Jornal alemão entrevista Alan Tygel, dirigente da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos

tratorAté agora, a agroindústria brasileira tem se beneficiado dos negócios de exportação (Gloria de Dourados, Mato Grosso do Sul, 13 de outubro de 2021)

Entrevista por Jan Pehrke para o JungeWelt

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, explicou a mudança para uma agricultura sustentável e o fortalecimento da agricultura familiar. Você acredita nisso?

Lula foi eleito por um amplo espectro de forças políticas cujo objetivo principal era derrubar Jair Bolsonaro. Apesar dessa ampla aliança, Lula venceu apenas por uma margem de menos de dois por cento. Consequentemente, ele deve formar um governo que reflita essa aliança. Existem facções dentro do governo que defendem o “capitalismo verde”. Outros, mais próximos de nós, entendem que a agricultura sustentável só pode ser alcançada por meio de uma profunda reforma agrária e proteção das terras indígenas, proibições generalizadas de agrotóxicos, foco agroecológico na agricultura e forte regulamentação governamental dos mercados de alimentos.

O governo já anunciou um programa concreto de política agrícola?

Não, mas há alguns sinais muito positivos. Lula criou o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e transferiu para este ministério a Agência de Abastecimento, a Conab e o INCRA. Ambas as instâncias estavam sediadas no Ministério da Agricultura, totalmente voltado para o agronegócio de grande porte. A Conab é responsável pela bem-sucedida política de compras de gêneros alimentícios estabelecida durante os primeiros mandatos de Lula e Dilma Rousseff.  A Conab garante à agricultura familiar, principalmente agroecológica, que sua produção seja comprada pelo Estado e distribuída para escolas, hospitais, presídios e outras instituições públicas.

Outro sinal muito positivo foi a recriação do Conselho de Segurança e Soberania Alimentar. Depois dos números baixíssimos de famélicos durante os mandatos de Lula e Dilma, cerca de 33 milhões de pessoas passam fome e cerca de 100 milhões estão em situação de insegurança alimentar.

O que você acha que deveria acontecer primeiro?

As estruturas do Estado foram destruídas nos últimos quatro anos, incluindo todo o quadro dos sistemas de segurança social. Lula já anunciou várias medidas de renda mínima e políticas habitacionais para os mais necessitados. Os próximos passos teriam que envolver os agricultores familiares na estratégia de combate à fome.

O atual líder da Frente Parlamentar do Agronegócio, Pedro Lupion, é um extremista ferrenho e tentará causar sérios problemas ao governo. A situação futura depende muito do sucesso da estratégia econômica de Lula para combater a pobreza e a fome e restaurar a dignidade das pessoas.

O agrolobby em geral e o grupo alemão Bayer em particular aderiram a Bolsonaro ?

O agronegócio está intimamente ligado a  Jair Bolsonaro. A política de desvalorização cambial do governo Bolsonaro favoreceu esse segmento, que exporta a maior parte de sua produção e essa exportação se torna mais lucrativa com a cotação do dólar mais alta. Internamente, porém, isso provocou um aumento inflacionário nos preços do óleo de soja, apesar de o Brasil ser o maior produtor mundial de soja. A Bayer não tem uma posição clara. No entanto, as associações às quais o grupo pertence apoiam think tanks como o Instituto Pensar Agro, que define a estratégia para todo o agrolobby.

Qual é a posição de sua campanha sobre o acordo Mercosul da UE com Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai?

O acordo em sua forma atual é muito perigoso para a agricultura familiar e para a agroecologia. Em sua essência, favorece a importação de produtos industriais, como pesticidas, e a exportação de commodities básicas.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Reforma agrária continua parada após 2 meses de governo Lula, impedindo avanço no combate à fome

Orçamento de 2023 prevê apenas R$ 2,4 milhões para aquisição de terras e criação de novos assentamentos, dificultando cumprimento de promessa de reverter retrocessos do governo Bolsonaro; no Incra ainda falta indicar os gestores estaduais

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Por Daniela Penha e Diego Junqueira para a Repórter Brasil

Duas trouxas de roupas. Foi o que sobrou para Aziel Souza dos Santos, a esposa e os quatro filhos pequenos recomeçarem a vida após terem sido expulsos do acampamento Hugo Chávez, em Marabá (PA) em 2018. As 250 famílias que viviam ali aguardam desde então por um pedaço de terra para trabalhar, e esperavam notícias melhores com a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao poder. Mas apesar de o novo governo apostar na reforma agrária para combater a fome, pouco mudou em 60 dias de gestão.

Em 2018, cerca de 250 famílias foram expulsas do acampamento Hugo Chávez, em Marabá (PA), e desde então aguardam solução (Foto: Divulgação/Assessoria de Comunicação da CPT Nacional)

A demora para definir o novo presidente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), anunciado apenas nesta semana, é apontada por movimentos de trabalhadores do campo como um dos motivos para o atraso na retomada da reforma agrária. No entanto, o baixo orçamento deixado pelo governo de Jair Bolsonaro para este ano, o pouco crédito para a produção e o desmonte das políticas de desapropriação e distribuição de terras são vistos como desafios. Reverter esse cenário é considerado urgente pelos movimentos ouvidos pela Repórter Brasil, mas o plano continua engavetado.

“A gente achava que iria começar a toda velocidade, porque já são seis anos de desgoverno”, lamenta o sociólogo Givanilson Porfírio da Silva, assessor da presidência da Contag (Confederação Nacional do Trabalhadores na Agricultura), que fez parte do grupo de desenvolvimento agrário na equipe de transição. “Ainda é o governo Bolsonaro nas superintendências [estaduais] do Incra. Se isso não mudar, nada adianta, porque são as equipes locais que executam as políticas”.

Durante o governo Bolsonaro, a vida dos camponeses ficou “suspensa” devido à paralisação de todos os processos de aquisição, vistoria, regularização e distribuição de terras, medida determinada na primeira semana de seu mandato, em 2019. Atualmente há 360 processos de criação de assentamentos congelados, de acordo com o Incra. Enquanto isso, 90 mil famílias vivem acampadas pelo país, segundo o MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

O governo Lula ainda não detalhou o plano de reforma agrária, mas o relatório da equipe de transição aponta alguns caminhos: voltar a reassentar trabalhadores, ampliar a concessão de crédito para o plantio, reforçar a assistência técnica e revisar o cadastramento das famílias.

Além disso, a reforma vai se articular com outros programas que também devem ser reforçados, como o de produção de alimentos saudáveis, redução de agrotóxicos e compras públicas de alimentos. O Programa de Aquisição de Alimentos, por exemplo, chegou a ter orçamento de R$ 1 bilhão em 2014, mas recuou para 2,6 milhões em 2023. A gestão é do Ministério do Desenvolvimento Agrário e da Agricultura Familiar. Com Lula, a pasta passou a comandar a Companhia Nacional de Abastecimento, que também sofreu cortes importantes no governo Bolsonaro e estava sob guarda-chuva do Ministério da Agricultura.

Essas políticas são necessárias para combater a fome, segundo o governo, pois a agricultura familiar é a principal responsável pelos alimentos que chegam à mesa da população. Por isso, o objetivo é ampliar a área plantada de culturas alimentares como arroz, feijão e mandioca, já que o governo avalia que nos últimos anos as políticas públicas priorizaram os plantios de soja, milho e café e a bovinocultura, em razão dos preços favoráveis no mercado internacional.

Além de distribuir terra, a reforma agrária precisa vir acompanhada de políticas públicas para que os agricultores familiares não desistam de produzir (Foto: Gustavo Marinho/MST)

“É necessário combater o agronegócio como forma de produção de alimentos, porque isso está adoecendo o país”, afirma Pablo Neri, que integra a coordenação nacional do MST. “É pelo combate à fome que vamos ter que reformular a reforma agrária no Brasil”, concorda Ademir de Lucas, especialista em extensão rural e organização de produtores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP).

Reconstrução

Qualquer política a ser implantada, entretanto, vai esbarrar na falta de recursos. Em 2011, o programa de aquisição de terras para a criação de novos assentamentos tinha R$ 930 milhões em caixa, cifra que caiu gradualmente até sofrer um corte abrupto em 2017, com Michel Temer, quando chegou a R$ 41 milhões. O orçamento de 2023, elaborado pelo governo Bolsonaro e aprovado no Congresso no ano passado, destina irrisórios R$ 2,4 milhões. “Isso não dá para comprar nem um apartamento em Brasília, imagina uma propriedade rural”, critica Silva, da Contag.

Para driblar a falta de orçamento, um dos primeiros passos é levantar e organizar informações. Hoje, segundo o Incra, os processos de aquisição de terras para criar novos assentamentos não estão informatizados, o que dificulta o planejamento e o controle da reforma agrária.

Além disso, faltam dados até sobre as terras públicas – que pertencem ao próprio governo e, por isso, poderiam ser distribuídas sem a necessidade de adquirir áreas privadas. “O governo não tem uma dimensão do que é terra pública e do que pode ser destinado para reforma agrária”, salienta Isolete Wichinieski, que integra a coordenação nacional da CPT (Comissão Pastoral da Terra).

Após identificar as terras disponíveis, a segunda etapa seria estudar o histórico dos acampamentos que aguardam regularização para selecionar os casos mais sensíveis. Para Wichinieski, é urgente pensar na Amazônia Legal. “É um dos territórios com mais conflitos e, do ponto de vista de terras públicas, é o que mais tem”, diz.

Outro desafio é recuperar o espírito original da reforma agrária, pois o governo Bolsonaro substituiu o programa por uma política de concessão de títulos provisórios para quem já era assentado. Os títulos de domínio dão a propriedade da terra para o assentado, ao contrário do que ocorre na concessão de direito de uso, em que a área do assentamento permanece coletiva e não pode ser comercializada. Ao titularizar a terra, o governo se exime da responsabilidade de promover políticas públicas no local e, na prática, também insere essas terras no mercado.

Sem incentivo, os pequenos produtores acabam vendendo as áreas que conquistaram para grandes fazendeiros, o que pode agravar ainda mais os conflitos no campo e a concentração de terras.

A agricultura familiar é a principal responsável pela produção de alimentos no país, e incentivá-la é essencial no combate à fome (Foto: Divulgação/MST)

Espera amarga

A expulsão da família de Aziel do acampamento Hugo Chávez, em Marabá (PA), causa traumas até hoje. Em uma madrugada de julho de 2018, pistoleiros chegaram atirando, ameaçando moradores e ateando fogo em tudo o que encontraram. Um dos alvos era a esposa de Aziel.

“A gente fala que foi livramento. Ela conseguiu fugir. Eles ameaçaram nossa filha, uma criança. Diziam que iriam jogar a menina no carro pegando fogo. Um companheiro conseguiu tirar ela de lá”, ele relembra o terror.

O Incra informou que já tentou a compra da fazenda onde está o acampamento, mas não houve acordo com o proprietário. As famílias continuam aguardando, alojadas em outro acampamento há quase cinco anos.

A espera e a violência alimentam o medo, que eles driblam para seguir. “A gente não pode deixar que esse medo nos impeça de lutar pela nossa família e pelas outras. A luta pela terra é árdua”, diz.

Esta reportagem foi realizada com o apoio da DGB Bildungswerk, no marco do projeto PN: 2020 2611 0/DGB0014, sendo seu conteúdo de responsabilidade exclusiva da Repórter Brasil


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Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Desmatamento recorde na floresta amazônica mostra o tamanho do desafio de Lula

Satélites mostram destruição recorde para o mês de fevereiro, enquanto o novo governo tenta desfazer os danos causados ​​​​por Bolsonaro

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O desmatamento atingiu a maior alta em 15 anos durante a presidência de Jair Bolsonaro. Fotografia: Ueslei Marcelino/Reuters

Por Constança Malleret no Rio de Janeiro para o “The Guardian”

O desmatamento na floresta amazônica brasileira aumentou em fevereiro para o nível mais alto já registrado para o mês, destacando a escala do desafio enfrentado pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva , que tenta desfazer a destruição ambiental causada pelo ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro.

Satélites do governo mostram que um recorde de 322  km2 de floresta amazônica foi destruído em fevereiro, um aumento de 62% em relação ao ano passado e o maior número para o mês desde o início dos registros.

Lula, que assumiu o cargo em 1º de janeiro deste ano, prometeu acabar com a extração ilegal de madeira depois que o desmatamento atingiu uma alta de 15 anos durante os anos de Bolsonaro.

Com o Ministério do Meio Ambiente novamente comandado pela ambientalista Marina Silva , que liderou a forte queda do desmatamento na mesma função durante o primeiro mandato de Lula, o governo reativou o Fundo Amazônia, ferramenta fundamental para a preservação, e recriou uma sociedade civil conselho do meio ambiente – ambos abandonados no governo Bolsonaro.

Silva também ignorou e atualizou um plano de prevenção e controle do desmatamento que formava a espinha dorsal de suas políticas bem-sucedidas há quase duas décadas.

São passos importantes, mas “a inovação é necessária, pois a Amazônia hoje não é a mesma de 10, 20 anos atrás”, disse o porta-voz do Greenpeace Brasil , Rômulo Batista.

O crime e a violência explodiram no governo anterior, pois o desdém de Bolsonaro pela floresta tropical e pelas pessoas que a protegem encorajou criminosos de todos os tipos, incluindo os assassinos do especialista indígena Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips . Enfrentar a crise exigirá a reconstrução da mão de obra das agências ambientais que foram estripadas pelo populista de extrema direita, um processo que não pode acontecer da noite para o dia, disse Batista.

“O grileiro, o desmatador, o garimpeiro, estão aproveitando esse tempo para correr para derrubar a floresta”, disse Batista.

Após dados preliminares apontarem para o aumento da destruição em fevereiro, Silva disse a repórteres no mês passado que os madeireiros estavam trabalhando mesmo durante a estação chuvosa da Amazônia como uma “espécie de vingança” contra a repressão do atual governo.

Os números do desmatamento são tipicamente mais baixos no início do ano, já que a estação chuvosa na Amazônia dificulta o desmatamento e a cobertura de nuvens significa que os satélites têm menos probabilidade de detectá-lo. Por esse motivo, os analistas alertaram contra a comemoração de uma queda no desmatamento em janeiro.


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Este texto foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

A refinaria e as jóias, tudo junto e misturado

Ainda que sirva muito bem para a campanha de limpeza ideológica para erradicar (ou menos tentar) Jair Bolsonaro do posto de “mito”, a história das jóias não declaradas também se presta para não discutir o essencial, que foi o crime de lesa-pátria cometido na privatização da Refinaria Landulfo Alves (Rlam) para o fundo soberano Mubadala por US$ 1,8 bilhão quando avaliadores tinham dito que a unidade valia entre US$ 3 e US$4 billhões.

Ao não determinar imediatamente que sejam tomadas as devidas providências para anular essa venda absurda, o que são os US$ 16 milhões que as jóias apreendidas pela Receita Federal no Aeroporto de Guarulhos equivale ao que os gringos chamam de “saco de amendoins”. 

Aliás, como voltamos a beirar os R$ 6,00 pelo litro de gasolina na cidade de Campos dos Goytacazes, há que se lembrar que uma das promessas de campanha do candidato Lula era rever uma outra situação de lesa-pátria que é o chamado Preço de Paridade Internacional (PPI) é uma política de preço criada em 2016, durante o governo do ex-presidente de facto Michel Temer. É que graças ao PPL que estamos pagando muito mais do que devíamos enquanto país produtor de petróleo, com os principais beneficiários sendo os acionistas minoritários da Petrobras.

Se não houver imediatamente a realização de esforços para anular tanto a privatização da Rlam como a vigência do PPL, o governo Lula estará cometendo um estelionato eleitoral grave, visto que mudanças efetivas na gestão da Petrobras e da política de combustíveis estavam sim entre as promessas de campanha.

Por último, é importante ver se alguma medida vai ser tomada para rever o lote de jóias que passou batido pela Receita Federal em Guarulhos e que hoje estão no acervo pessoal de Jair Bolsonaro. Aliás, pensando bem, o que será mais que passou pela alfândega nas muitas viagens realizadas pelo ex-presidente que hoje estão em seu “acervo pessoal” e não nos depósitos de bens públicos que são os lugares onde esses “regalos” deveriam estar?

O voto anti-russo na ONU ainda provocará dor de cabeça ao governo Lula. É a geopolítica, estúpido!

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A guerra que ocorre na Ucrânia entre a Organização do Tratado do Atlântico Norte liderada pelo governo dos EUA e a Rússia está causando fortes abalos nas tectônicas que controlam a geopolítica mundial. Ás vésperas desta guerra completar um ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou mais uma daquelas resoluções do tipo “para inglês ver” em que há uma condenação unilateral da Rússia, trazendo apenas um adendo envergonhado que foi apresentado pela representação do Brasil no sentido de que sejam realizados esforços pela paz. Na prática, o Brasil se alinhou de forma obediente às pressões feitas pelo governo Biden, pouco tempo após a visita do presidente Lula a Washington DC.

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O voto brasileiro vai de encontro à declarações anteriores do presidente brasileiro de que o Brasil permaneceria neutro em nome de do estabelecimento de uma posição estratégica em prol da cessação das hostilidades.  Como toda essa situação tem mais a ver com o enfraquecimento da ordem mundial imposta pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial do que com os interesses dos povos da Rússia e da Ucrânia, a mudança de posição do Brasil reflete um alinhamento do governo Lula a uma ordem que está se esfarelando.  Nesse sentido, do ponto de vista geopolítico, o voto brasileiro é, no mínimo, equivocado.

Mas como a geopolítica opera a partir de elementos práticos, incluindo a economia, a decisão brasileira de se alinhar à posição estadunidense faz menos sentido ainda. É que a China, principal parceiro comercial brasileiro, se manteve na posição de neutralidade, o mesmo acontecendo com Índia e África do Sul que junto com o Brasil formam o bloco conhecido como BRICS. Esse apartamento brasileiro em relação à China e os outros membros do bloco emergente certamente terá custos imediatos e duradouros para o Brasil, na medida em que não estamos vivendo um momento em que certos desvios serão perdoados facilmente.Nesse sentido, o voto brasileiro é um verdadeiro tiro no pé.

Ah, sim, antes que alguém venha aqui me imputar qualquer tipo de alinhamento com a figura de Vladimir Putin, digo logo que não gastem o dedo à toa.  Não nutro qualquer simpatia por Putin e seu modelo de governo. Por outro lado, não sou ingênuo a ponto de cair na retórica da mídia corporativa ocidental que tenta reduzir todos os problemas que cercam a guerra da Ucrânia  a desvios de personalidade de Putin.  O fato é que a versão difundida de forma quase unânime pelos grandes veículos de mídia ocidental, incluindo a brasileira, despreza todos os fatos concretos que antecederam à eclosão deste conflito, a começar pelo encercamento da Rússia por bases militares da OTAN.

Finalmente, há que se reforçar o elemento de hipocrisia que cerca a posição dominante na ONU que condena a Rússia, enquanto se omite o acontecimento de outros conflitos em curso, onde forças estatais massacram populações civis com o dinheiro e armas fornecidos pelo mesmo grupo de países cujos governos gastam hoje centenas de bilhões de dólares para armar as forças armadas da Ucrânia.

Observatório dos Agrotóxicos: Em contradição com o discurso da vitória, governo Lula dá continuidade à liberação desenfreada de venenos agrícolas

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Venho dizendo que a questão dos agrotóxicos e a política  de liberação de produtos banidos em outras partes do mundo por sua alta periculosidade é um dos principais desafios do governo Lula, na medida em que explicitará tensões internas e pressões vindas do latifúndio agro-exportador para que a farra de liberações continue intacta.

Pois bem, a edição desta segunda-feira (13/02) do Diário Oficial da União confirma que, apesar do discurso do presidente Luis Inácio Lula da Silva no dia em que venceu as eleições presidenciais de 2022 de que em seu novo mandato a agroecologia seria priorizada para a criação de uma nova agricultura no Brasil, as coisas continuam como dantes no Quartel de Abrantes. É que com a publicação dos atos 5 e 6 de 2023 foram liberados mais 48 agrotóxicos (22 formulados e 26 produtos técnicos), dando continuidade ao processo de inserção de produtos altamente perigosos na agricultura brasileira.

Da mesma forma que ocorreu ao longo dos quatro anos do governo Bolsonaro, o “Observatório dos Agrotóxicos” do Blog do Pedlowski irá divulgar em breve as duas planilhas contendo as informações sobre cada um dos venenos liberados. Uma primeira leitura dos atos 5 e 6 mostra a persistência das mesmas características daquilo que ocorreu nos últimos 4 anos, com a presença de produtos banidos na União Europeia e a predominância de empresas chinesas no fornecimento dos “novos” agrotóxicos.

O que fica claro já no início do terceiro mandato do presidente Lula é que vai ser preciso continuar acompanhando e documentando a escalada de aprovação de venenos agrícolas, de modo a instrumentalizar e apoiar grupos de pesquisas e organizações sociais que estejam envolvidos na luta pela erradicação de agrotóxicos da produção agrícola brasileira. Apoiar a luta por uma agricultura de base ecológica continuará sendo uma das tarefas prioritárias que este blog seguirá cumprindo.

E a explicação para a prioridade acima é relativamente simples: se essa enxurrada de aprovações de agrotóxicos continuar, o Brasil será palco de uma grave crise social, econômica e sanitária nos próximos anos.

Governo Lula realiza suas primeiras ações de repressão ao desmatamento ilegal na Amazônia

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Por Jake Spring para a Reuters

URUARA, Brasil, 19 Jan (Reuters) – As primeiras incursões do Brasil contra o desmatamento ilegal na floresta amazônica sob o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estavam em andamento na quinta-feira, após a promessa do novo líder de acabar com a destruição que aumentou sob seu antecessor Jair Bolsonaro.

A Reuters acompanhou exclusivamente as incursões lideradas pela agência ambiental Ibama no estado da floresta tropical do Pará para impedir que madeireiros e fazendeiros derrubassem ilegalmente a floresta. A agência também lançou batidas esta semana nos estados de Roraima e Acre, disse a coordenadora de fiscalização ambiental do Ibama, Tatiane Leite.

Cerca de 10 agentes do Ibama partiram em caminhonetes na quinta-feira de sua base no município de Uruara, no Pará, juntamente com uma dezena de policiais federais, em direção a uma reserva indígena onde imagens de satélite mostraram madeireiros e fazendeiros trabalhando recentemente na derrubada ilegal da floresta. A missão visa deter ou afugentar madeireiros para evitar novas incursões na floresta e multar quem for flagrado com madeira ilegal.

O governo Bolsonaro reduziu o número de funcionários e fundos para fiscalização ambiental do Ibama em seus quatro anos de mandato, enquanto o ex-presidente criticou repetidas vezes o órgão por emitir multas a fazendeiros e mineradores.

Bolsonaro deu aos militares e depois ao Ministério da Justiça autoridade sobre as operações de combate ao desmatamento, deixando de lado o Ibama , apesar da vasta experiência e sucesso da agência no combate à destruição da Amazônia.

Uma área maior que a Dinamarca foi desmatada sob Bolsonaro, um aumento de 60% em relação aos quatro anos anteriores.

Lula na campanha eleitoral do ano passado prometeu colocar o Ibama de volta no comando do combate ao desmatamento com financiamento e pessoal reforçados. Ele assumiu o cargo em 1º de janeiro, então dinheiro adicional e equipe ainda não chegaram aos policiais da linha de frente. Mas agentes do Ibama disseram à Reuters que já se sentiam mais fortalecidos por Lula anunciar a proteção ambiental como prioridade máxima.

O governo de Bolsonaro negou vários pedidos da Reuters para acompanhar as missões do Ibama durante seu governo 2019-2022. Seu governo instituiu uma liminar proibindo os agentes do Ibama de falar com a imprensa, que, segundo os agentes, já foi revogada no governo Lula.

“Divulgar batidas para dissuadir criminosos ambientais já é uma grande mudança. Isso não acontecia no governo anterior, cujo objetivo era mostrar que não estávamos fazendo nada”, disse Givanildo dos Santos Lima, agente que comanda a missão Uruara do Ibama.

Lula assumiu o cargo pela primeira vez em 2003, quando o desmatamento da Amazônia estava próximo de seu recorde histórico, e por meio da estrita aplicação das leis ambientais o reduziu em 72%, para um nível quase recorde quando deixou o cargo em 2010.

Jake Spring é  Correspondente Global de Clima e Meio Ambiente, baseado no Brasil. Os interesses incluem ciência, florestas, geoengenharia, criosfera, política/diplomacia climática, responsabilidade e reportagens investigativas. Seu trabalho sobre a destruição ambiental sob o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, recebeu prêmios da Covering Climate Now e da Society of Environmental Journalists. Anteriormente baseado na China, ele é fluente em português e chinês mandarim.


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pela agência Reuters [Aqui!].