Bolsonaro e Zé Trovão, quem diria, uma telenovela legitimamente mexicana

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Tenho lido e ouvido incontáveis análises sobre o cenário criado pelas manifestações convocadas pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 7 de setembro e seu desdobramento mais óbvio, o misto de greve e locaute liderada pelo auto proclamado líder caminhoneiro (não sei por quê, mas lembrei aqui do auto proclamado presidente venezuelano Juan Guaidó)  Marcos Antônio Pereira Gomes, mais conhecido como Zé Trovão.

É que o desdobramento acabou resultando em bloqueios de estradas que, indo além das bravatas de palanque, obrigaram um contrito presidente Jair Bolsonaro a fazer um pronunciamento claramente a contragosto via Whatsapp onde pediu a desmobilização da categoria em nome, pasmemos todos, dos mais pobres, apenas para ser vítima de uma paródia impiedosa do humorista Marcelo Adnet (ver vídeo abaixo).

Agora se sabe que Pereira Gomes (a.k.a Zé Trovão), para evitar ser preso pela Polícia Federal, tinha se mandado para o México, pátria de famosos novelões. E de lá Zé Trovão foi do céu ao purgatório, visto que pode notar o seu lento abandono por parte do presidente da república, algo que já tinha ocorrido com outras figuras que se arvoraram a ser as mãos que transformariam os discursos de Jair Bolsonaro em ações reais, apenas para serem deixados ao léu.

Eu diria que, ao contrário de muitos analistas engalonados, eu modesto vejo que o presidente Bolsonaro acabou sendo enredado na teia que ele mesmo criou, pois agora se arrisca a perder o apoio de um grupo com conhecida capacidade de circulação não apenas de bens e mercadorias, mas também de conteúdos produzidos para acirrar a disputa política no Brasil. Esse desdobramento, convenhamos, promete abrir mais capítulos na telenovela mexicana em que acabamos enfiados nas últimas semanas.

Finalmente, vamos se daqui a pouco não aparece a Ana Raio para tentar salvar o Zé Trovão. É que tudo indica que se depender de Bolsonaro, Zé Trovão vai tomar o raio.

Jair Bolsonaro está sob pressão

Investigações e protestos em massa contra o chefe de estado de direita no Brasil

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“Um bom Bolsonaro é um Bolsonaro preso”: A solidariedade com os protestos no Brasil também foi mostrada na metrópole catalã de Barcelona. Foto: imagens imago / ZUMA Wire
Por Peter Steiniger para o “Neues Deutschland”

“Fora com o Bolsonaro!” Em mais de uma centena de cidades em todo o Brasil, as pessoas protestaram no sábado contra a desastrosa política de saúde durante a pandemia corona em seu país . O impeachment do líder extremista de direita Jair Bolsonaro foi convocado em manifestações e comícios. O início de tal impeachment, solicitado pela oposição, é bloqueado pelo presidente da Câmara de Deputados e apoiador do Bolsonaro, Arthur Lira. De acordo com os organizadores, cerca de 800 mil pessoas participaram das manifestações. Os protestos foram, portanto, maiores do que nos dias anteriores de ação em 29 de maio e 19 de junho.

Os protestos foram alimentados pela abertura pelo Supremo Tribunal Federal de uma investigação sobre o Bolsonaro na sexta-feira em conexão com a corrupção na compra da vacina indiana Covaxin. Durante semanas, uma comissão investigativa do Senado trouxe novos detalhes à luz sobre como a proteção da população contra o coronavírus foi sabotada pelo governo de Bolsonaro. O vírus ameaça particularmente as camadas mais pobres da população em condições de vida precárias na periferia das grandes cidades e os povos indígenas do vasto país.

Em vários lugares fora do Brasil, incluindo cidades alemãs como Berlim, Colônia, Münster e Friburgo, ações de solidariedade com o movimento de protesto contra Bolsonaro aconteceram neste final de semana.

O presidente Jair Bolsonaro atacou os manifestantes nas redes sociais e as conectou com os manifestantes. Ao mesmo tempo, ele criticou a cobertura da mídia e reiterou sua afirmação de que a oposição queria chegar ao poder no próximo ano por meio da manipulação eleitoral. Nas pesquisas, o político de esquerda Lula Inácio Lula da Silva está claramente à frente de Bolsonaro.

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Mídia corporativa oculta sucesso das manifestações e mostra que segue o projeto ultraneoliberal de Bolsonaro e Guedes

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Pelo que pude acompanhar nas redes sociais, o sucesso das manifestações políticas contra o governo Bolsonaro ocorridas no dia de ontem surpreendeu até os seus organizadores. É que, convenhamos, sem um comando unificado e com pedidos de dentro da dita oposição institucional para que as pessoas ficassem em casa,  a presença nas manifestações foi acima daquelas que colocaram pessoas nas ruas para apoiar o presidente Jair Bolsonaro (ver imagem abaixo).

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Mas se não fosse pelo jornal inglês “The Guardian“, o mundo acharia que tudo foi dentro do normal aqui no Brasil, visto que a imensa maioria dos veículos da mídia corporativa (local, regional e nacional) decidiu ignorar os atos que ocorreram em cerca de 200 cidades brasileiras e no mundo. É como se as cenas de ruas e avenidas lotadas por oposicionistas nunca tivessem ocorrido.

A razão para esta omissão de reportar os fatos é muito simples: os proprietários da mídia corporativa brasileira podem até fingir que são oposição ao governo Bolsonaro, muito em parte por causa de seus supostos arroubos discursivos, mas estão firmemente comprometidos com a agenda ultraneoliberal desenhada por Paulo Guedes e aplicada de forma integral por Jair Bolsonaro.  Na prática, o que os barões da mídia corporativa gostariam de ter um Jair Bolsonaro “de punhos de renda”,  de modo a permitir que Paulo Guedes sua agenda de extermínio do Estado brasileiro na penumbra e sem ser notado. Essa é a verdade inescapável diante da clara omissão de informar aos seus leitores o que ocorreu ontem nas ruas brasileiras e de várias capitais europeias. 

Por isso é que eu digo, com todos os seus defeitos e exageros, a melhor informação que podemos ter não vem mais dos jornalões da mídia corporativa, mas das redes sociais.  É essa capilaridade que, inclusive, deixa a mídia corporativa cada vez menos atraente para quem quer ter informação, explicando também a decadência da maioria dos veículos que vivem cada vez mais a proximidade do fechamento.

The Guardian noticia o #29 de Maio e informa que dezenas de milhares foram às ruas pedir o impeachment de Jair Bolsonaro

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Manifestantes nas ruas do Rio de Janeiro no sábado. Quase 500.000 brasileiros morreram com coronavírus. Fotografia: Bruna Prado / AP

Por Tom Phillips, no Rio de Janeiro, para o “The Guardian”

Dezenas de milhares de manifestantes foram às ruas das maiores cidades do Brasil para exigir o impeachment do presidente Jair Bolsonaro por sua resposta catastrófica a uma pandemia de coronavírus que ceifou quase meio milhão de vidas de brasileiros.

Os manifestantes compareceram em mais de 200 cidades e vilas para aquela que é a maior mobilização anti-Bolsonaro desde o início do surto de COVID-19 no Brasil

“Hoje é um marco decisivo na batalha para derrotar a administração genocida de Bolsonaro”, disse Silvia de Mendonça, 55, uma ativista de direitos civis do Movimento Negro Unificado do Brasil, enquanto liderava uma coluna de manifestantes pelo dilapidado centro da cidade do Rio.

Osvaldo Bazani da Silva, um cabeleireiro de 48 anos que perdeu o irmão mais novo para a COVID-19 , disse: “Não podemos perder mais vidas de brasileiros. Precisamos ir às ruas todos os dias até que este governo caia. ” 

Manifestantes chutam um adereço de cabeça representando o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante um protesto no Rio de Janeiro no sábado.

Manifestantes chutam um adereço de cabeça representando o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante um protesto no Rio de Janeiro no sábado. Fotografia: Pilar Olivares / Reuters

No Rio, muitos manifestantes carregavam cartazes caseiros lembrando seus entes queridos que perderam em uma epidemia que matou quase 460.000 brasileiros, o segundo maior número oficial de mortos depois dos Estados Unidos. “Estou aqui em sua memória”, disse Luiz Dantas, 18, segurando uma fotografia do avô, Sebastião, falecido em fevereiro aos 75 anos.

“O culpado tem um primeiro e um segundo nome”, afirmou Dantas, referindo-se ao presidente de extrema direita de seu país, que repetidamente banalizou o coronavírus como uma “pequena gripe” e sabotou esforços de contenção, como distanciamento social ou bloqueio.

“Eu quero justiça”, acrescentou o adolescente, derramando lágrimas enquanto falava.

Irene Grether, uma psicanalista de 69 anos que também estava na manifestação, disse que dois parentes morreram como resultado da inação de seu governo. “Este governo é mais perigoso do que o vírus”, disse ela, enquanto milhares de manifestantes se reuniam perto de uma estátua em memória do líder da resistência antiescravista Zumbi dos Palmares.

Manifestantes protestam contra Jair Bolsonaro em frente ao Monumento Zumbi no Rio de JaneiroManifestantes protestam contra Jair Bolsonaro em frente ao Monumento Zumbi, no Rio de Janeiro, no sábado. Fotografia: Pilar Olivares / Reuters

A sobrinha de Grether, uma economista de 46 anos chamada Ana Paula Carvalho, disse acreditar que Bolsonaro deveria ser levado ao tribunal penal internacional de Haia “por crimes contra o povo brasileiro”. “Ele promove a morte e a destruição”, disse ela. “O Bolsonaro é uma tragédia brasileira.”

Bolsonaro defendeu sua resposta à pandemia, alegando que sua oposição obstinada ao bloqueio visa projetar a subsistência e empregos brasileiros. Mas Carvalho disse que ao permitir a propagação descontrolada do vírus – e ao não adquirir vacinas suficientes – Bolsonaro destruiu a economia, assim como vidas. “Hoje o povo brasileiro pode escolher entre morrer de vírus ou de fome”, disse ela.

As manifestações de sábado – que também ocorreram nas principais cidades, incluindo São Paulo, Belo Horizonte, Recife e a capital Brasília, bem como em dezenas de cidades menores – vêm com Bolsonaro em sua pior fase desde que assumiu o cargo em janeiro de 2019.

As pesquisas sugerem uma raiva crescente com a forma como o populista de direita está lidando com Covid, com 57% da população agora apoiando seu impeachment . Um inquérito do Congresso está atualmente dissecando a calamitosa resposta de Bolsonaro à crise de saúde pública, com revelações prejudiciais sobre a conduta de seu governo sendo transmitidas todas as noites no noticiário.

Bolsonaro parece particularmente abalado com o ressurgimento de seu rival político Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente de esquerda que parece prestes a desafiá-lo à presidência na eleição do próximo ano. Em entrevista recente ao “The Guardian”, Lula , cujos direitos políticos foram recentemente restaurados, disse que não tinha dúvidas de que o povo brasileiro se “libertaria” de Bolsonaro em 2022. “Ele poderia ter evitado metade dessas mortes”, disse Lula sobre a reação de Bolsonaro para a COVID-19.

Roberto Anderson, professor universitário e ambientalista de 67 anos que estava na marcha de sábado, disse que se sentiu encorajado pela grande participação que sugeria que a maré finalmente estava se voltando contra o líder de direita radical do Brasil.

“As pessoas estão acordando. Muitas pessoas que votaram em Bolsonaro estão vacilando … e os políticos que o apóiam ainda são oportunistas – no momento em que virem as pessoas se organizando, também mudarão de lado ”, afirmou Anderson.

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Este artigo foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Bolsonaro está se livrando de possíveis processos de impeachment, mas a conta será salgada

A eleição de seus aliados como presidentes do parlamento dá ao presidente Bolsonaro um impulso na corrida pela reeleição no próximo ano. Porém, a nova aliança com os partidos de centro-direita do Centrão não é grátis

bolso flagO presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, celebra cerimônia para abaixar a bandeira nacional do Brasil durante a noite, no Palácio da Alvorada, em meio ao surto da COVID-19, em Brasília, Brasil, em 15 de julho de 2020. REUTERS / Ueslei Marcelino

Por Thomas Spleen, Rio de Janeiro, para o  Neue Zürcher Zeitung

Quem quiser governar o Brasil deve, mais cedo ou mais tarde, aliar-se aos partidos do chamado Centrão, ou seja, os partidos de centro-direita. Politicamente, você sempre inclina a balança. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, sabe disso, porque nos trinta anos de sua carreira política foi membro de quase todos esses partidos em algum momento. O mais irônico é que ele jurou na campanha eleitoral de 2018 que a política do pós-xadrez típica do Centrão acabaria de uma vez por todas. Em vez disso, uma “nova política” começa com seu mandato, sem os partidos de centro-direita marcados pela corrupção.

Mas o mais tardar com a vitória dos dois deputados do Centrão Arthur Lira e Rodrigo Pacheco na eleição dos presidentes do Congresso na noite de segunda-feira, Bolsonaro finalmente voltou à rejeitada “velha política”. Ele já havia buscado e encontrado o apoio do Centrão nos últimos meses, quando foi duramente atingido devido à catastrófica corona política e ao envolvimento de seus filhos em diversos escândalos. Os votos deram-lhe uma minoria de bloqueio para evitar possíveis processos de impeachment.

64 pedidos de impeachment provavelmente irão desaparecer na gaveta

Isso só pode ser iniciado pelo presidente da Câmara dos Representantes. Este cargo está nas mãos do confidente do Bolsonaro, Arthur Lira, desde segunda-feira à noite. O advogado, cuja carreira política é orlada por denúncias de corrupção, provavelmente vai colocar na gaveta todas as 64 ações de impeachment contra o Bolsonaro que foram apresentadas até o momento. Ele também ajudará o presidente a finalmente aprovar sua agenda política no Congresso. Isso inclui leis mais flexíveis sobre a aquisição de armas e uma redução nas regulamentações ambientais. Rodrigo Pacheco também preside o Senado com um político do Centrão que enfrenta o Bolsonaro.

Mas o presidente brasileiro pagará caro por esse apoio. Nos últimos dias, ele teria cortejado os favores do Centrão com cargos importantes no governo e orçamentos extras generosos para os constituintes, conforme relatado por fontes internas. Para isso, ele agora terá de dispensar alguns de seus seguidores leais para abrir espaço para os novos amigos no gabinete. Sua promessa feita na eleição de 2018 de encher seu governo de especialistas e não de aliados foi quebrada para sempre.

A crescente influência dos novos aliados é devastadora para a  economia brasileira. Com a entrada do Centrão no governo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, pode ter que esquecer a liberalização da economia. Em vez de privatizar as empresas estatais não lucrativas, as posições mais lucrativas agora serão divididas entre os novos aliados. E nos discursos inaugurais dos dois novos presidentes do congresso na segunda-feira, dada a situação de pandemia ainda tensa, outra rodada de ajuda custosa contra a crise causada pelo coronavírus foi solicitada. O Brasil não pode pagar por isso.

Mas desde que a ajuda contra a crise causada pelo coronavírus expirou no final do ano, a popularidade do Bolsonaro diminuiu. Além disso, muitos cidadãos culpam o presidente pela falta de oxigênio para os pacientes da COVID-19 em algumas regiões e pelo lento início da vacinação. No meio da segunda onda corona, mais de mil brasileiros morrem todos os dias. Caso a luta contra a pandemia e, portanto, a recuperação econômica tenha sucesso, o “Centrão” pode servir de base para a reeleição de Bolsonaro no final de 2022. No entanto, os partidos do centro são muito sensíveis ao estado de espírito das pessoas. Se cair contra o Bolsonaro, os lados serão trocados durante a noite. A presidente de esquerda Dilma Rousseff teve recentemente essa experiência dolorosa. Ela foi destituída do cargo em 2016 pelo até então aliado Centrão.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo  Neue Zürcher Zeitung [Aqui!]. 

Os sinos dobram para Jair Bolsonaro

bolso michelleO contraste dos Bolsonaro: Michelle com máscara, Jair sem máscara. (crédito: Marcos Corrêa/PR)

A situação do presidente Jair Bolsonaro começa a se deteriorar rapidamente, a ponto de vários representantes estelares da mídia corporativa nacional (incluindo a direção dos jornais Estadão e Folha de São Paulo) estarem falando abertamente no seu impeachment.

Mesmo concordando com o fato de que o presidente Bolsonaro já mostrou não possuir a mínima capacidade de gerir o governo federal em um momento que combina profunda crise econômica e crise sanitária gravíssima,  tenho certeza de que a súbita mudança em seu destino político não se deve a isso. O mais provável é que Bolsonaro, tal como Dilma Rousseff, esteja tendo sua continuidade no cargo ameaçada por não entregar o que as oligarquias que controlam a economia brasileira querem na velocidade em que elas desejam, que são as grandes estatais como o Banco do Brasil e a Petrobras.

Há ainda que se notar que a rápida deterioração da capacidade de Jair Bolsonaro de se manter no poder não está sendo precedida pelo mesmo nível de ataques e desgaste político a que Dilma Rousseff foi submetida. A chamada oposição de esquerda até poucos dias atrás estava mais preocupada em barganhar cargos na mesa da Câmara de Deputados e do Senado Federal do que colocar a sua militância na rua, coisa que só começou a acontecer no dia de ontem. Em outras palavras, se Bolsonaro está começando a balançar no cargo, isto se deve a um acordo por cima entre as oligarquia econômicas brasileiras, e não por mérito da esquerda.

A manobra para tirar Jair Bolsonaro poupa claramente o vice-presidente general Hamilton Mourão, que já se sabe é adepto da mesmíssima agenda econômica, apenas sem os histrionismos que acometem o ex-capitão. Da mesma forma, apesar de toda a sua ação desastrosa, se poupa o dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, Paulo Guedes.  O que se trama, mais uma vez, é a mera substituição de um chefe de estado por um vice mais confiável para executar as tarefas que estão postas para aprofundar a transformação do Brasil em uma espécie de neocolônia, de preferência dos chineses que consomem boa parte das nossas commodities agrícolas e nos vendem quase todos os agrotóxicos que poluem nossos campos e comida.

Diante desse cenário, o que se deve fazer? À primeira vista não cair na armadilha que está posta de tirar apenas Jair Bolsonaro do cargo, e ampliar a ação para a derrubada de seu governo como um todo, incluindo o seu vice-presidente. Afinal, se Bolsonaro está sendo culpabilizado pelas dimensões épicas que a pandemia da COVID-19 no Brasil, o que dizer de seu vice-presidente que até agora seguiu estritamente a mesma cartilha negacionista?

Uma coisa é certa: as próximas semanas serão decisivas para o destino político do governo Bolsonaro, e provavelmente veremos um esforço monumental para reverter a raiz da sua crise que é a falta de uma resposta efetiva contra a pandemia. Assim, que ninguém se surpreenda se o próprio Jair Bolsonaro vire garoto propaganda de uma campanha nacional de vacinação, e que a cabeça do general Eduardo Pazuello seja servida por ele em uma bandeja de prata.

Jânio de Freitas vaticina que sem o impeachment de Bolsonaro, o Brasil pode estar se transformando em “um país no finalzinho”

A conduta na balbúrdia da vacina basta para justificar impeachment de Bolsonaro Diante de todos os desastres que o corroem, o Brasil parece morto

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Por Janio de Freitas, jornalista

É impossível imaginar o que falta ainda para a única providência que salve vidas —quantas, senão muitos milhares?— da sanha mortífera de Jair Bolsonaro. Mas não é preciso imaginar a indecência da combinação de “elites” e políticos, para ver o que e quem concede liberdade homicida em troca de ganhos.

Pessoas com autoridade formal para o conceito que têm emitido, além de suas respeitabilidades, como o jurista Oscar Vilhena Vieira, o ex-ministro da Justiça e criminalista José Carlos Dias e o médico Celso Ferreira Ramos Filho, presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, entre outros altos quilates, têm qualificado com clareza e destemor a anti-ação de Bolsonaro e seus militares na mortalidade pandêmica.  Crime, criminoso (os), organização familiar criminosa, homicidas, desumanidade —são algumas das palavras e expressões aplicadas ao que é feito contra a vida. Contra o próprio país, portanto.

A conduta da Presidência e de seus auxiliares na Saúde, na balbúrdia da vacina, basta para justificar o processo de interdição ou de impeachment, sem precisar dos anteriores crimes de responsabilidade e outros cometidos por Bolsonaro e pelo relapso general Eduardo Pazuello. Nem se sabe mais o número de requerimentos para processo de impeachment apresentados à Câmara. Sobre eles, Rodrigo Maia, presidente da casa. Lançou uma sentença sucinta: “Não há agora exame de impeachment nem vai haver depois”.

Nítido abuso de poder, nessa recusa a priori. É dever do presidente da Câmara o exame de tais requerimentos, daí resultando o envio justificado para arquivamento ou para discussão em comissões técnicas. Rodrigo Maia jamais explicou sua atitude. Daí se deduz que não lhe convém fazê-lo, com duas hipóteses preliminares: repele a possível entrega da Presidência ao vice Mourão ou considera a iniciativa inconveniente a eventual candidatura sua a presidente em 2022.

Seja como for, Rodrigo Maia macula sua condução da Câmara, bastante digna em outros aspectos, e se associa à continuidade do desmando igualado ao crime de índole medieval. Os constituintes construíram um percurso difícil e longo para o processo de impeachment, e que assim desestimulasse sua frequência. Mas deixaram com um só político o poder de consentir ou não na abertura do processo. Fácil via para o abuso do poder. E sem alternativa para o restante do país, mesmo na dupla calamidade de uma pandemia letal e um governo que a propaga.

Há denúncias protocolares da situação por entidades, não muitas, e por um número também baixo de pessoas tocadas, de algum modo, pelo senso de responsabilidade, a inquietação, a dor. Movimento para que os genocidas vocacionais sejam enfrentados, nenhum. As camadas sociais que continuam tranquilas com seus rendimentos são, entende-se, as que podem manipular os ânimos públicos. São também as que têm mais noção do que se passa, mas sem que isso atenue o seu egoísmo e desprezo pelas camadas abaixo. Assim, não há reação ao duplo ataque. Diante de todos os desastres que o corroem, o Brasil parece morto.

Mas nem com esse aspecto, ou essa realidade, precisaria descer tão baixo na imoralidade. Sobrassem alguns resquícios de decência nas classes que, a rigor, são o poder no Brasil, a descoberta de que a Abin, a abjeta Agência Nacional de Informação, foi mobilizada para ajudar Flávio Bolsonaro no processo criminal da rachadinha” criaria alguma indignação. E levaria ao pronto afastamento de todos os beneficiários e comprometidos com esse crime contra a Constituição, as instituições, os trâmites da Justiça e a população em geral.

O general Augusto Heleno Pereira negou a revelação da revista Época. É um velho mentiroso. Isso está provado desde os anos 90, quando me escreveu uma carta negando sua suspeita ligação com Nicolau dos Santos Neto, o juiz da alta corrupção no TRT paulista. Tive provas documentais para desmenti-lo. Estava então no Planalto de Fernando Henrique. Com Bolsonaro, além de desviar a Abin em comum com Alexandre Ramagem, que a dirige, Augusto Heleno já esteve em reuniões com os advogados de Flávio, que é agora quem o desmente.

Ramagem, por sua vez, é o delegado que Bolsonaro quis na direção da Polícia Federal, causando a saída de Sérgio Moro do governo. Fica demonstrado, portanto, pelas figuras de Augusto Heleno e Ramagem no desvio de finalidade da Abin, que Bolsonaro tentou controlar a PF para usá-la na defesa de Flávio, de si mesmo, de Carlos, de Michelle, de Fabrício Queiroz e sua mulher Márcia e demais componentes do grupo.

Se nem essa corrupção institucional levar à retirada de toda a corja, será forçoso reconhecer um finalzinho. Não dá pandemia, como disse Bolsonaro. Do Brasil, mesmo.

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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Folha de São Paulo [Aqui!].

O delírio de Crapulinski

A demissão de Moro parece endereçar o governo Bolsonaro em rota cada vez mais próxima ao abismo.

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Por Ricardo Antunes*

O herói Crapulinski, nosso exemplo de arquétipo representante da ralé da sociedade burguesa, parece que começou a se desmilinguir por derrelição. É verdade que faz tempo que esse cenário vem se desenhando. Devastação na economia, explosão do desemprego, ultra-precarização do trabalho, destruição ambiental, proliferação das queimadas e da extração mineral, massacres nas comunidades indígenas, xenofobia, homofobia, racismo, tudo isso e muito mais sempre esteve presente nesta variante achincalhada de Trumpismo colonial. Seria muito difícil que seu derretimento, em algum momento, não viesse começar a se acelerar.

O culto da ignorância, o desprezo pela ciência, a privatização da res publica, com a consequente destruição da saúde, da educação e da previdência, tudo isso fortemente respaldado pelo ideário e pela pragmática demencial de amplos setores do empresariado, que só queriam ver a força de trabalho ralando para lhes dar mais produção e lhes garantir a boa vida, que tão enfaticamente o nosso Crapulinski sempre achava um jeito de defender. Não sem acrescentar que os beneficiários seriam os “mais pobres”.

E veio, então, o inesperado. A brutalidade da pandemia, a “gripezinha” do mito (ou mico?), pegou o país econômica e socialmente destroçado. Se não bastasse a crise econômica esgarçando ainda mais o tecido social brasileiro, ampliando a corrosão e devastação do trabalho, a pandemia letal do coronavírus encontrou aqui seu cenário ideal: na presidência, um indigente e ignóbil, praticante fidelíssimo do culto da ignorância, do “santo nome em vão”, sempre em linha de depravação, algo que não encontra paralelo em quase nenhuma parte do mundo.

A primeira crise veio com o Ministro da Saúde, Luiz H. Mandetta. Desde logo, é preciso dizer que se trata de um médico neoliberal que desde o início imaginou fazer uma gestão negocial e privatista na saúde. Com a eclosão do coronavirus, entretanto, tomou um banho de realidade, tendo sido sustentado e enquadrado pela dignidade do que se conseguiu a muito custo e trabalho se preservar no S.U.S.

A recente deposição de Mandetta, que poderia ser o mote para a explosão do Fora Bolsonaro!, parece ter inflado o ego do Crapulinski. Imaginando-se fortalecido, depois do ato dos boçais-do-bolsonaro no último domingo (19 de abril), chegou a vez de começar a arquitetar as demissões de seus ministros considerados mais fortes, o da Justiça em primeiro lugar, que lhe fazia uma incomoda sombra eleitoral junto ao eleitorado da extrema direita e da direita.

Para acobertar as práticas clandestinas de seus parceiros nas milícias e nas falanges, que defendem a ditadura militar, a tortura, a brutalidade, o vilipêndio e o abjeto, e também para preservar a sua matilha familiar, o presidente-de-tipo-lumpen jogou a cartada de risco mais forte até o presente. Emparedou ninguém menos que Sergio Moro, o juiz que tinha um faro infalível somente em direção ao PT e seus partidos aliados durante seus governos. Algo que já vinha sendo urdido desde os fins do ano passado e que, depois da demissão de Mandetta, parecia encontrar seu momento oportuno.

Parece que o tiro saiu pela culatra. Moro saiu soltando petardos que municiam mais de um impeachment, além de ajudar a esfacelar ainda mais a base de apoio de Bolsonaro na extrema direitaPara não recordar as tantas afrontas anteriores, este episódio que resultou na demissão de Moro atesta: primeiro, que a motivação foi adulterada (não houve o “a pedido” formal do atual Diretor-Geral da Polícia Federal); segundo, a assinatura digital de Moro foi adicionada sem a sua concordância; terceiro, e que tem a potência de bomba muito explosiva, como se deduz das palavras do ex-MinistroO presidente me disse mais de uma vez que queria ter uma pessoa da confiança pessoal dele, que ele pudesse ligar, que ele pudesse colher informações, relatórios de inteligência. Seja diretor, seja superintendente. E não é o papel da polícia federal prestar esse tipo de informação”.

Assim, a demissão de Moro parece endereçar o governo Bolsonaro em rota cada vez mais próxima ao abismo. Será difícil para a Câmara (com seu pacato líder Rodrigo Maia) permanecer obstaculizando esse clamor crescente na sociedade (com exceção do que resta das falanges fascistas) e que ganha nova impulsão com os inúmeros desdobramentos políticos e institucionais que já começaram após a explosiva denúncia do ex-juiz da Lava Jato. Imaginar que a intervenção na cúpula da Polícia Federal era causada por causa do atentado sofrido pelo ex-capitão ainda candidato, ou ainda pelas perseguições ao seu filho “04”, conforme as próprias palavras de Bolsonaro em sua resposta a Moro, se assemelha mais a uma história de carochinha….

Qual será, então, a posição dos ministros militares, que imaginavam poder controlar o intempestivo? A primeira reação destes ministros e farda foi se postar ao lado de Bolsonaro, em sua defesa aos ataques de Moro. Irão, então, continuar participando desse governo das cavernas e das trevas?

E como se comportará a tutela militar que até o presente vem respaldando a autocracia de Bolsonaro?

E, por fim, as oposições? O que mais vão esperar, para fazer deslanchar o já tardio impeachment de Bolsonaro, que está levando o país para uma monumental cova coletiva?

* Ricardo Antunes é professor titular de Sociologia do Trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador da coleção Mundo do Trabalho, da Boitempo Editorial. Organizou os livros Riqueza e miséria do trabalho no Brasil (2007) e Infoproletários: a degradação real do trabalho virtual (2009), ambos publicados pela Boitempo. É autor, entre outros, de Os sentidos do trabalho (1999), O caracol e sua concha (2005), O continente do labor, (2011) e o mais recente O privilégio da servidão, que acaba de ganhar uma nova edição, revista e ampliada, este ano.

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Este texto foi originalmente publicado no “Blog da Boitempo” [Aqui!].

Líder improvável, Alexandre Frota clama “saiam do Twitter” e organizem o impeachment de Bolsonaro

af jbO deputado federal Alexandre Frota (PSDB/SP) e o presidente Jair Bolsonaro no tempo em que eram aliados

Se há uma máxima imutável na política é que não existe espaço vazio que fique vago por muito tempo. É enquanto os partidos da esquerda têm flagrantemente patinado em relação ao que fazer diante das ações do presidente Jair Bolsonaro, o deputado federal Alexandre Frota (PSDB/SP) resolveu partir para uma defesa aberta para a criação de um movimento suprapartidário cujo objetivo seria apear do poder, via impeachment, o presidente Jair Bolsonaro (ver vídeo abaixo).

Em que pese a linguagem adotada, Alexandre Frota explicita questões objetivas sobre os mecanismos que têm sido adotados para fazer frente aos ataques desferidos pelo presidente Bolsonaro e seus seguidores contra as instituições democráticas e, principalmente, aos esforços de controle e combate à pandemia causada pelo coronavírus.

De forma enfática, Frota coloca o dedo na ferida quando diz que “não adianta ficar no Twitter fazendo críticas, palestrinhas, discursos acalorados e repetitivos. Twitter não é resposta para este tipo de gente. Twitter não é resposta para o Bolsonaro. A resposta é o impeachment“.

Não custa nada lembrar que Alexandre Frota foi, digamos, uma das faces que ajudaram a tornar o candidato Jair Bolsonaro mais palatável para determinados setores da população. E que estando atualmente no PSDB,  Frota não fez nenhum giro ideológico em relação, por exemplo, ao modelo de economia ultraneoliberal que o governo Bolsonaro está impondo.  Desta forma, a consolidação de uma postura pró-impeachment de Alexandre Frota pode representar apenas uma exaustão da utilidade da figura de Jair Bolsonaro para determinados setores das elites brasileiras.

A pergunta que se coloca é a seguinte: os partidos de esquerda e movimentos sociais vão deixar que Frota lidere o caminho do impeachment?

Pesquisador protocola pedido de impeachment de Jair Bolsonaro com base em artigo publicado na Science

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Um pedido de impeachment do presidente Jair Bolsonaro foi protocolado na manhã desta segunda-feira (20/04) junto à Câmara Federal, tendo com base resultados de um artigo publicado no dia 17 de Abril de 202 pela prestigiosa revista científica Science (ver imagem abaixo). 

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O autor deste pedido de impeachment é um dos autores do trabalho, o doutorando Lucas Ferrante do Programa de ECologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).  No ofício por meio do qual protocolou o pedido de impeachment do presidente Bolsonaro, Ferrante aponta que o artigo publicado pela Science aponta que ” a medida que a doença de coronavírus do 2019 (COVID-19) se espalha pelo Brasil, o Presidente Jair Bolsonaro negou repetidamente a gravidade da pandemia e  transmitiu informações enganosas e mensagens mistas sobre como responder, defendo o uso de hidroxicloroquina e o fim da quarentena. As evidências científicas atuais contradizem essas informações, e o discurso do Presidente coloca a população em risco.

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Ferrante lembra que o artigo ainda diz que “ na escala nacional o Brasil deve manter uma quarentena nacional para mitigar o impacto da doença. Medidas favorecidas pelo presidente do Brasil, como isolamento vertical ou uma quebra parcial do isolamento, entram em conflito com as recomendações da Organização Mundial da Saúde e com estudos científicos, colocando em risco toda a população do Brasil. A eficácia da hidroxicloroquina não é confirmada, embora seus riscos sejam.

Em seu ofício à Câmara de Deputados, Lucas Ferrante lembra que “com base nessas informações publicadas no maior periódico do mundo torna-se claro que o Presidente da República Jair Messias Bolsonaro vem cometendo crime de responsabilidade
contra a saúde pública colocando todo o povo brasileiro em risco eminente“.

Ainda que não se saiba o destino que será dado a esse pedido de impeachment, o fato é que temos diante de nós uma novidade: em vez de um documento preparado por advogados como foi o caso do impeachment de Dilma Rousseff. Tampouco o pedido está sendo apresentado por um partido político ou representante dele. Em vez disso, o que temos agora são alegações iniciais baseadas em um artigo científico que passou pelo crivo rígido dos editores da Science, simplesmente a maior revista científica do planeta. Um aspecto interessante é que ocorre em face de um presidente que é conhecido por desdenhar do conhecimento científico e por ter um ministro da Educação, o insuperável Abraham Weintraub, que fez do seu ofício principal trabalhar para precarizar as universidades e institutos federais. Se isso não for um tipo de ironia suprema, eu não sei o que seria.