O desmatamento na Amazônia está aumentando, mas o presidente do Brasil chama os dados de “uma mentira”

para deforestationO desenvolvimento está invadindo a floresta no estado do Pará no Brasil. Cerca de 7500 quilômetros quadrados de floresta foram derrubados em todo o país em 2018. IMAGENS DE GALLO / ORBITAL HORIZON / COPERNICUS SENTINEL DATA 2018 / GETTY IMAGES

Por Herton Escobar*

O desmatamento está subindo novamente na Amazônia brasileira, de acordo com dados de monitoramento por satélite. Mas o presidente de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, que muitos culpam pelo aumento, contestou a tendência e atacou a credibilidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que produziu os dados. Bolsonaro classificou os números como “mentirosos” durante uma conversa de café da manhã com jornalistas em 19 de julho, e sugeriu que o diretor do INPE, Ricardo Galvão, estava “a serviço de alguma organização não-governamental”. “Com toda a devastação que você nos acusa de fazer No passado, a Amazônia já se extinguiria ”, afirmou.

Seus comentários provocaram uma violenta reação da comunidade científica, que se sente cada vez mais sitiada pela administração Bolsonaro. “Os satélites não são responsáveis ​​pelo desmatamento – eles registram apenas objetivamente o que acontece”, diz um manifesto da Coalizão pela Ciência e Sociedade, um grupo recém-formado de cientistas preocupados com os acontecimentos políticos no Brasil. “Os fatos científicos prevalecerão, quer as pessoas acreditem ou não neles.” Galvão chamou de Bolsonaro um “covarde” por expressar acusações infundadas em público. “Espero que ele me chame a Brasília para explicar os dados e que ele tenha a coragem de repetir [o que disse] cara a cara”, disse Galvão em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

Bolsonaro – que disse que Galvão poderia se reunir com um ministro do gabinete – já atenuou suas críticas, mas insiste que o INPE deve consultar autoridades do governo antes de divulgar dados de desmatamento no futuro porque está prejudicando a imagem do Brasil no exterior. (A política oficial do INPE é divulgar todos os seus dados.) Muitos cientistas e ambientalistas proeminentes culpam o aumento do desmatamento nas agressivas declarações e políticas de desenvolvimento de Bolsonaro, incluindo a promoção da agricultura e mineração em terras protegidas.

O INPE, um instituto de pesquisa público com sede em São José dos Campos, vem acompanhando o desmatamento na Amazônia por meio de imagens de satélite desde a década de 1970. “Esses dados há muito são usados ​​como um indicador confiável do que está acontecendo na Amazônia brasileira”, diz Bill Laurance, diretor do Centro de Ciência Ambiental e Sustentável Tropical da James Cook University, em Cairns, Austrália. Um dos sistemas de monitoramento do INPE, chamado Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (DETER), gera um alerta toda vez que uma clareira maior que 3 hectares é detectada no dossel da floresta. Ele é projetado para funcionar como um sistema de alarme e guiar a aplicação da lei em campo, mas também gera registros aproximados de novos desmatamentos que são liberados semanalmente. Os dados mais recentes do DETER sugerem que mais de 4200 quilômetros quadrados de floresta foram cortados da Amazônia brasileira entre 1º de janeiro, quando Bolsonaro assumiu o poder, e 24 de julho. Isso é 50% mais do que nos primeiros 7 meses de 2018 e mais que o dobro da área desminada no mesmo período de 2017.

Outro sistema, o Projeto de Monitoramento de Satélite do Desflorestamento da Amazônia (PRODES), gera as taxas anuais oficiais de desmatamento do Brasil, calculadas a partir de uma seleção de fotos de alta resolução de diferentes satélites. Embora o PRODES seja mais preciso do que o DETER, os dois sistemas tendem a concordar entre si, então é provável que o próximo relatório do PRODES, esperado em dezembro, mostre um pico de desmatamento de magnitude similar, dizem os analistas.

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Declarar que os dados do INPE são uma mentira é semelhante a argumentar que a Terra é plana. Bill Laurance, James Cook University

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As taxas anuais de desmatamento diminuíram em mais de 80% entre 2004, quando o DETER entrou em operação, e em 2012, mas têm tendência de alta desde então. Cerca de 7500 quilômetros quadrados de floresta foram derrubados em 2018. Mas o pico deste ano se destaca, dizem especialistas. “Ao invés de ser uma surpresa, o resultado confirma os muitos relatos de desmatamento [atividades] no chão, e se encaixa com a expectativa do clima de impunidade que a retórica do governo promoveu”, diz Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Desmatamento. Pesquisa na Amazônia em Manaus, Brasil.

Bolsonaro é um feroz crítico das regulamentações ambientais brasileiras e agências de aplicação da lei, que ele afirma serem tendenciosas contra a agricultura e o desenvolvimento econômico. Ele transferiu o controle sobre as terras indígenas para o Ministério da Agricultura e prometeu rever os limites dos parques nacionais e de outras áreas protegidas que, segundo ele, estão retardando o progresso no Brasil.

Outros cientistas defendem os números do INPE. “Declarar os dados do INPE é uma mentira que alega que a Terra é plana”, diz Laurance. “Eu sempre fui impressionado com a habilidade técnica dos cientistas do INPE e aplaudi-los por seus esforços pioneiros para fornecer estimativas anuais de desmatamento”, diz Douglas Morton, chefe do Laboratório de Ciências Biosféricas no Goddard Space Flight Center da NASA em Greenbelt, Maryland, EUA. e professor adjunto da Universidade de Maryland em College Park.

O INPE recebeu muito menos apoio do ministro da Ciência e Tecnologia do Brasil, o ex-astronauta da NASA e engenheiro aeroespacial Marcos Pontes, cujo departamento supervisiona o instituto. Em uma declaração de 22 de julho, Pontes, um membro do partido de Bolsonaro, disse que considera o INPE “em alta consideração”, mas aceitou as preocupações de Bolsonaro ao condenar o contra-ataque de Galvão. Pontes disse que pediu um “relatório técnico completo” do INPE sobre os últimos 24 meses de dados de desmatamento e disse que seu ministério havia convidado Galvão para “esclarecimentos e orientações”. Ele também disse que concorda que o INPE não divulgue seus dados tão cedo. como eles estão prontos.

“É claro que ninguém esperava [Pontes] entrar em choque com o presidente”, diz Mercedes Bustamante, ecologista da Universidade de Brasília e co-fundadora da Coalizão para Ciência e Sociedade, “mas o tom de sua declaração foi decepcionante”.

*Herton Escobar é jornalista especializado em ciência e meio ambiente em São Paulo.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela revista científica “Science” [Aqui!].

A censura ao Inpe busca esconder a alta eficiência das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro na devastação da Amazônia

03/07/2019 Coquetel de recepção para celebrar o 243º AniversO presidente Jair Bolsonaro e o ministro Marcos Pontes sinalizam que irão censurar os dados de desmatamento produzidos do Inpe. Ao fazer isso, eles tentam esconder o alto sucesso das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro.

Alguém no governo Bolsonaro deve ter lido a fábula do menino Peter que com um dos seus dedos num buraco formado em um dique de proteção, impedindo que a água do mar invadisse a região em que vivia na Holanda. É que só assim se pode entender a disposição de censurar os dados produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o explosivo desmatamento que ocorre ao longo de 2019 na porção brasileira da bacia Amazônica.

É que tomando a fábula holandesa o Inpe é apenas um dos buracos no dique da mentira que se pretende criar para esconder o sucesso (notem que eu disse o sucesso) das políticas do governo Bolsonaro para acelerar o desmatamento na Amazônia. Ao se censurar o Inpe restarão vários buracos que farão esse dique desmoronar. A verdade é que a anunciada censura do Inpe que não mais poderá (dependendo da vontade de Jair Bolsonaro) divulgar publicamente os dados de desmatamento vai se provar rapidamente um tiro no pé do governo Bolsonaro.

Reafirmo que o Inpe é apenas um dos institutos de pesquisa que possuem ferramentas de monitoramento contínuo do avanço do desmatamento da Amazônia brasileira.  E, pior, o Inpe tem agido escrupulosamente como instituto de pesquisa público e preservado o Brasil de maiores vergonhas ao divulgar os dados que gera de forma não apenas organizada, transparente, mas, também, de forma bastante pragmática.

Se tivesse de culpar alguém nesse imbróglio envolvendo os dados de desmatamento, o presidente Jair Bolsonaro deveria culpar a própria eficiência. É que ele apontou um ministro do Meio Ambiente que eficientemente desmontou estruturas de governança e sucateou com velocidade meteórica as estruturas de comando e controle que existiam na Amazônia e no Cerrado.  A consequência disso foi que todos os “drivers” que estavam moderadamente contidos nas últimas décadas puderam agir com completa liberdade, consumindo florestas nativas como a voracidade de um bando de saúvas bravas. 

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Paralisação de estruturas de proteção ambiental causou aumento explosivo do desmatamento na Amazônia.

Em outras palavras, o que o Inpe tem feito é medir o grande sucesso das políticas anti-ambientais acertadas por Jair Bolsonaro com seus grupos de apoio político dentro de atores díspares como madeireiros, garimpeiros e latifundiários.  É essa a realidade que as ações aparentemente alopradas de Jair Bolsonaro e do dublê de ministro de Ciência e Tecnologia e turista espacial,  Marcos Pontes, de condenar a forma de divulgação dos dados de desmatamento pelo Inpe é só uma tentativa canhestra de esconder o sol com a peneira.

Já se sabe que a real questão por detrás do esperneio do governo Bolsonaro acerca da exposição do seu próprio sucesso é o medo de que parceiros comerciais importantes, a começar pela União Europeia, tomem medidas punitivas contra os produtos agrícolas brasileiros por causa da devastação que está sendo permitida nba Amazônia. Mas como alguém que já participou da publicação  vários artigos científicos sobre a perda de cobertura vegetal na Amazônia posso adiantar que censurar o Inpe só vai acelerar e aprofundar os problemas que o Brasil vai enfrentar por causa do que está sendo impulsionado pelo governo Bolsonaro com suas políticas anti-ambientais. 

Entretanto, como bom senso é algo que inexiste no governo Bolsonaro, tenho certeza de que a censura ocorrerá e os custos econômicos e políticos serão imensos. Melhor seria celebrar o próprio sucesso e deixar o Inpe documentá-lo de forma autônoma.

Diretor do Inpe dá exemplo de como agir em tempos de negação da ciência

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Confrontando por Jair Bolsonaro por causa dos dados de desmatamento na Amazônia, o presidente do Inpe classificou as declarações presidenciais como sendo pusilânimes e covardes.

Confrontando com as declarações do presidente Jair Bolsonaro dando conta que os dados divulgados sobre o desmatamento da Amazônia seriam “mentirosos“, o presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências,  o engenheiro com doutorado em física Ricardo Magnus Osório, usou de semelhante contundência para dizer que as declarações presidenciais seriam pusilânimes (i.e., eivadas de vulnerabilidade moral) e covardes. Além disso, Magnus Osório ainda disse que as declarações de Jair Bolsonaro eram equivalentes a um papo de botequim.

Além de posicionar em campo moral mais elevado, Ricardo Magnus Osório lembrou que os dados do Inpe são a maior série histórica sobre registros de sensoriamento remoto em florestas tropicais, remontando ao início da década de 1970; sendo por isso uma referência mundial em estudos sobre mudanças na cobertura da terra. 

Aliás, a alta qualidade da ciência produzida pelos pesquisadores do Inpe está demonstrada nos milhares de artigos científicos, relatórios técnicos, dissertações de mestrado e teses de doutorado que usaram os dados gerados pelo Inpe. Essa repercussão extrapola faz muito tempo os limites das fronteiras brasileiras. Bastaria a algum assessor (talvez o “impoluto” Onyx Lorenzoni) realizar uma rápida busca no Google para que o presidente do Brasil não estivesse sendo agora motivo de piadas desairosas em nível mundial por causa das declarações de botequim sobre a ciência produzida por uma das jóias preciosas da ciência brasileira.

Confrontado com as declarações de Ricardo Magnus Osório de que gostaria de um encontro “frente a frente” para esclarecer eventuais dúvidas sobre os dados do desmatamento da Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro fez o que sempre faz quando se defronta contra um oponente que não pisca diante dele, empreendeu um recuo que tem a aparência de um avanço. É que perguntado pela imprensa sobre a crise com o Inpe, Jair Bolsonaro afirmou duas coisas em relação às declarações ao que disse. A primeira é que enviaria o seu ministro da Ciência Tecnologia, o “astronauta”  Marcos Pontes ou talvez o do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, para conversar com o presidente do Inpe.

A segunda declaração de Jair Bolsonaro foi de reclamar de que a divulgação dos dados de desmatamento estariam prejudicando a imagem externa do Brasil. De quebra, Bolsonaro renovou suas dúvidas sobre a validade dos dados gerados pelo Inpe, dizendo que os mesmos se pareceriam muito com os do ano passado (o que é verdade). Aqui o caso é de um atirador que tenta matar o mensageiro por não gostar da mensagem que ele carrega. É que o que verdadeiramente prejudica o Brasil neste momento e por décadas que ainda virão é o ritmo acelerado de desmatamento que está ocorrendo na Amazônia, sob a aprovação tácita do governo Bolsonaro que desmanchou as estruturas de governança e prejudicou fortemente as operações de comando e controle que continham a sanha dos saqueadores das riquezas naturais na Amazônia.  

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Os dados do desmatamento na Amazônia que tanto irritaram Jair Bolsonaro fazem parte da maior série histórica existente no mundo sobre florestas tropicais.

O grande engano do presidente Jair Bolsonaro é pensar que atacando o Inpe ele estará resolvendo o problema que suas políticas de economia de fronteira estão criando na Amazônia. Pelo contrário, o Inpe é uma instituição que apesar de ser vista como cientificamente independente sempre agiu de forma pragmática para não ferir os interesses econômicos e políticos brasileiros. Se houver uma degradação da capacidade de ação do Inpe, com certeza sobressairão os estudos de organizações internacionais que possuem igualmente bases de dados robustos sobre desmatamento, e que as usarão para defender melhor determinadas posições que não sejam as do Brasil. Esse é um fato tão fácil de medir quanto o desmatamento que os garimpeiros, madeireiros e latifundiários que votaram em Jair Bolsonaro estão causando na Amazônia.

Reitero mais uma vez a necessidade de que se faça uma ampla defesa da autonomia científica dos pesquisadores do Inpe. É que nessa defesa repousa a capacidade de toda a comunidade científica brasileira continuar produzindo ciência de forma autônoma.  Nesse sentido, são positivas as notas da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e da Sociedade Brasileira de Física apoiando o Inpe e seu corajoso diretor. Entretanto, esse movimento de solidariedade deve ser generalizado, independente dos campos do conhecimento. O que está posto na mesa é o futuro da ciência nacional, ainda que reverberado a partir de um discurso que parece papo de botequim.

Finalmente, quero apontar que a postura do presidente do Inpe de responder de forma pronta e papas na língua ao ataque que ele e os pesquisadores receberam de Jair Bolsonaro deveria ser o modus operandi enquanto durar esse governo que opera para amedrontar e calar os que são percebidos como críticos e, em muitos casos, são apenas portadores de verdades que são inconvenientes aos poderosos de plantão.

 

Amazônia: sem poder questionar dados de desmatamento, Jair Bolsonaro sinaliza censura ao Inpe

bolsonaro inpe

Descontente com evidências científicas produzidas sobre o desmatamento na Amazônia, Jair Bolsonaro sinaliza que irá censurar o Inpe.

Quero começar esta postagem lembrando que no dia 11 de janeiro fui entrevistado pela jornalista Filomena Naves do jornal Diário de Notícias que é publicado em Lisboa, e nessa entrevista sinalizei algo que já me parecia óbvio: cientistas brasileiros que trabalhassem com temas sensíveis como desmatamento na Amazônia e  o uso abusivo de agrotóxicos pelo latifúndio agro-exportador tenderiam a ser perseguidos durante o governo Bolsonaro.

Pouco mais de 6 meses depois, o próprio presidente Jair Bolsonaro sinaliza de forma explícita que irá censurar o trabalho dos pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que fornecem dados contínuos sobre o avanço da franja de desmatamento na Amazônia brasileira.  Essa sinalização é um dos elementos apontados no interessante artigo assinado pela jornalista Lisandra Paraguassu e que foi publicada pela agência Reuters na tarde desta 6a. feira.

Segundo o artigo, o presidente Jair Bolsonaro teria dito que ““a questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos, e nós vamos chamar aqui o presidente do Inpe para conversar sobre isso, e ponto final nessa questão”. Bolsonaro teria dito ainda que “mandei ver quem está à frente do Inpe. Até parece que está a serviço de alguma ONG, o que é muito comum”. 

Explicitada a ameaça de censura a uma produção científica que é considerada uma das melhores em todo o planeta, alguém precisa avisar ao presidente Jair Bolsonaro que o Inpe é apenas um mensageiro altamente qualificado. E se ele, Bolsonaro, não gosta da mensagem deveria se comunicar com o encarregado do ministério do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, para ver o que de fato está acontecendo na pasta, para pelo menos evitar vexames maiores.

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Dados obtidos pelas pesquisas do Inpe que irritaram o presidente Jair Bolsonaro.

Um aspecto que alguém deveria avisar não apenas ao presidente Bolsonaro, mas também a Ricardo Salles, é que os estudos envolvendo as mudanças no uso e cobertura da terra na Amazônia e no Cerrado possuem um longo lastro, e que estão ancorados em avanços metodológicos que não são passíveis de serem censurados. Além disso, dada a existência de uma ampla expertise internacional, qualquer tentativa de censurar os dados produzidos pelo Inpe será definitivamente um imenso tiro no pé. É que os pesquisadores do Inpe são em sua maioria absoluta não apenas altamente qualificados, mas também responsavelmente pragmáticos sobre o trabalho que realizam.

Outro elemento a ser considerado pela equipe de governo do presidente Jair Bolsonaro é que atualmente existe uma ampla gama de satélites monitorando em condição quase instantânea tudo o que está acontecendo na chamada Pan Amazônia. incluindo aí a porção brasileira da bacia Amazônica. Assim, é particularmente improdutivo questionar-se a validade científica dos dados produzidos pelo Inpe que estão demonstrando a ocorrência de taxas explosivas de desmatamento, pois existem outras instituições científicas internacionais trabalhando com as mesmas séries de dados, e que certamente chegarão às mesmas conclusões dos pesquisadores que Jair Bolsonaro está chamando de mentirosos.

Uma outra questão é que aparentemente existe forte apreço no governo Bolsonaro por tudo que está relacionado aos EUA. Pois bem, um dos principais satélites que monitoram continuamente a Amazônia é o Landsat que possui uma das mais longas (senão a mais longa série de cenas mostrando as mudanças da cobertura vegetal na Amazônia. Como se sabe, os satélites do programa Landsat são uma iniciativa da National Space Agency (NASA), sendo uma das principais ferramentas utilizadas por cientistas de todo o mundo. Assim sendo, censurar o Inpe não apenas seria autoritário, mas essencialmente inútil. E se for para reclamar, que se reclame com o papa, ou seja, o presidente Donald Trump.

Finalmente, reitero a urgente necessidade de defender os pesquisadores do Inpe dos ataques que estão sendo desferidos contra eles. Digo isso não apenas porque é totalmente incorreta a natureza dos ataques, mas também porque necessitamos que eles continuem realizando o seu trabalho científico de forma autônoma, com requer a boa ciência que eles praticam há décadas, sempre com o rigor científico que seus estudos demandam.

Entidades se manifestam em defesa do Inpe

SBPC, ABC, Andifes, Conif, Confies, Confap e RBCIH encaminharam nesta quarta-feira, 10 de julho, uma carta ao presidente da República na qual reafirmam confiança na qualidade do monitoramento do desmatamento da Amazônia realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

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A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), junto a outras seis entidades científicas e acadêmicas nacionais, encaminhou nesta quarta-feira, 10 de julho, uma carta ao presidente da República, Jair Bolsonaro, em defesa do monitoramento independente e de excelência desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O documento foi encaminhado também à ministra da Agricultura, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias; e aos ministros da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, e do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

“A qualidade de seus dados é constantemente monitorada, resultando em um índice superior a 95% de precisão, e a política de transparência adotada pelo Inpe permite acesso irrestrito a todas as informações geradas pelos sistemas de monitoramento, possibilitando avaliações independentes pela comunidade usuária e acadêmica. A questão fundamental, portanto, não está na produção de dados confiáveis sobre a geografia do desmatamento, mas sim na necessidade de órgãos do governo de manter um sistema de fiscalização ágil, intenso e contínuo”, argumentam na carta.

Além da SBPC, assinam o documento a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), o Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies), o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP), o Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif), e a Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas.

Leia a carta neste link.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Jornal da Ciência da SBPC [Aqui!].

Grupo do Inpe lança livro sobre sensoriamento remoto de sistemas aquáticos

sensoriamento remoto

Obra trata da aplicação das imagens de satélites no monitoramento de rios e lagos e pode ser baixada gratuitamente pela internet (imagem: divulgação)

Agência FAPESP – Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e colaboradores do Laboratório de Instrumentação de Sistemas Aquáticos (LabISA), sob a coordenação de Claudio Barbosa e Evlyn Novo, lançaram a primeira edição do livro Introdução ao Sensoriamento Remoto de Sistemas Aquáticos: Princípios e aplicações.

O lançamento ocorreu durante o 19º Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto, que aconteceu em abril em Santos (SP).

O livro foi publicado em formato digital e está disponível gratuitamente no site do Inpe. A publicação contém uma série de conceitos aplicados ao sensoriamento remoto de ambientes aquáticos, como os fundamentos da óptica hidrológica, as propriedades ópticas da água e seus constituintes, os equipamentos e técnicas de processamento de dados, o histórico dos sistemas orbitais e suas aplicações.

É focado em águas interiores e oferece uma oportunidade para os novos profissionais entenderem como os dados de sensoriamento remoto podem ser empregados no monitoramento dos sistemas aquáticos continentais.

O LabISA teve três projetos financiados pela FAPESP, que colaboraram para o material da publicação:

– “Environmental and socioeconomic impacts associated with the production and consumption of sugarcane ethanol in south central Brazil“,

– “Sensoriamento remoto aplicado à modelagem de impactos antropogênicos sobre propriedades ecológicas de ambientes alagáveis e aquáticos da planície do Solimões/Amazonas“;

– “Caracterização bio-óptica espaço-temporal e desenvolvimento de algoritmos analíticos para o monitoramento sistemático das massas de água que circulam pela planície de inundação do médio e baixo Amazonas“.

 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

INPE e suas “boas” notícias sobre o avanço do desmatamento na Amazônia

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O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou na última 6a. feira os números acerca da taxa consolidada de desmatamento na Amazônia brasileira e tentou dar um olhar positivo sobre a devastação em curso naquele bioma. É que os dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES) mostram que “apenas” 6.947 km2  em 2017, contra os 7.893 km2 de 2016. Os responsáveis ainda deram uma dourada a mais na pílula e compararam os dados de 2017 com os de 2004 quando desmatamento medido foi de mais de 25.000 km2

A verdade é que o ritmo atual da devastação coloca questões dramáticas não apenas para o Brasil, mas para o resto do mundo devido não só a importância dos biomas amazônicos para a sustentação dos níveis de biodiversidade, mas principal e especialmente para o equilíbrio climático do planeta.

O problema é ainda mais grave quando se considera que os números fornecidos pelo PRODES se refere ao chamado “corte raso” quando há a remoção completa da floresta. É que estão em curso outros processos de degradação, tais como extração ilegal de madeira e garimpos, que servem para abrir caminho para o futuro avanço de monoculturas e da pecuária extensiva que, por sua vez, favorecem a ocorrência de grandes incêndios florestais . 

Quando se considera a combinação do corte raso com outras formas de “degradação” da floresta primária é possível entender que a devastação da Amazônia está indo num passo mais acelerado do que os dados do PRODES nos permitem inferir.

Nunca é demais notar que estados como Pará, Mato Grosso e Rondônia continuam sustentando os seus tradicionais números altos de desmatamento. Entretanto, o fato de que o Amazonas está se colocando no grupo dos grandes desmatadores é particularmente preocupante já que o estado parece estar se transformando paulatinamente na fronteira mais dinâmica do desmatamento amazônico.

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Desta forma, é extremamente importante que sejam realizados mais estudos que integrem as diferentes formas de devastação que estão ocorrendo na Amazônia neste momento, de modo que tenhamos um entendimento mais amplo do que está acontecendo e das possíveis consequências deste processo irracional de destruição de seus biomas e da biodiversidade que os mesmos contém.

 

INPE registra 6.947 km2 de desmatamento na Amazônia em 2017

São José dos Campos-SP, 11 de maio de 2018

A taxa consolidada gerada pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (PRODES), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), apontou o resultado de 6.947 km2  de corte raso no período de agosto de 2016 a julho de 2017.

O resultado indica uma diminuição de 12% em relação a 2016, ano em que foram apurados 7.893 km2  e também representa uma redução de 75% em relação à registrada em 2004, ano em que o Governo Federal lançou o Plano para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm), atualmente coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA).

O mapeamento utiliza imagens do satélite Landsat complementadas por imagens dos satélites CBERS e ResourceSat, para cartografar e quantificar as áreas desmatadas maiores que 6,25 hectares. O PRODES considera como desmatamento a remoção completa da cobertura florestal primária por corte raso, independentemente da futura utilização destas áreas.

Com o PRODES, o INPE realiza o mapeamento sistemático na Amazônia Legal e produz desde 1988 as taxas anuais de desmatamento na região, que são usadas pelo governo brasileiro para avaliação e estabelecimento de políticas públicas relativas ao controle do desmatamento e ações voltadas a temática de REDD+. Os dados são importantes para toda a sociedade e embasam iniciativas bem-sucedidas como a Moratória da Soja e Termo de Ajuste de Conduta da cadeia produtiva de carne bovina, entre outras.

As tabelas abaixo apresentam a distribuição do desmatamento para o ano de 2017 nos Estados que compõem a Amazônia Legal, bem como a comparação com as respectivas taxas consolidadas para o ano de 2016.

Estado PRODES 2017 (km2) Contribuição (%)
Acre 257 3,7
Amazonas 1.001 14,4
Amapá 24 0,3
Maranhão 265 3,8
Mato Grosso 1.561 22,5
Pará 2.433 35,0
Rondônia 1.243 17,9
Roraima 132 1,9
Tocantins 31 0,4
Total 6.947 100,0
Estado PRODES 2016

(km2)

PRODES 2017

(km2)

Variação (%)
Acre 372 257 -31
Amazonas 1.129 1.001 -11
Amapá 17 24 41
Maranhão 258 265 3
Mato Grosso 1.489 1.561 5
Pará 2.992 2.433 -19
Rondônia 1.376 1.243 -10
Roraima 202 132 -35
Tocantins 58 31 -47
AMZ. Legal 7.893 6.947 -12

O resultado da taxa consolidada, obtida após o mapeamento de 217 cenas do satélite americano Landsat 8/OLI, é 4,9% acima do estimado pelo INPE em novembro de 2017, que foi de 6.624 km2, cálculo gerado à época com base em 95 imagens do mesmo satélite e que cobriram a área onde foram registrados mais de 90% do desmatamento no período anterior (agosto/2015 a julho/2016) e também os 39 municípios prioritários para fiscalização (Decreto Federal 6.321/2007, atualizado em 2017 pela portaria no. 360 do Ministério do Meio Ambiente).

Os gráficos abaixo mostram a série histórica do PRODES para a Amazônia Legal e seus Estados, além da variação relativa anual das taxas de desmatamento.

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 FONTE:  http://www.inpe.br/noticias/noticia.php?Cod_Noticia=4778