocorrendo na Amazônia. Tivesse o problema sido apenas tratado por veículos da mídia corporativa brasileira, o mais provável é que continuássemos totalmente desinformados e achando que essa era apenas mais uma estação “normal” de queimadas.  Entretanto, como os veículos internacionais não apenas possuem bons profissionais, mas como os colocam em campo para fazer jornalismo de verdade, pudemos ver que não há nada de normal no que está acontecendo na Amazônia.

É graças à mídia internacional e ao funcionamento intenso das redes sociais que não se pode mais esconder o que as pesadas colunas de fumaça estavam escondendo.  Simples assim!