Super El Niño, austeridade fiscal e a produção política da próxima tragédia climática

Projeções indicam que um Super El Niño poderá intensificar secas, incêndios, enchentes e deslizamentos no Brasil, enquanto a austeridade fiscal mantém a prevenção e a adaptação climática subordinadas ao pagamento da dívida e expõe a população trabalhadora a novas tragédias anunciadas

Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.Fenômeno climático monitorado pela OMM preocupa autoridades, economistas e pesquisadores devido aos impactos ambientais, econômicos e sociais previstos para o Brasil e outras regiões do mundo.

Por Marcos Pedlowski para “Jornal Nova Democracia”

A comunidade científica com crescente preocupação a evolução do atual ciclo do El Niño. As projeções elaboradas por diferentes centros internacionais de monitoramento climático, entre eles a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), indicam que o aquecimento das águas do Pacífico poderá alcançar intensidade muito forte durante a primavera de 2026. Ao mesmo tempo, o Atlântico Sul continua registrando temperaturas excepcionalmente elevadas, criando uma combinação capaz de alterar profundamente os padrões atmosféricos sobre a América do Sul.

O Brasil ocupa uma posição particularmente vulnerável diante desse cenário. A interação entre um Super El Niño e um Atlântico Sul excepcionalmente aquecido deverá ampliar os contrastes climáticos em praticamente todo o território nacional. A Amazônia, parte das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste poderão enfrentar secas prolongadas, ondas de calor mais intensas, redução da disponibilidade hídrica e uma explosão no número de incêndios florestais. O Sul e parte do Sudeste, por sua vez, poderão registrar episódios extremos de precipitação, enchentes de grandes proporções e deslizamentos de encostas. Essa combinação também deverá comprometer a produção agrícola, reduzir a capacidade de geração hidrelétrica, pressionar os sistemas de abastecimento de água e acelerar a degradação de ecossistemas que já sofrem os efeitos do desmatamento e das mudanças climáticas. Nenhum desses fenômenos constitui uma surpresa. A comunidade científica vem alertando há meses para essa possibilidade, enquanto os modelos climáticos refinam continuamente as projeções.

A verdadeira questão, portanto, não reside na existência ou não de avisos prévios. O problema reside na capacidade — ou, mais precisamente, na incapacidade — do Estado brasileiro de transformar conhecimento científico em políticas públicas capazes de proteger a população antes que a próxima emergência climática se instale. O Rio Grande do Sul oferece o exemplo mais dramático dessa incapacidade. As enchentes de 2024 destruíram cidades inteiras, desalojaram centenas de milhares de pessoas, interromperam cadeias produtivas, devastaram a infraestrutura estadual e deixaram marcas profundas na memória coletiva do país. A tragédia expôs o elevado grau de vulnerabilidade construído ao longo de décadas de ocupação desordenada do território, de insuficiência dos investimentos públicos e de sucessivos adiamentos das obras de prevenção. As projeções atuais indicam que o estado poderá voltar a ocupar o centro da crise climática brasileira.

Essa situação revela um problema muito mais profundo do que uma simples demora administrativa, e revela uma forma de governar que reage aos desastres depois que eles já produziram destruição e mortes. Os governantes anunciam planos de reconstrução, liberam recursos emergenciais e organizam solenidades para apresentar novas iniciativas. Entretanto, eles raramente transformam essas respostas emergenciais em políticas permanentes de adaptação climática. O resultado dessa lógica aparece diante de nossos olhos: cada tragédia encerra seu ciclo sem produzir as transformações estruturais necessárias para impedir a seguinte.

No plano federal, o governo do presidente Luís Inácio reconhece formalmente a gravidade da emergência climática. A atual administração elaborou planos nacionais de adaptação, incorporou o tema ao planejamento estatal e ampliou o discurso oficial sobre sustentabilidade. Essas iniciativas possuem importância política e técnica, mas elas não alteram o principal problema enfrentado pelo país. Por outro lado, o presente governo optou por preservar a lógica central do ajuste fiscal ao substituir o antigo teto de gastos pelo novo arcabouço fiscal. Essa opção mantém a adaptação climática, a defesa civil, e a infraestrutura urbana dentro da mesma disputa orçamentária que caracteriza as políticas neoliberais adotadas nas últimas décadas. Assim sendo, o problema ultrapassa a simples existência de limites fiscais, e a questão central envolve a disputa pelo fundo público. Como resultado, o orçamento federal continua destinando centenas de bilhões de reais ao pagamento de juros e demais despesas financeiras associadas à dívida pública, enquanto trata os investimentos destinados à adaptação climática como despesas sujeitas a contingenciamentos, cortes e negociações.

Assim, quando a emergência finalmente chega, os governos recorrem aos créditos extraordinários, mobilizam operações de socorro e anunciam programas de reconstrução. Esse ciclo se repete há décadas porque a política econômica prefere financiar a resposta ao desastre em vez de investir sistematicamente na prevenção. Mais grave ainda, essa lógica distribui os riscos de maneira profundamente desigual. O capital financeiro permanece protegido pelas prioridades orçamentárias do Estado, enquanto a população trabalhadora permanece exposta às enchentes, aos deslizamentos, às ondas de calor, aos incêndios florestais e às sucessivas interrupções dos serviços públicos essenciais. A crise climática não produz essa desigualdade. O capitalismo brasileiro produz essa desigualdade. A crise climática apenas amplia suas consequências e torna mais visíveis as escolhas políticas que historicamente privilegiaram a acumulação privada em detrimento da proteção coletiva.

A distribuição desigual dos riscos climáticos revela outra característica fundamental da sociedade brasileira. As classes dominantes dispõem de recursos para reduzir sua exposição aos eventos extremos. Elas vivem em bairros dotados de melhor infraestrutura, contratam seguros privados, possuem acesso mais rápido aos serviços de saúde e, quando necessário, conseguem abandonar temporariamente as áreas atingidas. A classe trabalhadora enfrenta uma realidade completamente diferente, já que milhões de brasileiros vivem em periferias urbanas, encostas, margens de rios e áreas de ocupação precária onde o Estado nunca garantiu infraestrutura adequada, drenagem eficiente, saneamento básico ou políticas habitacionais compatíveis com a dimensão do problema. É por causa disso que quando chegam as enchentes, os deslizamentos, as ondas de calor ou os incêndios florestais, os trabalhadores pagam o preço de décadas de abandono das políticas públicas.

O professor Rob Nixon oferece uma chave importante para compreender esse processo em seu livro Violência lenta e o ambientalismo dos pobres. Nixon critica a falsa dicotomia entre desastres naturais e desastres humanos. Segundo ele, um furacão, uma inundação ou uma seca podem resultar de processos naturais, mas o número de mortos, de desabrigados e de perdas materiais depende fundamentalmente das decisões políticas tomadas antes da chegada do evento extremo. Governos que investem em prevenção, fortalecem a defesa civil, organizam sistemas de alerta, constroem infraestrutura resiliente e elaboram planos eficientes de evacuação reduzem significativamente os impactos sociais desses fenômenos. Já governos que negligenciam essas medidas transformam eventos climáticos previsíveis em tragédias humanas primeiro, e depois em oportunidades econômicas para os seus aliados.

O problema ultrapassa, portanto, a esfera de eventos meteorológicos. O Brasil não enfrenta apenas uma emergência climática. A verdade é que o nosso país enfrenta uma crise política produzida pela permanência de um modelo econômico que privatiza os ganhos do crescimento e socializa seus prejuízos ambientais. A lógica neoliberal não reduz apenas investimentos públicos, mas também redefine as prioridades do Estado, desloca recursos para a esfera financeira, enfraquece sua capacidade de planejamento e transforma a proteção da vida em uma variável subordinada às exigências do mercado.

A questão central, portanto, não consiste apenas em acompanhar os próximos boletins meteorológicos ou esperar que o governo anuncie novas medidas emergenciais. A sociedade brasileira precisa construir, desde já, uma ampla mobilização para enfrentar um cenário que a comunidade científica vem anunciando há meses. A população, os sindicatos, os movimentos sociais, as organizações populares, as universidades, as entidades científicas e os coletivos ambientais precisam pressionar os governos federal, estaduais e municipais para fortalecer a defesa civil, ampliar os sistemas de monitoramento e alerta, recuperar infraestruturas críticas, reconstruir plenamente os sistemas de proteção contra cheias, preparar os serviços públicos e direcionar recursos aos territórios mais vulneráveis. Essa pressão também precisa exigir o abandono da lógica de austeridade fiscal sempre que ela impedir investimentos indispensáveis para proteger vidas humanas.

O calendário climático já começou a impor seus prazos. Cada semana desperdiçada reduz a capacidade de resposta do Estado e amplia os riscos enfrentados pela população trabalhadora. O Brasil dispõe de pouco tempo para reduzir os impactos do que poderá ser um dos episódios climáticos mais severos de sua história recente, e esse tempo escasso não permite hesitações nem falsas prioridades. Desta forma, somente uma mobilização social ampla poderá impedir que um fenômeno climático amplamente previsto pela ciência se transforme, mais uma vez, em uma tragédia social produzida por escolhas políticas. Essa mobilização social precisa começar agora, antes que as primeiras chuvas ou os primeiros meses de seca extrema tornem irreversível aquilo que ainda pode ser evitado. 


Fonte: Jornal Nova Democracia

BR-319: o caminho asfaltado para uma nova fronteira de devastação na Amazônia

O projeto de reconstrução da rodovia que liga Manaus a Porto Velho expõe as contradições entre a retórica climática do governo Lula e a abertura de uma nova fronteira extrativa no coração da Amazônia

Uma extensa e importante reportagem publicada pela jornalista Monica Piccinini no site independente YourVoiz lança luz sobre um dos projetos de infraestrutura mais controversos atualmente em discussão no Brasil: a reconstrução e pavimentação da BR-319, rodovia de aproximadamente 885 quilômetros que liga Manaus a Porto Velho e atravessa uma das áreas mais preservadas da floresta amazônica.

O mérito da reportagem está em não tratar a BR-319 como uma simples obra de engenharia. Esse talvez seja, aliás, o principal equívoco de boa parte do debate público sobre a rodovia. Uma estrada na Amazônia nunca é apenas uma faixa de asfalto ligando dois pontos no mapa. Ela altera o valor da terra, cria acessos onde antes existiam barreiras geográficas, reduz custos para atividades econômicas e abre caminho para uma sucessão de processos que o Estado brasileiro historicamente demonstrou pouca capacidade — e muitas vezes pouca disposição — para controlar.

A experiência acumulada na Amazônia mostra que o asfalto costuma chegar acompanhado por estradas secundárias, desmatamento, exploração ilegal de madeira, grilagem de terras públicas, pecuária, mineração e especulação fundiária. Por isso, a pergunta decisiva não deveria ser apenas qual será o impacto direto da pavimentação da BR-319, mas quais processos econômicos, territoriais e políticos a existência de uma ligação rodoviária permanente poderá desencadear em uma das últimas grandes extensões contínuas de floresta tropical relativamente preservada do planeta.

Monica Piccinini lembra que a área de influência da rodovia alcança 42 unidades de conservação, 69 territórios indígenas e cerca de 18 mil indígenas. A dimensão do problema, portanto, ultrapassa em muito a faixa física ocupada pela estrada. O que está em jogo é a possibilidade de conectar o centro relativamente preservado da Amazônia à região conhecida como AMACRO, formada por áreas dos estados do Amazonas, Acre e Rondônia e já convertida em uma das principais frentes de expansão do desmatamento na floresta.

Há um dado particularmente revelador apresentado na reportagem: o desmatamento no entorno da BR-319 cresceu aproximadamente 122% entre 2020 e 2022, mesmo sem que a pavimentação tivesse sido retomada. Isso demonstra que uma obra dessa natureza começa a produzir efeitos antes mesmo da chegada das máquinas. O anúncio político, a expectativa de valorização da terra e a perspectiva de novos acessos já movimentam grileiros, especuladores e diferentes interesses econômicos. Nesse sentido, uma promessa de infraestrutura pode funcionar, por si só, como um acontecimento territorial.

É justamente por isso que soa excessivamente otimista a afirmação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que a BR-319 poderá se tornar a estrada “mais ambientalmente consciente” do mundo. O governo aposta na ideia de que sistemas de monitoramento, satélites, drones e novas tecnologias seriam capazes de impedir a repetição da história. O problema é que satélites detectam o desmatamento, mas não expulsam grileiros, não desmontam redes criminosas, não recuperam territórios invadidos e tampouco neutralizam os interesses econômicos e políticos que acompanham a abertura de novas fronteiras.

A questão central, portanto, não é tecnológica. É política e institucional. O Brasil já dispõe de alguns dos sistemas mais sofisticados do mundo para detectar a destruição da floresta. A dificuldade histórica sempre esteve em impedir que ela aconteça, responsabilizar seus autores e resistir às pressões daqueles que lucram com a transformação da floresta em terra, madeira, minério, petróleo, gás e pastagem.

A reportagem do YourVoiz acrescenta outra dimensão que torna o debate ainda mais grave. A BR-319 não aparece isolada no território. Ao seu redor, avançam ou são planejados projetos de mineração, exploração de petróleo e gás e novas conexões rodoviárias. A mina de potássio projetada em Autazes, com seus conflitos envolvendo o povo Mura, os novos investimentos da Petrobras no polo de Urucu e as perspectivas de exploração de hidrocarbonetos na Bacia do Solimões compõem um cenário mais amplo de transformação econômica da Amazônia central.

Vista sob essa perspectiva, a BR-319 deixa de ser apenas uma estrada destinada a reduzir o isolamento de Manaus e passa a funcionar como possível espinha dorsal de uma nova fronteira extrativa. A melhoria do acesso reduz custos logísticos, altera a viabilidade econômica de projetos antes considerados remotos e cria as condições materiais para que mineração, combustíveis fósseis e agronegócio avancem sobre áreas até agora protegidas, em grande medida, pela própria dificuldade de acesso.

Isso não significa ignorar as necessidades reais da população do Amazonas. A dependência do transporte fluvial, o alto custo dos alimentos, as dificuldades de acesso a serviços públicos e os efeitos das secas cada vez mais severas sobre a navegabilidade dos rios constituem problemas concretos. A questão é outra: será que a principal beneficiária da BR-319 será a população que enfrenta essas dificuldades ou os grandes interesses econômicos que já se posicionam para explorar uma nova fronteira?

A história brasileira recomenda cautela diante da ideia de que grandes projetos de infraestrutura construídos em nome do desenvolvimento regional beneficiam prioritariamente as populações locais. Com frequência, os custos permanecem no território enquanto os benefícios econômicos são apropriados por agentes externos. A floresta é derrubada, os conflitos fundiários se multiplicam, os povos indígenas e comunidades tradicionais perdem territórios e os lucros seguem outros caminhos.

A reportagem também chama atenção para uma dimensão ainda pouco discutida: os riscos para a saúde pública. A abertura de estradas em áreas de floresta preservada aumenta o contato entre seres humanos, animais domésticos e reservatórios silvestres de microrganismos. A fragmentação dos ecossistemas e a expansão da ocupação humana criam condições favoráveis para eventos de transbordamento zoonótico, além de alterar os ciclos de doenças como malária, dengue, leishmaniose e febre do Oropouche.

Essa dimensão deveria receber atenção especial depois da pandemia de Covid-19. A destruição de ecossistemas não representa apenas uma ameaça à biodiversidade ou ao clima. Ela também remove barreiras ecológicas construídas ao longo de milhares de anos e aumenta as oportunidades de contato entre populações humanas e agentes infecciosos ainda desconhecidos. A saúde da floresta e a saúde humana não constituem problemas separados.

Há ainda a questão dos direitos indígenas. A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho garante aos povos indígenas e comunidades tradicionais o direito à consulta livre, prévia e informada diante de projetos capazes de afetar seus territórios e modos de vida. Entretanto, como mostra a reportagem, cresce a preocupação de que essas consultas se transformem em procedimentos burocráticos realizados depois que as decisões políticas fundamentais já foram tomadas. Consulta realizada após a decisão não é consulta; é tentativa de legitimação.

Tudo isso coloca o governo Lula diante de uma contradição que será cada vez mais difícil ocultar. O Brasil reconstruiu parte de sua credibilidade ambiental depois dos anos de devastação institucional do governo Bolsonaro e voltou a apresentar-se internacionalmente como liderança climática. Ao mesmo tempo, porém, o governo federal avança com um projeto que numerosos pesquisadores consideram capaz de abrir uma das últimas grandes áreas preservadas da Amazônia às forças combinadas do desmatamento, da grilagem, da mineração, dos combustíveis fósseis e da especulação fundiária.

A contradição não desaparece com discursos sobre governança ambiental ou com a promessa de uma estrada tecnologicamente monitorada. O problema é que a BR-319 não será construída em um laboratório. Ela atravessará um território marcado por conflitos fundiários, presença do crime organizado, fragilidade institucional e enormes interesses econômicos. Imaginar que o Estado conseguirá controlar todos os processos desencadeados pela abertura dessa nova fronteira exige uma confiança que a própria história da ocupação da Amazônia não autoriza.

Talvez a pergunta mais importante levantada pela reportagem de Monica Piccinini seja justamente esta: uma estrada construída através de uma das maiores extensões contínuas de floresta tropical ainda preservadas do planeta pode realmente permanecer apenas uma estrada? Tudo o que sabemos sobre a história da Amazônia sugere que não.

Por isso, a decisão sobre a BR-319 não deveria ser apresentada como uma escolha simples entre desenvolvimento e atraso, integração e isolamento ou modernidade e abandono. O verdadeiro debate envolve o tipo de desenvolvimento que se pretende promover, quem ficará com seus benefícios, quem pagará seus custos e quais transformações se tornarão irreversíveis depois que o asfalto chegar.

O presidente Lula já afirmou que o Brasil não precisa destruir suas florestas para prosperar. Poucos projetos testarão essa afirmação de maneira tão profunda quanto a BR-319. Se os alertas científicos estiverem corretos, a rodovia poderá entrar para a história não como a estrada que integrou o Amazonas ao restante do país, mas como aquela que abriu uma das últimas grandes fronteiras florestais do planeta para forças econômicas que, uma vez instaladas, nenhum governo conseguiu até hoje controlar plenamente.

E talvez seja essa a maior contribuição da reportagem publicada por Monica Piccinini no YourVoiz: lembrar que, na Amazônia, a parte mais importante da história de uma estrada começa justamente onde termina o asfalto.

À espera do El Niño Godzilla: crise climática e colapso político no Brasil

Enquanto a possibilidade de um novo ciclo extremo do El Niño ameaça aprofundar desastres sociais e ambientais, o sistema político brasileiro acelera o desmonte das proteções ambientais e reforça um modelo econômico baseado na superexploração da natureza

O mundo se encontra, neste momento, à espera da definição da dimensão que o próximo ciclo do El Niño terá sobre o clima de grande parte do planeta. A dúvida já não é mais se haverá ou não um novo episódio do fenômeno, mas sim qual será sua intensidade. Entre climatólogos e analistas do sistema climático global, cresce a preocupação com a possibilidade de ocorrência de um evento extremo, apelidado informalmente de “El Niño Godzilla”, em referência aos episódios excepcionalmente intensos registrados em 1982-1983 e 1997-1998, que produziram impactos devastadores em diferentes continentes.

Para quem não acompanha os estudos sobre variabilidade climática, basta compreender que um El Niño extremo significa a combinação simultânea de eventos severos de chuva e seca. Enquanto algumas regiões poderão enfrentar enchentes catastróficas, outras sofrerão com estiagens prolongadas, colapso hídrico, perdas agrícolas e ondas de calor intensas. Não se trata apenas de um problema meteorológico. A experiência histórica demonstra que eventos fortes de El Niño tendem a desencadear crises sociais, econômicas e ambientais de larga escala, afetando a produção de alimentos, a geração de energia, a infraestrutura urbana, a saúde pública e a estabilidade política.

Mesmo que o evento previsto para 2026-2027 não alcance a magnitude de um “Godzilla”, sua simples ocorrência já será suficiente para ampliar drasticamente a vulnerabilidade de países periféricos e dependentes de exportações primárias, como o Brasil. Em função de suas dimensões continentais e de sua posição geográfica, o território brasileiro costuma experimentar de forma particularmente aguda os extremos associados ao aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial. Historicamente, episódios fortes de El Niño estão associados a chuvas acima da média no Sul do país — especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina — e a secas severas no Nordeste, na Amazônia e em partes do Centro-Oeste e Sudeste.

Os efeitos recentes ajudam a dimensionar o problema. As enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024 produziram centenas de mortes, deslocaram mais de meio milhão de pessoas e causaram prejuízos econômicos bilionários. Ao mesmo tempo, a Amazônia enfrentou secas históricas em 2023 e 2024, com rios atingindo níveis mínimos inéditos, comprometendo o abastecimento, a navegação e a segurança alimentar de milhares de comunidades. O Nordeste, por sua vez, segue convivendo com ciclos cada vez mais prolongados de estiagem e desertificação. Não há, salvo entre negacionistas climáticos ou charlatães travestidos de especialistas, qualquer base científica séria para afirmar que o Brasil atravessará o final de 2026 e o início de 2027 sem enfrentar graves perturbações socioambientais.

O mais alarmante é que esse cenário se desenrola no exato momento em que o sistema político brasileiro demonstra enorme incapacidade — e, em muitos casos, indisposição — para enfrentar a crise climática que se aproxima. Enquanto sucessivos escândalos financeiros e institucionais monopolizam a atenção pública, o Congresso Nacional, sob forte influência da bancada ruralista e de interesses minerários, avança na aprovação de uma verdadeira pauta de desmonte ambiental. Entre os temas em discussão estão a flexibilização do licenciamento ambiental, a redução de áreas protegidas, o enfraquecimento de órgãos de fiscalização e a ampliação de mecanismos que favorecem o desmatamento e a expansão predatória da fronteira agromineral.

Parte dessa ofensiva decorre da percepção, entre setores do establishment político, de que o atual ciclo de poder pode estar entrando em uma fase de desgaste acelerado. Nesse contexto, amplia-se a pressão para consolidar mudanças legislativas que favoreçam os interesses de grandes corporações ligadas ao agronegócio, à mineração e à exportação de commodities. Essas empresas operam segundo uma lógica estritamente financeira e de curto prazo: maximizar lucros, reduzir custos regulatórios e ampliar o acesso a recursos naturais, independentemente dos impactos sociais e ambientais produzidos. O problema é que países periféricos como o Brasil acabam convertidos em plataformas de extração intensiva de riqueza natural, aprofundando padrões históricos de dependência e destruição ecológica.

O governo Lula, apesar do discurso internacional em defesa da sustentabilidade e da proteção da Amazônia, também mantém fortes vínculos com esse modelo de desenvolvimento baseado na expansão de commodities agrícolas, minerais e energéticas. Há uma evidente contradição entre a retórica ambiental apresentada em fóruns globais e a continuidade de projetos de infraestrutura, exploração mineral, expansão do agronegócio e flexibilização de controles ambientais em regiões estratégicas, especialmente na Amazônia e no Cerrado. Isso não significa ignorar diferenças reais entre o campo democrático e a extrema direita, mas reconhecer que existe uma convergência estrutural em torno de um modelo econômico profundamente dependente da superexploração da natureza.

É justamente nesse quadro de degradação progressiva das proteções ambientais e de ausência de planejamento climático consistente que o Brasil se aproxima de um possível novo ciclo extremo de El Niño. O país entra em uma fase potencialmente crítica sem políticas robustas de adaptação climática, sem sistemas adequados de prevenção de desastres e sem investimentos compatíveis na proteção de populações vulneráveis. A combinação entre crise climática, fragilidade institucional e avanço do extrativismo predatório cria condições para uma deterioração acelerada das condições de vida de amplos setores da população.

A encruzilhada histórica que se coloca para o Brasil — e para grande parte do Sul Global — é, portanto, profunda. De um lado, consolida-se um modelo econômico baseado na exportação intensiva de recursos naturais, na flexibilização ambiental e na financeirização da natureza. De outro, cresce a evidência de que esse mesmo modelo amplia vulnerabilidades sociais e climáticas justamente no momento em que os eventos extremos tendem a se intensificar globalmente. O desafio central deixa de ser apenas ambiental: trata-se de decidir se sociedades periféricas continuarão subordinadas a uma lógica de saque ecológico e concentração de riqueza ou se conseguirão construir formas de organização política e econômica capazes de priorizar proteção social, soberania ambiental e adaptação coletiva diante do colapso climático em curso.

Monitorar a água, liberar o veneno: o paradoxo dos agrotóxicos no governo Lula

O governo lança ferramentas de monitoramento hídrico ao mesmo tempo em que consolida o Brasil como o líder mundial de consumo de agrotóxicos

O anúncio do governo Lula sobre a criação de um painel de monitoramento de agrotóxicos nas bacias hidrográficas brasileiras expõe uma contradição política difícil de ignorar. Ao mesmo tempo em que o Ministério do Meio Ambiente apresenta a iniciativa como um avanço em transparência e prevenção de riscos ambientais, o próprio governo Lula vem acumulando recordes na liberação de novos agrotóxicos, incluindo princípios ativos proibidos na União Europeia devido aos seus comprovados riscos à saúde humana e ao meio ambiente. O resultado é um cenário paradoxal: monitora-se cada vez mais a contaminação da água enquanto se amplia simultaneamente a autorização para o uso das substâncias responsáveis por essa mesma contaminação. 

O discurso oficial procura associar o monitoramento à ideia de responsabilidade ambiental e sustentabilidade agrícola. Contudo, essa narrativa entra em choque com a política concreta de expansão do mercado de agrotóxicos no Brasil. Desde o início do atual governo, centenas de novos registros comerciais de agrotóxicos foram autorizados, muitos deles contendo substâncias que países europeus já decidiram retirar de circulação por seu potencial cancerígeno, neurotóxico, desregulador endócrino ou persistente no ambiente. Assim, o monitoramento anunciado corre o risco de funcionar mais como instrumento de gestão da contaminação do que como política efetiva de prevenção.

A contradição se torna ainda mais evidente quando autoridades federais afirmam que “competitividade e sustentabilidade não podem caminhar separadas”, enquanto a estrutura regulatória brasileira continua profundamente orientada para atender às demandas do agronegócio exportador dependente de agrotóxicos. Na prática, o país permanece consolidando sua posição como um dos maiores mercados consumidores de agrotóxicos do planeta, inclusive de princípios ativos rejeitados em outras partes do mundo.

Há ainda uma questão estrutural que fragiliza o alcance real dessa iniciativa. Após a aprovação do chamado “Pacote do Veneno”, o poder decisório sobre a liberação de novos agrotóxicos foi significativamente concentrado no Ministério da Agricultura, historicamente mais permeável às pressões das corporações multinacionais que monopolizam a produção de venenos agrícolas e das grandes entidades do agronegócio. Isso significa que, mesmo que o monitoramento identifique níveis preocupantes de contaminação em rios, aquíferos e bacias hidrográficas, não existe garantia de que essas informações resultarão em restrições efetivas ou na proibição das substâncias detectadas.

O problema é que monitorar não equivale automaticamente a proteger. Um painel pode produzir mapas sofisticados, estatísticas detalhadas e relatórios públicos, mas continuará sendo insuficiente se não houver disposição política para enfrentar as causas da contaminação. E essas causas estão diretamente ligadas ao modelo agrícola dominante e à contínua flexibilização regulatória promovida pelo próprio Estado brasileiro.

Os dados apresentados no lançamento do painel já revelam um quadro preocupante. Mais de 10 mil análises foram realizadas, com detecção de agrotóxicos em 7,2% das amostras, sendo o S-Metolacloro o composto mais frequentemente encontrado. O fato de substâncias químicas aparecerem de maneira recorrente nos recursos hídricos brasileiros deveria acender um alerta sanitário nacional, sobretudo em um país onde milhões de pessoas dependem diretamente dessas águas para abastecimento, pesca, agricultura familiar e consumo cotidiano.

Nesse contexto, a iniciativa do governo parece caminhar sobre uma linha ambígua: de um lado, reconhece oficialmente os impactos ambientais e sanitários dos agrotóxicos; de outro, mantém e amplia a política de liberação dessas substâncias. Sem enfrentar essa contradição central, o risco é que o monitoramento se transforme apenas em um grande inventário da contaminação progressiva das águas brasileiras — um mecanismo de observação da crise, mas não de sua contenção.

Observatório dos agrotóxicos: a marcha do veneno segue sem freios

Nova rodada de liberações de agrotóxicos reforça um modelo agrícola sustentado pela contaminação ambiental e pelo adoecimento coletivo

Apesar de todas as evidências científicas de que o Brasil já se encontra sob grave risco ambiental e sanitário em razão do uso intensivo de agrotóxicos — sendo parte significativa deles composta por substâncias banidas na União Europeia — o governo Lula publicou hoje o Ato nº 29, de 7 de maio de 2026, autorizando a comercialização de mais 44 agrotóxicos do tipo “Produto Técnico”. 

As características observadas nas centenas de liberações ocorridas durante o atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se repetem, compondo uma espécie de “museu de velhas novidades”: produtos cujos princípios ativos já circulam amplamente no mercado, com predominância quase absoluta de formulações produzidas por empresas chinesas (ver gráfico abaixo).

O que se observa nessa nova rodada de liberações é a completa ausência de compromisso com a redução dos riscos — amplamente conhecidos e documentados — que esses compostos representam tanto para o meio ambiente quanto para a saúde humana. Em vez de estimular uma transição para modelos agrícolas menos dependentes de insumos tóxicos, o país aprofunda sua submissão a uma lógica produtiva baseada na contaminação sistemática do solo, da água e dos alimentos.

Tudo isso ocorre para sustentar um modelo agrícola estruturalmente deficitário, cuja aparência de viabilidade depende da aplicação crescente de venenos agrícolas. E a pergunta que permanece é: quem paga a conta desse sistema envenenado? Pagamos todos nós — por meio das isenções fiscais bilionárias concedidas ao agronegócio químico e, sobretudo, com o próprio corpo. Pagamos no aumento das doenças crônicas, nos casos de intoxicação silenciosa, na contaminação da água que chega às casas, no adoecimento de trabalhadores rurais e no comprometimento do futuro das próximas gerações. Enquanto os lucros se concentram nas mãos de poucas corporações, socializam-se os danos, o sofrimento e a degradação ambiental.

O Brasil segue, assim, avançando perigosamente rumo a um horizonte em que o veneno deixa de ser exceção para se tornar parte naturalizada da nossa paisagem cotidiana.

Observatório dos Agrotóxicos: No dia do Golpe de 1964, governo Lula libera mais 48 agrotóxicos

O governo Lula continua em sua marcha firme para quebrar todos os recordes de aprovação de agrotóxicos na história, no melhor estilo do “nunca antes na história desse país”.  É que hoje (31/03) o Diário Oficial da União publicou o Ato Nº 16, de 27 de março 2026 liberando mais 48 agrotóxicos do tipo “Produto Técnico”.  Com isso, o governo Lula superou o número de aprovações de agrotóxicos realizadas durante o mandato de Jair Bolsonaro.

Em um rápido exame dos produtos aprovados, o que temos é um museu de velhas novidades, a maioria produzida por empresas chinesas, fato que confirma uma trajetória de trocas de desiguais com o principal comprador de soja brasileira. Há que se lembrar que a cultura da soja consome sozinha quase 60% dos agrotóxicos consumidos no Brasil, sendo o principal vetor de contaminação ambiental da agricultura brasileira.

Curiosamente a publicação do Ato Nº 16 se dá no mesmo dia do golpe militar de 1964, o que confirma a continuidade da herança química do regime militar que adotou diversas medidas para garantir o crescimento do consumo de agrotóxicos no Brasil que até aquele período era insignificante. Com isso, temos uma continuidade do legado químico da ditadura militar sob a batuta de um governo que se pretende de esquerda.

Entre a retórica verde e a realidade marrom: Desmatamento e degradação florestal no governo Lula

Como alguém que vem estudando a mudança na cobertura vegetal na Amazônia há quase três décadas, não me animo com os dados divulgados recentemente pelo governo Lula sobre a remoção ocorrida entre agosto de 2025 e janeiro de 2026 no corte raso de florestas no Brasil. Duvido ainda mais de qualquer possibilidade de que se atinja o chamado Desmatamento Zero até 2030. Os motivos para a minha incredulidade são gerados pelo próprio governo Lula, que hoje atua em várias frentes para avançar a franja de desmatamento na Amazônia e no Cerrado com seus projetos de ferrovias, estradas e hidrovias, que oferecem grandes vantagens comparativas para quem deseje instalar mais monoculturas de exportação em áreas hoje ocupadas por florestas.

É preciso dizer que o motor principal do desmatamento é justamente o abraço dado pelo governo Lula à reprimarização da economia brasileira, que premia, desde o primeiro mandato do presidente, os grandes grupos privados que controlam o chamado agronegócio. Apesar do discurso voltado para a base social que já o elegeu três vezes, Lula mantém um compromisso evidente com os grandes latifundiários que controlam a produção de soja e outros grãos voltados à exportação. Para quem duvidar, basta verificar os valores destinados anualmente ao latifúndio agroexportador e à agricultura familiar no Plano Safra.

É preciso lembrar que a decisão de desmatar ou degradar florestas baseia-se na racionalidade (ou irracionalidade) dos ganhos de curto e médio prazo que os agentes esperam obter. Alterar a cobertura florestal tem um custo conhecido, e os períodos de alta e baixa do desmatamento estão mais relacionados à flutuação do preço das commodities nos mercados internacionais do que a ações concretas de aplicação das leis ambientais. Aliás, com o início da vigência da nova legislação de licenciamento ambiental, praticamente todo desmatamento tende a se tornar legal ou legalizável, o mesmo valendo para atividades degradadoras como mineração e extração seletiva de madeira.

Também é importante lembrar que a ênfase nos anúncios de controle do desmatamento constitui outra falácia. Como já demonstrado na literatura científica — inclusive em artigo do qual fui coautor na revista Science, em 2020 —, as florestas brasileiras são hoje alvo de processos de degradação que superam a área do desmatamento, causando danos iguais ou mais graves do que aqueles associados ao corte raso. Ao negligenciar a degradação florestal, o governo Lula apresenta apenas parte da realidade, criando a sensação de controle quando, na verdade, a situação permanece crítica.

A verdade é que o apoio continuado ao latifúndio agroexportador, seja via financiamento direto ou pela instalação de infraestrutura, funciona como um combustível permanente para a perda de florestas no Brasil. Isso ocorre apesar dos sinais evidentes de que o desmatamento e a degradação florestal na Amazônia e no Cerrado estão secando importantes rios brasileiros e condenando a população a situações drásticas de escassez hídrica nas próximas décadas. Mesmo que toda a destruição cessasse abruptamente, esse cenário já se mostra inevitável — e tende a se agravar, pois as condições para o avanço desses processos seguem sendo garantidas em diferentes níveis de governo, seja por omissão ou por cumplicidade direta.

O pior que se pode fazer diante de um cenário em que a retórica segue em uma direção e a prática em outra é aceitar a ideia de que tudo vai bem, ignorando os cenários socioambientais dramáticos que se desenham, apenas para que latifundiários e corporações multinacionais continuem acumulando fortunas. Em contraste, povos indígenas que há mais de um mês bloqueiam as atividades da multinacional Cargill, em Santarém, na luta contra a privatização do rio Tapajós, demonstram formas concretas de defesa do futuro comum. Que isso fique claro: dificilmente será a partir dos auditórios climatizados de Brasília que essa trajetória será revertida.

Jogo combinado: Governo Lula e congresso criam grave sufoco financeiro nas universidades federais

Protesto: Estudantes voltam às ruas contra o bloqueio do Orçamento de  universidades | Brasil | EL PAÍS Brasil

A mídia brasileira vem divulgando com algum alarde a informação de que o congresso nacional cortou quase R$ 500 milhões do orçamento proposto pelo governo federal para o orçamento das universidades federais em 2026.  A informação é correta e revela uma postura do mesmo congresso que aprovou um total de R$ 61 bilhões para as chamadas “emendas parlamentares” que serão distribuídas em pleno ano eleitoral.  Em outras palavras, senadores e deputados federais terão para si uma fortuna para azeitarem seus eleitores e sob a capa completamente legal de dinheiro liberado por eles mesmos e para si mesmos.

Essa informação, no entanto, é incompleta. É que nos primeiros três anos do atual mandato do presidente Lula, parte substancial do orçamento liberado pelo congresso para as mesmas universidades federais tem sido retido pelo Ministério da Fazenda, coisa que tem deixado as universidades federais em condição pré-falimentar.  

Em 2025, por exemplo, o Ministério da Fazenda reteve de cara 31% do orçamento aprovado pelo congresso, fato que motivou uma manifestação conjunta da Academia Brasileira de Ciências e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) sobre como este corte ameaçava a sobrevivência das universidades federais.

Ainda que ainda faltem dados sobre quanto foi efetivamente retido do orçamento de 2025, eu tenho a desconfiança que este montante é superior ao que já está sendo cortado do valor nominal aprovado pelo congresso para 2026.  Com isso, o que temos é um cenário dificílimo para  as universidades fedeais, que são os principais de produção científica do Brasil, e que já se encontram debilitadas por pelo menos 9 anos de seguidos cortes orçamentários. 

Obviamente tudo isso será escamoteado pela equipe da campanha eleitoral  para reeleição do presidente Luís Inácio Lula da Silva.  E a manobra de culpabilização do congressa pela situação de penúria imposta às universidades federais já deve estar pronta para ser transformada em uma peça publicitária em2026. Mas a verdade é que o governo Lula é tão ou mais culpado do que os congressistas que aceitarão o mote de inimigos das universitárias em troca da liberação dos recursos para implementar suas emendas.  

Esse é um jogo mais do que combinado, é preciso que se deixe bem claro,

Governo Lula descumpre decisão judicial e ajuda JBS em caso de escravidão

Governo não cumpre ordem do Poder Judiciário para inserir JBS Aves no cadastro de empregadores responsabilizados por trabalho escravo, a chamada Lista Suja

Justiça obriga JBS a agir contra trabalho escravo em granjas

Por Leonardo Sakamoto para “Repórter Brasil” 

Justiça decidiu, tá decidido.” O presidente Lula sempre repete em seus discursos que decisões judiciais devem ser cumpridas, mesmo quando se discorda delas. Contudo, a máxima não valeu, pelo menos até agora, para uma ordem do Poder Judiciário que mandou o seu governo inserir no prazo de cinco dias a empresa JBS Aves no cadastro de empregadores responsabilizados por trabalho escravo, a chamada Lista Suja.

O Ministério Público do Trabalho peticionou a Justiça do Trabalho, na última sexta (19), informando o descumprimento. O governo nega que tenha desobedecido a Justiça.

A juíza Katarina Roberta Mousinho de Matos, da 11ª Vara do Trabalho de Brasília, determinou, em 2 de dezembro, que o governo federal incluísse a empresa JBS Aves na Lista Suja. A gigante internacional havia tido sua entrada na relação suspensa por decisão do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, contrariando a área técnica.

Marinho avocou (chamou para a sua decisão) processos administrativos já concluídos pela fiscalização, impedindo a publicação dos nomes desta e de outras duas empresas no cadastro por discordar da fiscalização. O movimento foi classificado pela magistrada como “desvio de finalidade” e “regime de exceção para grandes empresas”.

O prazo para inserção da JBS Aves venceu na última quinta (18), segundo o MPT.

O proprietário da empresa, Joesley Batista, recentemente ajudou o governo brasileiro nas articulações para a suspensão das sanções econômicas impostas pelo governo Donald Trump.

Questionado a razão pela qual a empresa ainda não estar no cadastro, o ministério informou que “a decisão judicial não determinou a inclusão imediata”.

E informou que “a União, por meio da Advocacia-Geral da União (AGU), já apresentou manifestação no processo e também recorreu ao Tribunal Regional Federal, com pedido de efeito suspensivo”. Segundo a pasta, “esse recurso está sendo analisado pelo plantão judicial”.

“Dessa forma, não existe, até o momento, decisão judicial definitiva que determine a inclusão ou exclusão da empresa no cadastro”, apontou o ministério.

A JBS Aves teve sua entrada na “lista suja” suspensa por decisão do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, contrariando a área técnica (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)
A JBS Aves teve sua entrada na Lista Suja suspensa por decisão do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, contrariando a área técnica (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Contudo, a decisão judicial determinou à União “que proceda, no prazo de cinco dias, à inclusão das empresas”, e que “comunique a este Juízo, no mesmo prazo, o cumprimento integral desta decisão, juntando comprovação da publicação atualizada do Cadastro”. E fixou multa diária de R$ 20 mil a ser paga pelo erário público em caso de descumprimento. Ou seja, cumprimento imediato.

Além disso, o fato de a AGU ter recorrido não dá ao governo federal a possibilidade de desrespeitar uma decisão judicial de primeira instância. Pois, como o próprio ministério afirma, um recurso foi apresentado pedindo efeito suspensivo e ainda “está sendo analisado pelo plantão judicial”.

O governo federal disse também que a Lista Suja é atualizada duas vezes por ano e a próxima atualização está prevista para maio. “Assim, qualquer eventual inclusão só pode ser analisada nessa próxima atualização, caso sejam cumpridos todos os requisitos legais.”

O Ministério do Trabalho está correto ao afirmar que ela é atualizada de forma regular duas vezes por ano. Contudo, desde a sua criação, em novembro de 2003, dezenas de nomes foram incluídos e excluídos em qualquer época do ano devido a decisões judiciais sobre o tema, não tendo sido necessário esperar o mês de atualização regular desse cadastro.

A coluna consultou três juristas que afirmaram, reservadamente, que as justificativas dadas pelo governo não fazem sentido e visam apenas a ganhar tempo enquanto ele busca uma decisão favorável.

A Lista Suja é considerada uma das principais políticas públicas de combate ao trabalho escravo no Brasil e já foi validada pelo Supremo Tribunal Federal. Apesar de a portaria que a regulamenta não impor bloqueio comercial ou financeiro, a relação tem sido usada por bancos e empresas para gerenciamento de risco, dentro e fora do Brasil. Por essa razão, as Nações Unidas consideram o instrumento um exemplo global no combate ao trabalho escravo.

Entenda o caso

A controvérsia veio a público após esta reportagem revelar, em setembro de 2025, que o ministro do Trabalho havia adiado a entrada da JBS Aves na Lista Suja, contrariando decisões técnicas da auditoria fiscal do trabalho. O caso envolvia trabalhadores submetidos a falsas promessas, tráfico de pessoas, endividamento e condições degradantes. O adiamento gerou reação do MPT, que já questionava judicialmente intervenções políticas no cadastro.

A magistrada determinou que o governo federal não volte a usar o poder de avocação ou qualquer outro expediente administrativo para suspender ou retardar a inclusão de empregadores autuados na Lista Suja.

E advertiu que novas interferências podem configurar crime de desobediência, improbidade administrativa e afronta ao Estado Democrático de Direito, uma vez que há decisão judicial transitada em julgado, datada de 2017, sob o governo Michel Temer, obrigando o governo federal a publicizar a Lista Suja.

Segundo a decisão judicial, documentos anexados aos autos mostram que a própria Advocacia-Geral da União (AGU) reconheceu “indícios robustos” de escravidão envolvendo trabalhadores da JBS Aves, mas ainda assim recomendou nova análise por causa da “repercussão econômica” do caso.

Trabalhador da MRJ em granja: caso em empresa terceirizada levou JBS Aves a ser autuada por trabalho escravo (Foto: MTE)
Trabalhador da MRJ em granja: caso em empresa terceirizada levou JBS Aves a ser autuada por trabalho escravo (Foto: MTE)

Em nota enviada, a JBS havia afirmado que a Seara, empresa do grupo, “imediatamente encerrou o contrato e bloqueou o prestador assim que tomou conhecimento das denúncias”. E contratado uma auditoria externa para checagem da documentação dos trabalhadores de empresas terceiras, além de intensificar a auditoria interna, com análise e verificação diária de todas as condições da prestação de serviços de apanha realizada por terceiros.

Também disse que tem tolerância zero com violações de práticas trabalhistas e de direitos humanos. E que todos os fornecedores estão submetidos ao Código de Conduta de Parceiros e à Política Global de Direitos Humanos, que veda explicitamente qualquer prática de trabalho como as descritas na denúncia.

A Santa Colomba Agropecuária S.A. e a Associação Comunitária de Produção e Comercialização do Sisal (Apaeb) também foram beneficiadas pelas avocações de Marinho. Porém, a segunda já estava no cadastro e não foi retirada após decisão judicial e a primeira conseguiu uma liminar judicial para questionar os autos de infração, então, continuou fora da lista.


Fonte: Repórter Brasil

Não é notícia velha: Brasil bate novo recorde de autorizações de agrotóxicos em 2025

Leonardo Fernandes para “Brasil de Fato”  

Parece notícia requentada, mas não é. Em 2025, o Brasil bateu um novo recorde na liberação de agrotóxicos para uso agrícola. A apuração exclusiva do Brasil de Fato mostra que foram 725 novos produtos liberados de fevereiro ao início de dezembro deste ano, o que representou um aumento de quase 10% em relação a 2024, quando o país já havia batido o recorde de liberação até aquele momento, com o ingresso de 663 novos produtos no mercado brasileiro.

Jaqueline Andrade, assessora jurídica da organização Terra de Direitos, lembra que o mercado de agrotóxicos no Brasil movimenta bilhões de reais com a colaboração do Estado, enquanto a população amarga as duras consequências dessa política.

“Isso significa que a gente tem mais água contaminada, a gente tem mais alimento contaminado e a gente tem mais pessoas diretamente intoxicadas, seja de forma aguda ou de forma crônica pelos agrotóxicos”, pontua Andrade.

“Nosso país é uma verdadeira lixeira química, nosso país está envenenado. E todas as estruturas estão caminhando em prol do agronegócio, seja em torno de subsídio, seja em torno de lei, seja em torno da permissividade que o governo dá para arrecadação bilionária dessas empresas no ramo dos agrotóxicos, em detrimento do ônus sofrido por toda a sociedade brasileira e dos impactos que isso tem causado”, afirma Andrade, que atribui esse alto volume de liberações à aprovação da Lei 14.785/2023, conhecida como o pacote do veneno”, que flexibilizou as normas e enfraqueceu o papel da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), no procedimento para o registro dos venenos.

Diante do empoderamento do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) promovido pela lei, Jakeline Pivato, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, considera que o Mapa se tornou um “cartório de venenos”.

“O aumento contínuo nos registros de agrotóxicos no Brasil mostra que o Mapa virou um verdadeiro cartório de venenos. Basta um carimbo, e está aprovado. É impensável que estes agrotóxicos estejam sendo submetidos de fato aos estudos necessários para garantir a sua segurança. Se estivéssemos tratando de novas substâncias, menos tóxicas e mais eficientes, seria um esforço louvável; porém, o que vemos são novos registros de velhas moléculas, inclusive de glifosato e atrazina, já comprovadamente cancerígenos de acordo com a Organização Mundial da Saúde”, aponta Pivato.

Mas não era para reduzir?

O novo recorde ocorre no mesmo ano em que foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), que estabelece diretrizes para políticas públicas na direção de reduzir o uso dessas substâncias químicas tóxicas na agricultura brasileira, o que despertou questionamentos das organizações da sociedade civil.

“O que a gente questiona é: qual é o compromisso do governo brasileiro na redução no uso de agrotóxicos que deveria ser institucionalizada pelo Pronara, que inclusive está sob ameaça do Congresso Nacional de ser revogado”, questiona Andrade, em referência à aprovação, no final de novembro deste ano, na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, do Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 443/2025, de autoria do deputado federal Rodolfo Nogueira (PL/MS), que busca sustar o decreto presidencial de criação do Pronara.

Por outro lado, Pivato lembra que o programa foi construído com a participação dos movimentos e organizações sociais, que trabalharam pela assinatura do decreto em julho passado, e cobra sua implementação. “É urgente que o Pronara comece a funcionar de fato, e que possa colocar um freio nesta festa do agronegócio”, defende.

Brasil: lixão tóxico do mundo

Entre os dez agrotóxicos mais utilizados no Brasil, sete são proibidos em outros países por comprovada relação com doenças graves, como distúrbios neurológicos, má-formação fetal, abortos espontâneos e vários tipos de câncer.

Entre os mais utilizados, está a atrazina, herbicida amplamente usado em plantações de cana-de-açúcar, soja e milho, que agora é objeto de uma Ação Civil Pública do Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul (MPF-MS), que busca a proibição de seu uso e a reavaliação imediata pelos órgãos de controle.

A ação foi movida a partir de estudos que comprovaram a contaminação por atrazina em dois rios importantes que cortam o Mato Grosso do Sul: o rio Dourados e o rio Paraguai. A substância foi identificada em águas superficiais, de chuva e, inclusive, nas torneiras de comunidades ribeirinhas e indígenas.

Procurado pelo Brasil de Fato para comentar os dados recentes de liberação de agrotóxicos, o procurador federal Marco Antonio Delfino, autor da ação no Mato Grosso do Sul, alertou para o fato de que grande parte dos produtos liberados são genéricos, sobre os quais há pouca fiscalização.

“A produção de genéricos não vem acompanhada de um incremento no processo de fiscalização. Tanto dos produtos produzidos quanto dos insumos utilizados”, afirma o procurador, fazendo referência em seguida ao famoso “Agente Laranja”, substância química utilizada pelo exército dos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã (1964-1975) e posteriormente aplicada como herbicida para uso agrícola.

“É importante recordar que o Agente Laranja, o principal efeito dele não foi o efeito da junção de dois agrotóxicos, mas justamente os resíduos tóxicos advindos do processo de fabricação. Então, uma liberação massiva de genéricos desacompanhada de uma fiscalização presente pelo Estado brasileiro é muito provavelmente um indício de muitos agrotóxicos com um alto nível de resíduos tóxicos, que vão causar danos tanto à saúde quanto ao meio ambiente”, comenta o procurador.

O Brasil de Fato entrou em contato com o Ministério da Agricultura e Pecuária, solicitando a comparação dos dados da pesquisa com os computados pelo ministério, além de uma posição da pasta em relação ao recorde de liberações de agrotóxicos em 2025. O MAPA apenas confirmou o recebimento da demanda, informando que foi encaminhada à área responsável, e que daria retorno assim que possível. No entanto, a resposta não foi recebida até o momento desta publicação. As informações serão agregadas à matéria tão logo sejam recebidas.


Fonte: Brasil de Fato