Coalizão Brasil adverte que desmonte do monitoramento do Cerrado atenta contra biodiversidade e produção agrícola

Desmatamento-no-CerradoFalta de verba ameaça monitoramento contra desmatamento no Cerrado

Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento multissetorial composto por mais de 300 empresas, organizações da sociedade civil, setor financeiro e academia, vê com preocupação o anúncio da descontinuidade do monitoramento do Cerrado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O bioma, que ocupa aproximadamente 24% do território do país, abrange nascentes da maior parte das bacias hidrográficas cruciais para o abastecimento de água e energia do Brasil. É, também, o celeiro da produção agropecuária, abrigando o cultivo de commodities, como soja, milho e algodão.

Além de sua importância econômica, cabe destacar que o Cerrado é reconhecido como a savana mais rica do mundo em biodiversidade e encontra-se em franco processo de degradação. No último dia 31 de dezembro, o Inpe divulgou que o bioma perdeu 8.531,4 km² de vegetação nativa em um ano, entre agosto de 2020 e julho de 2021. Trata-se de um aumento de 7,9% em relação ao índice constatado nos 12 meses anteriores.

É, portanto, momento de investir em monitoramento e pesquisa, e não desmobilizar equipes e recursos. O possível “apagão de dados” sobre o desmatamento do Cerrado é um reflexo do sucateamento do Inpe, cujo orçamento em 2021 foi de R$ 75,8 milhões, uma redução de 85% ante o recebido em 2010 (R$ 487,6 milhões).

Há verbas para manutenção do monitoramento do Cerrado somente até abril. O país, portanto, entra em contagem regressiva para garantir a sobrevivência do trabalho do Inpe, cujos dados são necessários para a vitalidade da fiscalização ambiental, do agronegócio e de estudos científicos.

Vale destacar que o gasto com o sustento do projeto ameaçado é irrisório. O monitoramento do Cerrado custa apenas R$ 2,5 milhões por ano. Para se ter uma noção, a multa por desmate ilegal de 1 hectare vale R$ 1.500. Ou seja, as infrações relacionadas à devastação de 1.700 hectares já pagam todo o sistema.

Ao assinar um acordo florestal durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26), há exatos 70 dias, ao lado de 140 países, o Brasil assumiu o compromisso, perante sua população e a comunidade internacional, de proteger ecossistemas críticos como o Cerrado. Diversos países, como os Estados Unidos, além da União Europeia, já indicaram que o cuidado socioambiental é um tema central para a agenda diplomática e as transações comerciais. O Brasil, ao não cumprir os seus deveres, opta pelo isolacionismo e pelo atraso. Tampouco conseguirá controlar a narrativa. Outras iniciativas, envolvendo governos e a sociedade civil, podem assumir por conta própria o monitoramento de biomas.

As ações serão sempre mais fortes que as palavras. Portanto, mais uma vez a reputação do país está em jogo, ao demonstrar incoerência e desalinhamento entre os compromissos que assumiu — tanto para o enfrentamento da crise climática quanto para a perda de biodiversidade — e as ações que implementa — sejam elas ligadas a pesquisa, monitoramento e inteligência, que deveriam promover boas políticas públicas.

Coalizão Brasil solicita que o governo federal assegure os recursos necessários para a continuidade do programa de monitoramento do Cerrado e de todos os biomas brasileiros. É uma questão de legalidade, transparência e credibilidade.

Brasil para de rastrear desmatamento do Cerrado apesar do aumento da destruição

FILE PHOTO: Scientists from the State University of Mato Grosso identify signs of climate change on the border between Amazonia and CerradoUma vista aérea mostra o desmatamento perto de uma floresta na fronteira entre a Amazônia e o Cerrado em Nova Xavantina, Mato Grosso, Brasil, em 28 de julho. | REUTERS

Por Jake Springs para a Reuters

 Brasil vai parar de monitorar o desmatamento no Cerrado, a savana mais rica em espécies do mundo, disse um pesquisador do governo nesta quinta-feira citando falta de fundos, dias depois de dados mostrarem que a destruição atingiu uma alta de 6 anos em 2021.

O Cerrado, que faz fronteira com a floresta amazônica e se estende por vários estados brasileiros, é um grande baluarte contra as mudanças climáticas devido ao carbono que absorve. Muitas vezes é comparado a uma floresta de cabeça para baixo porque suas plantas afundam as raízes profundamente no solo.

O desmatamento aumentou 8% para 8.531 quilômetros quadrados no Cerrado nos 12 meses até julho, mostraram dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (lnpe) na última sexta-feira.

A decisão de interromper o monitoramento do Cerrado foi tomada por causa de cortes orçamentários, disse Claudio Almeida, pesquisador que coordena o monitoramento por satélite do Inpe.

O Inpe não produzirá mais números anuais para o desmatamento do Cerrado a menos que consiga encontrar uma nova fonte de financiamento, disse Almeida em mensagem escrita.

Uma “equipe mínima” continuará produzindo cifras mensais do desmatamento para o Cerrado, mas ficará sem dinheiro em seis meses ou menos, disse ele.

A assessoria de imprensa do Inpe não respondeu a um pedido de comentário.

A medida para parar de monitorar o Cerrado parece ser outro revés para a proteção ambiental sob o presidente de direita Jair Bolsonaro.

Bolsonaro criticou as proteções ambientais que impedem o crescimento econômico e enfraqueceu a aplicação das leis de conservação.

O gabinete do presidente não respondeu imediatamente ao pedido de comentário.

Marcio Astrini, chefe do Observatório do Clima, disse esperar que o governo encontre financiamento para continuar monitorando um ecossistema tão vital.

“O monitoramento mostra se o desmatamento está avançando e se o desmatamento vai condenar um bioma tão importante para os brasileiros”, disse Astrini.

Mas ele disse que não está otimista devido ao histórico de Jair Bolsonaro. O presidente já atacou o Inpe no passado, em 2019 acusando a agência de mentir sobre os dados que mostram o desmatamento da floresta amazônica.

No início desta semana, pesquisadores expressaram preocupação com a crescente destruição no Cerrado, dizendo que isso resulta em enormes emissões de gases de efeito estufa e ameaça levar espécies à extinção.

“Toda vez que você vai ao Cerrado fazer pesquisa de campo, não é raro descobrir uma nova espécie de planta ou mesmo de animal”, disse Manuel Ferreira, geógrafo da Universidade Federal de Goiás. “Ainda há muitas espécies a serem estudadas.”

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “Japan Times” [Aqui!].

DETER confirma: desmatamento na Amazônia segue fora de controle

Governo e Congresso seguem estimulando a destruição da nossa maior aliada na contenção da crise climática, a poucos dias da divulgação de novas conclusões da ciência para o clima

Fire Monitoring in the Amazon in July, 2021Monitoramento de Queimadas na Amazônia em Julho de 2021

Área queimada em polígono com desmatamento recente, identificado pelo Deter 2021 e Prodes 2019, em Aripuanã, Mato Grosso. Todos os anos o Greenpeace Brasil realiza uma série de sobrevoos de monitoramento, para acompanhar o avanço do desmatamento e das queimadas na Amazônia. 

Monitoramento de Queimadas na Amazônia em Julho de 2021

São Paulo, 06 de agosto, de 2021 – Dados do sistema DETER, do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados hoje, confirmam a tendência dos meses anteriores: os alertas de desmatamento na Amazônia permanecem em patamares inaceitáveis. Os dados (área com alertas) até o dia 30 de julho, faltando um dia para que encerre o intervalo oficial (agosto-julho) da taxa anual de desmatamento aferida pelo Sistema Prodes (Inpe), apontou para uma área desmatada de 8.712 Km2, o segundo maior acumulado da série histórica do Deter-B.

Já era esperado que o governo não cumpriria a promessa de reduzir o desmatamento em 10%, já que a principal estratégia adotada, a GLO, é comprovadamente ineficiente. Além disso, os órgãos ambientais seguem enfraquecidos, enquanto o Congresso atua como aliado do governo no desmonte ambiental, discutindo e aprovando mudanças danosas na legislação, como o PL 2633/2020, aprovado esta semana na câmara dos deputados.”Se o senado aprovar o PL da Grilagem, estará estimulando o desmatamento de áreas extremamente estratégicas para enfrentar a crise do clima e contribuirá ativamente para o colapso da Amazônia, seguindo na direção oposta dos esforços necessários globalmente para a redução de emissões de gases do efeito estufa”, comenta Cristiane Mazzetti, Gestora Ambiental do Greenpeace Brasil.

O acumulado em alertas de desmatamento (agosto 2020 – julho 2021) representa uma redução de apenas 5,47% em relação ao mesmo período anterior e aponta que a taxa oficial de 2021 será muito aquém da redução de 10%, prometida pelo vice-presidente no âmbito nacional e internacional. O cenário da Amazônia é crítico, foram 1.417 km² desmatados apenas no mês de julho, com destaque para o estado do Amazonas, que ocupa a segunda posição, com alertas de desmatamento em 402 km², atrás apenas do estado do Pará, que registrou alertas em 498 km².

Em sobrevoo realizado na última semana de julho, o Greenpeace flagrou diversas áreas com grandes desmatamentos (incluindo um desmatamento de 2.716 hectares, equivalente a 3.888 campos de futebol) que devem queimar nas próximas semanas, quando a vegetação remanescente fica mais seca e suscetível ao fogo.

Veja imagens inéditas do sobrevoo aqui

“Estamos à beira da publicação do relatório do IPCC, que deve reforçar o papel das ações humanas na crise climática e a contribuição das emissões de carbono no agravamento de extremos climáticos. A acelerada destruição da Amazônia é um fator que contribui na intensificação de eventos como os vivenciados recentemente no Brasil, que vão desde inundações recordes no norte do país à crise hídrica nas demais regiões, trazendo impactos negativos para a sociedade brasileira como o aumento da conta de energia, do preço dos alimentos, além da ameaça de um racionamento de água e energia”, avalia Cristiane.

Pesquisadoras aproximam ciência e combate ao fogo em MT

Nos três biomas do estado, grupo acompanha brigadas do Corpo de Bombeiros para aprimorar controle de incêndios e queimadas; previsão é de que fogo seja maior este ano

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Quando: de quinta-feira, 5 de agosto, a sábado, 14 de agosto

Onde: Chapada dos Guimarães (Cerrado), Poconé (Pantanal) e Marcelândia (Amazônia)

Um grupo de pesquisadoras do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e do Woodwell Climate Research Center, dos Estados Unidos, irá integrar, a partir desta quinta-feira, uma expedição para acompanhar o Batalhão de Emergências Ambientais do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso em ações de prevenção e combate ao fogo. A proposta é percorrer os três biomas do estado para colher dados e identificar problemas, a fim de pensar soluções para o controle de incêndios e queimadas, que se agravam com o período da seca no país.

“Vamos investigar quais são os problemas enfrentados pelos bombeiros e que temos potencial de solucionar ao melhorar como utilizamos e combinamos os dados de satélites. Existem quebras na informação, em alguns momentos, entre quem a produz e quem a utiliza, e isso vem prejudicando o planejamento do combate”, explica Manoela Machado, pesquisadora do Woodwell, que coordena a iniciativa. “Pretendemos coletar o máximo possível de informações dessas duas pontas, da ciência e da prática, na intenção de propor um formato automatizado no futuro”.

As brigadas de combate ao fogo ambiental do Corpo de Bombeiros direcionam suas operações a partir de boletins emitidos quase em tempo real por órgãos de pesquisa e monitoramento como o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e a NASA (Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço, em português), agência espacial norte-americana. Com a expedição, a ideia das pesquisadoras é estreitar esse diálogo para promover melhoramentos na identificação e prevenção de focos de incêndio.

Greenpeace sobrevoa a Amazônia e flagra o avanço do fogo sobre a floresta

Dados divulgados pelo INPE e as imagens registradas na última semana de julho, reforçam a ineficiência do governo federal em combater a destruição

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Monitoramento de Queimadas na Amazônia em Julho de 2021. Coluna de fogo avança sobre floresta degradada em Porto Velho, Rondônia

São Paulo, 02 de agosto de 2021 – De acordo com os dados do Inpe Queimadas, julho registrou 4.977 focos de calor no bioma Amazônia, todos ilegais visto que o Decreto nº 10.735 proibiu o uso do fogo no Brasil desde 28 de junho de 2021, mesma data em que o governo federal autorizou novamente o uso das tropas militares para combater as queimadas. Como principal estratégia do governo federal para conter a destruição, a GLO é comprovadamente ineficiente. A Amazônia segue sob intensa ameaça e a ilegalidade e destruição continuam devastando grandes áreas, conforme mostram as imagens registradas pelo Greenpeace em sobrevoo.

Veja as imagens aqui

“É importante analisar os focos de calor considerando também o desmatamento ocorrido recentemente na Amazônia. Muitas áreas foram derrubadas e degradadas recentemente e devem ser queimadas ilegalmente nos próximos meses, quando a vegetação remanescente fica mais seca e suscetível ao fogo. O pior está por vir, além dos próximos meses serem mais secos na Amazônia, os órgãos ambientais seguem enfraquecidos e o Congresso Nacional tem como uma de suas prioridades aprovar alterações na lei que incentivam ainda mais destruição ambiental e invasão de terras públicas”, comenta Cristiane Mazzetti, gestora ambiental do Greenpeace.

Enquanto nossas florestas seguem sendo destruídas, representantes ruralistas continuam tentando convencer a opinião pública e a comunidade internacional de que o Brasil está cuidando do meio ambiente. Como fizeram no mês passado ao reforçar a representantes diplomáticos a intenção de aprovar projetos como o PL da Grilagem (PL 2633/2020) que, ao contrário do que dizem os ruralistas, visa anistiar grileiros, ao legalizar o ilegal, além de aumentar a violência e conflitos no campo estimula novos ciclos de invasões marcados por desmatamento e queimadas.

O número de focos registrados na Amazônia em maio e junho já havia sido o maior para esses meses desde 2007. Em julho, houve uma redução de 27% quando comparados ao mesmo mês em 2020. Estados como Rondônia e Acre registraram aumento no número de focos (95% e 29% respectivamente) e a situação no Amazonas segue preocupante: o estado tem se destacado no aumento da devastação e o registrado no mês é superior à média histórica. Conforme ilustrado na figura abaixo:

A linha laranja traz em cada ponto o valor médio de hotspots nos últimos 10 dias, e isso permite comparação com valores médios de longo prazo, nos permitindo entender como os registros atuais se relacionam com a média histórica. A linha em amarelo é composta de pontos representando a média dos últimos 20 anos para cada dia. Gráfico extraído de: https://maps.greenpeace.org/fire_dashboard/?lang=pt, fonte dos dados: MODIS hotspots, com atributos de LANCE FIRMS operado pela NASA/GSFC/Sistema de Informação e Dados Científicos da Terra (ESDIS) com financiamento fornecido pela NASA/HQ.
“O impacto acumulado na Amazônia a partir do fogo e do desmatamento só aumenta, estamos empurrando a floresta cada vez para mais perto do seu limite e minando seu papel de aliada no enfrentamento às mudanças climáticas. Além disso, com a destruição crescente deste bioma rico em estoque de carbono, estamos contribuindo para que extremos climáticos como esses vivenciados recentemente ao redor do planeta e no Brasil se tornem mais frequentes e intensos no futuro”, completa Cristiane.

Site investigativo francês mergulha “no reino do agronegócio” brasileiro na Amazônia

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Grande parte do deflorestamento amazônico vem do agronegócio. CARL DE SOUZA / AFP

O site investigativo francês Mediapart publicou na quinta-feira (29), a quinta parte de uma grande reportagem especial na Amazônia brasileira. Depois da “imposição da doutrina paranoica do regime militar brasileiro na Amazônia”, ou “como o mito da Natureza infinita permite a economia da destruição”, “Como a estrada e as obras abrem o caminho para o desmatamento” e “Amazônia: terra, fogo e violência”, dessa vez os jornalistas franceses se debruçaram sobre o “reino do agronegócio”  brasileiro.

 “O onipotente setor do agronegócio está se organizando para se apresentar como imprescindível no Brasil”, afirma a reportagem do site investigativo francês Mediapart. Para a equipe de jornalistas franceses, trata-se “uma batalha de ideias e uma luta política que envolve campanhas publicitárias recorrentes e que tem dramáticas consequências ecológicas e sociais na Amazônia”.

“Ao longo da BR-364 que corta o estado de Rondônia, o agronegócio está espalhando sua força até onde a vista alcança. Milhares de caminhões de transporte de grãos desfilam sem parar diante dos olhos do gado impassível”, relata Mediapart. “A paisagem alterna entre pastagens, campos de cultivo e terras devastadas ou em vias de se tornarem. A entrada de cada pequena cidade é adornada com estátuas de vacas ou seus tratadores, acompanhadas de outdoors em apoio a Jair Bolsonaro, ilustra a reportagem, dando o clima local em Rondônia.

“Desamazonização”

“Com o novo presidente do Congresso [Arthur Lira] eleito no início de 2021, particularmente sensível aos seus temas, os ruralistas consideram o momento ‘extremamente favorável’ para avançar seus muitos projetos”, diz o texto. O pesquisador Ricardo Gilson, da UNIR (Universidade Federal de Rondônia), entrevistado por Mediapart, afirma que “há um processo de ‘desamazonização’, a destruição é considerada um elogio ao progresso”, lamenta.

O site francês contextualiza dizendo que, “além de sua ofensiva política, os ruralistas aumentaram suas campanhas de comunicação. Eles não usam mais o termo ‘negócios’, renomeando-se apenas como ‘agro’, falam em ‘agrocidadãos’ com um discurso nacionalista e recrutando personalidades conhecidas, como o ex-jogador de futebol Pelé. Nessa batalha ideológica, triunfa a cultura do agronegócio, contra a cultura da floresta e de quem vive nela”, afirma Mediapart.

Guerra de dados

Segundo o site francês, para apoiar essa nova doutrina, uma “verdadeira batalha sobre o controle de dados está em andamento”. “Apesar do reconhecimento internacional, os dados dos satélites que monitoram o desmatamento são regularmente questionados pelo atual governo, e os funcionários do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que os administram sofrem pressão do governo Bolsonaro”, publica o site.

Mediapart faz questão de destacar que embora a contribuição do agronegócio para o PIB brasileiro seja inegável, o desenvolvimento prometido na verdade afeta apenas um pequeno número de beneficiários. “Existem mais de 5 milhões de agricultores no Brasil, mas 25 mil são responsáveis ​​por 50% do PIB agrícola”, diz Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa, ao site investigativo.

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Este texto foi originalmente publicado pela RFI [Aqui!].

Pondo fumaça nos olhos: governo Bolsonaro retira do INPE a divulgação dos dados de queimadas e incêndios na Amazônia

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Em mais uma manobra para enfraquecer o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e por tabela a ciência de excelência que seus pesquisadores realizam há décadas, o governo Bolsonaro retirou da alçada do órgão a atribuição de divulgar os dados sobre queimadas e incêndios florestais na Amazônia, repassando a tarefa para o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), este órgão abrigado mais do que convenientemente no Ministério da Agricultura, comandado pela “pesticide lover”, Tereza Cristina (DEM/MS).

A explicação estapafúrdia dada para justificar mais este ataque ao Inpe e à ciência brasileira é de que esse movimento irá facilitar a integração de dados, visto que o Inmet cuidaria da parte meteorológica e agora irá também cuidar da divulgação dos dados de queimada e incêndios florestais. Essa explicação não faz o menor sentido cientificamente, pois a “expertise científica” estabelecida no Inpe, onde existem pesquisadores de renome internacional justamente por causa dos estudos ali conduzidos sobre queimadas e incêndios florestais, que o movimento contrário seria o mais óbvio, até porque no Inpe está localizado o chamado “Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos” (Cpetec), que é outro nicho de excelência científica operando dentro do Inpe.

Esse movimento é do tipo “jogar fumaça nos olhos” não apenas da comunidade científica que depende dos dados gerados pelo Inpe para fazer estudos justamente sobre queimadas e incêndios, mas também para dificultar o monitoramento por parte dos principais parceiros comerciais brasileiros que hoje cobram não apenas um maior controle sobre o desmatamento, mas também dos pontos de queimadas e incêndios florestais.

Lembro aqui que no artigo que foi publicado na Science em setembro de 2020, identificamos a área atingida pelos incêndios florestais e demonstramos que eles são um dos principais agentes de degradação da floresta amazônica. Assim, fica evidente que não está se operando um esforço para dificultar a transparência sobre o que, de fato, está ocorrendo em termos da área atingida e degradada por incêndios, mas principalmente que se identifique onde incêndios criminosos estão sendo iniciados para acelerar a degradação dos biomas amazônicos.

Por outro lado, há que se lembrar que 2021 deverá ter um dos maiores ciclos de queimadas e incêndios florestais das últimas décadas em função do desmatamento recorde que vem ocorrendo na Amazônia brasileira ao longo deste ano. Assim, é quase certo que os dados divulgados pelo Ministério da Agricultura, via o Inmet,  não terão o mesmo nível de excelência do trabalho realizado pelos pesquisadores do Inpe nas últimas décadas. 

Mas uma coisa parece estar sendo ignorada pelos mentores dessa manobra: a expertise criada pelo Inpe sobre a incidência de queimadas e incêndios florestais já gerou dezenas de projetos de pesquisa em universidades brasileiras e internacionais, e que irão continuar monitorando de forma mais fidedigna a ocorrência de queimadas e incêndios florestais não apenas na Amazônia, mas nos demais biomas florestais brasileiros.  Em outras palavras: a ciência pode ser atrapalhada e boicotada, mas dificilmente se consegue impedir o seu funcionamento dada a capilarização que mais de 200 anos de avanços científicos já garantiram.

Devastação desenfreada: Amazônia sofre maior nível de desmatamento em abril dentro de uma década, e degradação florestal também avança

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O desmatamento da Amazônia no último mês de abril foi de 778 km², o maior valor para o mês registrado nos últimos dez anos, segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

O índice é 45% maior que o desmatamento registrado em abril de 2020. Em março, também foi registrado um recorde histórico, quando o Imazon constatou 810 km² de floresta devastada.

Os estados com maior área desmatada são: 

  • Amazonas – 28%
  • Pará – 26%
  • Mato Grosso – 22%
  • Rondônia -16%
  • Roraima -5%
  • Maranhão – 2%
  • Acre 1%

“Em Lábrea e Apuí, no Amazonas, municípios que lideram o ranking dos 10 que mais desmataram, houve perda de 126 km² de floresta, o que representa quase 60% de todo o desmatamento do Estado detectado em abril”, diz o Imazon.

Degradação florestal

Os dados do Imazon apontam ainda o total de “degradação florestalna Amazônia Legal, que somaram 99 km² em abril, o que representa um aumento de 60% em relação ao mesmo mês no ano passado, quando a degradação detectada foi de 62 km². O estado do Mato Grosso concentra 75% da área de floresta degradada, seguido pelo Pará (24%) e Roraima (1%).

“O Imazon classifica o desmatamento como o processo de realização do corte raso, que é a remoção completa da vegetação florestal. Na maioria das vezes, essa floresta é convertida em áreas de pasto. Já a degradação é caracterizada pela extração das árvores, normalmente para fins de comercialização da madeira”, explica o instituto.

Com informações do G1.

Ex-presidente do INPE, físico Ricardo Galvão, ganha prêmio internacional “de Liberdade Científica e Responsabilidade” pela defesa dos dados de desmatamento da Amazônia

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Ricardo Galvão em frente do no Instituto de Física da Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1983. | SEESP

Por  Adam D. Cohen

Ricardo Galvão, o físico brasileiro que perdeu o cargo de diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) após defender seus dados sobre o desmatamento na floresta amazônica, receberá o prêmio 2021 de Liberdade e Responsabilidade Científica da Associação América para Avanço da Ciência (AAAS).

O Prêmio AAAS de Liberdade e Responsabilidade Científica homenageia cientistas que demonstraram liberdade científica e / ou responsabilidade em circunstâncias particularmente desafiadoras, às vezes em risco para sua segurança profissional ou física. Quando o presidente brasileiro Jair Bolsonaro atacou a legitimidade de um relatório destacando um aumento dramático no desmatamento na Amazônia, Galvão se manteve atrás dos números, uma decisão que lhe custou o emprego.

“O professor Galvão defendeu a ciência sólida em face da hostilidade”, disse Jessica Wyndham, diretora do Programa de Responsabilidade Científica, Direitos Humanos e Direito da AAAS. “Ele agiu para proteger o bem-estar do povo brasileiro e da imensa maravilha natural que é a floresta amazônica, um patrimônio mundial.”

O  INPEj, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do país, tem reputação internacional como líder no uso de satélites para detectar extração ilegal de madeira e queimadas em florestas tropicais. O Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real da agência pode detectar o desmatamento ilegal com rapidez suficiente para dar às autoridades policiais a chance de pará-lo.

Em 4 de julho de 2019, liderado por Galvão, o INPE publicou relatório mostrando que houve um aumento de 88% no desmatamento na Amazônia em junho de 2019 em comparação com o mesmo mês do ano anterior. O relatório citou uma possível ligação entre a eleição de Bolsonaro e o aumento pronunciado da degradação da terra. Bolsonaro concorreu à presidência em uma plataforma pró-desenvolvimento e começou a afrouxar as regulamentações ambientais imediatamente após assumir o cargo no início de 2019.

Em comentários feitos a jornalistas em 19 de julho, Bolsonaro acusou Galvão de mentir e estar “a serviço de alguma organização não governamental”. Na época, dados do INPE mostravam que um total de 4.701 km2 de terras haviam sido desmatados no primeiro semestre de 2019, um aumento drástico em relação aos 2.809 quilômetros quadrados que haviam sido desmatados no primeiro semestre de 2018. Galvão negou veementemente as afirmações de Bolsonaro , chamando-os de “não adequados para um presidente do Brasil”.

Bolsonaro, no entanto, continuou o ataque. Durante entrevista coletiva em 1º de agosto, ele afirmou que os números foram fabricados “para atacar o nome do governo e do Brasil”. Em seguida, o INPE divulgou nota para “reafirmar sua confiança na qualidade dos dados”, e Galvão foi demitido no dia 2 de agosto. Ele continua a atuar como professor de física aplicada na Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1983.

Desde sua saída do INPE, Galvão não para de se pronunciar contra o que considera a hostilidade de Bolsonaro à ciência. A revista Nature nomeou o físico brasileiro como das “pessoas que mais importavam em ciência em 2019.”

“Não apenas como cientista, mas como cidadão brasileiro, estou muito preocupado com o aumento da taxa de desmatamento na Amazônia”, disse Galvão em uma entrevista de agosto de 2019 ao Eos . “O líder de qualquer país deve estar ciente de que em assuntos científicos não há autoridade acima da soberania da ciência.”

AAAS estabeleceu o Prêmio de Liberdade e Responsabilidade Científica em 1980. As realizações que reconhece incluem agir para proteger a saúde, segurança ou bem-estar do público; concentrar a atenção do público em questões importantes relacionadas à pesquisa científica, educação e políticas públicas; e estabelecer precedentes importantes no desempenho das responsabilidades sociais dos cientistas ou na defesa da liberdade profissional dos cientistas e engenheiros.

Ricardo Galvão receberá o prêmio em uma cerimônia virtual no dia 10 de fevereiro, durante a 187ª Reunião Anual da AAAS. AAAS começará a aceitar nomeações para o prêmio de 2022 em 15 de abril. Mais informações sobre os requisitos de elegibilidade podem ser encontradas  aqui.

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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado no site oficial da AAAS [Aqui!].

No governo Bolsonaro, números do desmatamento na Amazônia voltam aos níveis de 2008

deforestationMedidas feitas pelo Inpe a partir de imagens de satélite mostram que o desmatamento da floresta tropical atingiu um pico de 11 anos na Amazônia brasileira no primeiro ano do governo Bolsonaro. João Laet / AFP / Getty Images

Dados que acabam de ser divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o primeiro ano de medidas de desmatamento na Amazônia relativos ao governo Bolsonaro mostram que voltamos aos níveis de 2008, pois o total do desmatamento para 2019-2020 chegou a 11.088 km² (para comparação ver tabela abaixo criado pelo site “Direto da Ciência“).

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O Pará é o estado com a maior área desmatada na estimativa (5.192 km²), depois Mato Grosso (1.767 km²), Amazonas (1.521 km²), Rondônia (1.259 km²), Acre (652 km²), Roraima (300 km²), Maranhão (290 km²), Amapá (81 km²) e Tocantins (26 km²).

Os responsáveis diretos por esse resultado desastroso nos valores de corte raso das florestas amazônicas são o presidente Jair Bolsonaro, o vice-presidente Hamilton Mourão, bem como o ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles. 

É que cada um deles agiu dentro das capacidades que o seus cargos permitem para desmontar a governança ambiental e os mecanismos de comando e controle que impediam o saque descontrolado das riquezas naturais amazônicas. Com a ação combinada dessas autoridades foi possível a ação desenfreada de garimpeiros, madeireiros e grileiros de terras que se serviram da ausência das agências de fiscalização e proteção para avançar sobre terras públicas, principalmente unidades de conservação e terras indígenas.

Com  toda certeza a partir de hoje assistiremos a uma série de movimentos para obscurecer a devastação que está em curso na Amazônia brasileira neste momento. Provavelmente veremos mais ataques às organizações não-governamentais e aos povos indígenas que serão pintadas como os responsáveis pela destruição acelerada da Amazônia. Também não será nenhuma surpresa se novamente houver questionamentos sobre a validade científica dos dados que estão sendo divulgados pelo Inpe.

Acesso público a dados de desmatamento impossibilita manipulação, diz Inpe  | Novidades da ciência para melhorar a qualidade de vida | DW | 05.07.2019

Chamo ainda a atenção para o fato de que em recente artigo publicado na revista Science, eu e um grupo de colegas demonstramos que para toda ação de desmatamento há também a ocorrência de um processo que corre de forma paralela e/ou combinado que é a degradação florestal.  Em outras palavras, o desmatamento também alimenta a degradação, e a combinação desses dois agentes amplifica os danos causados pela situação de descontrole ambiental que o governo Bolsonaro criou, muitas vezes agindo em combinação com os governadores, na Amazônia.

A minha expectativa é que esses resultados sejam amplamente divulgados e forcem os nossos principais parceiros comerciais, a começar pela União Europeia, a cessarem as ações teatrais para partir para a demanda de ações efetivas para que a destruição da Amazônia seja devidamente combatida pelo Brasil, sob pena de sanções comerciais, que é a única linguagem que parece será entendia pelo governo Bolsonaro.