Vídeo do “Robotox” explica em detalhes os 239 agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro

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Lançado em Dezembro de 2018 em associação pelas organizações jornalísticas Agência Pública e Repórter Brasil, o site “Por detrás do alimento” vem fornecendo informações valiosas sobre o processo de incorporação de agrotóxicos na produção agrícola brasileira. Além disso, essa iniciativa lançou uma ferramenta, o “Robotox“, que fornece informações praticamente automáticas sobre as aprovações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, fornecendo ainda detalhes importantes sobre esses compostos e seus potenciais impactos sobre o ambiente e a saúde humana.

Abaixo um vídeo produzido pelos editores do “Por detrás do alimento” e veiculado na página do “Robotox” na rede social Twitter. O vídeo é bastante didático, não apenas em relação aos produtos aprovados, mas também no tocante à desmistificar o discurso do governo Bolsonaro que agora é de buscar um suposto barateamento do custo dos agrotóxicos, e não mais de introduzir agrotóxicos que sejam mais modernos e menos tóxicos do que os que estavam disponíveis no mercado antes do início do governo Bolsonaro.

A divulgação deste vídeo é essencial para que um número maior de pessoas possa ter acesso a informações diretas e explicadas de forma compreensível para que o processo de pressão social possa aumentar. 

O fato é que no atual ritmo a população do Brasil e as de outros países que consomem alimentos produzidos a partir do uso de substâncias que sabidamente afetam o meio ambiente e os seres humanos de forma altamente negativa.

Pó branco, faces vermelhas: O “The New York Times” ironiza o caso do “aerococa” que embaraça mundialmente o governo Bolsonaro

O “The New York Times”, um dos mais importantes jornais do mundo, publicou ontem (26/06) um devastador artigo sobre o embaraçoso caso do sargento da Força Aérea Brasileira que foi preso na Espanha com 39 Kg de cocaina a bordo de um dos aviões que compõe a comitiva brasileira que está participando do encontro do G-20 no Japão. 

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Sob o título de “White Powder, Red Faces”, o jornalista Ernesto Londoño aborda a grave contradição que o caso cria para o presidente Jair Bolsonaro que chegou ao poder prometendo uma perseguição sem tréguas ao narcotráfico, apenas para terminar tendo que explicar com um avião presidencial pode cruzar o oceano Atlântico carregando 36 Kg de cocaina durante uma viagem oficial.

O “The New York Times” ressalta ainda que o caso representa ainda um embaraço para Jair Bolsonaro e sua defesa da superioridade moral das forças armadas.  A coisa pioraria ainda mais se o jornalista que escreveu a matéria soubesse que o Sgt. Manoel Silva Rodrigues já foi identificado por varreduras nas redes sociais como sendo um eleitor do presidente brasileiro (ver imagem abaixo).  

A verdade é que a presença de Jair Bolsonaro no encontro do G-20 já tinha tudo para ser tenso antes desse imbróglio vergonhoso.  Agora, além da grande chance que ele termine escanteado das principais reuniões, ainda é provável que parte do tempo dele e dos demais representantes brasileiros ainda seja tomado pelo oferecimento de explicações para um caso que, convenhamos, não há o que se explicar.

Apreensão de 39 Kg de cocaína em Sevilha amplifica imagem de pária internacional do Brasil

Image result for cocaina sevilha bolsonaroFlagrante de cocaína em avião presidencial piora substancialmente situação da imagem do Brasil no exterior.

A apreensão de 39 Kg de cocaína que estavam sendo transportados por um militar brasileiro que compunha a comitiva do presidente Jair Bolsonaro que participará da reunião do G-20 no Japão pode até ser minimizada pelos representantes do governo brasileiro e apresentada como um caso isolado, como já fez o ministro da (in) Justiça Sérgio Moro.

Mas não há como negar que a apreensão dessa quantidade particularmente alta para um transportador individual (também conhecida como mula do tráfico), que participou de voos internacionais onde participaram pelo menos 3 presidentes, implica um golpe devastador na imagem internacional do Brasil, que já vem caindo pelas tabelas desde o golpe parlamentar que tirou do poder a presidente Dilma Rousseff.

As matérias que estão sendo veiculadas nos principais veículos da mídia internacional estão dando uma ênfase ao fato de que esta apreensão demonstra que um militar ligada diretamente à comitiva do presidente brasileiro está envolvido no tráfico internacional de drogas.  Esse é um vexame de tamanhos incalculáveis e vem em um momento particularmente sensível para os interesses comerciais brasileiros, incluindo a tão esperada assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. 

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E não há nenhuma dúvida que o Brasil neste momento acaba de ser empurrado de vez para uma posição de pária internacional, pois depois da explosão de desmatamento e regressões em relação a direitos sociais, agora temos essa situação constrangedora em Sevilha. Consertar isso não seria tarefa fácil se os melhores diplomatas estivessem a cargo do Ministério das Relações Exteriores. Entretanto, com o cético das mudanças climáticas globais Ernesto Araújo dirigindo o ministro que foi o de Rio Branco, a coisa periga se prolongar e causar danos gravíssimos ao interesses nacionais brasileiros.

Por último, é forçoso dizer que esse caso serve para desmanchar de vez a noção de que a forma mais eficiente de combater o tráfico internacional de drogas é militarizar as favelas e a autorizar a eliminação física dos potenciais traficantes que ali estão.  Essa visão serve apenas para ocultar a verdade indiscreta de que tráfico relevante ocorre em segmentos mais abastados e, como neste caso, teoricamente responsáveis para combatê-lo.

Angela Merkel classifica situação no Brasil sob o governo Bolsonaro como “dramática”

merkelAngela Merkel afirmou no Parlamento Alemão que a situação do Brasil sob o governo Bolsonaro é “dramática”.  

A chanceler alemã Angela Merkel fez pronunciamento no parlamento alemão onde apresentou suas razões para apoiar a aprovação do acordo comercial de livre comércio entre a União Europeia (EU) e o Mercosul, a despeito da graves violações aos direitos humanos e ao avanço explosivo no desmatamento na Amazônia (ver vídeo abaixo).

Merkel afirmou ainda que vai trabalhar com todas as suas forças para que o está acontecendo no Brasil neste momento não siga acontecendo, especialmente na questão do desmatamento da Amazônia. Nesse sentido, Merkel afirmou que “vejo com preocupação as ações do presidente brasileiro [sobre o desmatamento], e se a oportunidade surgir no G20 pretendo ter uma conversa clara com ele.” 

O problema para Merkel é que dificilmente ela será ouvida por Bolsonaro cujo compromisso político primeiro e único é com as forças políticas que o elegeram, incluindo aí as forças que hoje saqueiam e desmatam ilegalmente amplas porções da floresta amazônica.

Mas não deixa de ser impressionante que um líder da direita europeia classifique a situação do Brasil como dramática sob o governo Bolsonaro.  O fato que a nossa situação econômica, política e social é definitivamente dramática, com tendências a piorar.  Entretanto, é preciso aparecer uma líder da direita europeia para que finalmente alguém diga a coisa como a coisa é. Dramático!

Acordo comercial entre União Europeia e Mercosul: benção ou perdição?

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Em seu blog no site UOL, o jornalista Jamil Chade nos dá conta de que um acordo iminente entre a União Europeia (EU) e o Mercosul. Esse acordo certamente será apresentado como uma grande vitória do governo Bolsonaro, ainda que as tratativas estejam sendo encaminhadas há mais de duas décadas. 

Como em tantos outros casos, o demônio aqui mora nos detalhes.  É que em contrapartida para uma abertura do setor industrial do agronegócio (leia-se latifúndio agro-exportador), os brasileiros aparentemente esperam que o bloco europeu abra suas fronteiras para produtos derivados do leite, açúcar e carne.  Esse desejo de trocas tão desiguais revela a verdade que querem esconder: o Mercosul sairá perdendo desse acordo, na medida em que está sobre a mesa elementos cujo peso econômico é definitivamente desigual. Equivale a algo como entregar grãos de sal para receber quilos de ouro (isto se você for a União Europeia).

Há ainda que se ressaltar o fato que para que o Mercosul possa ser atendido em seu desejo de ampliar exportações para a EU duas coisas teriam que ocorrer: a primeira seria o necessário relaxamento de barreiras sanitárias que impedem, por exemplo, a chegada de carne bovina de animais vacinados contra a febre aftosa, e 2) a resistência dos agricultores europeus à entrada da concorrência certamente mais barata de produtos vindos da América do Sul.

vacina-febre-aftosa-1024x685Vacinação contra febre aftosa, uma necessidade em boa parte do Brasil, tem sido usada para impedir exportação de carne para a EU. Como ficará se o acordo for assinado?

Noto ainda desdobramentos interessantes no tocante a vários dinâmicas em curso no Brasil. A primeira tem a ver com a produção de soja que tem na EU um dos principais compradores. Se as vendas de carne bovina aumentarem, isto certamente impactará a quantidade de soja importada, pois com mais carne no mercado virá a diminuição dos rebanhos europeus.  Entretanto, com maiores vendas de carne na EU, fica a dúvida de qual será o impacto final na área a ser desmatada na Amazônia brasileira que tem exatamente na soja e na pecuária dois dos grandes “drivers”  de desmatamento.

pesticideA EU tem uma política mais restritiva no uso de agrotóxicos. Vai aceitar ampliar compras de alimentos que extrapolam seus próprios limites de resíduos?

Fico ainda em dúvida em relação ao que os representantes da EU vão dizer aos representantes do Mercosul acerca da quantidade tolerável de resíduos de agrotóxicos nos produtos que se quer vender para a Europa. A verdade é que hoje o Brasil permite quantidades substancialmente mais altas de resíduos de agrotóxicos nos alimentos que exporta em relação ao que é tolerado na EU. Adicione-se a isso, o fato de que o Brasil e a Argentina estão hoje utilizando um número significativo de agrotóxicos que foram banidos na EU.  O que dirão os representantes da EU e, principalmente, os potenciais consumidores de uma produção que traz dentro de si quantidades significativas altas de diversos agrotóxicos? Os europeus vão, por exemplo, consumir queijo, carne e a açúcar contaminados por agrotóxicos que eles mesmo baniram ou preferir comprar produtos próprios que são produzidos com uma legislação mais restritiva no tocante à contaminação por esses agentes químicos?

Antes que se festeje esse acordo, há que se ir além do que os governos e grandes corporações querem que enxerguemos.  É que como em muitas outras questões, o que mais interessa a esses agentes é o aumento do lucro e da concentração da riqueza. Se para isso tiverem que desmatar e envenenar mais, que seja.   Por isso, aqueles que desejam formas social, econômica e ambientalmente sustentáveis de funcionamento da economia vão ter que ficar atentos aos termos desse acordo comercial que está me parecendo mais um termo de rendição.

 

A marcha do veneno continua: com mais 42 aprovações, o total de agrotóxicos liberados por Bolsonaro chega a 239

pesticideCom mais 42 agrotóxicos aprovados, governo Bolsonaro liberou o número recorde de 239 produtos apenas na primeira metade de 2019.

A despeito das condenações e do boicote convocado pelo fundador e CEO da rede sueca de supermercados Paradiset, Johannes Cullberg, o governo Bolsonaro continua disposto a transformar o Brasil numa imensa piscina tóxica.  É que o Diário Oficial da União desta segunda-feira (24/06) traz a publicação do Ato No. 42 de 19 de Junho de 2019 em que são aprovados mais 42 agrotóxicos para comercialização no Brasil.

Já comecei a tabulação dessa nova leva de agrotóxicos e em breve publicarei a lista completa e especificações dos compostos que acabam de ser liberados pelo governo Bolsonaro. Entretanto, com as primeiras tabulações já pude identificar a persistência da China como principal fornecedor de agrotóxicos para a agricultura brasileira. Além disso, já verifiquei que dentre os compostos aprovados há uma série de produtos ativos para os quais já existe uma ampla literatura mostrando seus efeitos deletérios para a saúde humana e para o meio ambiente.

O que minhas primeiras avaliações dessa nova leva de agrotóxicos aprovados pelo governo Bolsonaro, sob a batura célere da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/ES), indicam é que todo o discurso em torno da substituição de produtos antiquados por outros mais modernos e menos tóxicos não passa mesmo de um discurso para inglês ver (ou para a União Europeia ver). Na prática, continuam a ser aprovados compostos químicos que já estão ou estão sendo banidos em outras partes do mundo, muitas vezes após pressões da sociedade civil organizada.

Diante dessas novas aprovações e da propensão do latifundio agro-exportador de utilizá-los em larga escala nos grandes monocultivos de exportação não seria nenhuma surpresa se os próximos estudos sobre impactos sobre seres humanos e o meio ambiente mostrarem resultados ainda mais críticos.

 

 

 

Der Spiegel expõe Moro e a Lava Jato com matéria contundente: “o juiz e seu presidente”

A “Der Spiegel“, principal revista da Alemanha, publicou neste domingo um artigo em que aborda de forma contundente o escândalo iniciado por matérias publicadas pelo site “The Intercept” acerca das relações que a publicação  alemã classifica como sendo de “alegre compadrio”.

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Mas a “Der Spiegel” vai além ao colocar já na manchete da matéria “O juiz e seu presidente”, as relações igualmente complicadas entre Sérgio Moro e o presidente Jair Bolsonaro, já que o julgamento e prisão em ritmo acelerado do ex-presidente Lula teria atendido segundo ao autor da matéria, o jornalista Jens Glüsing, a interesses específicos para os dois personagens citados.

Nesse sentido, a “Der Spiegel” aponta que Bolsonaro deve a Moro indiretamente a presidência, porque, contra Lula, o candidato de direita teria poucas chances de vencer, mostrou a pesquisa. Nesse sentido, a “Der Spiegel”  coloca em dúvida a indicação de Sérgio Moro a ministro da Justiça: “ela deveria ser entendida como um agradecimento por  Moro ter tirado Lula do caminho ou era possivelmente um preço que Bolsonaro havia negociado com Moro muito antes das eleições?

Em relação à dimensa política das ações de Sérgio Moro, a “Der Spiegel” é direta e dura: Sérgio Moro causou sérios danos à democracia brasileira e ao seu sistema legal, pois enquanto juiz de primeira instância criou fatos com seus truques, e esses truques  mudaram dramaticamente a história do Brasil.   Em função disso, a publicação alemã aponta que, pelo menos legalmente, o escândalo deveria ter consequências: o julgamento de Lula teria que ser cancelado e reaberto.

Essa matéria da “Der Spiegel” , em combinação com a série de entrevistas que o jornal “Folha de São Paulo” começou a publicar neste domingo, jogam por terra os esforços de conter via processo de criminalização o impacto das revelações trazidas pelas matérias iniciadas do “The Intercept”. O fato é que o gato foi tirado do saco e está ficando impossível colocá-lo para dentro. 

 

 

Folha de São Paulo autentica material do “The Intercept” com série de reportagens

moro-bolso-continenciaFolha de São Paulo autentica material do ‘The Intercept” e inicia série de reportagens que poderá abalar de vez Sérgio Moro e levar de arrastão o governo do presidente Jair Bolsonaro.

A Folha de São Paulo inicia neste domingo a publicação de uma série de reportagens baseadas no material originalmente divulgado pelo site “The Intercept”. Esse não é um movimento qualquer, pois quebra a espinha dorsal dos argumentos usados até aqui pelo ex-juiz federal Sérgio Moro e pelos procuradores da Lava Jato de que o material teria sido adulterado. É que a Folha de São Paulo informa que verificou e confirmou a integridade do material (que inclui vídeos e áudios) antes de iniciar sua própria série de reportagens.

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Li a primeira reportagem da série e notei que a mesma não traz revelações que se possam ser chamadas de bombásticas. Para mim o principal elemento da primeira reportagem obedece a um objetivo mais estratégico que é o de assentar o caminho para o resto da série, na medida em que estabelece a legitimidade do material.

A continuidade da série é que deverá trazer aqueles elementos que demonstrem com mais clareza (como se fosse preciso a estas alturas do campeonato) as ações realizadas pelo atual ministro (ou seria ainda?) da (in) Justiça do governo Bolsonaro e seus aliados na equipe da “Lava Jato”.

O estrago político que a parceria entre a Folha de São Paulo e o “the Intercept” deverá ser enorme, na medida em que o veículo paulistano possui braços de disseminação de conteúdo que tornarão impossível a negação dos conteúdos e, pior, tornará o conhecimento sobre os mesmos de fácil acesso até para segmentos da população que até agora estavam imunes ao escândalo da #VazaJato.

O que tudo isso implicará para Sérgio Moro e Deltan Dallagnol (chefe da equipe de procuradores federais sediados em Curitiba) ainda não se sabe. Mas uma coisa é certa: o futuro político e profissional deles amanheceu mais problemático neste domingo. E junto com o deles, o do governo Bolsonaro que trouxe para dentro de si uma espécie de Cavalo de Troia na figura de um ministro da (in) Justiça que deveria ser um dos garantidores do “noveau régime“, e que agora mostra-se uma perigosa fonte de instabilidade. E, pior, em um momento politicamente chave que é o da aprovação da reforma da previdência.

Monocultura da soja desmata e polui no Brasil para baratear consumo de carnes e laticínios na União Europeia

soja-6Avanço da monocultura da soja resultam em desmatamento explosivo e aumento exponencial do uso de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo.

No última 3ª. feira (18/06) postei um artigo sobre a dependência da União Europeia em relação à soja brasileira, dando ênfase a um relatório produzido pela seção francesa da organização não-governamental Greenpeace sob o título de “Apaixonada por carne, Europa alimenta a crise climática por sua dependência da soja“.

Passados alguns dias resolvi dar um mergulho nas informações que constam desse relatório, e compartilho a seguir alguns dos elementos que considero principais para um entendimento mais sólido dos altos custos ambientais, econômicos e sociais da hegemonia da monocultura da soja no Brasil, bem como dos usos preferenciais da produção brasileira na União Europeia que desmentem a falácia de que o Brasil é uma espécie de celeiro agrícola do planeta.  É que, quando muito, o Brasil se transformou numa espécie de garantidor do barateamento da produção animal europeia e, por extensão, da chinesa.

Um primeiro dado interessante é a evolução da produção mundial da soja entre 1997 e 2017 que mostra a evolução do Brasil e a aparente estagnação da produção vinda de seus principais concorrentes, que são os EUA e a Argentina. Enquanto isso, o resto do mundo continua com  produção relativamente estável, até porque com a expansão da produção brasileira restou pouco espaço para competição.

pProdução mundial de soja 1997-2017: foco nos três produtores principais.

Um segundo aspecto é a evolução espacial dos monocultivos da soja, a qual está intrinsecamente ligado no Brasil ao avanço do desmatamento na Amazônia e no Cerrado, como bem mostra o mapa abaixo. Aqui é o elemento de interpretação é simples: a expansão da soja é um vetor fundamental no aumento do desmatamento no Brasil, o que desmente a falácia de que não havia plantios de soja em áreas de desmatamento novo. Essa tese já havia sido refutada em um artigo da qual sou co-autor e que foi publicado pela revista Acta Amazônica, mas o mapa feito corrobora o que havíamos indicado a partir do caso do estado de Rondônia.

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Mapa com áreas com monoculturas de soja e o acompanhamento do processo desmatamento (áreas em vermelho).

Um aspecto particularmente interessante é o papel que a soja cumpre na alimentação dos rebanhos animais que estão estabelecidos na União Europeia (EU),  com um amplo uso em diferentes tipos de rebanhos, ainda que a dependência maior seja na alimentação de galinhas e porcos (74% do total).

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Discriminação das necessidades da soja na EU de acordo com diferentes tipos de produção animal.

Entretanto, um dos resultados que mais me chamou a atenção foi o destino final da soja importada pela EU, pois, ao contrário do que difundem os latifundiários agroexportadores que vendem a ideia falaciosa de que o Brasil alimenta o mundo, quase 90% da soja importada pela EU é usada para alimentação animal.

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Uso final da soja na UE: A principal finalidade é servir como comida animal.

Por outro lado, as atuais negociações entre o MERCOSUL e  a EU que parecem ir ao largo das graves transgressões nos direitos sociais e dos esforços para desmontar as estruturas de governança ambiental que estão sendo empreendidos pelo governo Bolsonaro ficam mais fáceis de entender quando se verifica que o Brasil fornece 37% da soja consumida pelos países europeus.

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Em conjunto o que o conjunto desses dados mostra é que a hegemonia da monocultura da soja na produção brasileira acaba servindo, como bem alerta o aludido relatório do Greenpeace, para baratear o consumo de carnes e produtos lactéos na União Europeia, enquanto que para o Brasil (e para a Argentina) sobram os altos custos sociais, altos níveis de consumo hídrico, e uma pesada herança associada ao uso intensivo e indiscriminado de agrotóxicos que estão banidos na própria EU. 

E sem falar que os alimentos que efetivamente consumimos no Brasil acabam sendo direta ou indiretamente contaminados pelos agrotóxicos que são abundantemente despejados nos grandios plantios de soja. 

Brasileiros estão comendo alimentos contaminados por agrotóxicos em um voo cego

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Uso intensivo, e muitas vezes abusivo, de agrotóxicos contamina principais alimentos consumidos pelos brasileiros.

Em meio à enxurrada de aprovações de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, os brasileiros estão totalmente desinformados sobre o montante de resíduos que estão sendo consumidos a partir da ingestão de alimentos produzidos no território nacional. É que desde 2016 está suspensa a divulgação de resultados do chamado “Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos” (PARA) que era feita regularmente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Em seu último relatório, o PARA nos ofereceu dados assombrosos sobre a contaminação de alimentos que os brasileiros colocam diariamente em suas mesas, incluindo alface, pimentão, repolho, tomate, cebola, mamão e morango, apenas para citar os que apresentaram índices mais significativos de contaminação, e também pela multiplicidade de resíduos de diferentes tipos de agrotóxicos.

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Dentre as razões citadas no relatório do PARA que deveriam estar gerando grande alarme nos consumidores brasileiros estão a presença de agrotóxicos que já foram diagnosticados como causadores como doenças graves, o uso incorreto de produtos em relação ao que foi aprovado pelos órgãos reguladores, e ainda a aplicação de dosagens que extrapolam os limites de risco. Quando colocados juntos, todos esses fatores explicam a presença de vários agrotóxicos em uma mesmo alimento e com limites excedendo o estabelecido na legislação.

O fato é que o povo brasileiro está ingerindo alimentos contaminados por resíduos de agrotóxicos de uma forma que equivale a voar em um avião desprovido de aparelhos de navegação. E, pior, por causa da suspensão do PARA, sequer sabemos qual é o nível de contaminação dos itens que são consumidos de forma mais rotineira. Ou seja, estamos nos alimentando como se estivéssemos em um voo cego.  Desta forma, toda a cantilena que os pais usam para convencer seus filhos a consumirem salada pode não ser apenas propaganda enganosa, mas também uma fonte de envenenamento crônico para nossas crianças.

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O interessante é que neste momento, a União Europeia está negociando um amplo comercial com o Mercosul, do qual o Brasil é o principal membro em termos de exportação de alimentos para os países europeus.  O curioso é que na Europa, não apenas os níveis aceitáveis de resíduos de agrotóxicos são muito mais rígidos no que se refere ao que pode ser aplicado pelos agricultores europeus, mas também no que pode ser detetado nos alimentos.  

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Até agora a União Europeia passou ao largo do problema da contaminação da produção brasileira por agrotóxicos ao não permitir a alimentação direta a humanos, permitindo apenas o uso como ração. Mas com o aumento acelerado da aprovação de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro, muitos deles já banidos na União Europeia, fica a dúvida de até quando essa permissão continuará.

Para complicar a situação ainda há a campanha de boicote iniciada pela rede sueca Paradiset contra alimentos produzidos no Brasil por causa da aprovação desenfreada de agrotóxicos pelo governo Bolsonaro (197 apenas nos primeiros 5 meses de 2019) parece estar se disseminando para fora da Suécia, apesar dos apelos em contrário da embaixada brasileira em Estocolmo. Se mais redes de outros países europeus aderirem ao boicote, é bem possível que haja mais pressão por mais transparência sobre o nível de contaminação dos alimentos que os próprios brasileiros estão ingerindo todos os dias.

Johannes CullbergJohannes Cullberg, fundador e CEO da rede sueca de supermercados Paradiset é o principal incentivador do boicote a alimentos produzidos no Brasil por causa da contaminação com agrotóxicos.

Mas o fato é que o problema da contaminação de alimentos por agrotóxicos não pode ser mais ignorado, pois efetivamente já se tornou um grave problema de saúde coletiva no Brasil.  A primeira demanda que devemos fazer neste momento é pela retomada da divulgação dos relatórios do PARA, pois é um direito de todos os brasileiros quais alimentos estão contaminados e por quais tipos de agrotóxicos. Ignorar o problema da contaminação dos nossos alimentos não é uma opção aceitável. Simples assim!