Acordo comercial entre União Europeia e Mercosul: benção ou perdição?

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Em seu blog no site UOL, o jornalista Jamil Chade nos dá conta de que um acordo iminente entre a União Europeia (EU) e o Mercosul. Esse acordo certamente será apresentado como uma grande vitória do governo Bolsonaro, ainda que as tratativas estejam sendo encaminhadas há mais de duas décadas. 

Como em tantos outros casos, o demônio aqui mora nos detalhes.  É que em contrapartida para uma abertura do setor industrial do agronegócio (leia-se latifúndio agro-exportador), os brasileiros aparentemente esperam que o bloco europeu abra suas fronteiras para produtos derivados do leite, açúcar e carne.  Esse desejo de trocas tão desiguais revela a verdade que querem esconder: o Mercosul sairá perdendo desse acordo, na medida em que está sobre a mesa elementos cujo peso econômico é definitivamente desigual. Equivale a algo como entregar grãos de sal para receber quilos de ouro (isto se você for a União Europeia).

Há ainda que se ressaltar o fato que para que o Mercosul possa ser atendido em seu desejo de ampliar exportações para a EU duas coisas teriam que ocorrer: a primeira seria o necessário relaxamento de barreiras sanitárias que impedem, por exemplo, a chegada de carne bovina de animais vacinados contra a febre aftosa, e 2) a resistência dos agricultores europeus à entrada da concorrência certamente mais barata de produtos vindos da América do Sul.

vacina-febre-aftosa-1024x685Vacinação contra febre aftosa, uma necessidade em boa parte do Brasil, tem sido usada para impedir exportação de carne para a EU. Como ficará se o acordo for assinado?

Noto ainda desdobramentos interessantes no tocante a vários dinâmicas em curso no Brasil. A primeira tem a ver com a produção de soja que tem na EU um dos principais compradores. Se as vendas de carne bovina aumentarem, isto certamente impactará a quantidade de soja importada, pois com mais carne no mercado virá a diminuição dos rebanhos europeus.  Entretanto, com maiores vendas de carne na EU, fica a dúvida de qual será o impacto final na área a ser desmatada na Amazônia brasileira que tem exatamente na soja e na pecuária dois dos grandes “drivers”  de desmatamento.

pesticideA EU tem uma política mais restritiva no uso de agrotóxicos. Vai aceitar ampliar compras de alimentos que extrapolam seus próprios limites de resíduos?

Fico ainda em dúvida em relação ao que os representantes da EU vão dizer aos representantes do Mercosul acerca da quantidade tolerável de resíduos de agrotóxicos nos produtos que se quer vender para a Europa. A verdade é que hoje o Brasil permite quantidades substancialmente mais altas de resíduos de agrotóxicos nos alimentos que exporta em relação ao que é tolerado na EU. Adicione-se a isso, o fato de que o Brasil e a Argentina estão hoje utilizando um número significativo de agrotóxicos que foram banidos na EU.  O que dirão os representantes da EU e, principalmente, os potenciais consumidores de uma produção que traz dentro de si quantidades significativas altas de diversos agrotóxicos? Os europeus vão, por exemplo, consumir queijo, carne e a açúcar contaminados por agrotóxicos que eles mesmo baniram ou preferir comprar produtos próprios que são produzidos com uma legislação mais restritiva no tocante à contaminação por esses agentes químicos?

Antes que se festeje esse acordo, há que se ir além do que os governos e grandes corporações querem que enxerguemos.  É que como em muitas outras questões, o que mais interessa a esses agentes é o aumento do lucro e da concentração da riqueza. Se para isso tiverem que desmatar e envenenar mais, que seja.   Por isso, aqueles que desejam formas social, econômica e ambientalmente sustentáveis de funcionamento da economia vão ter que ficar atentos aos termos desse acordo comercial que está me parecendo mais um termo de rendição.

 

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