Dossiê mostra ataques de Bolsonaro contra transparência pública e acesso a dados ambientais

Quinto relatório da série Dossiê Bolsonaro revela uma política deliberada do governo para ocultar dados socioambientais e fundiários em prol de interesses privados; casos relatados incluem negativas de acesso à informação, uso da Lei Geral de Proteção de Dados para esconder nomes de latifundiários e perseguição a servidores

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Por Mariana Franco Ramos e Bruno Stankevicius Bassi

Confira o novo relatório da série Dossiê Bolsonaro.

O caráter antidemocrático do governo de Jair Bolsonaro (PL) não se expressa apenas nas violências sistemáticas cometidas contra os profissionais da comunicação. A sonegação de informações e o esfacelamento dos mecanismos de transparência representam uma outra faceta da empreitada bolsonarista contra o interesse público.

Entre a imposição de sigilo de 100 anos a dados solicitados via Lei de Acesso à Informação (LAI) – 65 casos, segundo levantamento do Estadão – e a perseguição empreendida contra servidores públicos e jornalistas, De Olho nos Ruralistas mapeou os principais episódios de censura ocorridos no país durante os últimos quatro anos.

Os dados são apresentados ao público no relatório Um país sob censura, o quinto da série Dossiê Bolsonaro, que narra o histórico de violações do governo, relativas à pauta socioambiental e à captura do poder público pelos interesses corporativos. Confira os quatro primeiros dossiês aqui.

Com capa ilustrada pelo cartunista Renato Aroeira, o dossiê expõe o uso, cada vez mais frequente, da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) para negar acesso a dados de relevante interesse público, como a lista de nomes dos indivíduos e empresas autuados por crimes ambientais ou por trabalho análogo à escravidão. O próprio observatório recebeu essa justificativa em duas ocasiões, ao solicitar dados via LAI: primeiro em um pedido, feito no dia 25 de julho, da lista de fazendeiros multados na operação Abafa, conduzida pelo Corpo de Bombeiro Militar (CBM) em 2022; e depois, na tentativa de acessar a base de dados mais atualizada do Sistema de Gestão Fundiária (Sigef) do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que retirou o nome dos proprietários de terra dos arquivos.

O silenciamento de servidores e de profissionais de imprensa, aliado à ocultação de dados sobre os últimos quatro anos de governo, faz parte de uma estratégia mais ampla de Bolsonaro – e dos aliados no setor privado – para esconder seus crimes e privar as futuras gerações de parte importante de nossa história recente.

Você pode acessar o dossiê completo [Aqui!].

Sob o comando de Salles, Ibama e Icmbio restringiram dados

Uma análise da plataforma Fiquem Sabendo nos microdados de pedidos de informação divulgados pela CGU mostrou que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) recusou mais informações e dificultou o acesso a processos em 2019, 2020 e 2021.

O principal motivo citado foi justamente o de que a informação solicitada estaria classificada como sigilosa nos termos da LAI (32% das negativas), seguido por “pedido exige tratamento adicional de dados” (15%), que é quando o órgão alega não ter capacidade de processar toda a informação pedida. Conforme o levantamento, a proporção de pedidos negados mais do que duplicou desde o início da vigência da lei.

Ricardo Salles deu início à “lei da mordaça” nos órgãos ambientais. (Foto: Reprodução)

Entre as perguntas não respondidas, há solicitações que pedem acesso a dados sobre operações contra o desmatamento na Amazônia Legal, número de ações de fiscalização realizadas pelo órgão, gastos do Grupo Especializado de Fiscalização do Ibama e o relatório da Petrobras sobre as manchas de petróleo no litoral nordestino.

Sob o mesmo argumento, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) negou acesso até mesmo aos dados básicos das pessoas físicas e jurídicas autuadas em Unidades de Conservação. “Eles mandaram uma lista, mas tirando os nomes das empresas, com o argumento de que a LGPD protegia”, relatou Luiz Fernando Toledo, diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e cofundador da Fiquem Sabendo. “É um problema de administração pública somado à burocracia comandada pelo governo atual, que não incentiva a transparência”, complementa.

Essa diretriz de impossibilitar o acesso a dados relevantes sobre temas ambientais foi, em grande parte, traçada pelo ex-ministro Ricardo Salles, hoje candidato a deputado federal em São Paulo, pelo PL. “Quando o presidente Bolsonaro entrou, o Salles começou a fazer ataques violentos e, ainda em janeiro de 2019, ele deu uma entrevista para a Folha dizendo que os dados não eram suficientemente precisos”, conta Ricardo Galvão, ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Essa visão é corroborada por uma servidora do ICMBio que, temendo represálias, pediu para não ser identificada: “É uma tentativa de censura muito desmedida, que vem desde 2019”.

Galvão foi demitido do órgão em agosto de 2022, após a divulgação de dados de desmatamento na Amazônia que desabonavam o discurso que Bolsonaro e Salles tentavam emplacar internacionalmente. Hoje candidato à Câmara pelo PV-SP, o ex-diretor do Inpe deseja criar uma “bancada da ciência”, conforme noticiado pelo observatório: Candidatos defendem ambiente e alertam para as mudanças climáticas“.

Incra removeu dados de sua base fundiária

No Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a situação não é diferente do que ocorre no Ibama e no ICMBio. Em agosto deste ano, o órgão retirou o nome dos proprietários de terra de sua base de dados mais atualizada, o Sistema de Gestão Fundiária (Sigef).

Incra impossibilitou acesso aos nomes de proprietários de terras no Sigef. (Foto: Reprodução)

Informações que eram públicas até então, como código do imóvel, número do processo, data e área, não estão mais disponíveis no site Acervo Fundiário, frequentemente acessado por pesquisadores e jornalistas. Um servidor da autarquia, que pediu para não ser identificado, apontou também a falta de divulgação interna dos atos normativos e a ausência de comunicação direta com a imprensa por parte das assessorias das superintendências regionais como problemas.

“A gente descobriu que em agosto de 2021 o órgão revogou diversas normas sem divulgação interna”, destacou. “No máximo acontece a publicação no Diário Oficial da União (DOU), ou seja, se você não abrir todos os dias, não vai ficar sabendo”. De acordo com ele, em outros momentos a publicação era bastante divulgada por e-mail e na rede eletrônica interna. “Há um avanço no fato de os processos serem eletrônicos, mas há um cerceamento da informação”.

Ainda segundo o funcionário, antigamente as superintendências produziam informações para os repórteres de forma direta. No atual governo, entretanto, os jornalistas que estão nas regionais espalhadas pelo Brasil não podem se comunicar com os veículos de imprensa. “Tudo o que forem falar, sobre qualquer pauta, tem de passar pela direção do Incra”.

“Você tem uma coisa desproporcional da interpretação da lei, de tirar informações massivas de interesse público que não têm relação com propaganda política, sobre a atuação do Estado, por conta de uma possibilidade daquilo ser mal interpretado”, comenta Danielle Belo, da plataforma Open Knowledge. “Você não pode negar o acesso a um processo administrativo inteiro por conta de um dado pessoal”.

Governo promove perseguição de jornalistas

Em junho de 2022, numa audiência pública no Senado, profissionais da comunicação denunciaram o crescimento dos ataques durante o governo Bolsonaro. De acordo com a ONG Repórteres sem Fronteiras (RSF), entre 2018 e 2021, o Brasil caiu oito posições no ranking mundial de liberdade de imprensa, ocupando a 110ª posição entre 181 países analisados. Além disso, o país se tornou o 2º local mais letal para jornalistas no continente, atrás apenas do México.

Foram ao menos trinta assassinatos de profissionais na última década. Apenas no primeiro semestre de 2021, a RSF registrou 330 ataques, um aumento de 74% em relação ao ano anterior. Na avaliação de Bia Barbosa, coordenadora do Intervozes, os posicionamentos de Bolsonaro, de seus filhos e de autoridades próximas corroboram com os dados. “Nós monitoramos hashtags de hostilidade de ataques a jornalistas e comunicadores numa rede social e, em três meses, coletamos mais de meio milhão de postagens”.

Conforme a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Bolsonaro foi responsável pela maior parte das agressões a profissionais da imprensa em 2021, com 147 das 430 ofensivas denunciadas no período, que incluíram episódios de censura (140 casos) e de tentativas de desqualificar a informação (131 casos). Em relação a 2018, quando foram registrados 135 casos, o aumento foi de 218%.28

Mariana Franco Ramos é jornalista. |

|| Bruno Stankevicius Bassi é coordenador de projetos do observatório. ||

Imagem principal (De Olho nos Ruralistas): Tereza Cristina, Aline Sleutjes, Jerônimo Goergen, Bia Kicis, Kim Kataguiri e Coronel Tadeu tomam frente da censura ao material didático


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Este texto foi originalmente publicado pelo “De olho nos ruralistas” [Aqui!].

Impressões sobre a votação de hoje a partir do meu ângulo de observação

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Cumpri a minha obrigação de votar em uma urna localizada no campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) em um corredor relativamente cheio, o que é normal em eleições que vão desde presidente a deputado estadual.  Apesar da lotação, gastei pouco mais de 10 minutos na fila e votei relativamente rápido e com registro digital, já que minhas impressões digitais foram retransmitidas ao TSE pelo DETRAN/RJ, algo que eu não saibia que estava sendo feito. Graças a isso, todo o ritual foi extremamente rápido, e sai de lá com o meu recibo de votação como nos anos anteriores (ver imagem abaixo).

recibo 2022

Em que pese os temores de violência e conflitos nos locais de votação, a situação na Uenf estava extremamente calma, apesar da presença ostensiva de eleitores do presidente Jair Bolsonaro que eram identificáveis por estarem usando camisetas da CBF e até bandeiras do Brasil sobre os ombros.

Aqui uma impressão que tirei desses eleitores identificados de Jair Bolsonaro: a expressão corporal estava tensa e todos estavam muito calados. Mas esses eleitores, além de serem em uma proporção muito pequena, não recebiam nenhum tipo de cumprimento ou aceno por parte dos que não estavam paramentados para mostrar apoio explícito a Jair Bolsonaro.

O que isso significa exatamente não tenho como dizer, mas me pareceu que essa desconexão entre eleitores bolsonaristas identificados e os demais presentes nas filas pode indicar que o final do dia não será de festa entre os apoiadores de Jair Bolsonaro. Mas essa é só uma observação pessoal, e agora nos resta esperar para ver os resultados que sairão das urnas.

Entretanto, uma coisa é certa: independente do resultado que sair, a tarefa de quem deseja uma mudança radical na situação existente no Brasil vai ter que arregaçar as mangas de forma decisiva, pois o legado de Jair Bolsonaro será um fardo pesado para quem o substituir. Se ele for reeleito, então o trabalho será tão ou mais desafiador do que foi ao longo dos quatro anos de seu fatídico mandato.

Presidente do PL de Bolsonaro é sócio de coordenador do Movimento Garimpo é Legal

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Valdemar Costa Neto, na foto com Jair Bolsonaro, vendeu parte de sua agropecuária para Francisco Joinivaldo Mota Campos, que representa empresa holandesa, cujos sócios foram condenados por pirâmide financeira e tráfico internacional de drogas

Por Tonsk Fialho Alceu Luís Castilho para o “De olho nos ruralistas”

Presidente do atual partido de Jair Bolsonaro (PL), Valdemar Costa Neto é sócio da Agropecuária Patauá, empresa de comercialização de madeira e de atividade agropastoril. Durante seu terceiro mandato como deputado federal, em 2000, Valdemar vendeu 75% da Patauá para um grupo de investidores holandeses, o Eco Brasil B.V., representados pelo brasileiro Francisco Jonivaldo Mota Campos,. Hoje, “Joni”, como é conhecido, atua como coordenador do “Movimento Garimpo É Legal” no estado do Amazonas, além de ser filiado ao Partido Liberal desde 2007.

Joni, do Movimento Garimpo é Legal, com seus sócios holandeses. (Foto: Facebook)

Na Europa, a Eco Brasil B.V. adquiriu a participação na empresa de Valdemar por meio da subsidiária Reflorestadora Holanda, que integrou um esquema de pirâmide financeira que lesou centenas de famílias e levou alguns dos envolvidos para a cadeia, condenados por vender falsos planos de investimento baseados em reflorestamento de áreas degradadas. No Brasil, alguns dos administradores holandeses da empresa foram acusados de grilagem e de envolvimento com o narcotráfico.

A história da família de Valdemar com o município de Itacoatiara (AM) se inicia ainda nos 70, quando Waldemar Costa Filho, o pai de Valdemar Costa Neto, se aventurou no ramo de mineração de caulim na floresta amazônica, em parceria como o empresário Fumio Horii, conterrâneo e amigo próximo da família de Mogi das Cruzes (SP). Na cidade, o atual presidente do partido de Bolsonaro é conhecido pelo sugestivo apelido de “Boy” — seu pai foi prefeito de Mogi por quatro ocasiões, além de grande empresário do ramo de transportes e da mineração.

EMPRESA DE MINERAÇÃO LEVOU AS INICIAIS DE VALDEMAR, O ‘BOY’

No setor, Valdemar seguiu os passos de seu pai fundando a VCN Mineração em 1996, batizada com as iniciais do então deputado. Atualmente, o presidente do partido de Bolsonaro não faz parte do quadro societário da VCN, mas Valdemar Costa Neto foi condenado em segunda instância no ano passado pela degradação de área equivalente a 28 campos de futebol por parte da empresa, às margens do Rio Tietê, em Biritiba-Mirim, interior de São Paulo.

Um ano antes da morte do pai de Valdemar, no dia 7 de fevereiro de 2000, a propriedade de 49 hectares em Itacoatiara (AM) foi transferida para a VCN Mineração. Pouco mais de duas semanas depois, em 25 de fevereiro de 2000, o deputado vendeu 75% da Agropecuária Patauá, para a Reflorestadora Holanda, que atuava na região amazônica pelo menos desde 1998. 

O sócio de Valdemar da Costa Neto em ato bolsonarista. (Foto: Facebook)

À época, a Eco Brasil já vinha construindo uma má reputação para si, principalmente pela participação no empreendimento de extração ilegal de madeira Eco-Brasil-Holanda-Andirá, conduzido pelo antigo cônsul-honorário dos Países Baixos no Pará, Gerardus Bartels. Em 1999, o cônsul holandês foi alvo de uma CPI na Assembleia Legislativa do Amazonas, sob a acusação de burlar a Constituição brasileira para adquirir ilegalmente mais de 70 mil hectares de floresta, coagindo cerca de 300 famílias ribeirinhas que viviam na região, com o objetivo de lotear toda a área para exploração de madeira.

Ao negar as acusações, o cônsul afirmou ter sido vítima de um golpe por parte da Eco Brasil B.V. Convencido a vender 90% da madeireira para o grupo holandês, o cônsul teria descoberto que a Eco Brasil B.V. estaria repassando porções da floresta para terceiros. Pelo valor de 3 mil dólares por hectare, os interessados poderiam adquirir uma área onde a Eco Brasil prometia plantar teca, espécie asiática largamente utilizada para reflorestamento, dividindo os lucros da atividade de manejo com os investidores.

Bartels acabou foragido e a Eco Brasil B.V. passou a reivindicar boa parte dos hectares invadidos pelo ex-cônsul honorário. Nos anos que seguiram, a proposta sofisticada de investimento da Eco Brasil se revelou um esquema de pirâmide financeira; a pesquisa pelo histórico da empresa na Holanda revela fóruns on-line onde algumas das famílias lesadas buscam ressarcimento e punição para os envolvidos. 

JORNALISTA HOLANDÊS INVESTIGA TEIAS DA GRILAGEM NO AMAZONAS

Cerca de 40 milhões de euros foram desviados para outras empresas, além de gastos com imóveis, cassinos, carros, viagens, e por aí vai. Era o roto falando do esfarrapado, mas a especulação em cima das terras griladas pelo cônsul Gerardus Bartels era real. A Eco Brasil estava mesmo criando um esquema de capitalização da floresta, voltado para o enriquecimento rápido e fraudulento de seus diretores.

Detalhes dessa história foram contadas na pré-publicação do livro “A Floresta do Amazonas”, de Gio Ferrarius, jornalista holandês. Alguns dos envolvidos, sem sucesso, pleitearam procedimentos sumários na justiça holandesa buscando censurar a divulgação da obra. O autor trabalhou em parceria com o De Olho nos Ruralistas na apuração do envolvimento de Valdemar com o caso Eco Brasil B.V.

Valdemar Costa Neto, o Boy, é fiador político da campanha de Bolsonaro. (Foto: Alan Rios/Reprodução)

No esquema, a propriedade de Valdemar Costa Neto em Itacoatiara (AM) integrava o portfólio da empresa holandesa, que se utilizava de laranjas brasileiros para operar no país. Na verdade, a Eco Brasil não possuía licenciamento para ir adiante com o projeto, tampouco era dona da maior parte das propriedades que afirmava possuir. Segundo a justiça holandesa, os ilícitos praticados pelo grupo se deram entre 1999 e 2004, mas a transferência do imóvel da  VCN Mineração para a Reflorestadora Holanda se deu somente em 2005, ano da CPI do Mensalão, que culminou na prisão de Costa Neto, atual presidente do partido de Bolsonaro.

Em 2006, na Holanda, P. J. Quak, um dos líderes da organização, foi condenado a seis anos de prisão. Pelas turbulências judiciais enfrentadas pelos seus sócios, lá e cá, eventualmente, Reflorestadora Holanda e Agropecuária Patauá tornaram-se empresas inoperantes, acumulando ações trabalhistas e encargos tributários. Em 2017, a área de 49 hectares ligada a Valdemar foi penhorada por dívidas da Reflorestadora Holanda junto à União. 

SÓCIO DE BOY REPRESENTA HOLANDESES CONDENADOS POR TRÁFICO INTERNACIONAL

Proprietário da Reflorestadora Holanda e representante brasileiro da Eco Brasil B.V. Francisco Jonivaldo Mota Campos, sócio de Valdemar Costa Neto, ainda é bastante ativo nas redes sociais, onde publica diariamente mensagens de apoio a Jair Bolsonaro, mantendo contato frequente com seus amigos dos Países Baixos. No contrato social da Reflorestadora Holanda, lê-se o nome de R. G. van den Heuvel e T. Hoegee entre os sócios da empresa.

Ambos foram investigados por tráfico internacional de drogas na Operação Niva da Polícia Federal, em 2011, quando foram presos membros do crime organizado da região dos Bálcãs, que atuavam no Brasil em parceria com o PCC. Segundo a PF, os envolvidos integravam “associação criminosa para a prática do narcotráfico a partir do Brasil para a Europa, incluindo a utilização da Região Amazônica como rota de saída da cocaína”. Nenhum dos holandeses investigados foram condenados no Brasil.

Produção de uma das empresas de Joni Matos Campos. (Foto: Instagram)

Procurado pela Folha por sua sociedade com Valdemar na Agropecuária Patauá, Joni Mota Campos se limitou a dizer que nunca conheceu o presidente do Partido Liberal. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), porém, mostram quem Joni é filiado ao PL desde outubro de 2007, ano em que Valdemar se elegeu para o seu quinto mandato como deputado federal, após renunciar em 2005 em meio à repercussão do mensalão. Para a reportagem da Folha, Joni afirmou que as duas empresas, Patauá e Reflorestadora Holanda, “existem apenas ‘no sistema’ e que não funcionariam, pelos seus cálculos, desde 2004.”

O jornal ainda lembrou que Francisco Jonivaldo Mota Campos “responde a uma ação civil pública do Ministério Público Federal pelo desmatamento de 23,6 hectares de floresta amazônica sem autorização”, o que o sócio dos holandeses da Eco Brasil B.V. afirmou se tratar de um engano, “já que nunca foi dono dessas terras”.

Joni também se apresenta como figura influente no garimpo amazonense, sendo coordenador do “Movimento Garimpo é Legal” no estado do Amazonas, fundado pelo garimpeiro roraimense Rodrigo Cataratas, candidato a deputado federal justamente pelo PL. No sudeste do Amazonas, em Apuí, próximo da divisa com o Mato Grosso, Joni é sócio da Aliança Mineração, em sociedade com Agostinho Borges da Silva.

Na Agência Nacional de Mineração (ANM), o sócio de Francisco Jonivaldo Mota Campos possui ativo um requerimento de pesquisa de minério de ouro, cobre e manganês, em um área de mais de 9 mil hectares em Nova Aripuanã, município vizinho de Apuí, sede da Aliança Mineração. Agostinho Borges pode ser visto na internet operando empresas de mineração em Roraima e nas margens do Rio Juma, na região de Apuí (AM) e Novo Aripuanã (AM).

Mapa de Conflitos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra como a região é marcada por um forte fluxo de garimpeiros em busca principalmente das jazidas de ouro de aluvião descobertas na localidade em 2006. Apuí é uma das portas de entrada do garimpo e da madeira ilegais na Amazônia e — como observou este observatório em visita à região, este mês — é um dos municípios que concentram focos de incêndio no Amazonas.

Tonsk Fialho é estudante de Direito na UFRJ e pesquisador, com foco em sindicatos e movimentos sociais. |

|| Alceu Luís Castilho é diretor de redação do De Olho nos Ruralistas ||

Imagem principal (Reprodução/YouTube): presidente do PL, Valdemar Costa Neto tem interesses particulares em legalizar o garimpo


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Este texto foi originalmente publicado pelo “De olho nos ruralistas” [Aqui!].

Moro e Bolsonaro: criador e criatura lutam por sobrevivência em cenário incerto

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Estamos agora a pouco mais de 24 horas do início das eleições gerais no Brasil no que poderá representar um forte reajuste tanto no legislativo como no executivo. Nesse momento, não deixa de ser curioso notar que dois personagens centrais das eleições de quatro anos atrás estão  em um modus operandi de lutar por sua sobrevivência politica. Curiosamente, após alguns entreveros está havendo uma aproximação entre os dois, com o criador tentando se aproxima da criatura de quem havia se separado por motivos meramente ocasionais.

Falo aqui de Sérgio Moro e Jair Bolsonaro. Enquanto o candidato à reeleição enfrenta um cenário incerto nas pesquisas, o seu ex-ministro da Justiça tampouco vida fácil, podendo não se eleger em seu estado natal, muito em função de um embate com um político experiente, no caso o senador Álvaro Dias.

Mas voltando a 2018, é provável que não se fosse pela prisão do ex-presidente Lula e das constantes operações policiais contra dirigentes do PT, não teria havido o “presidente Jair Bolsonaro”. Tanto isto é verdade que Sérgio Moro jogou fora um emprego estável que garantiria uma aposentadoria confortável para enveredar pelo mundo da política, apenas para se ver descartado pela criatura que colocou no assento de presidente da república.

A fábula de Moro e Bolsonaro é uma expressão clara de como as coisas são levadas pelas elites brasileiras, pois em qualquer país do mundo, Moro não teria sido sequer convidado para ser ministro da justiça após ter cumprido o papel que cumpriu na prisão de Lula e na inviabilização de sua candidatura em 2018.

Em algum momento da noite de amanhã saberemos qual o destino reservado pelos eleitores ao criador e à criatura. Por mim, os dois podem afundar juntos no pântano político em que enfiaram o Brasil.  É que olhando de perto, Moro e Bolsonaro são literalmente feitos do mesmo material, demonstrando não apenas um desprezo igual pela maioria pobre dos brasileiros, mas também uma inaptidão intelectual que os torna símbolos explícitos da decadência política em que nos encontramos em uma conjuntura histórica tão complexa.

Destino da Amazônia depende do resultado das eleições brasileiras, dizem especialistas

Mais destruição sob Bolsonaro pode levar a floresta da Amazônia além de um ponto de inflexão irreversível

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Um bombeiro combate um incêndio na floresta amazônica em Apuí, Brasil. Fotografia: Michael Dantas/AFP/Getty Images

Por Damian Carrigton, editor de Meio Ambiente, para o “The Guardian”

O destino da Amazônia depende da eleição nacional do Brasil no domingo, segundo especialistas, que dizem que a continuação da destruição desenfreada sob o presidente Jair Bolsonaro pode levar a maior floresta tropical do mundo a um ponto de inflexão irreversível.

Por outro lado, uma vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que presenciou um declínio acentuado do desmatamento no poder, pode levar a uma queda de 90% no desmatamento, estimam os cientistas.

A floresta amazônica desempenha um papel vital no clima global como uma vasta reserva de dióxido de carbono, mas pesquisas recentes mostraram que os incêndios e a derrubada de árvores deixaram a região emitindo mais CO 2 do que absorve . Pesquisadores mostraram em março que a Amazônia estava se aproximando de um ponto de inflexão , após o qual a floresta seria perdida, com profundas implicações para o clima global e a biodiversidade.

Bolsonaro tornou-se presidente no início de 2019 e reduziu as proteções ambientais e promoveu a colonização dafloresta. a pesquisa mostra que as emissões de CO 2 dobraram em 2019 e 2020 em comparação com a média da década anterior, impulsionadas pelo aumento do desmatamento e dos incêndios à medida que a aplicação da lei entrou em colapso.

Os dados mais recentes mostram que quase um milhão de hectares de floresta tropical foram queimados no ano passado. No mês até 26 de setembro, os incêndios atingiram seus níveis mais altos em uma década. A agência nacional de pesquisa espacial do Brasil, INPE, registrou 36.850 alertas de incêndio na região, mais que o dobro do mês inteiro de 2021.

O aumento pode ser porque aqueles que destroem a floresta ilegalmente aproveitam uma última oportunidade para apropriar-se de terras antes da eleição, de acordo com pesquisadores da Amazônia.

“Bolsonaro arrastou o Brasil de volta aos dias de oeste selvagem que pensávamos ter deixado para trás”, disse Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental do Brasil , que trabalha para proteger os povos indígenas e suas casas na floresta. “Não é exagero, então, dizer que o destino da Amazônia depende do resultado de nossa eleição em 2 de outubro. Se Bolsonaro ganhar mais um mandato, a maior floresta tropical do mundo pode passar de seu ponto de inflexão. Se ele perder, temos a chance de trazê-lo – e o Brasil – de volta do precipício.”

Indígenas brasileiros protestam pela demarcação de terras indígenas e pelo assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips, em São Paulo, Brasil.

Indígenas brasileiros protestam pela demarcação de terras indígenas e pelo assassinato de Bruno Pereira e Dom Phillips, em São Paulo, Brasil. Fotografia: Nelson Almeida/AFP/Getty Images

Ramos disse que conflitos violentos e assassinatos de indígenas e protetores de florestas por grileiros aumentaram acentuadamente desde que Bolsonaro se tornou presidente. Ela disse: “Aqueles percebidos como obstáculos às suas atividades – incluindo [ativista e jornalista assassinado] Bruno Pereira e Dom Phillips , e vários povos indígenas, como o protetor da floresta Paulo Paulino Guajajara – pagaram o preço final”.

Erika Berenguer, especialista em desmatamento da Amazônia da Universidade de Oxford, Reino Unido, disse à New Scientist : “Não digo isso levianamente como cientista, mas esta é a eleição mais importante já realizada no Brasil para a Amazônia e sua sobrevivência”.

Luciana Gatti, do INPE, cuja pesquisa mostrou a duplicação das emissões de CO 2 da Amazônia sob Bolsonaro, disse que a floresta tropical estava mudando drasticamente por causa do colapso da aplicação da lei e do desmatamento agressivo durante o mandato do presidente. “Este é um grande risco não só para o Brasil , mas para todo o planeta”, disse ela. “A redução da aplicação da lei promove a sensação de impunidade para crimes ambientais.”

A pesquisa da equipe de Gatti, em análise pela revista Nature , é baseada em centenas de amostras de ar coletadas em pequenos aviões sobre a Amazônia na última década e mostrou resultados “alarmantes”. As emissões de CO 2 aumentaram 89% em 2019 e 122% em 2020, em comparação com a média de 2010-18.

Em 2020, o aumento das emissões deveu-se principalmente a um aumento de 74% no desmatamento e um aumento de 42% na área queimada por incêndios. No mesmo ano, o número de multas pagas por crimes ambientais caiu 89% e o número de infrações registradas pelas autoridades caiu 54%, com situação semelhante em 2019.

A equipe de Gatti também produziu a pesquisa anterior mostrando que a floresta amazônica foi transformada de um sumidouro de carbono para uma fonte, o que significa que está acelerando o aquecimento global em vez de desacelerá-lo. A maior parte da destruição da Amazônia é resultado da produção de carne bovina, com o cultivo de soja e a mineração também fatores.

“A Amazônia está chegando perigosamente perto de um ponto crucial, que pode ver grandes áreas se transformarem de uma floresta tropical úmida e resiliente em um estado seco, devastado pelo fogo e irreversivelmente degradado”, disse Mike Barrett , do WWF.

“O que estamos presenciando é o fim da Amazônia”, disse Angela Kuczach, diretora da Rede Pro UC – Rede Nacional de Unidades de Conservação do Brasil. “Aqui mesmo no coração do sul da Amazônia, estamos trocando floresta por deserto e biodiversidade por cinzas. Não podemos mais dizer que vamos perder a Amazônia em 20 ou 30 anos; estamos perdendo isso agora.”

Bolsonaro disse a líderes mundiais na Assembleia Geral da ONU na semana passada que o Brasil era uma “referência para o mundo” para meio ambiente e desenvolvimento sustentável. “Dois terços do território brasileiro permanecem cobertos por vegetação nativa, que se encontra exatamente como quando o Brasil foi descoberto em 1500 [por colonos espanhóis]”, disse. “Na Amazônia brasileira, mais de 80% da floresta permanece intocada, ao contrário do que é noticiado pela grande mídia nacional e internacional.”

O Ministério da Justiça do Brasil afirma estar realizando uma operação policial desde 2021 para combater a destruição ilegal de florestas e proteger áreas indígenas.

A maioria das pesquisas de opinião sugere que Lula está perto de garantir a maioria geral dos votos necessários no primeiro turno de domingo para evitar um segundo turno contra Bolsonaro no final de outubro. Lula disse que vai reverter as mudanças legais de Bolsonaro, reformar agências ambientais e expulsar garimpeiros ilegais de terras indígenas. Sob a presidência de Lula e sua sucessora no Partido dos Trabalhadores, Dilma Rousseff, o desmatamento caiu 72% de 2004 a 2016.

No entanto, reverter o impacto de Bolsonaro será um desafio, de acordo com Izabella Teixeira, conselheira de meio ambiente de Lula e ministra do Meio Ambiente do Brasil de 2010 a 2016.

“Este é um grande desafio e é completamente diferente do que era no passado”, disse ela à New Scientist.

Se Lula ganhar a presidência e recriar a redução bem-sucedida do desmatamento em seu mandato anterior, a destruição da floresta cairia 90% na próxima década, segundo análise publicada pela Carbon Brief. Mais de 75.000 km 2 de floresta amazônica seriam salvos, estimaram os pesquisadores.

Gatti disse que países e consumidores fora do Brasil também podem ajudar . “Precisamos ter um compromisso internacional com os países, para que eles não comprem os produtos que resultam na destruição da natureza”, disse ela.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Último debate presidencial como expressão pura da miséria da política brasileira: padre fake dentro, professora comunista barrada

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Como milhões de brasileiros fizeram, gastei parte da minha noite assistindo ao lamentável programa televisivo denominado “debate presidencial” e que foi levado ao ar pelas Organizações Globo.  Confesso que não consegui assistir por muito tempo aos embates, muito deles grotescos, dos “candidatos” por duas razões: como a maioria dos trabalhadores brasileiros eu tinha que acordar cedo; mas também pela absoluta falta de substância nas perguntas e nas respostas.

Também saltou aos olhos a presença do suposto candidato a padre de festa junina, o neoliberal Kelmon Souza cuja presença no debate desafia o bom senso, mas que se explica por um simples motivo que é o de contribuir para o desgaste dos que que praticam política partidária no Brasil.  O problema com Kelmon não é nem o questionamento sobre sua real investidura como padre, mas o fato de que sua presença não possuiu qualquer ancoradouro na quantidade de votos que terá no próximo domingo.

A questão é que a presença de Kelmon cumpre justamente o papel de desgastar a imagem dos políticos, pois ficou evidente que ele não passa, em todos os sentidos, de um mero charlatão que foi aos debates apenas para servir de suporte para um claramente incompetente Jair Bolsonaro que ontem pareceu agonizar ao tropeçar no uso básico da língua portuguesa.

Candidata à presidência, Sofia Manzano (PCB), cumpre agenda em Maringá  nesta sexta

Apesar de preparado para dar contribuições nas discussões, a professora Sofia Manzano foi barrada nos debates presidenciais

Por outro lado se houvesse um mínimo de interesse em um debate minimamente qualificado quem deveria estar no púlpito substituindo a figura grotesca de Kelmon era a professora universitária e candidata a presidente pelo PCB, Sofia Manzano. É quem, com eu, se deu ao trabalho de olhar o CV Lattes de Manzano sabe que o elemento central de suas pesquisas acadêmicas se refere ao processo de desenvolvimento econômico do Brasil. Além disso, nas poucas vezes que algum veículo da mídia corporativa ouviu a candidata do PCB, ela teve coisas substanciais a dizer, ao contrário de Kelmon se concentrou a repetir uma ladainha rançosa contra a esquerda e o Estado, como se fosse primazia dos esquerdistas lançar mão de políticas de fortalecimento da ação estatal como ferramenta de desenvolvimento econômico.  Mas o problema é justamente esse: qual dono de veículo quer dar palco a uma candidata comunista com bom preparo intelectual e coisas significativas para falar sobre a realidade brasileira? Qual nada, a opção é por impedir a presença e dar palco para o padre fake que ridiculariza propositalmente a figura dos políticos.

Aliás, o nível de miséria intelectual demonstrada nesse debate mostra que se dependermos da classe política brasileira para sairmos do atoleiro em que nos encontramos, há que haver uma grande transformação na formação de quadros, inclusive no que se convenciona chamar de esquerda, mas também na direita. A verdade é que se olharmos para um passado não tão distante, ambos os espectros possuíam quadros mais preparados, e os debates podiam não ser muito substanciais mas, tampouco, tinhamos esses espetáculos de horror como o que vivenciamos na noite de ontem.

Clã Bolsonaro e o Bolsa Família: como a família do presidente mudou de discurso em troca de votos

Presidente que determinou aumento no Auxílio Brasil pouco antes das eleições, já defendeu que assistencialismo seria compra de votos

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Por Lucas Maia para a Agência Tatu

O presidente da República Jair Bolsonaro (PL) discursou na cidade de Garanhuns, em Pernambuco, no dia 17 de setembro, para lembrar que o programa Bolsa Família já não existe e defender o Auxílio Brasil, lançado por seu governo durante a pandemia da Covid-19 e que foi ampliado dois meses antes das eleições gerais no Brasil.

No entanto, a relação de Jair Bolsonaro e seus filhos políticos com os programas sociais de transferência de renda nem sempre foi positiva. Os dados, analisados pela Agência Tatu, foram extraídos das redes sociais do Clã Bolsonaro (formado por Jair, Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro) pela plataforma METAMEMO e apontam a mudança nos discursos.

Ataques ao Bolsa Família 

O primeiro dos 216 registros de menção ao programa social identificados pela plataforma  METAMEMO nas redes sociais ocorreu em 2014, quando Jair Bolsonaro utilizou uma reportagem do jornal Estado de S. Paulo para criticar o governo do PT. Na postagem, o então deputado federal vinculava o Bolsa Família a supostos ‘kit gay’ e ‘bolsa crack’.

“Kit-gay, bolsa família, auxílio-reclusão, bolsa crack… o eleitorado do PT cresce e o trabalhador de verdade é taxado e tachado”, publicou Bolsonaro, junto a uma reportagem que falava de um programa paulista para fornecer tratamento a usuários de drogas.

Até 2017, a família presidencial seguiu tecendo críticas ao programa. Em março de 2014, Carlos Bolsonaro, hoje conhecido por ser o estrategista digital da família, dava publicidade a sua atuação como vereador na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. “O único a votar contra a criação do Bolsa Família municipal”, afirmou.

O comentário mais ideológico a respeito do programa apareceu em maio daquele mesmo ano, quando Jair afirmou que um dos principais propósitos seria a compra de votos.

“São inúmeros os absurdos que envolvem esse programa social, a começar por seus principais propósitos: a compra do voto, o controle dos mais fracos e o disfarce do alto índice de desemprego. Uma prova dessa estratégia foi o aumento de 10% no Bolsa Família anunciado recentemente por Dilma Rousseff, tentando claramente reverter sua queda nas principais pesquisas de intenção de voto para presidente”, declarou na época.

Em 2017, o discurso a respeito do Bolsa Família começou a mudar. Mas, antes disso, Bolsonaro e seus filhos políticos ainda fizeram outras declarações negativas a respeito do programa, como quando houve a desfiliação de Jair do Partido Progressista, legenda em que permaneceu 11 anos.

“Durante a convenção nacional do Partido Progressista solicitei minha desfiliação sem perda do mandato. O Brasil é muito mais que “Bolsa Família e Pronatec”, temas preponderantes dos candidatos por ocasião das eleições de 2014. Pretendo estar em um partido onde, de acordo com a vontade de vocês, poderei disputar ou colaborar com propostas que verdadeiramente possam fazer do Brasil um país reconhecido no cenário mundial”, disse.

Modulação do discurso 

A partir de 2017, o discurso do clã Bolsonaro começa pouco a pouco a ser modulado para reduzir os ataques ao programa assistencial. “A crítica não é para o Bolsa Família, a crítica é para as fraudes, pois o programa se tornou eleitoreiro”, diz Eduardo Bolsonaro na primeira postagem da família Bolsonaro naquele ano.

As poucas menções ao programa seguem menos críticas até junho de 2018, quando Eduardo Bolsonaro republica um vídeo do apresentador alagoano Sikêra Jr. “[…]se dá Bolsa Família, que é uma prévia de compra de voto antecipadamente, todo mundo sabe disso. Se você for no Nordeste, ninguém quer emprego, quer Bolsa Família. A compra de votos sempre existiu, mas agora é oficial”, argumenta o apresentador durante entrevista à Jovem Pan.

Os dados da plataforma METAMEMO mostram que entre abril de 2015 e outubro de 2018 todas as menções ao Bolsa Família foram feitas pelos filhos de Jair. O então presidenciável usa as suas redes para voltar a falar do programa apenas em 9 de outubro de 2018, dois dias após o primeiro turno das eleições. “O PT é o partido da demagogia! Manteremos o Bolsa Família e combateremos as fraudes para possibilitar o aumento para quem realmente precisa, como dito várias vezes”, afirmou.

Essa foi a primeira vez que Jair Bolsonaro disse em suas redes sociais que fortaleceria o programa.

De acordo com o cientista político Ranulfo Paranhos, professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), defender a manutenção e até a ampliação do programa foi uma decisão puramente eleitoral.

“Essa mudança no discurso, que se percebe a partir de 2017, com efeitos em 2018 e que se repete agora em 2022, está diretamente relacionada à estratégia de campanha. Não tem como um candidato à vaga de presidente da república sustentar um discurso contrário ao auxílio aos mais necessitados”, explica.

Ainda segundo Paranhos, esta modulação no discurso está diretamente relacionada à intenção de conquistar votos de uma parcela relevante do eleitorado brasileiro.

Assistência social como estratégia eleitoral

Durante a campanha para o segundo turno das eleições de 2018, a família Bolsonaro inicia uma nova promessa: o 13º do Bolsa Família. O argumento mais presente nas postagens é de que existiriam fraudes no programa e o encerramento dessas fraudes permitiria o pagamento de uma parcela extra do benefício. Esse discurso persiste até a aprovação e início dos pagamentos da parcela adicional.

A partir de então, se tornam muito mais frequentes as comparações com os governos petistas e se inicia uma disputa tanto do número de beneficiários, quanto dos valores destinados ao programa em cada governo. Estes comparativos só se tornam mais fortes com a pandemia do coronavírus.

A partir do aumento de gastos com assistência social, a família Bolsonaro começa a propagandear o aumento nos valores e número de beneficiários tanto do Bolsa Família quanto de outros programas sociais, o que se intensifica ainda mais com a criação do Auxílio Brasil. Com isso, em março de 2022, Jair Bolsonaro fez uma publicação em sua conta no Instagram onde defende os programas de assistência social de seu governo.

“Graças ao maior programa assistencial que o mundo já viu, milhões de brasileiros não passaram fome. R$ 355 bilhões pagos diretamente a mais de 68 milhões de pessoas; Se considerarmos que cada pagamento beneficiou ao menos mais uma pessoa, podemos dizer que mais da metade dos brasileiros foram beneficiados pelo auxílio; Em 2020, o valor disponibilizado foi equivalente a 15 anos de bolsa família”, afirma a publicação do presidente, o que gerou, inclusive, diversas manifestações contrárias de seus seguidores na plataforma.

Para o cientista político Ranulfo Paranhos, a modulação do discurso se dá em um contexto onde o presidente da república sabe que a única forma de tentar conquistar votos do estrato social mais pobre da população brasileira é apoiando programas de transferência de renda. “Mesmo modulando o discurso e garantindo que o programa seja mantido e até aumentando o valor, ele não tem conseguido conquistar a parcela do voto desse eleitorado”, pondera.

Ainda de acordo com Ranulfo, estudos estatísticos revelam uma correlação entre votos para governos petistas e regiões com maior número de beneficiários de programas sociais. Pesquisas eleitorais mais recentes revelam, no entanto, que o aumento do Auxílio Brasil por Bolsonaro não se reflete em votos para o candidato a reeleição.

“Na prática, as pessoas reconhecem a política pública e votam naquele que criou a política pública. Nesse caso o PT vai levar a maioria dos votos. E ainda que o presidente chame isso de compra de votos, esse não é o caso”, conclui.

O outro lado

A Secretaria de Comunicação da Presidência da República foi procurada para comentar as postagens, mas até o fechamento desta reportagem não houve qualquer resposta. O espaço segue aberto.


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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Tatu [Aqui!].

Meio ambiente: especialistas analisam programas dos candidatos à Presidência da República

Os pesquisadores Reuber Brandão e Philip Fearnside, da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, avaliam propostas de Lula, Jair Bolsonaro, Ciro Gomes e Simone Tebet

unnamed (3)Reserva Natural Serra do Tombador, em Cavalcante (GO), mantida pela Fundação Grupo Boticário. / Foto André Dib

Os quatro candidatos que aparecem nas primeiras colocações das pesquisas eleitorais sobre a corrida presidencial dedicam espaço considerável para a agenda ambiental em seus planos de governo. Seja por convicção sobre a importância de proteger o patrimônio natural brasileiro, seja por um cálculo eleitoral que percebe a relevância do tema para a geopolítica e o comércio internacional, as propostas trazem inovações, mas também deixam de lado temas importantes, como o fortalecimento das Unidades de Conservação. Pesquisadores da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) avaliaram as principais propostas dos candidatos Jair Bolsonaro (PL), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (PMDB).

“O programa da candidata Simone Tebet parece ter maior planejamento das ações. Prevê, inclusive, a criação de uma secretaria para tratar da questão climática. O programa do candidato Lula também dedica espaço considerável para a questão ambiental, sempre reforçando que irá mudar as políticas do atual governo, em especial o negacionismo científico, climático e reverter o enfraquecimento das instituições de fiscalização e controle”, observa Reuber Brandão, membro da RECN e professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na Universidade de Brasília (UnB).

O professor considera que a questão ambiental também ocupa amplo espaço no plano de governo de Bolsonaro. “No entanto, a despeito das muitas linhas dedicadas ao tema, traz ideias focadas em uma percepção anacrônica da questão ambiental, repetindo que o problema da Amazônia é de soberania. O programa ambiental é repleto de lugares comuns, com diversas platitudes e a recorrente lógica de que a questão ambiental é subalterna da agricultura, sem explorar o papel da ciência no desenvolvimento da conservação, na mitigação dos efeitos das mudanças climáticas e no desenvolvimento conjunto da atividade agrícola”, afirma Brandão.

O programa de Lula traz proposta de ampliar o mercado de trabalho utilizando a recuperação de áreas degradadas, enquanto o programa do atual presidente dedica atenção à justiça ambiental, o que é interessante, na visão de Brandão. “No entanto, nenhum dos programas dos quatro principais candidatos cita a criação de Unidades de Conservação como políticas ambientais importantes, o que é extremamente preocupante. Vale lembrar que a manutenção de áreas naturais é fundamental para a preservação da biodiversidade, além de sua importância para pesquisas científicas, educação ambiental, turismo sustentável, entre outras possibilidades”, reflete Brandão.

Na questão indígena, o pesquisador observa que o plano do candidato Bolsonaro, que busca a reeleição, foca na exploração econômica das terras indígenas, especialmente com turismo e venda de produtos, sem uma clara política de proteção desses grupos, de suas terras e de suas culturas.

Brandão classifica como pobre o programa ambiental do candidato Ciro Gomes. “O documento não tem propostas claras e sequer cita os biomas do Brasil. Sempre se refere à questão ambiental como a proteção florestal, em um país que possui diversos ecossistemas não florestais”, avalia.

O pesquisador avalia como positivas nas propostas de Tebet e Lula a ênfase na ciência como processo essencial à independência econômica, uso da biodiversidade e promoção da conservação. “O plano do Lula ainda ressalta com maior ênfase o papel de grupos minoritários e populações tradicionais no desafio da transição energética, ecológica e produtiva do país, com ampliação de experimentos de agroflorestas”, realça.

Amazônia

Um dos maiores especialistas em mudanças climáticas no mundo, Philip Martin Fearnside, membro da RECN e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), ressalta que os dois candidatos que lideram as pesquisas – Lula e Bolsonaro – têm programas e históricos contrastantes com relação ao meio ambiente na Amazônia. O pesquisador entende que Bolsonaro considera as preocupações ambientais como impedimentos à exploração das riquezas da região amazônica e, por isso, aposta que o atual presidente pretende continuar as suas políticas que enfraqueceram o controle ambiental. Ele também vê pontos positivos e negativos no programa dos outros candidatos.

Na visão de Fearnside, Lula apresenta uma interpretação mais adequada sobre a importância do meio ambiente, especialmente ao destacar a necessidade de reconstruir os órgãos ambientais que têm sido desmontados desde o início do atual governo, como Ibama, ICMBio e Funai. “Ele também promete defender terras indígenas e retirar garimpeiros. Mesmo com estes sinais positivos, há áreas que precisarão de cuidado em um eventual governo Lula. A questão das hidrelétricas na Amazônia, por exemplo, tem enormes consequências em potencial, e o histórico dos governos PT na construção de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte é preocupante. O Lula tem falado que faria Belo Monte de novo e que a população local foi beneficiada devido aos gastos do projeto na parte social”, analisa.

O pesquisador também chama a atenção para outro projeto polêmico para a região: a construção da rodovia BR-319, que pretende ligar Manaus (AM) a Porto Velho (RO). Em conjunto com estradas laterais planejadas, essa grande rodovia abriria uma enorme área de floresta amazônica à entrada de desmatadores a partir de uma espécie de arco do desmatamento. “Infelizmente, além do custo astronômico de um programa de governança na escala necessária, as chances são mínimas de realmente alcançar essa transformação desejada na vasta área a ser impactada, especialmente dentro do prazo de um mandato presidencial”, avalia.

O membro da RECN, que pesquisa a Amazônia há mais de 40 anos, ressalta que Ciro Gomes e Simone Tebet têm tomado posições semelhantes à de Lula com relação à BR-319, colocando o avanço das obras como desejável, mediante uma boa governança. “Portanto, seria importante ficar atento a como evoluirão as políticas ambientais durante o próximo governo, independentemente de quem vencer as eleições”, finaliza Fearnside.

Sobre a Rede de Especialistas

A Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) reúne cerca de 80 profissionais de todas as regiões do Brasil e alguns do exterior que trazem ao trabalho que desenvolvem a importância da conservação da natureza e da proteção da biodiversidade. São juristas, urbanistas, biólogos, engenheiros, ambientalistas, cientistas, professores universitários – de referência nacional e internacional – que se voluntariaram para serem porta-vozes da natureza, dando entrevistas, trazendo novas perspectivas, gerando conteúdo e enriquecendo informações de reportagens das mais diversas editorias. Criada em 2014, a Rede é uma iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Os pronunciamentos e artigos dos membros da Rede refletem exclusivamente a opinião dos respectivos autores. Acesse o Guia de Fontes em www.fundacaogrupoboticario.org.br

A Amazônia brasileira está pegando fogo, enquanto Jair Bolsonaro e Lula indicam metas semelhantes

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Incêndio florestal perto de Brasília no dia 5 de setembro de 2022

Por Norbert Suchanek para o “JungeWelt” 

Na região amazônica brasileira, o número de incêndios florestais voltou a aumentar significativamente este ano. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), responsável pelo monitoramento florestal, entre outros, registrou um total de 78.159 incêndios na Amazônia de 1º de janeiro a 20 de setembro deste ano. Isso é 52% a mais do que no mesmo período de 2021.

As principais organizações ambientais, como o World Wide Fund For Nature (WWF) e o Greenpeace, responsabilizam o atual presidente de direita do Brasil, Jair Bolsonaro. Os incêndios florestais são uma “tragédia anunciada”, disse o porta-voz brasileiro do Greenpeace, André Freitas, em comunicado na segunda-feira. Ele descreveu o mandato de quatro anos de Bolsonaro como um dos momentos mais sombrios para o meio ambiente.

No entanto, uma análise das estatísticas de incêndios florestais mantidas pelo INPE desde 1998 coloca em perspectiva as declarações dos ambientalistas. No ano eleitoral de 2002, quando Luiz Inácio Lula da Silva do Partido dos Trabalhadores (PT) foi eleito presidente pela primeira vez, o número de incêndios na Amazônia subiu de 35.716 para 93.862 – um aumento de 162% em relação ao mesmo período ano passado. Nos anos que se seguiram, o número de incêndios florestais aumentou para 145.124 nos primeiros nove meses de 2005. Outro aumento significativo nos incêndios na Amazônia de 182% em relação ao mesmo período do ano passado foi registrado – novamente em ano eleitoral – em 2010, quando a sucessora de Lula, Dilma Rousseff, concorreu ao PT. Naquela época, ocorreram 87.039 incêndios na floresta tropical.

Segundo reportagem publicada em agosto pela rede jornalística investigativa Amazônia Real , o asfaltamento da rodovia BR-319 na Amazônia é o principal responsável pelo aumento dos incêndios florestais nos primeiros meses deste ano. Isto é para ligar Porto Velho, no sudoeste da Amazônia, com Manaus, no estado do Amazonas. Em 28 de julho, o órgão ambiental brasileiro IBAMA concedeu aprovação provisória para o asfaltamento do trecho central ausente da via. O alvará de construção aprovado pelo governo em Brasília é, segundo a Amazônia Real, obviamente também motivado pela política eleitoral. No entanto, tanto Bolsonaro quanto seu adversário Lula apoiam a conclusão da estrada federal, que cortará um dos últimos grandes blocos de floresta tropical intacta no coração da Amazônia, que foi rejeitada por conservacionistas e cientistas que pesquisam as florestas amazônicas.

No entanto, em seu programa para as próximas eleições presidenciais de 2 de outubro, Lula promete combater a mineração ilegal, o corte e a queima e o desmatamento, além de uma melhor proteção da floresta amazônica. “Vamos combater o crime ambiental promovido por milícias, grileiros, madeireiros e organizações empresariais que desrespeitam a lei. Estamos comprometidos com a luta incansável contra o desmatamento ilegal e a promoção do desmatamento líquido zero. O Brasil tem “uma das maiores biodiversidades do planeta”.

Ao mesmo tempo, Lula promete em seu manifesto eleitoral reindustrializar o Brasil, promover o agronegócio e a indústria do petróleo, estimular as atividades de mineração e ampliar e modernizar a infraestrutura – especialmente a construção de estradas – “por meio de um programa enérgico de investimento público”. Como ele pretende quadrar o círculo não é encontrado na redação, o que dificilmente difere do programa eleitoral do presidente em exercício em ambos os aspectos.

Jair Bolsonaro também afirma que irá “tomar medidas decisivas e enérgicas contra crimes ambientais”, combater incêndios florestais e desmatamento ilegal, ao mesmo tempo em que deseja expandir a infraestrutura e promover a indústria. De acordo com seu programa eleitoral, outro governo sob seu comando “conciliará a proteção ambiental com o crescimento econômico justo e sustentável para todos”. O que se pode esperar das promessas apresentadas provavelmente só se tornará aparente quando o novo presidente tomar posse em janeiro de 2023.


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Este originalmente escrito em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Imagens campistas de mais uma eleição em que o controle parece ser seletivo

justiça

Como informei aqui, a justiça eleitoral de Campos dos Goytacazes agiu rápido para remover, após denúncia, outdoors colocados pela Associação de Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Aduenf) por julgar que os mesmos ultrapassavam o direito de livre expressão ao criticar um dos candidatos a presidente da república.

Mas também notei aqui a presença de uma série de outdoors espalhados pelo município de Campos que faziam o contrário e apoiavam o mesmo candidato criticado nos outdoors proibidos da Aduenf.  O problema é que esses outdoors foram tolerados e pairam intocados pelas mãos da mesma justiça eleitoral. Precisou o vento que sopra forte na planície campista para, como dizem os locais, tombar um deles (ver imagem abaixo).

vento derrubou

Assim, o vento (ou teria sido Iansã, a orixã dos ventos e tempestades, que fez isto com o auxílio de Oiá, outra orixá que tem poderes semelhantes?) fez mais para garantir a integridade da campanha do que aqueles que tão zelosamente removeram os outdoors da Aduenf.

Mas mais curiosa ainda é a situação do comitê eleitoral do candidato “Pastor Éber Silva” do PSD/RJ que foi instalado na esquina entre as ruas Conselho José Fernandes e Gil de Góis nas proximidades da Segunda Igreja Batista de Campos (ver image abaixo).

pastor eber silva

A questão aqui é que Éber Silva foi pastor da mesmíssima Segunda Igreja Batista por 31 anos, tendo se aposentado do posto em dezembro de 2019. Assim, ainda que não haja proibição legal para uma proximidade tão grande entre o comitê de campanha de um candidato que ocupou por mais de três décadas e a igreja que ele chefiou, a situação é, no mínimo, peculiar. É que se por um lado há a conveniência da proximidade, há que se ver se isso não causa constrangimento nos fiéis que porventura desejassem votar em outras candidaturas.

É por essas e outras que eu não consigo deixar de ter a impressão de que o controle que se faz das campanhas eleitorais por estas paragens tem um quê de seletivo.