Pesquisadoras aproximam ciência e combate ao fogo em MT

Nos três biomas do estado, grupo acompanha brigadas do Corpo de Bombeiros para aprimorar controle de incêndios e queimadas; previsão é de que fogo seja maior este ano

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Quando: de quinta-feira, 5 de agosto, a sábado, 14 de agosto

Onde: Chapada dos Guimarães (Cerrado), Poconé (Pantanal) e Marcelândia (Amazônia)

Um grupo de pesquisadoras do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e do Woodwell Climate Research Center, dos Estados Unidos, irá integrar, a partir desta quinta-feira, uma expedição para acompanhar o Batalhão de Emergências Ambientais do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso em ações de prevenção e combate ao fogo. A proposta é percorrer os três biomas do estado para colher dados e identificar problemas, a fim de pensar soluções para o controle de incêndios e queimadas, que se agravam com o período da seca no país.

“Vamos investigar quais são os problemas enfrentados pelos bombeiros e que temos potencial de solucionar ao melhorar como utilizamos e combinamos os dados de satélites. Existem quebras na informação, em alguns momentos, entre quem a produz e quem a utiliza, e isso vem prejudicando o planejamento do combate”, explica Manoela Machado, pesquisadora do Woodwell, que coordena a iniciativa. “Pretendemos coletar o máximo possível de informações dessas duas pontas, da ciência e da prática, na intenção de propor um formato automatizado no futuro”.

As brigadas de combate ao fogo ambiental do Corpo de Bombeiros direcionam suas operações a partir de boletins emitidos quase em tempo real por órgãos de pesquisa e monitoramento como o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e a NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço, em português), agência espacial norte-americana. Com a expedição, a ideia das pesquisadoras é estreitar esse diálogo para promover melhoramentos na identificação e prevenção de focos de incêndio.

Greenpeace sobrevoa a Amazônia e flagra o avanço do fogo sobre a floresta

Dados divulgados pelo INPE e as imagens registradas na última semana de julho, reforçam a ineficiência do governo federal em combater a destruição

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Monitoramento de Queimadas na Amazônia em Julho de 2021. Coluna de fogo avança sobre floresta degradada em Porto Velho, Rondônia

São Paulo, 02 de agosto de 2021 – De acordo com os dados do Inpe Queimadas, julho registrou 4.977 focos de calor no bioma Amazônia, todos ilegais visto que o Decreto nº 10.735 proibiu o uso do fogo no Brasil desde 28 de junho de 2021, mesma data em que o governo federal autorizou novamente o uso das tropas militares para combater as queimadas. Como principal estratégia do governo federal para conter a destruição, a GLO é comprovadamente ineficiente. A Amazônia segue sob intensa ameaça e a ilegalidade e destruição continuam devastando grandes áreas, conforme mostram as imagens registradas pelo Greenpeace em sobrevoo.

Veja as imagens aqui

“É importante analisar os focos de calor considerando também o desmatamento ocorrido recentemente na Amazônia. Muitas áreas foram derrubadas e degradadas recentemente e devem ser queimadas ilegalmente nos próximos meses, quando a vegetação remanescente fica mais seca e suscetível ao fogo. O pior está por vir, além dos próximos meses serem mais secos na Amazônia, os órgãos ambientais seguem enfraquecidos e o Congresso Nacional tem como uma de suas prioridades aprovar alterações na lei que incentivam ainda mais destruição ambiental e invasão de terras públicas”, comenta Cristiane Mazzetti, gestora ambiental do Greenpeace.

Enquanto nossas florestas seguem sendo destruídas, representantes ruralistas continuam tentando convencer a opinião pública e a comunidade internacional de que o Brasil está cuidando do meio ambiente. Como fizeram no mês passado ao reforçar a representantes diplomáticos a intenção de aprovar projetos como o PL da Grilagem (PL 2633/2020) que, ao contrário do que dizem os ruralistas, visa anistiar grileiros, ao legalizar o ilegal, além de aumentar a violência e conflitos no campo estimula novos ciclos de invasões marcados por desmatamento e queimadas.

O número de focos registrados na Amazônia em maio e junho já havia sido o maior para esses meses desde 2007. Em julho, houve uma redução de 27% quando comparados ao mesmo mês em 2020. Estados como Rondônia e Acre registraram aumento no número de focos (95% e 29% respectivamente) e a situação no Amazonas segue preocupante: o estado tem se destacado no aumento da devastação e o registrado no mês é superior à média histórica. Conforme ilustrado na figura abaixo:

A linha laranja traz em cada ponto o valor médio de hotspots nos últimos 10 dias, e isso permite comparação com valores médios de longo prazo, nos permitindo entender como os registros atuais se relacionam com a média histórica. A linha em amarelo é composta de pontos representando a média dos últimos 20 anos para cada dia. Gráfico extraído de: https://maps.greenpeace.org/fire_dashboard/?lang=pt, fonte dos dados: MODIS hotspots, com atributos de LANCE FIRMS operado pela NASA/GSFC/Sistema de Informação e Dados Científicos da Terra (ESDIS) com financiamento fornecido pela NASA/HQ.
“O impacto acumulado na Amazônia a partir do fogo e do desmatamento só aumenta, estamos empurrando a floresta cada vez para mais perto do seu limite e minando seu papel de aliada no enfrentamento às mudanças climáticas. Além disso, com a destruição crescente deste bioma rico em estoque de carbono, estamos contribuindo para que extremos climáticos como esses vivenciados recentemente ao redor do planeta e no Brasil se tornem mais frequentes e intensos no futuro”, completa Cristiane.

Site investigativo francês mergulha “no reino do agronegócio” brasileiro na Amazônia

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Grande parte do deflorestamento amazônico vem do agronegócio. CARL DE SOUZA / AFP

O site investigativo francês Mediapart publicou na quinta-feira (29), a quinta parte de uma grande reportagem especial na Amazônia brasileira. Depois da “imposição da doutrina paranoica do regime militar brasileiro na Amazônia”, ou “como o mito da Natureza infinita permite a economia da destruição”, “Como a estrada e as obras abrem o caminho para o desmatamento” e “Amazônia: terra, fogo e violência”, dessa vez os jornalistas franceses se debruçaram sobre o “reino do agronegócio”  brasileiro.

 “O onipotente setor do agronegócio está se organizando para se apresentar como imprescindível no Brasil”, afirma a reportagem do site investigativo francês Mediapart. Para a equipe de jornalistas franceses, trata-se “uma batalha de ideias e uma luta política que envolve campanhas publicitárias recorrentes e que tem dramáticas consequências ecológicas e sociais na Amazônia”.

“Ao longo da BR-364 que corta o estado de Rondônia, o agronegócio está espalhando sua força até onde a vista alcança. Milhares de caminhões de transporte de grãos desfilam sem parar diante dos olhos do gado impassível”, relata Mediapart. “A paisagem alterna entre pastagens, campos de cultivo e terras devastadas ou em vias de se tornarem. A entrada de cada pequena cidade é adornada com estátuas de vacas ou seus tratadores, acompanhadas de outdoors em apoio a Jair Bolsonaro, ilustra a reportagem, dando o clima local em Rondônia.

“Desamazonização”

“Com o novo presidente do Congresso [Arthur Lira] eleito no início de 2021, particularmente sensível aos seus temas, os ruralistas consideram o momento ‘extremamente favorável’ para avançar seus muitos projetos”, diz o texto. O pesquisador Ricardo Gilson, da UNIR (Universidade Federal de Rondônia), entrevistado por Mediapart, afirma que “há um processo de ‘desamazonização’, a destruição é considerada um elogio ao progresso”, lamenta.

O site francês contextualiza dizendo que, “além de sua ofensiva política, os ruralistas aumentaram suas campanhas de comunicação. Eles não usam mais o termo ‘negócios’, renomeando-se apenas como ‘agro’, falam em ‘agrocidadãos’ com um discurso nacionalista e recrutando personalidades conhecidas, como o ex-jogador de futebol Pelé. Nessa batalha ideológica, triunfa a cultura do agronegócio, contra a cultura da floresta e de quem vive nela”, afirma Mediapart.

Guerra de dados

Segundo o site francês, para apoiar essa nova doutrina, uma “verdadeira batalha sobre o controle de dados está em andamento”. “Apesar do reconhecimento internacional, os dados dos satélites que monitoram o desmatamento são regularmente questionados pelo atual governo, e os funcionários do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que os administram sofrem pressão do governo Bolsonaro”, publica o site.

Mediapart faz questão de destacar que embora a contribuição do agronegócio para o PIB brasileiro seja inegável, o desenvolvimento prometido na verdade afeta apenas um pequeno número de beneficiários. “Existem mais de 5 milhões de agricultores no Brasil, mas 25 mil são responsáveis ​​por 50% do PIB agrícola”, diz Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa, ao site investigativo.

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Este texto foi originalmente publicado pela RFI [Aqui!].

Pondo fumaça nos olhos: governo Bolsonaro retira do INPE a divulgação dos dados de queimadas e incêndios na Amazônia

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Em mais uma manobra para enfraquecer o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e por tabela a ciência de excelência que seus pesquisadores realizam há décadas, o governo Bolsonaro retirou da alçada do órgão a atribuição de divulgar os dados sobre queimadas e incêndios florestais na Amazônia, repassando a tarefa para o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), este órgão abrigado mais do que convenientemente no Ministério da Agricultura, comandado pela “pesticide lover”, Tereza Cristina (DEM/MS).

A explicação estapafúrdia dada para justificar mais este ataque ao Inpe e à ciência brasileira é de que esse movimento irá facilitar a integração de dados, visto que o Inmet cuidaria da parte meteorológica e agora irá também cuidar da divulgação dos dados de queimada e incêndios florestais. Essa explicação não faz o menor sentido cientificamente, pois a “expertise científica” estabelecida no Inpe, onde existem pesquisadores de renome internacional justamente por causa dos estudos ali conduzidos sobre queimadas e incêndios florestais, que o movimento contrário seria o mais óbvio, até porque no Inpe está localizado o chamado “Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos” (Cpetec), que é outro nicho de excelência científica operando dentro do Inpe.

Esse movimento é do tipo “jogar fumaça nos olhos” não apenas da comunidade científica que depende dos dados gerados pelo Inpe para fazer estudos justamente sobre queimadas e incêndios, mas também para dificultar o monitoramento por parte dos principais parceiros comerciais brasileiros que hoje cobram não apenas um maior controle sobre o desmatamento, mas também dos pontos de queimadas e incêndios florestais.

Lembro aqui que no artigo que foi publicado na Science em setembro de 2020, identificamos a área atingida pelos incêndios florestais e demonstramos que eles são um dos principais agentes de degradação da floresta amazônica. Assim, fica evidente que não está se operando um esforço para dificultar a transparência sobre o que, de fato, está ocorrendo em termos da área atingida e degradada por incêndios, mas principalmente que se identifique onde incêndios criminosos estão sendo iniciados para acelerar a degradação dos biomas amazônicos.

Por outro lado, há que se lembrar que 2021 deverá ter um dos maiores ciclos de queimadas e incêndios florestais das últimas décadas em função do desmatamento recorde que vem ocorrendo na Amazônia brasileira ao longo deste ano. Assim, é quase certo que os dados divulgados pelo Ministério da Agricultura, via o Inmet,  não terão o mesmo nível de excelência do trabalho realizado pelos pesquisadores do Inpe nas últimas décadas. 

Mas uma coisa parece estar sendo ignorada pelos mentores dessa manobra: a expertise criada pelo Inpe sobre a incidência de queimadas e incêndios florestais já gerou dezenas de projetos de pesquisa em universidades brasileiras e internacionais, e que irão continuar monitorando de forma mais fidedigna a ocorrência de queimadas e incêndios florestais não apenas na Amazônia, mas nos demais biomas florestais brasileiros.  Em outras palavras: a ciência pode ser atrapalhada e boicotada, mas dificilmente se consegue impedir o seu funcionamento dada a capilarização que mais de 200 anos de avanços científicos já garantiram.

Devastação desenfreada: Amazônia sofre maior nível de desmatamento em abril dentro de uma década, e degradação florestal também avança

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O desmatamento da Amazônia no último mês de abril foi de 778 km², o maior valor para o mês registrado nos últimos dez anos, segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

O índice é 45% maior que o desmatamento registrado em abril de 2020. Em março, também foi registrado um recorde histórico, quando o Imazon constatou 810 km² de floresta devastada.

Os estados com maior área desmatada são: 

  • Amazonas – 28%
  • Pará – 26%
  • Mato Grosso – 22%
  • Rondônia -16%
  • Roraima -5%
  • Maranhão – 2%
  • Acre 1%

“Em Lábrea e Apuí, no Amazonas, municípios que lideram o ranking dos 10 que mais desmataram, houve perda de 126 km² de floresta, o que representa quase 60% de todo o desmatamento do Estado detectado em abril”, diz o Imazon.

Degradação florestal

Os dados do Imazon apontam ainda o total de “degradação florestalna Amazônia Legal, que somaram 99 km² em abril, o que representa um aumento de 60% em relação ao mesmo mês no ano passado, quando a degradação detectada foi de 62 km². O estado do Mato Grosso concentra 75% da área de floresta degradada, seguido pelo Pará (24%) e Roraima (1%).

“O Imazon classifica o desmatamento como o processo de realização do corte raso, que é a remoção completa da vegetação florestal. Na maioria das vezes, essa floresta é convertida em áreas de pasto. Já a degradação é caracterizada pela extração das árvores, normalmente para fins de comercialização da madeira”, explica o instituto.

Com informações do G1.

Ex-presidente do INPE, físico Ricardo Galvão, ganha prêmio internacional “de Liberdade Científica e Responsabilidade” pela defesa dos dados de desmatamento da Amazônia

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Ricardo Galvão em frente do no Instituto de Física da Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1983. | SEESP

Por  Adam D. Cohen

Ricardo Galvão, o físico brasileiro que perdeu o cargo de diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) após defender seus dados sobre o desmatamento na floresta amazônica, receberá o prêmio 2021 de Liberdade e Responsabilidade Científica da Associação América para Avanço da Ciência (AAAS).

O Prêmio AAAS de Liberdade e Responsabilidade Científica homenageia cientistas que demonstraram liberdade científica e / ou responsabilidade em circunstâncias particularmente desafiadoras, às vezes em risco para sua segurança profissional ou física. Quando o presidente brasileiro Jair Bolsonaro atacou a legitimidade de um relatório destacando um aumento dramático no desmatamento na Amazônia, Galvão se manteve atrás dos números, uma decisão que lhe custou o emprego.

“O professor Galvão defendeu a ciência sólida em face da hostilidade”, disse Jessica Wyndham, diretora do Programa de Responsabilidade Científica, Direitos Humanos e Direito da AAAS. “Ele agiu para proteger o bem-estar do povo brasileiro e da imensa maravilha natural que é a floresta amazônica, um patrimônio mundial.”

O  INPEj, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do país, tem reputação internacional como líder no uso de satélites para detectar extração ilegal de madeira e queimadas em florestas tropicais. O Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real da agência pode detectar o desmatamento ilegal com rapidez suficiente para dar às autoridades policiais a chance de pará-lo.

Em 4 de julho de 2019, liderado por Galvão, o INPE publicou relatório mostrando que houve um aumento de 88% no desmatamento na Amazônia em junho de 2019 em comparação com o mesmo mês do ano anterior. O relatório citou uma possível ligação entre a eleição de Bolsonaro e o aumento pronunciado da degradação da terra. Bolsonaro concorreu à presidência em uma plataforma pró-desenvolvimento e começou a afrouxar as regulamentações ambientais imediatamente após assumir o cargo no início de 2019.

Em comentários feitos a jornalistas em 19 de julho, Bolsonaro acusou Galvão de mentir e estar “a serviço de alguma organização não governamental”. Na época, dados do INPE mostravam que um total de 4.701 km2 de terras haviam sido desmatados no primeiro semestre de 2019, um aumento drástico em relação aos 2.809 quilômetros quadrados que haviam sido desmatados no primeiro semestre de 2018. Galvão negou veementemente as afirmações de Bolsonaro , chamando-os de “não adequados para um presidente do Brasil”.

Bolsonaro, no entanto, continuou o ataque. Durante entrevista coletiva em 1º de agosto, ele afirmou que os números foram fabricados “para atacar o nome do governo e do Brasil”. Em seguida, o INPE divulgou nota para “reafirmar sua confiança na qualidade dos dados”, e Galvão foi demitido no dia 2 de agosto. Ele continua a atuar como professor de física aplicada na Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1983.

Desde sua saída do INPE, Galvão não para de se pronunciar contra o que considera a hostilidade de Bolsonaro à ciência. A revista Nature nomeou o físico brasileiro como das “pessoas que mais importavam em ciência em 2019.”

“Não apenas como cientista, mas como cidadão brasileiro, estou muito preocupado com o aumento da taxa de desmatamento na Amazônia”, disse Galvão em uma entrevista de agosto de 2019 ao Eos . “O líder de qualquer país deve estar ciente de que em assuntos científicos não há autoridade acima da soberania da ciência.”

AAAS estabeleceu o Prêmio de Liberdade e Responsabilidade Científica em 1980. As realizações que reconhece incluem agir para proteger a saúde, segurança ou bem-estar do público; concentrar a atenção do público em questões importantes relacionadas à pesquisa científica, educação e políticas públicas; e estabelecer precedentes importantes no desempenho das responsabilidades sociais dos cientistas ou na defesa da liberdade profissional dos cientistas e engenheiros.

Ricardo Galvão receberá o prêmio em uma cerimônia virtual no dia 10 de fevereiro, durante a 187ª Reunião Anual da AAAS. AAAS começará a aceitar nomeações para o prêmio de 2022 em 15 de abril. Mais informações sobre os requisitos de elegibilidade podem ser encontradas  aqui.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado no site oficial da AAAS [Aqui!].

No governo Bolsonaro, números do desmatamento na Amazônia voltam aos níveis de 2008

deforestationMedidas feitas pelo Inpe a partir de imagens de satélite mostram que o desmatamento da floresta tropical atingiu um pico de 11 anos na Amazônia brasileira no primeiro ano do governo Bolsonaro. João Laet / AFP / Getty Images

Dados que acabam de ser divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o primeiro ano de medidas de desmatamento na Amazônia relativos ao governo Bolsonaro mostram que voltamos aos níveis de 2008, pois o total do desmatamento para 2019-2020 chegou a 11.088 km² (para comparação ver tabela abaixo criado pelo site “Direto da Ciência“).

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O Pará é o estado com a maior área desmatada na estimativa (5.192 km²), depois Mato Grosso (1.767 km²), Amazonas (1.521 km²), Rondônia (1.259 km²), Acre (652 km²), Roraima (300 km²), Maranhão (290 km²), Amapá (81 km²) e Tocantins (26 km²).

Os responsáveis diretos por esse resultado desastroso nos valores de corte raso das florestas amazônicas são o presidente Jair Bolsonaro, o vice-presidente Hamilton Mourão, bem como o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles. 

É que cada um deles agiu dentro das capacidades que o seus cargos permitem para desmontar a governança ambiental e os mecanismos de comando e controle que impediam o saque descontrolado das riquezas naturais amazônicas. Com a ação combinada dessas autoridades foi possível a ação desenfreada de garimpeiros, madeireiros e grileiros de terras que se serviram da ausência das agências de fiscalização e proteção para avançar sobre terras públicas, principalmente unidades de conservação e terras indígenas.

Com  toda certeza a partir de hoje assistiremos a uma série de movimentos para obscurecer a devastação que está em curso na Amazônia brasileira neste momento. Provavelmente veremos mais ataques às organizações não-governamentais e aos povos indígenas que serão pintadas como os responsáveis pela destruição acelerada da Amazônia. Também não será nenhuma surpresa se novamente houver questionamentos sobre a validade científica dos dados que estão sendo divulgados pelo Inpe.

Acesso público a dados de desmatamento impossibilita manipulação, diz Inpe  | Novidades da ciência para melhorar a qualidade de vida | DW | 05.07.2019

Chamo ainda a atenção para o fato de que em recente artigo publicado na revista Science, eu e um grupo de colegas demonstramos que para toda ação de desmatamento há também a ocorrência de um processo que corre de forma paralela e/ou combinado que é a degradação florestal.  Em outras palavras, o desmatamento também alimenta a degradação, e a combinação desses dois agentes amplifica os danos causados pela situação de descontrole ambiental que o governo Bolsonaro criou, muitas vezes agindo em combinação com os governadores, na Amazônia.

A minha expectativa é que esses resultados sejam amplamente divulgados e forcem os nossos principais parceiros comerciais, a começar pela União Europeia, a cessarem as ações teatrais para partir para a demanda de ações efetivas para que a destruição da Amazônia seja devidamente combatida pelo Brasil, sob pena de sanções comerciais, que é a única linguagem que parece será entendia pelo governo Bolsonaro.

 

Brasil caminha para militarizar o monitoramento do desmatamento e das queimadas

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  • Em um anúncio recente, o vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão, defendeu a criação de uma nova agência que teria autoridade total sobre o desmatamento na Amazônia e alertas de monitoramento de incêndios por satélite. Por três décadas, o INPE, agência espacial civil do Brasil, tem exercido essa função, disponibilizando dados publicamente.
  • O VP afirma que o monitoramento por satélite do INPE está desatualizado e não enxerga através das nuvens. Os críticos do governo observam que os sistemas Prodes e Deter do instituto espacial continuam a fornecer dados excelentes sobre incêndios e desmatamento na Amazônia, utilizáveis ​​para fiscalização, enquanto as nuvens pouco importam na estação seca, quando ocorre a maioria dos incêndios.
  • Os críticos afirmam que os vários movimentos do governo para enfraquecer o INPE são prováveis ​​formas de negar a transparência, acabando com a autoridade civil do INPE e colocando satélites de monitoramento de desmatamento e fogo sob controle militar secreto.
  • Até agora, um esforço para financiar novos satélites militares falhou. Enquanto isso, a Noruega fez parceria com as empresas Planet e Airbus para oferecer imagens de satélite gratuitas para monitorar florestas tropicais, incluindo a Amazônia. Essas imagens publicamente disponíveis do Planeta, NASA e outras fontes podem frustrar a possível tentativa de sigilo de Bolsonaro.

Por  Jenny Gonzales  para a Mongabay

Se alguma vez houve alguma dúvida – após os principais disparos neste ano e no ano passado – sobre se o governo Jair Bolsonaro pretende desempoderar e desmontar o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), agora resta pouca incerteza. Ações recentes mostram a firme intenção do governo de desvincular o órgão de sua missão de monitorar o desmatamento e as queimadas no Brasil, realizada com sucesso há mais de três décadas.

Desde a posse do Bolsonaro, há quase dois anos, o instituto de renome internacional tem sofrido demissões , difamações de alto nível, críticas infundadas e intervenções em sua estrutura organizacional (em violação ao próprio regulamento do INPE). Além disso, o governo demonstrou sua determinação em transferir a responsabilidade pelo desmatamento e monitoramento de incêndios para os militares brasileiros.

Na semana passada, o governo deixou seu objetivo ainda mais claro. Em transmissão ao vivo pelo Instituto para a Reforma do Estado e das Relações Corporativas (IREE), o vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão – que também chefia o recém-fundado Conselho Amazônico do Bolsonaro – defendeu a criação de uma nova agência que concentra autoridade para os sistemas de monitoramento da Amazônia e alertas de satélite.

“O Prodes e o Deter [sistemas de monitoramento de desmatamento do INPE] são bons sistemas, mas ainda apresentam falhas”, explicou o General Mourão. Mas “Precisamos avançar para uma agência que tenha essa capacidade de forma mais consistente, e que nos dê alertas,  semelhante ao NRO [o US National Reconnaissance Office]  que integra todos esses sistemas [de satélite] e, portanto, com um custo mais baixo e sendo mais eficiente. ”

Vinculado ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos, o NRO é uma das maiores agências de inteligência militar dos Estados Unidos; opera a rede de satélites de reconhecimento altamente classificada do país. O monitoramento ambiental nos Estados Unidos é realizado por agências civis.

A mudança do Brasil na responsabilidade pelo desmatamento e monitoramento de incêndios de uma autoridade civil, onde sempre esteve, para os militares marcaria uma mudança sísmica nas políticas de regulamentação ambiental brasileiras.

Um foco de incêndio na floresta amazônica no estado de Mato Grosso, Brasil, julho de 2020. © Christian Braga / Greenpeace.

Uma mudança de supervisão civil para militar

O anúncio de Mourão reflete as iniciativas do governo Bolsonaro de tirar o poder do Ibama, a agência ambiental do Brasil, que teve sua autoridade para investigar crimes ambientais transferida para o Conselho Amazônico de Mourão. Em maio passado, o IBAMA também foi proibido de usar dados de desmatamento e fogo do INPE como forma de direcionar a fiscalização às localidades da Amazônia. Essa função passou a ser do CENSIPAM, Centro de Gestão e Operação do Sistema de Proteção da Amazônia do Ministério da Defesa. Em junho, o presidente, pelo segundo ano consecutivo, substituiu amplamente os bombeiros do IBAMA ao ordenar que unidades do Exército entrassem no bioma para combater incêndios – uma missão para a qual os críticos dizem que os militares não são adequados.

A Amazônia já registrou mais incêndios florestais neste ano do que em todo o ano de 2019, segundo dados de satélite disponibilizados em agosto de 2020 pela NASA . Mais de  1.000 grandes incêndios  já foram detectados este ano em meados de setembro em todo o bioma, impactando a floresta tropical e  comunidades indígenas e tradicionaisO número de queimadas na floresta amazônica em pé também aumentou nas últimas semanas. De todos os principais incêndios detectados na Amazônia este ano, 43% foram em florestas em pé, até 21 de setembro (contra apenas 13% em agosto), de acordo com o  MAAP, sem fins lucrativos . A floresta tropical queimada é estimada em cerca de 4,6 milhões de acres (1,8 milhões de hectares) – uma área com cerca de três quintos do tamanho da Bélgica.

General Hamilton Mourão, vice-presidente do Brasil (à esquerda), e presidente Jair Bolsonaro, durante a cerimônia de assinatura de criação do Conselho da Amazônia. Imagem de Valter Campanato / Agência Brasil.

Mourão, no entanto, desconsiderou este registro horrendo de incêndios obtido de fontes de monitoramento independentes, que se correlaciona bem com os números do INPE que indicam 16.949 focos de incêndio registrados no bioma pantanal Pantanal e 69.527 focos de focos encontrados na Amazônia entre 1º de janeiro de 2020 e 27 de setembro.

Em vez disso, Mourão declarou erroneamente que a agência espacial se contradiz em seus números de desmatamento, alegando que “alguém do INPE que se opõe ao governo só divulga dados negativos sobre os incêndios [para a imprensa]”. Na verdade, Mourão estava comparando dois conjuntos de dados diferentes, um do INPE mostrando uma redução de incêndios entre 1º de janeiro e 31 de agosto em relação a 2019, e outro conjunto atualizado de números publicados na mídia mostrando um aumento de incêndios entre o primeiro dia ano e 9 de setembro.

No dia seguinte ao depoimento, o General Mourão afirmou não saber que os números do INPE são divulgados ao público. “Se isso for verdade, é muito grave que o vice-presidente desconheça a política de transparência que rege o serviço público [do INPE]”, disse Acioli de Olivo ao Mongabay. O pesquisador aposentado do INPE e atual diretor de comunicação do Sindicato dos Servidores Públicos Federais na Área de Ciência e Tecnologia do Setor Aeroespacial (SindCT) acrescentou: “Duvido, porém, que ele não soubesse que os dados são acessíveis a todos . Foi [ao invés] uma forma de justificar sua retirada em face das [críticas] ao seu discurso. ”

Acioli de Olivo, diretor do Sindicato dos Servidores Públicos Federais na Área de Ciência e Tecnologia do Setor Aeroespacial (SindCT), destacou que o diretor temporário do INPE, Darcton Damião, eliminou departamentos, tirou coordenadores de seus cargos e nomeou novos sem consulta prévia aos comitês internos do instituto. Imagem de Fernanda Soares / SindCT.

“Nem mesmo os governos da ditadura militar [de 1964-1985] questionaram os dados científicos de forma infundada”, disse um dos três pesquisadores do INPE que falaram ao Mongabay sob a condição de anonimato por medo de represálias do governo. O INPE, “instituto respeitado mundialmente e que fará 60 anos no próximo mês de agosto, vive uma crise sem precedentes”, acrescentou a pesquisadora.

“Outra falsidade [perpetrada pelo] General Mourão é que, segundo ele, não podemos contabilizar focos de incêndio, porque se dividirmos o número de focos de incêndio [em curso] pela área total da Amazônia Legal, mostra que há menos de um local de incêndio em cada 200 quilômetros quadrados [77,2 milhas quadradas]. O problema desse raciocínio é que os surtos não se espalham de maneira uniforme na região ”, disse um pesquisador anônimo do INPE.

“Os incêndios estão concentrados em áreas de interesse para a base de Bolsonaro: aquelas com infraestrutura viária para acesso aos mercados consumidores e potencial exploração econômica [via desmatamento ilegal]; [e] Terras indígenas, com o objetivo de matar dois coelhos com uma cajadada – exterminar índios e abrir atividades de mineração ”, disse o mesmo pesquisador do INPE.

Imagem de satélite dos incêndios deste ano no Pantanal, 14 de setembro de 2020. Crédito NOAA-20 / VIIRS (fronteiras: contribuidores do OpenStreetMap).

Lojas brasileiras de satélites militares

O Ministério da Defesa, por sua vez, tem planos ambiciosos de contornar totalmente o INPE, e está tentando adquirir novos satélites de monitoramento por radar a um custo de R $ 577,9 milhões (US $ 105,4 milhões).

O plano, no entanto, deve ser rejeitado nesta semana pelo Conselho de Execução Orçamentária do Brasil, que assessora o governo federal em questões de política fiscal e que solicitou uma redução no orçamento do ministério da defesa. A mudança do INPE para um sistema de satélite militar não seria uma decisão fiscalmente sólida: os R$ 577 milhões desejados pelos militares são quase cinco vezes o orçamento do INPE para 2020 de R$ 118 milhões (US $ 21,1 milhões).

Se aprovado, o novo sistema militar de desmatamento e monitoramento de incêndios será gerenciado pelo CENSIPAM. O Ministério da Defesa, junto com o General Mourão, justifica a tomada militar com base no fato de que os satélites ópticos usados ​​pelo INPE não conseguem ver a floresta quando há nuvens, enquanto os satélites de radar conseguem um melhor monitoramento.

Contactado pela Mongabay, o Ministério da Defesa através do seu gabinete de comunicação afirmou: “Desde 2016, o CENSIPAM desenvolve o projeto SipamSAR. A tecnologia SAR é capaz de enxergar o terreno, mesmo que esteja debaixo de nuvens … Cumprindo sua vocação de produzir informação e integrar o trabalho intersetorial, o CENSIPAM reuniu, desde maio último, uma equipe com representantes de dez instituições governamentais para a realização de dados integração para otimizar a atuação das equipes de campo durante a operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) [do Exército] de combate aos crimes ambientais na Amazônia”.

No entanto, quando solicitado a explicar o fracasso do Exército em combater efetivamente os incêndios e o desmatamento na Amazônia e Pantanal nos últimos meses, o Ministério da Defesa não respondeu.

“A comparação que Mourão e o Ministério da Defesa [Ministério] fazem não é verdadeira, é uma simplificação equivocada. … O sensor passivo, usado pelo satélite óptico [do INPE], é uma característica, não um problema”, disse um pesquisador do INPE. “A imagem produzida por um satélite de radar é muito mais difícil de interpretar e requer processamento e tratamento [altamente técnico]. [Mas] não mostra [tipos específicos de danos florestais] em uma área, seja [isso] degradação, queimada ou extração de madeira. ”

O mesmo pesquisador do INPE resumiu o argumento do governo em relação às nuvens: “Ao contrário do que diz Mourão, os incêndios ocorrem na época da seca, quando não há nuvens. E a maior parte do desmatamento na Amazônia também acontece na época da seca, porque o desmatamento é caro [fazer]. Ter acesso ao [local de extração], equipamento de transporte, combustível e madeira. Não é um processo para amadores; leva tempo e a chuva torna tudo mais difícil. De qualquer forma, o que os militares estão fazendo com os dados que [já] entregamos? Se não há fiscalização, se os recursos não estão sendo usados ​​para gerar ações de fiscalização, por que querem mais imagens? ”

Gilberto Câmara, diretor do INPE de 2005 a 2012 e atual diretor da secretaria do Grupo de Observação da Terra (GEO), disse ao Mongabay que o CENSIPAM dos militares brasileiros carece de histórico de satélites de informação: “Quais são as evidências verificáveis ​​de que o CENSIPAM sabe interpretar imagens ? Onde estão os testes? Não há nenhum. O Deter [do INPE] está em funcionamento desde 2005, e a precisão de seus dados vem melhorando continuamente. [Mesmo] com a tecnologia mais antiga [usada no passado], o desmatamento na Amazônia foi [muito] reduzido … entre 2005 e 2013 ”.

Segundo Câmara, questionar a validade dos dados do INPE é apenas uma forma de desviar a atenção da disseminação da destruição ambiental: “É a ‘notícia falsa’ mais cara do Brasil. O INPE mostra exatamente onde a Amazônia queima. A tecnologia que o Ministério da Defesa quer comprar foi projetada para mapear o gelo do Ártico, não para monitorar florestas. Tentar retirar a atribuição do INPE, sinaliza a intenção do governo de tornar os dados não transparentes. ”

Gilberto Câmara, diretor do INPE de 2005 a 2012 e atual diretor da secretaria do Grupo de Observação da Terra (GEO), acredita que o governo Bolsonaro está lançando dúvidas sobre os dados de desmatamento e incêndios do INPE para repassar o monitoramento a um corpo militar. Imagem cortesia de O Globo.

INPE em apuros

O nomeado por Bolsonaro, Darcton Damião, está no INPE desde a demissão do cientista Ricardo Galvão, em agosto de 2019. Na época, o presidente acusou Galvão de “provavelmente estar a serviço de uma ONG”, acusação sem respaldo.

Desde então, o INPE está “em processo de desmontagem. Nosso orçamento de pesquisa será zero em 2021 ”, disse um dos pesquisadores do INPE, referindo-se ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) da Agência Espacial Brasileira.

“O diretor temporário do INPE Damião, em vez de defender os recursos escassos do INPE, não disse uma palavra”, disse um pesquisador anônimo ao Mongabay. “Existem ações cumulativas [no INPE] que parecem desconectadas. A pedido do MCTI, Damião, coronel da Aeronáutica, mudou a estrutura organizacional do INPE, [e] eliminou importantes departamentos e comitês consultivos, alegando que a gestão do INPE é falha, mas sem apresentar um diagnóstico claro. … [A] nova estrutura torna o controle [pela administração Bolsonaro] muito mais fácil. ”

“O Bolsonaro não se interessa pelo Brasil e seus problemas. Ele quer agradar sua base [política], composta de negadores [das mudanças climáticas], evangélicos fundamentalistas e militares de sua geração. É por meio [das ações dele] que a gente consegue entender o que está acontecendo no INPE ”, disse outro pesquisador. “Com a chegada de Bolsonaro [em 2019] à presidência, militares formados nas décadas de 1960 e 1970 chegaram ao poder com a visão de que a Amazônia precisa ser explorada. Eles vêem a região [brasileira] como um recurso mineral a ser extraído, os rios a serem [represados ​​para] gerar hidroeletricidade, as florestas para se transformarem em madeira e o solo a ser transformado em pasto, soja ou qualquer outra cultura de exportação ”.

A maior parte do desmatamento na Amazônia brasileira é impulsionada pela conversão de florestas em pastagens e áreas de cultivo – geralmente usando o fogo como uma ferramenta para limpar as árvores. Esta foto de satélite mostra fragmentação florestal significativa no estado de Rondônia. Imagem cortesia da NASA.

Segundo o mesmo pesquisador, Bolsonaro acredita, assim como muitos líderes militares, que o problema não é se a Amazônia será queimada ou desmatada, mas se essas atividades serão expostas ao mundo via monitoramento por satélite – via dados que o presidente afirma ser falso. Bolsonaro, em seu discurso gravado perante a Assembleia Geral da ONU na semana passada, declarou que a riqueza da Amazônia está sendo observada por sombrios interesses estrangeiros e que o governo é vítima de uma “campanha de desinformação brutal”.

Bolsonaro continuou: “A Amazônia é conhecida por ser muito rica. O Brasil está se destacando como o maior produtor mundial de alimentos. Portanto, há muito interesse em divulgar informações errôneas sobre nosso meio ambiente … Nossa floresta é úmida e não permite a propagação de fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente nos mesmos locais, nas [bordas] orientais da floresta, onde os  caboclos  [pequenos agricultores familiares] e indígenas queimam suas áreas para sobreviver, em áreas já desmatadas ”.

Dados de várias fontes, incluindo a NASA , lançam suspeitas sobre as declarações de Bolsonaro. A maioria dos grandes incêndios na Amazônia – incluindo aqueles em áreas protegidas – são pensados ​​para ser ateados por grileiros usando o fogo como uma ferramenta de desmatamento para converter florestas em pastagens de gado e terras agrícolas.

Em notícias relacionadas, a Noruega assinou na semana passada um acordo com as empresas Planet e Airbus para oferecer imagens de satélite de alta definição gratuitas para monitorar florestas tropicais, incluindo a Amazônia. Essas imagens em alta resolução estarão à disposição do público, que poderá acessá-las de qualquer lugar do mundo, com informações mensais atualizadas sobre a situação do desmatamento em mais de 64 países. O contrato será válido por 4 anos. Parece que não importa o que Bolsonaro faça, as florestas do Brasil serão visíveis de cima através da multiplicação dos serviços de monitoramento.

Imagem do banner: Um incêndio em agosto de 2020 em uma área desmatada vista da rodovia BR-230 em Apuí, estado do Amazonas, Brasil. Muitos grandes incêndios na Amazônia ocorrem perto das principais estradas brasileiras, o que dá aos granjeadores acesso à floresta. Imagem de Bruno Kelly / Amazônia Real.

Atualização : Em um novo anúncio esta semana, Mourão descartou a possibilidade de que a agência planejada para a coordenação do desmatamento no Brasil e sistemas de monitoramento e vigilância de incêndios seja apenas um comando militar. “Estou pensando em uma agência independente”, disse ao Valor . O novo órgão coordenaria a demanda de diversos órgãos, entre eles ICMBio, FUNAI, IBAMA, Polícia Federal (PF), e a produção de dados e imagens do INPE e do CENSIPAM, que faz parte do Ministério da Defesa.

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 Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo Mongabay [Aqui!].

Fumaça por todo lado: a verdade nua das imagens desmancha o discurso negacionista do governo Bolsonaro

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Passamos a atual estação de queimadas na Amazônia e no Pantanal tendo que ouvir alegações proferidas pelo presidente Jair Bolsonaro, pelo vice-presidente Hamilton Mourão e pelo ministro (ou seria anti-ministro?) Ricardo Salles de que ambientalistas e opositores dentro do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) estariam criando mentirosamente uma imagem negativa para o Brasil ao superestimar a magnitude das queimadas assolando a Amazônia e o Pantanal.

Eis que hoje uma imagem disponibilizada pelo Inpe mostra boa parte da América do Sul coberta neste domingo (19/9) pela fumaça emitida pelas queimadas ocorrendo na Amazônia e no Pantanal (ver abaixo).

fumaça na América do Sul

Há que se ressaltar a combinação perniciosa que está ocorrendo nas áreas cobertas por essa gigantesca cortina de fumaça entre doenças respiratórias (a COVID-19 inclusa) e o processo de poluição atmosférica causada pela alta concentração de material particulado no ar.

Vendo essa imagem sendo disponibilizada pelo Inpe deve causar ainda mais irritação nos negacionistas alojados desde o topo no governo Bolsonaro com um dos principais institutos de pesquisa existentes no mundo.  Por isso, urge defender a expertise científica abrigada dentro do Inpe de qualquer tipo de desmanche.

Áreas vermelhas mostram localização mais provável de grandes queimadas na América do Sul

Finalmente, fica a lição de que é inútil tentar ocultar a verdade com tantas satélites passando por cima do Brasil. A fumaça que emana da Amazônia e do Pantanal simplesmente não poderá ser escondida. 

Mourão atribui a opositor divulgação de dados ruins de queimadas do Inpe que são públicos

fogo reutersFumaça e chamas de queimada no Pantanal, em Poconé, no Mato Grosso 03/09/2020 REUTERS/Amanda Perobelli

Por Lisandra Paraguassu para a agência Reuters

O vice-presidente Hamilton Mourão creditou a um suposto funcionário do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), opositor ao governo, a divulgação de dados sobre queimadas no país negativos para o governo.

“Eu recebo o relatório toda semana. Até dia 31 de agosto, nós tínhamos 5 mil focos de calor a menos do que 31 de agosto do ano passado, entre janeiro a agosto. Agora, o Inpe não divulga isso. Por quê? Não é o Inpe que está divulgando, é o doutor Darcton (Policarpo Damião) lá, que é o diretor do Inpe, que falou isso? Não. É alguém lá de dentro que faz oposição ao governo. Eu estou deixando muito claro isso aqui. Aí, quando o dado é negativo, o cara vai lá e divulga.  Quando é positivo, não divulga”, disse o vice-presidente, que também é coordenador do Conselho da Amazônia.

Os dados sobre queimadas no país, na verdade, são públicos e estão disponíveis em uma página especial do Inpe na Internet, aberta ao público em geral.

Os números também são alimentados diariamente e relatórios automáticos são gerados mostrando os focos em todos os biomas do país, o crescimento nos últimos cinco dias e a comparação com o mesmo período do ano anterior. É possível ter dados nacionais, por Estado, por bioma e também os municípios com maior número de focos de incêndio 

Os dados do Inpe nesse momento mostram 133.974 focos de incêndio acumulados em todo país entre 1º de janeiro e 14 de setembro, um aumento de 13% em relação ao ano passado. No bioma Amazônia estão, ainda segundo o boletim do Inpe, 64.498 desses pontos de queimadas.

Os dados mostram, ainda, uma aceleração nas queimadas na região neste mês de setembro. Até 14 de setembro de 2019, o Inpe aponta que haviam 11.003 focos acumulados na Amazônia. Este ano, nos mesmos 14 primeiros dias do mês, já são 20.485, um aumento de 86%.

De fato, o mês de agosto, ainda pelos dados do Inpe, havia encerrado com a Amazônia com menos focos de incêndio que ano passado —44.013 contra 46.824 em 2019.  A aceleração em setembro, no entanto, reverteu essa tendência.

O crescimento das queimadas na região acontece apesar da operação da Garantia da Lei e da Ordem que está na Amazônia desde maio e era a aposta de Mourão para reduzir o desmatamento e os incêndios ilegais. 

fecho

Este artigo foi inicialmente publicado pela agência Reuters [Aqui!].