A prisão preventiva de Jair Bolsonaro e as celebrações não nos livrarão da extrema-direita

Advogados alegaram saúde fragilizada do ex-presidente para pedir, ao Supremo, a prisão humanitária -  (crédito: Sergio Lima/AFP)

Prisão preventiva para coibir risco de fuga pode ser temporária

Hoje é inevitável falar da prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas eu não vou cair na tendência de muita gente que, pela esquerda, celebra o encarceramento (tardio, convenhamos) daquele que nos liderou em meio a uma pandemia mortífera e contribui para que o Brasil fosse um dos países mais duramente atingidos pelo vírus SARS-COV-2.

E desse aspecto que eu quero falar. Como muitos já notaram, não é por isso que Bolsonaro está sendo encarcerado preventivamente, o que se revela um desses absurdos óbvios que cercam a existência de instituições democráticas mal formadas. Fosse este um país onde as instituições funcionassem, não apenas o ex-presidente estaria preso, mas seus ministros e até seu vice-presidente. 

É que o que aconteceu durante o período da pandemia foi o somatório não apenas do que pensava e ordenava Bolsonaro, mas teve a participação de muitas outras figuras que hoje estão ocupando cargos públicos, no congresso nacional e até no próprio governo Lula.

Assim, pensar que a prisão de Jair Bolsonaro representa algum ponto de viragem nas relações de classe no Brasil é um grande desserviço não apenas para os esforços em torno da defesa da classe trabalhadora e da juventude, mas, sobretudo, na necessária reparação que merecem as centenas de milhares de famílias que perderam membros por causa das ações negacionistas que contribuíram para a tragédia nacional durante a pandemia da COVID-19.

Tenho que notar ainda que sendo essa uma prisão preventiva e não uma em que a pena definida para que Jair Bolsonaro cumpra por causa da tentativa de um golpe de estado sangrento, eu não me surpreenderia que ele volte para casa em breve. Bons advogados e dinheiro para contratar tantos outros não faltam para Jair Bolsonaro e família.  Mas mais ainda, a base política sobre a qual ele chegou ao poder e ainda controla parte significativa do congresso nacional se mantém razoavelmente intacta.

Assim, as celebrações pela prisão de Jair Bolsonaro me parecem exageradas, especialmente se continuarmos com a crença que é o Supremo Tribunal Federal que nos salvará da extrema-direita. O que nos salvará é a mobilização autônoma da classe trabalhadora e da juventude, é preciso se lembre sempre.  Em outras palavras, as celebrações por essa prisão podem até ocorrer, mas terão pouco ou nenhum impacto nas disputas políticas que realmente importam.

Jair Bolsonaro e seus recebimentos millionários: R$ 44 milhões em apenas 15 meses

Bolsonaro recebeu pix milionário e suspeito, diz investigação; veja valores

Em uma matéria assinada pelos jornalistas Renata Galf e José Marques e publicada pelo jornal “Folha de São Paulo“, temos acesso na manhã desta sexta-feira (22/8) a uma série de informações sobre as movimentações financeiras do ex-presidente Jair Bolsonaro entre março de 2023 e junho de 2025, e os números são de cair o queixo. É que segundo dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), neste período, as contas de Bolsonaro receberam a fabulosa quantia de R$ 44 milhões (ver figura abaixo).

A matéria não explica como foi possível para Jair Bolsonaro receber tamanha fortuna, o que poderá vir a ser revelado em outras matérias. Mas uma coisa é certa: Jair Bolsonaro é fã de carteirinha do PIX que seu ídolo estudanidense Donald Trump. É que desses R$ 44 milhões, R$ 20,7 milhões teriam vindo via transações no PIX.

Apesar desse ser um caso em desenvolvimento, qualquer pessoa minimamente curiosa vai se perguntar sobre a origem de toda essa bufunfa nas contas de Bolsonaro, já que ele não é sequer proprietário de uma franquia especializada na venda de chocolate, como é o caso do seu filho Flávio.

É bem possível que nos próximos dias e semanas, fiquemos sabendo as fontes de abastecimento das contas de Jair Bolsonaro, apesar de seus esforços, segundo a matéria, para dissimular a origem e o destino dos recursos financeiros aportados em suas contas. A ver!

A prisão domiciliar de Jair Bolsonaro explicita o fosso do tratamento dado a brasileiros enrolados com a justiça

Prisão domiciliar de Bolsonaro foi motivada por videochamadas | O TEMPO

O ministro Alexandre de Moraes decretou ontem a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro por violações dos termos estabelecidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) enquanto perdure o trâmite do processo que ele responde por tentativa de golpe de Estado.

Pois bem, ainda que os apoiadores do ex-presidente possam estar furiosos com a medida, o fato é que a decretação de uma prisão domiciliar para alguém, independente de quem seja, que esteja enrolado com a justiça apenas explicita o fosso que separa os ricos e poderosos da maioria pobre da nossa população.

É que se fosse um “Zé das Couves” que tivesse sido flagrado cometendo violações de disposições que o mantinham em liberdade enquanto respondesse um processo em liberdade, o destino desse brasileiro comum seria ocupar uma cela superlotada em alguma masmorra desprovida das condições mínimas de dignidade, como, aliás, se encontram hoje milhares de brasileiros que sequer foram indiciados por algum crime.

E curiosamente certamente não haverá qualquer apoiador de Jair Bolsonaro que venha a público reclamar dessa óbvia disparidade de tratamento, ainda que tenham se manifestado em posição contrária em um passado nada distante para mecanismos pontuais destinados a aliviar a superlotação das cadeias. É que para a extrema-direita cana dura mesmo só se for pobre.

Mas aguardemos os próximos capítulos, pois mesmo que essa prisão domiciliar seja cumprida em uma das mansões da família Bolsonaro, o mais certo é que Jair e seus filhos não se emendem e continuem a atacar as ações do STF, sempre contando com o apoio do governo de Donald Trump. Como diria William Shakespeare, o enredo se adensa…

Lista de mortes como um experimento mental: general assessor de Jair Bolsonaro confirma autoria de documento para assassinar autoridades

Os réus também teriam como alvo o juiz Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, como arqui-inimigo de Bolsonaro.

Os réus também teriam como alvo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal,  tido como arqui-inimigo de  Jair Bolsonaro. Foto: Luis Nova/AP/dpa
Por Pedro Steiniger para o “Neues Deutschland” 

Isso não teria acontecido com óculos de leitura: Mário Fernandes afirma ter impresso duas cópias do plano que ele mesmo redigiu e apreendido pela polícia para uma operação chamada “Punhal Verde e Amarelo”, em homenagem às cores nacionais, em seu escritório no Palácio do Planalto, em 9 de novembro de 2022, apenas para conseguir ler melhor o texto. O general de brigada da reserva explicou isso durante seu interrogatório no tribunal na quinta-feira (24/7).

Ele então rasgou imediatamente os papéis, cujo conteúdo ninguém mais tinha conhecimento. Poucos minutos após imprimi-los, o então secretário-executivo do presidente Jair Bolsonaro entrou em sua residência no Palácio da Alvorada, onde, ao lado do recém-deposto chefe de Estado, estava presente seu assessor, o tenente-coronel Mauro Cid – a principal testemunha no julgamento em andamento contra o político de extrema direita.

Jair Bolsonaro enfrenta julgamento na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, juntamente com sete réus . A acusação alega que eles tentaram um golpe contra seu sucessor de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, após sua derrota nas eleições de 2022. Bolsonaro enfrenta uma longa pena de prisão.

O plano do General Fernandes, que está sendo julgado juntamente com outros oficiais que supostamente elaboraram propostas concretas para o estado de emergência e o uso das Forças Armadas no golpe, previa o assassinato de Lula da Silva, seu vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Os ataques, incluindo um envolvendo o envenenamento de Lula, estavam planejados para 5 de dezembro de 2022. Uma unidade especial chamada “Kids Pretos”, que Fernandes comandou até 2020, seria mobilizada.

Segundo a acusação, um gabinete de emergência chefiado por Bolsonaro seria instalado após os assassinatos. Segundo investigações da Polícia Federal, os alvos e suas medidas de segurança já haviam sido espionados. Segundo a testemunha-chave Mauro Cid, o General Fernandes era uma das forças motrizes em torno de Jair Bolsonaro que defendiam um golpe de estado.

No tribunal,  Mário Fernandes rebaixou seu plano operacional para um “experimento mental” escrito digitalmente “por hábito”, um “estudo da situação” e uma “análise de risco”. Um mês depois, o réu explicou outra cópia impressa do plano da adaga, obtida pela polícia, como tendo tido uma “nova ideia”. Este incidente também não teve consequências. A acusação está convencida de que Jair Bolsonaro tinha pleno conhecimento dos planos e que o golpe só foi cancelado porque ele não tinha apoio suficiente entre os chefes das Forças Armadas.


Fonte: Neues Deutschland

Jair Bolsonaro de tornozeleira é prenúncio de possível ajuste de contas inédito na história brasileira

Ao colocar tornozeleira eletrônica no ex-presidente Jair Bolsonaro, o STF pode estar prestes a promover um inédito ajuste com golpistas na história do Brasil

A notícia sendo disseminada pela mídia corporativa brasileira em relação às medidas adotadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF)  para impedir a eventual fuga do ex-presidente Jair Bolsonaro para os EUA e para coibir supostas ações para coagir testemunhas é um fato inédito na história do Brasil em relação a tentativas de derrubada do Estado democrático.

O fato é que ao longo da duração do período republicano ocorreram diversos golpes de Estado nos quais os executores não sofreram punições pela interrupção da democracia. Os executores do golpe cívico- militar de 1964, por exemplo, continuam sendo celebrados com seus nomes colocados em todo tipo de próprio público, incluindo edífícios e rodovias; além dos títulos honoríficos em universidades federais.

É preciso que se diga que as medidas sendo tomadas contra Jair Bolsonaro se tornaram necessárias a partir das ações explícitas de seu filho transfuga, o ainda deputado federal Eduardo Bolsonaro, que usa de sua presença em território estadunidense para articular prejudiciais aos interesses nacionais com o clar intuito não de apenas impedir o andamento dos trâmites da judicia brasileira, mas de interditar a própria justiça, visando facilitar a fuga do seu pai para os EUA, país onde já se encontram diversos dos mentores e apoiadores do golpe frustrado de 8 de janeiro de 2023.

Como alguém que testemunhou a agonia do regime de 1964 e suas medidas para impedir o devido ajuste de contas com a história, penso que o destino sendo dado a Jair Bolsonaro é um pouco tardio. Tivesse o alto comando do Exército punido Bolsonaro com a prisão e não com a aposentadoria com promoção quando tramou para explodir repartições militares, é bem provável que não tivéssemos tido a sua presença no alto mais alto da república. 

Mas agora é possível que estejamos fechando o capítulo Bolsonaro e próximos de finalmente começara fechar o relativo ao golpe cívico-militar de 1964. Afinal de contas, um é descendente do outro, juntos e misturados.

O presente de Donald Trump a Lula só não é maior que as trapalhadas de Rodrigo Bacellar

The Trump Tariffs Are How Everything Works Now | WIRED

Por Douglas Barreto da Mata 

“Não atrapalhe o inimigo enquanto ele comete erros.” O ensinamento é atribuído a Napoleão, mas encaixa direitinho na cena política nacional e local.  A carta-tarifaço de Donald Trump dirigida ao governo brasileiro, que aumenta as tarifas de produtos brasileiros vendidos aos EUA em 50%, justificada pelo “tratamento” dado a Jair Bolsonaro, é tudo o que Lula queria. 

Eu não sei se a ideia foi soprada por Eduardo Bolsonaro, que vive nos EUA há uns meses.  Mas se foi, Lula deveria lhe agradecer, caso seja reeleito em 2026.  O bolsonarismo filial do trumpismo deu um baita tiro no pé, e forneceu o palanque que Lula queria, e mais, arriscou devolver ao petista a narrativa do patriotismo, até aqui hegemonizada pela direita.

Agora os bolsonaristas tentam rebolar para escapar do problema, e até a Rede Globo, que já ensaiava o ritual golpista de sempre, e vinha batendo na iniciativa dos BRICS, ficou sem pai nem mãe.  Por aqui, no Estado do Rio, a piada pronta foi a exoneração do ex secretário de transporte Washington Reis pelo governador em exercício, Rodrigo Bacellar. 

Além de abrir conflito com um poderoso cacique estadual, que está no mesmo campo dele, o deputado-governador ainda passou a vergonha de ouvir Flávio Bolsonaro desagravar Reis, e dizer que vai pedir ao governador Castro para tornar sem efeito o ato do deputado, quando em exercício da governadoria.  Logo depois, o governador Cláudio Castro veio a público dizer que o que foi feito por Rodrigo não será desfeito, mas a mensagem deixa exposta a ferida, em “carne viva”. 

De quebra, Rodrigo Bacellar se tornou notícia, até no Congresso Nacional, pela interrupção de verbas da saúde que remuneram os atendimentos de pacientes de várias cidades pelo município governado por Wladimir Garotinho, seu rival. Quer dizer, mais inábil, impossível. 

Bem, alguns dizem que Rodrigo Bacellar adotou essa postura para implodir, ele mesmo, sua pré candidatura, já que não vê chances de vitória.  Mas será que Trump é um agente petista infiltrado na extrema-direita? Será que Rodrigo Bacellar trabalha para eleger quem ele diz serem seus adversários?  Vá saber…

Jair Bolsonaro e os múltiplos riscos de se dormir com o inimigo

Por Douglas Barreto da Mata

A despeito das disputas de narrativas sobre o tamanho da audiência na manifestação dos partidários do ex-presidente Jair Bolsonaro, algumas considerações merecem ser feitas.  Primeiro, nem o Supremo Tribunal Federal (STF), nem qualquer outra pessoa que defenda a Lei de Anistia, promulgada em pleno regime militar, em 1979, que depois teve sua constitucionalidade confirmada pelo STF, já em tempos “democráticos”, poderá subtrair a legitimidade do pedido dos manifestantes pró Anistia dos criminosos do 8 de janeiro de 2024.

Ora, qual o argumento para impedir esse debate político e legislativo, se a sociedade brasileira aceitou a aberração jurídica da (auto) anistia dos militares, sendo que uma parte de seus crimes ainda está em andamento, já que os sequestros sem a recuperação dos corpos mantêm a consumação em estado de permanência, além de que outros, como a tortura, são imprescritíveis e não suscetíveis de anistia, fiança, graça ou indulto, conforme todos os tratados que somos signatários?

Mais ainda, qual será a tese jurídica esposada pelo STF, uma vez provocado a declarar a inconstitucionalidade da lei, como já anteciparam os que são contrários à anistia, já que foi essa corte a deitar jurisprudência para tornar constitucional a anistia a criminosos que sequer foram investigados, já que militares não foram indiciados, investigados, processados, e sentenciados pelos crimes bárbaros e, mesmo assim, perdoados?

Me parece, mas posso estar enganado, que estamos diante da figura do direito penal do inimigo. Bem, dito isso, vamos ao evento deste dia 16/03/2025.  Jair Bolsonaro não reuniu essas pessoas na orla carioca de Copacabana para pressionar o Congresso ou o STF. Penso que não. Jair Bolsonaro sabe que não vão converter ninguém, nem fazer com que mudem de posição pelo volume de apoio que recrutar a sua causa. Sua demonstração de força, ou tentativa, a depender de quem olhar a manifestação, não foi dirigida aos adversários da ideia.

Jair Bolsonaro sabe que seu impedimento, isto é, a impossibilidade da anistia é o encurtamento de sua carreira, mas é um atalho para muita gente que sonha em herdar seu capital político, e adiantar etapas na corrida para concorrer ao Planalto.  Muita gente que esteve em seu palanque, hoje, e em outros eventos, já faz as contas para jogar o ex-presidente para fora do páreo.  Possivelmente, a presença ao lado do ex-presidente é um gesto calculado para mantê-lo como cabo eleitoral.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é um interessado direto na interdição de seu líder político. Há outros, mas talvez ele seja o principal.  Contra ele, a história.  É muito raro, principalmente nesses últimos 40 anos, que um governador chegue ao Planalto.  Só um teve sucesso, Fernando Collor.  Itamar Franco governou Minas Gerais, mas depois foi senador, e mesmo assim, chegou por impeachment como vice do presidente alagoano.  Mesmo antes, dentre os demais, antes de 64, só Juscelino Kubitschek (JK) conseguiu a façanha. A eleição presidencial requer uma capilaridade que o exercício do cargo de governador é um grande obstáculo, sejam pelas atribuições e desgastes do cargo, sejam pelas enormes arestas regionalistas que acumulam, durante esses mandatos. Lula foi deputado federal, Jair Bolsonaro idem.  Dilma não ocupou cargo eletivo, foi ministra. Michel Temer golpeou Dilma. FHC foi senador, mas se elegeu presidente a partir do cargo de ministro da Fazenda.  Collor governador e Sarney eleito indiretamente. Jango era vice de Jânio. JK, governador. Getúlio Vargas, bem, Vargas foi Vargas.  Antes de 1930, o jogo era definido entre as oligarquias de Minas Gerais e São Paulo.  Nesse inventário de presidentes, apenas dois governadores.

Se Tarcisio de Freitas vai ter sucesso ou não, uma coisa é certa, a anistia é um obstáculo às suas pretensões e de outros pré-candidatos.  Na política, como se vê, o inimigo está bem mais próximo do que se imagina. Eu arriscaria a dizer que no caso de Jair Bolsonaro, talvez ele durma com o inimigo(a), ou compartilhe com ele mais que uma herança genética, além da política.

A denúncia da PGR contra Jair Bolsonaro e seus acólitos: um pouco tarde demais e sem garantias de efetividade

A Procuradoria Geral da República (PGR) denunciou ontem o ex-presidente Jair Bolsonaro e mais 33 pessoas (várias delas militares de alta patente) pelo nada simplório fato de arquitetarem um golpe de estado ao longo de 2022 que inclua planos de assassinar o presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do Superior Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.

Que essa tentativa de golpe de estado ocorreu todo mundo (inclusive os apoiadores mais ardorosos de Jair Bolsonaro) já sabia. O que impressiona é se saber toda a arquitetura desse tentativa frustrada de golpe, e o papel que cada um dos envolvidos cumpriu.

Mas o que realmente salta aos olhos é o fato de que se demorou tanto tempo para simplesmente entregar uma denúncia contra esse grupo de personagens que claramente tramaram abertamente um golpe de estado sangrento.  Por comparação, a Coréia do Sul que viveu algo muito mais ameno recentemente tomou providências mais rápidas e mais duras contra quem planejou interferir no funcionamento democrático das instituições estatais coreanas.

E, pior, essa denúncia não é garantia de coisa nenhuma em termos da devida punição aos responsáveis, incluindo o arquiteto mór dessa pataquada, Jair Bolsonaro.  E reconheçamos, a democracia brasileira (se é que podemos chamar de democracia o sistema de governo que temos no Brasil) continua balançando por um fio.

Finalmente, nunca é demais lembrar que se o Exército Brasileiro tivesse punido Bolsonaro exemplarmente quando ele foi pego preparando a explosão de bombas em quartéis, o Brasil não precisaria ter passado pela experiência degradante de vê-lo agindo contra as instituições democráticas nacionais enquanto sentava na cadeira de presidente da república.

Ex-presidente do Brasil Jair Bolsonaro é acusado de planejar golpe de Estado

A polícia federal acusa 37 pessoas de crimes, incluindo conspiração e tentativa de derrubar uma das maiores democracias do mundo

homem de camisa de futebol amarela fala no microfone

Jair Bolsonaro se dirige a apoiadores durante comício em São Paulo, Brasil, em 25 de fevereiro de 2024. Fotografia: André Penner/AP 

Por Tom Phillips para o “The Guardian” 

O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e alguns de seus aliados mais próximos estão entre dezenas de pessoas formalmente acusadas pela Polícia Federal de fazerem parte de uma conspiração criminosa criada para destruir o sistema democrático brasileiro por meio de um golpe de Estado de direita.

A polícia federal confirmou na quinta-feira que os investigadores concluíram sua longa investigação sobre o que chamaram de uma tentativa coordenada de “desmantelar violentamente o estado constitucional”.

Em um comunicado, a polícia disse que o relatório — que foi encaminhado à Suprema Corte — acusou formalmente um total de 37 pessoas de crimes, incluindo envolvimento em uma tentativa de golpe, formação de uma organização criminosa e tentativa de derrubar uma das maiores democracias do mundo.

Os acusados ​​incluem Bolsonaro, um capitão do exército desonrado que se tornou político populista, que foi presidente de 2018 até o final de 2022, bem como alguns dos membros mais importantes de seu governo de extrema direita.

Entre eles estavam o ex-chefe de espionagem de Bolsonaro, o deputado de extrema direita Alexandre Ramagem; os ex-ministros da Defesa, general Walter Braga Netto e general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira; o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres; o ex-ministro da Segurança Institucional, general Augusto Heleno; o ex-comandante da Marinha, almirante Almir Garnier Santos; o presidente do partido político de Bolsonaro, Valdemar Costa Neto; e Filipe Martins, um dos principais assessores de política externa de Bolsonaro.

Também foi citado o blogueiro de direita, neto do general João Baptista Figueiredo, um dos militares que governaram o Brasil durante a ditadura de 1964-85.

A lista contém um nome não brasileiro: o de Fernando Cerimedo, um guru argentino de marketing digital que foi responsável pelas comunicações do presidente da Argentina, Javier Milei , durante a campanha presidencial de 2023 no país. Cerimedo, que mora em Buenos Aires, é próximo de Bolsonaro e de seus filhos políticos.

A tão esperada conclusão do inquérito policial acontece poucos dias depois de policiais federais terem efetuado cinco prisões como parte de uma operação contra supostos integrantes de um complô para assassinar o sucessor de esquerda de Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, e seu vice-presidente de centro-direita, Geraldo Alckmin, além do desembargador Alexandre de Moraes.

Pouco antes de a polícia anunciar o fim do inquérito, Lula expressou gratidão pelo fracasso da tentativa de envenená-lo. “Estou vivo”, disse o esquerdista de 79 anos durante um discurso.

O Gen Mario Fernandes, uma das cinco pessoas presas pelo suposto plano de assassinato “Adaga Verde e Amarela”, também estava entre as 37 pessoas nomeadas pela polícia federal na quinta-feira – e, como os outros, foi formalmente acusado de fazer parte de uma tentativa criminosa de golpe. “Estamos em guerra”, Fernandes teria dito em uma mensagem descoberta por investigadores da polícia.

Bolsonaro negou anteriormente envolvimento em uma tentativa de anular o resultado da eleição de 2022, que ele perdeu para Lula. Falando a um jornalista do site de notícias brasileiro Metrópoles depois que ele foi nomeado no relatório policial, o ex-presidente disse que precisava ver o que estava na investigação. “Vou esperar o advogado”, acrescentou Bolsonaro.

Braga Netto, Heleno e outros nomes proeminentes na lista não fizeram comentários imediatos sobre as acusações no relatório da polícia federal, que o comunicado policial disse ser baseado em um grande acervo de evidências coletadas por meio de acordos de delação premiada, buscas e análise de registros financeiros, de internet e telefônicos. Mas políticos pró-Bolsonaro proeminentes criticaram o relatório, com Rogério Marinho, o líder da oposição no senado, atribuindo-o à “perseguição incessante” visando a direita do Brasil. “Quanto mais perseguem Bolsonaro, mais forte ele fica”, tuitou Sóstenes Cavalcante, um deputado bolsonarista do Rio.

A suposta tentativa de golpe pró-Bolsonaro teria ocorrido durante os turbulentos dias finais de seu governo de quatro anos, que chegou ao fim quando ele foi derrotado por Lula no segundo turno da eleição presidencial de 2022.

Na preparação para essa votação decisiva, um manifesto assinado por quase um milhão de cidadãos alertou que a democracia brasileira estava enfrentando um momento de “imenso perigo à normalidade democrática” em meio a suspeitas generalizadas de que havia planos em andamento para ajudar Bolsonaro a se agarrar ao poder, mesmo se ele perdesse.

Depois de perder sua tentativa de reeleição, Bolsonaro voou para o exílio temporário nos EUA enquanto milhares de apoiadores se reuniam em frente a bases militares no Brasil para exigir uma intervenção militar que nunca aconteceu.

A tentativa frustrada de anular a vitória de Lula culminou nos tumultos de 8 de janeiro de 2023 na capital, Brasília, quando bolsonaristas radicalizados invadiram o palácio presidencial, o congresso e o supremo tribunal.

Quase dois anos depois, Lula está no poder, mas a ameaça da extrema direita à sua administração continua. Na quarta-feira passada à noite, um membro do partido político de Bolsonaro foi morto após aparentemente se explodir com explosivos caseiros enquanto atacava a Suprema Corte.

Durante uma busca no trailer do homem, a polícia teria encontrado um boné estampado com o slogan do movimento de extrema direita de Bolsonaro: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos.”

Em uma declaração em vídeo, Paulo Pimenta, ministro das Comunicações de Lula, disse que o governo estava “completamente perplexo e indignado” com as revelações de que o ex-presidente e membros das Forças Armadas supostamente estavam conspirando para derrubar a democracia brasileira “com uma audácia quase inacreditável”.

“São crimes gravíssimos [e] acusações gravíssimas”, acrescentou Pimenta, que disse que o governo Lula agora esperaria o Ministério Público decidir qual dos 37 seria processado e levado a julgamento. Os condenados teriam que pagar pelos crimes que cometeram contra a democracia, contra a constituição e contra o povo brasileiro, disse Pimenta. “Bolsonaro na cadeia”, escreveu o ministro ao lado do vídeo, ecoando um chamado de muitos brasileiros progressistas.


Lula e Bolsonaro: no tratamento das pandemias da COVID-19 e das queimadas existe alguma diferença entre eles?

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Por Douglas Barreto da Mata

Em conversas mantidas com o amigo George Gomes Coutinho, e em tantas outras com o editor deste blog, que generosamente permite que eu veicule minhas inquietações neste espaço eletrônico, o Professor Marcos Pedlowski, sempre questionamos o sentido da palavra democracia no modelo capitalista.

Por certo, de forma mais ou menos intensa, concluímos que falar em democracia no capitalismo é um erro conceitual grave.  Coutinho, inclusive, cunhou o termo “mercado democrático”, para dar sentido a um sistema de concorrências políticas, em ambientes específicos, onde as forças em conflito tratam suas diferenças, dando uma gradação mais ou menos “democrática” para cada sistema, de cada país, atendendo a critérios de mais ou menos liberdade de expressão, estabilidade jurídica e normativa, etc. Eu chamaria de mercado representativo.

Continuo a achar que nada há de democrático no capitalismo, nem mesmo um “mercado democrático”, ainda que eu entenda cada nuance da expressão imaginada por Coutinho.  Pois bem, olhando o movimento recente da economia, no atual governo, e as guinadas e recuos do Presidente Lula, juntando com o desastre ambiental e a inação da administração federal, onde o próprio Lula disse, ontem, senão me engano, que ninguém está preparado para tais circunstâncias, em todas as esferas de governança, eu fiquei imaginando: tem diferença entre Lula e Jair Bolsonaro?

Se a pandemia da COVID-19 foi o pior ponto do governo Bolsonaro, onde os analistas entendem que ali se exauriu boa parte de seu capital político, e se concordamos com o magistrado do STF, o insuspeito e ex Ministro da Justiça Flávio Dino, que estamos diante de uma pandemia ambiental, então também podemos concluir que esse será o ponto fatal para Lula, dentre tantos outros já acumulados.

Como assim não estamos preparados, Lula?  Esse atual cenário de desastre ambiental foi projetado desde 1992.  Já se passaram dois mandatos seus, e um e meio de Dilma, como assim não sabiam o que ia acontecer?

COP dois mil e X paineis climáticos internacionais, e se Lula não souber ou puder ler ttodo o material gerado nesses encontros, pode ir de “O Dia Depois de Amanhã” mesmo, com Dennis Quaid.  Ali, de forma exagerada e resumida dá para ter uma noção do que o aquecimento vai trazer ao clima.  Se Lula não sabe, não quer saber, manda alguém ler e traduzir para ele. Tudo certo, não se pode saber tudo.

O que não pode é dizer que um tema de 40 anos não gerou no presidente uma demanda de planejamento e preparação, e neste caso, de enfrentamento da causa: o modelo econômico agroexportador!

Quer dizer que o governo Lula, que alimentou-se dos superávits da balança comercial, pelas exportações do latifúndio (chamado, carinhosamente, também por Lula de agronegócio), não sabia que o custo sócio ambiental seria esse?

Lula passou todos os seus anos de governo sem mexer em nada na estrutura da nossa carteira de exportações, somos quase que meros exportadores de “pau-brasil”, ganhando em troca, não espelhos e miçangas, como os índios da época, mas isqueiros e gasolina, para transformar tudo em pastagens e áreas de soja e milho.

Quando exportamos carne, milho, soja, etc, na verdade, enchemos os bolsos de ricos fazendeiros, que não recolhem impostos sobre a venda exterior desses produtos (Lei Kandir), e damos, de graça, trilhões de litros d’água, usadas nesses cultivo e criações, enquanto os compradores poupam seus biomas quando adquirem essas commodities a preços generosos.

Você fica sem água, no calor, na fumaça, para alguém enriquecer, e sequer pagar o imposto para ajudar a conter os estragos.  Vejam bem a que ponto chega a cretinice desse governo, ao justificar que poderia haver um incremento da inflação por causa das queimadas, ao mesmo tempo que criou a narrativa dos “piromaníacos lobos solitários”, ou dos “incêndios terroristas”.

Ora, claro que podem haver grupos organizados para criar tensão, bem como a ação de incendiários malucos, agindo por imitação.  Sim, é possível.  Mas creditar a esses atos a responsabilidade por tudo que está acontecendo desde sempre nos biomas que servem como repositores de chuva e umidade no resto país, leia-se Amazônia, Pantanal, Mata Atlântica é de um cinismo tão cruel quanto Bolsonaro dizer que não se importava com as vítimas da pandemia, porque não era coveiro.

Ao lado disso tudo, Lula, que passou anos atacando o Presidente do Banco Central, agora deu uma guinada, e na iminência de colocar o seu indicado na presidência, resolveu aderir à tese da autonomia, e sequer deu um pio sobre a subida recente (ontem) da SELIC em 0.25%.  Alguns dirão que faz sentido o cálculo de Lula, para afastar os questionamentos sobre as ações de seu indicado, quando ele tomar as medidas que Lula deseja.

Será Lula um ingênuo, e será que ele acredita que o seu indicado fará mesmo o que ele mandar, e não o mercado?  Mesmo diante da canalhice dos porta-vozes da banca, os mercenários do teleprompter, dizendo em alto e bom som que a subida se justificava para “acalmar” o mercado de trabalho.  Em outras palavras, aumentar o desemprego, para evitar que os patrões tenham que pagar mais pela mão-de-obra.

Assim, como sempre, toda vez que há alguma merreca em ganho de renda, a banca, com a cumplicidade do governo, aumenta os juros para subtrair esse excesso das mãos dos trabalhadores.  O governo não cria impostos, nem torna a estrutura tributária mais justa (rico paga mais, pobre paga menos) mas permite o “tributo dos juros” sobre os que têm menos renda.  Assim temos o pior dos mundos.

Um país massacrado pela inépcia e covardia de um governo, que cede aos magnatas dos juros e do latifúndio, e que agora resolveu voltar a lamber as botas dos EUA nas questões geopolíticas regionais, antigo fetiche de Lula pelos Democratas, logo eles que nos entubaram o golpe de 2016, em Dilma, via juízes treinados pelo departamentos de Estado e de Justiça dos EUA.

Talvez estas conjunturas tenham reflexo aqui, na planície, onde o PT parece desgovernado, cambaleando, trocando as pernas. Faz sentido.

Há diferença entre Lula e Bolsonaro?  Bem, respondendo a esta pergunta,  talvez a diferença entre Lula e Bolsonaro é que o primeiro não gravou, ou pelo menos ainda não divulgou, imagens e áudios de reuniões ministeriais com a Marina Silva falando em passa boi, passa boiada.

Na prática, porém, o boi e a boiada passaram, e foram direto para o brejo.  Alguém disse que é mais fácil imaginar o fim do mundo, a pensar no fim do capitalismo.  Pode ser. Lula e o PT, com certeza, são herdeiros dessa tese.