Governo Bolsonaro apoia assassinato de general iraniano e insere Brasil na explosiva situação do Oriente Médio

átrump araujoAo emitir nota de apoio ao governo Trump pela eliminação de general iraniano, o ministro Ernesto Araújo cometeu grave prejuízo contra os interesses brasileiros.

O governo Bolsonaro já flertou com o perigo ao anunciar a transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.  Nesse caso prevaleceu prevaleceu o pragmatismo que levou em conta as fortes relações comerciais mantidas pelo Brasil com os países árabes, o que significou uma derrota para a ala olavista cuja grande expressão é o, digamos, excêntrico ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Mas defrontado com as repercussões do assassinato do general iraniano Qasem Soleimani, o ministro Ernesto Araújo resolveu deixar de lado o pragmatismo e fez o Itamaraty emitir uma nota de apoio ao governo dos EUA sob a escusa de apoiar o combate ao terrorismo (ver imagem abaixo).

nota itamaraty

Se ainda havia algum tipo de dúvida acerca do grau de irresponsabilidade reinante no governo Bolsonaro em relação não apenas aos interesses comerciais nacionais, mas à própria segurança interna, eu me permito dizer que essa nota totalmente fora de propósito acaba de confirmar o que já era visível. É que essa nota acaba de enterrar décadas de uma forma cuidadosamente elaborada de pragmatismo diplomático que manteve o Brasil como parceiro comercial de países virtualmente em guerra em diversas partes do planeta, mas também nos manteve fora da rota do terrorismo internacional.

Agora, ao endossar a ação bélica do governo Donald Trump pela simples razão de mostrar alinhamento ideológico,  Ernesto Araújo e seus chefes dentro do governo Bolsonaro não apenas colocaram em risco as exportações de commodities agrícolas para os países árabes (mesmo aqueles não alinhados politicamente ao Irã), mas também abriram a possibilidade de que brasileiros e suas representações políticas e comerciais se tornem alvos de ataques terroristas. 

Como o Irã e seus diversos “proxies” estão certamente neste momento acompanhando a reação dos governos de todas as partes do mundo para medir o grau de alinhamento com os EUA no assassinato de Qaseim Suleimani,  ao emitir essa nota, Ernesto Araújo colocou um alvo nas costas de todos os brasileiros.  É que como todo o mundo já sabe, a resposta iraniana ao assassinato de seu mais importante líder militar não virá sob a forma de confrontos diretos com as forças estadunidenses, mas com a escolha de alvos mais fáceis de serem atacados. Essa é a realidade que deveria ter sido considerada pelo governo Bolsonaro antes de emitir qualquer comunicado sobre a eliminação de Suleimani, mas não foi. 

Agora não adiantará nada qualquer desmentido de fachada sobre uma posição oficial do ministério das Relações Exteriores. A única saída seria demitir imediatamente Ernesto Araújo e todos os seus auxiliares diretos por não terem impedido a emissão dessa nota despropositada. Mas como dificilmente ocorrerá na velocidade que deveria, o melhor é nos prepararmos para o pior, seja na área comercial como na militar.

 

Assassinato de general iraniano é jogada política de Donald Trump que pode acelerar crise econômica global

Qasem SoleimaniQasem Soleimani (ao centro na posição central da imagem) era um dos principais estrategistas das forças iranianas e seu assassinato deverá ter fortes repercussões políticas e militares no Oriente Médio

O assassinato do general iraniano Qasem Soleimani pelas forças armadas dos EUA é claramente uma jogada política do encrencado presidente estadunidense Donald Trump. Para sair das cordas em que foi colocado pela jogada obscura que realizou para pressionar o governo da Ucrânia, Donald Trump autorizou a eliminação da principal liderança militar do Irã.

O problema em realizar uma jogada de tão alto risco é que, apesar de Trump e seus generais estarem bem longe do alcance das ações retaliatórias que o Irã deverá realizar para vingar o assassinato de Soleimani, suas próprias tropas e agentes de governos aliados no Oriente não estarão. 

Com isso em mente é preciso levar em conta que o Irã acabou de realizar uma série de operações conjuntas para fazer frente à possíveis agressões armadas, principalmente dos EUA.  A partir desse fato é que se vê que a decisão de eliminar Soleimani não é uma a ser ignorada para entendermos a intrincado situação geopolítica em que o assassinato do general iraniano se insere.

De qualquer forma, a principal consequência desta jogada política e eleitoral é causar um desequilíbrio para cima dos preços do petróleo que terá fortes consequências para uma economia global onde já existem sinais abundantes de que uma grave crise deve se instalar ao longo de 2020. 

No caso específico do Brasil, há que se ver como se pronunciará o excêntrico (para dizer o mínimo) ministro das Relações Exteriores sobre este grave incidente geopolítico. Se abrir a boca para “passar o pano” no assassinato de Qasem Soleimani (como é esperado), quem sofrerá vai ser o latifúndio agro-exportador que poderá perder acesso ao mercado iraniano. Como o Brasil agora depende ainda mais diretamente da exportação de commodities agrícolas qualquer perda de mercado trará perdas econômicas que não serão desprezíveis.

Um elemento a ser considerado é que a decisão de assassinar um alto oficial iraniano pode até demonstrar a capacidade bélica dos EUA. Entretanto, por outro lado, isso demonstra a fraqueza estratégica em que está posta a principal potência militar do planeta. E isso não é uma notícia secundária para se entender o que virá pela frente nos próximos anos e décadas. 

Finalmente, o tempo dirá se a jogada de Donald Trump vai dar certo ou não, e como o custo disso será sentido pelo resto do mundo. Mas que ninguém se surpreenda se uma grave crise econômica global eclodir. 

Após agrotóxicos e desmatamento, governo Bolsonaro adiciona submissão aos EUA ao seu portfólio anti-agronegócio sustentável

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Navio iraniano carregado com milho brasileiro está impedido de retornar para o Irã por causa da negativa da Petrobras de vender o combustível necessário para a viagem.

Venho alertando desde o início de 2019 que o governo Bolsonaro está empurrando o Brasil para a condição de um pária internacional que terá graves consequências para a habilidade de realizar comércio de seus grandes aliados do latifúndio agro-exportador. As variáveis que vinha utilizando em minhas análises eram o uso intensificado de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo e a ampliação do desmatamento na Amazônia.

Mas o governo Bolsonaro resolveu adicionar outro fator que poderá resultados tão ou mais devastadores sobre a venda de commodities brasileiras que é a submissão política ao governo de Donald Trump.  A primeira faceta prática dessa submissão se apresenta na negativa de abastecer com petróleo dois navios iranianos que estão fundeados no Porto de Paranaguá, no litoral norte do Paraná, um deles carregado com 48 mil toneladas de milho brasileiro que foi comprado pelo Irã.   Aí é que começa o imbróglio, pois o Irã é o principal comprador do milho brasileiro, tendo importações no valor de US$ 1,3 bilhão apenas nos prímeiros seis meses de 2019. 

Mas a coisa pode piorar se outros países seguirem o mesmo raciocínio que o Irã está adotando em retaliação à submissão brasileira à agenda política do governo Trump. É que segundo o site Sputnik, o embaixador do Irã em Brasília, Seyed Ali Saghaeyan,  teria dito ontem ao governo brasileiro que “seu país poderia facilmente encontrar novos fornecedores de milho, soja e carne se o Brasil se recusar a permitir o reabastecimento dos navios.

O problema é que o Brasil que sempre teve um comportamento pragmático no plano diplomático agora é comandado por um presidente que finge ser nacionalista, mas, na prática, repercute a agenda estadunidense.  O cenário é piorado pela atuação de um ministro das Relações Exteriores, o excêntrico (digamos assim) Ernesto Araújo, que se declara em uma espécie de cruzada pessoal em defesa da pureza cristã do Ocidente (seja isso lá o que for). Essa combinação é um coquetel perfeito para a repetição de casos como desses dois navios iranianos, com potencial nuclear de destruição da capacidade operacional do comércio exterior brasileiro.

O interessante é que até agora só se ouviu reclamos murchos  da Federação da Agricultura do Paraná (FAEP) que teria lembrado em nota que o “país persa é um dos principais compradores de produtos importantes para o Paraná, como a soja e a carne bovina. Mas pela reação geral vinda do governo Bolsonaro, as súplicas da FAEP caíram em ouvidos mocos. Por outro lado, a ministra Tereza Cristina, sempre tão loquaz na defesa de agrotóxicos, continua aparentemente fechada em copas em um silêncio que poderá ser sepulcral para a agricultura paranaense.

Finalmente, há que se lembrar que o então candidato Jair Bolsonaro teve expressiva votação nos chamados “estados do agronegócio”. Agora com essa medida que começa prejudicando inicialmente o Paraná, vamos ver como fica a popularidade do presidente que está arriscando perder um grande parceiro comercial em nome de sua ânsia de bajular o presidente estadunidense Donald Trump. Aos latifundiários que juraram amores por Bolsonaro, fica a pergunta se esse amor está sendo retribuído da forma que eles esperavam.

 

Irã aponta um fato inexorável: não há futuro no petróleo

O mundo acordou hoje para as consequências imediatas da suspensão do embargo econômico promovido contra a república islâmica do Irã após o governo daquele país cumprir as exigências feitas em relação ao abrandamento do seu programa nuclear.

Mas para quem pensa que está todo mundo contente com o retorno do Irã ao acesso pleno à economia mundial, engana-se redondamente. Para tanto, basta ver duas matérias publicadas sobre o assunto pela Rede Francesa de Informação (RFI) e pela BBC que são mostradas nas imagens abaixo.

É que a alegria do Irã em poder retomar US$ 100 bilhões de dólares que estavam arrestados nos países ocidentais e de poder vender seu petróleo livremente estão causando uma forte derrubada das bolsas de valores no Golfo Pérsico, deixando as monarquias da região em polvorosa. Aliás, o mesmo efeito deverá ser sentido nas bolsas da Ásia, da Europa e dos EUA. 

Aparentemente o que é bom para a paz e para o Irã é péssimo para os especuladores que operam no mercado de ações.

Agora, interessante mesmo é o conteúdo de uma matéria publicada pelo jornal Folha de São Paulo e que repercute conteúdo de agências internacionais. É que, como mostra a imagem abaixo, o governo dos aiatolás não quer que a economia iraniana continue dependente da venda do seu petróleo!

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É que além de saber que a entrada do seu próprio petróleo vai jogar ainda mais os preços que já estavam afundando, o Irã também sabe que há uma forte mudança em curso na matriz energética que tornará os combustíveis fósseis obsoletos.  Dai que a transição para menos dependência do petróleo deve estar sendo considerada como estratégica pelos iranianos.

Aliás, é só no Brasil, e em especial no Rio de Janeiro, que o petróleo ainda é tratado como esperança do futuro. Celso Furtado e Florestan Fernandes certamente atribuiriam este erro grosseiro de análise ao caráter dependente da economia brasileira. 

Refletindo crise, preço do petróleo cai ao menor valor desde 2009

 

petroleo

Um indicativo de que o comportamento regressivo da economia chinesa já está tendo impactos importantes, a Bloomberg News já colocou no ar uma matéria mostrando que o Índice Brent, principal indicador dos preços do petróleo bruto no mundo, caiu para menos de 45 dólares, o menor valor desde 2009 (algo em torno de US$ 43.72 como mostrado no infográfico acima).

Como os efeitos do desaquecimento da economia chinesa precisam ser associados ao aumento da oferta de petróleo, incluindo a entrada do óleo iraniano no mercado mundial, as expectativas é de que a queda nos preços vá continuar. Dai se depreende que a extração do petróleo do pré-sal poderá se tornar inviável economicamente.  Por outro lado, diante de preços cada vez menores, é de se esperar que em algum momento o preço da gasolina comece a cair no mercado brasileiro. Ou não!

Reuters: acordo nuclear do Irã vai derrubar ainda mais os preços do petróleo!

Pump Jacks are seen at sunrise near Bakersfield, California October 14, 2014. REUTERS/Lucy Nicholson/Files

A matéria abaixo publicada pela agência Reuters aponta que o acordo nuclear firmado pelo Irã terá como efeito indireto uma depressão ainda maior nos preços do petróleo em função do volta do país ao mercado internacional. O interessante é que o petróleo iraniano ainda vai levar um tempo para alcançar os mercados globais e os preços futuros já estão desabando. Além disso, como o mercado mundial de petróleo já está super carregado, quando o óleo iraniano chegar ao mercado mundial, a expectativa é de uma queda ainda maior nos preços.

Moral da história para os municípios petrorentistas na região da Bacia de Campos: apertem seus cintos, modernizem seu controle de gastos, e cortem os cargos comissionados. Do contrário, o que hoje parece ruim, vai parecer excelente como memória histórica.

 

Oil prices tumble as Iran, global powers reach nuclear deal

Oil prices tumbled more than $1 on Tuesday after Iran and six global powers reached a landmark nuclear deal that would see an easing of sanctions against Tehran and a gradual increase in its oil exports.

The agreement, which capped more than a decade of on-off talks, was hailed by Iranian and Western diplomats as a “historic moment” that opens the way to a new phase in international relations.

Under the deal, sanctions imposed by the United States, European Union and United Nations would be lifted in exchange for curbs on Iran’s nuclear programme.

There were no immediate details on how sanctions would be eased on oil.

Front-month Brent crude futures LCOc1 had dropped $1.15 to $56.70 a barrel by 0930 GMT. U.S. crude CLc1 was trading down $1.05 at $51.15 per barrel.

Analysts say it would take Iran many months to fully ramp up its export capacity following any easing of sanctions. But even a modest initial increase would be enough to pull international oil prices down further as the market is already producing around 2.5 million barrels per day above demand.

“Even with a historic deal, oil from Iran will take time to return, and will not be before next year, most likely the second half of 2016,” Amrita Sen, chief oil analyst at London-based consultancy Energy Aspects, told Reuters.

“But given how oversupplied the market is with Saudi output at record highs, the mere prospect of new oil will be bearish for sentiment.”

Sanctions on the Islamic Republic have almost halved its exports to a little over 1 million barrels per day. A deal could see Iran increase its oil exports by up to 60 percent within a year, a Reuters survey of analysts said.

“Sanctions have crippled Iran’s oil production, halving oil exports and severely limiting new development projects. The prospect of them being lifted is creating great excitement … as foreign trade and investment will allow Iran to make huge efficiencies and drive down the cost of production,” said Sarosh Zaiwalla, a London-based sanctions lawyer.

(Additional reporting by Hennning Gloysten in Singapore; Editing by Dale Hudson)

FONTE: http://uk.reuters.com/article/2015/07/14/uk-markets-oil-idUKKCN0PO01T20150714?utm_source=Facebook