Pantanal: busca pelo termo cresce mais de 1500% no país

Panorama levantado pela SEMrush analisa o crescimento na busca por questões ambientais; queimadas e animais são alguns dos mais pesquisados

pantanal

São Paulo, novembro de 2020 – O ano de 2020 trouxe consigo muitos desafios. Um dos que chama atenção em nível nacional e internacional são as questões ambientais que tem tomado grandes proporções na mídia. Um ano marcado por queimadas no Pantanal, aumento do desmatamento e morte de muitos animais em seu habitat natural fizeram com que a SEMrush, líder global em marketing digital, realizasse um levantamento para compreender se os brasileiros vêm buscando mais sobre o assunto na internet. E sim: os dados apontam que, de janeiro de 2020 a setembro do mesmo ano, a busca pela palavra ‘Pantanal’ teve um aumento de 1561%, com 673 mil buscas apenas em setembro.

Com isso, os brasileiros também aumentaram seu interesse por outras questões ambientais durante o mês de setembro de 2020. Como por exemplo a busca por queimadas, que somam 74 mil acessos no mês. Outro desdobramento desse interesse foi a pesquisa por animais queimados, com 1,9 mil buscas, e até mais específicos como onça pintada, com 2,9 mil. Os biomas nacionais mais afetados também despertaram mais interesses, e Cerrado e Mata Atlântica totalizam 135 mil e 90,5 mil, respectivamente, incluindo um aumento médio nas buscas por desmatamento, de 60,5 mil.

Veja abaixo os termos com maior crescimento nas buscas:

1) Animais do pantanal: aumento de 1976%
2) Onça do pantanal: aumento de 1605%
3) Pantanal: 1561 %
4) Queimadas: aumento de 1021%
5) Animais queimados: aumento de 804%
6) Desmatamento: 646%
7) Conservação Ambiental: aumento de 519%
8) Poluição: aumento de 401%
9) Mata Atlântica: aumento de 400%
10) Cerrado: aumento de 398%
*média mensal de janeiro de 2020 a setembro de 2020

Outras preocupações ambientais também foram alvo do interesse dos brasileiros em suas pesquisas. O levantamento apontou um aumento de 401,5% na busca pela palavra poluição, seguida de um aumento de 516% por poluição da água. Outra pesquisa relevante que aumentou nesse período foi a pergunta “o que é meio ambiente?” que se desdobrou para a pergunta “o que é aquecimento global?”, ambas com um aumento de 516% e 825%, respectivamente. Todo esse contexto para saber mais sobre as questões ambientais presentes no Brasil também fizeram com que o interesse dos brasileiros aumentasse em 519% sobre a conservação ambiental.

“A preocupação com o que acontece com o meio ambiente não é mais uma questão que as pessoas estão deixando de lado. O aumento da busca por informação relevante é uma tendência que vai crescer com o passar dos anos, e quem quer se posicionar como um provedor de conteúdo de qualidade deve se focar no perfil dos comportamentos de buscas. Importante salientarmos que dados estratégicos são um aliado importante para quem quer ajudar e fazer a sua parte frente a questões sensíveis como o meio-ambiente”, conclui Fernando Angulo, Head of Communications da SEMrush.

Observatório dos Agrotóxicos: com mais 32 agrotóxicos, governo Bolsonaro fez de 2020 um ano recorde de aprovações

Nem a pandemia da COVID-19 serviu para brecar o ímpeto pró-venenos agrícolas, e o total liberado em 2020 chegou a 530 agrotóxicos. Em dois anos, a liberação foi de 1033 agrotóxicos, 34% de todos os produtos em circulação no Brasil

tereza cristinaSob a batuta da ministra Tereza Cristina (DEM/Ms), governo Bolsonaro liberou quantidade recorde de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do mundo

Ainda que estejamos em meados de janeiro de 2021, o governo Bolsonaro continuou com sua enxurrada de agrotóxicos aprovados em 2020. É que em no dia 14 o Diário Oficial da União trouxe a publicação do Ato No. 71 de 28 de Dezembro onde foram liberados mais 32 agrotóxicos, todos produtos técnicos, o que totaliza para 2020 o valor de 530 agrotóxicos liberados, elevando para 1033 agrotóxicos liberados em dois anos de governo Bolsonaro.

Essa verdadeira tsunami de aprovações acontece em meio à mudanças feitas pelo governo Bolsonaro não apenas para agilizar o processo de aprovação, mas também para relaxar os critérios de definição de risco para a saúde humana, o que se reflete em uma curiosa contradição entre as definições de toxicidade ambiental e sobre a saúde humana, visto que os produtos via de regra tiveram seu risco humano baixado, sendo o de ambiental normalmente mais elevado.

A geopolítica da vacina e dos agrotóxicos

china brasil

Um detalhe que saltas aos olhos quando se analisa a origem dos agrotóxicos aprovados é que China e Índia, justamente os países que estão no cerne das dificuldades para o Brasil produzir vacinas contra a COVID-19, são os principais fornecedores de agrotóxicos com que o latifúndio agroexportador está se refastelando em seu esforço de auferir cada vez mais lucros com a exportação de commodities agrícolas.

O caso dos agrotóxicos produzidos por empresas chinesas em território chinês é o mais gritante, visto que eles representam 61% de todos os agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro. Já as empresas da Índia participam com 8%, à frente de países tradicionalmente no mercado internacional de agrotóxicos como EUA (6%), Japão (3%) e Alemanha (2%) (ver gráfico abaixo).

agrotoxicos total 2019-2020

Essa mudança de origem dos produtos sendo aprovados pelo governo Bolsonaro reflete um movimento mais geral da indústria de produção de venenos agrícolas, e que curiosamente aparece no Brasil (que participa do “bolo” com 13% dos produtos aprovados) que é a mudança em curso para o combate biológico das ditas pragas agrícolas.

Mas no frigir dos ovos, o que fica claro é que se o governo Bolsonaro fez todo um teatro para frear a aprovação e uso da Coronavac, produzida pela empresa chinesa Sinovac, o tratamento dispensado às empresas chinesas produtoras de agrotóxicos é de um verdadeiro “mar de almirante”.

Por outro lado, o fato que China e Índia continuam vendendo agrotóxicos para o Brasil sem se importarem com as desfeitas do presidente Jair Bolsonaro, seus filhos e o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Assim, a alegada “vendetta” que a mídia corporativa vem divulgando em relação ao envio de vacinas e dos insumos básicos para sua produção em solo brasileiro, se real, deve ter outros motivos.

Em vez da modernização prometida, agrotóxicos banidos por serem perigosos demais

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Um dos pontos basilares da política de aprovação de agrotóxicos do governo Bolsonaro seria o abandono de produtos teoricamente ultrapassados por outros mais modernos. Mas um rápido exame dos 1033 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro mostra que em média 30% estão banidos na União Europeia por causarem danos ao meio ambiente e a saúde humana.  Dentre os produtos aprovados e banidos pela UE (UE) podem ser citados a Acefato, a Ametrina, a Atrazina, o Fipronil, o Glufosinato e o Tiametoxam, entre tantos outros.

O fato é que esse uso amplo, e que deve se estar se ampliando em face das aprovações, está gerando um desastre sanitário de grandes proporções no Brasil, e que não está sendo identificado em função do desastre corrente que é o da pandemia da COVID-19.

Não há como negar que ao autorizar a ampliação do uso de agrotóxicos com reconhecida capacidade de causar graves danos à saúde humana, e apenas para apoiar o latifúndio agroexportador, o governo Bolsonaro está gerando um legado de envenenamento com o qual o Brasil terá dificuldades de se confrontar em um futuro não muito distante.

A coisa é tão descabido é que segundo “Robotox“, projeto conjunto da Agência Pública e da ONG Repórter Brasil, o mercado brasileiro possui atualmente com 3064 agrotóxicos em circulação, o que torna o governo Bolsonaro responsável por cerca de 34% dos agrotóxicos liberados pelo uso no Brasil, e isto em apenas dois anos de governo.

Acesso às bases de dados do “Observatório dos Agrotóxicos”

Um primeiro elemento das planilhas que o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski vem divulgando é que todos os dados foram adquiridos a partir da extração manual das informações contidas em cada ato oficial de liberação.  Com isso, pode ser que outras fontes mostrem valores ligeiramente diferentes para o governo Bolsonaro, mas considero que os valores aqui apresentados estão corretos.

Ao longo de 2021, o “Observatório dos Agrotóxicos” continuará fornecendo informações sobre novos atos e apresentando as planilhas respectivas.  Como no caso do Ato No. 71, os interessados em verificar as informações dos agrotóxicos aprovados, basta clicar [Aqui!]. Já os interessados em verificar todos os 1.033 agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro em 2019-2020, basta clicar [Aqui!].

Tragédia em Manaus

Os hospitais da metrópole amazônica de Manaus estão sem oxigênio

tubos oxigenioFamiliares de pacientes internados com o coronavírus fazem fila com garrafas vazias de oxigênio em frente à empresa Nitron da Amazônia para reabastecê-las. Foto: PictureAlliance /dpa/AP

De Niklas Franzen para o Neues Deutschland

A jornalista brasileira Natuza Nery estava assistindo ao vivo na maior estação de TV do país quando foi tomada por seus sentimentos. O motivo: Manaus, metrópole de floresta tropical do norte do Brasil, se tornou o cenário de um dos episódios mais dramáticos da pandemia da COVID-19.

Na quinta-feira passada, os hospitais locais informaram que ficaram sem oxigênio. As enfermeiras tiveram que ventilar os pacientes manualmente, e vídeos de pessoas carregando garrafas de oxigênio adquiridas de forma privada para hospitais para seus parentes infectados viralizaram nas redes sociais.

Mais de 200.000 pessoas morreram de COVID-19 no Brasil até agora – esse é o segundo maior número depois dos EUA. Manaus já foi gravemente afetada pela crise de saúde no início da pandemia, agora voltou com força total: só nos primeiros doze dias de 2021, mais de 2.000 novos pacientes foram internados nos hospitais. Centenas estão em listas de espera por leitos de terapia intensiva e muitas pessoas estão sufocando em casa sem nem mesmo ver um médico. Enfermeiras desesperadas relatam injetar morfina em pessoas doentes para, pelo menos, aliviar a dor. As agências funerárias locais não conseguem suprir a demanda por funerais.

O rápido aumento de novas infecções pode ser devido a uma mutação viral recentemente descoberta no estado do Amazonas. Mas as medidas negligentes de isolamento e a negligência da população também são apontadas como motivos. Houve festas com milhares de convidados, as pessoas saíram às ruas sem máscaras, as lojas e os bares lotaram. Muitas comemorações de Natal e Ano Novo aconteceram sem restrições.

O governador Wilson Lima ordenou agora um toque de recolher entre 19h e 6h. As vítimas de COVID-19 foram transportadas de avião para outros estados, assim como 61 bebês prematuros de hospitais locais. A localização remota de Manaus provavelmente contribuiu para a escassez de oxigênio. Ironicamente, o país vizinho e em crise, a Venezuela, agora está ajudando. E celebridades arrecadam doações online para enviar garrafas de oxigênio para Manaus.

Foi apenas no final de dezembro que o governador de direita Wilson Lima retirou um decreto para um novo bloqueio. Políticos aliados do presidente Jair Bolsonaro, incluindo o seu filho e deputado federal Eduardo Bolsonaro,  celebraramo recuo do governador amazonense. O governo federal enviou oxigênio em aeronaves militares na sexta-feira – de acordo com reportagens da mídia, a quantidade cobriu apenas 11% da necessidade diária de Manaus.

“Fizemos nossa parte”, defendeu o presidente Jair Bolsonaro, que culpa as autoridades locais pelo caos. O governo federal havia sido avisado sobre o colapso uma semana antes. Em vez de criar um plano de emergência, o ministro da Saúde de Bolsonaro, Eduardo Pazuello, recomendou que os hospitais dessem aos seus pacientes hidroxicloroquina – um medicamento contra a malária cujos estudos não mostraram eficácia contra a COVID-19. 

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

Soja da Amazônia não é “livre de desmatamento”

Abiove e Ministério da Agricultura divulgam informação falsa após ameaça do presidente francês

pulverizadoraMáquina pulveriza agrotóxico sobre plantação de soja na Amazônia Foto: © Bruno Kelly / Greenpeace

20% da soja dos biomas Amazônia e Cerrado foi produzida em imóveis rurais que desmataram, aponta estudo

Em resposta ao presidente da França, Emmanuel Macron, que ameaçou boicotar a soja brasileira em razão do desmatamento da Amazônia, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) afirmou em nota nesta terça-feira (12/01) que “a soja produzida no bioma Amazônia no Brasil é livre de desmatamento desde 2008 graças à Moratória da Soja, iniciativa internacionalmente reconhecida que monitora, identifica e bloqueia a aquisição de soja produzida em área desmatada no bioma, garantindo risco zero do envio de soja de área desmatada (legal ou ilegal) deste bioma para mercados internacionais”.

No mesmo tom, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) afirmou, em nota divulgada no dia seguinte, que “a soja brasileira não exporta desmatamento”.

A Moratória da Soja, uma iniciativa de ONGs ambientais com participação da Abiove e da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), tem de fato contribuído para reduzir a pressão sobre a floresta amazônica, mas isso não significa soja “livre” de desmatamento, nem que há “risco zero” de exportação de soja de áreas desmatadas no bioma ou que “a soja brasileira não exporta desmatamento”.

Segundo pesquisa publicada recentemente na Science, uma das mais importantes revistas científicas, cerca 20% da soja dos biomas Amazônia e Cerrado exportada para a União Europeia foi produzida em imóveis rurais que desmataram entre 2008 e 2018, desrespeitando o código florestal. O levantamento foi feito com base em informações declaradas no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e dados de exportação de soja.

Além disso, o estudo indica que 0,5 milhão de tonelada de soja da Amazônia é exportada para países europeus, contra 1,4 milhão de tonelada do Cerrado, embora esse bioma seja cinco vezes menor que a Amazônia. Isso reforça um problema que vem se agravando: o desmatamento no Cerrado, que em 2020 aumentou 13%segundo o Inpe, totalizando quase 50% de eliminação da vegetação nativa do bioma.

A manifestação da Abiove ocorreu logo após Macron afirmar, no Twitter, que “continuar a depender da soja brasileira seria o mesmo que apoiar o desmatamento da Amazônia”. Em seguida, ele completou: “Somos coerentes com nossas ambições ecológicas, estamos lutando para produzir soja na Europa”. O presidente francês tem mantido posição contrária ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, sob alegação de que o Brasil precisa cumprir o Acordo de Paris e reduzir o desmatamento, gerando pressão sobre o governo Bolsonaro e acenando para agricultores locais.

Em 2019, o Brasil produziu 114 Mton de soja, das quais 28 Mton no bioma Amazônia e 40 Mton na Amazônia Legal (o que inclui o Cerrado de MT, MA e TO), aponta o professor da UFMG Raoni Rajão, um dos autores do estudo da Science, com dados do IBGE. Ou seja, a região é responsável por 25% a 35% da produção nacional, dependendo da definição territorial utilizada.

A exemplo da moratória da soja na Amazônia, ONGs têm pressionado as indústrias por um acordo para o Cerrado, com o objetivo de barrar a expansão da soja sobre a vegetação nativa. No entanto, após um longo período de tratativas, nenhum resultado concreto foi atingido. O governo, que participava dos grupos de trabalho e endossava a iniciativa voluntária, retirou-se das negociações na gestão Bolsonaro, sinalizando o desinteresse pelo combate ao desmatamento.

A moratória da soja começou a funcionar a partir de 2006, após forte pressão de ONGs sobre compradores internacionais, com o argumento de que eles estimulavam o desmatamento na Amazônia ao produzir a oleaginosa.

Para resolver o embate foi criado um grupo de trabalho e pactuado, entre as ONGs e a Abiove, que as indústrias não comprariam mais soja de produtores cuja área para produção no bioma Amazônia tenha sido desmatada após 2008, mesmo com autorização.

Foi criado um sistema de monitoramento privado com imagens de satélite nos principais municípios produtores de soja, que identifica quem descumpre as regras e bloqueia a compra por parte das indústrias.

De acordo com o último relatório sobre a moratória, divulgado em abril de 2020 (safra 2018/2019) pelo Grupo de Trabalho da Soja, 1,8% dos produtores de soja no bioma Amazônia estariam em desacordo, ou seja, desmataram após 2008. O documento também considera que após a implementação do acordo houve uma redução de 4,6 vezes da taxa média de desmatamento na Amazônia, atribuindo parte desse resultado à iniciativa. No entanto, segundo dados do Inpe, o desmatamento na Amazônia aumentou 34,5% em 2019 e 8,5% em 2018.

Na quinta-feira (14/1), Bolsonaro atacou o presidente francês, classificando suas declarações de “politicalha” e “campanha contra o Brasil”: “(…) Quanto de floresta tem a França? Porque eles falam tanto em reflorestamento, em dar dinheiro pra nós. Não tem que dar dinheiro pra nós, não, nós vamos dar mudas de árvores para você replantar, reflorestar aí (…)”. Ao contrário do Brasil, a França tem recuperado suas florestas desde o início da revolução industrial: em 1800 elas cobriam menos de 15% do território, hoje se aproximam dos 30%, mostrou o professor da UFMG.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo site Fakebook.eco [Aqui!].

Ironia da pandemia: sufocada pela COVID-19, Manaus usará oxigênio trazido da Venezuela

Uma das formas mais corriqueiras que a extrema-direita utilizou nos últimos anos para criar pânico na população brasileira foi acenar com a possibilidade do nosso país ser transformado em uma nova Venezuela. Eis que agora, em meio ao agravamento da pandemia da COVID-19, que vem acossando de forma particularmente inclemente a cidade de Manaus, a empresa White Martins, principal fornecedora de oxigênio para o governo do Amazonas, informou que está atuando no sentido de importar o produto da Venezuela para suprir a alta demanda.

manaus venezuela

É preciso dizer que a proximidade geográfica entre o estado do Amazonas e a Venezuela é um dos elementos que justificam essa importação, mas não deixa de ser irônico que agora é o antigo exemplo de balbúrdia social e econômica que irá impedir que mais brasileiros morram sufocados em UTIs superlotadas na cidade de Manaus.

Aliás, há que se enfatizar que a situação em Manaus só chegou a esse ponto porque os apoiadores do governo Bolsonaro sabotaram de forma continuada os esforços para conter o crescimento da pandemia. Um exemplo disso foi a mobilização realizada em Dezembro para forçar a revogação do Decreto nº 43.234/2020 que impunha medidas para o enfretamento à COVID-19 no estado do Amazonas. 

Por último, o mais irônico de tudo isso é que o governo venezuelano, em um gesto geopolítico de grande significância, acaba de informar que irá disponibilizar o oxigênio necessário para socorrer Manaus (ver imagem abaixo com tweet do chanceler venezuelano Jorge Arreaza informando a realização de uma conversa com o governo do Amazonas, Wilson Lima (PSC)).wp-1610674296781.jpg

A partida da Ford, o oráculo de Olívio, e o “Capitalismo sem consumidores” de Bolsonaro

fordDepois de fechar fábrica em São Bernardo do Campo em 2015, Ford anunciou encerramento de produção em três unidades restantes no Brasil

Quando em 1999 o então governador petista do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, recusou as condições impostas pela multinacional Ford para se manter no município de Guaiba, o mundo quase caiu sobre a cabeça dele. Olívio, do alta de sua sabedoria, lançou o oráculo de que quando a Ford se sentisse na necessidade de abandonar o Brasil, o faria sem dó nem piedade. Eis que cerca de 22 anos depois, e R$ 22 bilhões de isenções fiscais indo pelo ralo, a profecia de Olívio Dutra se confirmou, e a multinacional estadunidense anunciou que vai fechar suas unidades de produção no Brasil dentro de um processo de reestruturação global.

O anúncio da partida da Ford caiu como uma bomba e tornou agitada a tarde/noite dos noticiários televisivos,  promovendo ainda o rápido aparecimento de explicações sobre o porquê da decisão (que de abrupta não tem nada).  As mais comuns giraram em torno de um suposto atraso das reformas ultraneoliberais do governo Bolsonaro como sendo a mola propulsora da decisão.  Em outras palavras, a Ford estaria abandonando o Brasil porque as reformas que retiraram direitos trabalhistas e sociais e diminuíram agudamente o investimento público ainda precisam ser aprofundadas, e mais arrocho seja imposto ao povo brasileiro.

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Em minha opinião, a convocação para que haja ainda mais arrocho e mais desestatização é da mesma natureza do problema enfrentado por alguém que tomou veneno para morrer, mas continuando vivo, procura tomar mais para completar o serviço.  É que, dentre outras muitas razões,  a Ford está abandonando o Brasil porque faltam compradores para seus carros, visto o encolhimento da massa de consumidores aptos que as reformas supostamente milagrosas vêm gerando no nosso país. Já escrevi algum tempo atrás que as reformas neoliberais iniciadas com Fernando Collor, continuadas por FHC, abrandadas com Lula e Dilma, e retomadas com força extrema por Michel Temer, estavam criando um “capitalismo sem consumidores” no Brasil, com um encolhimento ainda maior do número de brasileiros aptos a consumir bens caros, como automóveis, por exemplo.

De toda forma, a conjuntura aberta pela partida da Ford permitirá a realização de um debate sobre o modelo econômico que está sendo executado pela dupla Bolsonaro/Guedes, na medida em que os anúncios feitos nesse início de ano, a começar pelo fechamento de centenas de agências do Banco do Brasil, mostram que a disposição é aprofundar o modelo do “capitalismo sem consumidores”, abrindo caminho para uma ampliação ainda maior de massa de desempregados e dos brasileiros colocados na miséria extrema. E uma pista para um futuro modelo: não sairemos da condição de país capitalista sem consumidores se a aposta for no aumento da dependência da exportação de commodities agrícolas e minerais.

Agenda tóxica: Governo Bolsonaro publica ato e eleva total de agrotóxicos liberados em 2020 a 498

comida agrotóxicos

Andava estranhando a pausa na liberação de novos agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, visto que o último ato detectado havia sido o  No.65 de 23 de Novembro de 2020. Entretanto, hoje o Diário Oficial da União trouxe a publicação atrasado do Ato No. 70 de 23 de Dezembro, com a liberação de mais 56 agrotóxicos, o que eleva o total aprovado no ano de 2020 para 498 produtos. Com isso, o “grande total” dos produtos liberados pelo governo Bolsonaro em seus dois primeiros anos de mandato chega a incríveis 1001 agrotóxicos.

ato 70

É interessante notar que este último ato de 2020 repete uma forte influência de fabricantes chineses de agrotóxicos que são os produtores primários de um número significativo dos agrotóxicos aprovados. Este fato reforça que toda a oposição mostrada pelo presidente Jair Bolsonaro ao uso da vacina Coronavac da empresa chinesa Sinovac não alcança os agrotóxicos fabricados na China, muitos deles proibidos em outras partes do mundo. 

Além disso, há que se frisar que todo o atraso que está se vendo para o início da vacinação contra a COVID-19 não ocorre com a liberação de agrotóxicos, o que reforça ainda mais a primazia da agenda tóxica sobre a saúde dos brasileiros.

Amanhã o Observatório dos Agrotóxicos do Blogo do Pedlowski irá divulgar a lista completa dos agrotóxicos liberados pelo Ato No. 70, bem como a planilha completa para o ano de 2020.

Crescimento do contrabando de agrotóxicos ilegais desmascara discurso de segurança e modernização do governo Bolsonaro

agrotóxicos ilegais

Crescimento do contrabando de agrotóxicos ilegais desmascara discurso de segurança e modernização usado pelo governo Bolsonaro para aprovação expedita de novos produtos

Em reportagem assinada pelo jornalista Marcelo Toledo, o jornal Folha de São Paulo mostra que as fronteiras entre Brasil e Paraguai estão servindo como via de entrada ilegal de agrotóxicos, produzidos no país vizinho ou na China. Essa rota de tráfico seria a mesma utilizada pelos contrabandistas de armas e drogas, bem como de cigarros ilegais.

A reportagem mostra que para o mercado (ou seja os vendedores legais de agrotóxicos), o aumento do contrabando vindo do Paraguai tem ocorrido em função da “forte produção da agricultura nacional (ou seja do latifúndio agroexportador, bem como pela alta do dólar“. Este segundo aspecto coloca em xeque todo o discurso de que é o agronegócio quem estaria sustentando a balança comercial brasileira, na medida em que os custos dos agrotóxicos tendem a levar para fora uma parcela significativa dos ganhos do setor. E notemos que isso se dá, inclusive, pelo aumento de importações ilegais destes venenos agrícolas.

O jornalista Marcelo Toledo incluiu dados  da Polícia Rodoviária Federal (PRF) indicando que as apreensões de agrotóxicos chegaram a 90 toneladas até outubro, ante as 60 toneladas de todo o ano de 2019.  Além disso, Toledo citou um levantamento do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP) que mostra que o prejuízo anual do setor de produção de venenos agrícolas brasileiro tem crescido devido ao avanço do mercado ilegal, que já ocuparia o sexto posto no ranking de contrabandos. Nesse sentido, a reportagem mostra que “enquanto em 2017 a soma das perdas dos fabricantes de agrotóxicos e da evasão fiscal chegou a R$ 3,1 bilhões, o montante alcançou R$ 8,9 bilhões no ano seguinte e R$ 11,23 bilhões, em 2019. Com isso, fica atrás apenas de vestuário, higiene pessoal (perfumaria e cosméticos), combustíveis, bebidas alcoólicas e cigarros.  “A justificativa sempre é preço. O produto legal paga imposto e tem de ter certificação de órgãos reguladores, enquanto o ilegal ignora tudo isso. Dependendo da composição, ele fica mais barato ainda, porque burla inclusive a composição correta”, disse o presidente do FNCP, Edson Vismona.

De acordo com fontes utilizadas na reportagem de Toledo, “o contrabando de agrotóxicos se profissionalizou a partir de 2009, com a entrada de grandes contrabandistas.  E esse crescimento tem sido refletido em operações policiais e de órgãos governamentais nos últimos anos no país“.

Após intensa perseguição, equipe da PRF prende contrabandista de agrotóxicos em Guaíra (PR)

Essa situação coloca completamente a nu o discurso do governo Bolsonaro, e principalmente da ministra Tereza Cristina (DEM/MS) de que a tsunami de aprovação de agrotóxicos a partir de janeiro de 2019 (um total de 945 produtos foram liberados) e a modificação das regras de classificação de toxicidade garantiriam a ampliação do grau de segurança para os produtores rurais e para a população brasileira com um todo.  O fenômeno do contrabando de agrotóxicos mostra que o uso abusivo e intensivo desses produtos é regulado pelos preços praticados, e que tem se tornado escorchantes por causa da politica cambial do próprio governo Bolsonaro.

Um dos problemas especialmente agudos nessa situação é que além de ilegais, muitos desses produtos são falsos, o que torna ainda mais graves os potenciais impactos que os mesmos podem trazer para a saúde humana e para o meio ambiente, o que torna a questão dos agrotóxicos um assunto de primeira ordem. Há que se lembrar ainda que a relação entre esse modelo de agricultura viciada em agrotóxicos nos torna ainda mais expostos ao acontecimento de pandemias como é o caso da causada pelo coronavírus.

A Inglaterra, que já vacina, decide fazer um lockdown radical contra a COVID-19. E o Brasil de Bolsonaro? Nada!

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Em que pese o Reino Unido já ter começado o seu processo de vacinação em massa contra a COVID-19, o  primeiro ministro conservador (isto é, de direita) Boris Johnson declarou hoje medidas de lockdown que são as mais extremas desde março de 2019.  As razões para a adoção de medidas que envolvem a permissão de sair de casa apenas uma vez por dia para a maioria dos ingleses por um período de, pelo menos sete semanas, são o espalhamento acelerado da pandemia, a elevação do número de mortos, e o ainda processo ainda relativamente lento de vacinação.

Já no Brasil, que ainda não possui um calendário real para iniciar o seu processo de vacinação (aliás, o governo Bolsonaro sequer conseguiu garantir a compra da quantidade de seringas que seria necessária para garantir o uso das vacinas quando elas forem finalmente liberadas para aplicação), tudo continua ao “Deus dará”, sem medidas reais de confinamento social, e com um presidente da república que continua objetivamente incentivando processos de grande aglomeração, com resultados que são mais do que previsíveis, mas que incluem a elevação do número de pessoas contaminados e do número de mortos pela COVID-19.

Enquanto isso, vejo os partidos políticos (sem distinção de viés ideológico) se ocupando da disputa pelo controle das mesas diretoras da Câmara de Deputados e do Senado Federal, como se nada estivesse ocorrendo de anormal no Brasil, e como se os problemas reais dos brasileiros se concentrem apenas em uma suposta defesa de uma democracia que, no nosso caso, é meramente formal.

Já escrevi antes e repito agora: a questão política central neste momento é obrigar o governo Bolsonaro a reverter a sua opção fiscalista de sabotar a adoção de um massivo processo de vacinação da população brasileira, o que além de fazer sentido do ponto de vista sanitária, é a única forma de colocar o país em um movimento de mudança política progressiva. 

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Enquanto isso não ocorrer, o presidente Jair Bolsonaro poderá continuar tranquilamente com suas performances, seja na praia ou no campo, pois continuará imune à qualquer pressão política real. Afinal de contas, seja quem vencer a eleição da Câmara de Deputados, Baleia Rossi ou Arthur Lira, o governo Bolsonaro continuará controlando a agenda política, impondo ainda mais derrotas e regressões aos trabalhadores brasileiros.

Aos leitores do blog, renovo a minha insistência que aumentem suas medidas de autoproteção (incluindo as medidas de isolamento, uso de máscaras e de asseio pessoal).  É que no imenso Deus dará que está estabelecido no Brasil, não é possível se dar ao direito ao descuido.