Malfeitos corporativos colocam JBS e Vale entre as empresas mais rejeitadas por investidores globais, mostra plataforma

Plataforma ‘Financial Exclusions Tracker’ mapeou quais empresas estão bloqueadas por grandes investidores globais para futuros aportes financeiros; Vale é a líder global de vetos por preocupações relacionadas a direitos humanos, enquanto a JBS lidera categoria que inclui fraudes e corrupção

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Por Daniela Penha/ Edição Bruna Borges para a Repórter Brasil

JBS e Vale estão entre as empresas mais rejeitadas por investidores em ranking mundial da plataforma “Financial Exclusions Tracker”, atualizado nesta quinta-feira (12). O ranking é baseado em informações divulgadas por 93 instituições financeiras globais, incluindo grandes bancos e fundos de pensão. Ele lista quais são as empresas nas quais elas se recusam a investir devido a alegadas práticas nocivas de negócio.

A mineradora brasileira é a que mais recebeu exclusões motivadas por preocupações de direitos humanos. Ao todo, 22 instituições financeiras informam, segundo a plataforma, não realizar negócios com a Vale por conta do tema. Além de enfrentar denúncias sobre o impacto de suas operações em comunidades tradicionais na Amazônia, a empresa teve a sua imagem internacional fortemente abalada pelo rompimento das barragens de Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais, que provocaram centenas de mortes.

Questionada pela reportagem, a Vale informou que não comentaria o ranking. A companhia afirmou que “mantém seu compromisso com os princípios do Pacto Global da ONU e reconhece sua importância como orientação fundamental e mecanismo de conformidade para a companhia” e que “desde 2019, a empresa está focada em transformar a organização e melhorar suas práticas em questões ambientais, sociais e de governança”. A resposta da empresa na íntegra pode ser lida aqui.

Já a JBS, uma das empresas mais afetadas pela operação Lava Jato, é a líder global no ranking de exclusões relacionadas a “práticas de negócios” – categoria que inclui vetos de investidores por preocupações relacionadas a corrupção, fraudes e evasão fiscal. A plataforma lista 15 instituições financeiras que rejeitam oferecer apoio financeiro ao frigorífico pelos motivos elencados nesta categoria.

Procurada, a JBS afirmou que o mapeamento “possui falhas na apresentação dos dados” e que não iria se manifestar sobre ele. Também declarou que “possui uma sólida relação com as instituições do mercado financeiro há muitos anos, sendo hoje a empresa do setor de alimentos e bebidas listada na B3 que possui a maior cobertura de analistas de mercado e 100% da recomendação de compra”. A manifestação completa pode ser lida aqui.

“Esse mapeamento sinaliza que algumas empresas têm um impacto ambiental e social tão grave que estão sendo excluídas do mercado financeiro porque representam um grande risco [para os investidores]”, analisa Merel van der Mark, da Rainforest Action Network – uma das organizações mantenedoras da plataforma. 

Outras empresas brasileiras

Na lista das companhias brasileiras com grande número de rejeições aparecem ainda a estatal Petrobras e a Eneva, empresa que tem o BTG Pactual como principal acionista e que produz energia a partir de combustíveis fósseis. Ambas são vetadas por investidores por preocupações relacionadas a direitos humanos e ao aquecimento global.

Petrobras e Eneva não se posicionaram até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

“Diligência adicional é necessária para empresas que aparecem neste banco de dados. Esperamos que elas melhorem suas práticas”, afirma Kees Kodde, líder de projeto da Fair Finance International, outra das organizações responsáveis pela plataforma.

De acordo com o mapeamento, o impacto climático é o principal motivo para investidores vetarem negócios com empresas, representando quase metade (48%) das exclusões. O envolvimento de companhias com o setor de armamentos aparece na sequência (15%), seguido pelo envolvimento com a indústria do tabaco (13%), preocupações relacionadas a políticas nacionais dos países onde a empresa atua (6%) e vetos de investimento a outros produtos considerados nocivos (5%), como álcool e jogos de azar.

Os cinco países com mais empresas rejeitadas são Estados Unidos (1.160), China (852), Índia (341), Canadá (290) e Rússia (283). 

O ranking é uma iniciativa das organizações BankTrack, Both ENDS, Fair Finance International, Forests & Finance, Health Funds for a Smokefree Netherlands, Milieudefensie (Friends of the Earth Netherlands), PAX, Profundo Research Foundation, Rainforest Action Network e Environmental Paper Network.


Fonte: Repórter Brasil

Trio malvadão: Bunge, Cargill e JBS são as piores empresas quando o assunto é desmatamento

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Por Sidney Jones e Carole Mitchell para a “Migthy Earth”

Link para o Monitor de Desmatamento de Soja e Gado (incluindo Rastreador e Scorecard)

Link para o relatório Rapid Response #4 Soy

Bunge, Cargill e JBS são o “Trio Terrível” classificado como o pior em desmatamento brasileiro no Soy & Cattle Deforestation Tracker da Mighty Earth. A nova ferramenta classifica dez das maiores empresas de soja e carne do mundo em suas ligações com casos de desmatamento em biomas brasileiros ameaçados, como a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal. As empresas americanas Bunge e Cargill são as comerciantes de soja ligadas ao maior desmatamento, com a gigante brasileira da carne bovina JBS sendo a pior entre as frigoríficas.

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Rastreador de desmatamento de soja e gado

Apoiado por um banco de dados de 172 casos recentes relatados pela AidEnvironment e Mighty Earth, o rastreador conecta dez grandes comerciantes de soja e frigoríficos a 330.296 hectares de desmatamento recente e degradação da terra nos três biomas nos últimos dois anos (fevereiro de 2022 a julho de 2024) — uma área duas vezes maior que Londres.

A Bunge, classificada como a pior empresa em desmatamento no geral, está potencialmente ligada a 224.181 hectares de desmatamento, com um quarto desse desmatamento acontecendo em áreas protegidas. A Cargill provavelmente está ligada a mais de 133.256 hectares, com 85% desse desmatamento ocorrendo na savana do Cerrado. A JBS é uma das principais impulsionadoras do desmatamento entre os frigoríficos, com possíveis ligações a mais de 118.310 hectares de desmatamento, com três quartos disso ocorrendo na Amazônia.

Os novos dados mostram que, longe de atingir muitas das metas das empresas de ser Livre de Desmatamento e Conversão (DCF) até 2025, a indústria da carne continua travando uma guerra contra a natureza, com o desmatamento aumentando a uma taxa alarmante. Um terço desse desmatamento ocorreu em áreas protegidas, tornando-o potencialmente ilegal sob a Lei Brasileira, e 66.129 hectares ocorreram perto ou na fronteira com terras indígenas.

Os dados usados ​​pelo Tracker representam um retrato da grande destruição que está acontecendo no Brasil, que na realidade é muito maior.

Scorecard de desmatamento de soja e gado

Acompanhando o Tracker, a Mighty Earth também está lançando um novo Scorecard que marca um ano do nosso programa de monitoramento de desmatamento Rapid Response. O novo Scorecard avalia como as empresas responderam aos alertas de desmatamento Rapid Response da Mighty Earth no ano passado e destaca a inação e a falta de responsabilização dos comerciantes de soja e frigoríficos no combate ao desmatamento em suas cadeias de suprimentos. Pontuados em quatro categorias – Responsividade, Transparência, Ação e Política de Desmatamento Zero e Conversão – a pior colocada JBS pontuou apenas 10/100, a Cargill pontuou 11/100 e a Bunge 31/100 .

A LDC lidera o placar com 42 pontos em 100 e tem a maior pontuação na Política de Livre de Desmatamento e Conversão, enquanto a ADM , em segundo lugar, é a única empresa a publicar esses casos de desmatamento em um registro público de reclamações.

Comentando sobre o lançamento do Rastreador e Scorecard de Desmatamento de Soja e Gado, João Gonçalves , Diretor Sênior da Mighty Earth para o Brasil, disse:

“Nosso novo Rastreador de Desmatamento de Soja e Gado revela o ‘Trio Terrível’ Bunge, Cargill e JBS como os piores culpados por impulsionar o desmatamento no Brasil, sem qualquer transparência e falhando em agir para limpar suas cadeias de fornecimento de soja e gado.”

“Nossos dados mostram que uma área duas vezes maior que Londres foi destruída na Amazônia, Cerrado e Pantanal, enquanto a indústria da carne continua travando sua guerra contra a natureza, enquanto o desmatamento recente ameaça as comunidades indígenas.”

“Acompanhando o Rastreador de Desmatamento, nosso novo Scorecard avalia como as empresas responderam aos alertas de desmatamento registrados com elas no ano passado, colocando a JBS e a Cargill no final da tabela.”

“Dado o que o Brasil vivenciou este ano – incêndios florestais recordes, inundações e secas – os comerciantes de soja e gado precisam parar urgentemente de comprar de fazendas envolvidas no desmatamento, que está alimentando o aquecimento global e piorando a crise climática e natural.”

Joana Faggin, líder da equipe de cadeias de suprimentos livres de desmatamento na AidEnvironment, disse:

“Um dos objetivos do Sistema de Monitoramento de Desmatamento em Tempo Real (RDM) da AidEnvironment é analisar dados disponíveis publicamente para gerar mais transparência nas cadeias de suprimentos de commodities e fortalecer a implementação de compromissos de rastreabilidade e desmatamento zero, sejam eles voluntários ou legalmente vinculativos. Isso permite que a Mighty Earth use a análise RDM para se envolver diretamente com comerciantes globais de soja e frigoríficos.”

Cerrado sob cerco

Lançado junto com o Tracker e o Scorecard, o novo relatório de monitoramento de soja Rapid Response #4 da Mighty Earth revela que as taxas de desmatamento ligadas à soja são quase três vezes maiores no Cerrado do que em seu vizinho, a Amazônia. Nossa análise descobriu que 25.207 hectares de alertas de desmatamento ligados à soja foram registrados no Cerrado, de janeiro a abril de 2024, em comparação com 8.782 hectares de alertas de desmatamento e degradação causados ​​pela soja na Amazônia no mesmo período.

Lar de cinco por cento da biodiversidade mundial, o Cerrado é um dos biomas mais ameaçados da Terra. Em grande parte desprotegido por legislação nacional ou internacional, é mais vulnerável ao colapso do ecossistema do que a Amazônia. Mais da metade do Cerrado foi perdida, tomada pela indústria da carne para pastorear gado e cultivar soja como ração animal para pecuária intensiva na Europa, China e além.

Sete fazendas foram identificadas onde alertas de desmatamento e degradação ocorreram entre janeiro e abril deste ano, cinco das quais estavam no Cerrado. Elas totalizaram 11.768 hectares em fazendas previamente plantadas com soja e localizadas em um raio de 50 quilômetros de silos de grãos de propriedade de sete comerciantes globais de grãos – ADM, ALZ Grãos, Amaggi, Bunge, Cargill, Cofco e LDC. Nossa análise encontrou 7.383 hectares de desmatamento recente em uma única fazenda em uma área de conservação de altíssima prioridade no Cerrado, com uma provável ligação com as comerciantes de soja Bunge e ALZ Grãos.

A cumplicidade da Europa

A Europa é um mercado-chave para a soja brasileira, com exportações de soja e farelo/torta de óleo de soja aumentando em 6,3% de janeiro a setembro de 2024, em comparação com o mesmo período em 2023. As exportações de soja para França, Alemanha, Holanda, Espanha e Reino Unido aumentaram em 20% nos primeiros nove meses deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado. Cerca de metade da soja brasileira exportada para o Reino Unido e Alemanha vem do Cerrado. E as exportações brasileiras de soja e farelo de soja para a Espanha aumentaram em impressionantes 39% este ano em números de 2023.

Comentando o último relatório de Resposta Rápida, Mariana Gameiro, Consultora Sênior (Brasil) da Mighty Earth, disse:

“ O Cerrado está sob cerco com o desmatamento causado pela soja quase três vezes maior nesta paisagem ameaçada do que em sua vizinha, a Amazônia. No entanto, ataques recentes à Moratória da Soja na Amazônia e ao Regulamento de Desmatamento da UE e ao atrasado UK Environment Act aumentam o risco de mais desmatamento e degradação na Amazônia.”

“A soja brasileira continua a fluir para a Europa com exportações acima de 6%, tornando a Europa cúmplice na destruição desses biomas críticos. Os varejistas europeus e as indústrias de carne, laticínios e ração animal devem tomar medidas imediatas para cortar laços comerciais com os principais fornecedores de soja ligados ao desmatamento.”

O relatório Tracker, Scorecard e Rapid Response #4 Soy é lançado no momento em que a proteção florestal sofre ainda mais ataques com ameaças políticas e econômicas à Moratória da Soja na Amazônia no Brasil e o atraso de 12 meses recentemente aprovado no Regulamento de Desmatamento da União Europeia.


Fonte: Migthy Earth

JBS quebrou suas próprias regras ao comprar gado criado em áreas desmatadas ilegalmente no Pantanal

Fornecedores da JBS desmataram ilegalmente grandes áreas de vegetação do Pantanal, mostra reportagem

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O Pantanal é a maior área úmida do mundo. Localizado no Brasil, Bolívia e Paraguai, ele cobre mais de 170.500 km² e abriga mais de 4.000 espécies de plantas e animais. Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP via Getty Images 

Por Naíra Hofmeister e Fernanda Wenzel para o “Unearthed”

A maior empresa de carne do mundo comprou gado mais de 100 vezes de uma fazenda que foi sancionada e multada em quase £ 2 milhões por destruir ilegalmente áreas úmidas únicas e vulneráveis ​​no Brasil, conforme revelado  pela Unearthed .

A gigante brasileira da carne bovina JBS, que fornece para KFC, McDonalds, Walmart e Tesco , tem sido repetidamente associada à destruição em larga escala da Amazônia. As compras de gado da JBS parecem estar em violação direta de suas promessas de manter sua cadeia de suprimentos limpa. 

As descobertas vêm como parte de uma investigação mais ampla sobre o crescente impacto da indústria de carne bovina do Brasil nas áreas úmidas do Pantanal, um hotspot de biodiversidade que está cada vez mais ameaçado por incêndios florestais e agronegócios. Nossa investigação, baseada em uma análise encomendada pelos especialistas em imagens de satélite da AidEnvironment, descobriu que fornecedores diretos e indiretos dos três maiores frigoríficos do Brasil desmataram uma área de pelo menos sete vezes o tamanho de Manhattan no Pantanal nos últimos cinco anos . 

A grande maioria disso, 93%, estava ligada à JBS. A Unearthed então investigou os 10 maiores desmatadores na análise e encontrou fornecedores diretos da JBS envolvidos com desmatamento ilegal e conflito de terras indígenas. 

A JBS precisa ser responsabilizada tanto pela destruição imprudente do ecossistema quanto pela lavagem verde enganosa

A JBS vem promovendo recentemente seus controles de desmatamento e credenciais verdes antes de uma tentativa de listar ações na Bolsa de Valores de Nova York . Ela diz que está reprimindo o desmatamento em sua cadeia de suprimentos, mas está expandindo significativamente a produção no Pantanal, com planos de criar o maior matadouro da América Latina . O pantanal listado como Patrimônio Mundial da UNESCO acaba de ter uma de suas piores temporadas de incêndios florestais .  

“É chocante descobrir que a JBS continua a ser uma das principais causas do desmatamento flagrante, enquanto engana os clientes com alegações de que está reduzindo o desmatamento em sua cadeia de suprimentos”, disse o senador dos EUA Cory Booker em resposta à nossa investigação. “A JBS precisa ser responsabilizada tanto por sua destruição imprudente do ecossistema quanto por sua lavagem verde enganosa.”

Em nota, a JBS disse: “As fazendas mencionadas estão bloqueadas pela JBS e, portanto, automaticamente impedidas de fazer negócios com a empresa. Bloqueios causados ​​por embargos são realizados assim que há visibilidade nos sistemas alimentados pelas instituições públicas responsáveis.” 

Gado pasta em área queimada de vegetação do Pantanal após os incêndios florestais de 2020, os piores que a região já viu. Foto: Mauro Pimentel / Getty

A JBS não comentou a escala de desmatamento ligada aos seus fornecedores descoberta pela investigação e acrescentou que as fazendas foram bloqueadas antes que a Unearthed contatasse a empresa.

O diretor da Mighty Earth no Brasil, João Gonçalves, disse: “Para alimentar suas enormes operações de carne, a JBS demonstrou, mais uma vez, que tem pouca consideração pelas pessoas ou pelo planeta ao continuar a obter gado, mais de 100 vezes, de uma fazenda proibida, responsável pelo desmatamento no vulnerável Pantanal.

“Uma guerra contra a natureza está sendo travada pela indústria da carne no Pantanal e a JBS está na linha de frente”, acrescentou .

O Pantanal é um mosaico único de pântanos, florestas e rios. Ele inunda sazonalmente, seus córregos e rios são inchados por chuvas torrenciais que viajam para o sul da floresta amazônica. Até relativamente pouco tempo, era um refúgio para a vida selvagem, lar da maior concentração mundial de onças-pintadas , centenas de espécies de pássaros e grandes mamíferos, como antas e tamanduás-bandeira. 

Danos causados ​​por incêndios no Pantanal, no estado do Mato Grosso do Sul. A área úmida listada como Patrimônio Mundial da UNESCO acaba de ter sua segunda pior temporada de incêndios florestais já registrada. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

Embora permaneça alto, o desmatamento na Amazônia caiu desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou à presidência em 2023. Mas continuou a aumentar em seu vizinho menos conhecido, o Pantanal, de acordo com uma análise do MapBiomas colaborativo de mapeamento . As secas, agravadas pelas mudanças climáticas e pelo desmatamento na Amazônia, tornam mais fácil que os incêndios provocados por fazendeiros para limpar a vegetação queimem fora de controle. Este ano, os satélites detectaram 10.956 incêndios de junho a setembro, tornando esta a segunda pior temporada de incêndios desde o início dos registros . Apenas 2020 foi mais intenso, matando mais de 17 milhões de vertebrados e queimando quase 30% do bioma . 

“Estamos enfrentando uma das piores situações já vistas no Pantanal”, disse Marina Silva, ministra do Meio Ambiente do Brasil, aos jornalistas . 

Açougueiros do Brasil

Desde sua criação, há 70 anos, como um açougue familiar no estado de Goiás, a JBS se expandiu e se tornou a maior produtora de carnes do mundo, com interesses comerciais nos cinco continentes. 

Essa ascensão meteórica exigiu a transformação em larga escala de grandes áreas de florestas tropicais e savanas do Brasil em fazendas de gado . Nos últimos anos, sob crescente escrutínio internacional por seu papel no desmatamento da Amazônia, e buscando listar nos EUA, a JBS disse que eliminará todo o desmatamento de sua cadeia de suprimentos na Amazônia brasileira até 2025 e em todo o país, incluindo o Pantanal, até 2030 . 

A JBS tem uma política de “tolerância zero ao desmatamento” e bloqueou 16.000 fazendeiros que não estavam em conformidade, disse o CEO da JBS, Gilberto Tomazoni, ao The New York Times no ano passado .

O Pantanal abriga a maior concentração de onças-pintadas do mundo. Mas o bioma está cada vez mais ameaçado pelo desmatamento para agronegócio em larga escala, seca e incêndios. Foto: Leandro Cagiano / Greenpeace

“Colocamos [em] um blockchain para obter informações dos fornecedores indiretos. Até agora, temos cerca de 50% dos fornecedores indiretos no blockchain, e quando estivermos totalmente neste blockchain, podemos rastrear 97% da nossa carne bovina.” 

Mas no Pantanal, a JBS está expandindo sua pegada. No início deste ano, a empresa disse que dobraria a capacidade de seu frigorífico Campo Grande II, que recebe gado de muitos dos fornecedores identificados nesta investigação, permitindo-lhe abater 4.400 vacas todos os dias .

Em fevereiro , o frigorífico Campo Grande II recebeu duas remessas de gado da Fazenda Querência, no município de Aquidauana, no Mato Grosso do Sul, segundo a plataforma de transparência da JBS . 

De acordo com as próprias regras da cadeia de suprimentos da JBS , essa compra não deveria ter sido possível. A agência ambiental brasileira, IBAMA, havia colocado um embargo por desmatamento ilegal em mais de 1 km² da fazenda no mês anterior , e a JBS alega que seus sistemas a bloqueiam automaticamente de comprar gado de quaisquer fazendas embargadas . 

Embargos são o mecanismo do Brasil para punir fazendeiros por destruir vegetação sem permissão, ou em áreas que são legalmente supostamente protegidas . Eles impedem que terras desmatadas ilegalmente sejam usadas, permitindo que a vegetação se recupere enquanto impõe uma penalidade financeira. Comprar gado desta fazenda viola diretamente os compromissos ambientais da JBS.

Este embargo foi cancelado no final de outubro por uma decisão judicial preliminar. Mas estava longe de ser a única vez que a JBS parece ter comprado gado de Querência enquanto estava sob sanção. De 2018 a 2023, a plataforma de transparência da JBS lista 112 compras de gado pelos frigoríficos Campo Grande I e II da JBS da Fazenda Querência em Aquidauana . Os registros do IBAMA mostram que a Fazenda Querência teve dois embargos ativos do IBAMA durante este período. Um desses embargos, imposto em 2016, cobria 28 km², aproximadamente metade do tamanho de Manhattan, e incluía uma multa de quase £ 2 milhões .  

Os embargos foram levantados recentemente, mas em ambos os casos os fazendeiros admitiram o desmatamento ilegal da vegetação do Pantanal . 

(A plataforma da JBS lista apenas nomes de fazendas e municípios, mas apenas uma fazenda em Aquidauana chamada Fazenda Querência aparece no registro nacional de terras do Brasil .)

A JBS se recusou a dizer quando Querência ou as outras propriedades foram bloqueadas, apenas que as “aquisições seguiram a Política de Compras da JBS de acordo com as informações disponíveis na época”.

No total, segundo análise da AidEnvironment, a Fazenda Querência desmatou um total de 50 km² de vegetação natural entre 2019 e 2023 – destruindo uma área do Pantanal equivalente à metade do tamanho de Paris . 

Em resposta às nossas perguntas, André Ribeiro Corrêa, um membro da família proprietária da Querência, disse que eles contestaram o embargo de 2024. Ele enviou um documento mostrando uma ordem judicial para suspender o embargo enquanto o Ibama toma uma decisão final. Corrêa não quis fazer mais comentários . 

De 2018 a 2023, enquanto comprava regularmente gado de uma fazenda embargada, a JBS exportou 83 remessas de carne bovina ou subprodutos bovinos do município de Campo Grande para o Reino Unido, totalizando 1.350 toneladas, sugerem dados comerciais coletados pela Panjiva, embora os dados não detalhem de qual matadouro os produtos se originaram. As exportações da JBS para os EUA de Campo Grande totalizaram 46.600 toneladas, e para a Itália, que importa couros bovinos da JBS para sua indústria de couro, mais de 24.000 toneladas . Os dados da Panjiva também sugerem que a JBS exportou carne bovina para a Alemanha e Holanda de Campo Grande durante esse período. 

“Os frigoríficos que operam no Pantanal são os mesmos da Amazônia, mas aplicam menos controles aos fornecedores lá”, disse Luciano Furtado Loubet, promotor estadual do Mato Grosso do Sul que trabalha com fiscalização ambiental. “As empresas não realizam auditorias para verificar se seus controles e sistemas estão funcionando corretamente”, acrescentou.

Bombeiros combatem incêndios no Pantanal, Mato Grosso do Sul, este ano. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

A análise da AidEnvironment rastreou o desmatamento recente em uma amostra de fazendas que forneceram direta ou indiretamente os maiores frigoríficos do Brasil – JBS, Marfrig e Minerva – de 2018 a 2019. Usando GTAs de 2018 a 2019 – documentos que rastreiam o gado entre fazendas e matadouros, originalmente projetados para evitar a propagação de doenças – e dados de satélite, descobriu que 190 fazendas desmataram um total de 426 km² do bioma Pantanal de 2019 a 2023. 

É provável que esse número seja subestimado, já que a AidEnvironment só teve acesso a uma amostra não abrangente de GTAs, e os frigoríficos podem ter estabelecido novos relacionamentos de fornecimento desde então . 

A Marfrig informou que, de 2018 a 2019, comprou gado de 46 propriedades no Pantanal e, posteriormente, bloqueou 17 delas por descumprimento de algum compromisso da empresa.

“A empresa reafirma seu compromisso de não adquirir animais de áreas desmatadas, unidades de conservação, terras indígenas, territórios quilombolas, áreas embargadas e propriedades ou proprietários na lista suja de trabalho análogo ao escravo em todos os biomas onde atua”, disse a Marfrig em nota, acrescentando que já monitora 100% de seus fornecedores diretos e 93% de seus fornecedores indiretos no Pantanal .

A Minerva disse que se comprometeu a monitorar todos os seus fornecedores diretos e indiretos na América do Sul até 2030. Atualmente, ela está monitorando todos os seus fornecedores diretos no Brasil, que estão sujeitos a auditorias anuais, disse a empresa.

“A cada nova venda de animal, toda propriedade passa por uma análise de conformidade, de acordo com os critérios adotados pela Companhia”, diz o comunicado. “Caso sejam identificadas irregularidades em relação aos critérios, o fornecedor é bloqueado no sistema, impedindo novas negociações até que a situação seja regularizada. Nesse contexto, as auditorias mais recentes mostram que todas as compras realizadas atingiram 100% de conformidade.” 

Do total de desmatamento vinculado às três empresas, 394 km², ou 93%, foram associados à JBS – uma área maior que a Ilha de Wight .

Um filhote de tamanduá resgatado das queimadas do Pantanal deste ano recebendo cuidados veterinários. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

A grande área de desmatamento da Fazenda Querência é responsável por 13% do desmatamento encontrado na amostra de fornecedores da JBS analisada pela AidEnvironment entre 2019 e 2023. 

O segundo maior desmatador na análise, a Fazenda Tupaceretã, converteu 17 km² de vegetação nativa entre 2019 e 2023 . 

A JBS parou de comprar gado da fazenda enquanto um embargo de 2018 em 5,8 km² estava ativo . De fato, o representante do fazendeiro reclamou ao IBAMA que o produtor estava “incapaz de vender gado ou acessar crédito” como resultado do embargo . A negociação com a JBS foi retomada em 2020 após o proprietário de Tupaceretã pagar “taxas de reposição florestal” e uma multa ao IBAMA pelo desmatamento ilegal. 

Mas entre setembro de 2021 e abril de 2022 — período em que a Tupaceretã vendeu três lotes de gado para a JBS — especialistas em uso da terra do MapBiomas encontraram novos desmatamentos em áreas da fazenda que deveriam ser preservadas por lei . 

“O alerta mostra que o desmatamento foi feito para plantio de pastagem”, disse Eduardo Rosa, da equipe do Pantanal do MapBiomas.

O sistema de conformidade da JBS usa dados do satélite PRODES, que são divulgados anualmente pela agência espacial brasileira INPE. Mas o MapBiomas publica novos alertas de desmatamento semanalmente, verificados pela equipe e acompanhados de relatórios detalhados e imagens de alta resolução.

A propriedade foi vendida em dezembro. Imagens de satélite do Planet Labs de julho e agosto mostram uma vasta área de 145 km² na Fazenda Tupaceretã que parece ter queimado durante a temporada de incêndios deste ano. Os satélites captaram mais de 91 incêndios queimando na propriedade este ano . Um advogado dos novos proprietários disse que eles não venderam gado desde que compraram a fazenda. Eles não ofereceram uma explicação para o incêndio. 

As regras da cadeia de suprimentos da JBS não excluem fazendas que usam fogo para limpar terras, apesar de uma investigação do Greenpeace de 2021 ter vinculado os incêndios recordes no Pantanal em 2020 aos fornecedores de gado da JBS.

Um advogado do antigo proprietário da Fazenda Tupaceretã, Linneu Rondon, que morreu em abril, disse que o espólio de Rondon assinou um acordo com o Ministério Público do Mato Grosso do Sul para reparar os danos ambientais encontrados na fazenda e pagou uma multa ao IBAMA para encerrar o embargo de 2018.

Os embargos são apenas uma das regras da cadeia de suprimentos da JBS; outra afirma que a empresa “não compra de pessoas envolvidas com invasão de terras indígenas” .

Um tamanduá-bandeira resgatado de incêndios florestais no Pantanal do Brasil. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

Mas os promotores acusaram os proprietários de outro fornecedor da JBS no Pantanal em nossa análise, a Fazenda Touro Peru, no município de Porto Murtinho, estado do Mato Grosso do Sul, de cultivar em território indígena. A Touro Peru foi uma fornecedora regular da JBS de 2018 a 2022 , e desmatou 4,4 km² nos últimos cinco anos 

Os promotores alegaram que seus proprietários registraram uma fazenda de gado diferente, chamada Baía da Bugra, na Terra Indígena Kadiwéu, também em Porto Murtinho . 

De acordo com uma decisão judicial de 2021 , a família buscou anular o reconhecimento oficial do território indígena, argumentando que sua propriedade da fazenda é anterior à demarcação do território Kadiwéu na década de 1980. O conflito é antigo; em 2013 e 2017, membros do grupo étnico Kadiwéu ocuparam a fazenda em protesto. 

Outras fazendas pertencentes à família, Fazenda Santa Lucia e Fazenda Sapucay, também são fornecedoras da JBS na análise da Aidenvironment, totalizando mais 1,7 km² de desmatamento . Cerca de 60% do território Kadiwéu foi queimado durante os  incêndios deste ano 

Um advogado da família proprietária da Fazenda Touro Peru não respondeu a um pedido de comentário. 

Agricultura tradicional ameaçada

Por gerações, o Pantanal permaneceu como um reduto para a vida selvagem , ao mesmo tempo em que ainda apoiava a agricultura tradicional de baixa intensidade compatível com a preservação: o gado pasta nas pastagens nativas naturais e se move com as inundações sazonais. Consequentemente, cerca de 85% da vegetação nativa do Pantanal permanece . As vacas pastam ao lado de espécies que estão ameaçadas em outros lugares, como veados-do-pantanal, queixadas e tamanduás-bandeira . 

Mas agora o bioma está sob pressão do agronegócio em larga escala no bioma vizinho Cerrado, onde as plantações de grãos, especialmente a soja, estão causando o desmatamento. 

“Ao redor do Pantanal, a soja tomou conta. Então a pressão para criar gado está crescendo no Pantanal porque fora do bioma não tem mais espaço para isso”, disse o biólogo Gustavo Figueiroa, da ONG SOS Pantanal .

Uma anta ferida pelos incêndios florestais no Pantanal recebeu atendimento veterinário no Mato Grosso do Sul. Foto: Rogerio Florentino / Greenpeace

Todos os fornecedores da JBS que a Unearthed investigou — os 10 maiores desmatadores na análise da AidEnvironment sobre os fornecedores do frigorífico — estão situados nos cinco municípios com a maior área queimada em 2024. Um estudo recente da Universidade Federal do Rio de Janeiro mostrou que esses também estavam entre os locais mais desmatados no Pantanal em 2023 .

“Os pecuaristas querem produzir mais por hectare e o caminho é substituir o campo nativo por pastagem de braquiária”, disse Rafael Chiaravalloti, professor especialista em manejo de recursos naturais do Pantanal.

Os embargos do IBAMA impostos às fazendas Querência e Tupaceretã apontam que áreas desmatadas foram semeadas com capim braquiária, uma espécie invasora que compete com gramíneas nativas e é altamente inflamável .

Com a expansão do frigorífico Campo Grande II da JBS, especialistas dizem que a demanda por gado no Pantanal vai aumentar.

“Qualquer expansão das operações de carne da JBS levará o bioma ao ponto de ruptura, impactando a Amazônia e o Cerrado”, disse Gonçalves, da Mighty Earth. “A JBS deve obter controle total de suas cadeias de fornecimento de carne bovina e suspender urgentemente todos os fazendeiros empenhados nessa destruição da natureza para obter lucro.”

Como uma área úmida, o bioma também é particularmente sensível à seca que atualmente afeta todo o continente. Um estudo recente do WWF Brasil prevê que este ano pode ser o mais seco do bioma desde que os registros começaram — pior ainda do que 2020, quando uma seca histórica levou a incêndios sem precedentes, muitos deles iniciados em fazendas de gado . 

“É considerada seca quando o Rio Paraguai cai abaixo de quatro metros. Nas cheias de 2024, essa medida não passou de um metro”, disse Helga Correa, especialista em conservação do WWF-Brasil .

Agora, alguns cientistas temem que as zonas úmidas possam estar se aproximando de um ponto crítico, quando o Pantanal perderia sua capacidade de recuperação natural, sofrendo uma perda abrupta de espécies . 

“O Pantanal é uma das áreas úmidas mais biodiversas do mundo”, disse Correa. “É uma herança que precisamos conservar.”


Fonte: Unearthed

Grandes bancos e fundos internacionais lucraram bilhões com o comércio de carne produzida a partir da invasão de terras indígenas na Amazônia

Potências financeiras como Barclays, Vanguard e BlackRock ganharam milhões com o financiamento do frigorífico brasileiro JBS, cujas operações estão causando a destruição da terra indígena Apyterewa

Parakana_boyUm menino Parakanã fica sobre uma carcaça carbonizada de cobra, no estado do Pará, Brasil. Cícero Pedrosa Neto/Global Witness
Por Global Witness

O banco britânico Barclays lucrou US$ 1,7 bilhão com o financiamento da gigante brasileira de carnes JBS nos últimos cinco anos, já que as operações da empresa contribuíram para a invasão e destruição de um território indígena no Brasil, segundo uma investigação liderada pela organização climática Global Witness. 

O Barclays emergiu como o maior credor das operações globais da JBS, com a maior receita gerada por empréstimos e taxas de subscrição entre mais de 30 outros financiadores identificados pelo grupo de pesquisa independente Profundo.   

O papel da JBS no desmatamento ilegal  

A criação comercial de gado por povos não indígenas é ilegal em territórios indígenas designados pela lei federal brasileira. 

No entanto, entre 2018 e 2023, quase 8.000 vacas criadas no território indígena Apyterewa entraram na cadeia de suprimentos da JBS, de acordo com uma análise do Centro de Análise de Crimes Climáticos (CCCA) . 

A JBS não respondeu ao nosso pedido de comentário. 

O território Apyterewa, lar do povo Parakanã, no estado do Pará, no norte do Brasil, sofreu mais desmatamento do que qualquer outro território indígena nos últimos anos na Amazônia brasileira. 

Apesar das proteções legais, os criadores de gado invadem persistentemente essas terras, explorando o apetite global por carne bovina e desrespeitando os direitos das comunidades indígenas.  

Em outubro de 2023, o governo brasileiro expulsou esses invasores de terras, mas um sobrevoo recente da Global Witness revelou incêndios ativos, indicando que tanto o desmatamento quanto as invasões ainda estão em andamento. 

À medida que a floresta amazônica enfrenta a pior temporada de incêndios em duas décadas em meio a uma seca severa, a destruição de Apyterewa está se intensificando. Isso ocorre porque os incêndios na Amazônia são amplamente desencadeados pela atividade humana, especialmente por aqueles que desmatam florestas para grilagem de terras. 

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) confirmaram mais de 300 alertas de incêndio desde o início deste ano, ressaltando a ameaça persistente. 

O custo ambiental e humano

mama parakana

Mama Parakanã, cacique da aldeia indígena Apyterewa e líder no combate às invasões em Apyterewa, no estado do Pará, Brasil. Cícero Pedrosa Neto/Global Witness

Eles destruíram tudo. Tudo o que nos resta é grama. Nossos animais morreram queimados- Mama Parakanã, cacique da Aldeia Indígena Apyterewa

Em Apyterewa, a destruição ambiental anda de mãos dadas com a violência. Um chefe Parakanã descreveu como sua aldeia foi queimada em um ataque de grileiros, enquanto outro membro da comunidade relatou ter sido baleado por um invasor. 

“A carne da terra indígena Apyterewa é carne do nosso território”, disse Mama Parakanã, cacique da Aldeia Indígena Apyterewa. “Eles destruíram tudo. Tudo o que nos resta é capim. Nossos animais morreram queimados.”

Falha de supervisão das instituições financeiras

Nossa investigação expõe falhas significativas tanto na indústria da carne bovina quanto no setor financeiro internacional. O primeiro luta com o monitoramento das cadeias de suprimentos, enquanto o último frequentemente negligencia medidas para mitigar os impactos ambientais e sociais de seus investimentos.

“Essas descobertas revelam como um acordo aparentemente rotineiro feito em Nova York ou Londres pode estar ligado à invasão evitável, mas devastadora, de terras indígenas”, disse Alexandria Reid, líder de estratégia de campanha da Global Witness. 

“Não há mundo em que consigamos deter a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas sem que os governos tomem medidas para deter o desmatamento, o que é melhor alcançado ao capacitar os povos indígenas para fazer valer sua soberania e direitos à terra”, acrescentou.

Não existe um mundo em que consigamos travar a perda de biodiversidade e as alterações climáticas sem que os governos tomem medidas para travar a desflorestação- Alexandria Reid, Líder de Estratégia de Campanha da Global Witness

O Barclays negou ter fornecido financiamento às operações da JBS no Brasil desde 2021, acrescentando que suas políticas foram “atualizadas em abril de 2023 para incluir restrições à produção de carne bovina e ao processamento primário em países de alto risco de desmatamento na América do Sul”.

O banco, no entanto, não comentou sobre o financiamento das operações globais da empresa, por “razões de confidencialidade”. 

Para mais detalhes sobre as respostas da empresa a essas alegações, consulte o PDF da investigação .  

Apesar da adoção de regras de financiamento mais rígidas para empresas de desmatamento no ano passado, os laços do Barclays com a JBS persistem, já que uma brecha na política do banco permite que ele continue financiando as subsidiárias da empresa, inclusive nos EUA.

Incêndio na Amazônia - Apyterewa.jpgFumaça de queimadas na Terra Indígena Apyterewa, Pará, Brasil, julho de 2024. Cícero Pedrosa Neto / Global Witness

A procura global por carne bovina e a crise dos direitos à terra 

A demanda global por carne bovina tem impulsionado o desmatamento tropical generalizado , particularmente no Brasil. A maior parte do desmatamento florestal para pastagem de gado é ilegal, pois os fazendeiros invadem terras protegidas que incluem parques nacionais e territórios indígenas. 

Um estudo de 2023 na revista Nature relatou que o desmatamento em territórios indígenas da Amazônia aumentou em 129% desde 2013.

A terra indígena Apyterewa está no centro de uma crise. 

Sob a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, tanto as taxas de desmatamento quanto as ameaças à segurança da comunidade e aos meios de subsistência tradicionais aumentaram.

GW 1

Segundo estimativas do governo brasileiro , cerca de 2.500 indígenas estão distribuídos em 51 aldeias no território – principalmente das comunidades Parakanã, Mebengôkre Kayapó e Xikrim.

Enquanto isso, grupos indígenas afirmam que, quando a invasão atingiu o pico, havia aproximadamente 10.000 pessoas não indígenas ocupando a terra.

O povo Parakanã diz que os forasteiros estão poluindo suas fontes de água, esgotando os recursos florestais e ameaçando seu modo de vida tradicional.

Chefe e líder indígena lutando contra invasões de terras no Brasil.jpgTatuaro Parakanã, cacique da aldeia Caeté e liderança que combate as invasões em Apyterewa, diz que tem enfrentado ameaças de morte por parte de grileiros. Cícero Pedrosa Neto / Global Witness

Onde caçávamos, onde coletávamos nozes… os grileiros derrubaram tudo- Tatuaro Parakanã, cacique da aldeia Caeté

Tatuaro Parakanã, cacique da aldeia Caeté, relatou a devastação causada pelas desmatamentos: 

“Onde caçávamos, onde coletávamos nozes… os grileiros derrubaram tudo”, disse ele, citando ameaças de morte persistentes .

Ano passado, ele teve que se mudar com várias famílias por segurança, apenas para encontrar sua casa reduzida a cinzas mais tarde. “Tudo o que queremos é voltar para casa”, ele acrescentou.

Embora a presença de invasores criadores de gado tenha sido aparente há muito tempo, os compradores finais – e às vezes indiretos – de suas vacas permaneceram ocultos nessa complexa cadeia de suprimentos, até agora.

O ponto cego da cadeia de suprimentos indireta

Esta nova análise do CCCA revela que entre 2018 e 2023, 7.795 vacas abatidas pelo frigorífico brasileiro JBS vieram de cadeias de suprimentos que incluem fazendas localizadas em Apyterewa. 

Destes, o CCCA calcula que 561 foram adquiridos pela JBS diretamente de fazendas ilegais dentro do território Apyterewa – enquanto a maioria, 7.234 vacas, faziam parte da cadeia de fornecimento indireta da JBS. 

A CCCA identificou essas transações da cadeia de suprimentos usando um algoritmo que incorpora uma análise multinível de informações extraídas de registros de transferência de gado que documentam o comércio entre empresas relevantes de propriedade ou que realizam transações com a JBS.

Esse gado provavelmente foi “lavado” para a cadeia de suprimentos do frigorífico, com os fazendeiros transferindo o gado de fazendas dentro do território indígena para fazendas aparentemente “limpas”, sem nenhuma perda florestal recente ou conexão com a grilagem de terras original.

GW 2

Cadeias de suprimentos indiretas representam um ponto cego significativo no combate ao desmatamento. Um estudo recente da organização sem fins lucrativos Mighty Earth mostrou que, entre 2017 e 2022, fornecedores indiretos supostamente foram responsáveis ​​pela maior parte do desmatamento ligado a grandes frigoríficos. 

A nova análise do CCCA revelou que dois outros pesos pesados ​​da indústria da carne – Marfrig e Minerva – também obtiveram gado das terras de Apyterewa.

De acordo com a investigação, a Marfrig recebeu 94 vacas diretamente de fazendas ilegais e estava ligada a outras 2.691 vacas por meio de sua cadeia de fornecimento indireta, enquanto a Minerva estava associada a 277 vacas criadas em Apyterewa.

Ambos negaram ter comprado vacas de propriedades localizadas dentro de terras indígenas.

aldeia na Terra Indígena Apyterewa.jpgAldeia Parakanã na Terra Indígena Apyterewa, Pará, Brasil. Cícero Pedrosa Neto/Global Witness

A Marfrig acrescentou que monitora todos os seus fornecedores diretos e 87% dos indiretos na Amazônia. 

A Minerva disse que não tinha relações diretas com nenhuma das fazendas que se sobrepõem ao território indígena Apterewa, que fica a 88,6 km do raio de comercialização de 300 km do matadouro de Araguaina da Minerva. 

No entanto, Minerva também observou que os dados fornecidos pela Global Witness não foram suficientes para conduzir uma “avaliação mais detalhada das vendas indiretas fornecidas”. 

Para mais detalhes sobre as respostas da empresa a essas alegações, consulte o  PDF da investigação 

Durante o período de cinco anos da análise, a CCCA descobriu que, além dos Três Grandes frigoríficos, outros 37 frigoríficos tinham conexões com a terra de Apyterewa. 

No total, 14.217 vacas criadas em fazendas ilegais no território de Apyterewa parecem ter chegado a esses matadouros. 

Todos os grandes frigoríficos mencionados – JBS, Marfrig e Minerva – assinaram um acordo juridicamente vinculativo com o Ministério Público Federal em 2009 para parar de comprar gado de fazendas envolvidas em desmatamento ilegal ou localizadas em áreas protegidas ou territórios indígenas.

Essas empresas se beneficiam da compra de carne de origem ilegal, o que a torna mais barata- Leonardo Godoy, Diretor Interino do Programa Brasil do CCCA

Em 2022, a JBS se comprometeu a monitorar a origem de todo o gado de seus fornecedores da Amazônia e do Cerrado até 2025. Para o resto do mundo, a empresa disse que suas cadeias de suprimentos não serão totalmente monitoradas até 2030.

Os resultados apontam para um problema sistêmico de dois níveis que prejudica aqueles que estão na linha de frente do combate ao desmatamento na Amazônia, ressalta Leonardo Godoy, Diretor Interino do Programa Brasil do CCCA:   

“Essas empresas [JBS, Marfrig e Minerva] se beneficiam comprando carne de origem ilegal, o que a torna mais barata.” 

Além disso, há gigantes financeiros que simplesmente não conseguem “impor medidas regulatórias eficazes para garantir que não invistam em empresas que ameaçam o ambiente e os direitos humanos, [e que] lucram extensivamente com os empréstimos feitos a essas empresas”.

Lucros sobre o planeta

O comércio global de carne bovina é um negócio lucrativo. De acordo com a coalizão de ONGs Forests & Finance, os bancos financiaram empresas de agronegócio e florestais que impulsionaram o desmatamento tropical com mais de US$ 260 bilhões entre 2018 e 2023. 

A JBS, a maior compradora de vacas Apyterewa, tinha vários financiadores ocidentais. 

A Global Witness e o grupo de pesquisa Profundo analisaram os laços de investimento e crédito entre a JBS e seus financiadores durante as invasões de terras de Apyterewa. 

A análise Profundo dos dados obtidos da Refinitiv Eikon e da Bloomberg revelou que instituições financeiras, incluindo Barclays, Royal Bank of Canada, Rabobank e Santander, geraram coletivamente bilhões de dólares em receitas de empréstimos e serviços de subscrição para as operações globais da JBS naqueles anos.

GW 3

Embora seu financiamento direto das operações brasileiras da JBS pareça ter sido mais limitado no período analisado, o Barclays tem sido há muito tempo o maior financiador internacional da empresa em todas as operações da JBS, continuando a dar suporte mesmo quando outros bancos se distanciaram do controverso frigorífico. 

Nossas descobertas se somam a mais de uma década de alegações contra a JBS, cujas ligações com a destruição ambiental e abusos de direitos humanos por meio de suas cadeias de suprimentos foram bem documentadas. 

A empresa removeu recentemente sua referência à “tolerância zero à invasão de áreas protegidas, como terras indígenas ou áreas de conservação ambiental” em seu último pedido de listagem de suas ações na Bolsa de Valores de Nova York.

GW 4

A análise do Profundo também examinou investimentos diretos e participações acionárias, indicando que instituições financeiras sediadas nos EUA embolsaram um total de US$ 660 milhões em investimentos da JBS globalmente. 

As gigantes de gestão de ativos Vanguard, BlackRock, Fidelity Investments e Capital Group detinham a maior parte, com Vanguard e BlackRock lucrando US$ 46 milhões cada com as operações brasileiras da JBS.

Nenhuma dessas instituições financeiras sediadas nos EUA comentou as alegações.  

GW 5

Separadamente, a Global Witness informou que a BlackRock e a Vanguard estão entre as seis empresas que detêm mais de US$ 11 milhões em títulos ativos emitidos pela JBS e suas subsidiárias por meio de fundos rotulados como “ambientais, sociais e de governança” (ESG).

Embora esses fundos excluam explicitamente empresas de combustíveis fósseis de seu portfólio, eles não excluem totalmente empresas ligadas ao desmatamento em seu processo de triagem.

A Global Witness contatou todas as instituições financeiras mencionadas neste relatório. Extratos relevantes das respostas recebidas estão disponíveis no  PDF da investigação .

Mama Parakanã disse à Global Witness: “Quero mandar uma mensagem aos bancos porque sofremos grandes perdas. Foi muito investimento. Às vezes, eles nem sabiam que era terra indígena. Então, estou dizendo a eles como eles são os culpados. A carne que saiu daqui, toda a nossa terra aqui, e a carne, tudo ilegal.”

Invasores ainda presentes

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Koxawewoxa Parakanã, vice-presidente da Associação Indígena Tato’a e líder parakanã que luta contra as invasões em Apyterewa, posa para um retrato. Cícero Pedrosa Neto / Global Witness

Os brancos estão vendendo carne para o mundo inteiro, mas é a nossa terra que eles estão destruindo- Koxawewoxa Parakanã, vice-presidente da Associação Indígena Tato’a e liderança Parakanã

Apesar da alegação do governo brasileiro de concluir as remoções em outubro do ano passado, invasores não indígenas permanecem no território Apyterewa, disseram membros da comunidade à Global Witness.

“Os brancos estão vendendo carne para o mundo inteiro, mas é a nossa terra que eles estão destruindo. Queremos que eles devolvam o dinheiro que ganharam”, disse Koxawewoxa Parakanã, vice-presidente da Associação Indígena Tato’a e líder Parakanã.

Riscos contínuos na cadeia de abastecimento

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A presença contínua de invasores levanta questões sobre como a carne bovina de Apyterewa ainda pode entrar nas cadeias de suprimentos dos principais frigoríficos hoje, apesar de suas alegações de práticas sustentáveis.

Esse risco destaca a necessidade de financiadores, como Barclays, Blackrock e outros, garantirem que seus investimentos não contribuam para o desmatamento ou invasões de terras, aponta Reid, da Global Witness.  

Nesse contexto, ela acrescentou, os governos também precisam se mobilizar e garantir que os bancos sejam obrigados a realizar verificações antes de financiar empresas que operam em setores que sabemos estarem regularmente ligados a abusos de direitos humanos, grilagem de terras e desmatamento.

“O setor financeiro não tem desculpa para fechar os olhos ao seu papel no financiamento de empresas que impulsionam o desmatamento.”


Fonte: Global Witness

Indústria da carne age para distrair, atrasar e inviabilizar ação climática, diz relatório

Trabalho de organização europeia analisou 22 das maiores empresas de carne e laticínios em quatro continentes

meat industry“Os novos comerciantes da dúvida” foi lançado esta semana. Imagem: Divulgação/Changing MArkets Foundation

Por Cristiane Prizibiscki para o “Eco”

Relatório divulgado esta semana pela organização holandesa Changing Markets Foundation revela o que seriam as principais práticas empregadas sistematicamente pelos gigantes mundiais da carne e dos laticínios que resultam em distração, atraso e inviabilização do enfrentamento da crise climática. Intitulado “Os novos comerciantes da dúvida”, o trabalho analisou as ações de 22 das maiores empresas de carne e laticínios do mundo – incluindo a brasileira JBS – em quatro continentes.

Segundo o relatório, o setor tem inviabilizado ações climáticas significativas a nível global por meio de lobby junto a políticos, investimentos maciços em publicidade para públicos mais jovens e uso de ciência enganosa para minimizar o impacto que suas atividades têm nas emissões de metano e disseminar falsas alegações climáticas. 

Documentos obtidos via leis de acesso à informação revelam, por exemplo, o extraordinário acesso que o setor tem a políticos. Somente na última década, representantes da indústria da carne e laticínios tiveram mais de 600 reuniões de alto nível com a Comissão Europeia.

“Memorandos internos revelam como o principal grupo europeu da indústria láctea celebrou a manutenção do metano fora da legislação sobre qualidade do ar e está a preparar-se para mantê-lo assim nas próximas revisões da lei previstas para 2025”, diz trecho do relatório.

Fazendo uma comparação às táticas usadas pelas indústrias do tabaco e dos combustíveis fósseis, o relatório também revela que as grandes empresas do setor empregam táticas como a intimidação e o medo sobre consumidores e pequenos agricultores, ao alegarem que leis mais restritivas, por exemplo, implicariam em prejuízos para tais públicos.

A pesquisa envolveu mais de 15 investigadores especializados e jornalistas de investigação e decorreu entre fevereiro de 2023 e junho de 2024. 

A investigação mostra que as grandes indústrias do setor estão especialmente preocupadas com as gerações mais jovens, que consomem menos carne e laticínios do que as gerações anteriores. Elas visam, diz o documento, a “Geração Z” (nascidos entre 1995 e 2010) com campanhas publicitárias enganosas no TikTok e no Instagram, promovendo falsamente a carne e os laticínios como escolhas sustentáveis ​​e mais saudáveis ​​em países de alto consumo como os EUA e o Reino Unido, contra as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os sistemas alimentares contribuem para aproximadamente um terço das emissões globais, sendo 60% provenientes da pecuária – a maior fonte de metano produzido pelo homem. No entanto, apenas 15 das 22 grandes empresas de carne e laticínios têm uma meta de emissões líquidas zero e nenhuma cumpre as normas da ONU. A Danone é a única empresa com uma meta específica de metano. 

“Tivemos as Grandes Indústrias do Tabaco, tivemos as Grandes Petrolíferas, agora temos as Grandes Carnes e Laticínios. ‘Os novos comerciantes da dúvida’ é uma exposição impressionante das táticas das grandes empresas de carne e laticínios. O relatório descreve exemplos específicos e flagrantes de campanhas de desinformação, greenwashing e interferência política. Esclarece como a indústria manipula o preço e os tipos de alimentos que comemos”, diz o pesquisador Paul Behrens, Professor Associado de Mudanças Ambientais na Universidade de Leiden, na Holanda.


Fonte: O (Eco)

A China está de olho no Brasil – mas será que esta crescente parceria BRICS será prejudicial para a Amazônia?

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Por Mônica Piccinini para o The Canary 

Nas últimas décadas, o investimento da China na região amazônica do Brasil cresceu e se ampliou significativamente , especialmente em setores como agricultura, mineração, infraestrutura e energia. No entanto, este influxo suscitou preocupações sobre as suas consequências ambientais e sociais. À medida que os debates se intensificam, o delicado equilíbrio entre o desenvolvimento económico e a preservação ecológica permanece incerto.

Este ano marcou o 50º aniversário das relações diplomáticas sino-brasileiras, mas a sua ligação inicial remonta a 1881, com o estabelecimento da primeira missão diplomática.

A relação do Brasil com a China intensificou-se com a formação do BRICS em 2009, uma organização intergovernamental composta por Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul. Além disso, Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos também passaram a fazer parte do grupo.

China-Brasil: uma parceria lucrativa

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Em 2023, o comércio bilateral entre as duas nações totalizou US$ 157 bilhões, com as exportações do Brasil para a China atingindo US$ 104 bilhões.

Um estudo publicado pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) em 2023 destacou o considerável potencial de exportação da região Norte do Brasil para a China, com projeções superiores a US$ 11 bilhões.

Assim como muitas outras colaborações que o Brasil estabeleceu com outras nações, sua parceria com a China parece se destacar como uma das mais lucrativas. Isto deve-se principalmente à extensa população da China e ao seu impulso crucial para a expansão e o progresso industrial para satisfazer as necessidades significativas do seu povo.

Embora os projetos e investimentos chineses no Brasil pareçam benéficos para ambas as partes, surgem preocupações quanto ao seu alinhamento com os padrões de desenvolvimento sustentável, particularmente na região Amazónica.

Há apreensão de que estas iniciativas possam contribuir para o desmatamento generalizado, a degradação florestal e as alterações climáticas, minando o papel da região como sumidouro de carbono. Essa degradação aumenta o risco de surgimento e propagação de doenças zoonóticas , representando uma ameaça substancial à saúde pública tanto para o Brasil quanto para a comunidade global.

João Cumarú, investigador da Plataforma CIPÓ (um instituto de investigação independente sem fins lucrativos) e estudante de mestrado em política e diplomacia chinesa na SIRPA (复旦大学, Fudan University, China), explicou ao The Canary :

Existem exemplos notáveis ​​e práticas louváveis ​​no território chinês. No entanto, é essencial realizar uma análise minuciosa para determinar se estas práticas serão replicadas em territórios além das fronteiras da China.

Pecuária

Em 2023, a China importou 2,2 milhões de toneladas de carne do Brasil, totalizando mais de US$ 8,2 bilhões.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de bovinos abatidos no país atingiu 29,8 milhões em 2022, um aumento de 7,5% em relação ao ano anterior. Em 2023, a produção de carne bovina aumentou para 8,91 toneladas em 2023, refletindo um aumento de 11,2% em relação a 2022.

A China é o principal destino das exportações brasileiras de carne bovina, suína e de frango. Há um total de 144 frigoríficos autorizados no Brasil para exportação para a China, sendo a maioria de propriedade da brasileira JBS, maior produtora de carne do mundo. No entanto, a JBS tem sido associada a questões como desmatamento, conflitos e degradação ambiental na floresta amazônica e nas regiões do Cerrado.

João Gonçalves, diretor sênior para o Brasil da Mighty Earth, disse ao The Canary:

Através do nosso monitoramento por satélite, ainda encontramos uma destruição desenfreada impulsionada pelas indústrias de carne e soja no Brasil. A gigante brasileira de carne bovina JBS está comprando de fornecedores que estão destruindo a natureza impunemente. Nossa última pesquisa identificou um total de 105 casos de desmatamento vinculados à JBS, abrangendo mais de 185 mil hectares de desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

Os planos da JBS de aumentar as exportações de carne bovina para a China significarão mais gado e mais apropriação de terras, com todo o impacto negativo que isso traz para as florestas, para as comunidades indígenas e para a vida selvagem que delas dependem. A JBS tem grandes planos de expansão, incluindo listagem na  Bolsa de Valores de Nova York . O acesso a mais fundos levará a mais destruição da natureza. Instamos a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA a bloquear a proposta de listagem da JBS na  NYSE devido ao seu impacto contínuo e descomunal nas mudanças climáticas e nos preciosos biomas do Brasil.

Em março, Carlos Fávaro, Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), anunciou que mais 38 frigoríficos brasileiros foram aprovados para exportar carne e derivados para a China:

Este é um momento significativo para ambos os lados. A China receberá carnes de alta qualidade a preços competitivos, garantindo produtos agrícolas para sua população, enquanto o Brasil ganha a certeza da criação de empregos, de oportunidades e do crescimento da economia brasileira. É um dia histórico na relação comercial Brasil-China, um dia histórico para a nossa agricultura.

Em 2023, a JBS fez parte de uma delegação enviada pelo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, à China, com o objetivo de negociar um novo acordo de exportação entre as duas nações.

Lula não parece hesitar em mostrar seu apoio inabalável à JBS e ao crescimento da pecuária no país, independentemente das consequências ambientais, como o desmatamento, as emissões de gases de efeito estufa e a violação dos direitos das comunidades tradicionais e indígenas.

A pecuária contribui para cerca de 80% do desmatamento na região amazônica. Os principais estados para a produção de gado na Amazônia brasileira são Mato Grosso, Pará e Rondônia.

processo de conversão de florestas em pastagens resulta em temperaturas elevadas, padrões de precipitação alterados e na escalada de eventos climáticos extremos. Essas condições perturbam a regulação climática e o ciclo da água, essencial para a produção agrícola no Brasil, resultando em perdas consideráveis.

Dr. Peter Alexander, professor sênior em sistemas alimentares globais e segurança na Universidade de Edimburgo, disse ao The Canary :

Devemos consumir menos carne, reduzir o desperdício alimentar, estabelecer um sistema mais eficiente e equitativo e abordar preocupações prementes de saúde humana, como a subnutrição e a obesidade. Como podemos enfrentar estes desafios em um sistema que atualmente não consegue promover tais resultados? Além disso, como transformamos este sistema para priorizar estes objetivos? Estas questões perduram, uma vez que estas questões são frequentemente consideradas politicamente arriscadas e potencialmente prejudiciais para o sucesso eleitoral.

Soja

O apetite voraz da China por produtos agrícolas estende-se à soja, que continua a ser o principal importador mundial , sendo o Brasil o maior produtor mundial.

Na safra 2022/2023, o Brasil alcançou mais um marco , estabelecendo um recorde ao colher cerca de 154,6 milhões de toneladas de soja, refletindo um notável aumento de 23% em comparação com a produção do ano anterior de 125,5 milhões de toneladas. Em 2023, as importações chinesas de soja do Brasil atingiram 69,95 milhões de toneladas, um aumento de 29% em relação ao ano anterior.

O Brasil implementou um acordo de moratória da soja, onde as empresas participantes se comprometem a não comprar soja de fazendas onde o cultivo de soja tenha levado ao desmatamento de terras no bioma Amazônia após 22 de julho de 2008. Esta iniciativa visa erradicar o desmatamento do processo de produção de soja.

Apesar das inúmeras promessas da China National Cereals, Oil and Foodstuffs Co (Cofco) para combater o desmatamento e melhorar suas cadeias de abastecimento, uma investigação da Repórter Brasil revelou que, em 2021, a empresa adquiriu soja de regiões desmatadas no estado de Mato Grosso, situadas tanto no Regiões Cerrado e Amazônica, por meio de fornecedores indiretos.

As empresas chinesas expandiram substancialmente a sua presença no Brasil através de fusões e aquisições. Por exemplo, Hunan Dakang, do grupo Shanghai Pengxin, detém uma participação de 57% na Fiagril, uma empresa brasileira especializada no fornecimento de insumos agrícolas, como soja, milho, fertilizantes, e na prestação de apoio técnico aos agricultores.

Questionado sobre o volume de comércio entre o Brasil e a China e a dependência do Brasil daí resultante, Cumarú disse ao The Canary:

Atualmente, a China pode ver o Brasil como um mercado significativo e um exportador de commodities. Contudo, as tendências históricas sugerem que não dependerão apenas de um fornecedor para satisfazer as suas necessidades. Há uma tendência para a diversificação das fontes de energia e o avanço das tecnologias para o desenvolvimento e restauração de terras na China. O governo brasileiro deveria monitorar de perto esta tendência.

Além disso, o nosso foco não deve ser apenas nas expectativas de investimento; devemos também aumentar e integrar os ganhos destes investimentos. Um aspecto crucial em que falhamos é a transferência de tecnologia, que poderia potencialmente diminuir a dependência do Brasil da China.

À medida que a produção de soja se expande, torna-se necessário o desenvolvimento de corredores logísticos para facilitar o escoamento dos grãos para os portos, reduzindo assim os custos de frete. Isto motivou numerosos investimentos em infra-estruturas, incluindo projectos rodoviários e ferroviários.

A infraestrutura

Os investimentos chineses na infra-estrutura amazónica concentram-se principalmente na construção de barragens, estradas, portos e sistemas ferroviários. Estas iniciativas visam melhorar as rotas de transporte e reduzir os custos associados à exportação de mercadorias para a China.

A China Communications Construction Company (CCCC) detém uma participação de 80% na construtora brasileira Concremat e participa de diversos projetos na região amazônica.

Os logotipos da CCCC e da Concremat são apresentados no site do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) em conexão com a pavimentação da rodovia BR-319 na Amazônia. Essa rodovia tem 885,9 km de extensão e liga a capital central da Amazônia, Manaus, a Porto Velho, situada no extremo sul da floresta.

A pavimentação da rodovia BR-319 tem o potencial de desencadear desmatamento generalizado, degradação ambiental, declínio da biodiversidade, deslocamento de comunidades indígenas, aumento da disseminação de doenças infecciosas, aumento da mineração e extração ilegal de madeira e escalada do crime organizado.

No ano passado, o governador do Pará, Helder Barbalho, assinou um acordo em Pequim, na China, na presença do vice-presidente da China Communications Construction Company (CCCC), abrindo caminho para a construção da Ferrovia do Pará. Esta ferrovia ligará Marabá ao porto de Vila do Conde, em Barcarena.

Outro projeto significativo é o Ferrogrão (EF-170), um empreendimento ferroviário greenfield de 933 km projetado para ligar Sinop, no estado de Mato Grosso, a Itaituba, no estado do Pará. Essa ferrovia passa por áreas de proteção ambiental e territórios indígenas na região amazônica.

Em 2022, os empreendimentos greenfield caracterizaram predominantemente a entrada de investimentos chineses no Brasil, respondendo por 59% do total de projetos.

A Ferrogrão tem recebido apoio de grandes players do agronegócio, como Cargill, Bunge, Louis Dreyfus e Amaggi, motivados pelo seu objetivo principal de exportar commodities para a China e a Europa com custos reduzidos. No entanto, este projeto levanta preocupações sobre o aumento do desmatamento, degradação e violações ambientais. Ela deverá impactar inúmeras comunidades indígenas, incluindo os povos Kayapó, Mundukuri e Panará, que denunciam a ferrovia como os “trilhos da destruição”.

Minerais preciosos

A Amazônia brasileira é um ponto focal para a extração de matérias-primas como parte das agendas nacionais e estaduais de desenvolvimento econômico. Consequentemente, a região está a testemunhar vários desafios socioeconómicos e ambientais.

O Brasil é uma potência na indústria de mineração global, com capacidade significativa de produção e exportação de minerais brutos e processados. Isto inclui recursos vitais como ferro, ouro, minério de cobre e bauxita – a principal fonte de alumina e alumínio.

Bacarena, localizada no estado do Pará, é um pólo crucial para essas atividades. A região abriga substanciais depósitos de bauxita, concentrados principalmente em três distritos principais: Trombetas, Almeirim e Paragominas-Tiracambú. Isso posiciona o Brasil como um dos maiores detentores mundiais de potencial de bauxita .

Em webinar organizado pelo CEBC em fevereiro, Ricardo Biscassi, chefe de relações externas da mineradora brasileira Vale e diretor do CEBC, revelou :

As exportações totais de minério de ferro do Brasil em 2023 para todos os países foram de 380 milhões de toneladas. Desse total, 64%, ou seja, 242 milhões de toneladas, foram enviadas para a China, mostrando a relevância que a China tem no mercado de minério de ferro, e obviamente no mercado de aço, estes 242 milhões de toneladas que foram exportadas para a China, 76 % veio da Vale.

Em fevereiro, uma delegação chinesa composta por representantes da Zhuhai Sino-Lac Chain Co., Guangdon Nonfengbao e Hohai University visitou o estado do Pará, declarando sua intenção de investir em diversos setores da região, inclusive colaborando em um projeto de biofertilizante com Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra).

Um dos principais atrativos para os investidores chineses no estado do Pará é o município de Bacarena, que faz parte da Zona de Processamento de Exportações (ZPE) do Brasil . Esta zona oferece uma variedade de incentivos, tais como isenções fiscais, tornando-a altamente atrativa para investidores estrangeiros.

Aproximadamente 60% do que é produzido no Pará, segundo maior estado da região amazônica, é exportado para a China. Em 2023, o setor mineral representou 84% das vendas externas do Pará. O ferro responde por 80% dessas exportações, sendo um material indispensável para o mercado de construção civil da China.

Cumarú disse ao The Canary:

Há uma questão persistente que permanece sem solução. Embora se entenda que o governo chinês tenha implementado políticas de crédito verde para empresas que operam internacionalmente, tais como directrizes para empreendimentos mineiros no estrangeiro, há incerteza quanto ao nível de cumprimento destas políticas. Parece que não há um compromisso significativo por parte da China. Considerando os volumes substanciais de investimento e comércio da China, isto suscita inegavelmente preocupações.

Em abril, a Câmara de Comércio Exterior do Brasil (Camex) decidiu aumentar em até 25% o imposto de importação de 11 produtos siderúrgicos, com o objetivo de reduzir as importações de aço da China. Esta ação foi tomada em resposta ao influxo substancial de aço chinês que inunda o mercado brasileiro com taxas de desconto.

O lítio representa outro recurso incrivelmente valioso. A China está de olho em uma potencial joint venture ou aquisição da mineradora canadense Sigma, situada no estado de Minas Gerais. O objetivo é aprimorar as operações de produção de baterias da empresa chinesa BYD em Manaus, capital do Amazonas. A BYD começou a construir uma fábrica de automóveis em Camaçari, na Bahia, um investimento de aproximadamente US$ 3 bilhões.

Devemos permanecer conscientes da escassez de água como um desafio global adicional. As projecções indicam que, já em 2030, a procura global de água doce deverá exceder a oferta disponível em 40 a 50%, afectando tanto os sectores industriais castanhos como os verdes. Existe a possibilidade de que a indústria chinesa, actualmente concentrada na Ásia, se desloque para países abundantes em recursos hídricos, como o Brasil, incluindo a região Amazónica.

Energia

A China fez investimentos significativos no setor energético do Brasil. A State Grid Brazil Holding SA, uma empresa estatal chinesa de energia, detém o controle de 24 empresas nacionais de transmissão de energia no Brasil, incluindo aquelas que operam na região amazônica.

A State Grid anunciou planos de investir US$ 3,6 bilhões para atualizar as linhas de transmissão de energia no Brasil, juntamente com US$ 38 bilhões extras no setor energético brasileiro. Eles garantiram uma licitação para construir 1.500 km de linhas nos estados do Maranhão, Tocantins e Goiás, o que inclui a construção de subestações. Além disso, a empresa já gerencia o projeto de transmissão UHVDC de Belo Monte, com 2.500 km de extensão.

Em dezembro de 2023, a State Grid garantiu o maior leilão de transmissão de energia do Brasil, ganhando direitos para construir mais de 4.471 km de novas linhas de transmissão nos estados de Goiás, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e Tocantins.

Outra empresa estatal chinesa, a Three Gorges Corporation, administra 12 usinas hidrelétricas, três das quais estão situadas na região amazônica. Estas incluem Cachoeira Caldeirão, no estado do Amapá, Santo Antonio do Jari, na divisa entre os estados do Pará e Amapá, e a usina hidrelétrica de São Manoel, situada no rio Teles Pires, na divisa com os estados de Mato Grosso e Pará.

Numerosas iniciativas de desenvolvimento de infra-estruturas na região Amazónica suscitaram controvérsia devido ao seu potencial para aumentar a desflorestação, a degradação, a urbanização, o trânsito e os conflitos em áreas remotas de floresta tropical. Esses projetos afetam diretamente as comunidades tradicionais e indígenas, além do meio ambiente.

A hidrelétrica e o reservatório de Belo Monte, localizados ao longo do rio Xingu, na região amazônica do Pará, servem como exemplo do impacto negativo que projetos de infraestrutura de grande escala podem ter em áreas de biodiversidade, incluindo o deslocamento de comunidades, o aumento do desmatamento e o degradação do ecossistema aquático do Rio Xingu.

Propriedade intelectual

A floresta amazónica está emergindo como um mercado-chave para bioprodutos, chamando a atenção tanto a nível nacional como internacional pela sua riqueza de oportunidades na promoção de uma bioeconomia.

Até 2022, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) do Brasil identificou 43.400 patentes de inovações envolvendo a flora amazônica registradas globalmente. A China liderou a contagem com 18.965 pedidos, seguida pelos EUA com 3.778.

O patenteamento de produtos derivados de recursos genéticos amazônicos sem repartição justa dos benefícios com as comunidades locais e sem respeitar seus direitos levanta preocupações significativas. Dada a vasta riqueza de material genético da Amazônia, esta situação poderia potencialmente alimentar o tráfico ilícito de produtos florestais (biopirataria).

Relações China-Brasil: em alerta máximo

Existem inúmeras incertezas em relação às consequências socioambientais de alguns investimentos chineses na região amazônica e no Brasil, bem como sobre como a população local ganhará com a exploração extensiva de recursos naturais e o desenvolvimento de infraestrutura em zonas ambientalmente delicadas como a Amazônia. .

O aumento da procura de mercadorias por parte da China poderá levar a uma exploração desenfreada dos recursos naturais do Brasil e da Amazónia e ao aprofundamento da dependência do país em relação à China.

Cumarú contou ao The Canary sobre a dinâmica da política externa chinesa:

Um dos princípios que norteiam a política externa chinesa é a não interferência nos assuntos internos de outras nações. Aderem às regras de envolvimento nos países onde investem, absolvendo-se efectivamente de questões em que possam estar directa ou indirectamente envolvidos.

O apelo por uma abordagem mais proativa por parte do governo chinês só poderá ganhar força se partir do governo brasileiro, liderado pelo presidente e pelos ministérios relevantes.

Em abril, a China e o Brasil firmaram um acordo bilateral que inclui a colaboração em televisão entre a Agência de Notícias Xinhua do China Media Group e a Brasil Communications Company ( EBC ). Em 2019, o Grupo Bandeirantes no Brasil também assinou um acordo com o China Media Group, com foco em produções conjuntas e compartilhamento de conteúdo.

Os ministérios da cultura do Brasil e da China reuniram-se no dia 25 de abril para explorar oportunidades de intercâmbio cultural entre os dois países, abrangendo cinema, publicações, bibliotecas, museus, patrimônio e direitos autorais.

Existem preocupações crescentes sobre potenciais esforços para influenciar, regular e limitar a disseminação de informações no Brasil, uma vez que há dúvidas sobre se a China poderá procurar promover as suas ideologias políticas, económicas e sociais. Tais ações poderiam potencialmente representar riscos tanto para o meio ambiente, incluindo a região amazônica, quanto para os interesses soberanos da população brasileira.

O futuro da Amazônia, do Brasil e da sustentabilidade ambiental global é fortemente influenciado pela relação entre o Brasil e a China. Com o seu poder considerável, estes dois intervenientes principais têm o potencial para enfrentar a destruição ambiental em curso e proteger os direitos indígenas na região. O mundo estará acompanhando de perto os desenvolvimentos desta parceria.

O BRICS Policy Center não respondeu a um pedido de entrevista.


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Fonte: The Canary

JBS e Burger King pagam estudos que minimizam culpa da pecuária na crise do clima

Indústria da pecuária nos Estados Unidos investe em universidades e pesquisadores para ‘obstruir políticas climáticas’, segundo estudo da Universidade de Yale e Universidade de Miami

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Empresas e associações com atuação nos Estados Unidos investem mais de R$ 30 milhões para centros de estudos realizarem pesquisas e comunicações prioritárias à indústria (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Por Hélen Freitas/ Edição de Diego Junqueira para a Repórter Brasil

A JBS USA, subsidiária da companhia brasileira nos Estados Unidos, e o Burger King, rede controlada por um grupo de investidores brasileiros, estão financiando pesquisas de universidades públicas norte-americanas que minimizam o impacto da pecuária sobre o aquecimento global. Esse apoio faria parte de uma estratégia da indústria da carne para “obstruir” políticas climáticas desfavoráveis ao setor e conquistar a opinião pública.

Essas são as conclusões de um estudo publicado na revista científica Climatic Change e assinado por pesquisadoras da Universidade de Yale e da Universidade de Miami, nos Estados Unidos.

Elas analisaram as atividades de dois centros de estudo apoiados pela indústria da carne: o AgNext, da Universidade Estadual do Colorado, e o Centro Clear, da Universidade da Califórnia em Davis, que pesquisam as emissões de gases de efeito estufa na pecuária. 

As pesquisadoras apontam conflitos de interesses na relação entre empresas e universidades, pois os centros de estudo não atuam apenas na produção acadêmica, mas também prestam outros serviços para seus financiadores do agronegócio, como atividades de relações públicas e campanhas de comunicação, participação em reuniões governamentais, entre outros. 

“Esses centros frequentemente minimizam as contribuições da pecuária para a crise climática, promovem ‘soluções’ tecnológicas que favorecem a indústria e minimizam a necessidade de regulamentações das emissões de gases de efeito estufa pelo gado”, afirma Viveca Morris, da Universidade de Yale, em entrevista por e-mail à Repórter Brasil.

Entre os feitos alcançados pelos “cientistas da pecuária”, de acordo com o estudo, estão uma interferência no Guia Alimentar dos EUA, que excluiu uma menção à necessidade de redução no consumo de carne, além do apoio a um projeto de lei que impediria as Forças Armadas do país a aderir ao movimento “segunda-feira sem carnes”.

Segundo o estudo publicado na Climatic Change, esses cientistas emprestam seu prestígio universitário e apostam em controvérsias científicas para, na prática, fazer lobby em prol de interesses privados. É o que as pesquisadoras chamam no artigo de “captura corporativa de instituições acadêmicas”.

“As empresas contratam pesquisadores para serem testemunhas em processos legais, ajudar a estabelecer metas regulatórias, escrever conteúdos para redes sociais, desenvolver e manter sites. E os conflitos de interesse dos pesquisadores possivelmente nunca serão divulgados publicamente”, afirma o estudo, que é assinado por Morris e por Jennifer Jacquet, da Universidade de Miami.

Brasil lidera o ranking de maior rebanho do mundo, com mais de 234 milhões de cabeças (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Financiamento de pesquisas e conteúdos pagos

Segundo o levantamento, a indústria pecuária dos Estados Unidos investiu, entre 2018 e 2023, US$ 6,4 milhões (equivalente a R$ 32,3 milhões) nos dois centros de estudo em questão

O principal investidor foi a American Feed Industry Association (Afia), a associação norte-americana da indústria de alimentação, da qual a JBS faz parte. Por meio de seu braço educacional, ela aplicou US$ 2,8 milhões (cerca de R$ 14,5 milhões) no centro de estudos da Universidade da Califórnia, o Clear (sigla que pode ser traduzida para Clareza e Liderança para Conscientização e Pesquisa Ambiental). Este centro recebeu também aporte de US$ 106 mil (R$ 547 mil) diretamente do Burger King. O Clear é coordenado por Frank Mitloehner, que se autodenomina como “guru dos gases do efeito estufa”.

Já a filial norte-americana da JBS aplicou US$ 203 mil (cerca de R$ 1 milhão) no centro de estudos da Universidade Estadual do Colorado, o AgNext, que é coordenado atualmente por uma ex-aluna do “guru”, Kimberly Stackhouse-Lawson, ex-diretora de sustentabilidade da JBS USA. Para destacar os “esforços para construir uma pecuária sustentável”, a empresa também bancou conteúdos pagos sobre o centro de pesquisas em veículos jornalísticos, como o Wall Street Journal e o Politico.

Entre outras financiadoras destes dois centros estão a empresa de confinamento de gado Five Rivers Cattle Feeding, o programa National Pork Board (vinculado ao Departamento de Agricultura dos EUA, para promover a carne suína), a companhia de nutrição animal Diamond V (subsidiária da Cargill) e a associação Beef Alliance. 

JBS financiou e promoveu centros de pesquisas que minimizam impacto da pecuária às mudanças climáticas (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Guru da pecuária defende nova forma de medir gases de efeito estufa

O Clear é o mais influente. Criado em 2019 por meio de uma parceria entre Mitloehner, o “guru”, e a associação da indústria alimentícia (Afia), o centro mantém um conselho com representantes de seus financiadores para receber sugestões para pesquisas e campanhas de comunicação, como mostram documentos do Clear revelados em reportagem da Unearthed.

A partir de 2020, Mitloehner passou a defender uma nova forma de medir os gases de efeito estufa, chamada de GWP*, pela qual se busca a “neutralidade climática” e não a “neutralidade de carbono”. 

Para serem neutras em carbono, as emissões devem ser totalmente compensadas, ou seja, o saldo líquido deve ser zero. Já para ser “neutro em clima”, basta reduzir o nível de emissões. Por essa alternativa, se uma indústria diminui as emissões de gás metano pelo gado, ela pode ter seu impacto climático considerado como “positivo”.

O metano é um gás produzido pela digestão de bovinos, e liberado principalmente pelo arroto dos animais. Ele é o segundo gás de efeito estufa provocado pelo homem mais abundante na atmosfera, atrás apenas do dióxido de carbono (CO2), gerado pela queima dos combustíveis fósseis, queimadas e desmatamento.

De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (Pnuma), a pecuária responde por um terço das emissões de gás metano causadas pelo homem, e a redução dessas emissões é “fundamental na batalha contra as alterações climáticas”.

Porém, Mitloehner defende que o metano proveniente do gado não tem o mesmo impacto de aquecimento que o proveniente de combustíveis fósseis, e que a pecuária não é uma grande impulsionadora das mudanças climáticas em comparação com esse outro setor.

Em entrevista à Repórter Brasil, Mitloehner afirma que a redução dos níveis de metano teria um impacto significativo em nosso clima. “Uma redução de aproximadamente 30% no metano ao longo de 20 anos compensaria outros gases de efeito estufa da pecuária e resultaria em um aquecimento negativo no setor”, ele diz.

Para Morris e Jacquet, essa é uma tentativa de minimizar os impactos do setor e impedir que haja políticas públicas mais duras. Elas avaliam que esse discurso foi comprado pela indústria. A associação da indústria alimentícia descreve Mitloehner como uma voz “neutra e confiável” para “repórteres e grupos impactados em conferências e outras reuniões governamentais importantes”.

Em artigo científico publicado em dezembro na Environmental Research Letters, o pesquisador Gaspar Donnison, da Universidade de Southampton, aponta como a indústria tem estimulado o uso dessa nova forma de medir a emissão de gases de efeito estufa, e afirma que isso seria um erro.

“Usando o GWP*, um setor pecuário com emissões de metano altas, mas em declínio ao longo dos anos, pode afirmar ser neutro em termos climáticos. Essa lógica já aparece em alguns estudos como ‘efeito de resfriamento’, o que é enganoso, já que não está resfriando a atmosfera, apenas a aquecendo ligeiramente menos”, escreve Donnison.

“Isto corre o risco de minar a ciência climática, confundindo empresas, consumidores e decisores políticos. Estas recentes alegações de neutralidade climática distraem-nos do desafio urgente de reduzir as emissões de todos os gases com efeito de estufa de todos os setores, incluindo a agricultura”, ele completa.

Considerando o cenário brasileiro, os cientistas da pecuária ignoram também o fato de que a atividade está relacionada à destruição de mata nativa para abertura de pastagens, algo particularmente frequente na Amazônia. 

Estudos apontam que mais de 70% das emissões no país estão ligadas ao agronegócio, e, mais especificamente, com a mudança do uso do solo, como desmatamento e conversão de florestas em pastagens. Os municípios de Altamira e São Félix do Xingu (PA), que possuem os maiores rebanhos do país, são os campeões em emissões de gases do efeito estufa.

Repórter Brasil enviou a Mitloehner os dados sobre as emissões de gases pela pecuária brasileira, grande fornecedora de carne ao mercado dos Estados Unidos, mas o pesquisador afirmou desconhecê-los.

Desmatamento para conversão de florestas em pastagem piora o cenário do Brasil na emissão de gases de efeito estufa pela pecuária (Foto: Daniel Beltrá/Greenpeace)

Pesquisas não têm revisão de cientistas do clima

Apesar de ser conhecido como “guru” do efeito estufa, Mitloehner é criticado por Morris e Jacquet por não ter se apresentado em grandes conferências de ciências climáticas e também por nunca ter contribuído como autor para um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) – grupo de cientistas estabelecido pelas Nações Unidas para monitorar a ciência relacionada às mudanças climáticas. 

Suas publicações são frequentes em revistas de ciência animal, sua especialidade, em vez das relacionadas ao clima. Nem sempre ele divulga o financiamento que recebe da indústria. “Os revisores e editores de artigos publicados em revistas de ciência animal são diferentes dos de revistas de ciências climáticas”, afirma Morris.

O “guru” veio ao Brasil em 2022 para participar do Fórum Metano na Pecuária, realizado pela JBS. O título de sua palestra: “Não precisamos eliminar a pecuária para parar o aquecimento global”. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, afirmou que a pecuária pode ser uma solução para as mudanças climáticas.

À Repórter Brasil, o pesquisador disse que não há interferência da indústria em assuntos investigados, metodologias ou resultados de pesquisas que saem de seu laboratório ou do centro de estudos Clear. “Minha pesquisa passa por uma rigorosa revisão por pares e pela análise pública e se sustenta”.

A assessoria de imprensa da JBS USA afirmou que o investimento em projetos de pesquisa faz parte de suas iniciativas em sustentabilidade. Já a Afia, por meio do seu braço educacional (Ifeeder), informou que o apoio ao Centro Clear “tem como objetivo reduzir a insegurança alimentar e o desperdício de alimentos, enquanto utilizam pesquisas científicas para mostrar como o setor de agricultura animal pode ser mais sustentável”. (Leia aqui as respostas completas). 

Para Stackhouse-Lawson, do AgNext, é comum que a indústria e o governo financiem programas, equipamentos e até mesmo estudos no setor. Porém, ela nega haver interferência. “A pesquisa universitária é independente e objetiva. As fontes de financiamento não têm influência nos resultados dos estudos”, diz.

O Burger King e a AFIA foram procurados, mas não retornaram até o momento. O espaço segue aberto para manifestações.

Viveca Morris, da Universidade de Yale, afirma que a indústria da pecuária se promove cada vez mais como parte da solução para as mudanças climáticas, mas na verdade são grande parte do problema. “O potencial de mitigação das medidas tecnológicas disponíveis para reduzir as emissões da pecuária é limitado. Diante disso, a solução para diminuir as emissões passa pela redução da produção e do consumo de produtos de proteína animal em sociedades de alto consumo”, afirma.


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Fonte: Repórter Brasil

Assembleia da JBS: Proteção Animal Mundial projeta imagens de protesto contra a empresa em São Paulo

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São Paulo, 26 de abril de 2024- Na noite de quinta-feira (25/04), véspera da assembleia geral da JBS, que será realizada nesta sexta-feira (26/04), a organização não-governamental Proteção Animal Mundial, em parceria com a rede Projetemos, projetou imagens em três endereços da capital paulista chamando a atenção para ações da empresa que trazem impactos para o meio ambiente, para os animais e para a sociedade.

As projeções foram feitas nos bairros Perdizes e Bela Vista, em duas lojas Swift – marca que integra o portfólio da JBS –, local de venda de carnes bovina, suína e de frango da empresa diretamente no varejo. O terceiro local foi a Avenida Consolação,escolhido pelo grande movimento de pessoas. 

As mensagens da Proteção Animal Mundial destacam os maiores impactos causados pela agropecuária industrial da JBS, como desmatamento, queimadas e sofrimento animal. Esse modelo tem provocado ainda desigualdade social e tem sido um dos maiores contribuintes para a mudança climática. 

“A escolha das mensagens projetadas não são baseadas em opinião, mas sim, em evidência de relatórios e pesquisas de campo, tudo publicado em importantes veículos de imprensa. Essa relação da JBS com o desmatamento e os impactos sobre a nossa sociedade não é algo recente. Por isso, essa ação tem como objetivo chamar a atenção da sociedade para a empresa, ao mesmo tempo em que acontece a assembleia-geral, já que é lá que estarão seus acionistas e executivos com salários astronômicos. Esse é o momento em que planejam meios de gerar ainda mais lucros, às custas do meio ambiente, dos animais e das pessoas”, alerta Marina Lacôrte, gerente de sistemas alimentares da Proteção Animal Mundial.

Saiba mais sobre as palavras e expressões projetadas:

Destruição e Desmatamento

A empresa tem um histórico antigo de desmatamento em sua cadeia, e segue sendo o foco de denúncias recentes também ao adquirir os grãos que alimentam bovinos, porcos e galinhas, conforme mostrou o relatório da Proteção Animal Mundial “Prática atrasada, terra arrasada”. O documento mostra ainda que fornecedores da JBS se apropriaram ilegalmente de terras, impactando a vida silvestre e desrespeitando as comunidades tradicionais.

Um monitoramento realizado por organizações ambientalistas mostrou, recentemente, que fazendas ligadas à cadeia de suprimentos da JBS na Amazônia e no Cerrado desmataram novas áreas no último ano — parte delas com indícios de ilegalidade. Auditoria das fazendas que abastecem diretamente a JBS no Pará revelou, em 2022, que  16,7% delas – ou seja, uma em cada seis – praticou desmatamento para abrir pastagem para o gado

Mudança Climática

Um estudo do Observatório do Clima mostrou que os sistemas agroalimentares no Brasil representam 74% das emissões de gases de efeito estufa no país, sendo o fator principal a conversão de uso do solo para implantação de atividade agropecuária, e mostrando que a pecuária industrial é o setor que mais impacta no resultado final. Já no relatório “Ranking dos vilões da pecuária”, a Proteção Animal Mundialclassifica as cinco gigantes mundiais da pecuária industrial intensiva de acordo com a quantidade de emissões de gases de efeito estufa e sua cadeia de produção de carne suína e de frango. A brasileira JBS, maior produtora de carne do mundo e detentora das marcas Seara, Swift e Friboi,lidera o ranking desses poluidores, sendo responsável por emissões equivalentes a 14 milhões de carros em circulação a cada ano.

Queimadas

Em 2022, cerca de mil hectares de floresta amazônica queimaram na Fazenda Rondon, no Mato Grosso. A área havia sido desmatada ilegalmente nos meses anteriores. Essa fazenda forneceu dezenas de lotes de gado para a JBS. A JBS também admitiu ter comprado 9 mil cabeças de gado de três fazendas em Rondônia com desmatamento ilegal, todas vinculadas a uma quadrilha de desmatadores cujo líder está preso, condenado a 99 anos de cadeia. Vale destacar ainda que, em julho de 2019, a JBS comprou gado de um fornecedor responsabilizado por destruir, a corte raso, 50 hectares de vegetação nativa no interior da área de conservação.

Sofrimento animal  

É um fato que a pecuária industrial condena bilhões de animais, desde o momento em que nascem até serem mortos. A vida dos porcos, galinhas e bovinos é repleta de violências e privações. Nesse sistema, animais são criados em espaços minúsculos, sem poder se mexer, com altas cargas de antibióticos (muitas vezes de maneira profilática para que o estresse a que são submetidos não se converta em doença) e ainda sofrem diversos tipos de mutilações. O desmatamento que persiste nas cadeias do setor, torna a atividade responsável também pelo sofrimento de diversos animais silvestres ao destruir seus territórios.

Em 2018, uma investigação da Mercy for Animal registrou funcionários da JBS matando porcos de forma bastante cruel. O tratamento dado aos bois tampouco segue as recomendações do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e as práticas dos fornecedores da JBS já violaram a política de bem-estar animal estabelecida pela própria empresa, conforme também já mostrou aRepórter Brasil.

Considerando todo o histórico da JBS em não dar a devida atenção para a rastreabilidade e conformidade total de todos os seus fornecedores e atividades que compõem sua cadeia, não há qualquer garantia de que cenas crueis como as já expostas anteriormente não sigam acontecendo.

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Desigualdade

Um novo relatório intitulado “Os custos ocultos do monopólio industrial da carne” mostrou que em regiões onde a JBS tem presença significativa, houve um aumento notável na dependência de programas de assistência governamental, como o Bolsa Família, mostrando que, embora o crescimento financeiro da JBS eclipse o PIB de muitos estados brasileiros, a sua riqueza não é distribuída ou voltada para melhorar as condições de vida nestas áreas. Segundo o mesmo relatório, enquanto mais de 100 mil trabalhadores da JBS ganham um salário médio de R$ 1.700 mensais – um terço do que é estimado como salário digno no Brasil, – cada um dos cinco principais executivos da JBS fatura cerca de R$ 2 milhões por mês. 

JBS: pecuarista multado por desmate com ‘agente laranja’ no Pantanal abasteceu frigorífico

Claudecy Oliveira Lemes é dono da Fazenda Monique Vale, fornecedora de duas unidades do frigorífico no Mato Grosso. A fazenda recebe gado para engorda de ao menos 4 das 11 propriedades onde 81,1 mil hectares foram desmatados quimicamente, no maior dano ambiental já registrado no estado

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Área no Pantanal atingida por desmatamento químico investigado pela Operação Cordilheira da Delegacia Especializada do Meio Ambiente do estado (Foto: Polícia Civil e Sema-MT)

Por André Campos e Poliana Dallabrida/ Edição Bruna Borges para a Repórter Brasil

O pecuarista Claudecy Oliveira Lemes foi alvo de uma operação da Polícia Civil do Mato Grosso pelo desmatamento ilegal de 81,2 mil hectares em onze propriedades no município de Barão de Melgaço (MT) na última semana. A devastação foi realizada com a pulverização aérea de 25 tipos de agrotóxicos e é descrita pelas autoridades estaduais como o maior dano ambiental já registrado no Mato Grosso.

Lemes é também proprietário da Fazenda Monique Vale, localizada em Pedra Preta (MT), a 232 km de onde o desmatamento químico foi registrado. Ao longo do último ano, a propriedade enviou gado para ser abatido nas unidades da JBS em Barra do Garças e Pedra Preta (MT), segundo dados de Guias de Trânsito Animal (GTAs) acessados pela Repórter Brasil. Parte dos envios foram registrados em nome do próprio Claudecy Lemes, e parte em nome de André de Moraes Zucato, parceiro rural de Lemes na criação de animais dentro da fazenda.  

A Fazenda Monique Vale recebe gado de outras propriedades de Lemes para a sua engorda final anterior ao abate. Entre as fornecedoras dos animais estão as fazendas Soberana, Santa Lúcia, Indiana e Reunidas São Jerônimo, 4 das 11 propriedades investigadas pelo desmatamento químico em Barão de Melgaço.

Pelo crime ambiental, Claudecy Lemes foi multado em mais de R$ 2,8 bilhões, a maior multa já registrada pela Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema-MT). Segundo levantamento da Delegacia Especializada do Meio Ambiente (Dema) da Polícia Civil do estado, o produtor gastou mais de R$ 9,5 milhões em agrotóxicos para realizar a devastação.

A investigação aponta que entre os 25 agrotóxicos utilizados para desmatar a área está o herbicida 2,4-D, um dos compostos usados na fabricação do “agente laranja”, conhecido pelo potencial destruidor, usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. O caso foi noticiado em reportagem do programa Fantástico, no último domingo (14).

Onze propriedades onde ocorreu o desmatamento químico (Imagem: Polícia Civil e Sema-MT)
Onze propriedades são investigadas por desmatamento químico (Imagem: Polícia Civil e Sema-MT)

A reportagem entrou em contato com a defesa de Claudecy Lemes, que não respondeu os questionamentos enviados até o fechamento desta matéria. A Repórter Brasil também tentou contato com o produtor André Zucato por meio de suas empresas, mas não obteve retorno. O espaço permanece aberto para manifestações futuras.

A JBS respondeu àRepórter Brasil que seis fazendas cadastradas em nome de Claudecy Lemes estão bloqueadas pela empresa, sem esclarecer, contudo, quais propriedades e a data em que o bloqueio ocorreu. “Em todos os biomas, a Política de Compra Responsável de Matéria-Prima da Companhia impede a aquisição de animais em propriedades com desmatamento ilegal, terras indígenas, territórios quilombolas ou unidades de conservação ambiental”, afirmou o frigorífico. Em relação ao produtor André Zucato, a empresa afirmou que o pecuarista está inserido na Plataforma Pecuária Transparente, sistema de monitoramento de compras da JBS, e que está “fazendo o acompanhamento de seus fornecedores”. Leia o posicionamento completo da empresa aqui.

Acordo descumprido

Entre 2015 e 2019, o Ministério Público do Mato Grosso identificou 1.370 hectares desmatados ilegalmente na Fazenda Soberana, uma das propriedades que fornecem gado para a Fazenda Monique Vale. A área foi embargada pela Sema-MT em 2020. O pecuarista assinou um Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público se comprometendo a não realizar novos desmatamentos na propriedade e a realizar o pagamento de uma multa de R$ 7 milhões em indenização pelo dano ambiental. O acordo, no entanto, foi descumprido de acordo com o órgão, e novos desmatamentos foram registrados na investigação da Polícia Civil que detectou o uso de agrotóxicos.

Ao todo, Lemes possui 6 fazendas com áreas embargadas pela Sema-MT. Além da Fazenda Soberana, 5.345 hectares foram desmatados ilegalmente nas fazendas Indiana e Santa Lúcia. Os embargos nas propriedades estão vigentes desde 2022. 

confirmando a autoria e causa entre o desfolhamento das espécies nas áreas das propriedades investigadas (Polícia Civil e Sema-MT)
Durante a investigação foram encontradas diversas embalagens dos produtos químicos e agrotóxicos, confirmando a causa para o desfolhamento das árvores nas áreas das propriedades investigadas (Foto: Polícia Civil e Sema-MT)

Desmate químico

Amostras da vegetação, solo, água e sedimentos coletadas durante a fiscalização na área devastada identificaram a presença de quatro herbicidas: além do 2,4-D, foram detectados os químicos imazamox; picloram e fluroxipir. Os agrotóxicos causam o desfolhamento das árvores. 

Um vídeo aéreo das propriedades de Claudecy Lemes mostra milhares de árvores sem folhas, com manchas cinzas, totalmente mortas. Depois do despejamento químico, o proprietário pretendia cultivar capim e expandir sua criação de gado na área.

O desmatamento de 81.223 hectares ocorreu no Pantanal, reconhecido como Patrimônio da Humanidade e Reserva da Biosfera pela Unesco

A Repórter Brasil já mostrou que fazendeiros utilizam a pulverização aérea de grandes quantidades de agrotóxicos para acelerar o desmatamento.

Na última segunda (15), o Ministério Público recorreu da decisão judicial que negou a prisão do pecuarista. Até o momento, a Justiça proibiu o produtor de deixar o país, determinou a apreensão de animais e o sequestro dos bens do pecuarista, incluindo a administração das onze propriedades alvo do desmatamento químico.

Compromissos da JBS

Maior produtora de proteína do mundo, a JBS possui dois compromissos públicos antidesmatamento no Brasil.

O frigorífico anuncia que desde 2023 não compra gado de fornecedores diretos com desmatamento – legal ou ilegal – identificado após 2008 na Amazônia. Até 2025, a empresa afirma que aplicará a mesma regra para os fornecedores indiretos no bioma – ou seja, as fazendas que encaminham animais para engorda nas propriedades que abastecem diretamente a JBS. 

Já para o Cerrado, o frigorífico se compromete a zerar o desmatamento ilegal entre fornecedores até 2025, mas o desmatamento autorizado continuará sendo permitido. Ainda não há critérios específicos para outros biomas, como o Pantanal.

Monitoramento

Em relação ao desmatamento na Amazônia, a JBS é signatária de dois compromissos públicos: o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) do Ministério Público Federal (MPF), conhecido como TAC da Carne, e os Critérios Mínimos para Operação com Gado e Produtos Bovinos em Escala Industrial no Bioma Amazônia, coordenado pela organização não-governamental Greenpeace.

O TAC da Carne, criado em 2009, estabelece que os frigoríficos devem se comprometer a não adquirir gado de áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia após 2008. Auditorias anuais são realizadas pelo MPF e organizações parceiras para avaliar o cumprimento do pacto. Na última auditoria, divulgada em outubro de 2023, 2% das compras da JBS no Mato Grosso apresentaram inconformidades. Em agosto, a Repórter Brasil mostrou que pecuaristas que arrendavam ilegalmente fazendas dentro da Terra Indígena Marãiwatsédé, em Mato Grosso, escoaram o gado para outras propriedades em seu nome ou de familiares que, por sua vez, forneciam animais para a JBS. A situação é característica de uma manobra conhecida como “lavagem de gado”, quando produtores encobrem a origem ilegal de seu rebanho, registrando a passagem dos bois por uma fazenda que não tem impedimentos socioambientais para vender ao frigorífico.


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Fonte: Repórter Brasil

Nova York está processando a JBS no que pode ser um ponto de inflexão para o greenwashing

O processo de Letitia James acusa a JBS de enganar os clientes sobre ser amiga do clima – e as implicações podem ser de longo alcance

meat jbsA JBS é controladora das marcas Swift, Pilgrim’s Pride e Grass Run Farms. Fotografia: The Washington Post/Getty Images 

Por Whitney Bauck para o “The Guardian”

Quando o gabinete da procuradora-geral de Nova Iorque, Letitia James, anunciou que iria processar a JBS, maior empresa de carne do mundo, por enganar os clientes sobre os seus compromissos climáticos, causou um rebuliço muito além do mundo da alimentação. Isto porque o impacto do processo tem o potencial de influenciar a abordagem que todos os tipos de grandes empresas adotam na sua publicidade sobre sustentabilidade, de acordo com especialistas.

É apenas um de uma série de ações judiciais de lavagem verde movidas recentemente contra grandes companhias aéreas, automobilísticas e de moda . “Já se passaram 20 anos em que as empresas mentiram sobre os seus impactos ambientais e de justiça climática. E parece que de repente, da Europa aos EUA, a repressão está a começar a acontecer”, disse Todd Paglia, diretor executivo da organização ambiental sem fins lucrativos Stand.earth. “Acho que o greenwash [ing] é na verdade uma das questões centrais nos próximos cinco anos.”

A investigação sugere que os cidadãos exigem cada vez mais bens produzidos de forma mais sustentável, e as grandes empresas estão a tomar nota disso. Mas, em vez de realmente mudarem as suas práticas, muitos recorrem a mensagens que sugerem falsamente que os seus produtos são melhores para o planeta do que realmente são, a fim de manter os clientes satisfeitos.

É isso que o procurador-geral afirmou que a JBS – controladora que possui marcas e subsidiárias como Swift, Pilgrim’s Pride e Grass Run Farms – está fazendo. A reclamação legal observa que “o Grupo JBS fez declarações abrangentes aos consumidores sobre seu compromisso de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa, alegando que será ‘Net Zero até 2040’”. Mas essas alegações não são fundamentadas na realidade, a reclamação continua argumentando, não apenas porque a JBS não está tomando medidas concretas em direção a essas metas, mas porque ainda em setembro de 2023, o CEO admitiu em um fórum público que a empresa nem sabia como calcular todas as suas emissões. Segue-se que o que não pode ser medido não será mitigado.

“Os consumidores estão começando a estar cientes do fato de que a carne, e especialmente a carne bovina, tem um impacto climático muito, muito alto. A JBS está plenamente consciente disso e está tentando se antecipar dizendo aos consumidores: ‘Ah, não se preocupem, temos tudo sob controle’”, disse Peter Lehner, advogado-gerente do programa de alimentação e agricultura sustentável da Justiça terrestre. “Mas essas emissões são tão grandes e tão difíceis de reduzir que as ações da JBS não mostram que seja plausível que elas cumpram o que reivindicam.”

Fazendo valer as emissões alimentares

A crise climática é muitas vezes enquadrada como um problema causado principalmente pelos combustíveis fósseis, e estes desempenham um papel importante no aquecimento do planeta. Mas mesmo que pudéssemos reduzir magicamente as emissões de combustíveis fósseis a zero amanhã, de acordo com a cientista de dados e investigadora de Oxford Hannah Ritchie, os nossos sistemas alimentares atuais significam que ainda iríamos “muito além do orçamento de carbono de 1,5 graus e consumiríamos quase todos os nossos recursos”. orçamento de dois graus”. O que isso deveria nos dizer, acrescentou ela, “é que simplesmente não podemos enfrentar as alterações climáticas sem enfrentar também os sistemas alimentares”.

E a carne bovina, da qual a JBS é a maior produtora do mundo, supera em muito não apenas os alimentos vegetais, mas também outras fontes de nutrição animal, no que diz respeito aos impactos climáticos. As vacas expelem metano e são alimentadas em grande parte com grãos cultivados em monoculturas com uso intensivo de fertilizantes, onde o excesso de fertilizante causa poluição da água ou se transforma em óxido nitroso, outro potente gás de efeito estufa, disse Lehner. E isso sem levar em conta o desmatamento e as queimadas da Amazônia para dar lugar a mais gado, ao qual a JBS já esteve ligada diversas vezes .

Os trabalhadores do rancho reúnem um rebanho de gado.
A pecuária produz metano, e o escoamento de fertilizantes do cultivo das plantas que as vacas comem causa poluição da água. Fotografia: Bloomberg/Getty Images

Ainda assim, apesar de todas as questões ambientais, Lehner destacou que o processo é, na sua essência, um caso de fraude ao consumidor, antes de mais nada. Este não é o primeiro caso climático a abordar a lavagem verde corporativa, disse ele, apontando para casos anteriores contra a Volkswagen, que foi processada por mentir sobre o quão “limpos” eram seus motores a diesel , e processos contra Delta KLM , que foram levados a julgamento. tribunal por fazer uma lavagem verde dos impactos climáticos do voo. Mas o caso da JBS marca “o primeiro contra uma empresa de carne bovina”, disse Lehner.

Também é único por causa de quem abriu a ação, de acordo com Delci Winders, diretora do Animal Law and Policy Institute da Vermont Law and Graduate School. Embora a maioria dos outros casos de greenwashing tenha sido movido por organizações sem fins lucrativos ou mesmo por indivíduos, destaca-se o processo da JBS vindo diretamente de um procurador-geral do estado. “Ver o governo intervir desta forma envia um sinal forte”, disse Winders.

A investigação de um caso talvez tenha sido estimulada pela forma flagrante como a JBS fez afirmações infundadas, ignorando até mesmo o conselho do braço de publicidade do Better Business Bureau, um órgão auto-regulador da indústria, que alertou a JBS para ter cuidado com seu clima. mensagens focadas.

As chances de o procurador-geral vencer o caso parecem boas. Lehner, que trabalhou no gabinete do procurador-geral de Nova Iorque durante oito anos, disse: “As provas neste caso são pelo menos tão fortes, se não muito mais fortes, do que as provas e muitos outros casos de fraude ao consumidor que tiveram sucesso”.

Paglia disse de forma ainda mais contundente: “não há chance, realmente”, de o procurador-geral perder, em sua opinião.

Implicações

Então, o que significará se a maior empresa de carne do planeta perder um processo judicial que visa reprimir o greenwashing?

Primeiro, significaria que a JBS não pode mais alegar ser uma espécie de herói climático. Em vez de afirmar que se dirige para o zero líquido ou para a neutralidade climática, provavelmente teria de se limitar a dizer “’vendemos carne’, e essa seria a extensão”, disse Paglia.

Mesmo que a JBS conseguisse de alguma forma ganhar o caso em Nova Iorque, ainda assim sairia da batalha num terreno mais instável se outros estados dos EUA, ou países de outros lugares, decidissem levar a empresa a tribunal. “Eles seriam bastante vulneráveis ​​sob outras leis estaduais de proteção ao consumidor”, disse Winders.

Não é difícil imaginar futuros processos no futuro, especialmente porque esta não é a primeira ação tomada contra a JBS. No início deste ano, os senadores dos EUA escreveram uma carta bipartidária à Comissão de Valores Mobiliários (SEC) solicitando que a empresa fosse impedida de ser cotada na Bolsa de Valores de Nova Iorque, alegando essencialmente que a empresa se envolve em fraude com investidores. E um pedido de investigação criminal dos bancos investidos na JBS foi apresentado em França no final do ano passado, argumentando que o apoio financeiro dos bancos às maiores empresas de carne bovina do Brasil estava a contribuir para a desflorestação ilegal na Amazónia.

Não está claro exatamente quanto tempo o caso do procurador-geral levará, e isso pode ser afetado pelo fato de a equipe jurídica da JBS considerar mais vantajoso ser minimamente cooperativo para desacelerar o caso ou se tentar resolver rapidamente para resolver o problema. aos olhos do público, observou Winders.

Mas aconteça o que acontecer, as repercussões irão provavelmente afectar a forma como cada vez mais empresas operam – ou pelo menos o que dizem ao público – sobre a sua boa-fé climática no futuro.

“Se a JBS perder – e vai perder – acho que isso já está enviando um sinal às grandes empresas de que não se pode simplesmente dizer ‘estamos alinhados ao [acordo] de Paris’. Não se pode simplesmente dizer ‘vamos ser zero líquidos em 2030’ quando não temos nenhum plano e a curva da poluição climática está a subir”, disse Paglia. “Você não pode continuar mentindo assim.”

  • Este artigo foi alterado em 8 de abril de 2024 para retirar a Carne Angus Certificada da lista de marcas e subsidiárias de propriedade da JBS. A Certified Angus Beef é, na verdade, uma subsidiária da American Angus Association; A JBS é apenas uma das muitas empresas que processam produtos da Carne Angus Certificada.


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Fonte: The Guardian