Estudo do IPEA mostra que COVID-19 é mais letal nos bairros pobres da cidade do Rio de Janeiro

Confira os bairros onde estão registrados os 55 casos de covid-19 no Rio O  Dia - Rio de Janeiro

Pesquisadores do Instituto de Pesquisa de Econômica Aplicada (IPEA) publicaram neste sábado (01/08) uma Nota Técnica (a de número 72) em que são apresentados dados sobre a difusão do coronavírus e seu grau de letalidade da COVID-19 no município do Rio de Janeiro. Entre os principais resultados desta pesquisa está a verificação de que os bairros mais pobres são aqueles que concentram as maiores taxas de letalidade e mortalidade.

O estudo tomou por base um levantamento realizado pelo Instituto Pereira Passos (IPP) sobre o número de casos, o número de óbitos e a taxa de  letalidade e mortalidade, considerando o Índice de Desenvolvimento Social (IDS) dos bairros e faixas etárias (ver imagem abaixo).

mapa rj

A partir destes dados, o grupo de pesquisadores do IPEA pode identificar padrões no espalhamento da COVID-19 no município do Rio de Janeiro. 

Com base nas análises realizadas, os pesquisadores concluíram que, no tocante à letalidade,  para todas as faixas etárias, os bairros com IDS mais baixo (grupos 1 e 2) apresentam taxas de letalidade mais elevadas que os demais (ver figura abaixo).

letalidade rio de janeiro

Os pesquisadores do IPEA notaram ainda que  no tocante aos óbitos como proporção da população, as taxas estão próximas entre quase todos os grupos de bairros, exceto por aqueles com IDS muito alto (grupo 5), que se destacam dos demais por uma menor mortalidade em praticamente todas as faixas etárias. 

Ainda que análises mais aprofundadas ainda venham a ser realizadas, os resultados apresentados talvez expliquem as cenas constantes de indiferença e de reações contrárias às medidas de isolamento social e adoção de medidas de proteção como o uso de máscaras nas áreas mais abastadas da cidade do Rio de Janeiro.  É que está ficando evidente que a COVID-19 é mais letal para aqueles que habitam as regiões mais pobres do município do Rio de Janeiro.

Quem desejar baixar a Nota Técnica intitulada “Aspectos socioeconômicos da COVID-19: o que dizem os dados do município do Rio de Janeiro?”, basta clicar [Aqui!].

Desigualdade no Brasil lembra Europa do século 19, diz Le Monde

Por RFI

 

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A reportagem do Le Monde traz uma imagem da comunidade de Paraisópolis, com os prédios do bairro do Morumbi ao fundo. lemonde.fr

O jornal Le Monde que chegou às bancas na tarde desta terça-feira (2) traz reportagem de página inteira sobre a crise brasileira. O texto explica que apesar dos esforços feitos nos últimos anos para combater a pobreza, diante da recessão, a luta contra a pobreza deixou de ser a prioridade do governo e a desigualdade social continua flagrante.

A reportagem é ilustrada com a história de uma moradora de Paraisópolis, em São Paulo, que vive em situação de extrema pobreza. “O cheiro de urina se mistura ao odor de fritura das cozinhas nas vizinhança, em meio ao barulho ininterrupto que gera a promiscuidade”, descreve a correspondente do Le Monde no Brasil, lembrando que esse cenário pode ser visto a poucos metros dos apartamentos “valendo milhões de reais, com piscina, varanda e sauna”, do bairro do Morumbi.

A jornalista explica que a comunidade de Paraisópolis é um exemplo “do contraste chocante e das desigualdades vertiginosas” existentes no país, confirmando as estatísticas que apontam que, no Brasil, a repartição das riquezas é equivalente à da França e do Reino Unido no século 19. “Como na época dos clássicos ‘Os Miseráveis’, de Victor Hugo, ou dos romances de Charles Dickens”, enfatiza a correspondente, em alusão a uma comparação feita recentemente pela revista Carta Capital. O texto continua sua análise lembrando que, segundo a ONG Oxfam, 62 bilionários possuiriam metade das riquezas do planeta, e que dois desses super-ricos são brasileiros: o empresário e ex-campeão de tênis Jorge Paulo Lemann e o banqueiro Joseph Safra.

Distribuição de riquezas não mudou com abolição da escravidão

A correspondente do Le Monde ouviu a opinião do pesquisador Marc Morgan Mila, que explica que uma das razões dessa desigualdade é um sistema de impostos, que dá ao Brasil ares de paraíso fiscal. “A renda dos lucros das empresas, paga a pessoas físicas, não é tributável; os impostos sobre o patrimônio são quase inexistentes; os sobre as heranças são muito fracos e o imposto de renda, pouco progressivo, com um limite de pagamento de 27,5%, contra 40% na França”, diz o especialista, que prepara uma tese sobre as desigualdades no Brasil. Além disso, ressalta o texto, a maior parte das receitas fiscais é fruto de impostos indiretos, vindos do consumo, o que faz com que ricos e pobres sejam tributados “de forma idêntica e desigual”.

Já André Calixtre, diretor de estudos do IPEA, lembra que desde a abolição da escravatura, em 1888, o Brasil não teve uma verdadeira reforma agrária. “Congelamos as desigualdades de riquezas, de gênero e de raça”, explica o pesquisador. “Os latifundiários, brancos, transformaram suas fortunas agrárias em patrimônio industrial, financeiro e imobiliário, enquanto os descendentes de escravos foram mantidos na pobreza”, completa Calixtre.

Luta contra a desigualdade perdeu força com a crise

O Brasil, que era a estrela dos países emergentes, vinha perseguindo, desde o início dos anos 2000, um modelo de desenvolvimento que beneficiava principalmente os mais modestos, analisa a reportagem. No entanto, “a recessão, a inflação de dois dígitos e o aumento de desemprego relançam o temor de um retrocesso”, diz Le Monde.

Diante da situação, a presidente Dilma Rousseff deixou de lado, desde de 2014, sua política social baseada no modelo implementado por Lula, bifurcando para uma estratégia de rigor. “Até os gastos sagrados do carnaval foram revistos para baixo”, assinala o jornal. “Essas medidas de austeridade podem se mostrar positivas se Brasília conseguir reformar um Estado pouco eficaz e que gasta demais, mas também pode ter um resultado negativo se os cortes no orçamento forem realizados de forma precipitada, afetando os programas sociais, a ponto de comprometer a ambição brasileira de fundar uma sociedade mais igualitária”, conclui a correspondente do Le Monde no Brasil.

FONTE: http://br.rfi.fr/brasil/20160202-desigualdade-no-brasil-lembra-europa-do-seculo-19-diz-le-monde