Demissão de chefe do Inpe é ‘alarmante’, diz diretor de centro da Nasa

bbc 1Desmatamento da Amazônia, em foto de 2007; floresta brasileira perdeu 20% de sua área desde 1970. Getty Images

A demissão de Ricardo Galvão do comando do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) é “significativamente alarmante”, pois “reflete como o atual governo brasileiro encara a ciência”.

A opinião é de Douglas Morton, diretor do Laboratório de Ciências Biosféricas no Centro de Voos Espaciais da Nasa, a agência especial americana, e professor-adjunto da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos.

“O Inpe sempre atuou de forma extremamente técnica e cuidadosa. A demissão de Ricardo Galvão é significativamente alarmante”, diz Morton por telefone à BBC News Brasil.

“Não acredito que o presidente Jair Bolsonaro duvide dos dados produzidos pelo Inpe, como diz. Na verdade, para ele, são inconvenientes. Os dados são inquestionáveis”, acrescenta.

Morton vem acompanhando de perto o Brasil nos últimos 18 anos, com foco especial nas fronteiras agrícolas na Amazônia e no Cerrado e na dinâmica do desmatamento, degradação florestal e manejo agrícola após conversão florestal. Em seu laboratório na Nasa, ele conduz pesquisas ecológicas em grande escala usando dados das plataformas aéreas e de satélite, modelos de ecossistemas e trabalho de campo.

bbc 2Para Douglas Morton, dados do instituto são ‘inquestionáveis’ e representam ‘verdade inconveniente’ para o presidente Jair Bolsonaro.

“O processo de análise de imagens de satélite providas por agências espaciais como a Nasa é feito com a mais absoluta transparência e imparcialidade pelo Inpe. O instituto tem prestígio internacional e sua equipe conta com funcionários gabaritados. Os dados são checados e rechecados antes de serem divulgados”, defende Morton.

“Neste sentido, a demissão de Galvão choca a comunidade científica pois envia um alerta sobre como o atual governo brasileiro encara a ciência”, acrescenta.

Morton observa ainda que, apesar de a metodologia na leitura dos dados sobre desmatamento poder variar de acordo com o organismo responsável pela análise, as discrepâncias são “muito pequenas”.

bbc 3Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, cortou qualquer interlocução do Ibama e do MMA com o Inpe, disse Galvão em entrevista à BBC News Brasil

“Os dados usados pelo instituto e outras organizações são baseados em imagens de satélite. O que varia é a forma como esses dados são processados. Mas não há nenhuma diferença fundamental no tocante à metodologia que justifique colocar em dúvida as informações divulgadas pelo Inpe”, diz.

Morton explica que a Nasa apenas fornece as imagens e não faz nenhuma análise sobre cobertura florestal no mundo. Cabe a especialistas como ele e organizações especializadas observar esses dados e avaliá-los.

As informações sobre desmatamento na Amazônia produzidas pelo Inpe são veiculadas por dois sistemas – Deter e Prodes. Esses dados são públicos e podem acessados pelo portal TerraBrasilis.

O Deter – levantamento rápido de alertas de evidências de alteração da cobertura florestal na Amazônia – é baseado em imagens dos sensores WFI, do satélite Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS-4) e AWiFS, do satélite Indian Remote Sensing Satellite (IRS).

Já o Prodes gera as taxas anuais de desmatamento na região e utiliza imagens de satélites americanos da classe LANDSAT.

bbc 4Bolsonaro acusou Galvão de estar a serviço de ‘ONGs internacionais’

Demissão

Na última sexta-feira (2 de agosto), Ricardo Galvão foi exonerado do cargo de diretor do Inpe após atritos com o governo.

Segundo afirmou Galvão em entrevista à BBC News Brasil, a crise que culminou em sua demissão foi fruto de um longo desgaste com o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) – o ministro chegou a anunciar que poderia contratar uma empresa privada para substituir o Inpe no monitoramento.

O ex-diretor disse ainda que o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, ignorou alertas feitos por ele desde janeiro deste ano, de que havia um problema de interlocução entre o Inpe e Salles.

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RICARDO GALVÃO / ARQUIVO PESSOAL. O físico Ricardo Galvão, 71 anos, é membro da Academia Brasileira de Ciências

A crise se tornou mais aguda a partir do dia 19 de julho, quando o presidente Jair Bolsonaro pôs em dúvida os dados do Instituto e disse que Galvão estaria “a serviço de alguma ONG”.

No dia seguinte, o diretor do Inpe concedeu entrevista defendendo as informações produzidas pelo instituto e criticando as declarações do presidente. Finalmente, na manhã da sexta-feira (02), Galvão foi informado por Marcos Pontes de que seria demitido.

Galvão foi nomeado diretor do Inpe em 2016 por Gilberto Kassab, que comandava à época o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações Comunicações (MCTIC). Antes disso, era professor titular da USP e presidente da Sociedade Brasileira de Física. Também é membro do conselho da Sociedade Europeia de Física e ex-diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.

O ex-diretor do Inpe é graduado em engenharia de telecomunicações pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em engenharia elétrica pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e doutor em física de plasmas aplicada pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), com livre-docência em física experimental pela USP (Universidade de São Paulo). É membro titular da Academia de Ciências do Estado de São Paulo e da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

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Este artigo foi originalmente publicado pela rede BBC [Aqui!].

Satélites tornam inútil qualquer tentativa de ocultação do que está acontecendo na Amazônia

03/07/2019 Coquetel de recepção para celebrar o 243º AniversMarcos Pontes, o dublê de ministro e turista espacial, interferiu na autonomia do Inpe para agradar o presidente Jair Bolsonaro, mas não impedirá a vigilância dos satélites que o Brasil não controla.

Todo o esforço que o governo Bolsonaro está realizando para ocultar o avanço explosivo da franja de desmatamento na Amazônia brasileira é inútil por um simples fato: o Brasil não controla os diversos satélites que monitoram diariamente a região.

Uma prova disso é o vídeo abaixo que mostra a situação na Área de Proteção Ambiental (APA) Triunfo do Xingu, de São Félix do Xingu que teria perdido 2.300 ha por causa do desmatamento ocorrido somente em julho de 2019.

 

Assim, em vez de interferir na autonomia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o que o governo Bolsonaro deveria fazer é recolocar os servidores do IBAMA e do ICMBIO em campo para impedir a devastação que está ocorrendo sob os olhares cúmplices do anti-ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles e, por que não, do ministro Marcos Pontes da Ciência e Tecnologia.

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Aliás, ou fazem logo isso ou o Brasil brevemente sofrerá pesadas punições comerciais pelo que está sendo feito contra a Amazônia.

Ameaças e diversionismo não irão ocultar o desmatamento explosivo na Amazônia

bolso sallesO presidente Jair Bolsonaro e o ministro do meio ambiente Ricardo Salles: enquanto um ameaça, o outro tenta tampar o sol com a peneira.

O governo Bolsonaro se divide em ameaçar de demissão o  diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão e questionar a validade dos dados de desmatamento que os pesquisadores da instituição produzem de forma meticulosa. Essa postura é típica de quem sabe que suas próprias políticas de desmantelamento da governança ambiental e destruição dos mecanismos de comando e controle estão sendo altamente eficientes.

A “novidade” é o anúncio de que o governo Bolsonaro, por meio do seu anti-ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, vai contratar uma empresa particular para fazer aquilo que o resto do mundo já reconhece o Inpe faz com maestria. Essa é a parte do diversionismo, pois não se diz nem como e porque se vai adotar uma nova e misteriosa forma de medir o desmatamento que hoje corre solto pelas florestas da Amazônia.  Há ainda, porém, um elemento do interesse privado e dos potenciais interessados em se contratar a peso de ouro uma empresa particular para fazer aquilo que o Inpe já faz.

O erro do governo Bolsonaro é subestimar o impacto do que está acontecendo a partir do êxito de suas políticas, pois se até a revista “The Economist” já apontou o dedo acusador, não vai ser com uma empresa contratada para produzir dados sob medida que a coisa vai se resolver.

Outro detalhe que parece escapar ao discernimento dos “espertos” que compõe o governo Bolsonaro é que existem dezenas de grupos de pesquisa fazendo trabalho semelhante ao do Inpe em várias partes do mundo. E, mais, que esses grupos não terão como ser tutelados ou seus diretores demitidos. Aliás, o mais provável é que vários pesquisadores de renome internacional que estão hoje no Inpe sejam convidados a continuar o trabalho que está sendo atacado no conforto de laboratórios igualmente equipados em outras partes do planeta. 

Volto a frisar que toda essa chacrinha em torno dos dados de desmatamento serve apenas para ocultar que os problemas criados pelo governo Bolsonaro vão além, muito além, do desmatamento. A ação ampliada de garimpeiros e madeireiros estão criando condições ideais para mais desmatamento, mas isto ainda não está necessariamente sendo medido pelo tipo de sensor utilizado pelo Inpe.  A gritaria mundial vai certamente aumentar quando os dados de desmatamento forem somados aos da degradação florestal que está sendo também acelerada na Amazônia, muito em função do que foi desconstruído pelo governo Bolsonaro em pouco mais de 7 meses de governo.

Finalmente, pressinto que qualquer violência institucional que seja cometida contra o Inpe deverá acelerar as respostas que muitos governos estrangeiros já estão articulando por causa da devastação que o governo Bolsonaro está permitindo na Amazônia. E se isso acontecer, talvez (notem que eu disse talvez) o presidente Jair Bolsonaro e sua entourage de ministros que parecem ter saído de filmes do Século XVI se toquem de que a banda não toca necessariamente do jeito que eles querem, e que existem repercussões para quem quer brincar de  Donald Trump das Selvas às custas do equilíbrio climático da Terra.

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Improbo Ricardo Salles não consegue explicar alta do desmatamento

Nota do Observatório do Clima sobre entrevista coletiva do ministro do Meio Ambiente

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 O ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles em entrevista na GloboNews.

A montanha pariu um rato. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (Novo-SP), convocou mais uma entrevista coletiva para apresentar os “dados reais” sobre o desmatamento na Amazônia prometidos por Jair Bolsonaro, mas terminou fazendo apenas ginástica retórica e botando a culpa na mídia pela interpretação dos dados.

Salles fracassou quatro vezes em sua performance: não conseguiu descredenciar o Inpe, instituição que Jair Bolsonaro havia chamado de mentirosa; não apresentou nenhum dado alternativo aos do sistema Deter, que divulga alertas de desmatamento; não explicou o aumento da devastação na Amazônia – o número de alertas em julho é o maior desde que o Deter foi criado, em 2004, e é quase quatro vezes maior do que o de julho do ano passado; e não disse o que vai fazer para conter a explosão da devastação, que é sua responsabilidade.

Pior ainda, reafirmou a intenção de usar dinheiro público para contratar mais um sistema de sensoriamento remoto, quando o que falta na Amazônia neste momento é fiscalização e investimento em atividades sustentáveis. Bolsonaro culpou o termômetro pela febre; seu ministro, agora, culpa a leitura do termômetro. A doença, porém, segue  sem tratamento – e o paciente sofre.

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Este artigo foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

O desmatamento na Amazônia está aumentando, mas o presidente do Brasil chama os dados de “uma mentira”

para deforestationO desenvolvimento está invadindo a floresta no estado do Pará no Brasil. Cerca de 7500 quilômetros quadrados de floresta foram derrubados em todo o país em 2018. IMAGENS DE GALLO / ORBITAL HORIZON / COPERNICUS SENTINEL DATA 2018 / GETTY IMAGES

Por Herton Escobar*

O desmatamento está subindo novamente na Amazônia brasileira, de acordo com dados de monitoramento por satélite. Mas o presidente de extrema-direita do Brasil, Jair Bolsonaro, que muitos culpam pelo aumento, contestou a tendência e atacou a credibilidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que produziu os dados. Bolsonaro classificou os números como “mentirosos” durante uma conversa de café da manhã com jornalistas em 19 de julho, e sugeriu que o diretor do INPE, Ricardo Galvão, estava “a serviço de alguma organização não-governamental”. “Com toda a devastação que você nos acusa de fazer No passado, a Amazônia já se extinguiria ”, afirmou.

Seus comentários provocaram uma violenta reação da comunidade científica, que se sente cada vez mais sitiada pela administração Bolsonaro. “Os satélites não são responsáveis ​​pelo desmatamento – eles registram apenas objetivamente o que acontece”, diz um manifesto da Coalizão pela Ciência e Sociedade, um grupo recém-formado de cientistas preocupados com os acontecimentos políticos no Brasil. “Os fatos científicos prevalecerão, quer as pessoas acreditem ou não neles.” Galvão chamou de Bolsonaro um “covarde” por expressar acusações infundadas em público. “Espero que ele me chame a Brasília para explicar os dados e que ele tenha a coragem de repetir [o que disse] cara a cara”, disse Galvão em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

Bolsonaro – que disse que Galvão poderia se reunir com um ministro do gabinete – já atenuou suas críticas, mas insiste que o INPE deve consultar autoridades do governo antes de divulgar dados de desmatamento no futuro porque está prejudicando a imagem do Brasil no exterior. (A política oficial do INPE é divulgar todos os seus dados.) Muitos cientistas e ambientalistas proeminentes culpam o aumento do desmatamento nas agressivas declarações e políticas de desenvolvimento de Bolsonaro, incluindo a promoção da agricultura e mineração em terras protegidas.

O INPE, um instituto de pesquisa público com sede em São José dos Campos, vem acompanhando o desmatamento na Amazônia por meio de imagens de satélite desde a década de 1970. “Esses dados há muito são usados ​​como um indicador confiável do que está acontecendo na Amazônia brasileira”, diz Bill Laurance, diretor do Centro de Ciência Ambiental e Sustentável Tropical da James Cook University, em Cairns, Austrália. Um dos sistemas de monitoramento do INPE, chamado Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (DETER), gera um alerta toda vez que uma clareira maior que 3 hectares é detectada no dossel da floresta. Ele é projetado para funcionar como um sistema de alarme e guiar a aplicação da lei em campo, mas também gera registros aproximados de novos desmatamentos que são liberados semanalmente. Os dados mais recentes do DETER sugerem que mais de 4200 quilômetros quadrados de floresta foram cortados da Amazônia brasileira entre 1º de janeiro, quando Bolsonaro assumiu o poder, e 24 de julho. Isso é 50% mais do que nos primeiros 7 meses de 2018 e mais que o dobro da área desminada no mesmo período de 2017.

Outro sistema, o Projeto de Monitoramento de Satélite do Desflorestamento da Amazônia (PRODES), gera as taxas anuais oficiais de desmatamento do Brasil, calculadas a partir de uma seleção de fotos de alta resolução de diferentes satélites. Embora o PRODES seja mais preciso do que o DETER, os dois sistemas tendem a concordar entre si, então é provável que o próximo relatório do PRODES, esperado em dezembro, mostre um pico de desmatamento de magnitude similar, dizem os analistas.

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Declarar que os dados do INPE são uma mentira é semelhante a argumentar que a Terra é plana. Bill Laurance, James Cook University

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As taxas anuais de desmatamento diminuíram em mais de 80% entre 2004, quando o DETER entrou em operação, e em 2012, mas têm tendência de alta desde então. Cerca de 7500 quilômetros quadrados de floresta foram derrubados em 2018. Mas o pico deste ano se destaca, dizem especialistas. “Ao invés de ser uma surpresa, o resultado confirma os muitos relatos de desmatamento [atividades] no chão, e se encaixa com a expectativa do clima de impunidade que a retórica do governo promoveu”, diz Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Desmatamento. Pesquisa na Amazônia em Manaus, Brasil.

Bolsonaro é um feroz crítico das regulamentações ambientais brasileiras e agências de aplicação da lei, que ele afirma serem tendenciosas contra a agricultura e o desenvolvimento econômico. Ele transferiu o controle sobre as terras indígenas para o Ministério da Agricultura e prometeu rever os limites dos parques nacionais e de outras áreas protegidas que, segundo ele, estão retardando o progresso no Brasil.

Outros cientistas defendem os números do INPE. “Declarar os dados do INPE é uma mentira que alega que a Terra é plana”, diz Laurance. “Eu sempre fui impressionado com a habilidade técnica dos cientistas do INPE e aplaudi-los por seus esforços pioneiros para fornecer estimativas anuais de desmatamento”, diz Douglas Morton, chefe do Laboratório de Ciências Biosféricas no Goddard Space Flight Center da NASA em Greenbelt, Maryland, EUA. e professor adjunto da Universidade de Maryland em College Park.

O INPE recebeu muito menos apoio do ministro da Ciência e Tecnologia do Brasil, o ex-astronauta da NASA e engenheiro aeroespacial Marcos Pontes, cujo departamento supervisiona o instituto. Em uma declaração de 22 de julho, Pontes, um membro do partido de Bolsonaro, disse que considera o INPE “em alta consideração”, mas aceitou as preocupações de Bolsonaro ao condenar o contra-ataque de Galvão. Pontes disse que pediu um “relatório técnico completo” do INPE sobre os últimos 24 meses de dados de desmatamento e disse que seu ministério havia convidado Galvão para “esclarecimentos e orientações”. Ele também disse que concorda que o INPE não divulgue seus dados tão cedo. como eles estão prontos.

“É claro que ninguém esperava [Pontes] entrar em choque com o presidente”, diz Mercedes Bustamante, ecologista da Universidade de Brasília e co-fundadora da Coalizão para Ciência e Sociedade, “mas o tom de sua declaração foi decepcionante”.

*Herton Escobar é jornalista especializado em ciência e meio ambiente em São Paulo.

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Este artigo foi originalmente publicado em inglês pela revista científica “Science” [Aqui!].

A censura ao Inpe busca esconder a alta eficiência das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro na devastação da Amazônia

03/07/2019 Coquetel de recepção para celebrar o 243º AniversO presidente Jair Bolsonaro e o ministro Marcos Pontes sinalizam que irão censurar os dados de desmatamento produzidos do Inpe. Ao fazer isso, eles tentam esconder o alto sucesso das políticas anti-ambientais do governo Bolsonaro.

Alguém no governo Bolsonaro deve ter lido a fábula do menino Peter que com um dos seus dedos num buraco formado em um dique de proteção, impedindo que a água do mar invadisse a região em que vivia na Holanda. É que só assim se pode entender a disposição de censurar os dados produzidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sobre o explosivo desmatamento que ocorre ao longo de 2019 na porção brasileira da bacia Amazônica.

É que tomando a fábula holandesa o Inpe é apenas um dos buracos no dique da mentira que se pretende criar para esconder o sucesso (notem que eu disse o sucesso) das políticas do governo Bolsonaro para acelerar o desmatamento na Amazônia. Ao se censurar o Inpe restarão vários buracos que farão esse dique desmoronar. A verdade é que a anunciada censura do Inpe que não mais poderá (dependendo da vontade de Jair Bolsonaro) divulgar publicamente os dados de desmatamento vai se provar rapidamente um tiro no pé do governo Bolsonaro.

Reafirmo que o Inpe é apenas um dos institutos de pesquisa que possuem ferramentas de monitoramento contínuo do avanço do desmatamento da Amazônia brasileira.  E, pior, o Inpe tem agido escrupulosamente como instituto de pesquisa público e preservado o Brasil de maiores vergonhas ao divulgar os dados que gera de forma não apenas organizada, transparente, mas, também, de forma bastante pragmática.

Se tivesse de culpar alguém nesse imbróglio envolvendo os dados de desmatamento, o presidente Jair Bolsonaro deveria culpar a própria eficiência. É que ele apontou um ministro do Meio Ambiente que eficientemente desmontou estruturas de governança e sucateou com velocidade meteórica as estruturas de comando e controle que existiam na Amazônia e no Cerrado.  A consequência disso foi que todos os “drivers” que estavam moderadamente contidos nas últimas décadas puderam agir com completa liberdade, consumindo florestas nativas como a voracidade de um bando de saúvas bravas. 

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Paralisação de estruturas de proteção ambiental causou aumento explosivo do desmatamento na Amazônia.

Em outras palavras, o que o Inpe tem feito é medir o grande sucesso das políticas anti-ambientais acertadas por Jair Bolsonaro com seus grupos de apoio político dentro de atores díspares como madeireiros, garimpeiros e latifundiários.  É essa a realidade que as ações aparentemente alopradas de Jair Bolsonaro e do dublê de ministro de Ciência e Tecnologia e turista espacial,  Marcos Pontes, de condenar a forma de divulgação dos dados de desmatamento pelo Inpe é só uma tentativa canhestra de esconder o sol com a peneira.

Já se sabe que a real questão por detrás do esperneio do governo Bolsonaro acerca da exposição do seu próprio sucesso é o medo de que parceiros comerciais importantes, a começar pela União Europeia, tomem medidas punitivas contra os produtos agrícolas brasileiros por causa da devastação que está sendo permitida nba Amazônia. Mas como alguém que já participou da publicação  vários artigos científicos sobre a perda de cobertura vegetal na Amazônia posso adiantar que censurar o Inpe só vai acelerar e aprofundar os problemas que o Brasil vai enfrentar por causa do que está sendo impulsionado pelo governo Bolsonaro com suas políticas anti-ambientais. 

Entretanto, como bom senso é algo que inexiste no governo Bolsonaro, tenho certeza de que a censura ocorrerá e os custos econômicos e políticos serão imensos. Melhor seria celebrar o próprio sucesso e deixar o Inpe documentá-lo de forma autônoma.

Diretor do Inpe dá exemplo de como agir em tempos de negação da ciência

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Confrontando por Jair Bolsonaro por causa dos dados de desmatamento na Amazônia, o presidente do Inpe classificou as declarações presidenciais como sendo pusilânimes e covardes.

Confrontando com as declarações do presidente Jair Bolsonaro dando conta que os dados divulgados sobre o desmatamento da Amazônia seriam “mentirosos“, o presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências,  o engenheiro com doutorado em física Ricardo Magnus Osório, usou de semelhante contundência para dizer que as declarações presidenciais seriam pusilânimes (i.e., eivadas de vulnerabilidade moral) e covardes. Além disso, Magnus Osório ainda disse que as declarações de Jair Bolsonaro eram equivalentes a um papo de botequim.

Além de posicionar em campo moral mais elevado, Ricardo Magnus Osório lembrou que os dados do Inpe são a maior série histórica sobre registros de sensoriamento remoto em florestas tropicais, remontando ao início da década de 1970; sendo por isso uma referência mundial em estudos sobre mudanças na cobertura da terra. 

Aliás, a alta qualidade da ciência produzida pelos pesquisadores do Inpe está demonstrada nos milhares de artigos científicos, relatórios técnicos, dissertações de mestrado e teses de doutorado que usaram os dados gerados pelo Inpe. Essa repercussão extrapola faz muito tempo os limites das fronteiras brasileiras. Bastaria a algum assessor (talvez o “impoluto” Onyx Lorenzoni) realizar uma rápida busca no Google para que o presidente do Brasil não estivesse sendo agora motivo de piadas desairosas em nível mundial por causa das declarações de botequim sobre a ciência produzida por uma das jóias preciosas da ciência brasileira.

Confrontado com as declarações de Ricardo Magnus Osório de que gostaria de um encontro “frente a frente” para esclarecer eventuais dúvidas sobre os dados do desmatamento da Amazônia, o presidente Jair Bolsonaro fez o que sempre faz quando se defronta contra um oponente que não pisca diante dele, empreendeu um recuo que tem a aparência de um avanço. É que perguntado pela imprensa sobre a crise com o Inpe, Jair Bolsonaro afirmou duas coisas em relação às declarações ao que disse. A primeira é que enviaria o seu ministro da Ciência Tecnologia, o “astronauta”  Marcos Pontes ou talvez o do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, para conversar com o presidente do Inpe.

A segunda declaração de Jair Bolsonaro foi de reclamar de que a divulgação dos dados de desmatamento estariam prejudicando a imagem externa do Brasil. De quebra, Bolsonaro renovou suas dúvidas sobre a validade dos dados gerados pelo Inpe, dizendo que os mesmos se pareceriam muito com os do ano passado (o que é verdade). Aqui o caso é de um atirador que tenta matar o mensageiro por não gostar da mensagem que ele carrega. É que o que verdadeiramente prejudica o Brasil neste momento e por décadas que ainda virão é o ritmo acelerado de desmatamento que está ocorrendo na Amazônia, sob a aprovação tácita do governo Bolsonaro que desmanchou as estruturas de governança e prejudicou fortemente as operações de comando e controle que continham a sanha dos saqueadores das riquezas naturais na Amazônia.  

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Os dados do desmatamento na Amazônia que tanto irritaram Jair Bolsonaro fazem parte da maior série histórica existente no mundo sobre florestas tropicais.

O grande engano do presidente Jair Bolsonaro é pensar que atacando o Inpe ele estará resolvendo o problema que suas políticas de economia de fronteira estão criando na Amazônia. Pelo contrário, o Inpe é uma instituição que apesar de ser vista como cientificamente independente sempre agiu de forma pragmática para não ferir os interesses econômicos e políticos brasileiros. Se houver uma degradação da capacidade de ação do Inpe, com certeza sobressairão os estudos de organizações internacionais que possuem igualmente bases de dados robustos sobre desmatamento, e que as usarão para defender melhor determinadas posições que não sejam as do Brasil. Esse é um fato tão fácil de medir quanto o desmatamento que os garimpeiros, madeireiros e latifundiários que votaram em Jair Bolsonaro estão causando na Amazônia.

Reitero mais uma vez a necessidade de que se faça uma ampla defesa da autonomia científica dos pesquisadores do Inpe. É que nessa defesa repousa a capacidade de toda a comunidade científica brasileira continuar produzindo ciência de forma autônoma.  Nesse sentido, são positivas as notas da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e da Sociedade Brasileira de Física apoiando o Inpe e seu corajoso diretor. Entretanto, esse movimento de solidariedade deve ser generalizado, independente dos campos do conhecimento. O que está posto na mesa é o futuro da ciência nacional, ainda que reverberado a partir de um discurso que parece papo de botequim.

Finalmente, quero apontar que a postura do presidente do Inpe de responder de forma pronta e papas na língua ao ataque que ele e os pesquisadores receberam de Jair Bolsonaro deveria ser o modus operandi enquanto durar esse governo que opera para amedrontar e calar os que são percebidos como críticos e, em muitos casos, são apenas portadores de verdades que são inconvenientes aos poderosos de plantão.

 

Amazônia: sem poder questionar dados de desmatamento, Jair Bolsonaro sinaliza censura ao Inpe

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Descontente com evidências científicas produzidas sobre o desmatamento na Amazônia, Jair Bolsonaro sinaliza que irá censurar o Inpe.

Quero começar esta postagem lembrando que no dia 11 de janeiro fui entrevistado pela jornalista Filomena Naves do jornal Diário de Notícias que é publicado em Lisboa, e nessa entrevista sinalizei algo que já me parecia óbvio: cientistas brasileiros que trabalhassem com temas sensíveis como desmatamento na Amazônia e  o uso abusivo de agrotóxicos pelo latifúndio agro-exportador tenderiam a ser perseguidos durante o governo Bolsonaro.

Pouco mais de 6 meses depois, o próprio presidente Jair Bolsonaro sinaliza de forma explícita que irá censurar o trabalho dos pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que fornecem dados contínuos sobre o avanço da franja de desmatamento na Amazônia brasileira.  Essa sinalização é um dos elementos apontados no interessante artigo assinado pela jornalista Lisandra Paraguassu e que foi publicada pela agência Reuters na tarde desta 6a. feira.

Segundo o artigo, o presidente Jair Bolsonaro teria dito que ““a questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos, e nós vamos chamar aqui o presidente do Inpe para conversar sobre isso, e ponto final nessa questão”. Bolsonaro teria dito ainda que “mandei ver quem está à frente do Inpe. Até parece que está a serviço de alguma ONG, o que é muito comum”. 

Explicitada a ameaça de censura a uma produção científica que é considerada uma das melhores em todo o planeta, alguém precisa avisar ao presidente Jair Bolsonaro que o Inpe é apenas um mensageiro altamente qualificado. E se ele, Bolsonaro, não gosta da mensagem deveria se comunicar com o encarregado do ministério do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, para ver o que de fato está acontecendo na pasta, para pelo menos evitar vexames maiores.

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Dados obtidos pelas pesquisas do Inpe que irritaram o presidente Jair Bolsonaro.

Um aspecto que alguém deveria avisar não apenas ao presidente Bolsonaro, mas também a Ricardo Salles, é que os estudos envolvendo as mudanças no uso e cobertura da terra na Amazônia e no Cerrado possuem um longo lastro, e que estão ancorados em avanços metodológicos que não são passíveis de serem censurados. Além disso, dada a existência de uma ampla expertise internacional, qualquer tentativa de censurar os dados produzidos pelo Inpe será definitivamente um imenso tiro no pé. É que os pesquisadores do Inpe são em sua maioria absoluta não apenas altamente qualificados, mas também responsavelmente pragmáticos sobre o trabalho que realizam.

Outro elemento a ser considerado pela equipe de governo do presidente Jair Bolsonaro é que atualmente existe uma ampla gama de satélites monitorando em condição quase instantânea tudo o que está acontecendo na chamada Pan Amazônia. incluindo aí a porção brasileira da bacia Amazônica. Assim, é particularmente improdutivo questionar-se a validade científica dos dados produzidos pelo Inpe que estão demonstrando a ocorrência de taxas explosivas de desmatamento, pois existem outras instituições científicas internacionais trabalhando com as mesmas séries de dados, e que certamente chegarão às mesmas conclusões dos pesquisadores que Jair Bolsonaro está chamando de mentirosos.

Uma outra questão é que aparentemente existe forte apreço no governo Bolsonaro por tudo que está relacionado aos EUA. Pois bem, um dos principais satélites que monitoram continuamente a Amazônia é o Landsat que possui uma das mais longas (senão a mais longa série de cenas mostrando as mudanças da cobertura vegetal na Amazônia. Como se sabe, os satélites do programa Landsat são uma iniciativa da National Space Agency (NASA), sendo uma das principais ferramentas utilizadas por cientistas de todo o mundo. Assim sendo, censurar o Inpe não apenas seria autoritário, mas essencialmente inútil. E se for para reclamar, que se reclame com o papa, ou seja, o presidente Donald Trump.

Finalmente, reitero a urgente necessidade de defender os pesquisadores do Inpe dos ataques que estão sendo desferidos contra eles. Digo isso não apenas porque é totalmente incorreta a natureza dos ataques, mas também porque necessitamos que eles continuem realizando o seu trabalho científico de forma autônoma, com requer a boa ciência que eles praticam há décadas, sempre com o rigor científico que seus estudos demandam.

Entidades se manifestam em defesa do Inpe

SBPC, ABC, Andifes, Conif, Confies, Confap e RBCIH encaminharam nesta quarta-feira, 10 de julho, uma carta ao presidente da República na qual reafirmam confiança na qualidade do monitoramento do desmatamento da Amazônia realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

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A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), junto a outras seis entidades científicas e acadêmicas nacionais, encaminhou nesta quarta-feira, 10 de julho, uma carta ao presidente da República, Jair Bolsonaro, em defesa do monitoramento independente e de excelência desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O documento foi encaminhado também à ministra da Agricultura, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias; e aos ministros da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, e do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

“A qualidade de seus dados é constantemente monitorada, resultando em um índice superior a 95% de precisão, e a política de transparência adotada pelo Inpe permite acesso irrestrito a todas as informações geradas pelos sistemas de monitoramento, possibilitando avaliações independentes pela comunidade usuária e acadêmica. A questão fundamental, portanto, não está na produção de dados confiáveis sobre a geografia do desmatamento, mas sim na necessidade de órgãos do governo de manter um sistema de fiscalização ágil, intenso e contínuo”, argumentam na carta.

Além da SBPC, assinam o documento a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), o Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies), o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP), o Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (Conif), e a Rede Brasileira de Cidades Inteligentes e Humanas.

Leia a carta neste link.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo Jornal da Ciência da SBPC [Aqui!].

Grupo do Inpe lança livro sobre sensoriamento remoto de sistemas aquáticos

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Obra trata da aplicação das imagens de satélites no monitoramento de rios e lagos e pode ser baixada gratuitamente pela internet (imagem: divulgação)

Agência FAPESP – Pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e colaboradores do Laboratório de Instrumentação de Sistemas Aquáticos (LabISA), sob a coordenação de Claudio Barbosa e Evlyn Novo, lançaram a primeira edição do livro Introdução ao Sensoriamento Remoto de Sistemas Aquáticos: Princípios e aplicações.

O lançamento ocorreu durante o 19º Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto, que aconteceu em abril em Santos (SP).

O livro foi publicado em formato digital e está disponível gratuitamente no site do Inpe. A publicação contém uma série de conceitos aplicados ao sensoriamento remoto de ambientes aquáticos, como os fundamentos da óptica hidrológica, as propriedades ópticas da água e seus constituintes, os equipamentos e técnicas de processamento de dados, o histórico dos sistemas orbitais e suas aplicações.

É focado em águas interiores e oferece uma oportunidade para os novos profissionais entenderem como os dados de sensoriamento remoto podem ser empregados no monitoramento dos sistemas aquáticos continentais.

O LabISA teve três projetos financiados pela FAPESP, que colaboraram para o material da publicação:

– “Environmental and socioeconomic impacts associated with the production and consumption of sugarcane ethanol in south central Brazil“,

– “Sensoriamento remoto aplicado à modelagem de impactos antropogênicos sobre propriedades ecológicas de ambientes alagáveis e aquáticos da planície do Solimões/Amazonas“;

– “Caracterização bio-óptica espaço-temporal e desenvolvimento de algoritmos analíticos para o monitoramento sistemático das massas de água que circulam pela planície de inundação do médio e baixo Amazonas“.

 

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.