Viva a balbúrdia universitária!

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Assembleia do campus da Universidade de São Paulo na cidade de São Paulo que aprovou a participação da greve nacional da educação

Por José Luis Vianna da Cruz*

O Governo Federal de plantão está tentando destruir a Educação, com requintes de crueldade. O que está fazendo com o Ensino Superior e as Instituições Federais é um crime de lesa-humanidade, a pretexto de uma certa “balbúrdia universitária”!

Não vou defender a Universidade pela linha do ensino, da extensão e das pesquisas, ou seja, da contribuição para a Ciência, Tecnologia e Inovação. É cinismo e hipocrisia não reconhecer isso, principalmente graças à Universidade Pública e Gratuita.

Vou destacar a Universidade pelo seu papel essencial na formação do cidadão, nos campos da sociabilidade, da cultura, das artes e da política; vou exaltá-la pela linha da liberdade, da crítica, da independência, da autonomia e da luta por um mundo melhor.

Nessa linha, a Universidade é pura balbúrdia. Ela questiona e sacode os valores estabelecidos, as convenções fossilizadas, o conformismo submisso, a subalternidade, a passividade, a falta de crítica, as formas de dominação, a ordem injusta e a alienação. Ao lado da reflexão, do conhecimento, da ciência e da experimentação, é função da Universidade praticar a rebeldia, a indignação e o inconformismo, e se comprometer com as lutas pelas mudanças direcionadas para a construção de um mundo melhor.

Nós, Universitários da Balbúrdia, somos pela contestação da ordem conformista e pela construção de um outro mundo, solidário, democrático, generoso, equitativo e harmônico, em termos humanitários e ambientais. Por isso, marchamos ao lado dos pobres, dos favelados, dos ambientalistas, dos militantes da diversidade de gênero e raça, dos camponeses, dos indígenas, dos sem teto e sem terra, dos excluídos; enfim, das minorias e maiorias invisibilizadas, destituídas e descartadas pelas elites.

Por ser democrática, a Universidade possui todos os defeitos e virtudes. Tudo o que temos, de bom e ruim, é vivenciado e trabalhado publicamente, como numa Democracia.

Na Universidade seguimos leis, normas, portarias, hierarquia, rituais, calendário, organogramas e cronogramas. A pressão por produtividade está sufocando a autonomia e a liberdade necessárias à criatividade. Somos uma das instituições mais engessadas e fiscalizadas da nossa Nação. Toda essa ordem é seguida e contestada, simultaneamente. A balbúrdia é justamente a liberdade e a autonomia na institucionalidade.

A Universidade é, obrigatoriamente, escola de política. E o Movimento Estudantil é um grande formador de cidadãos. Eu comecei minha formação política como Presidente da LAECE, o Grêmio do Liceu de Humanidades de Campos, em 1968, graças ao estímulo da Profa. Arlete Sendra, uma das nossas maiores intelectuais. Continuei minha formação política no Diretório Acadêmico do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, ocupando a Diretoria entre 1975 e 1978, quando me formei. A queda da Ditadura e o retorno da Democracia devem muito à Balbúrdia Universitária. No Norte Fluminense, nós, da galera da balbúrdia universitária, vimos construindo, há décadas, um imenso e eficiente Complexo de Ensino Superior, nacionalmente destacado.

Deixem a Universidade em paz! Viva a balbúrdia universitária!

José Luis Vianna da Cruz – da Balbúrdia Universitária

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*José Luís Vianna da Cruz é professor aposentado da UFF e professor permanente e Coordenador de Pesquisa do Mestrado e do Doutorado em Planejamento Regional e Gestão de Cidades, da Universidade Candido Mendes/Campos dos Goytacazes.

Com medo de críticas, Ricardo Salles cancela evento sobre mudanças climáticas na Bahia

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Ricardo Salles posa de valente com servidores do IBAMA e ICMBio, mas foge do embate de ideias como o diabo foge da cruz.

Como figuras importantes do ministério formado pelo presidente Jair Bolsonaro estão no time dos “negacionistas climáticos“, não chega a ser surpreendente que mais uma atividade organizada pela ONU,  um evento regional da Convenção-quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), tenha sido cancelada pelo dublê de ministro e agroboy, Ricardo Salles.  

É que mesmo antes de sua posse, o presidente Bolsonaro Antes pediu ao então presidente de facto, Michel Temer, que cancelasse a Conferência do Clima que estava programada para dezembro no Brasil.  E que por conta disso, a COP25 será realizada no Chile e não mais no nosso país.

O que mais me chama a atenção é a alegação usada por Ricardo Salles para cancelar o evento que estava sendo organizado pelo governo do estado da Bahia e pelo da cidade de Salvador.  É que segundo informa o site “Direto da Ciência”, o cancelamento se deveu pelo temor de que o evento serviria como “um foco gerador de protestos de ambientalistas contra sua gestão“.  E não contente em dar uma de fujão, Salles ainda atacou a validade da reunião afirmando que “não faria evento do clima na BA só para se ‘fazer turismo’ e ‘comer acarajé.

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Ora bolas, se esses são  realmente os motivos (além claro do perfil de negacionistas das mudanças climáticas) para o cancelamento de uma atividade que geraria pouco ou nenhum ônus para o governo federal e ainda atrairia um número significativo de pessoas que ajudariam a movimentar a economia local, Ricardo Salles está consolidando outro aspecto marcante do governo Bolsonaro, qual seja, o de fugir de embates de ideias em questões cruciais, inclusive para as relações comerciais, e ainda tentar dar uma de valente. É que essa não é a primeira “fuga” que se vê por parte de representantes de um governo que utiliza de discursos altamente belicosos para tentar resolver as paradas em que se envolvem. 

O pior é que mais essa saída à la Leão da Montanha do governo Bolsonaro ocorre em um momento em que a questão das mudanças climáticas vem mobilizando movimentos sociais e governos em todas as partes do mundo, sendo que pelo menos dois governos nacionais já declararam “emergências climáticas” (i.e., Reino Unido e Nova Zelândia) e outros tantos ameaçam seguir o mesmo caminho.

Deste modo, o que o governo Bolsonaro e seu antiministro do Meio Ambiente estão fazendo é nos colocar uma posição altamente delicada no tocante à proteção do meio ambiente, pois enquanto a maioria dos governos nacionais se move no sentido de enfrentar as consequências já visíveis das mudanças climáticas, o Brasil insiste em boicotar eventos em que estão sendo discutidas saídas multilaterais para os problemas decorrentes desse processo. Adivinhem que sairá perdendo.

Ricardo Salles é a síntese perfeita da incompetência autoritária do governo Bolsonaro

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Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, uma mescla perfeita de incompetência autoritária (Divulgação/MMA)

O ainda ministro (ou seria antiministro?) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é mais um dentro da malta de oficiais do governo Bolsonaro que tem ojeriza ao debate democrático e a qualquer crítica ao desmanche que está sendo promovido em estruturas de governança que foram duramente construídas após o fim do ciclo militar de 1964.

Ricardo Salles, como vários outros colegas de ministério onde se notabilizam Damares Alves e Abraham Weintraub, é portador de deficiências óbvias na formação necessária para dirigir uma pasta fundamental para o futuro do Brasil com um mínimo de capacidade.   Como seus colegas, Salles adiciona à sua incompetência um viés de óbvio autoritarismo, pois está claro, para qualquer um afeito aos debates estratégicos que ocorrem neste momento em todo o mundo sobre a crise ambiental de escala planetária que estamos vivendo, que ele não tem a menor ideia do que fala. E também está evidente que ele só foi no nomeado e mantido no cargo por ser a pessoa errada na hora errada da história para exercer corretamente as funções que o mesmo demanda.

Mas além de sua óbvia incompetência para o cargo que ocupa, Ricardo Salles já deu várias demonstrações que é uma figura autoritária que não hesita em usar do cargo para tentar calar os servidores do IBAMA e do ICMBio que teimam em cumprir suas tarefas institucionais ou mesmo os críticos de sua gestão desastrosa à frente do MMA.

Uma demonstração dessa intolerância aos críticos foi uma postagem feita na página pessoal de Ricardo Salles onde ele utiliza um vídeo do cantor jamaicano Bob Marley fumando maconha em uma área rural junto com amigos para ilustrar uma postagem que diz simplesmente “e os protestos continuam…” (ver imagem abaixo).

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É provável que Salles esteja se referindo à carta assinada por ex-ministros do Meio Ambiente (MMA) onde fica expressa a preocupação com o desmanche da governança ambiental em curso sob a sua batuta. Também é possível que Ricardo Salles esteja se referindo a uma carta publicada pela respeitada revista Science e que traz a assinatura de 602 pesquisadores que demandaram da União Europeia que cobre uma compromisso mínimo do governo Bolsonaro com a proteção do meio ambiente e das populações indígenas na Amazônia.

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Em reunião inédita, ex ministros do Meio Ambiente condenaram o esforço destrutivo de Ricardo Salles à frente do MMA.

A verdade é que Ricardo Salles, como bem demonstra o Observatório do Clima em contundente análise de sua “resposta” à carta dos ex-ministros,  opta por operar em meio a mentiras, falácias e distorções, uma combinação em que ele deve supor vai conseguir impedir que sua coordenação com segmentos mais atrasados do agronegócio brasileiro seja explicitada. Mas essa estratégia não passa despercebida nem dentro nem fora do Brasil, e ele fica cada vez mais conhecido como um mero estafeta de segmentos que querem retornar o Brasil a um passado não muito distante onde o saque a recursos naturais e o cometimento de violência extrema contra os povos indígenas não era apenas tolerado como era incentivado, como o estão sendo agora.

O engano que Salles comete é que as pressões que estão se avolumando no horizonte não ficarão sem consequência prática.  Apesar de aparente ser sonho de consumo de Salles e seus fiadores a adoção de um amplo arco de medidas de destruição da governança ambiental, o mundo em que eles operam não é mais unipolar, e isto implica que cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde), o Brasil será confrontado com a opção de manter e fortalecer suas estruturas de governança ambiental ou enfrentar um amplo boicote às suas principais commodities agrícolas e minerais, principalmente aquelas associadas às novas frentes de desmatamento na Amazônia.

Entretanto, é importante que ninguém se engane sobre Ricardo Salles e os outros ministros que causam espécie com suas declarações tão “excêntricas”. Eles servem, cada à sua maneira, um projeto de destruição de uma Nação mais democrática e antenada com elementos que outras nações já possuem acordos claros, incluindo a proteção do meio ambiente e o respeito aos direitos das minorias. 

Brasil diz ao mundo: a floresta amazônica é nossa, não é sua

O assessor de segurança Augusto Heleno Pereira fala em entrevista que não aceita a “ideia de que a Amazônia é patrimônio mundial”

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Desmatamento na floresta amazônica do Brasil. Fotógrafo: Dado Galdieri / Bloomberg

Por Samy Adghirni para a Bloomberg News

Administrar a maior floresta tropical do mundo é um assunto brasileiro e os estrangeiros devem parar de se intrometer na Amazônia, disse o principal conselheiro de segurança do presidente Jair Bolsonaro em uma entrevista.

“Eu não aceito essa ideia de que a Amazônia é patrimônio mundial, isso é bobagem”, disse o general Augusto Heleno Pereira em entrevista em Brasília. “A Amazônia é brasileira, a herança do Brasil e deve ser tratada pelo Brasil em benefício do Brasil”.

Os comentários de Pereira coincidem com os planos do governo de rever as áreas de conservação existentes em meio à crescente pressão dos lobbies de mineração e agricultura. Este mês, o presidente cancelou uma viagem à Nova York, depois que o prefeito Bill de Blasio e ativistas criticaram o presidente por questões, incluindo sua postura em relação à floresta amazônica, cuja conservação os cientistas dizem ser fundamental para o debate sobre a mudança climática.

Pereira, que liderou uma missão de manutenção da paz das Nações Unidas no Haiti, criticou duramente as organizações não-governamentais que trabalham no país, dizendo que algumas delas funcionam como frentes de interesses estrangeiros.

“Há uma influência estrangeira totalmente desnecessária e nefasta na Amazônia”, disse Pereira. “ONGs escondem interesses estratégicos, econômicos e geopolíticos”.

Primeiro ato

Bolsonaro assumiu o poder em janeiro com promessas de facilitar a regulamentação, e argumentou que a pressão dos grupos de direitos pró-ambientais e pró-indígenas está impedindo os agricultores e a indústria de mineração. Ele disse que muitas empresas foram injustamente penalizadas por violar regras que prejudicam a atividade comercial.

Em um de seus primeiros atos como presidente, Bolsonaro retirou da Fundação  Nacional do Índio (FUNAI) o direito de demarcar territórios indígenas. Ele também mudou o Serviço Florestal Nacional para o Ministério da Agricultura. Os movimentos, que o Congresso Nacional ainda pode alterar, ultrajaram os ativistas indígenas e ambientalistas, mas agradaram o poderoso lobby agrícola do Brasil.

Neste mês, oito ex-ministros do Meio Ambiente do Brasil alertaram em carta aberta que Bolsonaro está desmantelando as proteções ambientais e prejudicando a imagem do país no exterior. O atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, respondeu dizendo que seu escritório manteve sua autonomia e que as ONGs são as que prejudicam a reputação do Brasil.

“Temos a capacidade de realizar um desenvolvimento sustentável na Amazônia sem prejudicar o resto do mundo”, disse Pereira. “Agora não posso aceitar o resto do mundo dando lições sobre a Amazônia.”

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Este artigo foi publicado originalmente em inglês pela Bloomberg News [Aqui!].

Ex-ministros de Meio Ambiente divulgam comunicado sobre a política para a área do atual do governo

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Ex-ministros do Meio Ambiente emitem comunicado alertam sobre desmanche do sistema de proteção ambiental em curso no governo Bolsonaro.

Por Mauro Bellesa

Em entrevista coletiva à imprensa após reunião no IEA, oito ex-ministros do Meio Ambiente divulgaram comunicado sobre as ações na área do atual governo federal. Sete deles estiveram no Instituto nesta quarta-feira, 8 de maio: Rubens Ricupero, José Carlos Carvalho, Marina Silva, Carlos Minc, Izabella Teixeira, José Sarney Filho e Edson Duarte. Mesmo sem participar do encontro, Gustavo Krause assinou o manifesto.

 

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Ex-ministros do Meio Ambiente durante coletiva de imprensa realizada para denunciar desmanche da governança ambiental pelo governo Bolsonaro.

Leia abaixo a íntegra do documento:

COMUNICADO DOS EX-MINISTROS DE ESTADO DO MEIO AMBIENTE

São Paulo, 8 de maio de 2019

Em outubro do ano passado, nós, os ex-ministros de Estado do Meio Ambiente, alertamos sobre a importância de o governo eleito não extinguir o Ministério do Meio Ambiente e manter o Brasil no Acordo de Paris. A consolidação e o fortalecimento da governança ambiental e climática, ponderamos, é condição essencial para a inserção internacional do Brasil e para impulsionar o desenvolvimento do país no século 21.

Passados mais de cem dias do novo governo, as iniciativas em curso vão na direção oposta à de nosso alerta, comprometendo a imagem e a credibilidade internacional do país.

Não podemos silenciar diante disso. Muito pelo contrário. Insistimos na necessidade de um diálogo permanente e construtivo.

A governança socioambiental no Brasil está sendo desmontada, em afronta à Constituição.

Estamos assistindo a uma série de ações, sem precedentes, que esvaziam a sua capacidade de formulação e implementação de políticas públicas do Ministério do Meio Ambiente, entre elas: a perda da Agência Nacional de Águas, a transferência do Serviço Florestal Brasileiro para o Ministério da Agricultura, a extinção da secretaria de mudanças climáticas e, agora, a ameaça de “descriação” de áreas protegidas, apequenamento do Conselho Nacional do Meio Ambiente e de extinção do Instituto Chico Mendes. Nas últimas três décadas, a sociedade brasileira foi capaz, através de sucessivos governos, de desenhar um conjunto de leis e instituições aptas a enfrentar os desafios da agenda ambiental brasileira nos vários níveis da Federação.

A decisão de manter a participação brasileira no Acordo de Paris tem a sua credibilidade questionada nacional e internacionalmente pelas manifestações políticas, institucionais e legais adotadas ou apoiadas pelo governo, que reforçam a negação das mudanças climáticas partilhada por figuras-chave da atual administração.

A ausência de diretrizes objetivas sobre o tema não somente tolhe o cumprimento dos compromissos assumidos pelo Brasil, comprometendo seu papel protagônico exercido globalmente, mas também sinaliza com retrocessos nos esforços praticados de redução de emissões de gases de efeito estufa, nas necessárias ações de adaptação e no não cumprimento da Política Nacional de Mudança do Clima.

Estamos diante de um risco real de aumento descontrolado do desmatamento na Amazônia. Os frequentes sinais contraditórios no combate ao crime ambiental podem transmitir a ideia de que o desmatamento é essencial para o sucesso da agropecuária no Brasil. A ciência e a própria história política recente do país demonstram cabalmente que isso é uma falácia e um erro que custará muito caro a todos nós.

É urgente a continuidade do combate ao crime organizado e à corrupção presentes nas ações do desmatamento ilegal e da ocupação de áreas protegidas e dos mananciais, especialmente nos grandes centros urbanos.

O discurso contra os órgãos de controle ambiental, em especial o Ibama e o ICMBio, e o questionamento aos dados de monitoramento do INPE, cujo sucesso é autoevidente, soma-se a uma crítica situação orçamentária e de pessoal dos órgãos. Tudo isso reforça na ponta a sensação de impunidade, que é a senha para mais desmatamento e mais violência.

Pela mesma moeda, há que se fortalecer as regras que compõem o ordenamento jurídico ambiental brasileiro, estruturadas em perspectiva sistêmica, a partir da Lei da Política Nacional do Meio Ambiente de 1981. O Sistema Nacional de Meio Ambiente precisa ser fortalecido especialmente pelo financiamento dos órgãos que o integram.

É grave a perspectiva de afrouxamento do licenciamento ambiental, travestido de “eficiência de gestão”, num país que acaba de passar pelo trauma de Brumadinho. Os setores empresarial e financeiro exigem regras claras, que confiram segurança às suas atividades.

Não é possível, quase sete anos após a mudança do Código Florestal, que seus dispositivos, pactuados pelo Congresso e consolidados pelo Supremo Tribunal Federal, estejam sob ataque quando deveriam estar sendo simplesmente implementados. Sob alegação de “segurança jurídica” apenas para um lado, o do poder econômico, põe-se um país inteiro sob risco de judicialização.

Tampouco podemos deixar de assinalar a nossa preocupação com as políticas relativas às populações indígenas, quilombolas e outros povos tradicionais, iniciada com a retirada da competência da Funai para demarcar terras indígenas. Há que se cumprir os preceitos estabelecidos na Constituição Federal de 1988, reforçados pelos compromissos assumidos pelo Brasil perante a comunidade internacional, há muitas décadas.

O Brasil percorreu um longo caminho para consolidar sua governança ambiental. Tornamo-nos uma liderança global no combate às mudanças climáticas, o maior desafio da humanidade neste século. Também somos um dos países megabiodiversos do planeta, o que nos traz enorme responsabilidade em relação à conservação de todos os nossos biomas. Esta semana a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), considerada o “IPCC da biodiversidade”, divulgou o seu primeiro sumário aos tomadores de decisão, alertando sobre as graves ameaças que pesam sobre a biodiversidade: um milhão de espécies de animais e plantas no mundo estão ameaçadas de extinção.

É urgente que o Brasil reafirme a sua responsabilidade quanto à proteção do meio ambiente e defina rumos concretos que levem à promoção do desenvolvimento sustentável e ao avanço da agenda socioambiental, a partir de ação firme e comprometida dos seus governantes.

Não há desenvolvimento sem a proteção do meio ambiente. E isso se faz com quadros regulatórios robustos e eficientes, com gestão pública de excelência, com a participação da sociedade e com inserção internacional.

Reafirmamos que o Brasil não pode desembarcar do mundo em pleno século 21. Mais do que isso, é preciso evitar que o país desembarque de si próprio.

Rubens Ricupero

Gustavo Krause

José Sarney Filho

José Carlos Carvalho

Marina Silva

Carlos Minc

Izabella Teixeira

Edson Duarte

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Este artigo foi publicado inicialmente pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo [Aqui!]

166 agrotóxicos já aprovados em 2019. E segue firme a marcha do veneno do governo Bolsonaro

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Aplicação de agrotóxicos.

Em meio a muitas outras notícias turbulentas na situação brasileira, passou despercebida a aprovação de mais 14 agrotóxicos pelo governo Bolsonaro por meio do Ato 27 que foi publicado no dia 17 de Abril de 2019, perfazendo um total de 166 agrotóxicos liberados para comercialização apenas nos primeiros 4 meses do corrente ano, um verdadeiro recorde de aprovações.

Tendo atualizado a base de dados que criei para acompanhar a marcha do veneno do governo Bolsonaro, pude confirmar algumas tendências que já estava claras desde a primeira série de aprovações, e que desmentem o discurso oficial em várias esferas no que tange as interligações existentes entre o comércio de agrotóxicos e a expansão de áreas cultivas unicamente com monoculturas voltadas para a exportação.

A primeira é que não nada de minimizador ocorrendo em termos do nível de toxicidade das substâncias aprovadas, sendo que no tocante à saúde humana, 43% das substâncias aprovadas estão nas categorias mais perigosas,  I e II, e velhos venenos conhecidos estão na lista dos contemplados (a começar pelo Acefato e pela Atrazina, ambos banidos na União Europeia) (ver gráfico abaixo).

toxicidade

Ainda no tocante ao elemento da toxicidade, analisei também a situação dos 166 agrotóxicos aprovados em relação à União Europeia e verifiquei que pelo menos 26% deles estão listados como proibidos (o que decorre da não aprovação em primeira instância ou do banimento posterior para aqueles que foram aprovados e depois tiveram comprovadas seus danos sobre saúde humana e meio ambiente) (ver figura abaixo).

EU status

O fato do Brasil estar concentrando produtos que foram banidos pela União Européia já foi verificado anteriormente pela professora Larissa Miers Bombardi do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo. Os resultados das pesquisas da professora Bombardi foram sintetizados na obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia“.  Entretanto, o que os dados relativos aos 166 agrotóxicos aprovados em 2019 mostram é que as tendências verificadas anteriormente pode não apenas estar sendo mantidas, mas também aprofundadas, tornando o mercado brasileiro uma espécie de banheira preferencial para onde são despejados agrotóxicos  indesejados na União Europeia.

Outra tendência que vejo confirmada a partir dos agrotóxicos autorizados pelo Ato 27 é a extrema dependência do Brasil em relação à China no tocante à produção de agrotóxicos para manter sua agricultura voltada para a exportação.  Nesse quesito, apesar o Brasil importar produtos técnicos que serão utilizados nas diferentes formulações que chegam ao mercado  de diversos países, no caso dos 166 agrotóxicos aprovados em 2019, 63,4% dos fabricantes primários (e em diversos casos do único fabricante) são empresas chinesas (ver figura abaixo).

fabricante primário

Um detalhe ainda mais curioso, é que 98% dos proibidos na União Europeia chegam no Brasil por meio de empresas chinesas. Este dado revela que a China não apenas é a principal fonte de agrotóxicos vendidos, mas, e especialmente, daqueles que foram banidos em outras regiões do planeta, a começar pela União Europeia. 

Por essas e outras é que aparentemente cessaram todas as manifestações belicosas contra a China que marcaram os primeiros momentos do governo Bolsonaro. É que alguém deve alertado quem atacava os laços comerciais com a China, a começar pelo ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, visto que dependemos dos chineses não apenas para assimilar a produção de várias commodities agrícolas, mas também para a compra de agrotóxicos, muitos deles, friso eu, banidos em outras partes do mundo por causa dos fortes impactos sobre a saúde humana e o meio ambiente.

Interessante lembrar o caso do Paraquat  que tem 85% de sua produção baseada na China, tornando os latifundiários brasileiros diretamente dependentes dos chineses para comprarem esse produto.  O problema é que no caso do Paraquat , o produto já foi proibido para uso na China em 2016 e os chineses irão cessar sua produção para consumo externo em 2020. Enquanto isso no Brasil, a Anvisa só deverá banir o Paraquat, isso se os ruralistas permitirem, coincidentemente em 2020.

Como ainda existem mais de 200 agrotóxicos esperando na fila para aprovação, o mais provável é que brevemente eu tenha de atualizar a minha base de dados. Entretanto, acredito que as tendências aqui observadas não apenas serão mantidas, como possuem fortes possibilidades de serem aprofundadas. Em outras palavras, mais venenos agrícolas altamente tóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo, inclusive na China que os produz para os ruralistas brasileiros consumirem.  E depois que ninguém se surpreenda se aumentar a contaminação na água que chega nas nossas torneiras e na comida que alcança a mesa de que ainda consegue comprar.

Olavo, Trotsky e o General

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Leon Trotsky, no centro da imagem, com soldados do Exército Vermelho durante a guerra contra o chamado “exército branco” apoiado pelas potências europeias.

Em meio ao tiroteio verbal que ocorre dentro de diferentes cliques do governo Bolsonaro, uma caracterização inusitada para o “jack-of-all-trades” Olavo Carvalho partiu do general reformado e ex-comandante do Exército, Eduardo Dias da Costa Villas Boas. Segundo ele, Olavo de Carvalho estaria se comportando como um “trótski de direita” ao criticar, até de forma xula, os generais que hoje estão alojados em diferentes postos do governo Bolsonaro (ver imagem do tweet em que o general senta o dedo em Olavo).

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Como alguém que leu uma fração pequena da vasta obra de Leon Trotsky, eu me dou a liberdade de indicar que provavelmente o general Villas Boas não leu qualquer livro de um dos principais líderes da Revolução Russa, incluindo o clássico “História da Revolução Russa”. Nessa obra, que possui dois tomos, Trotsky apresenta em riqueza de detalhes a trajetória revolucionária não apenas dele, mas, principalmente, do Partido Bolchevique e do proletariado russo em direção à tomada do poder.

Mas Trotsky (ou melhor, Lev Davidovich Bronstein) não foi apenas um teórico brilhante e com uma obra literária que extrapola a formulação de um viés particular para a construção e consolidação da revolução proletária.  Entre outras coisas, como homem extremamente culto que era, Trotsky enveredou por searas distintas, a começar pela arte e pela literatura.

Entretanto, algo que o general Villas Boas não poderia esquecer é que, ao contrário de Olavo de Carvalho que brinca com seus mosquetes em fragmentos florestais no norte da Virginia, Leon Trotsky foi um gênio militar e criador do Exército Vermelho.  Aliás, ao contrário de muitos generais brasileiros, experimentou liderar suas tropas nas frentes de batalha da sangrenta contrarrevolução comandada pelos generais czaristas, e que acabou derrotada pelo exército que Trotsky construiu basicamente a partir do nada, usando inovações interessantes como a combinação entre forças regulares e de guerrilha. Um livro interessante para que se saiba mais sobre a atuação de Trotsky como “Comissário da Guerra” e fundador do Exército Vermelho é o ” Trotsky e a formação do Exército Vermelho” do historiador Saymon de Oliveira Justo.

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Leon Trotsky discursando em cima de um tanque durante a guerra civil.

Uma coisa parece saltar aos olhos  nessa pequena menção, mesmo que enviesada, a Leon Trotsky pelo general Villas Boas, e é o fato de que o revolucionário russo ainda assombra, ainda que seja lembrado para oferecer comparações incabíveis com eventuais adversários.  E certamente, lá do seu túmulo em Coyoacán, bairro da cidade do México, os ossos de Trotsky devem estar chacoalhando com a comparação indevida.