Governo Bolsonaro zera os estoques públicos de alimentos por causa da opção pelo latifúndio agro-exportador

Preço do arroz e feijão pesa mais no orçamento das famílias ameaçadas pela  fome - Economia - Extra Online

Em um artigo publicado no site do UOL, o jornalista Hygino Vasconcellos revela que o Brasil está com os estoques públicos dos principais itens da cesta básica dos brasileiros completamente zerados (ver figura abaixo).

estoques públicos

Fonte: UOL

Esta situação decorre da decisão do governo Bolsonaro, sob os auspícios do receituário ultraneoliberal do dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, Paulo Guedes, de deixar com o que o mercado (ou seja os grandes latifundiários) a regulação dos estoques de alimentos disponíveis para a população brasileira consumir.

O fato é que no governo Bolsonaro, a inexistência de estoques internos de alimentos foi agravada pela depreciação do Real frente ao dólar, o que fez que também os estoques privados fossem totalmente exportados. Essa política de depreciação do Real também não é nova, mas foi agravada pelo Paulo Guedes. Essa é questão de fundo que fez agravar ainda mais a falta de estoques internos, já que ficou mais lucrativo exportar tudo o que o Brasil produz.

Essa lógica responde a pressões dos grandes exportadores para que a maximização dos seus lucros e não a garantia de que a maioria dos brasileiros, especialmente os mais pobres, tenham condições de adquirir comida sem que tenham que, por exemplo, deixar de tomar banho ou comprar remédios para que isso ocorra.

Em outras palavras, é a opção por transformar comida em commodity que está na base da decisão que está deixando o Brasil cada vez mais dependente de importações para abastecer o mercado interno com arroz e feijão, enquanto a soja deverá ocupar cada vez mais área de cultivo (ver abaixo as projeções para as 5 maiores culturas para a safra 2027/2028)

 

Além disso, é preciso lembrar que para financiar ainda mais o latifúndio agro-exportador, o governo Bolsonaro vem não apenas zerando os investimentos em reforma agrária, mas também não dá sinais que vá aumentar o financiamento para a agricultura familiar, a qual sabemos ser responsável pela maior parte da produção de alimentos no Brasil.

Qual é o mais provável resultado dessa opção pelos latifundiários em detrimento da agricultura familiar? O cenário mais óbvio será não apenas de uma maior dependência das importações de alimentos, mas também um aumento ainda maior nos preços ao varejo. Essa situação, como já alertei em postagem anterior, deverá se provar um desafio muito maior ao presidente Jair Bolsonaro do que todos os partidos de oposição juntos. O problema será o custo social e político do cenário que está sendo criado pelo próprio governo apenas para beneficiar os grandes produtores rurais que o apoiaram na campanha eleitoral de 2018 e continuam apoiando até agora.

Apenas à guisa de comparação, posto abaixo um vídeo produzido pelo TVT sobre uma das chamadas “lojas da reforma agrária” mantidas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em diversas capitais, onde a contradição entre commodity e alimento é muito bem explicada.  Entender essa diferença será fundamental para organizar a luta por uma nova política agrícola no Brasil, de modo a garantir o acesso a alimentos por uma ampla faixa de brasileiros que hoje está passando fome por causa da opção feita pelo governo Bolsonaro.

 

Na “The Lancet”, médicos brasileiros desafiam os fatos e defendem as ações do governo Bolsonaro no controle da COVID-19

hospitais covid-19

Na “The Lancet”,  médicos brasileiros defendem as ações do governo Bolsonaro no (des) controle da pandemia da COVID-19, em que pese os mais 135 mil mortes ocorridas no Brasil

Há quem não entenda algumas situações envolvendo a falta de reação da comunidade médica brasileira às ações do governo Bolsonaro no (des) controle da pandemia da COVID-19 no Brasil, especialmente quando o presidente Jair Bolsonaro está a meses defendendo um medicamento, a cloroquina, que não possui nenhuma comprovação de que tenha qualquer utilidade no combate ao coronavírus.

Mas uma carta publicada hoje pela revista “The Lancet” lança luz sobre essa situação ao publicar uma carta assinada por um coletivo de médicos brasileiros (alguns detentores de títulos de doutorado) que não só defendem ardorosamente as ações do governo Bolsonaro, como também exigem que uma das principais revistas científicas da área médica do mundo retire do ar um editorial em que critica duramente as ações do governo Bolsonaro.

Em meio ao bombardeio de declarações pseudo-nacionalistas, uma me chamou a atenção. É que aquela que afirma que “Brasil está se saindo melhor do que o Reino Unido em resposta à pandemia COVID-19. Os casos, óbitos e taxas de letalidade do COVID-19 ajustados pela população são muito mais elevados no Reino Unido do que no Brasil.”

Essa afirmação por si só já deve ter divertido os editores da “The Lancet” a ponto deles decidirem publicar uma carta que, se por um lado tem elementos que envergonham os autores da mesma, por outro, oferecem uma rara entrada no que pensam respeitáveis representantes da classe médica brasileira.

Quem se der ao trabalho de ler a “resposta” abaixo, notará que não se pode culpar os pobres pela eleição e manutenção de Jair Bolsonaro no posto de presidente do Brasil. É que a defesa apaixonada que emerge do texto nos mostra quem racionalmente opta por defender as práticas indefensáveis de um governo indefensável.

********************************************

Resposta COVID-19 do Brasil

Por Mauro RN Pontes e Julio Pereira Lima

Foi decepcionante ler o Editorial 1  sobre a resposta do Brasil ao COVID-19, criticando o presidente brasileiro que “desencorajou [ed] as medidas sensatas de distanciamento físico e bloqueio”. Sim, ele insistiu que o bloqueio é ineficaz e terrível para a economia. 

As evidências sugerem que ele estava certo. Um estudo europeu concluiu que o bloqueio pode não ter salvado vidas.

2 Um estudo brasileiro descobriu que um aumento de 1,0% na taxa de desemprego estava associado a um aumento de 0,5% na mortalidade por todas as causas.

 3 A taxa de desemprego esperada (23%) causaria 120 mil mortes no Brasil, segundo projeções dos autores. 3 Portanto, o governo brasileiro implementou medidas de proteção; distribuiu US $ 5,6 bilhões às cidades, estados e diretamente à população por meio de um salário de salvamento de emergência; criaram leitos para unidades de terapia intensiva; e entregou equipamentos de proteção e ventiladores. Esta resposta mostra um “vácuo de ações políticas”?1

Até o momento, o Brasil está se saindo melhor do que o Reino Unido em resposta à pandemia COVID-19. Os casos, óbitos e taxas de letalidade do COVID-19 ajustados pela população são muito mais elevados no Reino Unido do que no Brasil. O Lancet deveria criticar seu próprio país, antes de criticar o nosso.

Sentimos que o preconceito abundou durante a editoria de Richard Horton, incluindo o imbróglio da vacina MMR4(colocando a vida das crianças em risco) e a correspondência incendiária sobre a situação em Gaza5O Lancet elogiou a resposta chinesa à pandemia de COVID-19, mesmo depois que a China foi acusada de encobrir a propagação inicial e a transmissão de humano para humano de COVID-19. O Lancet foi mais duro com o Brasil, sugerindo que deveríamos expulsar o presidente de sua cadeira.

Desconsideramos seu editorial desinformador, 1 que sentimos ser claramente tendencioso contra nosso governo de direita. Infelizmente, o The Lancet não publicou nada contra o governo de esquerda brasileiro, que priorizou estádios de futebol em vez de hospitais.

Como médicos brasileiros, damos a vocês uma resposta clara: o Editor do The Lancet deve abandonar o viés político, retratar o Editorial,1  e focar na ciência, ou então ele “deve ser o próximo a ir”.1

Declaramos não haver interesses conflitantes. Os signatários desta correspondência estão listados no apêndice

No Brasil de Bolsonaro, a única palavra de ordem é o lucro

Em quase todo o mundo civilizado, a agricultura é um setor bastante protegido e regulado. Já no Brasil de Bolsonaro a única palavra de ordem é o lucro a quaisquer custos. Não se planeja nada, mas se concede tudo aos grandes produtores

ALIMENTOS

Por Marcelo Zero*

O Brasil é o segundo maior produtor de alimentos do mundo. Perde apenas para os EUA. Além disso, praticamente todos os anos há recorde de safras.

No entanto, nosso país vive hoje gravíssima insegurança alimentar, com forte inflação de alimentos e desabastecimento de produtos básicos, como o arroz. Já ocorrem saques em supermercados.

Entre janeiro e agosto deste ano, a inflação medida pelo IPCA foi de apenas 0,7%. Porém, a inflação da alimentação no domicílio foi de 6,7%, ou seja, quase 9 vezes acima da inflação média, com tendência a acelerar ainda mais.

Essa inflação de alimentos afeta muito intensamente os mais pobres, que gastam quase tudo o que ganham justamente em alimentação. Segundo levantamento feito pelo professor Gerson Teixeira, especialista na matéria, alguns alimentos básicos subiram bem mais. O arroz subiu 27,5% (mas aumentou bem mais neste mês), o leite longa vida aumentou 32,8%, o feijão subiu 17,3%, o tomate aumentou 17,7%, o óleo de soja subiu 26,6%, e por aí vai.

Como isso é possível?

Em primeiro lugar, há uma questão estrutural. Devido aos lucros muito maiores da chamada agricultura de exportação, que é remunerada em dólar, em relação à agricultura destinada ao mercado interno, tem havido um deslocamento da área plantada e dos recursos investidos da última para a primeira.

Ao final da década de 1970, a área plantada destinada ao arroz e ao feijão, base da alimentação do brasileiro, era de aproximadamente 28% do total, ao passo que a área destinada à soja, principal cultura de exportação, era de somente 21%. Entretanto, hoje em dia a soja responde por 57% da área plantada no país, enquanto o arroz e o feijão, somados, respondem por meros 6,9%.

Em suma, houve grandes investimentos na agricultura de exportação e grande desinvestimento na agricultura destinada ao consumo interno, feita, em sua maior parte, por pequenos produtores familiares.

Obviamente, essa tendência se agrava e se acelera quando há grande valoração do dólar, como agora. Deixada ao sabor do “mercado”, ou seja, da ganância dos grandes produtores, a produção de alimentos vai massivamente para a exportação, provocando carestia e desabastecimento internos.

Nos governos progressistas anteriores, essa tendência era mitigada e controlada pelas políticas de apoio à agricultura familiar e, sobretudo, por uma política de compra de alimentos básicos e constituição de estoques públicos, que impediam grandes oscilações de preços e desabastecimento.

Contudo, após o golpe de 2016, essas políticas foram muito fragilizadas ou praticamente extintas.

A política de constituição de estoques públicos de alimentos, em particular, sofreu grande ataque, tanto no governo Temer, quanto no governo Bolsonaro.

Hoje, os estoques públicos de alimentos feitos pela Conab estão praticamente “zerados” e não sustentariam sequer um dia de consumo. Conforme levantamento feito pelo professor Gerson Teixeira, os estoques de arroz estão em apenas 623 toneladas, para um consumo diário de quase 30 mil toneladas. No caso do feijão, os estoques estão em míseras 38 toneladas, para um consumo diário de quase 8,5 mil toneladas.

Observe-se que a FAO considera que idealmente um país teria de ter uma capacidade de estocagem 1,2 maior que a sua capacidade de produção.

Em nítido contraste com o Brasil bolsonarista, a China tem hoje estoques de cereais que equivalem a 75% do seu consumo anual de alimentos. A Índia tem 23%, os EUA têm 25% e a Rússia tem 18%.

Considere-se, adicionalmente, que a Comissão Europeia, em função da crise desencadeada pelo COVID-19, está ampliando consideravelmente sua política de estocagem reguladora de alimentos. É a chamada estratégia Farm to Fork (da fazenda para o garfo), que visa blindar a população europeia de crises na oferta de alimentos. Aqui ao lado, na Argentina, o governo Fernández voltou impor taxas às exportações de alimentos (retenciones), de forma a assegurar segurança alimentar e financiar sua recuperação econômica e seu desenvolvimento.

Em quase todo o mundo civilizado, a agricultura é um setor bastante protegido e regulado.

Já no Brasil de Bolsonaro a única palavra de ordem é o lucro a quaisquer custos. Não se planeja nada, mas se concede tudo aos grandes produtores.

Somada à extinção do Plano Safra para Agricultura Familiar e à paralisação da Reforma Agrária, entre outras medidas destrutivas, não estranha que extinção dos estoques públicos de alimentos venha contribuindo significativamente para a atual insegurança alimentar em um país que tem uma das agriculturas mais competitivas do mundo.

Claro está que as exportações agrícolas são muito importantes para a economia brasileira. Elas geram vultosos superávits comerciais e grandes divisas em moeda forte para o país. Mas sem políticas estatais reguladoras, que apoiem a agricultura familiar, a Reforma Agrária e a produção para o mercado interno, como quer o governo ultraneoliberal de Bolsonaro, inevitavelmente vai se gerar carestia e desabastecimento, ainda mais numa conjuntura de grande desvalorização cambial.

Assim, essa incúria vem se revelando insustentável, do ponto de vista social.

Mas ela é também insustentável, do ponto de vista ambiental.

Os grandes incêndios ocorridos no ano passado na Amazônia e, agora, no Pantanal, são, em grande parte, originados por ações criminosas de setores atrasados do chamado agronegócio, ante um governo que lhes assegura impunidade e que vê as justas preocupações ambientais como “frescuras”, obstáculos inaceitáveis ao crescimento e ao lucro. 

O desgoverno Bolsonaro não consegue sequer perceber que a insustentabilidade social e, sobretudo, ambiental deste modelo de laissez faire bandido vão acabar por provocar também insustentabilidade comercial. Com efeito, a tendência é que os mercados mundiais, alarmados com a atitude hostil do governo brasileiro frente às grandes questões ambientais, se fechem aos produtos agrícolas do Brasil.

A resistência crescente ao Acordo Mercosul/UE é somente o começo desse processo já em curso.

Ademais, no longo prazo, a destruição ambiental vai restringir seriamente nossa grande capacidade natural de produzir alimentos, já que as chuvas que alimentam as colheitas do Centro-Oeste e do Sudeste vêm justamente dos “rios voadores”, originados pela evotranspiração da floresta amazônica

Enquanto isso, Bolsonaro faz piadas com a carestia e com a destruição de um dos principais ecossistemas do mundo. Afinal, quem faz piadas com a morte, faz piadas com tudo.

bolso fogo

Ao que tudo indica, o grande legado de Bolsonaro para o Brasil e o mundo se constituirá de morte, fome e fogo.

E daí?

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais

fecho

Este texto foi originalmente publicado no site “Brasil em Debate” [Aqui].

Descaso no Pantanal e Amazônia ameaça negócios do Brasil enquanto Governo se isenta de responsabilidade

Carta assinada por oito países alerta para dificuldade crescente em manter negócios com o país e empresas de agronegócios se unem a ONGs para cobrar ações contra desmatamento amazônico

onça águaUma onça ferida nos incêndios do Pantanal repousa na beira de um riacho no Parque Nacional Encontro das Águas, no Mato Grosso, que já teve mais de 60% de sua área destruída pelo fogo.MAURO PIMENTEL / AFP

Por Afonso Benites para o El País

Enquanto o Pantanal queima e a Amazônia registra índices de degradação cada vez maiores, o Brasil sofre a ameaça de ficar para escanteio na economia. Além dos alertas já emitidos por fundos de investimentos e bancos brasileiros e da ameaça de que o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul não se conclua, nesta terça (15) o vice-presidente Hamilton Mourão recebeu uma carta assinada pelos embaixadores de oito países europeus – Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Holanda, Noruega, Dinamarca e Bélgica. O recado da carta é claro: enquanto a questão do desmatamento e da preservação são foco dos governo e das empresas do continente, o “Brasil está tornando cada vez mais difícil para empresas e investidores atender a seus critérios ambientais, sociais e de governança”.

A pressão internacional se soma a uma inédita reação de mais de 200 organizações, entre ONGs, empresas de agronegócio e do setor financeiro, que enviaram um recado ao Governo nesta terça cobrando medidas para reduzir o desmatamento na Amazônia. “Não somente pelo avanço das perdas socioambientais envolvidas, mas também pela ameaça que a destruição florestal na região impõe às questões econômicas nacionais. Há uma clara e crescente preocupação de diversos setores da sociedade nacional e internacional com o avanço do desmatamento”, diz o texto, assinado pela chamada Coalizão Brasil Clima, Bosques e Agricultura. O grupo colocou lado a lado ONGs como a WWF, as indústrias JBS, Marfrig, além de Basf e Bayer. Entre as propostas do grupo, estão mais transparência nas ações e fiscalização nas florestas.

A pressão, porém, não tem mudado a resposta do Governo Bolsonaro apesar de fatos concretos mostrarem que a gestão está aquém da necessidade. “O comportamento que vemos na crise ambiental é um espelho da postura do governo na pandemia de COVID-19. Ele nega que seja um problema grande, nega a gravidade e alimenta a narrativa por meio de falas que não têm nenhuma substância científica”, diz Rômulo Batista, um dos porta-vozes do Greenpeace.

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), responsável pelo Conselho da Amazônia, descarta que o Governo esteja errando, e fala em “seletividade na divulgação dos dados” no que diz respeito ao desmatamento. “Quando o dado é negativo o cara vai lá e divulga. Quando é positivo, não divulga, entendeu?”, acusou o vice em declaração à imprensa na tarde do dia 15. Indagado sobre quem seria essa pessoa, Mourão respondeu: “Não sei, não sou diretor do INPE”. O que o vice-presidente não diz é que os dados são públicos. Basta acessar o site do INPE para saber quase em tempo real quantos focos de calor ocorreram em cada bioma.

Mourão defende que uma das saídas para combater os incêndios é manter os militares em operação constante na floresta até 2022 e decretar uma moratória do fogo, que está em vigor desde julho, uma estratégia que já foi questionada no Supremo Tribunal Federal pelo Partido Verde.

Brigadista em Porto Jofre, no Pantanal mato-grosssense, em 14 de setembro.Brigadista em Porto Jofre, no Pantanal mato-grosssense, em 14 de setembro.MAURO PIMENTEL / AFP

O vice-presidente e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, entraram em uma campanha para desacreditar os discursos de ambientalistas e seus apoiadores. Usando trechos de um vídeo do Greenpeace sem autorização, o vice-presidente diz no Twitter: “De que lado você está? De quem preserva de verdade ou de quem manipula seus sentimentos? O Brasil é o país que mais preserva suas florestas nativas no mundo. Essa é a verdade. Nós cuidamos”. O vídeo foi uma resposta a outra postagem da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Na peça, a organização diz que a “Amazônia é o coração do Brasil. Quem coloca fogo nela é inimigo do país”. Ainda pede que em defesa da Amazônia, o presidente brasileiro deveria deixar de ser financiado.

“Discutimos hoje temas que não deveríamos estar discutindo, que já tinham sido superados. Temos de provar que o fogo existe, que os dados são fatos, e não ideologia. Temos de lutar contra lendas de que o fogo é para subsistência e de que ele foi criminoso, não provocado por um raio”, diz a diretora-adjunta do ICV, Alice Thuault.

A realidade se impõe

Enquanto o governo briga com os fatos, a realidade segue se impondo no Pantanal. A Polícia Federal deflagrou no início desta semana a Operação Matáá, que cumpriu dez mandados de busca e apreensão Mato Grosso do Sul. De acordo com a instituição, investigações apontam que o fogo na região foi provocado deliberadamente para transformar a mata nativa em pastagem para o gado. Além disso, no período atual de seca na região ― que só se encerra em novembro ―, raramente caem raios na pastagem. Por isso, há a clara sinalização de que os incêndios foram causados por interferência humana.

A impunidade aliada à política de Bolsonaro de reduzir o número de infrações são outros fatores que interferem no aumento do fogo. Mesmo com o recorde de queimadas, neste ano houve uma queda de 48% nas infrações aplicadas pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, os dois estados pantaneiros. Dados publicados pela BBC, e confirmados pelo EL PAÍS, mostram que de janeiro a 14 de setembro o Ibama aplicou 223 infrações nos dois Estados neste ano, contra 425 no mesmo período de 2019.

Ao analisar imagens de satélites do INPE e da NASA, o ICV também constatou que até agosto apenas nove pontos eram os responsáveis por 67% dos focos de incêndio em todo o Pantanal mato-grossense. Em cinco deles, é possível apontar que a propriedade onde iniciou o fogo era privada e estava registrada no cadastro ambiental rural (CAR). Ou seja, pode-se saber quem deveria estar preservando essa área e, como não o fez, poderia ser responsabilizado criminalmente. Outros três pontos eram de áreas não cadastradas. E um, em uma terra indígena. “As multas estaduais pagas no Mato Grosso é de mais ou menos 2% da quantidade de multas aplicadas. O ciclo da responsabilização não fecha. É uma impunidade que garante a continuidade dos incêndios ano após ano”, diz Thuault, do ICV.

Devastação

Em 33 dias, os incêndios no Pantanal praticamente dizimaram o Parque Estadual Encontro das Águas, na divisa entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Imagens de satélite analisadas por técnicos da ONG Instituto Centro de Vida (ICV) mostram que, no dia 9 de agosto, alguns focos de incêndio provinham apenas da parte norte do parque, conhecido ponto de ecoturismo da região. Em 13 de setembro, no entanto, o fogo já vinha de todos os lados, atingindo 85% dos seus 108.000 hectares (veja vídeo abaixo).

As chamas se tornaram rotina diante de uma clara falta de planejamento dos órgãos ambientais, principalmente da esfera federal. A avaliação foi feita ao EL PAÍS por representantes de quatro organizações da sociedade civil que atuam principalmente na área ambiental: ICV, Greenpeace, WWF e Observatório do Clima. Desde o início do ano já se sabia que a região enfrentaria a sua maior seca em quase cinco décadas, que um dos principais rios da região, o Paraguai, teriam seu fluxo diminuído consideravelmente e que a falta de atuação no principal bioma vizinho, o cerrado, teria impacto direto no Pantanal.

Ainda assim, o governo demorou quase três meses para mobilizar os brigadistas e reduziu o orçamento para o combate ao incêndio em até 48%. “Essa situação no Pantanal está se repetindo. Também tivemos uma grande catástrofe. 2019 queimou mais que nos últimos dez anos. Já era um indicativo de que era necessário planejar. Mas nada foi feito”, disse Cássio Bernardino, analista em Conservação do WWF-Brasil.

Análise da ONG Instituto Centro de Vida com base em imagens de satélite apontam que até o dia 13 de setembro de 2020, mais de 92.000 hectares haviam sido atingidos pelo fogo no Parque Estadual Encontro das Águas. Isso representa 85% da área total do parque, que tem 108 mil hectares.ICV

Até o último dia 15, o Pantanal já tinha registrado 15.453 focos de calor, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). É o maior índice da série histórica, iniciada em 1998. Mais de 15% de todo o território pantaneiro foi destruído. Na Amazônia, os números também não são nada animadores. No mesmo período, o bioma amazônico superou o total de focos registrados em todo mês de setembro de 2019. Já foram registrados 20.486 focos de incêndio, um crescimento de 86% em relação ao mesmo período do ano passado.

Queda de recursos

Uma das críticas feitas à gestão Salles- Mourão-Bolsonaro é quanto a redução dos recursos de prevenção e de fiscalização ambiental. Os dois principais órgãos federais que atuam nesta área são o Ibama e o ICMBIO. Entre 2019 e 2020, a rubrica controle de fiscalização ambiental do Ibama perdeu quase 35% de seu orçamento (caiu de 102,8 milhões de reais anuais para 66,2 milhões de reais). Já a de prevenção e controle de incêndios florestais teve queda de 16% no mesmo período, caindo de 45,9 milhões de reais anuais para 38,6 milhões. No ICMBIO, a queda proporcional foi maior. A área de fiscalização ambiental e prevenção e combate a incêndios florestais perdeu 48,6% de seu orçamento. Eram 37,1 milhões de reais em 2019. Agora, são 19 milhões de reais.

No início de 2019, a mando do presidente Bolsonaro, o ministro Salles desconstituiu o conselho do Fundo Amazônia, que geria recursos internacionais usados na área ambiental de todo país. Seus principais doadores são os governos da Noruega e da Alemanha. Hoje, há 1,5 bilhão de reais congelados em uma conta que não podem ser usados por ninguém porque não há quem administre esses recursos. “Enquanto nos deparamos com cortes no orçamento, temos dinheiro internacional parado que poderia estar sendo usado na prevenção e no combate aos incêndios”, destaca a especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama, Suely Araújo.

A resposta do Governo é investir na militarização do combate aos incêndios. A operação Verde Brasil 2, comandada por Mourão, é a principal delas. Por mês ela custa cerca de 60 milhões de reais e mobiliza cerca de 4.000 militares. “Com dois meses desta operação pagamos os salários de mil fiscais do Ibama por um ano”, diz Araújo. Para ela, o problema não é, necessariamente, a falta de recursos, mas a ausência de vontade política para aplicá-los.

Nesta semana, os Governos de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul decretaram estado de calamidade e situação de emergência, respectivamente. Por meio desses decretos, é possível facilitar a burocracia para o uso de recursos no combate ao fogo. Para as próxima semanas, contudo, ainda nos depararemos com as chocantes imagens de animais mortos carbonizados.

jacaré mortoUm jacaré morto por causa de incêndio próximo à rodovia Transpantaneira.MAURO PIMENTEL / AFP

fecho

Esta reportagem foi inicialmente publicada pelo jornal El País [Aqui!].

Entrevista com Djalma Valois na “Rádio Olhos D´Água”

meio ambiente

No início deste mês fui convidado pelo jornalista Djalma Valois para participar de um interessante projeto de difusão de conhecimentos que ele vem impulsionando no interior de Goiás, a Rádio Olhos D´Água. Prontamente aceitou o convite, e o resultado da conversa que tive com ele resultado em vídeo postado no canal que Valois mantém no Youtube e que segue logo abaixo. 

A conversa de mais de uma hora girou obviamente em torno da situação política brasileira e de seus impactos sobre a economia e a degradação do meio ambiente.

Considero que em uma conjuntura histórica marcada pela competição entre diferentes versões da realidade, projetos como a Rádio Olhos D´Água são essenciais para haja a devida disputa pela hegemonia da produção das narrativas que têm impacto direto sobre o nosso cotidiano.

A Europa como aceleradora do desmatamento e do fogo que consomem as florestas da Amazônia

Quando as florestas tropicais queimam na Amazônia, isso causa horror na Europa. Mas muitas vezes é a demanda europeia por ração animal barata que leva a ainda mais desmatamento. Uma investigação torna clara a extensão dessa conexão.

Soy Investigation in BrazilA floresta tropical está pegando fogo, mesmo que as grandes empresas de ração que exploram a terra prometam não se envolver no desmatamento. Foto tirada no município de Cláudia (MT).  Foto: Victor Moriyama / Victor Moriyama para Rainforest Foundation Norway

Por Nils Klawitter para a Die Spiegel

Raramente uma proposta política gerou tanta indignação como o “Dia do Vegetariano” planejado pelos Verdes. Há sete anos houve uma passagem correspondente no manifesto eleitoral do partido, e hoje ainda a proposta é considerada por muitos como um sinal de “incapacitação”.

Os danos consequentes à produção de carne , que a proposta deve ajudar a esclarecer, não diminuíram desde então, especialmente no Brasil , onde grande parte da ração de soja rica em proteínas usada para alimentar suínos, bovinos e frangos alemães é cultivada. A Alemanha importou 5,8 milhões de toneladas de produtos de soja em 2017 – uma área maior que a de Hesse é necessária para o cultivo. A maioria dessa importação veio do Brasil.

Soy Investigation in Brazil

No final, só sobrou soja: Grande plantação no Tocantins.  Foto: Victor Moriyama / Victor Moriyama para Rainforest Foundation

Agora uma pesquisa de campo, da Norwegian Rainforest Foundation e da German Environmental Aid,  mostra como a demanda por matérias-primas da Europa para o desmatamento no Brasil se acelerou .

Embora o instituto espacial local INPE tenha anunciado recentemente que no ano passado tanta floresta desapareceu como em 2008, e que mais incêndios na Amazônia e no Cerrado foram registrados em julho de 2020 do que no ano recorde de 2019, os países da UE continuam a comprar soja do Brasil. No primeiro semestre de 2020, as exportações de soja para a UE aumentaram para 7,6 milhões de toneladas, segundo dados da Associação Brasileira de Oleaginosas. Isso foi 75 por cento a mais do que no mesmo período do ano passado. Apenas a China está importando mais.

Embora as importações locais de soja tenham diminuído desde então, os alemães ainda são os maiores compradores europeus do feijão milagroso, que corta animais para crescimento rápido. Sem esse combustível da pecuária industrial, a turbo engorda, em que, por exemplo, os pintos são alimentados para o abate em 33 dias, não seria possível.

Garantias de “Desmatamento Zero”

A investigação das duas ONGs documenta incêndios ilegais e a intimidação de pequenos proprietários nas regiões da Amazônia e do Cerrado, consideradas focos de desmatamento. Os moradores das redondezas foram “deixados completamente sozinhos” com os incêndios, diz Anahita Yousefi, da Rainforest Foundation. “A gente aqui costuma lidar com garimpeiros, com vaqueiros do agronegócio que queimam terras comuns e depois vendem para o agronegócio”. De acordo com o estudo, grandes comerciantes de commodities, como Bunge ou Cargill, também lucram com o desmatamento porque são abastecidos por fazendas questionáveis. Ambas as empresas vêm fazendo garantias de “desmatamento zero” há anos, fingindo não se beneficiar do desmatamento.

A nova onda de grilagem de terras é apoiada pelo presidente brasileiro Jair Bolsonaro , que tem incentivado repetidamente a “exploração” da Amazônia. Os incêndios, disse Bolsonaro, teriam levado as organizações ambientais a se vingar do cancelamento dos fundos. Na primavera, seu governo legalizou milhares de antigas propriedades florestais que os agora legítimos proprietários se apropriaram por meio de grilagem de terras.

A UE também está envolvida no negócio questionável: “20% das exportações de soja do Brasil para a UE estão ligadas ao desmatamento ilegal”, disse Jan Börner, professor de Uso Sustentável da Terra na Universidade de Bonn.  Um estudo realizado por  Börner e colegas do Brasil, Suécia e EUA avaliaram os dados de 815.000 fazendas nas regiões da Amazônia e do Cerrado.

Dois conjuntos de dados foram decisivos para os cientistas: os limites de operação das fazendas do cadastro ambiental e a taxa de desmatamento, que o Instituto INPE registra por meio de imagens de satélite. Uma empresa na região amazônica deve manter 80% da floresta em suas terras, pelo menos 20% no Cerrado. Se houver menos, foi desmatado ilegalmente. Mesmo que a soja da respectiva fazenda seja cultivada em uma subárea legal, ela está “contaminada com ilegalidade”, diz Börner. Usando dados de exportação dos distritos, os cientistas finalmente puderam comparar a quantidade de soja de um distrito que foi para a UE.

O bilhão de dólares trata de recursos do Brasil

A equipe de pesquisa da Fundação Floresta Úmida também visitou as aldeias do distrito de Formosa do Rio Preto, que está na linha de frente do desmatamento no Cerrado e a comunidade da Fazenda Estrondo que ali atua. Juntas, elas cultivam 305 mil hectares, uma área maior que a das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo juntas. No passado, Estrondo foi repetidamente associada à grilagem de terras, títulos de propriedade questionáveis ​​e desmatamento ilegal.

Em maio de 2019, o Greenpeace, junto com uma equipe de televisão ARD, documentou um ataque armado por seguranças particulares a moradores da área controlada pela Estrondo. As fotos mostrando esse ataque podem ser encontradas em um relatório da WWF publicado em dezembro de 2019. O relatório também documenta que “Silos Cargill e Bunge na propriedade da Agronegócio-Estrondo no Cerrado brasileiro  para exportar a sua soja para Europa e Leste Asiático ”.

Não há medidas eficazes contra corte raso

Uma porta-voz do grupo Estrondo negou qualquer suspeita de desmatamento ilegal. A empresa também “sempre” procurou chegar a um acordo com os “ocupantes das terras”. Os supostos ocupantes, no entanto, geralmente são pequenos agricultores ou comunidades indígenas que vivem ali há muito tempo e cultivam áreas menores, muitas vezes sem título.

Soy Investigation in Brazil

Seguranças particulares da comunidade agrícola do Estrondo.  A Estrondo já foi acusada de grilagem ilegal de terras e desmatamento em grande escala no passado. A organização também é acusada de pressionar as autoridades locais, às vezes com o uso da força.  Foto: Victor Moriyama / Victor Moriyama para Rainforest Foundation

A Cargill não comentou as perguntas, mas disse no ano passado que “não tinha vínculos comerciais” com a administração da comunidade agrícola.

A Bunge, uma das maiores traders de commodities do mundo com US $ 43 bilhões em vendas, confirmou que recebe suprimentos de fazendas “dentro” da comunidade agrícola. Mas cada fazenda opera de forma independente. A soja também é entregue à Europa. Os negócios na região seguem uma “política de não desmatamento” própria e em linha com os critérios socioambientais da empresa. “Sempre que se constata que as empresas estão comprando matéria-prima em áreas que acabaram de ser desmatadas, elas se escondem atrás da promessa de desmatamento zero ou, se não houver outra opção, alegam que não se trata de desmatamento ilegal”, afirma. Ativista Yousefi. “Na verdade, eles falharam em implementar medidas eficazes de desmatamento em sua cadeia de abastecimento.

Imagens de satélite de agosto mostram que o distrito ao redor das fazendas estava novamente em chamas. Os residentes relataram à equipa de investigação da Rainforest Foundation sobre intimidação às forças de segurança de Estrondo e tiros de alerta. Mesmo assim, os negócios parecem estar indo bem: os dados de exportação de soja do distrito mostram uma taxa de crescimento de mais de 100% no primeiro semestre de 2020 em comparação com o mesmo período do ano anterior.

“O que você vê aí é corrupção”, diz Maurício Correia, da Ordem dos Trabalhadores Rurais do Estado da Bahia. Décadas atrás, a empresa roubou títulos de terra sobre os quais posteriormente construiu seu agronegócio. A Estrondo, por outro lado, está legitimamente posicionada “há 40 anos”.

Um juiz que foi em parte responsável pela redução dos baldios de 43 mil hectares para 9 mil hectares, de que beneficiou Estrondo e que Estrondo considera válido até hoje, está preso, diz Correia: “A maior parte dos seus postos de controlo nos baldios que tinham de seguir uma decisão do tribunal, mas eles ainda se comportam como os governantes lá. ” Estrondo não é um caso isolado, afirma o advogado – mas as dimensões da grilagem de terras são bastante grandes: a área da comunidade agrícola é maior do que a do Luxemburgo.  

A região da Bahia, onde a Estrondo atua, pediu agora o congelamento dos títulos de propriedade da empresa. É de alguma utilidade? A empresa aparentemente tem permissão para se expandir ainda mais. Já possui uma licença de corte para outros 25.000 hectares.

fecho

Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pela Die Spiegel [Aqui!].

O Brasil foi transformado em um campo de testes para as vacinas contra a COVID-19

Devido à grande circulação do vírus no país, quatro vacinas candidatas estão sendo testadas em 22 mil voluntários, incluindo a da britânica AstraZeneca, relançada no sábado, 12 de setembro.

VACINA 1Na Universidade de São Paulo, 24 de junho. Os ensaios estão sendo conduzidos lá para as vacinas da Universidade de Oxford e AstraZeneca. AMANDA PEROBELLI / REUTERS

Por  Anne Vigna para o Le Monde

Uma ala do Centro Nacional de Vacinação, no imenso campus da Fundação Oswaldo-Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, foi liberada para instalar uma nova linha de produção, ainda rodeada de celofane. “É aqui que serão fabricadas as futuras vacinas contra a COVID-19”, garante a assessoria de imprensa da Fiocruz, maior centro público de pesquisas médicas do Brasil. Em seus laboratórios farmacêuticos, Bio-Manguinhos e Far-Manguinhos, já são produzidas muitas vacinas administradas no Brasil.

Como parte da parceria com a Universidade de Oxford e a farmacêutica britânica AstraZeneca, a Fiocruz espera um dia produzi-los contra a Covid-19, enquanto os ingleses anunciam a retomada do julgamento no sábado, 12 de setembro, suspenso por uma semana após a reação negativa do paciente.

“Nossa parceria não se limita a testar a vacina”, explica Mauricio Zuma, diretor do laboratório médico de Bio-Manguinhos. É claro que estamos felizes em ajudar nessa luta global. Mas o que nos motiva acima de tudo é ter obtido uma transferência de tecnologia com os ingleses. Caso contrário, o Ministério da Saúde poderia simplesmente ter feito uma negociação comercial e comprado as futuras vacinas. “

Foi em junho que a Fiocruz se tornou parceira local das duas entidades britânicas para organizar os ensaios clínicos fase III de sua vacina. Esses exames não acontecem nesses prédios, mas na rede hospitalar dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

A tarefa não é tão simples: trata-se de encontrar 5.000 profissionais de saúde, todos voluntários, que tenham contato frequente com o SARS-CoV-2. “Não adianta testar a vacina em uma pessoa que ficará em confinamento em casa, ela só ficará exposta muito pouco ao vírus. Por outro lado, um médico, uma enfermeira, um fisioterapeuta estão todos em contato com o vírus ”, acrescenta o diretor de Bio-Manguinhos .

“Faça algo concreto”

No Brasil, a equipe é bastante voluntária, como Denise Abranches, cirurgiã-dentista do Hospital Universitário de São Paulo, que foi a primeira a testar a vacina em junho. “Assim que soube desse recrutamento, me apresentei. Sou responsável pela higiene bucal dos pacientes intubados há sete meses na unidade de terapia intensiva. Estou na linha de frente e sou o primeiro interessado em uma vacina. “

O ginecologista Alberto Freitas, do Rio de Janeiro, teve a mesma reação. “Recebi as informações através dos grupos de WhatsApp que existem entre médicos. Junto com meus colegas de consultório, vemos muitos pacientes com COVID-19 e decidimos participar para fazer algo concreto no combate a essa epidemia ”, afirma. Alberto participou do ensaio clínico da Universidade de Oxford, mas não teria problemas para testar outro. Atualmente, quatro empresas farmacêuticas do país realizam ensaios clínicos em 22.000 voluntários.

Além da vacina da Oxford e da AstraZeneca, a farmacêutica chinesa Sinovac fechou outra parceria em junho com o instituto científico público Butantan, para a fase III da vacina CoronaVac, que será testada em 9 mil voluntários. .

Mais recentemente, outras duas empresas americanas conseguiram o direito de fazer testes no Brasil: a Pfizer vai organizar um dos quase mil voluntários da Bahia, enquanto a Janssen, laboratório da gigante Johnson & Johnson, atualmente está recrutando 7.000 em vários estados do país.

VACINA 2Vacina Sinovac no hospital São Sans Lucas em Porto Alegre, Brasil, 8 de agosto. DIEGO VARA / REUTERS

O Brasil está interessado em projetos globais de vacinas por vários motivos. Em primeiro lugar, pela circulação ativa do vírus com mais de 4,1 milhões de casos confirmados no país, número ainda considerado desvalorizado pelo grupo de pesquisadores brasileiros da COVID-19. Segundo dados recentes da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço regional da OMS, o continente americano concentra o maior número de profissionais de saúde infectados com o vírus no mundo, com 570 mil casos confirmados e 2.500 mortes desde março. A maior parte desse contingente encontra-se no Brasil, com 270.000 casos de profissionais, antes dos Estados Unidos (140.000 casos) e do México (cerca de 100.000 casos).

Por outro lado, a grande diversidade genética da população brasileira – com a presença de genes europeus, africanos e asiáticos – permite uma ampla representatividade do planeta. Por fim, o Brasil conta com instituições científicas renomadas e um grande número de facilidades para considerar ensaios clínicos em larga escala e, eventualmente, produzir as vacinas. Junto com a Argentina e o México, o Brasil é um dos poucos países do continente com essas capacidades.

Também em São Paulo, o Instituto Butantan reformou parte de seus prédios para poder fabricar as futuras vacinas. Esse centro de pesquisas, que agora depende do Estado de São Paulo, também assinou um acordo de transferência de tecnologia com a farmacêutica chinesa Sinovac. “Procuramos parceiros em todo o mundo, inclusive na China, e a Sinovac procurava um parceiro específico na região”, diz Ricardo Palacios, diretor de pesquisas médicas do Instituto Butantan.

Estoque de hidroxicloroquina

Fiocruz e Butantan fazem parte da mesma rede de produtores de vacinas para países em desenvolvimento (DCVMN, por sua sigla em inglês). “Os países do Sul estão um pouco deixados de lado. Mas, graças às transferências de tecnologia, conseguimos avançar com a mesma velocidade e qualidade de pesquisa das empresas privadas dos países ricos ”, explica o Sr. Palacios.

O outro problema que o Brasil terá de superar diante dessa pandemia é o “ceticismo corona” de seu presidente. Em 31 de agosto, Jair Bolsonaro afirmou que “ninguém pode forçar ninguém a tomar a vacina”. A declaração do presidente foi amplamente criticada tanto pelo diretor da OMS quanto por cientistas brasileiros. A intervenção do senhor Bolsonaro está em total desacordo com a lei que ele mesmo assinou em 6 de fevereiro e que especifica precisamente que, “em situação de pandemia, o governo poderá fazer a vacinação obrigatória”.

Mas, para si mesmo, o presidente brasileiro não vê utilidade de uma vacina quando, segundo ele, há uma cura muito eficaz a partir da hidroxicloroquina. Jair Bolsonaro continua a promovê-la ativamente em todas as oportunidades. Talvez porque, após uma produção massiva decidida pelo executivo, o Brasil tenha hoje dezoito anos de estoque desse medicamento eficaz contra a malária.

fecho

Este texto foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

O arroz e o feijão são inimigos mais perigosos para Jair Bolsonaro do que toda a a oposição junta

arroz patriota

Pode-se dizer o que se quiser da Agricultura ministra Tereza Cristina, a eterna “musa do veneno”, mas não que ela não tenha inteligência política. É que ela hoje está presente nos principais veículos da mídia corporativa tentando apagar o incêndio causado pelo aumento explosivo dos preços do arroz (mas só sobre esse, pois os acontecendo na Amazônia e no Pantanal parecem não causar nenhum arranhão de preocupação na política eleita justamente pelo Mato Grosso do Sul onde as labaredas ardem alto). 

terezaA ministra Tereza Cristina farejou o risco que corre por causa da alta dos preços do arroz e saiu a campo para criar uma cortina de fumaça. Melhor seria se agisse para mudar a política agrícola que está na raiz do problema

Diferente de Jair Bolsonaro e Paulo que tenderam a dar de ombros para os riscos políticos associados à incapacidade crescente dos pobres brasileiros de colocarem arroz na mesa de todos os dias, Tereza Cristina apresentou duas linhas de argumentação. A primeira diz que o problema do arroz não seria isso tudo, e que tem gente querendo criar “uma guerra política” por causa da carestia no preço de um dos itens mais básicos da dieta dos brasileiros. Por outro lado, ela tentou acalmar os brasileiros afirmando que a questão dos preços do arroz voltará a “se equilibrar” (seja isso lá o que for) quando começar a próxima safra em janeiro de 2021.

Mas ao invés de apresentar as causas do problema que foi a adoção de uma política que causa o descontrole total nos estoques internos, Tereza Cristina resolveu insistir nos argumentos surrados de que a culpa pela alta dos preços seria a concessão do auxílio emergencial aprovado pelo Congresso Nacional, e a mudança dos hábitos dos brasileiros, que passaram a se alimentar mais em casa por causa da pandemia da COVID-19. Em outras palavras, a culpa não é do governo Bolsonaro que desprotegeu o consumo interno, mas dos brasileiros pobres que passaram a comer mais com os fantásticos R$ 600,00 liberados para aliviar os graves prejuízos econômicos trazidos pela pandemia, especialmente para os segmentos mais pobres da população brasileira.

Como bem lembrou o ex-ministro Aloizio Mercadante, 90% da área plantada hoje no Brasil é de soja e milho, o que terminar por “esmagar a agricultura familiar na produção de itens que são essenciais, como arroz e feijão”.  Mercadante disse ainda que “a preocupação é apenas em atender o mercado externo, não existe nenhum plano de atender o consumo interno e matar a fome do povo”. Além disso, Mercadante acrescentou que o governo Bolsonaro ao deixar com o mercado “a regulamentação do preço da cesta básica”, deixou a maioria da população “entre o pescoço e a guilhotina”, pois as pessoas são obrigadas a comer e não tem oferta, volume, estoque ou importação desses alimentos”. 

Em outras palavras, além de apostar na transformação do Brasil em uma espécie de “fazendão” para a produção de commodities agrícolas que servirão para produzir ração animal fora do Brasil,  o governo Bolsonaro vem executando políticas de financiamento agrícola que estão sufocando a produção da agricultura familiar e, por consequencia, dos produtos essenciais que ela coloca na mesa dos brasileiros.

O que Tereza Cristina parece estar desprezando é a impaciência de amplos segmentos da população que está passando fome no Brasil neste exato momento. Esperar que as pessoas famintas esperem até janeiro para poder comprar arroz a preços menos exorbitantes é quase tão ruim quanto a sugestão feita pela  Associação Brasileira de Supermercados (Abras) que sugeriu a substituição deste gênero pelo macarrão. Essa sugestão que remonta a uma que teria sido feita pela imperatriz francesa Maria Antonieta pouco antes de ser guilhotinada, a clássica frase do ” se não tem pão que comam brioches”.

As cenas abaixo de um caminhão carregado de carne que tombou na Rodovia Régis Bittencourt em uma área da Grande São Paulo já deveria ter acendido o alerta no governo Bolsonaro, mas parece que não. Aliás, pelo contrário, o que parece continuar sendo a proposição de que o “livre mercado” vai dar conta da alta dos preços dos principais itens da cesta básica.

Essa situação que mistura a crença cega na “mão invisível do mercado” com o crescimento da fome no Brasil promete ser muito mais perigosa para a sobrevivência do governo Bolsonaro do que a soma da ação de todos os partidos de oposição juntos. E quanto mais demorarem a mudar o curso das políticas agrícolas, maior será o risco para Jair Bolsonaro. A ver!

Escrevam o que eu digo: política biocida do governo Bolsonaro ainda vai causar um boicote global às commodities brasileiras

O escritor Paulo Coelho está sob fogo direto dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro por ter publicado (e apagado) um tweet onde ele indicava o boicote às commodities brasileiras por causa do caos ambiental instalado no Brasil pelo governo Bolsonaro (ver reprodução abaixo).

boicote paulo coelho

Eu diria que o problemas brasileiros e um iminente boicote aos produtos brasileiros por causa da destruição das florestas amazônicas e do Pantanal para ampliar as áreas destinadas à pecuária e o plantio de grandes monoculturas, tendo a soja à frente, independe da vontade individual de Paulo Coelho, e se tornou uma questão de tempo até que grandes parceiros comerciais como a União Europeia adotem essa medida.

Se isso realmente acontecer, os principais culpados pelo agravamento da crise econômica e social que um boicote às commodities brasileiras inevitavelmente causará será o próprio governo Bolsonaro e suas práticas biocidas.  As cenas de áreas florestadas queimando e engolindo no caminho aldeias indígenas inteiras (ver cenas abaixo do fogo consumindo o Polo Diauarum na Terra Indígena do Xingu).

A questão do boicote aos produtos brasileiros por causa das políticas anti-ambientais está se movendo rapidamente do terreno do “se vai acontecer” para “quando vai acontecer”. E de nada adiantará Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão, Ricardo Salles e Tereza Cristina se desentendidos quando o boicote começar. Afinal, é esse governo que dá o principal combustível para o boicote acontecer.

Enquanto o Pantanal é consumido pelo fogo, Ricardo Salles faz piada

queimadas

O ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, arranjou tempo hoje para produzir o vídeo abaixo e postá-lo na sua página oficial no Twitter, provavelmente com o propósito de fazer humor (de péssima qualidade) com as críticas que lhe são feitas em função da imposição de sua política de “passa boiada” em um dos principais ministérios em qualquer governo que se pretenda minimamente sério.

O humor canhestro de Salles já seria de gosto duvidoso se pouco acima de sua vídeo em minha linha do tempo no mesmo Twitter, eu não tivesse visualizado o vídeo abaixo que provém do Pantanal, um bioma que neste momento enfrenta um dos piores ciclos de destruição da história, mostrando um rebanho tentando escapar das fortes chamas que encurralam seus membros que fogem de um lado para outro em claro desespero.

Dizer que Ricardo Salles é a pessoa errada no lugar já é um daqueles lugares comuns que marcam a tragédia socioambiental em desenvolvimento no Brasil sob Bolsonaro e seu governo biocida. Mas além de seu vídeo trazer uma piada de mau gosto, o que a postura explicitada por um ministro ainda no exercício do cargo é um desdenhar que, em outros países, levaria não apenas à demissão, mas provavelmente à instauração de um processo criminal por omissão.

Mesmo que o atual contexto político do Brasil não traga qualquer sinal de que Ricardo Salles seja punido por poster esse vídeo já que não foi punido por tantas outras ações durante sua permanência no Ministério do Meio Ambiente, é importante denunciá-lo. É que não há como tolerar tamanha irresponsabilidade frente ao que está acontecendo tanto no Pantanal como na Amazônia como bem demonstra o vídeo abaixo.

Agora me digam, há algum motivo para rir da piada de Ricardo Salles?