Negacionismo científico de Donald Trump colocou os EUA no centro da pandemia da COVID-19

Donald Trump,Jair Bolsonaro,TrumpDonald Trump e Jair Bolsonaro: dois negacionistas do conhecimento científico que agora precisam que os cientistas gerem respostas rápidas e eficazes para uma pandemia que eles ignoraram propositalmente.

O presidente Donald Trump, como seu congênere brasileiro Jair Bolsonaro, é um negacionista da importância do conhecimento científico. Como Bolsonaro, Trump negou os imensos riscos que estavam sendo criados sobre o povo dos Estados Unidos da América (EUA) pela rápida e letal expansão do COVID-19 em diferentes partes do planeta (ver vídeo abaixo).

Agora, os EUA estão no olho do furacão e já possuem mais cidadãos contaminados do que a China. A rede hospitalar estadunidense, majoritariamente controlada por grandes corporações, já chegou rapidamente à beira do colapso e, como em outros países, é provável que também os serviços funerários cheguem ao limite de sua capacidade em um momento muito distante.

Como já previsto pelo economista israelense Nouriel Roubini, o mesmo que previu o crash das bolsas em 2008,  já disse que Trump deverá perder as próximas eleições presidenciais por sua insistência por negar as evidências robustas que estavam sendo apresentadas pela comunidade científica acerca dos perigos postos pelo COVID-19.

Mas pior do que perder uma eleição, é provável que Donald Trump passe aos livros de história como aquele governante que permitiu que a maior potência econômica e militar do mundo sofra uma hecatombe sanitária por sua arrogância em relação ao conhecimento científico.

Entretanto, as semelhanças entre os presidentes do Brasil e o dos EUA nos ensinam importantes lições sobre a necessidade de se valorizar o conhecimento científico como a base de superação dos grandes desafios que estão postos neste momento, a começar pela pandemia do coronavírus.

Finalmente, lembro que morei nos EUA por mais de 7 anos, contando desde a minha chegada no Oak Ridge National Laboratory onde participei de uma equipe incrível por 1 ano e meio, o meu doutoramento na Virginia Tech onde fiquei quase 5 anos, e finalmente o meu pós-doutorado na Fairfield University onde atuei como bolsista da Comissão Fulbright por 11 meses. Em todo esse tempo, acumulei amizades que perduram até hoje, e hoje me preocupo com o destino de todas as amigas e amigos que como nós estão expostos aos riscos do COVID-19. 

Coronavírus já causou 1.000 mortes nos EUA, e governo Trump terá pacote de R$ 10 trilhões para impedir crise econômica

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No agora infame discurso do presidente Jair Bolsonaro em que ele atacou todos os que estão tentando impedir as piores manifestações da pandemia do coronavírus no Brasil,  houve uma clara menção de que a posição defendida era a mesma de Donald Trump. Pois bem, dois dias depois, o que se vê é os EUA alcançando o trágico número de 1.000 mortes por coronavírus e a negociação de um pacote anti-crise que deverá alcançar R$ 10 trilhões, um valor que é maior do que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2019.

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Então não há melhor hora para que o presidente Bolsonaro e seu ministro da Fazenda, o banqueiro Paulo Guedes, sigam os mesmos passos do governo Trump e despejem dinheiro não apenas nos bancos, mas que haja o aporte de renda para todos os trabalhadores brasileiros que estejam perdendo seus empregos por causa da pandemia.

Até aqui o que se viu foi um desprezo pelos efeitos gravíssimos dessa pandemia, especialmente nos segmentos mais pobres da população brasileira. Mas o exemplo que está vindo dos EUA, onde Donald Trump está fazendo um giro de 180 graus nas posições que defendia até ontem e adotando posições extremas para conter o vírus e a crise econômica que se seguirá a ele, não poderá ser mais desprezado em outros países, ainda que possuam recursos financeiros mais limitados.

E, sim, o que está ocorrendo nos EUA onde a rede hospitalar está rapidamente entrando em colapso demonstra duas coisas básicas: 1) o coronavírus não é uma mera gripezinha, e 2) os serviços de saúde privada não possuem nem a competência ou o grau de preparo necessários para conter pandemias. Que isso sirva de lição para todos os que nos últimos anos agiram para sucatear o Sistema Único de Saúde (SUS) e a difamar os servidores públicos que nele servem à maioria pobre da nossa população.

Boaventura de Sousa Santos envia mensagem aos brasileiros pedindo a remoção imediata de Jair Bolsonaro da presidência da república

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O intelectual português Boaventura de Sousa Santos, um dos mais influentes pensadores da atualidade, enviou por meio de um vídeo uma mensagem aos brasileiros onde tece uma série de considerações sobre a forma pela qual o presidente Jair Bolsonaro vem conduzindo a crise sanitária causada pela chegada da COVID-19 no Brasil.

Para Boaventura de Sousa Santos a pandemia causada pelo coronavírus demonstra a total falência de governos de direita e extrema-direita para “salvar vidas, poupar vidas, em um momento de crise tão grave, pois põe seus interesses econômicos acima da vida“.  Dentre os exemplos de governos que agiriam assim, Boaventura citou os EUA, a Índia e o Brasil.   

O intelectual português afirmou ainda que, independente do regime, os países que não aderiram à lógica neoliberal -do capitalismo selvagem,  e bárbaro, dispostos a sacrificar vidas- resolvem melhor os problemas da crise do que todos os outros. Dentre os países que segundo Boaventura de Sousa Santos souberam enfrentar melhor a crise estão incluídos Singapura, Taiwan e China.

Segundo Boaventura , o caso do Brasil seria mais grave porque nosso país não tem um problema de saúde pública, mas dois problemas de saúde pública.  O primeiro seria a pandemia propriamente dita, e o segundo seria o presidente Jair Bolsonaro que Boaventura considera ser “um indivíduo obviamente transtornado, um louco que deve sair da presidência o mais rapidamente possível“.

Boaventura aproveita para dizer que a loucura do presidente Bolsonaro não é uma qualquer, mas que representa os interesses das elites que o colocarma no poder. Essas elites, segundo ele, querem aproveitar a crise da COVID-19 para destruir toda a lógica de proteção do trabalho e dos trabalhadores no Brasil, e de toda lógica social, de políticas sociais, e criar assim um capitalismo totalmente selvagem. 

Em função disso, Boaventura assinala que existem lutas importantes em curso, a começar pela luta para impedir que a lógica que está por detrás da loucura aparente de Jair Bolsonaro siga adiante.  Assim, Boaventura aponta que a luta urgente é impedir que Jair Bolsonaro continue no poder. 

Mas Boaventura aponta ainda para o silêncio das esquerdas brasileiras, mesmo frente aos incontáveis panelaços que estão ocorrendo no Brasil atualmente. Para ele, a mobilização da esquerda será importante porque o próximo presidente, que deverá ser o vice-presidente Hamilton Mourão,  vai querer continuar aplicando as políticas de proteção dos interesses econômicos da burguesia brasileira que foi quem teria posto Jair Bolsonaro no poder.  Além disso, Boaventura lembra que outros dois problemas a ser enfrentados serão o de caráter econômico com o ministro Paulo Guedes e o político com o ministro Sérgio Moro.

Entretanto, Boaventura assinala que a luta principal e mais urgente para todos os brasileiros, independente de sua orientação ideológica, é retirar imediatamente Jair Bolsonaro do poder. Para tanto ele como exemplo ação coordenada dos governadores que têm agido para se contrapor às ações de Jair Bolsonaro.

Abaixo posto o vídeo enviado por Boaventura de Sousa Santos para que todos possam ouvir na íntegra o que disse em sua mensagem aos brasileiros.

 

Em tempos de Coronavírus, o Brasil é o país da subnotificação e da falta de prevenção

corona02Sem testagem em massa e com uma rede de saúde insuficiente, o Brasil não terá como saber o número de infectados por coronavírus

Em meio às manifestações de empresários, políticos, e do presidente da república Jair Bolsonaro no sentido de que a pandemia do coronavírus não é o bicho papão que os governos do resto do mundo estão fazendo parecer (o da Índia, por exemplo, acaba de colocar 1,3 bilhão de pessoas em confinamento total). 

Um grande problema para qualquer apreciação realista da amplitude que a pandemia do coronavírus poderá ter no Brasil é o fato de que os sistemas de controle para detectar se os indivíduos estão doentes ou não são historicamente falhos.

Tomemos por exemplo o caso das notificações de intoxicação por agrotóxicos.  Em 2015, a pesquisadora Rosany Bochner, vinculada ao Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnologia em Saúde (Icict/Fiocruz) e  então coordenadora do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox),  trouxe à tona um problema grave de saúde pública. A partir de dados coletados pelo Sinitox, Bochner chegou à conclusão de que para cada caso de intoxicação registrado (ou seja notificado), outros 50 casos passavam em branco, gerando uma estrondosa taxa de subnotificação de 50:1.

No caso do coronavírus, esta subnotificação estaria no Brasil na ordem de 11:1 segundo estudo realizado pelo insuspeito Centro para Modelagem Matemática de Doenças Infecciosas (CMMDI)  da London School of Tropical Medicine, do Reino Unido, que fez um cálculo da subnotificação da COVID-19 em vários países. O levantamento feito pelo CMMDI sugere que no Brasil apenas 11% do total de casos  teriam sido diagnosticados. Como a testagem por aqui ainda está sendo restrita aos casos que já deram entrada em hospitais, os dados do CMMDI também poderia estar subestimados, pois efetivamente não há um controle sobre aqueles que já foram infectados e não atingiram o grau necessário para procurarem unidades hospitalares.

Supondo que a incidência real de infectados por Coronavírus esteja na faixa de 11% a 50% do número sendo difundido pelo Ministério da Saúde até agora, o que temos pela frente é efetivamente um desafio que a nossa rede de hospitais não tem como enfrentar sem que ocorra um grande números de óbitos. Há que se notar que o total de mortes não ficará nos números estimados pelo proprietário da rede Madero que estimou que teremos algo entre 5.000 e 7.000 fatalidades causadas pelo coronavírus até que haja o achatamento da curva.

Para que se veja o tamanho do problema que se aproxima no horizonte, o site “The Intercept Brasil” publicou hoje uma matéria indicando que um relatório da Agência Brasileira de Informação (Abin), se a mesma curva de progressão de países como China, Itália e Irã for aplicada, o nosso país chegará a 6 de abril com 5.571 mortos e 207.435 casos de infectados pela doença. Também é importante notar que as curvas dos países citados tem possui uma taxa de subnotificação, o que torna as previsões da Abin ainda mais graves.

evolução coronavírus

Fonte: Abin, 22/03/2020

Então como explicar as manifestações do presidente Jair Bolsonaro e de determinados empresários de que governadores e prefeitos estão exorbitando em face de uma “gripezinha”?  Como a matéria do “The Intercept Brasil”,  pelo menos o presidente Jair Bolsonaro não o faz por falta de informações já que ele recebeu o citado relatório da Abin.  Daí que o motivo para tentar reabrir o que está fechado, desconsiderando o efeito que teria sobre o agravamento da difusão já subnotificada da pandemia do coronavírus, atende a outros interesses que não o da saúde da maioria do povo brasileiro.  Quais interesses são esses é que esta aberto para debate, pois quanto ao tamanho do desafio que estamos enfrentando não há.

 

Associações de juristas denunciam golpe de Estado por trás de medidas de Bolsonaro

Segundo entidades, presidente e equipe conduzem país a caos social e risco de genocídio com atropelo de direitos essenciais para justificar assalto autoritário ao poder

28/11/2019 Cerimônia da Troca da Guarda PresidencialEntidades alertam que MP 927 promove “esgarçamento das relações que permitem a sobrevivência digna”

Por Redação RBA

Entidades alertam que MP 927 promove “esgarçamento das relações que permitem a sobrevivência digna”

São Paulo –  Em nota, entidades ligadas ao meio jurídico denunciaram o que julgam ser um golpe de Estado em curso no Brasil, por conta de ações do governo Bolsonaro como a edição da Medida Provisória 927. Entre outros pontos, a MP autoriza a suspensão dos contratos de trabalho por até quatro meses, sem pagamento de salários.

Segundo a nota, a edição da MP “revela clara tentativa de estender a calamidade pública que já se instaura em razão da covid-19 às pessoas que vivem do trabalho, retirando-lhes a possibilidade de sobrevivência física”.

“Enquanto outros países buscam garantir manutenção do emprego e a OIT [Organização Internacional do Trabalho] manifesta-se salientando a importância da proteção social durante a pandemia, o governo brasileiro aproveita-se da crise sanitária para deflagrar mais um ataque aos direitos sociais trabalhistas”, diz o documento. “A MP convalida o ilícito: o uso de trabalho em situação análoga a de escravo, ou seja, de trabalho não remunerado.”

Para as entidades, a iniciativa do governo tem uma finalidade evidente. “(…) não se vislumbra outro objetivo nessa medida, do que a criação de caos social e de esgarçamento das relações que permitem a sobrevivência digna, apostando num verdadeiro genocídio, a ponto de criar o caldo necessário à instauração de um governo autoritário e sem qualquer compromisso com os parâmetros democráticos”.

“Por tais razões, denunciamos publicamente o governo e exortamos as instituições democráticas a adotarem providências necessárias para inviabilizar a aplicação da MP 927 e afastar imediatamente o governo eleito, em razão da reiterada prática de atos de absoluta irresponsabilidade diante da gravidade do momento que enfrentamos.”

Confira a íntegra da nota:

Denúncia contra o golpe de estado em curso no Brasil

As entidades abaixo nominadas vem DENUNCIAR, nacional e internacionalmente, que está em curso no Brasil um golpe de estado, revelado pela utilização abusiva do Decreto nº 06 de 2020, cujo artigo 1º reconhece que as medidas de exceção estão sendo adotadas “exclusivamente para os fins do art. 65 da Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000”, ou seja, para dispensar o governo de dar conta de seus gastos e de suas escolhas políticas, em um momento de crise sanitária, enquanto se pretende utilizá-lo para além disso. E mesmo que tal decreto não autorize a extensão da exceção por meio de Medida Provisória, no último dia 22 de março de 2020 o governo publicou a MP 927, que revela clara tentativa de estender a calamidade pública que já se instaura em razão da COVID-19 às pessoas que vivem do trabalho, retirando-lhes a possibilidade de sobrevivência física.

Enquanto outros países buscam garantir manutenção do emprego e a OIT manifesta-se salientando a importância da proteção social durante a pandemia, o governo brasileiro aproveita-se da crise sanitária para deflagrar mais um ataque aos direitos sociais trabalhistas. O texto da MP 927, com suas ilegalidades, torna a relação de trabalho uma benesse do empregador, chegando mesmo a desnaturar o contrato de trabalho, subtraindo uma de suas principais características, a onerosidade, além de disciplinar a conversão da quarentena em férias ou “feriado antecipado”, autorizar prorrogação de jornada para quem já está exposto na área da saúde ou a prática de afastamento sem remuneração, como se fosse possível sobreviver sem salário. Suspende exigências em saúde e segurança do trabalho, quando o que mais precisamos é exatamente redobrar esses cuidados. A MP convalida o ilícito: o uso de trabalho em situação análoga a de escravo, ou seja, de trabalho não remunerado.

A previsão de que a situação de precariedade se mantenha por até 270 dias, mesmo que a crise sanitária esteja sendo prevista para um período de, em média, 150 dias, revela seu verdadeiro intento. Não há preocupação com a saúde do povo, mas sim o uso perverso da pandemia, para retirar ainda mais direitos.

Por isso mesmo, não se vislumbra outro objetivo nessa medida, do que a criação de caos social e de esgarçamento das relações que permitem a sobrevivência digna, apostando num verdadeiro genocídio, a ponto de criar o caldo necessário à instauração de um governo autoritário e sem qualquer compromisso com os parâmetros democráticos.

Por tais razões, denunciamos publicamente o governo e exortamos as instituições democráticas a adotarem providências necessárias para inviabilizar a aplicação da MP 927 e afastar imediatamente o governo eleito, em razão da reiterada prática de atos de absoluta irresponsabilidade diante da gravidade do momento que enfrentamos.

AJD Associação Juízes para a Democracia

AAJ Associação Americana de Jurista

ALJT – Associação Latino-americana de Juízes do Trabalho

ABRASTT – Associação Brasileira de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora

ABRAT Associação Brasileira de Advogados Trabalhistas

JUTRA – Associação Luso-brasileira de Juristas do Trabalho

Frente ampla em Defesa da Saúde dos Trabalhadores

MATI – Movimento da Advocacia Trabalhista Independente

Instituto Trabalho Digno

IPEATRA Instituto de Pesquisas e Estudos Avançados da Magistratura e do Ministério Público do Trabalho

AGETRA Associação Gaúcha dos Advogados Trabalhistas

DIESAT – Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho

ABRASCO Associação Brasileira de Saúde Coletiva

FEJUNN-RJ Frente Estadual de Juristas Negras e Negros do RJ

IBDU – Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico

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Este material foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

A pandemia do Coronavírus coloca o Bolsonarismo nas cordas

bolso corda

A forma singular de fazer política do presidente Jair Bolsonaro, aquela que alguns chamam de “Bolsonarismo”, já foi adjetivada de diversas formas, a maioria pouco lisonjeira.  Entretanto, cavalgando na onda de descontentamento de parcelas significativas da população brasileira com a forma de gerenciar o Estado por parte principalmente dos governos do Partido dos Trabalhistas (PT), o “Bolsonarismo” vinha surfando de forma fácil os mares revoltos criados por uma economia que não sai da profunda recessão em que se encontra desde o início do segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff.

Mas no que consiste exatamente o “Bolsonarismo”?  Eu diria que os ingredientes principais juntam uma clara rejeição ao conhecimento científico, o apelo aos valores religiosos e uma aposta quase ilimitada da suposta capacidade do individualismo como mecanismo de melhoria econômica, além dos elementos que apontam para uma forma peculiar de nacionalismo subordinado (no caso aos EUA).

Pois bem, todas as características que formam o núcleo central do “Bolsonarismo” estão agora em xeque pelo coronavírus. Para começo de conversa, a necessidade de uma resposta científica rápida joga por terras formulações que menosprezam o conhecimento científico e os cientistas que o produzem.  Está claro para a maioria das pessoas que será necessária a intervenção da ciência rápida e eficaz da comunidade científica para que uma vacina seja desenvolvida. 

Outro fundamento do “Bolsonarismo” que é reduzida a pó é a de que individualmente poderemos chegar a uma espécie de autosalvação econômica. As cenas de entregadores de comida e motoristas de aplicativos que agora não conseguem dinheiro sequer para comprar gêneros básicos já estão correndo o mundo e corroendo rapidamente a fábula de que pela precarização das relações de trabalho é possível se chegar a ganhos econômicos que dispensem a ação dos sindicatos. 

A última peça a cair está sendo o desmoronamento do governo de Donald Trump em face da rápida expansão da pandemia do coronavírus nos EUA. Como o “Bolsonarismo” é uma espécie de sub-Trumpismo, a eventual remoção de Donald Trump do poder nas próximas eleições presidenciais que deverá ocorrer nos EUA logo após o achatamento da curva da pandemia deixará o “Bolsonarismo” sem qualquer tipo de âncora ideológica e, pior, econômica.

Há quem tema que colocado na extrema defensiva, o presidente Jair Bolsonaro irá tentar recorrer a uma solução de força para preservar sua forma peculiar de ver o mundo. Ainda que isso não seja inteiramente descartável, eu diria que a maioria preocupação de Jair Bolsonaro deveria ser a de manter o cargo pelo qual tanto lutou.  É que até agora sua posição diante da pandemia do coronavírus tem sido pífia, o que poderá transformar o Brasil em uma espécie de área global de quarentena por tempo indefinido. 

O que mais poderia se esperar de um governo composto por negacionistas, senão negação?

jair bolsonaro ministério

Vejo em muitas pessoas a completa surpresa pela postura negacionista do presidente Jair Bolsonaro em relação aos riscos colossais que estão sendo impostos sobre a população brasileira, especialmente sobre suas porções mais pobres, por causa da pandemia do coronavírus. 

Pessoalmente eu fico surpreso com esse elemento de surpresa, visto que o governo Bolsonaro é composto por negacionistas de várias estirpes em algumas áreas estratégicas. O ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo é um negacionista das mudanças climática, negação essa que é compartilhada de forma velada pelo ministro do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles. 

Já a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, não apenas nega o perigo imposto pelo uso extensivo e intensivo de agrotóxicos altamente perigosos e banidos em outras partes do mundo.  Tereza Cristina transformou a negação sobre os ricos riscos  trazidos por agrotóxicos para a saúde humana e o meio ambiente em um verdadeiro tsunami de aprovações de agrotóxicos altamente tóxicos que até os países produtores, incluindo a China, querem distância, apesar de vendê-los de forma frugal no Brasil. 

Por outro lado, o dublê de banqueiro e ministro da Fazenda Paulo Guedes, o Posto Ipiringa de Jair Bolsonaro, nega o óbvio naufrágio de suas políticas ultraneoliberais e ainda tenta surfar na crise do coronavírus para empurrar mais privatização e mais perda da soberania nacional como a única solução para que o Brasil saia da recessão prolongada em que se encontra.

Também temos a ministra Damares Alves que nega até a necessidade de termos políticos que protegem a saúde e a integridade das mulheres brasileiras, apesar de seu ministério ser, em tese, voltado justamente para garantir a proteção delas.

No timão dessa nau de negacionistas, temos Jair Bolsonaro que antes de negar a gravidade da pandemia do coronavírus já havia negado tantas outras coisas, incluindo a existência de um regime militar entre 1964 e 1985, sendo ele próprio um defensor dos instrumentos de coerção que marcaram os 21 anos de duração do regime de exceção.

Então por que poderia se esperar qualquer ação racional e lógica, a começar pela imediata retomada dos investimentos em ciência que pudesse dotar os cientistas brasileiros dos recursos de que necessitam para desenvolver uma vacina para o coronavírus? A resposta é simples: não há como esperar qualquer coisa que beire o reconhecimento de que vivemos um momento singular na história do Brasil, momento este que requer uma participação ativa da comunidade científica, dos serviços público de saúde e da ação solidária da nossa população para que possamos atravessar a pandemia como  um mínimo de perdas de vidas humanas.

Felizmente para todos nós, a conta do custo de tantos negacionismos acumulados desde janeiro de 2019 está chegando para Jair Bolsonaro. E eu me arrisco a dizer que as próximas semanas poderão ser palco de uma mudança drástica na forma com que a maioria dos brasileiros se relaciona com a postura negacionista de Jair Bolsonaro e seus ministros negacionistas em questões chaves nacionais.