Rede Globo, Bolsonaro e lutas intra-burguesas

laranjeiras

Bairro de Laranjeira, cidade do Rio de Janeiro, dia 29 de outubro de 2019, às 23:16 min.

Por Heitor Silva*

Ontem assistimos mais um round na disputa entre o Presidente da República e a Rede Globo, as aparências remetem para mágoas de Bolsonaro com o não empenho desta emissora no primeiro turno de sua eleição e a má vontade da rede com seu governo. Do lado da Globo as mágoas seriam as ameaças reafirmadas de não renovação da concessão do canal de TV em abril de 2022. No entanto, este mesmo Presidente foi capaz de aprovar todas as reformas que o grande capital esperava e que a Globo por interesses como grande empregadora e por ser o braço ideológico, por excelência, do grande capital tanto impulsionava, ou seja, apesar das insatisfações mútuas serem questões reais elas são contrabalançadas pelas vitórias conseguidas com o Bolsonaro, portanto precisamos ir mais a fundo para entender o que está em jogo que provoque este entrechoque.

Para entender o que está em disputa precisamos como ponto de partida compreender qual é a coalizão que chegou a Presidência; trata-se de um aglomerado de políticos do baixo clero, ou seja, políticos sem maiores expressões a nível nacional, o exemplo maior é o próprio Presidente que foi deputado por 27 anos, eleito sempre pelo fato de ser o representante dos militares nas lutas por salários. Na última legislatura de que participou se notabilizou pelos enfrentamentos com o ex- deputado Jean Wyllis e com a deputada Maria do Rosário assumindo protagonismo nacional por defender com virulência uma pauta conservadora já representada pelos evangélicos, mas sem o impulso retórico e a beligerância apresentada por Bolsonaro. Sem maiores apoios construiu um partido de inexpressivos, basta ver que a figura de proa do partido no maior estado do país, São Paulo, era um ex-ator de filmes pornográficos, o Sr. Alexandre Frota. Esta coalizão por não ter apoio dos setores tradicionais pode aparecer para a população como contra estes grupos que lhe negavam apoio, entre eles a Globo.

Outro setor importante nesta trajetória foram os evangélicos que apesar da crescente importância eleitoral e até empresarial ainda são setor marginal nos grandes negócios do país e que encontraram em Bolsonaro alguém com capacidade de comunicação muito maior e mais aguerrida do que seu principal quadro político, o Prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, garantiram votos concentrados nas grandes cidades e a capilaridade no interior que um partido recém-criado, o PSL, não tinha.

Também foi importante a contribuição dada por celebridades da internet, o melhor exemplo foi o Sr. Olavo de Carvalho elas trouxeram um conteúdo ideológico para sustentar a candidatura e foram avalistas da aproximação com a extrema direita americana representada por Steve Bannon que contribuiu com aparato midiático nas redes para contrabalançar o pouco tempo na propaganda eleitoral e o isolamento imposto pela Globo.

O grande capital tinha como candidato Geraldo Alckmin que não conseguiu se tornar uma alternativa nas eleições, quando este quadro se configura Bolsonaro estava consolidado no segundo turno e diante de um discurso de aprovar as reformas, mesmo diante do discurso do candidato petista Haddad da necessidade de reformas, o capital preferiu aquele que garantia realizá-las de forma acelerada.

Instalado na Presidência começa a luta pelos “espólios de guerra” que têm várias frentes. A luta é encarniçada porque os grupos em torno do Presidente estavam de fora, ou seja, não se trata de rearrumar uma mesa posta no banquete, trata-se de conseguir lugar na mesa para os arrivistas. Os eventos que assistimos são desdobramentos desta luta.

Temos em primeiro plano a luta pelas verbas publicitárias, de um lado a TV dos evangélicos, do outro a Rede Globo. Para termos uma noção do montante o investimento em publicidade no Brasil chegou a R$ 16,54 bilhões em 2018, segundo o Cenp (Conselho Executivo das Normas-padrão), entidade que reúne os principais anunciantes, veículos de comunicação e agências de propaganda do país. Claro que a publicidade governamental é apenas uma fatia deste total, mas nada desprezível.  O butim em disputa são as publicidades do governos mais as verbas publicitárias das estatais, entre elas: Caixa Econômica Federal, 7o maior anunciante do país com gastos em 2018 de mais de 1 bilhão e meio de reais[1] , sendo que deste total, matérias de jornais apontam, 370 milhões de reais como destinados as redes de TV; Banco do Brasil com gastos em 2018 de mais de 1 bilhão de reais; a Petrobras tem em execução dois contratos de publicidades entre 2018 e 2020, o valor total é de 550 milhões de reais[2].

Para termos uma ideia de como está sendo travada esta disputa, o site Poder360 nos informa que o Banco do Brasil estaria com campanha publicitária pronta, focada no mercado de varejo e de crédito, com veiculação prevista de R$ 20 milhões. Mas que teria sido barrada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), pelo fato de o valor alocado pela mídia para a Rede Globo ser maior que para Record e SBT[3].

No entanto a Rede Globo não teria condições de enfrentar um presidente da República que tivesse apoio maciço dos grandes anunciantes, que ameaçariam retaliar reduzindo verbas, se ela o faz de forma tão aberta antes fez as contas de quanto pode perder no setor público, que nem mesmo somando todas as verbas é seu principal anunciante e ter a certeza de que não será retaliada pelo grandes anunciantes privados. Para compreender o apoio, na surdina, que o grande capital dá a Globo nesta guerra é necessário compreender as “trapalhadas” cometidas pelos novatos no poder. Claramente o estilo do Presidente o isola do grande capital, quando põe a ideologia acima dos negócios como foi no caso da abertura da embaixada em Jerusalém, para agradar os evangélicos, criando um atrito com os árabes, que são, de longe, os maiores compradores do conglomerado BRF que junta a Sadia e a Perdigão. Também se enquadra neste caso os atritos criados com os chineses que estavam em vias de investir em infraestruturas importantes para o agronegócio, na mesma direção foram as declarações sobre as queimadas da Amazônia abrindo um flanco para retaliações aos nossos produtos agrícolas e animais nos países centrais.

Diante desta falta de habilidade, já com as reformas aprovadas e para afasta-lo mais ainda dos oligarcas e dos banqueiros há a sede com que os arrivistas se lançam e, neste caso, as notórias relações com os milicianos também novos-ricos sedentos de dinheiro e poder abrem a possibilidade de sua utilização como “guarda pretoriana” do Presidente. Com este quadro de referências procuramos ouvir interlocutores do mercado financeiros e todos disseram uníssonos – o mercado não se abalou diante da denúncias da Globo, aliás todos esperam e torcem pela saída dele e entronização do Vice-Presidente Mourão.

Estamos vendo uma luta que no Rio de Janeiro poderia ser traduzida como Leblon versus Barra da Tijuca e em S. Paulo como Jardins versus Itaim Bibi ou Moema.

Enquanto isso a América Latina arde e os atores em cena já se posicionam, o filho do Presidente ameaça com uso brutal de tropas para reprimir manifestações, o Prefeito Pastor da cidade do Rio de Janeiro contradizendo toda a sua trajetória resolve uma pendência sobre pedágio em uma  importante via da cidade, a Linha Amarela, pela força destruindo a praça do pedágio, mostrando que se houver radicalização ele já está se posicionando para “mudar tudo e assim permanecer como era antes”. É plausível supor que dada a luta entre eles as manifestações tenham as “bençãos”  da Globo, relembrando seu comportamento no impeachment do Presidente Collor. Para verem como ela está apostando nisso ontem logo após o Jornal Nacional com as denúncias contra o Presidente foi projetado em prédio no bairro da Laranjeiras a imagem abaixo, vejam equipamento de laser, caro e dos quais há poucos na cidade, já estava de plantão em um dos bairros onde o PSOL teve a maior votação na cidade esperando as reações diante de denúncias de relação do Bolsonaro com o assassinato da Vereadora Marielle Franco do PSOL carioca.

Não podemos, nós a esquerda, sermos marionetes neste jogo e nem acreditar em alianças tática com a Rede Globo, precisamos mostrar que isso é uma luta nos intestinos do capitalismo periférico e que nossa alternativa não pode ser outra que não seja a mudança completa de tudo que aí está, ou seja a Revolução Brasileira.

  1. Fonte: Kantar IBOPE Media – Monitor Evolution – ME1812TOTALPTVHS – Período: de Jan/ 2018 a Dez/2018. Valores Publicitários Brutos (GAV- Gross Adverseting Value), desconsiderados descontos e negiciações.
  2. Fonte: Transparência Petrobras. Disponível em: http://transparencia.petrobras.com.br/despesas/publicidade
  3. Fonte: https://www.poder360.com.br/economia/semana-do-brasil-comeca-nesta-6a-com-adesao-de-mais-de-6-mil- empresas/

*Heitor Silva é professor e economista

Marielle e Anderson: há mesmo chance que se faça justiça aos mortos?

mari-e-andersonA vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ) e o motorista Anderson Gomes foram barbaramente assassinados no dia 14 de março de 2018

As últimas 48 horas têm sido plenas em termos de cobertura sobre uma matéria produzida pelo jornal nacional sobre uma possível ligação entre os assassinos da vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ) e do motorista Anderson Gomes com o agora presidente Jair Bolsonaro.

Um dos aspectos mais peculiares foi a velocidade dignidade do personagem “The Flash” com que o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro saiu a campo para desmentir e colocar em xeque o depoimento de um porteiro do condomínio “Vivendas da Barra” que estabeleceu a ligação entre os supostos assassinos de Marielle e Anderson com a residência de Jair Bolsonaro.

Foi graças a essa celeridade inaudita que o Brasil ficou sabendo que uma das procuradoras da equipe responsável pelo caso se chama Carmen Eliza Bastos de Carvalho (ver reprodução abaixo de matéria da Agência Brasil). 

mp marielle

Mas é justamente aí que a porca torceu o rabo. É que a partir da publicização dos membros da equipe do MP/RJ que acompanha o caso, vários veículos da mídia alternativa puderam detectar que a procuradora Carmen Eliza Bastos de Carvalho não apenas fez campanha para o então deputado federal Jair Bolsonaro, como também foi homenageada com a maior comenda do estado do Rio de Janeiro, a Medalha Tiradentes, por iniciativa do deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL) que se tornou conhecido durante a campanha de 2018 por ter quebrado a placa que homenageava Marielle Franco (ver imagem abaixo).

carmen eliza

O que me parece curioso é que as imagens acima estão disponíveis na página que a procuradora Carmen Eliza Bastos de Carvalho, o que torna impossível que seus superiores hierárquicos (pelo menos os imediatos) não tivessem conhecimento de suas preferências partidárias quando a indicaram para um caso que é marcado por um evidente elemento ideológico dada o perfil pessoal e a natureza da ação política de Marielle Franco.

Agora, diante das revelações que se tornaram públicas, vamos como se comporta o MP/RJ. É que a manutenção da procuradora Carmen Eliza Bastos de Carvalho no caso tenderá a gerar suspeições profundas de conflito de interesses por parte dela.

E a questão que não quer ficar calada: há nesse contexto todo alguma chance real de que seja feita justiça para Marielle e Anderson?

Não é porque é úmida que a Amazônia não pega fogo…

fogo floresta

O vídeo abaixo é mais uma daquelas demonstrações que dentro do atual governo há a clara expectativa de que ninguém que ouça que é dito entende do que está sendo falado. Nele o presidente Jair Bolsonaro nega de cara limpa o fato de que em 2019 a Amazônia brasileira literalmente ardeu em chamas por causa do desmanche dos mecanismos de comando e controle que existiam até dezembro de 2018.

A coisa é que flagrantemente inverídica que apenas um exame rápido de uma imagem do satélite MODIS para o período de 15 a 22 de Agosto de 2019 já indica o tamanho do fogaréu que tomou conta da Amazônia brasileira, em especial na região conhecida como “Arco do Desmatamento” [ver imagem abaixo].

modis.png

E mais, os incêndios florestais diminuíram porque houve o início do período chuvoso, o que torna inviável a combustão do material seco. Entretanto, isso já torna possível prever que em 2020 o número de focos de incêndio e a intensidade dos mesmos será ainda maior do que em 2019.

Mas há algo ainda mais básico sobre a declaração do presidente Jair Bolsonaro indicando que a floresta amazônica “não pega fogo porque é úmida”. O fato é que o bioma Amazônia é muito mais diverso do que se possa imaginar, incluindo desde formações mais densas e fechadas até as mais abertas. Essa diferenciação estrutural invalida a noção de que as florestas amazônicas são todas úmidas a ponto de impedir a ocorrência de fogo em seu interior. Aliás, bastaria uma olhada rápida nos documentos gerados pelo projeto RADAM BRASIL para se saber disso. 

A verdade é que o atual governo tem pouco ou nenhum interesse em proteger a biodiversidade amazônica. Mas como o resto do mundo se interessa, há então a necessidade de oferecer explicações que não param em pé. Cedo ou tarde, essa disposição para tentar ocultar o inocultável vai criar problemas intransponíveis para o acesso das commodities brasileiras aos mercados globais.

 

O assassinato de Marielle e Anderson: Rede Globo expõe as ligações perigosas de Jair Bolsonaro

bolso queirozO presidente Jair Bolsonaro com o ex-PM Élcio Queiróz, um dos principais acusados pelo assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes

A estas alturas do campeonato ninguém deveria mais se surpreender com o que se pode chamar de “ligações perigosas” que cercam o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos com o mundo das milícias no Rio de Janeiro. É que as fartas ligações dentro de gabinetes e até mesmo dentro do condomínio onde o presidente mora na Barra da Tijuca são mais do que conhecidas.

O que há de diferente agora é a ação da família Marinho para escancarar estas evidentes ligações com o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes por figuras que estavam, ou ainda estão, próximas do presidente Jair Bolsonaro e seus filhos. E isto tudo usando o principal instrumento da Rede Globo, i.e., o Jornal Nacional, para explicitar questões que permaneciam um tanto submersas em uma investigação que parecia destinada ao esquecimento (ver vídeo abaixo).

Em se tratando das Organizações Globo sempre há que se perguntar sobre o motivo da veiculação desta ou daquela matéria, pois a família Marinha não é de bater prego sem estopa. Entretanto, a ação de jogar na cara da população brasileira a possível ligação de Jair Bolsonaro e seus filhos com o assassinato de Marielle e Anderson é um movimento robusto. Tanto isto é verdade que desde a Arábia Saudita, e em plena madrugada de lá, Jair Bolsonaro já ofereceu o que pode ser considerado um ensaio de resposta (ainda que em tom relativamente desgovernado) à matéria do Jornal Nacional.

O que parece evidente é que o mandato do presidente Jair Bolsonaro acaba de ser colocado na linha de fogo como nunca antes ao longo deste ano. Se ele insistir em uma linha de resposta como a mostrada acima, o grande risco é que ele seja abandonado até pelos setores que o sustentam em nome de evidentes ganhos que estão auferindo com as políticas de desmanche do Estado brasileiro. 

E a razões para um eventual abandono de Jair Bolsonaro em meio ao deserto das potenciais revelações que ainda estão por vir são eminentemente de ordem econômica. É que nenhuma empresa multinacional vai querer vir para o Brasil em meio a um ambiente em que o presidente da república esteja lutando pela sua sobrevivência por causa do tipo de ligação (perigosa) que a Rede Globo decidiu explicitar na noite de ontem.

Suspeito que as próximas semanas serão preenchidas com mais adrenalina, pois a peça que foi veiculada ontem parece mais uma espécie de “preparo” para revelações ainda mais cabeludas acerca das responsáveis pelo assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. De quebra, ainda há a fratura exposta que atende pelo nome de Fabrício Queiróz que parece um potencial candidato a delator. Talvez por isso o presidente Jair Bolsonaro se mostrou particularmente agitado com a possível prisão de um dos seus filhos.

Como se vê, o Brasil não é mesmo um país para principiantes.  Por isso mesmo, por mais tarimbados que alguém seja, sempre há por aqui amplo espaço para surpresas e enredos rocambolescos. 

O leão e as hienas de Bolsonaro: a bomba semiótica que explodiu no colo de quem lançou

bolso leo 1

O vídeo abaixo aparentemente teria como objetivo incensar a base eleitoral do governo Bolsonaro para que se fortaleça a defesa política do presidente Jair Bolsonaro. Mas dado que o presidente o removeu de sua página oficial na rede social Twitter pouco tempo depois de ir ao ar, várias interpretações podem ser feitas, mas nenhuma que indique que houve o êxito pretendido.

É que ao pintar todas instituições, sindicatos, conselhos de classe, o próprio partido do presidente Jair Bolsonaro e até a Lei Rouanet como “hienas” que cercam um leão indefeso pode ter produzido o efeito de unir até inimigos figadais que, de fato, podem passar agora para uma ação mais unificada.

Um detalhe sobre o vídeo original é que o leão indefeso que aparece mortalmente acossado pelas hienas está, de fato, no final da sua vida. Assim, mesmo o aparecimento de um companheiro que surge para impedir o banquete das hienas está apenas atrasando o inevitável.  Eu fico imaginando se quem usou essa bomba semiótica levou em conta o fato natural que está por detrás das cenas mostradas no vídeo: um leão velho à beira da morte tendo que se deparar com seus competidores em condições de alta fragilidade. 

Enfim, o problema é que ao calcular todas as repercussões da bomba semiótica lançada para identificar todos os inimigos do presidente, o efeito final poderá ser oposto ao pretendido. Mas talvez mais em linha com o que o vídeo original mostra. A ver!

 

Governo Bolsonaro se pretendia caçador, mas pode ter virado caça depois da eleição argentina

albertoAlberto Fernández foi eleito em primeiro turno na Argentina e no palanque da vitória defendeu a libertação do ex-presidente Lula cuja prisão ele considera injusta

Ao longo de 2019, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu alguns feitos inéditos em termos do isolamento diplomático do Brasil ao abandonar a postura pragmática que caracterizava historicamente a ação da diplomacia brasileira ao se alinhar umbilicalmente ao governo dos EUA. Além disso, a postura anti-ambiental que ficou explícita na celebração do negacionismo climático pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, piorou ainda mais a péssima imagem que o nosso país passou a ostentar após a eleição de um político que propaga visões que fora do Brasil são consideradas como sendo de extrema-direita.

Agora, o isolamento que se configurava no plano internacional mais distante ganha contornos mais paroquiais com a vitória do candidato de oposição na Argentina que derrotou em primeiro turno a um parceiro ideológico, o neoliberal Maurício Macri. Entre as primeiras declarações dadas ainda no palanque da vitória, Alberto Fernández mandou uma mensagem explícita ao governo brasileira ao indicar que irá se envolver na campanha pela libertação do ex-presidente Lula (ver vídeo abaixo).

A declaração do novo presidente argentino em defesa de Lula tem um forte valor simbólico (e talvez apenas isso), pois indica que Fernández não parece disposto a esquecer as ofensas e provocações que fora proferidas pelo presidente Jair Bolsonaro logo após a sua vitória eleitoral nas primárias argentinas.

A coisa fica ainda mais complicada para o governo Bolsonaro se considerarmos a vitória eleitoral de Evo Morales que obteve novo mandato na Bolívia e a passagem para o segundo turno nas eleições presidenciais uruguaias do candidato da Frente Ampla, Daniel Martinez. 

Associado às vitórias de Fernández e Evo,  Jair Bolsonaro ainda tem que assistir o Chile, principal sustentáculo de suas políticas ultraneoliberais, solapado por um forte revolta popular justamente por causa da aplicação continuada de fórmulas que precarizaram direitos sociais e criaram uma das sociedades mais desiguais do planeta. O governo do presidente Sebastian Piñera que era como se fosse uma espécie de realização suprema da ordem agora se encontra sob forte pressão para rever três décadas de políticas neoliberais em meio a protestos gigantescos.

chile pinera

O grande medo que deve estar atravessando o governo Bolsonaro de cima até abaixo é o da contaminação da revolta popular. Como não há meio termo possível para Jair Bolsonaro e seus ministros ultraneoliberais o medo da contaminação não é infundado, mas depende ainda da disposição de sair da inércia de partidos ditos de esquerda (a começar pelo PT) e movimentos sociais a eles afiliados.

Agora uma coisa é certa: a fase dos encontros de presidentes ultraneoliberais para celebrar vitórias eleitorais está encerrada, e isto deverá criar graves dificuldades para a governabilidade brasileira.  E não possamos esquecer que um dos maiores vencedores das eleições argentinas é o presidente Nicolás Maduro que agora terá uma bota a menos no seu pescoço já que Fernández anunciou durante a campanha eleitoral que irá retirar a Argentina do chamado “Grupo de Lima”. 

Como se vê, os resultados das eleições argentinas terão efeitos de amplo espectro na situação política da América do Sul. E têm tudo para ampliar o clima de paranoia que já existe dentro do governo Bolsonaro. E, convenhamos, com justa razão. É que até bem pouco o sonho propalado pelo presidente Jair Bolsonaro e seus ministros era firmar uma hegemonia de direita no nosso continente. E agora o que se vê é uma espécie de cerco político do Brasil, onde os poucos governos amigos que sobraram estão enfrentando dificuldades enormes para se manterem em pé.

É a consumação da famosa máxima do “um dia da caça, outro do caçador”.  O problema para Jair Bolsonaro é que seu governo que se pretendia caçador pode estar passando rapidamente à condição de caça. A ver!

Jair Bolsonaro e sua recente visita à China: pragmatismo acima de tudo e de todos

bolso xi(Divulgação/Palácio do Planalto)

A recente passagem do presidente Jair Bolsonaro pela República Popular da China pode ter desagradado a parte mais dura do seu eleitorado, mas é um reconhecimento de que ele pode ser tudo, menos o político incapaz de concessões pragmáticas que parte da oposição parece acreditar que ela seja.

Ao convidar a China para participar do mega leilão de reservas do petróleo e para ampliar a compra de commodities  agrícolas brasileiras apenas reconhece o óbvio, pois há mais de uma década é o mercado chinês que mantém a balança comercial brasileira na condição de superávit.  O apetite chinês por minérios e produtos agrícolas como a soja fazem com que dos 27 estados brasileiros, 24 tenham a China como seu principal parceiro comercial. E, sim, muito em função da venda de produtos primários.

Assim, toda aquela conversa de que haveria um afastamento econômico da China em função da orientação dita comunista da sua economia não teria mesmo como sobreviver às necessidades brasileiras de vender as suas commodities. E agora foi substituída por um chamamento no sentido da ampliação da forte interação econômica existente. É que além de um rompimento com a China nos privar de moeda forte, os principais apoiadores da eleição de Jair Bolsonaro não o elegeram para inviabilizar o agronegócio exportador.

chilenes

O problema nessa relação com a China é que os dirigentes chineses parecem ter estabelecido uma dualidade que tem tudo para aumentar as pressões ambientais no território brasileiro.  Falo aqui da disposição de misturar o que os chineses chamam de estruturas “verdes” e “cinzas” para o seu processo de crescimento econômico. Pelo que eu presenciei recentemente durante a minha participação em eventos científicos em Shenzhen, os chineses já reconheceram que ao lado estabelecimento de infraestruturas “cinzas” como pontes, estradas, hidrelétricas e ferrovias, há a necessidade de se ampliar as “verdes” que incluem o aumento de áreas florestadas e a proteção de seus mananciais.

A questão que decorre disso é que a combinação cinza+verde é algo que se dará preferencialmente para dentro com a imposição de um modelo puramente cinza para parceiros comerciais que fornecem os produtos necessários para ampliar o controle chinês sobre a economia mundial.  E nesse caso o custo socioambiental ficará por conta daquelas áreas que se coloquem como periferia preferencial do modelo “cinza+verde” da China.

Como já está mais do que claro o desprezo do governo Bolsonaro pelas estruturas verdes, a ampliação da parceria com a China poderá não apenas ampliar o desmatamento na Amazônia e o uso dos agrotóxicos banidos que chegam aqui após serem produzidos em plantas chinesas, mas como também uma presença ainda maior das petroleiras chinesas na exploração da costa brasileira. Tudo essas possibilidades de ampliação da participação chinesa na economia brasileira deveriam então soar alarmes estridentes por aqui.

Interessante notar que todo esse cenário poderá ser alterado se ocorrer um acordo a partir das rodadas de negociação que os EUA e a China estão desenvolvendo neste momento.  É que se o desfecho for positivo, o agronegócio brasileiro será diretamente afetado já que os EUA são concorrentes diretos no comércio de soja e carne. Essa situação é, no mínimo, muito curiosa. É que o governo de Donald Trump, a quem o presidente Bolsonaro já teceu juras públicas de amor, poderá ser o coveiro da parceria pragmática que se busca com os chineses.