Crise ambiental em Alter do Chão: águas de ‘Caribe amazônico’ ficam turvas em meio a alta no garimpo no Pará

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Fotografia aérea feita em janeiro mostra águas barrentas do Tapajós em contato com o Lago Verde, em Alter do Chão. Por Erik Jennings Simões

Por João Fellet  da  BBC News Brasil em São Paulo

Quem visita o distrito paraense de Alter do Chão costuma se deleitar com as águas límpidas e azuladas do Tapajós, que lhe renderam o apelido de “Caribe amazônico”.

Mas quem passou o último Réveillon no distrito – um dos principais destinos turísticos da Amazônia – encontrou algo diferente: as águas que banhavam as praias de areia clara estavam turvas e barrentas.

O fenômeno alarmou moradores e agências de turismo, que temem prejuízos à principal atividade econômica do distrito e à saúde dos residentes.

Eles citam temores de que a mudança na água seja uma consequência do aumento do garimpo no curso médio do Tapajós, o maior polo de mineração ilegal no Brasil. O garimpo contamina os rios com mercúrio, que pode provocar doenças neurológicas.

Imagens de satélite mostram que nos últimos anos houve um crescimento vertiginoso do garimpo de ouro no Médio Tapajós, região que fica a algumas centenas de quilômetros de Alter do Chão.

‘Resíduos nocivos à saúde’

“O Tapajós está morrendo!”, protestou no Instagram em janeiro a agência local de turismo Poraquê.

“Águas barrentas, cheias de resíduos nocivos à saúde, estão sendo despejadas sem piedade alguma”, completou a agência, atribuindo a lama à “mineração irregular de inúmeros garimpos ao longo do rio”.

Post no Instagram

Agências de turismo de Alter do Chão temem impactos no movimento de visitantes por causa da mudança no rio. CRÉDITO,REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

Outras entidades publicaram queixas semelhantes

Os primeiros alertas sobre a mudança na cor do rio foram feitos pelo médico Erik Jennings Simões e por Caetano Scannavino, coordenador da ONG Projeto Saúde e Alegria.

Foto aérea da orla de rio

Imagem aérea mostra que em dezembro o rio Tapajós já exibia águas turvas em em Alter do Chão. CRÉDITO,ERIK JENNINGS SIMÕES

Ambos moradores de Santarém, município que engloba Alter do Chão, eles publicaram nas redes sociais no fim de dezembro fotos aéreas que mostravam o Tapajós com águas turvas. As imagens foram feitas de avião por Simões.

Scannavino, que mora na região desde os anos 1980, diz à BBC que nas décadas passadas as águas do Tapajós em Alter do Chão costumavam ficar barrentas por alguns meses ao ano – mas raramente já em dezembro.

O fenômeno é associado ao período de chuvas mais intensas, normalmente entre janeiro e março, quando perde força e as águas voltam a ficar azuladas.

Mas Scannavino diz acreditar que o garimpo está reduzindo a “janela de águas claras” no rio e cita dados sobre a explosão na atividade no Médio Tapajós. Esse aumento, segundo ele, tem sido estimulado por declarações e iniciativas do governo Jair Bolsonaro simpáticas a garimpeiros.

Imagem de satélite

Imagem de satélite mostra encontro entre os rios Tapajós e Crepori em 1984, quando ainda não havia garimpo em grande escala na região. CRÉDITO,GOOGLE

Imagem de satélite

…e em 2020, após o garimpo ilegal criar várias cicatrizes na floresta, ampliando o despejo de lama no Tapajós. CRÉDITO,GOOGLE

Em dezembro, a ONG Greenpeace divulgou o resultado de um monitoramento em rios que cruzam as terras indígenas Munduruku e Sai Cinza e desaguam no Tapajós.

Segundo o levantamento, desde 2016, o garimpo ilegal destruiu 632 quilômetros de rios dentro desses territórios.

O Greenpeace diz que o impacto equivale ao causado pelo rompimento da barragem em Mariana (MG), em 2015, quando 633 quilômetros do rio Doce foram afetados.

O garimpo ilegal está presente no Médio Tapajós desde ao menos os anos 1980. Hoje, porém, a atividade se mecanizou: retroescavadeiras facilitam o revolvimento da terra à margem de rios, abrindo grandes cicatrizes na floresta.

As áreas revolvidas ficam expostas, sem qualquer vegetação. As chuvas então levam a argila do solo para os rios.

Rios de diferentes cores

Mas será que a mesma lama do garimpo estaria por trás das águas turvas do Tapajós em Alter do Chão, distrito que fica a algumas centenas de quilômetros de distância dos garimpos ilegais?

Para o geólogo André Sawakuchi, professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), a mudança na cor das águas pode ter duas explicações.

Foto aérea de praia

Foto mostra águas azuladas do rio Tapajós que renderam a Alter do Chão apelido de “Caribe amazônico”. CRÉDITO,PREFEITURA DE SANTARÉM

Especialista em rios amazônicos, Sawakuchi afirma que há rios na região cujas águas são naturalmente barrentas (ou “brancas”, como se diz na região).

É o caso, por exemplo, do rio Amazonas, onde o próprio Tapajós deságua 30 quilômetros a leste de Alter do Chão.

Mas ele diz que todos os rios naturalmente barrentos da região nascem na cordilheira dos Andes, em áreas de relevo acidentado e pouca cobertura florestal. Quando chove nas cabeceiras desses rios, a argila do solo escorre para as águas, deixando-as turvas.

Há ainda rios amazônicos com águas naturalmente escuras, como o Negro, coloração que se deve à grande quantidade de matéria orgânica que eles acessam nas cheias.

Por fim, há os rios de águas naturalmente claras, que costumam nascer em áreas menos acidentadas, com solo arenoso e pouca argila.

É o caso do Tapajós e de seus afluentes, como o Jamanxim, o Crepori e o Ratão.

Hoje, no entanto, vários desses afluentes apresentam águas turvas o ano todo por causa do garimpo, diz Sawakuchi. O Tapajós também se torna mais turvo nos pontos de contato com esses rios.

Mas o geógrafo afirma que a lama do garimpo tende a decantar no leito do Tapajós antes de chegar a Alter do Chão.

Imagem de satélite

Encontro do Tapajós com o Amazonas quando os dois rios estão com as colorações habituais. CRÉDITO,GOOGLE

Essa lama só poderia chegar a Alter do Chão, diz ele, se houvesse uma diferença entre as vazões do Tapajós e do Amazonas que permitisse à água do Tapajós avançar mais intensamente rumo ao Amazonas.

Por outro lado, um desequilíbrio das vazões em favor do Amazonas poderia fazer com que a água naturalmente barrenta do Amazonas avançasse até Alter do Chão – o que também explicaria a mudança na cor do rio.

“Quando o Amazonas está enchendo, ele invade o Tapajós. Essa invasão começa no período chuvoso (novembro) e pode ser mais ou menos intensa, dependendo da vazão do Amazonas”, diz Sawakuchi.

Neste ano, tanto o Amazonas quanto o Tapajós estão com níveis superiores às suas médias históricas.

Por isso, segundo Sawakuchi, a melhor maneira de determinar a causa da água barrenta no Tapajós em Alter do Chão seria analisar o conteúdo dessa água. Essa análise conseguiria distinguir a argila oriunda do Amazonas da lama proveniente de garimpo, diz o geólogo.

Imagem de satélite

Imagem de satélite mostra águas turvas causadas pelo garimpo no rio Jamanxim desaguando no Tapajós em dezembro de 2021. 

Não há notícias por ora de que alguma instituição ou entidade de governo esteja realizando essa análise.

Mercúrio no sangue

Ainda que a lama do garimpo não esteja chegando a Alter do Chão, uma pesquisa da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) indica que a população de Santarém apresenta altos níveis de mercúrio no sangue – o que pode ser um impacto da mineração ilegal no Tapajós.

Homem em barco no rio Tapajós
O ribeirinho Djalma Moreira Lima mostra água barrenta do rio Tapajós nas proximidades de Santarém, em janeiro. CRÉDITO,DJALMA MOREIRA LIMA/ARQUIVO PESSOAL

Coordenada pela bióloga Heloísa Meneses, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Ufopa, a pesquisa revelou que 80% dos moradores de Santarém têm nível de mercúrio no sangue acima do recomendado pela Organização Mundial de Saúde.

O estudo já analisou amostras sanguíneas de cerca de 500 pessoas, com idade entre 18 e 80 anos.

Os resultados foram parecidos com os detectados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em um estudo com moradores do Médio Tapajós – esta, sim, uma região diretamente impactada pelo garimpo.

O mercúrio é usado para facilitar a aglutinação do ouro e, levado aos rios, pode contaminar microrganismos e peixes.

Outras possíveis fontes da substância, segundo a pesquisadora, são o desmatamento e as queimadas, que podem “ativar” o mercúrio inorgânico depositado no solo ou fundo dos rios, permitindo sua absorção pela cadeia alimentar.

A população é impactada pela substância principalmente por meio do consumo de peixes contaminados, segundo Meneses. E peixes contaminados numa região de garimpo podem se deslocar vários quilômetros até serem capturados e consumidos – o que põe em risco também moradores de regiões distantes dos pontos de contaminação.

Ela afirma que o mercúrio causa danos ao sistema nervoso central e, em grande quantidade, pode levar à morte. A substância também prejudica coração, rins e fígado, e pode contaminar bebês através da placenta.

Dependência do rio

Para muitos ribeirinhos que vivem à margem do Tapajós, no entanto, deixar de comer peixe não é uma opção.

Morador da comunidade Suruacá, que fica na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, a poucas horas de barco de Alter do Chão, Djalma Moreira Lima diz à BBC que os peixes são a principal fonte de proteína dos moradores locais.

“A nossa subsistência é peixe, mandioca, milho, feijão. A gente sobrevive desses alimentos”, afirma.

Lima diz que o Tapajós tinha águas claras quando ele chegou à região, em 1984.

“Você conseguia enxergar a até dois metros de profundidade. Tinha abundância de peixes, não precisava ir muito longe pra pescar”, diz.

Hoje, porém, afirma que há menos peixes e que o rio ficou “mais seco”. Segundo ele, a “terra que vem do garimpo” se assentou no leito e reduziu a profundidade das águas.

Ele afirma que em setembro, mês de menor vazão do rio, alguns barcos chegam a encalhar – o que não acontecia no passado.

Ele conta que, nos pontos de maior profundidade, o Tapajós costumava ser “quase preto, negro, um rio em que você gostava de tomar banho”, mas diz que hoje se notam “vários pontos brancos” nas águas.

“É como leite no café”, descreve.

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Este texto foi publicado originalmente pela BBC News Brasil [Aqui!].

Um breve relato pessoal sobre meu tour em uma sociedade pandêmica

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Em visita às Cataratas do Iguaçu, uma multidão aglomerada mas, felizmente, portando máscaras faciais

Após viver praticamente dois anos em um alto grau de isolamento por causa da pandemia da COVID-19, estou, por assim dizer, na estrada desde 21 de dezembro, tendo dirigido cerca de 4.000 km por três estados brasileiros, com direito uma breve visita ao Paraguai. Durante todo esse tempo, usei duas máscaras faciais (uma cirúrgica e outra de pano) e frequentei todo tipo de lugar superlotado. O detalhe é que sai de Campos dos Goytacazes tendo recebido 3 doses de vacinas contra a COVID-19.

Ao longo desse tempo, em que logrei não contrair o vírus visitei locais super lotados, incluindo hotéis, restaurantes e pontos turísticos. Antes, durante e depois de entrar em contato com um alto número de pessoas, higienizei as mãos e tomei banho após ir a locais especialmente lotados de pessoas, incluindo uma ida a Ciudad del Leste, onde inexistia qualquer controle na entrada e saída da fronteira brasileira. Afora isso, usei estratégias de distanciamento naqueles locais em que tive que retirar as máscaras que utilizava. Aliás, neste viagem trouxe um número alto de máscaras de pano e caixas de máscara cirúrgicas para poder trocar sempre a proteção, evitando que tenha de portar unidades que estejam “cansadas”.

Agora que apontei meus cuidados pessoais, quero compartilhar um pouco do que vi em relação às pessoas com quem interagi e os locais em que estive. A primeira coisa que me pareceu importante é que nos três estados que passei (Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná), há uma alta disposição das pessoas sobre portar máscaras faciais e utilizar produtos de higienização. Além disso, os trabalhadores com quem tive contato mostraram alto grau de disciplina sobre a necessidade de adotar padrões de segurança pessoal, tendo sido orientado sobre as medidas de higienização na maioria dos locais onde passei.  Nesse sentido, há que se reconhecer que a batalha da comunicação não foi tão perdida como é relatado pela mídia corporativa por “especialistas” convocados pelas grandes emissoras. Para mim, a coisa não está e não foi pior porque a maioria das pessoas já entendeu o risco de se estar contaminado com o coronavírus. Em um país com diferenças sociais colossais como é o caso do Brasil, isto não me parece pouca coisa.

Nomeando os que resistem contra as medidas de prevenção

wp-1642255524972Em um ônibus turístico lotado com pessoas portando máscaras houve quem preferisse ignorar os protocolos de segurança apresentados no início do trajeto

Um detalhe que me parece ser revelador acerca de onde está a resistência para enfrentarmos a pandemia é o comportamento de parte das pessoas, as quais não são em sua maioria os mais pobres. Nos locais que frequentei os que se recusavam a adotar a máscara facial eram sempre aqueles que portavam roupas de grife, com aquele jeitão inconfundível que os membros da classe média possuem.  A resistência ao cuidado coletivo não vem dos mais pobres como se parece acreditar, mas de pessoas que têm toda a condição de entender o impacto de suas ações individualistas, mas optam por não considerar o risco que causam para si e para os outros.

Por outro lado, a partir do que vi, considero que a falta de controle sobre grandes estabelecimentos e os operadores privados de locais públicos é um dos facilitadores da disseminação do coronavírus. É que quanto maior era o tamanho do empreendimento maior era o descontrole, incluindo pontos turísticos que continuavam aglomerando milhares de pessoas em meio ao início da disseminação da variante “ômicron”.  Nesse tipo de empreendimento a ausência quase completa da vigilância sanitária era óbvia, ficando os cuidados por conta “do cliente”.  Com isso, cai por terra qualquer argumento no sentido de que os capitalistas vão cuidar dos seus clientes, pois o que conta mesmo é a garantia do lucro instantâneo.

Duas rápidas observações sobre vacinas e testes

Notei que a maioria das pessoas com quem propositalmente interagi acerca das vacinas apoia a vacinação e estava vacinada.  Isso me mostra que todo o esforço do governo federal, principalmente do presidente Jair Bolsonaro, não logrou convencer uma parcela significativa da população.  Isso também explica porque em um estado que votou maciçamente em Jair Bolsonaro em 2018, o Paraná, não notei qualquer apoio público às manifestações anti vacina do presidente da república. 

Um detalhe é que fui perguntado em incontáveis vezes sobre a eficiência das vacinas e a importância de se completar o esquema vacinal.  Em todos esses casos havia dúvidas sobre a eficiência, mas nada que refletisse a postura negacionista de Jair Bolsonaro.

Além disso, verifiquei “in loco” que as pessoas estão acorrendo aos postos de testagens quando suspeitam que podem ter sido contaminadas pelo coronavírus, fato que explicita o grave equívoco que tem sido a não disponibilização de um amplo processo de testagem no Brasil. Tivéssemos tido testagem em massa, o mais provável é que não o Brasil não haveria alcançado o macabro número de mais de 620 mil mortos pela COVID-19.

Resumo da ópera

É forçoso reconhecer que estamos em meio a mais uma forte onda de contaminações do coronavírus no Brasil, muito em parte pelo alto grau de contágio propiciado pela variante ômicron. Entretanto, considero que a situação poderia ser ainda muito pior se uma parcela significativa da população não tivesse aderido aos parcos protocolos de segurança adotados no país.  

O importante é identificar que a grande parcela de culpa sobre o quadro assumido pela pandemia no Brasil deve recair sobre o presidente da república, um negacionista científico declarado, e de toda a sua equipe de governo que permitiu que ele agisse da forma que agiu e continua agindo. 

Mas não se pode desconhecer daquelas parcelas do capital que estão fortemente associadas ao governo Bolsonaro que se comportam de forma oportunista e irresponsável em meio à essa catástrofe humana que estamos vivenciando por causa da COVID-19.  Um necessário ajuste de contas terá que ser feito com esses segmentos, pois grandes e médios empresários ajudaram conscientemente a agravar a pandemia, apenas para manter seus lucros rolando.

Finalmente, considero que é importante ressaltar que a pandemia causou sim uma forma de aprendizagem sobre a importância do conhecimento científico e do Sistema Único de Saúde (SUS). Esse aprendizado poderá ser útil para a retomada dos direitos que os últimos anos de desmanche do estado brasileiro que foi o resultado mais objetivo do golpe parlamentar de 2016 contra a ex-presidente Dilma Rousseff. 

Antes que me esqueça, estou chegando em casa sem ter contraído o coronavírus. Considero isso o resultado da combinação de meus cuidados pessoais com o fato de ter completado meu esquema vacinal com a terceira dose antes de sair de Campos dos Goytacazes. Somado a isso, o fato de ter desafiado as estatísticas e não ter me contaminado nos locais onde tive de retirar as máscaras de proteção. Por isso tudo, recomendo que todos se vacinem e se mantenham disciplinados no tocante ao uso dos equipamentos de proteção.

Brasil para de rastrear desmatamento do Cerrado apesar do aumento da destruição

FILE PHOTO: Scientists from the State University of Mato Grosso identify signs of climate change on the border between Amazonia and CerradoUma vista aérea mostra o desmatamento perto de uma floresta na fronteira entre a Amazônia e o Cerrado em Nova Xavantina, Mato Grosso, Brasil, em 28 de julho. | REUTERS

Por Jake Springs para a Reuters

 Brasil vai parar de monitorar o desmatamento no Cerrado, a savana mais rica em espécies do mundo, disse um pesquisador do governo nesta quinta-feira citando falta de fundos, dias depois de dados mostrarem que a destruição atingiu uma alta de 6 anos em 2021.

O Cerrado, que faz fronteira com a floresta amazônica e se estende por vários estados brasileiros, é um grande baluarte contra as mudanças climáticas devido ao carbono que absorve. Muitas vezes é comparado a uma floresta de cabeça para baixo porque suas plantas afundam as raízes profundamente no solo.

O desmatamento aumentou 8% para 8.531 quilômetros quadrados no Cerrado nos 12 meses até julho, mostraram dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (lnpe) na última sexta-feira.

A decisão de interromper o monitoramento do Cerrado foi tomada por causa de cortes orçamentários, disse Claudio Almeida, pesquisador que coordena o monitoramento por satélite do Inpe.

O Inpe não produzirá mais números anuais para o desmatamento do Cerrado a menos que consiga encontrar uma nova fonte de financiamento, disse Almeida em mensagem escrita.

Uma “equipe mínima” continuará produzindo cifras mensais do desmatamento para o Cerrado, mas ficará sem dinheiro em seis meses ou menos, disse ele.

A assessoria de imprensa do Inpe não respondeu a um pedido de comentário.

A medida para parar de monitorar o Cerrado parece ser outro revés para a proteção ambiental sob o presidente de direita Jair Bolsonaro.

Bolsonaro criticou as proteções ambientais que impedem o crescimento econômico e enfraqueceu a aplicação das leis de conservação.

O gabinete do presidente não respondeu imediatamente ao pedido de comentário.

Marcio Astrini, chefe do Observatório do Clima, disse esperar que o governo encontre financiamento para continuar monitorando um ecossistema tão vital.

“O monitoramento mostra se o desmatamento está avançando e se o desmatamento vai condenar um bioma tão importante para os brasileiros”, disse Astrini.

Mas ele disse que não está otimista devido ao histórico de Jair Bolsonaro. O presidente já atacou o Inpe no passado, em 2019 acusando a agência de mentir sobre os dados que mostram o desmatamento da floresta amazônica.

No início desta semana, pesquisadores expressaram preocupação com a crescente destruição no Cerrado, dizendo que isso resulta em enormes emissões de gases de efeito estufa e ameaça levar espécies à extinção.

“Toda vez que você vai ao Cerrado fazer pesquisa de campo, não é raro descobrir uma nova espécie de planta ou mesmo de animal”, disse Manuel Ferreira, geógrafo da Universidade Federal de Goiás. “Ainda há muitas espécies a serem estudadas.”

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “Japan Times” [Aqui!].

Governo Bolsonaro: três anos de desmonte ambiental

Em 36 meses, governo promoveu retrocessos de 30 anos na agenda socioambiental

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Projeção realizada pelo coletivo Defend Democracy In Brazil em parceria com o The Illuminator e o Greenpeace US em Nova Iorque, durante a ida de Bolsonaro na Assembleia da ONU (Foto: Ken Schles)

São Paulo, 10 de Janeiro de 2022 – Em três anos de mandato, Bolsonaro avançou significativamente com sua política de desprezo ao meio ambiente. Ao longo deste período, o atual governo foi na contramão de qualquer medida de proteção ambiental e colecionou marcos negativos na agenda climática: bateu recordes de desmatamento na Amazônia, enfraqueceu órgãos ambientais, paralisou a fiscalização ambiental, liberou agrotóxicos e incentivou a exploração ilegal de madeira e garimpo. Em ano de eleições presidenciais, uma breve retrospectiva sobre estes principais acontecimentos se faz necessária.

Para alcançar os altos índices de desmatamento em três anos de governo, Bolsonaro iniciou o seu mandato em 2019 com uma série de desmontes no Ministério do Meio Ambiente (MMA) e no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O governo enfraqueceu órgãos como o Ibama e ICMBio, demitiu funcionários com conhecimento técnico para nomear militares e ruralistas sem experiência e acabou com comitês e conselhos que garantiam a participação da sociedade civil na governança ambiental do país.

A fiscalização ambiental deixou de ser comandada pelo Ibama e, no lugar, o governo implantou uma operação militar que levou mais 3.400 militares para a Amazônia a um elevado custo aos cofres públicos (cerca de R$ 550 milhões) e que foi incapaz de coibir os crimes ambientais na região: uma verdadeira maquiagem verde. Como resultado, o país bateu recordes de desmatamento na Amazônia, registrando em 2021 o equivalente a quase nove vezes o município de São Paulo, o maior índice na região desde 2006.

Ao afirmar diversas vezes que não há crescimento econômico sem exploração ambiental, Bolsonaro fez o Brasil vivenciar uma explosão de casos de garimpo ilegal, a exemplo do mais recente acontecimento no Rio Madeira, no Amazonas, que reuniu centenas de balsas no munícipio de Autazes promovendo a destruição socioambiental. Os territórios de Munduruku e Sai Cinza, no Pará, tiveram também mais de 600 quilômetros de corpos d’água contaminados por conta do garimpo ilegal neste mesmo ano.

Retrocessos seguem para 2022

Com o respaldo no Congresso Nacional, ruralistas e a base aliada de Bolsonaro avançaram com projetos de lei que colocam em risco o meio ambiente e a vida dos povos e comunidades tradicionais no país. É o caso do “PL da Grilagem”, que visa premiar grileiros que desmataram terras públicas, e do “PL da Boiada”, que pode acabar com o licenciamento ambiental que protege o meio ambiente e populações afetadas por diversos tipos de obras e empreendimentos como construções de hidrelétricas, barragens e rodovias. Ambos foram aprovados na Câmara dos Deputados e tramitam no Senado Federal, podendo ser votados no início deste ano.

A liberação de agrotóxicos também bateu recordes na gestão Bolsonaro. Mais de 30% de todos os registros de novos agrotóxicos foram feitos durante o seu governo, totalizando mais de 1.500 novos produtos autorizados. Além disso, ao longo de todo o ano de 2021 houve tentativas de avanço com a aprovação do chamado “Pacote do Veneno” (PL 6.299/2002), que pretende flexibilizar ainda mais a aprovação de agrotóxicos no país e que pode voltar à pauta no início de fevereiro.

Também ficou para 2022 o julgamento da tese do Marco Temporal no Supremo Tribunal Federal, que defende que as demarcações de terras indígenas só valem após a promulgação da Constituição Federal de 1988. Na Câmara dos Deputados, o PL 490/2007 que, dentre outros aspectos, também trata do Marco Temporal, segue como uma ameaça.

Para Thais Bannwart, porta-voz de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil, 2022 é um ano decisivo para a agenda ambiental brasileira. “A destruição ambiental e a violência contra povos e comunidades tradicionais produzidos pelo governo Bolsonaro precisa acabar para sempre. A maior parte da sociedade brasileira é contra esses absurdos e precisamos levar isso em consideração na hora de escolher nossos candidatos. Um modelo de destruição como o de Bolsonaro já está nos custando muito caro e temos um caminho árduo pela frente, que demandará muita vontade política e da sociedade para ser revertido, mas nós temos toda a capacidade para trilhar esse caminho.”

2022 é ano de eleições presidenciais. Após 36 meses de desmonte ambiental, mais do que nunca o meio ambiente deve ser uma das pautas centrais do debate eleitoral. Afinal, ao contrário do que prega o atual presidente da república, a valorização da biodiversidade e dos saberes da floresta é a chave para o Brasil prosperar.

Veja aqui as ações antiambientais efetivadas desde a posse de Bolsonaro.

O ano é novo, mas Amazônia segue sendo desmatada em ritmo acelerado

 Números do Deter-B apontam 8.219 kmde alertas de desmatamento na Amazônia

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Vista aérea de um desmatamento na Amazônia para expansão pecuária, em Lábrea, Amazonas. © Victor Moriyama / Amazônia em Chamas

Manaus, 07 de janeiro de 2022 – Dados do sistema Deter-B, do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), divulgados nesta sexta-feira (07), mostram que de janeiro a dezembro de 2021 foram registrados 8.219 km² de alertas de desmatamento na Amazônia. É o terceiro ano seguido em que os alertas superam os 8.000 km2, o que não havia ocorrido em nenhum ano anterior ao atual governo. Apesar da pequena queda de 2,3% em relação ao ano passado, a média de desmatamento registrada ao longo dos três anos do governo Bolsonaro (8.604 km²) é 77% maior em comparação aos três anos anteriores (4.844 km²).

“Infelizmente, em relação aos alertas de desmatamento, o novo ano começa como foram os últimos três. A destruição da Amazônia e outros ecossistemas naturais não só não é combatida pelo governo, como é impulsionada por atos, omissões e conluios com os setores mais retrógrados da nossa sociedade que primam o lucro e a economia da destruição, agravando cada vez mais a crise climática que vivemos na atualidade”, afirma Rômulo Batista, porta-voz da campanha de Amazônia do Greenpeace Brasil.

Quando são analisados somente os alertas para mineração, em sua grande parte causada por garimpos ilegais, o número é ainda mais assustador. Pela primeira vez, o sistema registrou uma área de alertas de 121 km² para esta atividade, um aumento de 20% em relação ao ano anterior e o equivalente a 17 mil campos de futebol destruídos – uma média de 47 a cada dia.

“Nesta mesma semana, também foi divulgado pelo INPE um aumento de 7,9% no desmatamento do cerrado, que já teve 50% de sua área devastada, e anunciada a extinção por falta de verba do programa de monitoramento deste que é o segundo maior bioma brasileiro. Esses números são reflexos da política antiambiental do governo Bolsonaro e de suas ações comprovadamente ineficazes em conter a destruição das florestas”, complementa Batista.

Os números também expõem as escolhas de seus aliados no Congresso Nacional, que tentam aprovar Projetos de Leis que ameaçam as florestas e seus povos, como é o caso do PL 2633, conhecido como “PL da Grilagem”, que visa premiar grileiros ao reduzir a margem de proteção de rios em áreas urbanas, e o PL 490, que inviabiliza demarcações de Terras Indígenas e escancara os territórios para atividades econômicas predatórias. Projetos como estes estimulam e intensificam a corrida de madeireiros, grileiros, fazendeiros e garimpeiros pela ocupação ilegal e destruição da Amazônia.

Desastre ambiental no Brasil: Jair Bolsonaro passeia de jet ski em vez de enviar ajuda

Inundações severas no Brasil. O presidente Bolsonaro está de férias. Bahia aceita ajuda da Argentina

chuvas bahiaMorador de Dario Meira na Bahia tentou na última terça-feira resgatar alguns pertences a cavalo

Por Frederic Schnatterer para o JungeWelt

O chefe de estado da ultradireita Jair Bolsonaro passou os dias próximos ao Ano Novo no estado brasileiro de Santa Catarina. Enquanto outras regiões do país sofriam fortes inundações,  Jair Bolsonaro se divertia no jet ski ou no parque de diversões, como mostram as imagens da TV. Para interromper as férias, o presidente finalmente foi movido por dores abdominais na segunda-feira. Ele deu entrada em um hospital de São Paulo na madrugada (hora local) para tratamento.

De acordo com as autoridades locais, no domingo, o estado de emergência foi declarado para 153 comunidades no estado da Bahia, devido ao recorde de chuvas, e 124 vilas e cidades no leste de Minas Gerais. A emissora de notícias latino-americana Telesur informou que pelo menos 31 pessoas já morreram nas enchentes . Além disso, há dezenas de feridos  e dezenas de milhares de pessoas tiveram que deixar suas casas para chegar a um local seguro. Diversos meios de comunicação noticiaram que as chuvas estão diminuindo novamente, principalmente na Bahia. Para as demais regiões do Brasil, porém, a previsão é de fortes chuvas nos próximos dias.

Na quinta-feira, o Bolsonaro – já de férias – recusou uma oferta de ajuda da Argentina, país vizinho ao sul. Ignorando a situação dramática, ele afirmou através do Twitter que o suporte “não era necessário” no momento. Em sua “live” diária, que é transmitida semanalmente nas redes sociais, ele agradeceu ao presidente argentino Alberto Fernández pela oferta. Ao mesmo tempo, porém, afirmou que “dez pessoas não nos ajudariam no momento e podem causar ainda mais dificuldades”. O embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Scioli, já havia se oferecido para usar dez chamados capacetes brancos na Bahia, que poderiam, por exemplo, tratar água potável, desinfetar áreas ou aconselhar as autoridades locais.

O governador do Partido dos Trabalhadores (PT) da Bahia, Rui Costa, que já havia afirmado que foi “a pior catástrofe da história baiana”, condenou a oposição de Bolsonaro. Ele anunciou também no Twitter que seu estado aceitaria o auxílio argentino, independentemente da atitude do governo federal. E acrescentou: “Falo a todos os países do mundo: a Bahia aceitará qualquer ajuda neste momento – diretamente, sem que passe pelos canais diplomáticos oficiais”. Costa descreveu 21 milhões de euros oferecidos pelo governo federal para dar conta das consequências das chuvas como “totalmente inadequados”.

Bolsonaro afirmou que o motivo da rejeição da ajuda argentina não se deveu a divergências ideológicas com o governo de Buenos Aires, e que Brasília em geral estava aberta a ofertas semelhantes. Grande parte do público brasileiro não acredita nisso. Fernández é conhecido por criticar duramente o governo brasileiro e é considerado amigo do ex-presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva. O político do Partido dos Trabalhadores (PT), que governou o Brasil de 2003 a 2010 e foi afastado impedido de participar das eleições de 2018 com a ajuda de uma acusação que agora foi claramente identificada como politicamente motivada, deve concorrer contra Bolsonaro nas eleições presidenciais de outubro. Enquanto o apoio à ultradireita continua diminuindo e, segundo a última pesquisa do Datafolha de 17 de dezembro, é de apenas 21%, enquanto Lula deve receber 47% dos votos.

Lula ainda não anunciou oficialmente sua candidatura. Na sexta-feira, porém, ele se dirigiu aos seus compatriotas no estilo de um futuro chefe de Estado. Em saudação de Ano Novo, disse que em 2022 trabalhará para garantir “que todos os brasileiros possam levar uma vida com dignidade e que tenhamos de volta um país que nos enche de orgulho”. Lula também expressou solidariedade aos moradores das regiões inundadas.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: governo Bolsonaro bate recorde tóxico com mais 51 aprovações em 2021, totalizando 1.558 venenos liberados em 36 meses

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Os leitores do Blog do Pedlowski devem ter notado que o ano de 2021 foi bastante ativo nas publicações ligadas ao “Observatório dos Agrotóxicos” que foi criado logo no início de 2019 para documentar a promessa eleitoral (cumprida, é preciso que se diga) de acelerar a liberação de venenos agrícolas para atender a insaciável demanda do latifúndio agro-exportador de commodities.  

Como resultado da política de licenciamento “fast food” adotada pelo governo Bolsonaro, o Brasil se viu inundado por uma verdadeira tsunami de venenos agrícolas, a maioria proveniente de empresas chinesas e europeias, e com um número significativo deles banidos pela União Europeia em função de sua alta periculosidade para o meio ambiente e também para a saúde humana. 

Pois bem, como não podia ser diferente, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), comandado pela ministra Tereza Cristina (DEM/MS), fez publicar hoje (31/12) o Ato Nº 55, de 23 de Dezembro de 2021 que traz a liberação de mais 51 agrotóxicos. Com isso, o governo Bolsonaro quebra o seu próprio recorde tóxico dos seus primeiros dois anos de mandato, alcançando um total de 1.558 agrotóxicos liberados em 36 meses de mandato.

É preciso que se diga que a imensa maioria dos agrotóxicos aprovados se destina para uso em poucas culturas agrícolas, todas elas voltadas para a exportação. No caso da soja e do milho, por exemplo, o objetivo é principalmente alimentar os rebanhos de animais na União Europeia e na China (principal parceiro comercial brasileiro).  Enquanto isso, ficamos imersos em um processo de agravamento da contaminação ambiental e também da população brasileira.

Como ainda não tive tempo para cria a planilha de dados para o Ato Nº 55, de 23 de Dezembro de 2021  (o que impede a atualização da base de dados com todos os agrotóxicos liberados pela dupla Jair Bolsonaro/Teresa Cristina), farei isso nos primeiros dias de 2022.

Mas uma coisa é certa: o combate a um modelo agrícola fortemente dependente de venenos agrícolas e da devastação dos biomas da Amazônia e do Cerrado deverá ser uma prioridade para aqueles que desejam viver em uma sociedade onde o ato de se alimentar não seja uma espécie de suicídio cotidiano. E a construção desse modelo agrícola alternativo de base ecológica só será possível com a derrota desse modelo viciado em venenos mortais e que não tem como prioridade saciar a fome, seja no Brasil ou no resto do mundo.

A fome no Brasil: “A situação é mais tensa nas cidades”

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra luta contra as injustiças sociais. Uma conversa com Paulo Mansan

mst jwApoiadores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva marcham com militantes dos sem-terra (Brasília, 14.8.2018)

A injustiça social é muito pronunciada em Pernambuco e nos estados vizinhos do Nordeste do Brasil. Nos últimos meses, a fome se alastrou devido às condições de pandemia e uma crise econômica. O Movimento dos Trabalhadores do Solo, MST, já distribuiu 890 toneladas de alimentos e 750 mil porções em seu estado. Como isso aconteceu?

Já em 2020, era previsível que a situação social no Brasil e especialmente no Nordeste se agravasse. A situação é mais tensa nas cidades do que no campo e por isso nós, como movimento com foco no campo, decidimos expandir nossas atividades na cidade. Junto com sindicatos, universidades e outros movimentos sociais, organizações e, principalmente, centenas de militantes de esquerda de nosso meio, iniciamos a campanha “Mãos da Solidariedade”. Agrupamos todos esses atores com nossa base, nossos assentamentos e ocupações no campo e, assim, criamos a base para esta campanha de solidariedade sem precedentes. Cada um de nossos assentamentos fornece gratuitamente alimentos colhidos em trabalho voluntário, em torno de 40 toneladas por mês.

Essa solidariedade é importante, mas como o seu trabalho difere de outras iniciativas em que pacotes de ajuda são distribuídos de caminhões para quem precisa?

Durante a pandemia, montamos uma rede de “bancos de alimentos” na capital Recife. Estas foram implementadas por “profissionais de saúde” voluntários. Esses “agentes” são inspirados em como trabalham em Cuba e foram treinados por nós para fornecer uma educação básica sobre a pandemia de Covid-19, especialmente nas favelas. A distribuição da comida é organizada através destes “bancos populares”, a das refeições através das “cozinhas populares solidárias” que instalamos. Isso cria uma conexão orgânica com os residentes, o que também permite um trabalho político conjunto.

Qual a conexão entre os atores da cidade e do campo, o MST está mudando atualmente seu caráter para se tornar uma organização urbana?

Tradicionalmente temos uma boa posição na população da capital pernambucana. Os “Amigos do MST” são muito ativos na capital Recife. Muitas das pessoas ativas que agora vivem em nossos assentamentos vêm originalmente das favelas das cidades. Para realizar as transformações políticas e sociais necessárias no Brasil, é necessária uma forte movimentação nas cidades. Mas isso não muda o fato de sermos essencialmente um movimento camponês, cujas principais preocupações são a produção de alimentos saudáveis ​​e baratos para a população pobre e a implementação da reforma agrícola há muito esperada no Brasil.

Haverá eleições presidenciais no Brasil em outubro de 2022. Qual a posição do MST sobre isso?

Não somos neutros porque o atual governo do fascista Jair Bolsonaro é diametralmente oposto aos nossos planos. Em 2022, portanto, é nossa tarefa conjunta lutar por um governo Lula. Jair Bolsonaro e seus aliados mais reacionários, mas também a grande mídia, gastam muita energia nos difamando. A campanha de solidariedade agora nos dá a oportunidade de reposicionar o MST. Isso é particularmente evidente quando se trata da questão da produção de alimentos saudáveis, porque o governo Bolsonaro significa produção tóxica. Somente em 2021, o uso de mais de 440 agrotóxicos foi aprovado no Brasil, incluindo muitos que são proibidos na Europa. Em nossa produção, por outro lado, contamos com a agroecologia. E porque nossa abordagem não é de caridade, mas de solidariedade viva,

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Junge Welt” [Aqui!].

Retrospectiva ambiental 2021 e perspectivas para 2022

Pesquisadores e profissionais do meio ambiente fazem um balanço deste ano na área ambiental e projetam o que deve mover o Brasil e o mundo no próximo ano

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Por um lado, desmatamento, enchentes, seca histórica, incêndios, degradação dos biomas, ameaças aos territórios de povos tradicionais e alertas de cientistas sobre a emergência climática. Por outro, acordos entre países para reduzir a emissão de gases de efeito estufa, mais consciência e boas práticas entre as empresas e vozes ativas na sociedade civil mostrando a necessidade de mudanças profundas no modelo de desenvolvimento. O ano de 2021 termina com grandes desafios no campo ambiental para o Brasil e o mundo. Especialistas projetam um 2022 com obstáculos consideráveis, mas também com uma pitada de esperança para o Brasil, diante das eleições e de perspectivas de avanços em assuntos relevantes para a sustentabilidade do planeta.

“Foi um ano muito difícil para o meio ambiente e a biodiversidade brasileira, com grande expansão do desmatamento, especialmente na Amazônia, muita queimada no Cerrado, muita grilagem de terras públicas com retirada ilegal de madeira e ouro. Em Brasília, as bancadas do governo e dos lobbies do atraso aprovaram no Congresso Nacional vários projetos de lei contrários ao meio ambiente, sem levar em conta o agravamento da crise hídrica e do aquecimento global. Graças ao Poder Judiciário, que tem atuado à luz da Constituição Federal, o estrago não foi maior”, analisa Braulio Dias, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e professor da Universidade de Brasília (UnB). Ele e outros especialistas fizeram um balanço dos eventos mais marcantes da área ambiental em 2021 e traçaram algumas perspectivas para 2022. Veja a seguir:

Desmatamento na Amazônia

O ano foi marcado pela divulgação de novos recordes de desmatamento na Amazônia. De acordo com os dados mais recentes divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a taxa de desmatamento na Amazônia Legal Brasileira teve aumento de 21,97% em um ano. No período da análise consolidada, que vai de agosto de 2020 a julho de 2021, a área desmatada foi de 13.235 quilômetros quadrados, a maior taxa registrada nos últimos 15 anos. O Governo Federal, que vem sofrendo forte pressão interna e externa para proteger a Amazônia, assumiu compromisso de zerar o desmatamento ilegal até 2028, mas foi fortemente criticado por atrasar a divulgação das informações do Inpe de forma proposital antes da COP26. “Neste tema da Amazônia, a credibilidade internacional do Brasil continuou a despencar em 2021. A decisão do governo de esconder os dados de desmatamento durante a COP26 foi a gota d’água”, frisa Braulio Dias.

Natureza e terras indígenas ameaçadas

Especialistas e pesquisadores identificaram diversos projetos de lei, decretos e Propostas de Emendas à Constituição (PEC) danosos ao meio ambiente ao longo do ano. Muitas dessas medidas avançaram e foram aprovadas no Congresso Nacional com rapidez inédita. Dentre os retrocessos estão a PEC 191/2020, que prevê a abertura de terras indígenas para mineração, hidrelétricas e agronegócio; as “leis de grilagem” (PL 2633/2020 e PLS 510/2021); e a “lei geral de licenciamento ambiental” (PL 3729/2004). “Há também as invasões de garimpeiros em terras indígenas, especialmente nas áreas Yanomami e Munduruku, com grandes consequências ambientais, além de humanas. As recentes liberações para a mineração sinalizam aberturas maiores”, pontua Philip Fearnside, também membro da RECN e do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa). O pesquisador também menciona o avanço da aprovação da pavimentação da BR-319, entre Manaus (AM) e Porto Velho (RO). “É um dos eventos com maiores impactos no futuro na Amazônia”, salienta Fearnside.

Margens de rios em risco, população insegura

O Congresso Nacional aprovou em dezembro um projeto de lei que transfere da União para os municípios a competência para definir as regras de proteção às margens de rios, lagos, lagoas e demais cursos d’água de cidades brasileiras. O texto altera o Código Florestal e pode permitir a realização de intervenções e obras, além de facilitar a regularização de construções irregulares em Áreas de Preservação Permanente (APP). “Essas áreas devem ser conservadas, pois contribuem para a proteção da biodiversidade, ajudam a regular o microclima, protegem recursos hídricos e também oferecem bem-estar para as populações. Não faz sentido flexibilizar a legislação, gerando incertezas sobre as APPs e colocando a população em risco”, alerta André Ferretti, membro da RECN e gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário.

Seca histórica no Brasil

O Brasil iniciou o período de seca na região Centro-Sul, em maio, com o menor volume de chuvas registrado nos reservatórios em 91 anos. A escassez ligou um alerta geral nas autoridades sobre os riscos de um novo “apagão” no Brasil, exigindo medidas “excepcionais” para garantir o fornecimento de energia elétrica, sobretudo com o aumento do uso das usinas termelétricas. De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), os reservatórios de hidrelétricas do Sudeste e Centro-Oeste, que representam 70% da capacidade de armazenamento do País, finalizaram o mês de abril com nível médio de armazenamento de 34,7%. As chuvas nos reservatórios que asseguram o abastecimento de água nas metrópoles também tiveram menor intensidade no verão passado. No Sistema Cantareira, por exemplo, que abastece municípios da Grande São Paulo, o volume de chuvas no primeiro trimestre do ano foi o mais baixo desde o final da grave crise hídrica de 2016, que obrigou a região a utilizar o “volume morto” dos reservatórios.

Alerta vermelho sobre o aquecimento global

Em agosto, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas publicou seu aguardado relatório, apontando a “inequívoca” responsabilidade humana no aquecimento do planeta. Considerado o mais contundente estudo sobre o tema em três décadas, o trabalho dos cientistas demonstra que as atividades humanas são responsáveis por 98%, ou seja 1,07oC do total de 1,09oC que o planeta já aqueceu desde a Revolução Industrial. O IPCC também explica que o limite estabelecido no Acordo de Paris – 1,5oC de aquecimento em relação à era pré-industrial –, provavelmente será excedido nos próximos 20 anos. Somente uma redução drástica nas emissões de gases de efeito estufa poderá fazer a temperatura média da Terra se manter dentro da meta até o final do século.

Fenômenos climáticos extremos pelo mundo

Em junho, mais de 200 pessoas, a maioria idosas, tiveram morte súbita no Canadá por causa de uma onda de calor com temperaturas que chegaram a 50 graus Celsius. Mais de 170 mortes e prejuízos de cerca de 2 bilhões de euros foram provocados por enchentes no Oeste da Alemanha, em julho. No mês seguinte, o calor intenso provocou incêndios florestais devastadores no Mediterrâneo, atingindo regiões da Turquia e, principalmente, Itália e Grécia. Enchentes históricas foram registradas na China em julho e outubro, gerando destruição, deixando milhares de pessoas desabrigadas e provocando mais de 300 mortes, além dos prejuízos materiais. No Brasil, mais de 50 cidades baianas decretaram situação de emergência em dezembro por causa de fortes chuvas, que provocaram a morte de 10 pessoas, deixaram centenas de feridos, mais de 6 mil desabrigados. No mesmo período, no Norte de Minas Gerais, as enchentes foram responsáveis por cinco mortes e cerca de 2 mil desabrigados. “A realidade confirma o que a ciência vem dizendo há muito tempo: os fenômenos estão ocorrendo com mais frequência, mais intensidade e, por vezes, fora de um período esperado. No caso dos tornados no Brasil, o mais assustador é que percorreram áreas muito maiores que o comum, chegando a 350 quilômetros de extensão”, salienta Carlos Rittl, também membro da RECN, especialista em políticas públicas da Rainforest Foundation da Noruega e ex-secretário executivo do Observatório do Clima.

COP 26 – A aguardada Conferência do Clima da ONU

Sem condições de ser realizada em 2020 por causa da pandemia, a 26ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP26) ocorreu em Glasgow, na Escócia, em novembro. Cercada de grande expectativa, a reunião teve importantes anúncios de metas voluntárias dos países para “descarbonizar” a economia, mas também decepções. O Brasil comprometeu-se a zerar o desmatamento ilegal até 2028 e assinou acordo, junto com outros 100 países, para reduzir em 30% a emissão do gás metano até 2030. Muitas definições, no entanto, serão tratadas apenas na COP27, em 2022. O Brasil contou com a segunda maior delegação na conferência de Glasgow, atrás apenas do Reino Unido. Além de autoridades, líderes empresariais e celebridades presentes, também houve destaque para a participação de movimentos sociais e lideranças indígenas. A jovem ativista brasileira Txai Suruí, de 24 anos, foi a primeira indígena a discursar na abertura de uma conferência sobre clima.

COP15 – a Conferência da biodiversidade

A primeira parte da 15ª Conferência das Partes sobre a Biodiversidade das Nações Unidas, a COP15, foi realizada de forma virtual de 11 a 15 de outubro. As negociações presenciais em Kunming, na China, serão realizadas em abril de 2022. Como principal resultado do evento, mais de 100 países assinaram a Declaração de Kunming, comprometendo-se a criar um novo pacto global para proteção da biodiversidade. A criação de um fundo internacional para conservação ambiental, com uma dotação inicial de US$ 233 milhões do governo da China, foi outro resultado do evento.

Início da Década do Oceano

Entre as boas notícias ambientais do ano está o início da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável. A Organização das Nações Unidas (ONU) decidiu que entre 2021 e 2030 todos os países unam esforços para a geração e divulgação de conhecimento sobre o oceano. A Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, que é uma das instituições da sociedade civil representantes da Década do Oceano no Brasil, promoveu uma jornada de cocriação de soluções para o mar e as regiões costeiras. O Camp Oceano selecionou 19 propostas de todo o país para serem colocadas em prática a partir de 2022, totalizando R$ 3,7 milhões em apoio. Além disso, o primeiro Edital Conexão Oceano de Comunicação Ambiental ofereceu cinco bolsas para a produção de reportagens sobre a temática, que foram publicadas em veículos de comunicação de diferentes regiões do país, em variados formatos e plataformas.

Mudança no Ministério do Meio Ambiente

Em junho, o ministro Ricardo Salles foi exonerado do Ministério do Meio Ambiente, dando lugar a Joaquim Leite, que já ocupava uma secretaria do órgão. O ex-ministro foi alvo de operação da Polícia Federal, em maio, que resultou também no afastamento da cúpula do Ibama, por suspeita de facilitar o contrabando de madeira. A troca no comando foi recebida com um misto de alívio e baixas expectativas por ambientalistas. Salles ficou marcado por uma polêmica declaração em reunião ministerial em 2020, quando disse que a pandemia seria a oportunidade para modificar normas que seriam questionadas na Justiça, aproveitando o foco da mídia na Covid-19 para “passar a boiada” em regramentos. Com perfil mais discreto, a gestão de Leite segue a mesma linha de Salles.

Sai Trump, entra Biden

Na política internacional, o ano começou com uma grande novidade: a posse de Joe Biden, no dia 20 de janeiro, como presidente dos Estados Unidos. Com um discurso ambiental bem ensaiado, mencionando a crise do clima entre as suas prioridades, o novo mandatário recolocou os EUA no Acordo de Paris e apresentou a meta de reduzir em 50% as emissões do País até 2030, com um pacote trilionário de recuperação verde. Em abril, Biden promoveu uma cúpula de líderes mundiais sobre o clima em preparação para a COP26. Ao longo do ano, no entanto, contradições internas foram aparecendo. Impasses com senadores, inclusive do Partido Democrata, sobre incentivos à retomada verde e ao pacote de estímulo à energia limpa travaram a pauta ambiental nos Estados Unidos. O ano chega ao fim com uma série de dificuldades do novo governo em relação às negociações com o Congresso.

Perspectivas para 2022

Eleições no Brasil

Com mais espaço na agenda pública, pressões e interesses conflitantes internos e externos, especialistas acreditam que a pauta ambiental deve marcar presença nas campanhas de candidatos nas eleições gerais do Brasil em 2022. Além de escolher o presidente da República e os governadores, o pleito também definirá as bancadas da Câmara dos Deputados, a renovação de um terço do Senado – 27 cadeiras – e os representantes para as Assembleias Legislativas Estaduais e Câmara Distrital, no Distrito Federal. “O ano promete ser muito difícil na área política. Resta a esperança de termos alguns bons candidatos para as eleições e termos a felicidade de poder eleger governantes e legisladores competentes e comprometidos com os interesses da sociedade brasileira”, destaca Braulio Dias.

Olhos atentos à Amazônia

A política ambiental para proteger a Amazônia deve seguir atraindo a atenção da opinião pública tanto no Brasil quanto no exterior. Os relatórios periódicos de órgãos que acompanham de perto o bioma e a delicada situação das terras indígenas seguirão sob o foco da imprensa e das entidades dedicadas à causa ambiental. Caso a agenda do governo seja mantida, são esperadas pressões ao Brasil vindas a partir da perda de investimentos estrangeiros, possibilidade de boicote a produtos nacionais e até sanções comerciais de outros países.

COP27 do Clima, COP15 da Biodiversidade e Rio + 30

Entre os grandes eventos globais do próximo ano estão a COP27 do Clima, que será realizada no Egito, em novembro, com a missão de regulamentar diversos pontos do Acordo de Paris, como o mercado de carbono e outros mecanismos de apoio financeiro a países em desenvolvimento. A segunda parte da COP15 da Biodiversidade será realizada em abril, na China, com a missão de estabelecer diretrizes globais para a proteção das espécies até 2050. Outro evento relevante será o Rio + 30 Cidades, previsto para junho, para discutir o papel das mudanças climáticas mundiais nos grandes centros urbanos.

Fortalecimento da economia verde

O compromisso das empresas na proteção e conservação do meio ambiente deve seguir em alta, numa crescente conscientização sobre os impactos socioambientais de negócios econômicos. Maior fôlego para um mercado global de carbono, boas práticas ambientais, sociais e de governança (ESG) valorizadas pelas corporações, fundos verdes com a adesão de investidores e o fortalecimento de negócios com impacto socioambiental positivo são alguns dos movimentos de mercado que devem trazer o meio ambiente para o centro do mundo corporativo em 2022.

Governo Bolsonaro reforçou agricultura dependente de agrotóxicos com novo recorde de aprovações em 2021

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Como já mostrado ao longo deste ano através das publicações do “Observatório dos Agrotóxicos”, o governo Bolsonaro quebrou um novo recorde de aprovações de agrotóxicos em 2021, tendo ultrapassado o total de 500 novas liberações.  E o pior é que dos agrotóxicos liberados até o início de dezembro, 94% (ou seja 470) eram de produtos genéricos, com uma quantidade significativa de substâncias banidas em outras partes do mundo por causa de sua alta periculosidade para seres humanos e o meio ambiente. Na prática, esses dados desmentem as alegações do governo Bolsonaro de que a tsunami de agrotóxicos se destinava a modernizar o portfólio existente e a baratear o custo desses produtos. É que nem uma das duas coisas aconteceu.

Mas se engana quem acha que os setores mais interessados nessa verdadeira tsunami de agrotóxicos altamente perigosos estão satisfeitos com a “agilidade” demonstrada pelo governo Bolsonaro. É que a aliança formada por produtores de venenos agrícolas e grandes latifundiários envolvidos na exportação de commodities agrícolas querem fazer aprovar em 2022 o chamado “Pacote do Veneno (o PL 6.299/2002) cujo objetivo é praticamente abolir a regulação existente para a produção e utilização de venenos agrícolas. Se aprovado, o Pacote do Veneno causará uma aceleração ainda maior no consumo de agrotóxicos, o que deverá contribuir para um aumento da contaminação de alimentos, águas e solos, além de expor os trabalhadores rurais que manuseiam esses produtos a taxas ainda maiores de adoecimento.

Há que se dizer que o uso massivo de agrotóxicos no Brasil decorre da implantação de grandes áreas de monoculturas de poucas commodities, que incluem a soja, o algodão, a cana de açúcar e o milho. Todas essas monoculturas contribuem para mais de 80% do consumo de agrotóxicos no Brasil. Desta forma, qualquer alegação de que esse abusivo de agrotóxicos se destina a garantir a produção de alimentos para a mesa dos brasileiros não passa de uma mentira grosseira. 

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Aliás, falando sobre a relação existente o uso de agrotóxicos e o consumo de alimentos pelos brasileiros, é importante lembrar que a recente a publicação dos resultados do Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes em alimentos (PNCRC) mostrou um grave processo de contaminação não apenas por agrotóxicos, mas também por metais pesados. Isto objetivamente coloca em risco a saúde dos brasileiros que estão hoje submetidos a um modelo agrícola totalmente dependente de substâncias altamente perigosas para produzir.

Assim, dentre as muitas questões importantes a serem tratadas em 2022 está a aprovação do “Pacote do Veneno”, pois se esta questão for deixada apenas no âmbito do congresso nacional, a aprovação será inevitável