Degradação florestal na Amazônia está saindo das sombras para assombrar o latifúndio agro-exportador

degradation 1
Ondas de fumaça da floresta amazônica. Foto: Dado Galdieri / AP

Em menos de uma semana um veículo de mídia, agora o site UOL, resolveu jogar luz sobre o avanço e impacto das diferentes formas de degradação da floresta amazônico, mostrando ainda uma progressão exponencial deste processo em relação ao desmatamento apenas no último mês de janeiro.

A verdade é que a “grande mentira verde” como caracterizou a matéria publicada pela BBC News Brasil sobre a ênfase no desmatamento como elemento de empobrecimento da biodiversidade e dos serviços ambientais associados aos biomas amazônicas tem sido algo conveniente para governos de diferentes matizes desde que o governo militar resolveu incorporar a Amazônia ao circuito dependente em que a economia brasileira está historicamente inserida.

Por isso, tem sido dada ênfase aos 20% da Amazônia brasileira que foram desmatados. É que, por contraponto, haveriam ainda 80% preservados, o que serviria com uma espécie de calmante de consciências de corporações e dos governos que sempre facilitam o saque da biodiversidade que esse bioma contém.  Assim, enquanto o saque seguia em frente, todos podiam oferecer a falsa ideia de que a maioria da floresta amazônica seguia intacta.

degradation 2Exemplos de processos de degradação  e mudanças ocorridas ao longo do tempo na cobertura florestal.

Agora, é importante enfatizar a discrepância notada pelos pesquisadores do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) para os dois fenômenos (i.e., desmatamento e degradação) que estão atuando para criar fortes distúrbios na paisagem amazônica. Segundo dados levantados pelo Imazon, em janeiro de 2020, enquanto o desmatamento cresceu “meros” 74%, a degradação cresceu vertiginosos 1382%.  

Mas mais importante do que o número estratosférico é saber os fatores causais deste crescimento. Em 2010, participei da publicação de um artigo na respeitada “Remote Sensing” onde eu e meus colegas apresentamos os dados relativos aos impactos causados por exploração de madeira e queimadas no estado do Mato Grosso. Ali ficou demonstrado que, ao contrário do que dizia a maior parte da literatura científica, o processo de degradação florestal não apenas é significativo, como nem sempre é captado por métodos automáticos, como é o caso da maioria dos estudos.

Dez anos depois da publicação daquele estudo, e em meio à vigência de um completo estado de “laissez faire” aplicado pelo governo Bolsonaro nas distintas formas de exploração de recursos florestais e não florestais na Amazônia, não deveria surpreender a ninguém que o montante de floresta degradada supere ao que já foi desmatado.

O principal problema disso é que os representantes do governo Bolsonaro, a começar pelo ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, passem a ter ainda maior dificuldade para justificar o processo de desmanche da governança ambiental brasileiro e o desmantelamento das nossas estruturas de comando e controle que, precariamente, mantinham em níveis “toleráveis” os dois processos (desmatamento e degradação florestal) que agora surgem com números cada vez mais impressionantes.

A consequência do aumento da consciência de que os biomas amazônicas estão mais fragilizados do que se fazia pensar até a pouco vai certamente aumentar a pressão por embargos contra as commodities brasileiras saídas de áreas desmatadas ou degradadas sob os olhares cúmplices do presidente Bolsonaro e seu governo de céticos das mudanças climáticas.

Em tempo: apesar dos estudos sobre degradação florestal existirem em menor quantidade do que aqueles que medem desmatamento puro e simples, isso não quer dizer que neste momento não existam diferentes grupos de pesquisadores (dentro e fora do Brasil) medindo esses dois fenômenos de forma separada para toda a Amazônia brasileira.  Assim, cedo ou tarde (e talvez mais cedo do que tarde) comecemos a ter acesso a artigos científicos mostrando os números. Quando isso acontecer, o certo é que a chama por debaixo da frigideira onde dançam os latifundiários agro-exportadores que vendem soja e carne produzidas na Amazônia vai aumentar, e muito. A ver!

Desmatamento continua avançando na Amazônia no início de 2020

desmatamentoApesar de período chuvoso, desmatamento continua avançando na Amazônia: 2020 deverá ter perda recorde de florestas nativas nos biomas amazônicos

A agência de notícia Reuters publicou hoje um artigo informando que, apesar de estarmos no período de chuvas na Amazônia, as taxas de desmatamento para o mês de janeiro superaram a de anos anteriores, dando continuação aos altos níveis de desmatamento que ocorreram em todo o ano de 2019.

Esta informação pode surpreender os mais desavisados, mas já estava  mais do que previsto que os números recordes de desmatamento que ocorreram em 2019 iriam ser superados em 2020, o que já está se comprovando apenas no mês de janeiro. O fato é que o governo Bolsonaro não apenas não mudou sua postura de fragilizar a governança ambiental e desmantelar as estruturas de comando e controle, como continua emitindo sinais de que não fará nada para deter a pilhagem ilegal de riquezas que está alimentando o avanço do desmatamento na Amazônia e em outras partes do território brasileiro.

As últimas medidas tomadas pelo governo Bolsonaro, aliás, reforçam a mensagem de que nada será feito de forma substantiva para impedir o avanço do processo de desmatamento. Seja pelo envio do projeto de lei que abrirá as terras indígenas para todo tipo de atividade econômica (a começar pela mineração), ou pelo alijamento de representantes da sociedade civil no Fundo Nacional do Meio Ambiente, a mensagem do governo Bolsonaro é clara: mais desmatamento é bem vindo e visto como sinal de progresso.

O problema é que até agora não há nenhum esforço significativo para deter as ações do governo Bolsonaro na destruição da maior floresta tropical ainda existente no planeta, ainda que as consequências disso tenham um alcance extremamente danoso, inclusive para a regulação do clima da Terra. Dentro do Brasil, a situação mistura tolerância e apatia, enquanto que fora dele, vemos a poderosa primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, defender a manutenção do acordo de livre comércio com o Mercosul, em que pese o flagrantemente descompromisso do governo Bolsonaro com a proteção ambiental.

Mas tenho a impressão de que quando os números de 2020 forem confirmando que o Brasil abandonou completamente os compromissos com a proteção da biodiversidade amazônica, até Angela Merkel terá de mudar de posição. É que apesar dos eventuais ganhos econômicos que possam ocorrer com o desmatamento na Amazônia, não haverá como ignorar o que virá com o desaparecimento de suas florestas. 

 

Artigo publicado pela Nature convoca ação global para restaurar a governança ambiental no Brasil

Uma das principais publicações científicas do mundo, a revista Nature acaba de publicar um artigo co-assinado por 1.230  pesquisadores, profissionais e ativistas sociais que pedem entre outras coisas um esforço global para garantir uma ação global para restaurar a governança ambiental no Brasil que se encontra sob ameaça desde a chegada ao poder do presidente Jair Bolsonaro.

Segundo os signatários do artigo intitulado “Help restore Brazil’s governance of globally important ecosystem services“, o Brasil tem uma grande responsabilidade, pois seus ecossistemas são fundamentais para toda a humanidade.  Além disso, o artigo afirma que “as consequências globais do novo sistema de governança degradado no Brasil implicam que todas as partes interessadas compartilham um interesse comum: tornar os ecossistemas brasileiros resilientes”. 

O artigo afirma ainda a importância de apoiar empresas comprometidas com os chamados “Objetivos do Desenvolvimento Sustentável” (ODS) por meio do uso estratégico de incentivos, enquanto os governos estaduais e municipais no Brasil podem estimular a produção da agricultura sustentável e baseada na biodiversidade, atraindo investimentos externos.

nature 1

Os signatários do artigo afirmam de forma categórica que a governança ambiental brasileira tem sido enfraquecida, colocando nosso futuro em risco.  O artigo afirma ainda que  a comunidade científica e membros de povos indígenas e tradicionais do Brasil propõe três  eixos de ações para restaurar a governança brasileira: 1) desenvolver agroindústria sustentável; 2) proteger e restaurar ecossistemas; 3) fortalecer os direitos dos povos indígenas e tradicionais. 

 

 

 

Um Brasil precarizado: esse é o legado que nos deixam as políticas neoliberais

precariadoSíntese da destruição socioambiental em curso no Brasil: trabalhador precário enfrenta a inundação em Belo Horizonte para entregar encomendas

Viver em uma cidade de tamanho médio torna possível abrir janelas para a realidade macro de qualquer país.  Por isso, não posso deixar de apontar que o Brasil que emerge como fruto de três décadas é de um país cada vez mais precarizado com pessoas que clamam algum tipo de êxito se conseguirem inserir em alguma forma de subemprego. Aquela outra porção que não possui a possibilidade sequer do subemprego glamourizado (Uber, IFood e outros similares) resta então se dirigir às calçadas para tentar vender algum tipo de guloseima ou simplesmente pedir dinheiro.

Apesar de saber que esse não é um fenômeno genuinamente brasileiro, não posso deixar de me sentir indignado com o destino que é dado a amplos segmentos da nossa população. A eclosão do precariado torna tudo mais difícil para que possamos alcançar um modelo de Nação minimamente democrática e com a possibilidade de dar existência digna aos mais pobres. 

O que temos, pelo contrário, é o aprofundamento da violência estatal e paraestatal que é a contrapartida da precarização do mundo do trabalho e do aprofundamento do apartheid social existente desde os tempos da Colônia. E, pior, sob a aprovação cúmplice dos segmentos da população que se beneficiam dessa forma particular de funcionamento do Capitalismo.  Dos segmentos que ganham com essa sociedade precarizada, não se pode esperar nem formas limitadas de solidariedade social. O que eles querem é que as forças policiais assegurem que possa usufruir tranquilamente das benesses do rentismo sem serem importunados pelos abandonados pelo sistema.

De quebra, desaparecem os clamores pela idoneidade dos governamentais, pois o que se vê agora é a ação óbvia para eximir membros das elites governantes de quaisquer acusações ou imputações por claros de corrupção, a começar pela rachadinhas de gabinete e as parcerias praticamente assumidas com segmentos criminosos como é o caso das milícias.

É preciso que se diga que o governo Bolsonaro e seu ministro banqueiro, Paulo Guedes, representam um aprofundamento das políticas neoliberais iniciadas por Fernando Collor e continuadas por todos os governos que se seguiram. Até aqui, o atual governo está impondo sua política de arrasa quarteirão que destrói as bases de um estado nacional minimamente soberano para impor aqui o reinado completo da especulação financeira que implica na recolonização completa do Brasil, ainda que seja por meio de estatais europeias e chinesas.  

Em meio a toda essa devastação social e econômica, não vejo saídas a partir dos partidos que se reclamam de esquerda de manhã para aplicarem eles mesmos políticas neoliberais de tarde. A única expectativa real para enfrentar o projeto de recolonização do Brasil é que vejamos brotar aqui processos similares aos que já estão acontecendo em outras partes do mundo, onde a juventude e a classe trabalhadora estão reassumindo a direção do combate de massas sem ligar muito para as agendas reformistas dos que se adaptarão a parlamentos cada vez mais subordinados às vontades das elites globais. 

Acabou a revolta no Chile? Não, ela está apenas sendo escondida de nós

protestos chile

Desde que explodiram as manifestações no segundo semestre de 2019, o caso chileno está causando muita apreensão entre as elites brasileiras. É que o Chile fora apresentado como o modelo de sociedade ideal, sem conflitos e com progresso econômico fincado no modelo neoliberal. A explosão da revolta social causou assombro até na esquerda institucional brasileira que resume seu simulacro de resistência aos limites do congresso e do judiciário.

Subitamente a revolta chilena pareceu contaminar outras países como Equador e Colombia, e arriscava se alastrar também para o Peru. Foi o que bastou para que não mais do que repente, o caso chileno sumisse das telas de TV e dos discursos de todo o espectro político que paulatinamente vai aprovando a imposição de um modelo ultraneoliberal no Brasil.

A mídia corporativa também se uniu a esforço de fazer parecer que as coisas no Chile tinham voltado ao normal, fazendo desaparecer quaisquer menções à continuação dos enfrentamentos nas principais cidades chilenas, incluindo a capital Santiago e a importante cidade portuária de Antofagasta. Mas há também  intensa em outras como Valparaíso ( ver imagens abaixo).

Este slideshow necessita de JavaScript.

Mas que pelo menos os leitores deste blog saibam que a situação chilena está longe da normalidade que os defensores do ultraneoliberalismo de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes tentam fazer transparecer.  A verdade é que o Chile não entrou em um processo de conflagração generalizada apenas pela ausência de um estopim final, pois as condições sociais e econômicas criadas por mais de quatro décadas de neoliberalismo são propícias para que isso ocorra (ver vídeo postado no canal do Youtube da Opal Prensa mostrando a primeira manifestação de 2020).

A pergunta que deveria estar na cabeça de todos que percebem a rápida deterioração das condições da maioria dos trabalhadores brasileiros é a seguinte: por que querem esconder a revolta dos trabalhadores e da juventude do Chile?

A minha primeira resposta é: extremo medo de contágio. E não estamos falando do coronavírus.

Em um ano, Bolsonaro destruiu a imagem do Brasil de respeito ao meio ambiente

Investidores estrangeiros, consumidores ao redor do mundo dos produtos brasileiros e organizações de defesa do meio ambiente vem avisando o governo do Bolsonaro que o bicho vai pegar se nada for feito em defesa da Floresta Amazônica

fogo(Foto: Getty Images – Carl de Souza)

Por Carlos Wagner

O prejuízo é incalculável. Nos últimos quarenta anos, os brasileiros gastaram muito dinheiro e tempo, enfrentando dificuldades, para provar aos consumidores dos nossos produtos ao redor do mundo que o país respeitava o meio ambiente, em especial a Floresta Amazônica. A tal ponto que as leis ambientais brasileiras estão entre as mais perfeitas da Terra. Muita gente pagou com a vida. Conheci e trabalhei no caso de uma dessas vidas perdidas nos conflitos pelo meio ambiente: Francisco Alves Mendes Filho, o Chico Mendes. Às vésperas do Natal de 1988, ele foi alvejado e morto a tiros no pátio da sua casa, um modesto chalé em Xapuri (AC), por Darci Alves, que agiu a mando do pai, o fazendeiro Darly Alves e Silva. Chico Mendes chamou a atenção do mundo para a devastação da Floresta Amazônica. Assim como o agrônomo, pesquisador e ecologista José Lutzenberger (falecido em 2002) alertou sobre o uso indiscriminado de venenos agrícolas no Brasil, em especial nas lavouras de soja do Rio Grande do Sul.

O legado de Chico Mendes e Lutzenberger lançou as bases sobre as quais foram construídas as leis ambientais do Brasil. Nas viagens que fiz pelos confins do Mato Grosso, Pará, Amazonas, Rondônia e Roraima, realizando reportagens sobre conflitos de índios, garimpeiros e madeireiros, encontrei gente de vários cantos do mundo trabalhando ombro a ombro com os brasileiros na preservação do meio ambiente. Certa vez, conheci um jovem casal de ingleses no interior do Acre, na fronteira com o Peru. Lembro-me que era uma noite muito quente e que ficamos bebendo cerveja e conversando sobre a visão deles a respeito do que estavam vivendo. Eu assisti e documentei em reportagens o nascimento do agronegócio no Brasil. Ao contrário da ideia geral de que consistem apenas de plantadores de grãos – soja e milho -, os pequenos e médios agricultores brasileiros produzem suínos, frangos, leite e muitos outros produtos. Por que? Porque eles são os principais fornecedores de uma vasta rede de agroindústrias que geram alguns milhões de empregos pelo interior do país.

Todos os mercados consumidores de produtos de origem animal e vegetal que o Brasil tem hoje ao redor do mundo foram duramente conquistados. O grande diferencial dos nossos produtos era a grife que o país tinha de respeitar o meio ambiente. Já escrevi sobre isso. Em 31 de agosto do ano passado, fiz o post “É conversa para boi dormir o decreto de Bolsonaro que proibiu queimadas por 60 dias?” Por que volto a escrever sobre isso? Em 24 de janeiro, em entrevista à Folha de S.Paulo, o presidente do Banco Itaú Unibanco, Candido Bracher, falando sobre o que tinha visto e conversado durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, disse que a imagem do país perante seus colegas é a de que “o Brasil não é um país ambientalmente correto”.

Isso é mais do que um recado. É a confirmação que segue a deterioração da imagem do Brasil que começou com o incêndio criminoso da Floresta Amazônica no ano passado. Na ocasião, grandes fundos de pensão alertaram o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido-RJ) sobre a intenção de não associar seus investimentos ao que acontecia na Amazônia. Como se noticiou, em Davos a questão ambiental foi um dos assuntos principais entre os grandes investidores do mundo. Foi uma demonstração de ignorância sobre as questões ambientais a fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que a pobreza é a responsável pela depredação do meio ambiente. De uma maneira educada, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos (1993 a 2001), Al Gore, explicou que Guedes simplificou exageradamente a sua manifestação. Ecologista, jornalista e político, Gore é autor do documentário Uma verdade inconveniente.

O governo Bolsonaro está brincando de roleta-russa com as questões ambientais do Brasil. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, não é só desinformado sobre sua pasta: é arrogante. Aqui, quero conversar com meus colegas em início de profissão. Os empresários que apoiaram a eleição de Bolsonaro sabem que o “bicho vai pegar” e vão perder mercados internacionais se não for feito nada para melhorar a imagem do Brasil em questões do meio ambiente. Tanto que o governo anunciou, em 21 de janeiro, o Conselho da Amazônia, que será dirigido pelo vice-presidente Hamilton Mourão. Li, ouvi e vi tudo que se falou sobre o assunto, inclusive entrevistas de Mourão. Tem de esperar para ver no que vai dar. Mas de uma coisa eu tenho certeza: o avanço dos madeireiros clandestinos e dos grileiros sobre a Floresta Amazônica vai continuar, porque eles se sentiram autorizados a fazer isso pelo conteúdo dos discursos e pronunciamentos do presidente. É só revisar o que Bolsonaro disse durante a campanha eleitoral e nos primeiros meses de mandato. Está tudo lá: eles levaram a sério. É simples assim.

Resultado de imagem para linha azul"

Este artigo foi originalmente publicado no blog “Histórias Mal Contadas” [Aqui! ].

 

Brasil: relator da ONU denuncia impunidade por crimes ambientais

O governo Bolsonaro nega medidas mais rígidas de controle ambiental. Tuncak alerta para criminalização de ambientalistas

brumadinhoEm 25 de janeiro de 2019,  uma represa de uma bacia de retenção de rejeitos da mina Córrego do Feijão rompeu  próximo à pequena cidade de Brumadinho. FONTE:JESO CARNEIRO

Por Ulrike Bickel para o Amerika21

Genebra. O relator especial da ONU sobre toxinas e direitos humanos, Baskut Tuncak, reclamou da impunidade por crimes ambientais no Brasil . O país está em um “caminho trágico de desmantelar as instituições de proteção ambiental”, resume Tuncak após sua missão de investigação de duas semanas em dezembro de 2019.

Ele citou como exemplos o aumento das taxas de desmatamento e incêndios na região amazônica, o atual desastre de petróleo na costa, o uso intensivo de pesticidas e substâncias tóxicas altamente perigosas na indústria de mineração. O especialista da ONU manifestou grande preocupação, pois o governo do presidente Jair Bolsonaro não se comprometeu com medidas mais rígidas de controle ambiental.

Algumas autoridades chamariam certos casos de “crimes ambientais”, mas nenhum processo ou penalidade seria iniciada. O conhecimento da impunidade está incentivando os criminosos a envenenar cada vez mais inescrupulosamente as pessoas, tomar suas terras e destruir o meio ambiente. A não acusação de crimes ambientais por parte do judiciário causa mudanças ecologicamente fatais no uso da terra em favor da expansão da agricultura industrial e da mineração intensiva em áreas.

Ao mesmo tempo, Tuncak alertou para a crescente criminalização de ambientalistas e defensores dos direitos humanos. O atual governo está rompendo os canais estabelecidos de cooperação com os atores da sociedade civil e tentando intimidá-los e silenciá-los.

Tuncak pediu ao governo um convite oficial várias vezes antes de finalmente ser concedido. Nenhum ministro o recebeu durante sua visita. O governo havia dado feedback apenas cinco dias antes do início da missão após o envio de sua agenda de viagens. No Brasil, o relator recebeu apoio adequado em nível de trabalho do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério dos Direitos Humanos, mas não estava entusiasmado com o Ministério do Meio Ambiente.

O Relator Especial também visitou as vítimas de duas barragens em Mariana e Brumadinho, no estado de Minas Gerais. No minério de ferro a céu aberto Córrego do Feijão teve em 25 de janeiro de 2019 da mineradora brasileira Vale do Rio Doce, um acidente de ruptura da barragem ocorreu . Cerca de doze milhões de metros cúbicos de lodo cheio de resíduos tóxicos se espalharam por uma área de aproximadamente 290 hectares e enterraram pessoas, casas e animais entre si. Pelo menos 270 pessoas morreram. No caso do colapso da barragem de Fundão, um dique de esclarecimento da produção de minério de ferro da empresa Samarco foi quebrado em 2015. Como resultado, uma avalanche de 60 milhões de metros cúbicos de lodo tóxico com mais de 663 quilômetros de extensão foi derramada nos rios Gualaxo do Norte, Carmo e Doce. O desastre matou 19 pessoas, afetou o abastecimento de água de 35 comunidades e cerca de 1.200 famílias perderam suas casas; as duas aldeias Bento Rodrigues e Paracatu foram completamente destruídas.

Segundo Tuncak, ele teve conversas “difíceis” com moradores e sobreviventes de ambos os desastres ambientais. O que mais o chocou foi a lenta resposta das autoridades e a dependência do governo das empresas responsáveis. Durante anos, eles se recusaram a reconhecer a situação ecologicamente contaminada. Por outro lado, os efeitos na saúde da exposição ao lodo tóxico se tornariam cada vez mais claros para a população quatro anos após o acidente em Mariana. As empresas continuaram abusando de seu poder, disse Tuncak, impedindo a publicação de informações sobre questões relativas à saúde e segurança.

O relator da ONU também problematizou o fato de que o governo Bolsonaro aprovou centenas de novos agrotóxicos.  Tuncak aponta que o Ministério da Agricultura subestimou este problema. Ele se reuniu com médicos e funcionários  que disseram que havia um problema com comunidades sendo envenenadas por agrotóxicos Mas funcionários do governo indicaram que não têm os recursos para garantir a vigilância necessária. O Brasil permite dezenas de agrotóxicos altamente perigosos que são proibidos na UE e em muitos outros países. A ação ou inação do governo Bolsonaro desencadeou uma onda catastrófica de aumento do uso de agrotóxicos tóxicos, desmatamento e mineração que  vão envenenar até as gerações futuras.

Segundo o currículo do especialista da ONU, o Brasil não cumpriu sua obrigação constitucional de proteger os direitos humanos da exposição a substâncias tóxicas e resíduos perigosos. Cortou ministérios e fundos importantes para programas ambientais e sociais, restringiu a participação dos cidadãos e falhou em aplicar as leis e decisões judiciais existentes para proteger contra toxinas.

O especialista apresentará seu relatório final ao Conselho de Direitos Humanos da ONU no segundo semestre de 2020.

___________________________________________

Este artigo foi originalmente publicado em alemão Amerika 21 [Aqui!].

Com as mudanças climáticas, chuvas anormais são o novo normal

Este slideshow necessita de JavaScript.

As chuvas que castigaram a região Sudeste nos últimos dias trouxeram novos recordes diários em termos não apenas de pluviometria, mas também para a rápida elevação de corpos aquáticos que tomaram rapidamente as áreas urbanas em dezenas de municípios.   Não custa lembrar que cientistas estudiosos das mudanças do clima já tinham previsto que essas chuvas “anormais” seriam o novo normal e que, por causa disso, haveria que se adotar uma série de ajustes na forma pelas quais as cidades estão organizadas em todo o planeta.

Nesse sentido, o Painel Brasileiro das Mudanças Climáticas publicou em 2016, um relatório abordando os impactos das mudanças climáticas sobre as cidades, e quais seriam as mudanças que precisariam ser feitas para promover um ajuste à nova situação que se firma no horizonte.  Até aqui, esse relatório foi literalmente ignorado pelas autoridades competentes que continuam tratando a gestão das nossas cidades no modus operandi do “business as usual“.

Para piorar a nossa situação, o governo Bolsonaro está repleto de figuras que negam até que estejamos passando por um ajuste drástico no funcionamento do clima da Terra.  Para um dos mais notórios deles, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, as mudanças climáticas não passariam de uma conspiração de marxistas mal intencionados que querem frear a economia mundial.

Assim, não chega a ser surpreendente que as situações críticas que se seguiram às fortes chuvas que varreram comunidades e causaram até agora um número desconhecido de mortes estejam sendo tratadas como algo sobrenatural e incontrolável. Uma prova disso foi a declaração do prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), que atribuiu às chuvas o papel equivalente de um furacão ou terremoto para, é claro, isentar sua administração de qualquer responsabilidade nas perdas humanas e materiais que ocorreram em sua cidade.

Mas Kalil não foi o único gestor a fugir das responsabilidades e de ignorar a nova realidade que as mudanças climáticas impõem sobre os que estão hoje responsáveis por governar cidades que estarão cada vez mais impactadas e, ainda, sem planos para promover a necessária adequação em uma infraestrutura urbana que não suporta o novo regime pluviométrico.

A questão objetiva é que ou nos preparamos para rever completamente os modelos de cidades que temos nas mãos ou continuaremos a sermos expectadores de novos momentos de destruição e morte.   As mudanças climáticas, queiram os negacionistas ou não, estão aí e ignorá-las só nos empurrará para mais catástrofes.

agua 18

Assim, fico curioso para ver como essa situação será tratada nas próximas eleições municipais, a começar aqui mesmo por Campos dos Goytacazes.  A minha expectativa é que, lamentavelmente, a situação dramática que se descortina sobre nossas cidades, especialmente em suas áreas mais pobres, continuará sendo literalmente ignorada pelos candidatos a ocupantes das cadeiras de prefeito. O mais provável é que a “atitude a la Alexandre Kalil” continue sendo a mais comum. 

 

 

Alemanha descarta liberação de verba para Amazônia

amaoznia fogo

Vice-presidente Hamilton Mourão deverá comandar o Conselho da Amazônia

Berlim diz que financiamentos congelados continuam suspensos após Mourão afirmar que pedirá dinheiro a países ricos para proteção florestal. Para governo alemão, os dois países ainda têm ideias distantes sobre o tema.

A Alemanha descartou a liberação da verba para a Amazônia suspensa em agosto. A negativa do governo em Berlim foi divulgada neste sábado (25/01) pela agência de notícias alemã DPA, depois de o vice-presidente Hamilton Mourão admitir aceitar dinheiro de países ricos para a preservação da região.

Um porta-voz da ministra alemã do Meio Ambiente, Svenja Schulze, reiterou que os repasses suspensos ano passado continuam congelados e que, para haver uma retomada, é necessário “que desenvolvamos uma percepção comum sobre o que é necessário nas áreas de proteção climática e de biodiversidade”. Mas, de acordo com a ministra, “estamos ainda muito longe disso”.

Em razão do aumento dos índices de desmatamento da Amazônia, Schulze anunciou em agosto o congelamento de investimentos de 35 milhões de euros (cerca de 155 milhões de reais), que seriam destinados a diferentes projetos de proteção ambiental no Brasil.

“A política do governo brasileiro na Região Amazônica deixa dúvidas se ainda se persegue uma redução consequente das taxas de desmatamento”, declarou a ministra, em entrevista publicada em 10 de agosto pelo jornal alemão Der Tagesspiegel. No dia seguinte, o presidente Jair Bolsonaro desdenhou do dinheiro, afirmando que “o Brasil não precisa disso”.

Naquele mesmo mês, o governo brasileiro rejeitou oferta de 20 milhões de dólares dos países do G7 (Estados Unidos, França, Reino Unido, Alemanha, Japão, Itália e Canadá) para auxílio no combate às queimadas na Amazônia.

“Rejeitou, mas depois eu vou lá com cara de pau e peço”, admitiu Hamilton Mourão em entrevista à emissora Globonews nesta quinta-feira.

Mourão deve chefiar o Conselho da Amazônia, cuja criação foi anunciada nesta semana por Bolsonaro. O grêmio deverá coordenar ações de diversos ministérios para “proteção, defesa e desenvolvimento sustentável da Amazônia”.

O Ministério do Meio Ambiente da Alemanha ressaltou que o financiamento suspenso pela pasta não tem relação alguma com o novo conselho criado pelo governo brasileiro.

MD/dpa/ots

_____________________________

Este material foi inicialmente publicado pela Deutsche Welle [Aqui!].

A destruição da ciência e educação superior no Brasil

Contratações suspensas, dinheiro minguando, desrespeito às instâncias democráticas, portarias restritivas absurdas, ofensas públicas permanentes e perseguição ideológica. O que falta?

destruição

Por Luis Felipe Miguel

Qual é a melhor maneira de resistir à destruição da ciência e da educação superior no Brasil?

Não sei a resposta. Mas creio que não é prosseguir no piloto automático, fazendo tudo o que sempre fazíamos como se nada estivesse acontecendo.

Preenchendo o Lattes, pontuando as publicações com Qualis, preparando o relatório Capes…

Já era mesmo necessário repensar essas métricas, discutir para que tipo de produção científica elas nos empurravam. Mas, no imediato, fazia sentido seguí-las, já que elas definiam nossas possibilidades de financiamento.

E agora? Vamos continuar no mesmo passo, mas para quê? Para disputar as migalhas que sobram?

E serão premiados aqueles que mais conseguirem fingir que está tudo bem…

Pensemos nos eventos científicos. As agências governamentais estão retirando todo o apoio que era dado a eles.

Será que vale a pena tentar mantê-los no padrão de sempre – medalhão estrangeiro na conferência de abertura, sacolinha ecológica com livro de resumo e canetinha, coffee break com pão de queijo para que a fome não acirre os ânimos e faça as discussões desandarem?

Sem apoio, o “padrão de sempre” significa taxas de inscrição batendo nos mil reais.

O financiamento não vem pelo outro lado, já que os programas de pós-graduação também estão com suas verbas estranguladas. De qualquer jeito, mesmo que eles financiassem as participações, a taxa de inscrição estratosférica significaria mais uma vantagem para os programas consolidados e portanto melhor financiados, em geral no Sudeste do país, em detrimento das periferias.

E agora, aliás, nem isso: a inacreditável portaria do ministro da Educassão proíbe a participação de múltiplos docentes da mesma instituição num mesmo evento.

Ingênuo, pensei no começo que era uma demonstração de ignorância sobre o sentido de um evento científico – que não é para discutir com os pares, mas para fazer representação institucional. Ou, no máximo, uma feira de ciências.

Claro que não é isso. É que no projeto de país de Guedes e Bolsonaro a pesquisa é inútil (pois nosso papel no mundo é subordinado mesmo), quando não perigosa.

Não seria melhor adaptar os eventos à nova realidade – abraçar a precariedade, em vez de escamoteá-la, e usá-la como estímulo para nosso debate e nossa resistência?

Ou mesmo cancelar, como manifestação de protesto, aquilo que não tem como ser mantido?

Com as revistas científicas, o movimento de acomodação é pior ainda. Com o corte profundo no financiamento, que aliás sempre foi insuficiente, começa um movimento para cobrar dos autores pela publicação.

Alguns periódicos já estão implantando a medida. Outro dia recebi um pedido de parecer. Fui olhar as regras de submissão, como sempre faço antes de emitir um parecer, e estava lá: caso o artigo seja aprovado, há taxa de mil reais para a publicação.

Sei de outros periódicos que estão discutindo a cobrança.

Quem vai publicar, então? O pesquisador vinculado a um programa forte, que ainda tenha recursos para bancar a taxa de publicação, reforçando as disparidades regionais. O pesquisador sênior que ainda consiga alavancar um dos poucos financiamentos de pesquisa disponíveis. E, claro, um ou outro filhinho de papai, que pague do próprio bolso.

Essa é a ciência que nos queremos?

Seria melhor aproveitar para mandar as exigências do Qualis e do Scielo praquele lugar e buscar formas alternativas de publicização das pesquisas.

Contratações suspensas, dinheiro minguando, desrespeito às instâncias democráticas, portarias restritivas absurdas, ofensas públicas permanentes e perseguição ideológica. O que falta, neste pacote, para que se assuma de vez que não, não está tudo bem?

* Luis Felipe Miguel é  professor do Instituto de Ciência Política da UnB, coordenador do Demodê – Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades.

______________________________________

Este texto foi retirado da página oficial do professor Luis Felipe Miguel na rede social Facebook [Aqui!].