‘Polícia’ de combate ao desmatamento no Brasil entrou em greve – ameaçando metas climáticas

Os servidores de agências ambientais do governo federal interromperam as operações de campo e poderão interromper completamente o trabalho

garimpo ilegal

Grupo de fiscalização do Ibama encerra operação de mineração ilegal em floresta nacional brasileira em 2018. Crédito: Felipe Werneck/Ibama

Por  Meghie Rodrigues para a Nature 

No último mês, os trabalhadores das agências ambientais do governo federal estiveram parcialmente em greve: pararam de trabalhar no campo, onde realizam vigilância do desmatamento e ajudam a encerrar operações ilegais de mineração. Mas, se as suas exigências não forem satisfeitas, poderão em breve aumentar a pressão sobre o governo e parar completamente de trabalhar – o que poderá interromper a investigação que ajuda na elaboração de políticas ambientais.

Funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(IBAMA), órgão de proteção ambiental do país; o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra as áreas protegidas do país; e o Serviço Florestal Brasileiro (SFB) pedem desde 2017 mais recursos e melhores salários.

A administração do atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, emitiu no ano passado um aumento de 9% para todos os funcionários públicos depois que ele assumiu o cargo. Mas os trabalhadores ambientais não receberam aumento nos últimos sete anos, e o aumento salarial não é suficiente para conter a inflação, dizem eles. Seu sindicato, a Associação Brasileira de Carreiras Ambientais (Ascema Nacional), aponta que, de 2003 a 2023, cerca de 720 trabalhadores ambientais foram demitidos para ocupar outras funções governamentais – o que significa que os que permanecem estão sobrecarregados.

Como candidato presidencial em 2022, Lula prometeu atingir o desmatamento zero em todos os biomas brasileiros até 2030 . Para reduzir o desmatamento, as agências ambientais tiveram que reforçar as inspeções na floresta amazônica e em outros lugares. Os seus esforços até agora parecem ter ajudado: as taxas de desflorestação na Amazónia, que é crucial para conter as alterações climáticas porque absorve enormes quantidades de dióxido de carbono, caíram para o nível mais baixo dos últimos cinco anos em 2023 .

Não só estão sobrecarregados de trabalho, dizem os funcionários, mas a sua segurança também está em risco. No terreno, têm de lidar com pessoas ligadas ao crime organizado, como garimpeiros ilegais e grileiros de terras.

Bombeiros do Prevfogo/Ibama participam de operação conjunta de combate a incêndios na Amazônia em 2019.

Trabalhadores do IBAMA e do ICMBio colaboraram em operação conjunta de combate a incêndios na Amazônia em 2019. Crédito: Vinícius Mendonça/Ibama

“Por causa da baixa remuneração, temos perdido pessoal para carreiras mais atraentes, até mesmo no serviço público”, diz Alexandre Gontijo, membro do conselho de administração da Ascema Nacional e especialista ambiental da BFS. “Nossas responsabilidades aumentam enquanto o número de servidores diminui e as coisas ficam mais difíceis à medida que o trabalho se acumula. Vigilar a Amazônia, por exemplo, não é uma tarefa trivial.”

A Ascema Nacional se reunirá com representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Brasil e do Ministério de Gestão e Inovação em Serviços Públicos no dia 1º de fevereiro para discutir as demandas e se os trabalhadores irão suspender adicionalmente o trabalho administrativo.

Embora preocupados com as consequências, os pesquisadores brasileiros apoiam o movimento e apelam ao governo Lula para que invista nos seus trabalhadores. “Se o meio ambiente está no centro da política externa do Brasil, apoiar os trabalhadores na área deveria ser uma política interna fundamental”, diz Erika Berenguer, pesquisadora de incêndios na Amazônia na Universidade de Oxford, no Reino Unido. “É fundamental valorizar quem coloca o próprio corpo na linha de frente.”

Em comunicado à Nature , o Ministério da Administração brasileiro disse que realizou 21 mesas redondas no ano passado para negociar com funcionários federais de vários departamentos. Disse ainda que está trabalhando dentro dos limites orçamentários para atender às demandas.

Sentindo os impactos

Funcionários do IBAMA entraram em greve no dia 2 de janeiro, e trabalhadores de outros órgãos ambientais fizeram o mesmo alguns dias depois. O seu objectivo era trazer o governo de volta à mesa de negociações. No passado mês de Outubro, a Ascema Nacional reuniu-se com o ministério da gestão, mas não foi alcançada qualquer resolução. “O governo prometeu nos dar uma resposta em 30 a 45 dias, mas não obtivemos nenhuma”, diz Cleberson Zavaski, presidente do sindicato e especialista ambiental do ICMBio.

Cerca de 90% de todos os especialistas ambientais federais estão participando da greve parcial, diz Zavaski. De acordo com o Painel de Estatística de Pessoal do Brasil e a Ascema Nacional, há cerca de 4.800 trabalhadores ambientais ativos nas agências federais do Brasil.

Após a greve, apenas 16 fiscais ambientais permanecem em campo no Brasil, dois dos quais estão na Amazônia, segundo o sindicato. E os impactos começam a ser sentidos: os fiscais emitiram 93% menos multas ambientais na Amazônia durante as duas primeiras semanas de janeiro do que no mesmo período do ano passado.

Mudança estrutural

O fato de a greve ter acontecido durante o mandato de Lula é surpreendente para alguns. Sob o seu antecessor – Jair Bolsonaro, um líder favorável à indústria – a desflorestação na Amazónia atingiu o máximo dos últimos 15 anos e mais de 180 mil multas ambientais, no valor de 1,3 mil milhões de reais (260 milhões de dólares), foram anuladas. “A perda de recursos e os ataques públicos dificultaram muito o nosso trabalho [sob Bolsonaro], mas fizemos um esforço de resiliência para continuar trabalhando”, diz Gontijo. “Aí entrou Lula e, embora tenhamos tido apoio institucional público e o fim dos ataques, não tivemos mudança estrutural.”

Em comunicado público no início deste mês , o Ministério do Meio Ambiente, que abriga os órgãos em greve, disse que, após negociações no ano passado, enviou ao Ministério da Gestão um pedido para realizar chamadas públicas para preencher cerca de 3.300 vagas de pessoal no IBAMA, ICMBio e Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Os pesquisadores estão ansiosos para que as negociações dêem frutos esta semana. Celso Silva Jr, pesquisador de sensoriamento remoto e uso da terra do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, em Brasília, afirma que a vigilância e a fiscalização são fundamentais para reprimir o desmatamento ilegal na Amazônia. A greve suscita preocupação “porque a reversão da actual tendência decrescente [na desflorestação] resultaria numa maior perda de biodiversidade e de emissões de carbono para a atmosfera”.

DOI: https://doi.org/10.1038/d41586-024-00279-2


compass black

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela Nature [Aqui!].

Lula repete Bolsonaro, e governo não compra terras para reforma agrária pelo terceiro ano seguido

Lula 3 tem reforma agrária lenta, mas mantém ritmo acelerado de emissões de títulos de lotes de assentados; política foi prioritária na gestão Bolsonaro, porém, é criticada por movimentos sociais

ato-mst-parauapebas

Ato de solidariedade ao acampamento Terra e Liberdade, onde seis acampados e três trabalhadores morreram em incêndio em Parauapebas (PA) (Foto: Rodrigues Silva/MST) 

Por Fernanda Canofre para a Repórter Brasil

A morte de nove pessoas em um acampamento do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) em Parauapebas (PA), no último dia 9, chamou atenção para a situação de risco enfrentada por acampados e pré-assentados no país. As políticas de reforma agrária caminham a passos lentos há dez anos, e pouco mudou no atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

O número de áreas adquiridas pela União para a criação de novos assentamentos vai terminar zerado pelo terceiro ano consecutivo – acompanhando o movimento iniciado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2021.

Cerca de 65 mil famílias vivem hoje em acampamentos, segundo fontes do movimento, e outras 30 mil estão em pré-assentamentos – onde os processos não foram concluídos e, por isso, os agricultores não têm acesso a créditos nem a outras políticas do programa de reforma agrária. 

O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) joga a conta da paralisia da atual gestão na herança deixada pelo governo anterior. ‘’Neste ano, não houve compra de terras para destinação ao Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA). Em função do orçamento exíguo herdado do governo anterior, estão sendo empreendidos esforços no sentido de mapear terras devolutas e direcioná-las ao programa’’, diz o órgão, via assessoria de imprensa.  

O orçamento deste ano, de R$ 256 milhões, foi o menor dos últimos 20 anos, segundo dados do Incra. O valor previsto para 2024 é de R$ 567 milhões, de acordo com a primeira versão da lei orçamentária do próximo ano, que deve ser votada ainda nesta semana no Congresso.

‘’O diálogo [com o governo] é uma beleza, mas não passa disso”, afirmaJoão Paulo Rodrigues, coordenador do MST. “O governo é democrático, de participação, explica o problema e traz para nós a situação. Mas a questão é a seguinte: como eu saio de R$250 milhões e chego a pelo menos R$ 1 bilhão para o Incra?’’, questiona. 

Além do orçamento abaixo do necessário, outros fatores dificultam o processo, como o fato de o Incra carecer de servidores e estrutura.

‘’A Superintendência aqui já teve mais de 200 servidores e hoje temos cerca de 50. Não tem gente para poder fazer revisão, não tem vistoria nos lotes, não tem dinheiro para poder ir lá. É uma situação caótica. O último concurso foi em 2012 e foi sucateando de lá para cá, o pessoal foi saindo’’, diz o superintendente regional do Incra em Marabá (PA), Reginaldo Rocha de Negreiros, em entrevista concedida antes do trágico incêndio ocorrido no sudeste do Pará, durante a instalação de uma antena de internet. A regional é responsável por Parauapebas.

Na região, há territórios que esperam o andamento do processo de regularização desde o governo Dilma Rousseff (PT), encerrado há quase oito anos.

É o caso do Projeto de Assentamento Marajaí dos Carajás. A área está localizada nos municípios de Sapucaia, Xinguara e Curionópolis. Ela foi reconhecida em portaria de 2016, após o acampamento ser erguido em 2010, mas não passou disso.

Antônio Reis da Silva, 59, presidente de uma das associações do Assentamento Marajaí dos Carajás, conta que os agricultores, sem as políticas de reforma agrária, se viram como podem nos últimos 13 anos. Ergueram casas e instalaram serviços de internet e luz por conta própria. A única ajuda vinda por meio do poder público, diz ele, foi um trator comprado via emenda parlamentar de um vereador local.

“Essas trocas de governo sempre prejudicam os pequenos da agricultura familiar, que querem sobreviver trabalhando dos braços”, conta.

Para o advogado José Batista, da CPT (Comissão Pastoral da Terra) no Pará, ainda não está claro qual vai ser a prioridade do Incra nos próximos anos. ‘’Não tem um projeto. O que tem são discursos do ministro, do presidente do Incra, da cúpula do governo, mas não tem um programa divulgado das metas, das políticas que serão priorizadas’’, avalia. 

Assentados em queda, titulação em alta

Nesse cenário, o governo Lula vai fechar seu primeiro ano de gestão com índices próximos aos da gestão Bolsonaro. Segundo o Incra, foram criados dez assentamentos neste ano, em áreas que já haviam sido adquiridas pelo governo federal. Isso representa metade da meta para 2023, com base em um balanço dos oito primeiros meses da gestão ao qual a Repórter Brasil teve acesso. Os dez assentamentos criados somam área de 10,5 mil hectares.

Por outro lado, continua a política em torno da emissão de títulos definitivos da terra para quem já é assentado, empreendida a todo gás sob Bolsonaro. Foram 38 mil títulos em 2023, segundo o Incra, somando Títulos de Domínio (TD) em assentamentos e glebas públicas e Contratos de Concessão de Uso (CCU). A meta deste ano é chegar a  57.623, segundo o balanço.

Em tese, a titulação seria a última etapa do processo de reforma agrária, depois da implementação de outras políticas públicas para atender famílias cadastradas e consolidar territórios, aponta Batista, da CPT.

‘’Porém, no governo Bolsonaro, se inverteu essa lógica. Colocou-se a titulação como sendo a primeira e única política para os assentados, e a gente percebe o governo atual tendo dificuldade de romper com essa lógica”, diz Batista. “Não somos contra a titulação, mas ela atropela o processo, porque sem estudo prévio para saber quais famílias já foram beneficiadas, corre-se o risco de titular quem não teve acesso [aos benefícios da reforma agrária]. Se as pessoas continuarem na dependência do município, podem acabar vendendo o lote’’, explica. 

Quanto ao número de famílias assentadas anualmente, os dados obtidos pela reportagem mostram queda contínua desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, principalmente durante o governo Bolsonaro.

Em 2023, foram assentadas 5.711 famílias, segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar. Essa era a meta do Incra para o ano.

O Ministério do Desenvolvimento Agrário, responsável pelo Incra, afirma que o Plano Emergencial de Reforma Agrária prevê assentar 7.200 famílias e regularizar outras 40 mil, mas não fala em prazo. 

O governo vem tentando levantar terras por outros caminhos. No anúncio oficial do Plano Safra 2023/2024, no primeiro semestre, o presidente Lula  aventou a ideia de uma “prateleira de terras”.

‘’Se nós temos o Incra, que é responsável pela distribuição de terra nesse país, pela compra de terra, se nós temos em cada estado um instituto que cuida da terra, a minha pergunta é a seguinte: por que a gente tem que esperar as pessoas invadirem uma terra para a gente comprar? Por que a gente não faz um levantamento de todas as terras devolutas, de todas as terras ociosas e a gente cria no governo um balcão, uma prateleira de terras?’, discursou o presidente.

À reportagem, em novembro, o Ministério do Desenvolvimento Agrário afirmou que a Câmara Técnica de Destinação e Regularização Fundiária de Terras Públicas Federais Rurais foi reinstalada, e que ela dará ‘’início à consolidação de uma prateleira de terras públicas que podem ser destinadas à reforma agrária’’. Porém, não explicou como o sistema vai funcionar.

(Infografia: Cris Macari)
(Infografia: Cris Macari)
(Infografia: Cris Macari)

‘Sem guerra’

Em meio à falta de resultados, parlamentares do PT teriam criticado a demora do andamento de programas, segundo apurou aRepórter Brasil. A lentidão também impulsionou protestos do MST ao longo do ano – além de ocupações de terra –, colocando o governo e o movimento em lados opostos em alguns momentos.

Lula chegou a dizer que era possível fazer a reforma agrária sem “barulho” e sem “guerra”. “Eu disse para o [ministro do Desenvolvimento Agrário] Paulo Teixeira esses dias: não precisa mais invadir terra. Se quem faz o levantamento da terra improdutiva é o Incra, o Incra comunica o governo quais são as terras improdutivas que existem em cada estado brasileiro e a partir daí vamos discutir a ocupação dessa terra. É simples. Não precisa ter barulho, não precisa ter guerra”, disse o presidente em junho.

Seus ministros adotaram tom ainda mais crítico. Em maio, Teixeira e o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, foram à Comissão de Agricultura e Reforma Agrária no Senado e tocaram no assunto. ‘’Não tem posicionamento dúbio: invasão de terras não é legítimo. Não devemos apoiar’’, disse Fávaro. ‘’Isso é uma exigência do governo: com áreas ocupadas, não negociamos. Não há desse governo qualquer leniência com esse tipo de problema’’, afirmou Teixeira.

Rodrigues, coordenador do MST, afirma que as ocupações ocorrem como um protesto contra fazendas ou empresários suspeitos de cometer violações, e não miram o governo nem são uma “moeda de troca”. “Não sou eu, João Paulo, aqui de São Paulo, que decido ‘gente, amanhã vamos ocupar terra no Pará’. Não se trata disso. É um combinação de gente desempregada, alguma fazenda que está desocupada, tem trabalho análogo à escravidão, não respeita o meio ambiente’’, diz.

‘Nunca haverá, por parte do MST, uma moratória sobre ocupação de terra. O que há são cuidados. O MST não pode fazer ocupação com poucas famílias, não pode fazer em áreas produtivas que cumprem a função social, deve evitar áreas que podem ter conflito de alguma natureza’’, continua.

Em meio a esse fogo cruzado, ainda houve em maio a instalação da CPI do MST no Congresso, lembra Rodrigues, acrescentando que a comissão teria atrapalhado os planos do governo de cuidar do assunto. ‘’A direita conseguiu enquadrar e constranger o governo com essa CPI. O governo achou que a CPI era um problema do MST, só que também paralisou tudo por sete meses’’, afirma. A comissão perdurou na Câmara até setembro, e foi concluída sem a votação do relatório final.  

E o ano que vem?

A maior preocupação para 2024 é garantir orçamento para o Incra. Mas o plano de gastos do Executivo sequer foi aprovado no Congresso. O orçamento previsto para o próximo ano, de R$ 567 milhões, é abaixo do necessário na avaliação de movimentos. 

O MST diz ser necessário algo na casa de R$2,8 bilhões. Já a Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag) estima R$ 7 bilhões.

A falta de orçamento afeta as políticas agrárias há dez anos, avalia Ceres Hadich, coordenadora do escritório nacional do MST. “Nos assentamentos não conseguimos acessar as políticas públicas individuais e coletivas’.

‘’A gente está na briga para que o governo recomponha esse orçamento. Para o PAC [Plano de Aceleração do Crescimento] há recursos, por que não pode tirar algo disso para a reforma agrária? A gente avalia que está devagar, mas não é hora de desanimar’’, diz Alair Luiz dos Santos, secretário de política agrária da Contag.

‘’Os recursos destinados no orçamento do Incra são menos da metade do que um parlamentar tem direito de emenda individual impositiva. São cerca de R$ 11 milhões a R$ 12 milhões para investimento nas ações da reforma agrária no Brasil inteiro”, disse o senador Beto Faro (PT-PA), em discurso em agosto. À reportagem, o parlamentar, que já foi superintendente do Incra em Belém, disse que vai destinar emendas ao órgão no próximo ano.

Negreiros, superintendente do Incra em Marabá, diz conhecer bem a sensação da espera das famílias que aguardam o cenário mudar. Ele é agricultor familiar, assentado pela reforma agrária em São Geraldo do Araguaia, na região do Baixo Araguaia, mas aguarda há mais de três décadas pelo título definitivo da terra. Confirmado o orçamento enxuto outra vez, ele também se preocupa.

‘’A gente fica na angústia de sempre, porque sabe que não vai atender a demanda. A gente tem quase 200 áreas que o povo está ocupando, a maioria teria condições de fazer obtenção, mas cadê o dinheiro para comprar e assentar esse pessoal? Com um orçamento desses, não tem’’, finaliza.


color compass

Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Observatório dos Agrotóxicos: no ritmo de Bolsonaro, governo Lula chega a 500 agrotóxicos liberados em 2023

agrotóxicos

Em uma das mais flagrantes quebras de promessas eleitorais, o governo Lula segue aprovando a liberação de agrotóxicos no mesmo ritmo adotado por Jair Bolsonaro. Agora, com a publicação do Ato No. 56 de 7 de dezembro, o governo Lula chega a astronômicos 500 agrotóxicos aprovados desde janeiro. Esse valor que pode ser ainda maior até o final do ano já supera as aprovações ocorridas sob Bolsonaro em 2019 (n=475) e 2020 (n=493). Eu não me surpreenderei, se os númerosd e 2021 e 2022 também forem superados. É que o “ogronegócio” está longe de se contentar com o montante de liberações, e seus representantes querem sempre mais, muito mais.

Ao verificar a lista dos agrotóxicos liberados no dia de hoje dei de cara com dois produtos contendo o princípio ativo  que foi classificada pela IARC como provável carcionógeno em humanos, apesar de ainda estar liberada nos EUA e na Europa onde o uso deste agrotóxico se encontra fortemente restringido, mas que no Brasil tem um nível “legal” de resíduos que é de 400 vezes mais do que o autorizado na União Europeia.

O problema é que com a aprovação do “Pacote do Veneno” há a expectativa de que o presidente Lula veta as partes mais escandalosas desta lei que abrirá espaço não apenas para a continuidade do uso da malationa, mas de vários outros agrotóxicos já classificados como claramente causadores de câncer e outras enfermidades grave.

Em outras palavras, todas aquelas promessas que o atual governo iria trabalhar para que o Brasil adotasse um modelo agroecológico de agricultura ficaram mesmo só no campo das promessas, e o que se vê é um governo fortemente alinhado com os interesses do latifúndio agro-exportador e das grandes corporações multinacionais que se refastelam em lucros obtidos com o adoecimento dos brasileiros e como a contaminação de nossos solos, águas e atmosfera.

Como venho dizendo desde a posse do presidente Lula, os agrotóxicos representam uma daquelas facetas que ameaçam devorar o atual governo, na medida em que o avanço do uso massivo de substâncias químicas altamente perigosas está criando uma série de epidemias surdas no Brasil, incluindo o recrudescimento da quantidade de diversos tipos de câncer. Como estamos, em contrapartida, assistindo esforços do próprio governo para a redução dos repasses para o sistema único de saúde (SUS), essa é uma combinação que ainda trará graves problemas de saúde pública para o Brasil.

Por isso, a luta contra os agrotóxicos deverá ser uma das principais nos enfrentamentos que deverão ocorrer em 2024. É que ainda temos quase 1.000 agrotóxicos na fila de espera para serem liberados para comercialização no Brasil. E quem espera que algo do interior do governo Lula em termos de reação a esta poção venenosa, melhor esperar sentado.

Encarregados de combater o desmatamento na Amazônia, agentes ambientais brasileiros protestam contra condições de trabalho sob Lula

torasAgente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(IBAMA) inspeciona árvore extraída da floresta amazônica, em uma serraria durante operação de combate ao desmatamento, em Placas, Pará, Brasil, 20 de janeiro de 2023. REUTERS/Ueslei Marcelino//Arquivo Foto Adquire Direitos de Licenciamento

Por Jake Spring para a Reuters

DUBAI (Reuters) – Mais de 1.500 trabalhadores das agências federais  que atuam contra o desmatamento no Brasil estão exigindo melhores salários e condições de trabalho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de acordo com uma carta que assinaram e que foi revisada pela Reuters na quarta-feira.

Os agentes ambientais foram encarregados de executar a postura mais dura de Lula em relação ao desmatamento, um elemento-chave de sua campanha para restabelecer o Brasil como líder em mudanças climáticas, através da emissão de multas por infrações ambientais, entre outros meios.

As taxas de desmatamento na floresta amazônica brasileira caíram 50% nos primeiros 10 meses da presidência de Lula, mas os trabalhadores dizem que continuam mal pagos e sobrecarregados de trabalho enquanto Lula apregoa o seu sucesso na Conferência Climática COP28 da ONU, em Dubai.

A Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, é vital para conter as alterações climáticas porque absorve grandes quantidades de gases com efeito de estufa que provocam o aquecimento global.

Os trabalhadores do IBAMA, órgão federal de fiscalização ambiental, e do  ICMBIO, agência encarregada de proteger as unidades de conservação,  acusaram Lula de “deslealdade” e disseram que suas condições de trabalho ameaçavam o combate ao desmatamento.

O presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, nomeado por Lula, disse que os servidores tinham razão. “Boa parte dos resultados do desmatamento foram frutos do seu trabalho”, disse Agostinho à Reuters à margem da COP28.

“É uma afirmação justa da parte deles, mas trabalhamos com limitações”.

Agostinho disse que espera poder contratar mais trabalhadores no próximo ano e culpou o Congresso por atrasar as aprovações orçamentais.

O gabinete de Lula, o ICMBio e o Ministério do Meio Ambiente não responderam imediatamente a um pedido de comentário.

As taxas de desmatamento dispararam sob o governo do antecessor de direita de Lula, Jair Bolsonaro, que procurou abrir mais áreas da Amazônia à agricultura e à mineração, argumentando que isso tiraria a região da pobreza.

Jair Bolsonaro enfraqueceu os órgãos ambientais e os criticou abertamente por emitirem multas ambientais.

Reportagem de Jake Spring; edição por Miral Fahmy


color compass

Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Brasil ganha antiprêmio “Fóssil do Dia” na COP28 pela adesão à Opep+ 

wp-1701706869875

A empolgação na COP do ano passado era palpável, com o Brasil de Lula prometendo ser um sopro de ar fresco na condição de campeão do clima. Mas, o Brasil é o vencedor do Prêmio Fóssil do Dia de hoje (4/12), na COP28, que acontece em Dubai, pois parece ter confundido a produção de petróleo com liderança climática.

O Ministro das Minas e Energia do Brasil, Alexandre Silveira, achou apropriado anunciar a adesão à Opep+ no primeiro dia da conferência. Seguindo essa lógica distorcida, serão leiloados 603 novos blocos de petróleo, em 13 de dezembro, apenas um dia depois do término da COP28. Isso não pode ser coincidência, certo? A corrida do Brasil pelo petróleo mina os esforços dos negociadores brasileiros que estão tentando quebrar impasses antigos e agir com senso de urgência.

De acordo com a Agência Pública, matéria publicada ontem, as emissões esperadas de uma das novas fronteiras de petróleo que o Brasil deseja abrir, a Margem Equatorial (que inclui blocos na foz do Rio Amazonas), anularão os cortes de emissões alcançados com o desmatamento zero até 2030. Contrariamente, ao que as empresas de petróleo declaram, não é possível compensar a destruição de todo um ecossistema com uma boa ação.

Brasil, não queremos um tour pelos campos de petróleo quando estivermos em Belém em 2025. E, se você apenas quer se juntar a um clube, podemos sugerir que siga o exemplo do seu vizinho mais próximo, a Colômbia, assinando o Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis em vez da Opep+.

“Ao reduzir o desmatamento em 22% em apenas 11 meses no cargo, o presidente Lula deu uma das contribuições mais significativas para mitigar o aquecimento global em 2023. Porém, com um grande poder vem uma grande responsabilidade. Não se pode liderar o Sul Global contra a crise climática investindo no produto que a causa.” Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima.

Sobre o Fóssil do Dia

A premiação foi apresentada pela primeira vez nas negociações climáticas em 1999, em Bonn. Durante as negociações das COPs, os membros da CAN (Climate Action Network) votam nos países que fizeram o ‘melhor’ para bloquear o progresso nas negociações nos últimos dias de conversas. O prêmio é oferecido diariamente e apresentado às 18:00 (horário do local da COP). Neste ano, a cerimônia do Fóssil ocorre na Action Zone 9, perto da entrada.

Adesão à OPEP ofusca papel de líder climático do Brasil na COP28

Às margens da Conferência do Clima, anúncio da entrada na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) é pedra no caminho de liderança climática que Brasil diz querer trilhar em Dubai

lula cop28

Lula aproveita a viagem a Dubai para ter encontros bilaterais com vários líderes mundiais

Por Nádia Pontes para a Deutsche Welle Brasil 

Em sua volta às Conferências do Clima (COP) como presidente do Brasil,
Luiz Inácio Lula da Silva
 pareceu disposto a ocupar a posição de liderança global climática que diz estar vazia. Numa provocação às nações mais ricas, o brasileiro disse que tem metas de corte de emissões de gases de efeito estufa mais ambiciosas do que aqueles que historicamente mais contribuíram com as mudanças climáticas.

O discurso parece unificado em parte do governo. Nesta sexta-feira (01/12), segundo dia de COP28, em Dubai, os ministros Marina Silva, do Meio Ambiente, e Fernando Haddad, da Fazenda, demonstraram sintonia ao apresentar novos planos para valorizar as florestas e transformar a economia.

Enquanto isso, Alexandre Silveira, da pasta de Minas e Energia, tratava na vizinha Abu Dhabi de temas ligados a investimentos um dia depois do anúncio de que o Brasil vai integrar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

A notícia já havia esfriado os ânimos dos participantes da conferência. “Entrar na Opep e liderar a agenda de clima são duas coisas que não cabem na mesma frase. O Brasil vai ter que se decidir. Quem está certo: é o discurso do presidente aqui ou é o discurso do ministro de Minas e Energia aplaudido de pé na Opep?”, questiona Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, em entrevista à DW.

Para Tzeporah Berman, presidente do Tratado de Não-Proliferação de Combustíveis Fósseis, muito antes de a COP30 desembarcar em Belém, em 2025, o Brasil tem que definir objetivamente de qual lado está.

É que o país, além de entrar para o clube mundial de petróleo, pode, em breve, explorar o combustível fóssil que mais contribui para as mudanças climáticas na região chamada de Foz do Amazonas. Rejeitado diversas vezes pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), um novo pedido de licença ambiental da Petrobras está sob análise.

“Lula afirma ser um líder climático internacional, mas ainda há muito a ser feito em casa em termos de políticas públicas nacionais para provar o seu compromisso com a ação climática. Isto deve incluir uma indicação clara para parar a expansão de projetos de combustíveis fósseis, especialmente em ecossistemas-chave como a Amazônia”, pontua Berman à DW. 


Lula fala em um púlpito em frente a uma bandeira da ONU e dos Emirados Áabes

Lula quer ser visto como líder climático mundial, mas primeiro precisa unificar discurso de seu governo. Foto: Peter Dejong/AP/picture alliance

Nova ideia para salvar as florestas

Num evento oficial concorrido, Marina Silva e Fernando Haddad apresentaram detalhes do projeto batizado como Florestas Tropicais para Sempre. A proposta é criar um instrumento financeiro para compensar quem preserva florestas em todo o mundo.

“É uma proposta bastante criativa. Queremos criar condições para que países desenvolvidos protejam a floresta sem ser doação. Eles terão retorno”, disse Silva.

A captação de recursos seria feita inicialmente de fundos soberanos, além de outros investidores – como da própria indústria do petróleo. A rentabilidade líquida seria a fonte de pagamento para países com florestas tropicais.

O mecanismo foi pensado para incentivar a preservação ao mesmo tempo em que desestimula o corte da floresta, explica Tasso Azevedo, coordenador do Mapbiomas, que ajudou a elaborar a ideia.

“Para cada hectare preservado durante um ano, seria pago um valor. E para cada hectare desmatado, haveria um desconto de 100 vezes esse mesmo valor. Por exemplo: se for pago 30 dólares por hectare preservado, serão descontados 3.000 dólares por cada hectare desmatado”, detalha Azevedo.

Para o engenheiro florestal, calcular o valor que essa vegetação tem é extremamente complexo. “Não se trata só de carbono. As florestas tropicais prestam serviços essenciais, como fazer o resfriamento do planeta em 1°C”, menciona.

O mecanismo foi apresentado aos países que fazem parte do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), e agora será discutido em Dubai entre os demais detentores de florestas tropicais.

“Em geral, os países desenvolvidos vêm com ideias bastante boas, mas já prontas. E aí você tem que aderir. O Brasil apresenta uma ideia, desenvolve com os outros, e aí cria a estrutura definitiva”, comenta André Correa do Lago, diplomata e negociador-chefe do país. “Esperamos que o Fundo Florestas Tropicais para Sempre esteja em funcionamento até a COP30”.

A meta inicial do fundo é captar 250 bilhões de dólares. Estima-se atualmente que fundos soberanos disponham de 12 trilhões de dólares – a maior parte disso capitalizado pela venda de petróleo.

“Não há contradição”

Depois de discursar na plenária, o presidente Lula teve reuniões bilaterais com o primeiro-ministro do Reino Unido, Rishi Sunak, com o secretário-geral da ONU, António Guterres, com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez. Ele não falou com a imprensa.

Já Marina Silva e Fernando Haddad, logo após apresentarem o plano para as florestas tropicais, foram questionados por jornalistas sobre a notícia de adesão do país à Opep em plena conferência do clima.

Segundo Haddad, o Brasil terá até junho de 2024 para decidir se entra para o grupo. Marina Silva afirmou que o país seria um observador e que, ao exercer esse papel, poderia “ajudar o mundo a fazer a transição energética” necessária.

“Se for para levar o debate da economia verde, da necessidade de descarbonizar o planeta, não é uma contradição. É exatamente para levar o debate que precisa ser enfrentado no âmbito daqueles espaços que são os grandes produtores de combustíveis fósseis, que são os grandes responsáveis pelo aquecimento do planeta”, respondeu.

Para Paulo Artaxo, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) que já integrou o Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), a emergência climática testemunhada em várias partes do mundo não pode ser menosprezada em Dubai.

A COP28 teria que trazer o compromisso de acabar com a era do petróleo e iniciar a era da energia sustentável.

“O recado da ciência é claro: a janela de abertura para novos poços de petróleo já passou há décadas. O ministério da Fazenda e do Meio Ambiente estão alinhados com o futuro. O de Minas e Energia e a Petrobras estão alinhados com o passado. Este é o grande dilema que o Brasil tem que resolver”, analisa Artaxo.


compass black

Este texto foi originalmente publicado pela Deutsche Welle Brasil [Aqui!].

MAPA com indicações de cargos ditadas pela Frente Parlamentar da Agricultura segue sendo um ministério bolsonarista

fpa

Graças à intervenção poderosa da FPA, o MAPA continua sendo bolsonarista no governo Lula

Muita gente me pergunta como é possível que o governo Lula continue aplicando a mesma política de aprovação de agrotóxicos desenvolvida pela equipe de Jair Bolsonaro.  A resposta mais simples é que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) tem no seu comando o senador ruralista Carlos Fávaro (PSD/MT) que possui vínculos com Aprosoja que foi um dos principais sustentáculos do governo Bolsonaro nas entidades de classe dos ruralistas.

Entretanto, o buraco parece ser mais embaixo já que obtive informações que cargos importantes no MAPA são de indicação direta da chamada Frente Parlamentar da Agricultura (FPA) que teria conseguido, entre outros coisas, promover ao cargo de Secretário de Defesa Agropecuária do MAPA, o diretor da área responsável pela coordenação da área de avaliação de agrotóxicos do MAPA. Com isso, não é nenhuma surpresa que tenhamos tido a promulgação das portarias 02 e 03 que flexibilizaram ainda mais o processo de liberação de agrotóxicos no Brasil. 

Na prática, o que alguns observadores de indicações políticas feitas no governo Lula, mas especial no MAPA, é que quadros indicados pelo Bolsonarismo não apenas foram mantidos, mas, também, promovidos dentro da equipe ministerial do presidente Lula.

Alguns poderão dizer que esse tipo de procedimento é um dos custos da governabilidade, na medida em que a FPA saiu fortalecida nas eleições realizadas em 2022, não restando assim outra alternativa senão entregar a ela o controle da indicações de cargos importantes.

Particularmente não compro a tese da necessidade de se garantir a governabilidade. É que nos mandatos anteriores,  Lula já estabeleceu vínculos claros com o chamado agronegócio, ainda que isso jamais tenha lhe garantido alguma garantia de gratidão política. Tanto isso é verdade que o agronegócio foi um dos garantidores o gole parlamentar que tirou a presidente Dilma Rousseff da presidência da república.

Lamentavelmente tudo indica que essa hegemonia da FPA no MAPA vai resultar em ainda mais desmatamento na Amzônia e no Cerrado, e liberações de agrotóxicos altamente perigosos.  Para faze fremte a essa situação só resta apostar na ação organizada dos movimentos socais, comunidade científica e da população.  Do contrário, a boiada irá continuar passando.

Especialista faz previsão tenebrosa: governo Lula deverá liberar 1.000 agrotóxicos em um só ano

LULA RECORDE

No dia 12 de novembro fiz uma postagem informando que o governo Lula havia decidido flexibilizar (ainda mais) o processo de liberação de agrotóxicos ao publicar duas portarias Conjuntas nº 02 nº 03 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que visam conceder “celeridade e segurança”  à aprovação dos pedidoss de registros e alterações de pós-registros de agrotóxicos e afins.  

Eis que hoje conversei com um especialista familiarizado com o processo de liberação de agrotóxicos no Brasil, e ele me disse que, particularmente no IBAMA,  a Portaria n° 03 terá um grande impacto no número de registros aprovados em velocidade no estilo “The Flash“, em função do fato de que quando esta portaria começou a ser tramitada havia no órgão em avaliação um total de de 906 produtos formulados clones de outros já aprovados.

A questão é que tais avaliação eram realizadas pelos técnicos do IBAMA juntamente com os produtos “clones” mas as aprovações só eramemitidas para os processos já estão em análise, conforme uma fila de espera. Agora esse especialista avalia que o IBAMA vai poder desconsiderar a fila e liberar os produtos junto com os produtos de referência, independente se chegou a vez do produto na fila ou não.

Uma consequência particularmente preocupante dessa nova forma de liberação de agrotóxicos adotada pelo governo Lula é que boa parte destes produtos já foi efetivamente analisada e será liberada de uma vez só, impactando significativamente o número de registro concedido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Quão significativo será esse impacto? O especialista com quem conversei avalia que talvez ainda em 2023, mas com certeza em 2024, o Governo Lula alcançará um recorde histórico de registro de agrotóxicos, com mais de 1000 produtos aprovados em apenas um ano.

O especialista aponta que esse recorde dificilmente será superado por qualquer governo no futuro porque o número de registros e aprovações facilitadas pela Portaria n° 03 será tão significativo.  O problema é que as consequências desse “recorde venenoso imbatível” do governo Lula terá consequências dantescas sobre o ambiente e a saúde humana no Brasil. Enquanto isso, as multinacionais europeias coçam as mãos com a possibilidade de grandes lucros que essa corrida à aprovação vai acarretar.

Após vitória de Milei, governo Lula reforça sua face antiambiental para tentar aprovar acordo comercial com a União Europeia

lula raoni

O presidente Lula coloca adereço entregue pelo cacique Raoni.  O prometido compromisso ambiental parece ter ficado na campanha eleitoral

Que o terceiro mandato do presidente Lula não está sendo exemplar em termos de proteção ambiental já está claro para quem acompanha a situação brasileira com um mínimo de visão crítica.  A combinação de uma postura leniente com os invasores de terras indígenas com a manutenção dos níveis elevados de aprovação de agrotóxicos (muito deles proibidos em outras partes do mundo) já deixava isso transparecer. Além disso, a insistência em pavimentar a BR-319 ligando Manaus a Porto Velho também demonstra que não há realmente uma preocupação séria com a busca de soluções para os graves problemas ocorrendo na maior floresta tropical do planeta, em que pese os crescentes desajustes ambientais que a degradação e o desmatamento já estão causando.

Agora, uma matéria do jornalista Jamil Chade aponta que na esteira da vitória eleitoral do ultradireitista Javier Milei, o governo Lula e a cúpula da União Europeia estão tentando fechar o acordo comercial Mercosul-União Europeia antes que ocorra a troca de cadeiras em Buenos Aires. Para isso, uma cúpula deverá ser realizada no Brasil no dia 6 de dezembro, apenas quatro dias antes da posse de Milei.

Detalhes oferecidos por Chade indicam que o governo Lula vem trabalhando para remover demandas ambientais impostas pela União Europeia, a principal delas sendo a determinação de que haja uma contenção do desmatamento em áreas novas na Amazônia. Lembrando que atualmente a degradação causada por garimpos, extração ilegal de madeira e a intrusão de queimadas vindas das áreas desmatadas (ou não) emitem tanto carbono quanto o desmatamento, essa posição do governo Lula é uma autodeclaração de que não intenciona agir de forma séria para impedir o avanço de franja de desmatamento para áreas ainda relativamente intocadas da floresta amazônica.

A indústria química europeia entre as principais interessadas do acordo

Mas a faceta antiambiental do governo Lula também deixa escancarada a hipocrisia da União Europeia que tem como objetivo comercial continuar empurrando para o mercado brasileiro agrotóxicos que ela mesmo já baniu ou impôs fortes restrições para a continuação do uso, incluindo o caso do herbicida glifosato que é fabricado pela multinacional alemã Bayer.

Como tenho apontado, a questão dos agrotóxicos representa um elemento chave na definição do perfil ambiental do governo Lula, na medida em que a continuidade das políticas de liberalização de aprovação e comercialização que foram determinadas durante a gestão de Jair Bolsonaro e permanecem intocadas até agora, mas com tendências de piora!

Ao pressionar pela assinatura do acordo comercial, o que Brasil e União Europeia fazem é tentar manter o Mercosul como uma destino preferencial dos venenos agrícolas que os países europeus não querem mais usar por conhecerem seus graves riscos ao meio ambiente e os seres humanos.

E por onde Marina Silva?

No meio dessas pressões todas, uma voz que tem feito se ouvir pouco é obviamente o da ministra Marina Silva que vem cumprindo o papel de uma espécie de rainha da Inglaterra da agenda antiambiental do governo Lula.  Quando aparece para falar, Marina Silva mostra que seu foco parece ser algum tipo de evolução para acordos do mercado de carbono durante a Cúpula do Clima (a COP 28) que ocorrerá em Dubai quase uma semana depois da cúpula Mercosul-União Europeia. 

Mas e as demais questões prementes que hoje assolam o Brasil e explicitam a urgência de uma mudança no modelo agrícola que o acordo Mercosul-União Europeia visa preservar e até fortalecer? Sobre isso, Marina Silva marca sua atuação pela ausência de uma crítica sistêmica, preferindo se juntar às vozes que apoiam a assinatura deste malfadado tratado comercial. Em outras palavras, a ministra do Meio Ambiente é mais uma que abraça um acordo claramente antiambiental e pró-corporações.

Governo Lula é mais parte do problema do que da solução

Aos que desejam que o Brasil trilhe um caminho mais sustentável na formulação de suas polítcas econômicas e de uso das florestas nacionais é forçoso reconhecer que o governo Lula é mais parte do problema do que das soluções. Seja pela presença de latifundiários nos ministérios ou pelo abraço das políticas neoliberais por Fernando Haddad, o governo Lula não se mostra disposto a se mover para longe das políticas de Jair Bolsonaro que enfraqueceram as agências de proteção ambiental que hoje operam no limite extremo por falta de orçamento e de pessoal.

Além disso, além do anúncio de ações relacionadas ao chamado PAC 3 que reforçam opções desastrosas para o ambiente e populações tradicionais e povos originários, temos que nos defrontar com o torniquete orçamentário que foi imposto pelo chamado “novo teto de gastos” e a absurda meta do déficit zero em 2024. Com isso, o que teremos é a manutenção de níveis altos de desmatamento e degradação florestal e a expansão do uso de agrotóxicos banidos em outras partes do planeta. 

Com tudo isso, a certeza que fica é que 2024 poderá ser um ano de maior destruição ambiental e de aumento dos custos socioambientais da agenda antiambiental que embala objetivamente as ações do governo Lula.  Este cenário será agravado caso se consiga assinar o Acordo Mercosul-União Europeia antes da posse de Javier Milei.

Ritmo de liberação da agrotóxicos do governo tende a superar o de Bolsonaro, que bateu recorde

Caso seja mantido o ritmo atual, governo deverá superar o anterior, que bateu recorde de novas liberações. Em 11 meses, a média mensal é de 39,18 produtos, ante 42,29 em toda a gestão anterior bolsonarista

air sprayingÀ essa “verdadeira tsunami venenosa” ainda deverão ser acrescidos outros 1.400 que aguardam conclusão das análises 

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – Em pouco mais de 11 meses, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está bem perto de se igualar ao de Jair Bolsonaro (PL) quanto à liberação de agrotóxicos. Nos 48 meses da gestão bolsonarista, foram liberados 2.030, média mensal de 42,29. Já nestes 11 meses de novo governo, 431 – média mensal de 39,18.

Sem alarde, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), chefiado pelo agropecuarista Carlos Fávaro, ex-liderança dos produtores de soja, publicou neste mês duas medidas nesse sentido. Por meio das portarias conjuntas (2 e 3), assinadas também pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), concedem “celeridade e segurança”  à aprovação dos pedidos de registros e alterações de pós-registros de agrotóxicos e afins.  

A Portaria 2 estabelece as diretrizes para alterações de registro quanto às inclusões ou exclusões de Produto Técnico ou Pré-Mistura registrados, formulados, manipulados e embalagens. O objetivo é facilitar os trâmites administrativos e os recursos humanos disponíveis, direcionando-os para avaliações que requerem análise técnica. 

E a de número 3 determina os procedimentos específicos para distribuição dos processos pendentes, cumprindo assim o artigo 3° do Decreto 10.833/2021, que estipula quatro anos para análise dos processos protocolados antes de sua entrada em vigor. Assinado por Bolsonaro, o decreto alterou a regulamentação da atual Lei de Agrotóxicos (Lei 7.802/1989). Na época, a medida foi considerada uma antecipação de pontos do Pacote do Veneno. Aprovado na Câmara e em tramitação no Senado, esse pacote na prática facilita ainda mais o registro, produção e venda desses produtos, dificultando a fiscalização e o controle.

Parte significativa é banida na maioria dos países

“Nos quatro anos de Bolsonaro e nos 11 primeiros meses do terceiro mandato de Lula, o Brasil lançou no mercado de venenos agrícolas mais de 3.000 agrotóxicos, sendo que uma quantidade significativa deles está banida em outras partes do mundo por serem altamente prejudiciais ao meio ambiente e à saúde humana”, alerta o professor e pesquisador da Universidade Estadual no Norte Fluminense (Uenf) Marcos Pedlowski, em seu blog.

Para piorar, conforme ele, a essa “verdadeira tsunami venenosa” ainda deverão ser acrescidos outros 1.400, que estão na fila aguardando análise para liberação. Como esses 1.400 processos foram protocolados antes de outubro de 2021, têm de ser finalizados em quatro anos – no caso, até 2025 no máximo, ainda no governo Lula. Só com essas liberações, o atual governo já poderia superar a média caso mantenha o atual ritmo de liberações. Pedlowski destaca ainda que desse total, 800 produtos são “clones”, ou genéricos, que têm processo analisados em prazo menor.

“Segundo declarações vindos do Mapa, tal agilização se faz necessária para impedir processos judiciais causados pela demora de aprovação e também para baratear o custo do uso de agrotóxicos. Essas duas alegações são, no mínimo, falaciosas, na medida em que dado o ritmo de aprovações ocorrido nos últimos cinco anos, não há nenhum atraso na análise de processos”, destaca Pedlowski, que acompanha de perto as liberações. “Além disso, ao contrário do prometido, essa volumosa aprovação de agrotóxicos não serviu para baixar preços e o que tem ocorrido é justamente o contrário.”

O professor chama atenção para o governo Lula, que descumprir seus compromissos com o desenvolvimento de um modelo agroecológico, capaz de reverter os danos à água, solos e seres vivos causados em todo o Brasil. “Superar esse modelo é uma necessidade cada vez maior, dadas as evidências científicas que estão surgindo em torno dos impactos sobre a saúde humana causados pelo uso abusivo de agrotóxicos em todas as regiões brasileiras”.


compass black

Este texto foi publicado inicialmente pela Rede Brasil Atual [Aqui!].