Degradação florestal na Amazônia está saindo das sombras para assombrar o latifúndio agro-exportador

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Ondas de fumaça da floresta amazônica. Foto: Dado Galdieri / AP

Em menos de uma semana um veículo de mídia, agora o site UOL, resolveu jogar luz sobre o avanço e impacto das diferentes formas de degradação da floresta amazônico, mostrando ainda uma progressão exponencial deste processo em relação ao desmatamento apenas no último mês de janeiro.

A verdade é que a “grande mentira verde” como caracterizou a matéria publicada pela BBC News Brasil sobre a ênfase no desmatamento como elemento de empobrecimento da biodiversidade e dos serviços ambientais associados aos biomas amazônicas tem sido algo conveniente para governos de diferentes matizes desde que o governo militar resolveu incorporar a Amazônia ao circuito dependente em que a economia brasileira está historicamente inserida.

Por isso, tem sido dada ênfase aos 20% da Amazônia brasileira que foram desmatados. É que, por contraponto, haveriam ainda 80% preservados, o que serviria com uma espécie de calmante de consciências de corporações e dos governos que sempre facilitam o saque da biodiversidade que esse bioma contém.  Assim, enquanto o saque seguia em frente, todos podiam oferecer a falsa ideia de que a maioria da floresta amazônica seguia intacta.

degradation 2Exemplos de processos de degradação  e mudanças ocorridas ao longo do tempo na cobertura florestal.

Agora, é importante enfatizar a discrepância notada pelos pesquisadores do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) para os dois fenômenos (i.e., desmatamento e degradação) que estão atuando para criar fortes distúrbios na paisagem amazônica. Segundo dados levantados pelo Imazon, em janeiro de 2020, enquanto o desmatamento cresceu “meros” 74%, a degradação cresceu vertiginosos 1382%.  

Mas mais importante do que o número estratosférico é saber os fatores causais deste crescimento. Em 2010, participei da publicação de um artigo na respeitada “Remote Sensing” onde eu e meus colegas apresentamos os dados relativos aos impactos causados por exploração de madeira e queimadas no estado do Mato Grosso. Ali ficou demonstrado que, ao contrário do que dizia a maior parte da literatura científica, o processo de degradação florestal não apenas é significativo, como nem sempre é captado por métodos automáticos, como é o caso da maioria dos estudos.

Dez anos depois da publicação daquele estudo, e em meio à vigência de um completo estado de “laissez faire” aplicado pelo governo Bolsonaro nas distintas formas de exploração de recursos florestais e não florestais na Amazônia, não deveria surpreender a ninguém que o montante de floresta degradada supere ao que já foi desmatado.

O principal problema disso é que os representantes do governo Bolsonaro, a começar pelo ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, passem a ter ainda maior dificuldade para justificar o processo de desmanche da governança ambiental brasileiro e o desmantelamento das nossas estruturas de comando e controle que, precariamente, mantinham em níveis “toleráveis” os dois processos (desmatamento e degradação florestal) que agora surgem com números cada vez mais impressionantes.

A consequência do aumento da consciência de que os biomas amazônicas estão mais fragilizados do que se fazia pensar até a pouco vai certamente aumentar a pressão por embargos contra as commodities brasileiras saídas de áreas desmatadas ou degradadas sob os olhares cúmplices do presidente Bolsonaro e seu governo de céticos das mudanças climáticas.

Em tempo: apesar dos estudos sobre degradação florestal existirem em menor quantidade do que aqueles que medem desmatamento puro e simples, isso não quer dizer que neste momento não existam diferentes grupos de pesquisadores (dentro e fora do Brasil) medindo esses dois fenômenos de forma separada para toda a Amazônia brasileira.  Assim, cedo ou tarde (e talvez mais cedo do que tarde) comecemos a ter acesso a artigos científicos mostrando os números. Quando isso acontecer, o certo é que a chama por debaixo da frigideira onde dançam os latifundiários agro-exportadores que vendem soja e carne produzidas na Amazônia vai aumentar, e muito. A ver!

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