O Brasil como lócus planejado da destruição ambiental

salles2Depois de quase dois meses ignorando o problema, o ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, vestiu um colete do IBAMA para posar para fotografias em uma praia contaminada por óleo. Imagem: Felipe Brasil/Instituto do Meio Ambiente de Alagoas / Divulgação

Desde o início do governo Bolsonaro, o Brasil se transformou em palco de incidentes ambientais agudos, a começar pelo rompimento do reservatório de rejeitos da mineradora Vale em Brumadinho (MG) e chegando agora à contaminação de mais de 2.000 km de litoral por um derramamento de óleo cuja autoria ainda não se conhece. Entre Brumadinho e a mancha de óleo de origem supostamente desconhecida, ainda tivemos que testemunhar os efeitos da devastação acelerada da Amazônia brasileira. E, sim, não podemos nos esquecer da aprovação massiva de agrotóxicos proibidos em outras partes do mundo para sustentar monoculturas de exportação que, por sua vez, estão na raiz da ampliação da destruição dos biomas amazônicos e do Cerrado.

Em comum todos os eventos citados acima possuem a marca do desmanche da legislação ambiental por diferentes governos submetidos à lógica de que proteção ambiental é oposta aos ganhos econômicos. Em função dessa lógica é que vem se tolerando a transformação do território nacional em uma espécie de lócus preferencial para desastres ambientais cujas perdas econômicas, sociais e ambientais ultrapassam em larga escala qualquer ganho eventual em termos de crescimento econômico. 

Ainda que não carregue uma culpa isolada da destruição ambiental em curso no Brasil, o o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro do Meio Ambiente (ou seria anti-ministro?), Ricardo Salles, já conseguiram em menos de um ano de governo operar um desmantelamento impressionante na capacidade do estado brasileiro de operar dentro de um limite mínimo de segurança quando se trata de impedir que a questão ambiental saia totalmente do controle.  Em vez de ações para aperfeiçoar as ações governamentais, o que a dupla Bolsonaro-Salles fez foi desmantelar e praticamente inviabilizar o trabalho de órgãos fundamentais como o IBAMA, o ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade]  e o INPE, congelando políticas ambientais e tornando ineficazes vários  mecanismos de monitoramento que poderiam fornecer respostas eficazes a incidentes ambientais, como  foi o caso do o PNC (Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo).

O resultado desse desmantelamento pode ser agora visto nas taxas explosivas de desmatamento e nas cenas de voluntários tirando com as próprias mãos o óleo que contamina praias, estuários e santuários ecológicos. Como já observei anteriormente, o que está acontecendo na área ambiental não é fruto do acaso ou da má sorte, mas sim de uma ação bem pensada de destruir a governança ambiental, de modo a facilitar a exploração descontrolada de nossos ecossistemas e biomas.

O problema é que nada do que foi feito para facilitar o acesso à áreas que estavam sob regime de proteção por parte de todo tipo de saqueadores (incluindo madeireiros e garimpeiros) compensa economicamente. Aliás, como no caso da Amazônia ou da contaminação das praias do nordeste, o impacto de qualquer ganho eventual será infinitamente menor do que os custos que isto trará com a perda de investimentos e oportunidades para setores que dependem da funcionalidade intacta das regiões atingidas, a começar pelo setores do turismo e da pesca artesanal. 

Para ampliar as dificuldades que vivemos, dificilmente haverá um abandono na postura ideológica amparada no paradigma da “Economia de Fronteira” que rege as ações não apenas do governo federal, mas da maioria dos governos estaduais.  Isso certamente ampliará as dificuldades já existentes, pois não apenas os problemas detectados continuarão sem o devido controle, mas como ainda iremos presenciar outros incidentes e situações ainda mais graves. É que o desprezo pela proteção ambiental não será mudada a partir do interior das máquinas de governo envolvidas, mas sim da pressão da maioria da sociedade.

Nesse sentido, as imagens de milhares de cidadãos limpando as praias nordestinas na ausência do governo federal é um indicativo de que as pessoas não estão simplesmente esperando sentadas pelo pior.  Se isso não chega a resolver as questões centrais, ao menos temos um indicativo do caminho a seguir. Resta saber quem vai querer ou poder galvanizar a energia social existente para se contrapor ao desmanche em curso.

Desmatamento na Amazônia em agosto cresce 222% em relação a 2018

Floresta perdeu 1.698 quilômetros quadrados de vegetação, segundo Inpe. Em agosto de 2018, foram 526 quilômetros quadrados. Nos oito primeiros meses de 2019, área desmatada foi 92% superior à do mesmo período de 2018.

desmatamento amazoniaFoto de satélite mostra áreas desmatadas na Amazônia: em julho, desmate cresceu 278% em relação a mesmo mês de 2018

A Amazônia perdeu em agosto deste ano 1.698 quilômetros quadrados de cobertura vegetal, área 222% maior do que a desmatada no mesmo mês de 2018, que foi de 526 quilômetros quadrados, segundo dados divulgados neste domingo pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Os números indicam que, apesar da devastação, houve redução na comparação com julho deste ano, em que houve destruição de 2.254 quilômetros quadrados.

Em comparação aos mesmos períodos de 2018, os meses de junho e julho apresentaram, respectivamente, crescimento de 90% e 278% no desmate.

Com os saltos, a área desflorestada da Amazônia nos oito primeiros meses de 2019 chegou a 6.404 quilômetros quadrados, número 92% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior (3.337 quilômetros quadrados).

Os dados foram obtidos pelo Deter, levantamento rápido de alertas de evidências de alteração da cobertura florestal na Amazônia, feito pelo Inpe.

Os informes podem ser usados para indicar tendências de aumento ou diminuição no desmate e servem de parâmetro para que os fiscais do Ibama atuem nas regiões mais ameaçadas.

Incêndios

Em agosto deste ano, foram registrados 30.901 focos de incêndio no bioma Amazônia, segundo dados divulgados dia 1° de setembro pelo Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Esse é o maior número registrado para o mês desde 2010, quando houve 45.018 focos.

Os dados mostraram ainda que, em relação ao mesmo mês do ano passado, os focos de incêndio triplicaram. Em agosto de 2018, foram registrados 10.421 incêndios. Entre janeiro e agosto deste ano, foram registrados ao todo 46.825 focos de incêndio na Amazônia. Esse número é mais do que o dobro observado no mesmo período do ano passado, 22.165.

Em resposta aos incêndios na Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro anunciou um decreto proibindo queimadas em todo o Brasil, por 60 dias. Um dia depois, porém, Bolsonaro voltou atrás e autorizou a prática em regiões que estão fora da Amazônia Legal.

A recente aceleração da devastação fez com que os governos de Alemanha e Noruega suspendessem repasses de verba ao Brasil para financiar projetos de desenvolvimento sustentável.

Devido ao desmatamento e às queimadas na região, Bolsonaro se tornou alvo de pesadas críticas de políticos europeus, que ameaçaram suspender o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE). Alguns políticos alemães chegaram a pedir sanções ao Brasil em razão da maneira como o governo Bolsonaro lida com o meio ambiente.

Bolsonaro se envolveu numa proloNgada troca de farpas com o presidente da França, Emmanuel Macron, que o acusou de mentir sobre suas políticas ambientais durante o encontro do G20 em junho, no Japão, onde foi concluído o pacto comercial entre o bloco dos países sul-americanos e a UE.

MD/efe/ots

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Este artigo foi originalmente produzido pela Deutsche Welle [Aqui!].

Rondônia: desmatamento, fogo e fumaça

rondonia

Uma parte significativa da minha produção científica foi desenvolvida a partir de quase duas décadas de pesquisas de campo no estado de Rondônia. Ao longo desse tempo vi a paulatina e cada vez mais rápida substituição da florestal tropical por imensos campos de pastagem e, no último período, por uma combinação delas com “plantations” de soja. O resultado vinha sendo uma devastação paulatina, mas em ritmo constante, que já produziu mudanças detectáveis no clima daquela parte da Amazônia brasileira.

Entretanto, os relatos que venho tendo de colegas pesquisadores que estão ou estiveram em Rondônia é que em 2019 o ritmo do desmatamento se acelerou tremendamente, ameaçando principalmente unidades de conservação e terras indígenas, principalmente a que abriga o povo Uru-Eu-Wau-Wau.

Agora, graças à disseminação acelerada de imagens, tive acesso ao vídeo abaixo que foi postado por um praticante de voo livre que vive em Rondônia.  O vídeo mostra toda a região central de Rondônia completamente tomada por fumaça que, como o seu produtor e narrador informa, é oriunda de milhares de pontos de queimadas o que pode parecer exagerado, mas parece ser correto em função do volume de material particulado no ar.

Quando essas imagens circularem pelo mundo toda a retórica de acobertamento do avanço agressivo da franja de desmatamento que o governo Bolsonaro pôs em campo, e que resultou na demissão do físico Ricardo Galvão da direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), irá ser totalmente desacreditada.

E como já declarou em entrevista ao jornal Valor Econômico o ex-ministro da Agricultura e latifundiário Blairo Maggi, toda essa situação levará o agronegócio brasileiro à estaca zero.  Mas aparentemente parece que vai ser preciso um boicote internacional às commodities brasileiras para que as piadas de botequim do presidente Jair Bolsonaro sejam substituídas por políticas responsáveis que combinem os interesses econômicos com a preservação ambiental.

Dados científicos e não balela de Twitter: a explosão do desmatamento na Amazônia é real

Ricardo-Galvão-Abril‘Nós usamos ciência, não balela de Twitter’, disse ex-diretor do Inpe ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles em debate na GloboNews.

O físico Ricardo Galvão, diretor exonerado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) aproveitou de um espaço televisivo na GloboNews para expor a incapacidade argumentativa do ministro (ou seria anti-ministro) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, e, por extensão, do presidente Jair Bolsonaro na discussão acerca da validade dos dados científicos que mostram uma explosão do desmatamento na Amazônia (ver vídeo abaixo).

Um dos muitos pontos altos das posições oferecidas por Ricardo Galvão foi demonstrar que a capacidade e correção científica dos pesquisadores do Inpe possui lastro em um longa experiência com a análise dos dados produzidos por satélites desde a década de 1970. Nesse sentido, Ricardo Galvão apontou para o caráter simplesmente ideológico dos ataques que foram desferidos contra os estudos do Inpe pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo próprio Ricardo Salles.

Pressionado pelos argumentos sólidos de um cientista de renome internacional como Ricardo Galvão, sobrou para Ricardo Salles a prática de atitudes deselegantes e a exposição de um sorriso amarelo toda vez que seus argumentos falaciosos eram destroçados de forma clara e calma por um oponente que se mostrou não apenas superior intelectualmente, mas também no quesito defesa dos interesses nacionais. 

Em relação ao aspecto da defesa dos interesses nacionais sobrou para Ricardo Salles a inglória tarefa de acusar Ricardo Galvão de ser um nacionalista ferrenho que teria ojeriza ao que vem de fora.  Ao fazer isso, Ricardo Salles não só demonstrou o caráter entreguista das suas ações, mas também foi de encontro ao amplo reconhecimento internacional que a alta expertise científica dos pesquisadores do Inpe desfruta em toda a comunidade cientifica internacional.

Por último, ressalto que o professor Ricardo Galvão mostrou nesse debate como deve ser a postura dos cientistas brasileiros ao se defrontarem com a enxurrada de fake news que está sendo produzida para desvalorizar o conhecimento científico com o objetivo de fazer prevalecer balelas produzidas e disseminadas por robôs da internet.

Demissão de chefe do Inpe é ‘alarmante’, diz diretor de centro da Nasa

bbc 1Desmatamento da Amazônia, em foto de 2007; floresta brasileira perdeu 20% de sua área desde 1970. Getty Images

A demissão de Ricardo Galvão do comando do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) é “significativamente alarmante”, pois “reflete como o atual governo brasileiro encara a ciência”.

A opinião é de Douglas Morton, diretor do Laboratório de Ciências Biosféricas no Centro de Voos Espaciais da Nasa, a agência especial americana, e professor-adjunto da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos.

“O Inpe sempre atuou de forma extremamente técnica e cuidadosa. A demissão de Ricardo Galvão é significativamente alarmante”, diz Morton por telefone à BBC News Brasil.

“Não acredito que o presidente Jair Bolsonaro duvide dos dados produzidos pelo Inpe, como diz. Na verdade, para ele, são inconvenientes. Os dados são inquestionáveis”, acrescenta.

Morton vem acompanhando de perto o Brasil nos últimos 18 anos, com foco especial nas fronteiras agrícolas na Amazônia e no Cerrado e na dinâmica do desmatamento, degradação florestal e manejo agrícola após conversão florestal. Em seu laboratório na Nasa, ele conduz pesquisas ecológicas em grande escala usando dados das plataformas aéreas e de satélite, modelos de ecossistemas e trabalho de campo.

bbc 2Para Douglas Morton, dados do instituto são ‘inquestionáveis’ e representam ‘verdade inconveniente’ para o presidente Jair Bolsonaro.

“O processo de análise de imagens de satélite providas por agências espaciais como a Nasa é feito com a mais absoluta transparência e imparcialidade pelo Inpe. O instituto tem prestígio internacional e sua equipe conta com funcionários gabaritados. Os dados são checados e rechecados antes de serem divulgados”, defende Morton.

“Neste sentido, a demissão de Galvão choca a comunidade científica pois envia um alerta sobre como o atual governo brasileiro encara a ciência”, acrescenta.

Morton observa ainda que, apesar de a metodologia na leitura dos dados sobre desmatamento poder variar de acordo com o organismo responsável pela análise, as discrepâncias são “muito pequenas”.

bbc 3Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, cortou qualquer interlocução do Ibama e do MMA com o Inpe, disse Galvão em entrevista à BBC News Brasil

“Os dados usados pelo instituto e outras organizações são baseados em imagens de satélite. O que varia é a forma como esses dados são processados. Mas não há nenhuma diferença fundamental no tocante à metodologia que justifique colocar em dúvida as informações divulgadas pelo Inpe”, diz.

Morton explica que a Nasa apenas fornece as imagens e não faz nenhuma análise sobre cobertura florestal no mundo. Cabe a especialistas como ele e organizações especializadas observar esses dados e avaliá-los.

As informações sobre desmatamento na Amazônia produzidas pelo Inpe são veiculadas por dois sistemas – Deter e Prodes. Esses dados são públicos e podem acessados pelo portal TerraBrasilis.

O Deter – levantamento rápido de alertas de evidências de alteração da cobertura florestal na Amazônia – é baseado em imagens dos sensores WFI, do satélite Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS-4) e AWiFS, do satélite Indian Remote Sensing Satellite (IRS).

Já o Prodes gera as taxas anuais de desmatamento na região e utiliza imagens de satélites americanos da classe LANDSAT.

bbc 4Bolsonaro acusou Galvão de estar a serviço de ‘ONGs internacionais’

Demissão

Na última sexta-feira (2 de agosto), Ricardo Galvão foi exonerado do cargo de diretor do Inpe após atritos com o governo.

Segundo afirmou Galvão em entrevista à BBC News Brasil, a crise que culminou em sua demissão foi fruto de um longo desgaste com o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) – o ministro chegou a anunciar que poderia contratar uma empresa privada para substituir o Inpe no monitoramento.

O ex-diretor disse ainda que o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, ignorou alertas feitos por ele desde janeiro deste ano, de que havia um problema de interlocução entre o Inpe e Salles.

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RICARDO GALVÃO / ARQUIVO PESSOAL. O físico Ricardo Galvão, 71 anos, é membro da Academia Brasileira de Ciências

A crise se tornou mais aguda a partir do dia 19 de julho, quando o presidente Jair Bolsonaro pôs em dúvida os dados do Instituto e disse que Galvão estaria “a serviço de alguma ONG”.

No dia seguinte, o diretor do Inpe concedeu entrevista defendendo as informações produzidas pelo instituto e criticando as declarações do presidente. Finalmente, na manhã da sexta-feira (02), Galvão foi informado por Marcos Pontes de que seria demitido.

Galvão foi nomeado diretor do Inpe em 2016 por Gilberto Kassab, que comandava à época o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações Comunicações (MCTIC). Antes disso, era professor titular da USP e presidente da Sociedade Brasileira de Física. Também é membro do conselho da Sociedade Europeia de Física e ex-diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.

O ex-diretor do Inpe é graduado em engenharia de telecomunicações pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em engenharia elétrica pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e doutor em física de plasmas aplicada pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), com livre-docência em física experimental pela USP (Universidade de São Paulo). É membro titular da Academia de Ciências do Estado de São Paulo e da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

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Este artigo foi originalmente publicado pela rede BBC [Aqui!].

Satélites tornam inútil qualquer tentativa de ocultação do que está acontecendo na Amazônia

03/07/2019 Coquetel de recepção para celebrar o 243º AniversMarcos Pontes, o dublê de ministro e turista espacial, interferiu na autonomia do Inpe para agradar o presidente Jair Bolsonaro, mas não impedirá a vigilância dos satélites que o Brasil não controla.

Todo o esforço que o governo Bolsonaro está realizando para ocultar o avanço explosivo da franja de desmatamento na Amazônia brasileira é inútil por um simples fato: o Brasil não controla os diversos satélites que monitoram diariamente a região.

Uma prova disso é o vídeo abaixo que mostra a situação na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, de São Félix do Xingu que teria perdido 2.300 ha por causa do desmatamento ocorrido somente em julho de 2019.

 

Assim, em vez de interferir na autonomia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o que o governo Bolsonaro deveria fazer é recolocar os servidores do IBAMA e do ICMBIO em campo para impedir a devastação que está ocorrendo sob os olhares cúmplices do anti-ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles e, por que não, do ministro Marcos Pontes da Ciência e Tecnologia.

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Aliás, ou fazem logo isso ou o Brasil brevemente sofrerá pesadas punições comerciais pelo que está sendo feito contra a Amazônia.

Ameaças e diversionismo não irão ocultar o desmatamento explosivo na Amazônia

bolso sallesO presidente Jair Bolsonaro e o ministro do meio ambiente Ricardo Salles: enquanto um ameaça, o outro tenta tampar o sol com a peneira.

O governo Bolsonaro se divide em ameaçar de demissão o  diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão e questionar a validade dos dados de desmatamento que os pesquisadores da instituição produzem de forma meticulosa. Essa postura é típica de quem sabe que suas próprias políticas de desmantelamento da governança ambiental e destruição dos mecanismos de comando e controle estão sendo altamente eficientes.

A “novidade” é o anúncio de que o governo Bolsonaro, por meio do seu anti-ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, vai contratar uma empresa particular para fazer aquilo que o resto do mundo já reconhece o Inpe faz com maestria. Essa é a parte do diversionismo, pois não se diz nem como e porque se vai adotar uma nova e misteriosa forma de medir o desmatamento que hoje corre solto pelas florestas da Amazônia.  Há ainda, porém, um elemento do interesse privado e dos potenciais interessados em se contratar a peso de ouro uma empresa particular para fazer aquilo que o Inpe já faz.

O erro do governo Bolsonaro é subestimar o impacto do que está acontecendo a partir do êxito de suas políticas, pois se até a revista “The Economist” já apontou o dedo acusador, não vai ser com uma empresa contratada para produzir dados sob medida que a coisa vai se resolver.

Outro detalhe que parece escapar ao discernimento dos “espertos” que compõe o governo Bolsonaro é que existem dezenas de grupos de pesquisa fazendo trabalho semelhante ao do Inpe em várias partes do mundo. E, mais, que esses grupos não terão como ser tutelados ou seus diretores demitidos. Aliás, o mais provável é que vários pesquisadores de renome internacional que estão hoje no Inpe sejam convidados a continuar o trabalho que está sendo atacado no conforto de laboratórios igualmente equipados em outras partes do planeta. 

Volto a frisar que toda essa chacrinha em torno dos dados de desmatamento serve apenas para ocultar que os problemas criados pelo governo Bolsonaro vão além, muito além, do desmatamento. A ação ampliada de garimpeiros e madeireiros estão criando condições ideais para mais desmatamento, mas isto ainda não está necessariamente sendo medido pelo tipo de sensor utilizado pelo Inpe.  A gritaria mundial vai certamente aumentar quando os dados de desmatamento forem somados aos da degradação florestal que está sendo também acelerada na Amazônia, muito em função do que foi desconstruído pelo governo Bolsonaro em pouco mais de 7 meses de governo.

Finalmente, pressinto que qualquer violência institucional que seja cometida contra o Inpe deverá acelerar as respostas que muitos governos estrangeiros já estão articulando por causa da devastação que o governo Bolsonaro está permitindo na Amazônia. E se isso acontecer, talvez (notem que eu disse talvez) o presidente Jair Bolsonaro e sua entourage de ministros que parecem ter saído de filmes do Século XVI se toquem de que a banda não toca necessariamente do jeito que eles querem, e que existem repercussões para quem quer brincar de  Donald Trump das Selvas às custas do equilíbrio climático da Terra.

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