A proposta climática do Brasil a Joe Biden: pague-nos para não destruirmos a Amazônia por completo

A proposta do presidente Bolsonaro vem no momento em que o Brasil busca apoio dos EUA para conter o desmatamento na maior floresta tropical do mundo

wsj1Os incêndios florestais em toda a floresta tropical do Brasil são quase todos provocados pelo homem e provocados por grileiros. FOTO: CARL DE SOUZA / AGENCE FRANCE-PRESSE / GETTY IMAGES

Por  Paulo Trevisani  e  Timothy Puko para o “The Wall Street Journal”

O governo brasileiro, amplamente criticado por grupos ambientalistas como um administrador negligente da floresta amazônica, fez uma oferta audaciosa ao governo Biden: forneça US $ 1 bilhão e o governo do presidente Jair Bolsonaro reduzirá o desmatamento em 40%.

A proposta foi feita enquanto o presidente brasileiro se preparava para uma cúpula ambiental virtual com cerca de 40 chefes de estado, patrocinada quinta e sexta-feira pelo presidente Biden, que fez do combate às mudanças climáticas uma peça central de seu governo. Governos e ativistas europeus expressaram publicamente desconfiança com as propostas de Bolsonaro sobre o meio ambiente porque ele cortou fundos para agências de proteção ambiental em meio a um aumento no desmatamento.

Mas apoiado por alguns estudiosos influentes e moradores da Amazônia, Bolsonaro argumenta que a única maneira de salvar a selva é por meio de créditos de carbono e financiando atividades econômicas sustentáveis ​​para que as pessoas possam viver da piscicultura, produção de cacau e outras atividades que não o fazem. exigem a destruição de árvores. O tema tem sido central nas conversas que o ministro do Meio Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, disse que teve nas últimas semanas com autoridades do clima do governo Biden.

O pedido é provavelmente apenas um dos primeiros de muitos semelhantes a seguir quando os países em desenvolvimento começam a negociar com os países industrializados sobre quem paga por programas caros para lidar com a mudança climática. Neste outono, as nações do mundo devem definir metas novas e mais ambiciosas para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, e os países em desenvolvimento querem que seus pares mais ricos cumpram as promessas das negociações climáticas originais de Paris de mobilizar US $ 100 bilhões por ano em público e financiamento privado para eles. 

As principais autoridades indianas fizeram isso entre os principais pedidos a John Kerry, o enviado especial do governo Biden para as mudanças climáticas, quando ele a visitou no início deste mês, de acordo com o Ministério das Finanças indiano no Twitter. Autoridades desses países, incluindo o Brasil, dizem que os países industrializados devem prestar contas de suas contribuições históricas para a mudança climática e a necessidade de os cidadãos dos países mais pobres saírem da pobreza.

wsj2Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente do Brasil, calculou que tem direito a até US $ 294 bilhões para reduzir o desmatamento. FOTO: ERALDO PERES / ASSOCIATED PRESS

“Precisamos nos concentrar nas pessoas, os 23 ou 25 milhões de pessoas que vivem na Amazônia”, disse Salles ao The Wall Street Journal em uma entrevista. “É uma área onde se tem o pior índice de desenvolvimento humano de todo o país. É por isso que as atividades ilegais têm sido tão atraentes. ”

Salles disse que o Brasil levou a sério os comentários de Biden, feitos em um debate presidencial em setembro passado, para reunir US $ 20 bilhões de todo o mundo para ajudar o governo brasileiro a reduzir a destruição das florestas. O ministro calculou que o Brasil tem direito a até US $ 294 bilhões pelas grandes reduções que o país fez para conter o desmatamento, embora tenham ocorrido muito antes de Bolsonaro assumir o cargo em 2019.

“Achamos que US $ 1 bilhão, que é apenas 5% dos US $ 20 bilhões que foram mencionados durante a campanha … é uma quantia muito razoável que pode ser mobilizada antecipadamente”, disse Salles.

Ele disse que um terço desse US $ 1 bilhão seria usado para enviar batalhões especializados para fazer cumprir as leis ambientais, enquanto os dois terços restantes ajudariam a financiar bioindústrias nascentes que forneceriam alternativas aos agricultores pobres que cortam e queimam para criar plantações e gado. O Brasil diz que com ajuda externa acabaria com o desmatamento até 2030.

“Se não dermos a essas pessoas esse apoio econômico”, disse Salles, “elas continuarão a ser cooptadas ou incentivadas por atividades ilegais”.

WSJ3O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, ao centro, argumenta que a única maneira de salvar a selva é por meio de créditos de carbono e financiando atividades econômicas sustentáveis. FOTO: UESLEI MARCELINO / REUTERS

Funcionários do governo Biden não responderam a perguntas específicas sobre o pedido de US $ 1 bilhão do governo Bolsonaro. Mas uma equipe de clima liderada por Kerry no Departamento de Estado vê o Brasil como um parceiro importante na redução das emissões globais de gases de efeito estufa.

“Temos muito trabalho a fazer” antes de haver um acordo, disse Kerry aos repórteres no domingo, enquanto explicava as discussões diretas sobre o financiamento da proteção florestal que estão ocorrendo com o Brasil. “Mas achamos que realmente vale a pena trabalhar porque a floresta tropical é muito crítica, como sumidouro de carbono, como consumidora de carbono, e está em risco”.

O Sr. Kerry e outros funcionários do Departamento de Estado também enfatizaram a necessidade do governo Bolsonaro demonstrar seu compromisso com o meio ambiente, reduzindo substancialmente o desmatamento. O desmatamento caiu em geral desde agosto, mostram dados oficiais do governo, mas aumentou desde março.

“Queremos ver passos muito claros e tangíveis para aumentar a fiscalização efetiva e um sinal político de que o desmatamento ilegal e a usurpação não serão tolerados”, disse um porta-voz do Departamento de Estado.

O governo Biden propôs US $ 2,5 bilhões em gastos totais em programas internacionais para conter as mudanças climáticas, quadruplicando o orçamento atual. Isso inclui US $ 1,2 bilhão para o Fundo Verde para o Clima internacional, um programa vinculado ao acordo de Paris e que ajudaria países em desenvolvimento como o Brasil a enfrentar as mudanças climáticas e reduzir as emissões. Kerry, em uma recente viagem à Índia, disse que o dinheiro seria apenas uma entrada inicial e que os países industrializados ainda estão trabalhando para cumprir sua promessa de US $ 100 bilhões.

WSJ 4O presidente Biden fez do combate às mudanças climáticas uma peça central de seu governo. FOTO: KEVIN LAMARQUE / REUTERS

Em seguida, Biden “fará seu próprio pagamento, o pagamento do governo Biden, que colocará em dinheiro adicional para esses próximos anos, e acho que isso é necessário para cumprir suas obrigações”, disse Kerry, de acordo com uma transcrição do Departamento de Estado.

Ativistas ambientais temem que, ao envolver Bolsonaro, Biden esteja viabilizando a política pró-desenvolvimento do líder brasileiro e alimentando ainda mais a destruição da maior floresta tropical do mundo, um bioma essencial para um clima global estável. Sob a supervisão de Bolsonaro, o desmatamento na Amazônia saltou 9,5% no ano que terminou em 31 de julho de 2020, uma alta em 12 anos.

“A credibilidade do governo para coletar fundos de outros governos está totalmente prejudicada”, disse Carlos Rittl, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados de Sustentabilidade da Alemanha. “Este é um discurso de chantagem. O governo deveria realmente fazer algo ”antes de pedir ajuda externa, disse Rittl, que argumenta que o Brasil tem recursos para reduzir drasticamente o desmatamento.

Em contraste, Dan Nepstad, presidente do Earth Innovation Institute, um grupo ambiental com sede em Berkeley, Califórnia, que trabalha com fazendeiros brasileiros e funcionários do governo para apoiar atividades sustentáveis, disse que a estratégia da equipe de Biden de “engajar e construir esse diálogo tem sido uma jogada muito sábia. ”

Ele explicou que no Brasil há uma preocupação crescente por parte do poderoso setor agrícola e de funcionários do governo de que o desmatamento possa prejudicar financeiramente o país. Isso criou mais possibilidades para governos estrangeiros e grupos ambientais envolverem agricultores e autoridades brasileiras para encontrar uma solução.

WSJ 5Uma fotografia aérea de agosto de 2020 mostra a fumaça saindo de incêndios no município de Novo Progresso, no Estado do Pará. FOTO: CARL DE SOUZA / AGENCE FRANCE-PRESSE / GETTY IMAGES

Nepstad disse que a comunidade internacional precisa fazer mais para considerar maneiras de compensar os agricultores no Brasil que estão mantendo a cobertura de árvores na expectativa de que algum tipo de mecanismo seja criado para tornar a floresta mais valiosa financeiramente do que os campos sem árvores.

“Já se falaram anos e anos sobre a importância da floresta sustentável”, disse Nepstad, “e ainda em 2021 não temos um mecanismo robusto para compensar as pessoas que mantêm a floresta em pé”.

Ele acrescentou que “os preços da terra ainda são mais altos sem floresta do que com floresta, e esse é o indicador mais claro de que temos um longo caminho a percorrer”.
 

Escreva para Paulo Trevisani em paulo.trevisani@wsj.com e Timothy Puko emtim.puko@wsj.com

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Este artigo foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo “The Wall Street Journal” [Aqui!].

“Não confie em Bolsonaro”, seis ativistas ambientais enviam apelo ao Presidente dos Estados Unidos

Jovens do Fridays For Future Brasil enviam carta à Joe Biden no dia da Cúpula do Clima para alertar Joe Biden sobre as políticas ambientais de Bolsonaro

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Nos dias 22 e 23 de abril, o Brasil vai participar de uma reunião virtual com outros 39 líderes mundiais para discutir sobre o aquecimento global. A Cúpula do Clima, ou Summit Action, é uma iniciativa puxada pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que recentemente aderiu novamente ao Acordo de Paris.

“Existe muita expectativa em cima de Biden com a volta dos Estados Unidos ao Acordo de Paris, esse encontro servirá de termômetro para vermos se os líderes mundiais terão real compromisso em solucionar a crise climática”, diz Renata Padilha, ativista do movimento Fridays For Future Brasil.

Os ativistas Beatriz Barberato, Dalcio Rocha, Emerson Pataxó, Marcelo Rocha, Mikaelle Faria e Renata Padilha tomaram essa iniciativa com o objetivo de demonstrar seus posicionamentos contrários aos desmontes ambientais do Governo Bolsonaro e alertar Biden para caso haja futuros acordos ambientais com o Brasil. “Bolsonaro não tem compromisso com a vida e nem tão pouco com o meio ambiente, caso algum acordo seja assinado, também estará assinando a sentença de morte para a humanidade inteira”, afirma Emerson Pataxó.

Em carta, os jovens ambientalistas afirmam que “O governo Bolsonaro é inimigo do meio ambiente” e relatam uma série de desmontes ambientais que vêm sendo realizados desde que o atual presidente assumiu o cargo de Presidente da República, destacando alguns acontecimentos como o sucateamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), interrupção no Fundo Amazônia para a preservação da floresta, os constantes ataques aos povos indígenas e os posicionamentos contrários ao Acordo de Paris, os quais podem causar retrocessos nas políticas ambientais propostas pelo acordo internacional firmado em 2015.

Os ativistas destacam que as consequências de uma decisão, de uma assinatura em um novo acordo sem um compromisso real, transparente e comprometido, pode custar a vida de toda a humanidade.
Segundo cientistas, se continuarmos com os negócios de sempre e não tomarmos medidas urgentes contra o aquecimento global e a crise climática, em poucos anos a temperatura média global da Terra poderá subir de 1,5°C até 2°C, ocasionando uma série de mudanças drásticas impactando na disponibilidade de água e alimentos, maior ocorrência de eventos extremos como chuvas fortes, secas e furacões, colocará em risco ecossistemas inteiros, entre outras consequências que os gases de efeito estufa na atmosfera poderão ocasionar ao longo dos anos.

“Estamos em um atual cenário de emergência climática e social, precisamos de medidas urgentes ao combate às alterações climáticas, não há mais tempo para promessas vazias”, diz Mikaelle Faria.

Pedindo também por empatia do Presidente dos Estados Unidos, os seis jovens ressaltam que o governo brasileiro não os representa, e pedem para que Joe Biden não confie no Governo Bolsonaro “Queremos que fiquem do nosso lado, da juventude, do futuro, e o mais importante, do lado da humanidade.” diz Dalcio Costa ativista do Fridays For Future Brasil.

A Cúpula do Clima

A cúpula reunirá 40 países convidados e, além do Brasil, a lista inclui países como Canadá, China, Rússia, México, países da Europa e Ásia, além de Israel, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Nigéria e África do Sul. O encontro é parte do esforço de Joe Biden para tornar a mudança climática real e criar estratégias para o seu enfrentamento.

EUA pressionam o Brasil a apresentar medidas concretas para reduzir desmatamento da Amazônia

Especialistas divergem: o Brasil conseguirá apresentar um cronograma de redução do desmatamento?

Área desmatada na Amazônia.

Os Estados Unidos estão pressionando o Brasil a apresentar medidas concretas na redução do desmatamento da Amazônia na Cúpula dos Líderes sobre o Clima, que será iniciada nesta quinta-feira (22) e reunirá 40 chefes de Estado.

O presidente Jair Bolsonaro, que estará no evento, enviou uma carta a Joe Biden onde promete zerar o desmatamento ilegal no Brasil até o ano de 2030. A Casa Branca espera que o Brasil apresente um cronograma de redução gradual da derrubada das florestas e uma meta mais ambiciosa do que a atual para redução de emissões de carbono.

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil têm opiniões diferentes sobre a capacidade do Brasil em atingir a meta anunciada de zerar o desmatamento nos próximos nove anos e de apresentar o cronograma solicitado pelos Estados Unidos.

‘Não dá para acreditar que o Brasil vai fazer qualquer ato diferente’

Para o geógrafo e ambientalista Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da ONG SOS Mata Atlântica, o compromisso do Brasil em zerar o desmatamento ilegal até o ano de 2030 “não passa de uma mentira deslavada”.

“Não dá para acreditar que o Brasil vai fazer qualquer ato diferente. […] O Brasil deveria dizer que o país já faz isso, tem uma matriz energética limpa, nós podemos fazer muito mais porque já tivemos um controle sobre a Amazônia, as metas do Brasil podem ser muito maiores, e com isso nós teríamos mais apoio, mas o que a gente vê é o contrário”, afirmou à Sputnik Brasil.

De acordo com um levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) divulgado nesta segunda-feira (19), o desmatamento na floresta amazônica atingiu em março o pior índice para o mês nos últimos dez anos.

Segundo Mantovani, os dados apresentados pelo Imazon fazem com que o Brasil tenha muita dificuldade em apresentar um cronograma como o que é exigido pelos EUA.

“O que o Brasil apresentou agora como meta foi abaixo daquilo que ele já tinha se comprometido em Paris e apresentado na última conferência em Madri. O Brasil deu um vexame. Claro que, com isso, não vai ter cronograma que vai resistir”, declarou.

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​O vice-presidente Hamilton Mourão, que também é presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal, negou os dados de desmatamento apresentados pelo Imazon e defendeu a transparência e confiabilidade nas estatísticas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e disse que “há ONGs que utilizam dados sem a devida fundamentação para divulgar informações sobre a Amazônia”.

Mario Mantovani criticou a gestão de Mourão no conselho e que entende que o Brasil chega enfraquecido na Cúpula dos Líderes sobre o Clima.

“Nem o general Mourão conseguiu reduzir [o desmatamento]. A Polícia Federal fez uma denúncia muito grave de que o ministro [do Meio Ambiente, Ricardo Salles] está liberando os madeireiros que fizeram os desmatamentos. Nós temos sinais trocados dentro do governo, e isso mostra um desarranjo, um jeito ruim de fazer gestão do desmatamento na Amazônia. O Brasil vai para essa conferência muito mais enfraquecido”, completou.

‘Brasil possui capacidade de fazer cronograma exigido pelos EUA’

O economista e advogado, Alessandro Azzoni, especialista em Direito Ambiental, disse que a carta enviada por Bolsonaro a Joe Biden é um ponto positivo e mostra uma motivação do presidente brasileiro em mudar o cenário do desmatamento no país.

“Eu acredito que exista a capacidade de se fazer um cronograma. A operação comandada pelo vice-presidente Mourão conseguiu fazer um mapeamento dos garimpos ilegais, e dos maiores municípios e estados que sofrem com o desmatamento. Esse diagnóstico existe, e a meta pode ser colocada sim”, afirmou à Sputnik Brasil.

No entanto, segundo Azzoni, o cronograma precisa ser anunciado de maneira oficial e assinado pelo governo brasileiro.

“Penso que isso deve ser retificado de uma forma mais formal. Eu acredito que o governo brasileiro tenha um cronograma para reduzir isso, basta intensificar as ações da Polícia Federal junto com exército combatendo essa rede criminosa que invade as áreas desmatando”, comentou.

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​Na semana passada, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Chapman, disse que a Cúpula de Líderes sobre o Clima é a última chance de o Brasil mostrar que se preocupa com o desmatamento na Amazônia.

Chapman ainda afirmou que há uma percepção que o desmatamento ilegal na Amazônia cresceu e que não é decorrente de “um problema de comunicação”, como justificam integrantes do governo federal brasileiro.

Para Alessandro Azzoni, o Brasil teria a capacidade, inclusive, de zerar o desmatamento ilegal antes de 2030, mas é preciso que o país contrate mais servidores nos órgãos de fiscalização ambiental.

“Acredito que possa ser factível acabar com o desmatamento ilegal. Acho que nem para 2030, dá para acabar até antes, nós estamos em 2021. […] O que falta é realmente aumentar o número de servidores de fiscalização”, declarou.

Azzoni defende ainda que, mais do que reduzir o desmatamento, o Brasil deveria apresentar também uma política de reflorestamento das áreas desmatadas.

“Nós vemos muitas áreas que foram desmatadas desde governos passados até hoje e muito poucas são reflorestadas. Ter ações mais efetivas no reflorestamento também seria muito interessante. Eu acredito que isso daria uma resposta muito maior ao nível nacional e internacional do que simplesmente só combater o desmatamento”, completou.

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Este texto foi originalmente publicado pela Sputnik Brasil [Aqui!].

Às vésperas da Cúpula do Clima, Bolsonaro faz promessas ‘mentirosas’ aos EUA, diz especialista

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Por Serguey Monin para o Sputnik News 

O presidente Jair Bolsonaro participará da Cúpula do Clima, organizada pelos EUA, nos dias 22 e 23 de abril. Para o secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, não há muita perspectiva para que Brasil se comprometa com questões ambientais.

A Coalizão Brasil Clima, Floresta e Agricultura, que reúne pesquisadores, empresas e setores do agronegócio, enviou uma carta ao governo brasileiro fazendo um apelo para que o país assuma compromissos de ter maior ambição climática durante a Cúpula dos Líderes sobre o Clima.

O secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, disse à Sputnik Brasil que a participação do Brasil nas políticas ambientais e negociações sobre o clima são muito importantes, pois a pauta climática é cada vez mais central e exerce grande influência nas decisões políticas e econômicas atualmente.

De acordo com ele, se o Brasil seguir o curso da política ambiental que vem sendo adotado pelo governo Bolsonaro, o país vai perder a oportunidade de obter vantagens em negociações e prejudicar sua imagem no cenário internacional.

Cartaz diz Não foi o clima, é o sistema, foi Bolsonaro. Defenda a Amazônia é exibido durante protesto em Buenos AiresCartaz diz “Não foi o clima, é o sistema, foi Bolsonaro. Defenda a Amazônia” é exibido durante protesto em Buenos Aires. © AP PHOTO / NATACHA PISARENKO.

“Ou o Brasil vai se interessar pelo tema [ambiental], aproveitando isso como uma oportunidade de tirar vantagem de ser um ator importante e positivo na agenda de clima; ou vai acontecer o que acontece agora com o governo Bolsonaro, o Brasil vai se negar a assumir compromissos, se negar a fazer uma agenda positiva em meio ambiente e vai sofrer problemas de imagem, problemas que vão arranhar a capacidade comercial do Brasil de fazer negócios mundo afora”, afirmou.

Para Marcio Astrini, o Brasil tinha tudo para ser protagonista na pauta ambiental, mas afirmou que a expectativa da participação brasileira na cúpula “infelizmente não é nada boa”. Segundo ele, com o governo Bolsonaro o Brasil “vem passando vergonha, acumulando problemas de desgaste da imagem do Brasil”. 

“Para o discurso que o presidente vai fazer, a gente espera as mesmas mentiras de sempre. Ele vai dizer que faz esforços para a questão do clima, que é uma agenda importante e que preserva o meio ambiente, mas isso não passa de enganação. Todas as medidas que o governo tomou desde janeiro de 2019 só foram no sentido de diminuir a proteção do meio ambiente no Brasil”, frisou Astrini.

“É um governo que inclusive nega as mudanças climáticas. O próprio presidente da República, o ex-ministro das Relações Exteriores, por várias vezes falaram que as mudanças climáticas e o movimento de defesa do meio ambiente não passavam de conspirações internacionais, então independente do que ele [Bolsonaro] vai falar, e normalmente são mentiras, aqui dentro de casa, no Brasil, o governo tem uma agenda contra o clima e contra o meio ambiente”, acrescentou o diretor do Observatório do Clima.

Mata queimada por um incêndio florestal que atingiu a fazenda Santa Tereza, na região da Serra do Amolar, no Pantanal do Mato Grosso do SulMata queimada por um incêndio florestal que atingiu a fazenda Santa Tereza, na região da Serra do Amolar, no Pantanal do Mato Grosso do Sul. © FOLHAPRESS / LALO DE ALMEIDA.

Ao comentar quais seriam as ações que o governo brasileiro poderia adotar para assumir certo protagonismo internacional na pauta ambiental, Marcio Astrini disse que o primeiro passo seria “mudar radicalmente as ações em relação ao meio ambiente aqui no Brasil”.

“Essas mudanças incluiriam, por exemplo, retomar o plano de combate ao desmatamento na Amazônia, um plano muito importante que entre os anos 2004 e 2012 foi essencial para diminuir o desmatamento na Amazônia em mais de 80%”, afirmou.

Ele também citou a importância de retirar da pauta do Congresso as diversas propostas encaminhadas pelo próprio governo que estimulam desmatamento como, por exemplo, projetos de lei que beneficiam os grileiros de terra, e a proposta do governo de abrir terras indígenas para o agronegócio, mineração e outras atividades comerciais.

Promessas de Bolsonaro a Biden

Durante a Cúpula de Líderes sobre o Clima, muitas das atenções estarão voltadas para a relação entre o presidente Jair Bolsonaro e a administração norte-americana de Joe Biden, que organiza o evento e tem a pauta ambiental como um dos principais focos de sua agenda.

Na última quinta-feira (15), o presidente Jair Bolsonaro enviou uma carta ao presidente norte-americano se comprometendo a zerar o desmatamento ilegal no Brasil até 2030. Bolsonaro aproveitou para pedir apoio aos Estados Unidos para alcançar o objetivo.

Em Washington, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, fala durante conferência virtual, em 12 de abril de 2021Em Washington, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, fala durante conferência virtual, em 12 de abril de 2021. © REUTERS / KEVIN LAMARQUE.

O secretário-executivo do Observatório do Clima afirmou que os compromissos estabelecidos pelo governo na carta aos EUA também “são mentirosos”. De acordo com Marcio Astrini, a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2030 foi apresentada pela primeira vez no Brasil em 2015, quando o Brasil fez sua submissão para a ONU das promessas climáticas.

“Ele [Bolsonaro] está enviando para o governo Biden uma promessa de desmatamento ilegal zero para 2030 que ele mesmo retirou das promessas do Brasil que foram entregues para a ONU. A outra promessa do governo é abrir escuta de diálogo com a sociedade civil, que também é uma outra mentira. Na verdade, esse governo extinguiu todos os conselhos que tinham no governo federal onde tinha participação da sociedade civil”, argumentou.

“Quando a gente pensa na ação prática do governo Bolsonaro, a gente vê que estamos muito distantes desse tipo de ação. O governo faz tudo ao contrário, por isso que em dois anos de governo Bolsonaro nós tivemos dois anos de aumento do desmatamento, dois anos de aumento de queimadas na Amazônia e no Pantanal, dois anos de aumento de emissões, aumento nas invasões de terras públicas. É tudo o contrário do que a gente deveria ter e o governo faz tudo ao contrário do que deveria fazer”, completou.

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Este texto foi inicialmente pelo Sputnik News [Aqui!].

Com impasse em negociações, EUA desistem de ter acordo ambiental com Brasil antes de cúpula climática

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O azedume está cada vez mais forte nas conversas entre Brasil e EUA em torno da proteção da Amazônia. Faltando menos de uma semana para a cúpula climática convocada por Biden, os dois governos seguem batendo cabeça para conseguir fechar um acordo para facilitar o combate ao desmatamento amazônico. Segundo apurou Beatriz Bulla no Estadão, a Casa Branca deixou de ter qualquer expectativa por um acordo bilateral a tempo do encontro virtual entre os chefes de Estado.

O ponto central das desavenças é a insistência do governo brasileiro em receber recursos financeiros antes de realizar novos esforços para reduzir a devastação ambiental. A carta de Bolsonaro a Biden, enviada na última 4ª feira (14/4), sintetiza o raciocínio: para o Planalto, o país “merece ser justamente remunerado pelos serviços ambientais que seus cidadãos têm prestado ao planeta”. No documento, Bolsonaro também se compromete a zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030 – o que não é nenhuma novidade, já que isso era uma das ações citadas pelo Brasil no primeiro compromisso para o Acordo de Paris, ignorada pelo atual governo em sua nova versão. A carta foi destacada pela Agência BrasilÉpoca e Estadão. No UOL, Leonardo Sakamoto desnudou a polidez diplomática do texto de Bolsonaro e deixou claro como as promessas feitas pelo presidente ao colega norte-americano não param em pé. Já Climate Home e Reuters abordaram a frustração da Casa Branca com o impasse nas negociações com o Planalto.

O Globo entrevistou Salles, que repetiu a ladainha de costume do governo Bolsonaro nas discussões climáticas. Para o ministro, o Brasil não deve ser cobrado por mais ambição climática, já que o país representaria (nas contas dele, vale ressaltar) apenas 3% das emissões globais. O problema é que, considerando as emissões por país, o Brasil está entre o 5o e o 6o maiores emissores de carbono do mundo. Nesse cenário, é difícil para Salles se esconder atrás da questão das responsabilidades comuns, porém diferenciadas para livrar-se das cobranças internacionais.

Alheio às conversas com os EUA, Mourão segue batendo bumbo em favor do mais novo plano do Conselho da Amazônia para combater o desmatamento. A meta apresentada pelo vice-presidente para reduzir o ritmo de desmate para cerca de 8,7 mil km2 no final de 2022, um volume acima daquele registrado antes da dupla Bolsonaro-Mourão assumir o governo, foi bastante criticada por especialistas e ambientalistas. Questionado sobre isso, o general minimizou a falta de ambição do governo federal e disse que a redução do desmatamento precisa ser feita de maneira gradual, “pouco a pouco”, para que se chegue à meta de zerar a derrubada ilegal de árvores na Floresta Amazônica em 2030. G1Folha e Poder360 repercutiram a fala de Mourão e as críticas à meta do Planalto para o combate ao desmatamento.

Em tempo: O Instituto Clima e Sociedade (iCS) publicou uma dupla análise, ambas de fôlego, sobre a nova NDC. Emílio La Rovere, da COPPE, examina o lado científico, dos números, linhas de base e os arcabouços teóricos de sustentação e, baseado na realidade atual, dá seu entendimento sobre a possibilidade e os caminhos de cumprimento das metas. Caroline Prolo e Caio Borges, do Laclima, com um olhar jurídico, analisam a NDC dentro do contexto das negociações climáticas.

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Este texto foi inicialmente publicado pelo ClimaInfo [Aqui!].

Em carta a Joe Biden, senadores democratas acusam Jair Bolsonaro de apoiar desmatamento da Amazônia

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Os senadores também conclamam ao presidente Joe Biden a levar em conta o desmatamento e a impunidade de crimes ambientais para avaliar “se os EUA vão apoiar o Brasil em áreas de interesse mútuo, como cooperação militar e econômica e a candidatura do Brasil à  OCDE”.

No documento, assinado entre outros por Bernie Sanders,  o grupo de senadores democratas afirma que Bolsonaro ridicularizou publicamente o Ibama e sabotou a capacidade do órgão de fiscalizar as leis ambientais brasileiras.

Os senadores democratas também apontaram que o líder brasileiro já chamou ambientalistas de “câncer” e tentou diminuir a proteção às reservas indígenas existentes no Brasil. “A retórica e as políticas do presidente Bolsonaro efetivamente deram sinal verde para os perigosos criminosos que atuam na Amazônia, permitindo que eles expandam muito suas atividades”, diz o texto —que tem entre seus signatários o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado americano, Robert Menendez.

“Dado o histórico de compromissos climáticos não cumpridos, achamos que devemos impor condições para enviar auxílio americano ao Brasil: progresso significativo e sustentado na redução do desmatamento e no fim da impunidade para crimes ambientais e da intimidação e violência contra defensores das florestas”, diz texto enviado ao preidente americano, que vai comandar o encontro virtual sobre assuntos ambientais que acontece na próxima quinta (22) e sexta (23).

Veja a íntegra do documento abaixo:

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Manifesto em defesa da Floresta e da Vida

Parlamentares, Sociedade civil e artistas brasileiros se unem em apelo às autoridades americanas e à comunidade internacional

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A uma semana da Cúpula do Clima convocada por Biden, ambientalistas, artistas, parlamentares, representantes indígenas, quilombolas e pessoas do campo se uniram hoje no evento Emergência Amazônica – Em defesa da Floresta e da Vida. O objetivo deste encontro foi alertar sobre o possível acordo financeiro entre Estados Unidos e Brasil, negociado entre governo Biden e governo Bolsonaro, para prover recursos para a Amazônia. O acordo tem gerado dúvidas sobre seus reais benefícios à sociedade brasileira, em razão de sua construção a portas fechadas, com pouca transparência, muita celeridade e sem consultas às populações amazônicas. Por esta razão, uma carta de manifesto direcionada às autoridades americanas e à comunidade internacional foi lançada hoje no evento.

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A Carta dos Parlamentares e da Sociedade Civil do Brasil aos Estados Unidos da América, em defesa da Amazônia, reúne a assinatura de 53 parlamentares e mais de 60 organizações da sociedade civil, incluindo Greenpeace Brasil, Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB, Observatório do Clima – OC, entre outras. A carta deixa claro que os signatários apoiam e estimulam a cooperação internacional para a defesa do meio ambiente no Brasil, tendo em vista o papel estratégico do Brasil e da Floresta Amazônica no combate à crise climática planetária. No entanto, a proteção da floresta e de seus povos, dever constitucional do poder público, não estão, definitivamente, nas prioridades do atual governo brasileiro.

Veja a carta aqui: português e inglês

Por isso é alarmante que o governo Biden negocie com o governo Bolsonaro, um governo que promove dolosamente o desmonte de políticas socioambientais e que oferece posicionamentos negacionistas, ostensivamente contrários ao meio ambiente e indiferentes ou preconceituosos com indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais, e que conduz o povo brasileiro para o precipício ao facilitar a disseminação da tragédia sanitária e o infortúnio do desamparo socioeconômico. Nesses termos, o acordo representaria a legitimação e financiamento da agenda de destruição da Amazônia promovida pelo governo Bolsonaro, que também avança no Congresso Nacional brasileiro para desregulamentar legislações socioambientais e fundiárias no Brasil.

É preciso união social para conter o avanço da agenda ruralista. Um verdadeiro trator que, agora, vê caminho aberto no Congresso Nacional. Precisamos de um governo que fortaleça seus órgãos ambientais e garanta todos os recursos necessários para que cumpram sua função de proteger o meio ambiente. Um governo que apoie e incentive a participação da sociedade civil organizada nas decisões que impactam a população, só assim um acordo internacional será, de fato, benéfico à Amazônia e seus povos.

Sérgio Moro participa de negociações secretas entre Brasil e Estados Unidos sobre a Amazônia

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Por Brasil Wire 

O desonrado juiz Lava Jato e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, Sérgio Moro, em uma reunião privada bilateral EUA-Brasil sobre a floresta amazônica é motivo de mais preocupação. Sem cargo divulgado junto ao governo dos Estados Unidos ou do Brasil, quais interesses ele representa?

As negociações a portas fechadas entre a administração de Joe Biden e o regime de Bolsonaro estão enfrentando oposição feroz; uma nova campanha insta Biden a encerrar as negociações secretas sobre o futuro da Amazônia, depois que uma coalizão de 199 grupos da sociedade civil entregou uma carta ao governo dos Estados Unidos exigindo que qualquer discussão sobre o futuro da floresta tropical inclua o povo brasileiro.

Mas um  relato da última reunião vazado para o Sentinel da Kennesaw State University , revela um novo componente que vai causar preocupação e confusão no Brasil: Sérgio Moro.

O ex-ministro da Justiça de Bolsonaro e o desgraçado juiz de Lava Jato levaram o presidente de extrema direita ao poder através da prisão de Lula da Silva. Após a anulação das acusações contra Lula , Moro agora enfrenta investigação pelo Supremo Tribunal Federal pelo crime de parcialidade judicial no processo e na prisão do ex-presidente.

No encontro virtual, com políticos, economistas, diplomatas e empresários brasileiros, o embaixador dos EUA no Brasil, Todd Chapman, insistiu que a cúpula dos líderes climáticos de Joe Biden na próxima semana seria “a última chance do Brasil de mostrar sua preocupação ambiental, restaurar a confiança americana e expandir relações com a Casa Branca. ”

A presença de Moro nessas reuniões da Amazon é, no mínimo, incongruente. Ele não é mais membro do governo brasileiro e não possui cargo divulgado junto ao governo dos Estados Unidos ou suas agências. Para quem ele está trabalhando? Quem ele está representando?

Recentemente, ele assumiu uma  posição de parceria / diretoria com a empresa de consultoria global com sede nos EUA, Alvarez & Marsal . Quando o contratou, a empresa apresentou o ex-juiz como um especialista em “principais investigações anticorrupção” e “aconselhando clientes sobre estratégia regulatória e conformidade”.

A linha do tempo conhecida das conexões de Moro com os Estados Unidos remonta a quase 25 anos. Muito antes de ser retratado heroicamente no New York Times e na revista Time, que o nomeou entre as 100 pessoas do ano em 2016.

De um programa de intercâmbio na Harvard Law School em 1998, Moro participou do Programa de Liderança de Visitantes Internacionais de 2007 do Departamento de Estado dos EUA , “visitando agências e instituições dos EUA responsáveis ​​pela prevenção e combate à lavagem de dinheiro”.

A partir de 2009, nós o vemos vinculado ao Projeto Bridges, um esforço secreto dos EUA para estimular os funcionários públicos brasileiros a cumprir os objetivos geopolíticos revelados em telegramas vazados do Departamento de Estado . A colaboração informal ” do DOJ / FBI com a Operação Lava Jato surgiu do Projeto Pontes ou Pontes , e a investigação anticorrupção estava efetivamente operando como agência dos EUA, proporcionando tanto o cenário político para o impeachment de Dilma Rousseff, quanto a prevenção do retorno de Lula ao presidência dois anos depois.

Ao entrar no governo em janeiro de 2019, Moro acompanhou Bolsonaro à sede da CIA em Langley , a primeira visita de um presidente brasileiro na história. Como chefe do novo ministério da justiça e segurança, Moro supervisionou a enorme expansão da jurisdição do FBI e alcance dentro do território soberano brasileiro, incluindo o estabelecimento dos chamados centros de coleta de inteligência Fusion . Em conversas que vazaram, o promotor-chefe de Lava Jato, Deltan Dellagnol, chamou a prisão de Lula de “ um presente da CIA ”.

Então, em que qualidade e em nome de quem Sérgio Moro está participando de negociações confidenciais entre os Estados Unidos e o Brasil sobre política ambiental? E para qual país?

Uma pista pode estar no que dizem que ele disse na reunião e em sua conversa com o embaixador dos EUA, Chapman. De acordo com o relato anônimo da reunião:

“Moro, por sua vez, perguntou se havia algo que o setor privado pudesse fazer se o governo brasileiro não cooperasse com o meio ambiente e ouviu de Chapman que muitas empresas americanas estão exigindo uma resposta mais agressiva ao meio ambiente, porque não o fazem querem pagar em nome dos envolvidos em ilegalidades e desmatamento. ”

As empresas que mais investem no desmatamento na Amazônia são membros dlobby / think tank de Wall Street Conselho das Américas , que está intrinsecamente relacionado ao Departamento de Estado, compartilhando muitos funcionários antigos e atuais, e realizando seu evento anual em sua sede o Harry S. Truman prédio.

O Conselho das Américas promoveu sem fôlego Sérgio Moro, Lava Jato e a guerra contra a corrupção no Brasil e na América Latina, o que trouxe benefícios imediatos para seus membros como Cargill, Blackrock, Rio Tinto e Chevron. Mesmo depois dos incêndios que varreram a região em 2019 , em fevereiro de 2020, sua revista interna Americas Quarterly publicou um artigo afirmando que “ o plano de Bolsonaro para a Amazônia tem verdadeiras razões para ter esperança ”. No Fórum Econômico Mundial de Davos 2017, o procurador-geral brasileiro Rodrigo Janot disse aos participantes que Lava Jato era “pró-mercado ”, uma posição política que não deveria ter. Dois anos depois, com Bolsonaro no poder, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos tentou premiar  a Força-tarefa Lava Jato com uma propina de $ 672 milhões de dólares .

Independentemente da administração, republicana ou democrata, sempre que os Estados Unidos negociarem pela Amazônia será sempre em nome desses interesses corporativos arraigados, ao lado de quaisquer novas preocupações ambientais que possam ocupar as manchetes.

Nesse sentido, a participação de Moro nesta reunião talvez não seja surpreendente …

fecho

Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo site Brazil Wire [Aqui!  ].

Biden em negociações arriscadas para pagar ao Brasil para salvar a Amazônia

Ativistas temem que um acordo climático de bilhões de dólares reforce Bolsonaro e recompense o desmatamento ilegal da floresta, mas os EUA dizem que a ação não pode esperar
desmatamento
Uma foto aérea mostra o contraste entre as paisagens florestais e agrícolas perto de Rio Branco, Acre, Brasil. O Brasil está pedindo um bilhão de dólares a cada 12 meses em troca do qual o desmatamento seria reduzido em 30 a 40 por cento. Foto de Kate Evans / CIFOR.
Por Jonathan Watts, do “The Guardian”, para  o Earth Island Journal

Os EUA estão negociando um acordo climático de bilhões de dólares com o Brasil que os observadores temem que possa ajudar a reeleição do presidente Jair Bolsonaro e recompensar o desmatamento ilegal na Amazônia.

Essa é a preocupação de grupos indígenas, defensores do meio ambiente e ativistas da sociedade civil, que afirmam estar sendo excluídos das conversas mais importantes sobre o futuro da floresta tropical desde pelo menos 1992.

Altos funcionários dos EUA estão realizando reuniões online semanais sobre a Amazônia antes de uma série de grandes conferências internacionais. Ministros e embaixadores da Grã-Bretanha e da Europa também estão envolvidos. Mas, ao invés de quem conhece melhor a proteção florestal, seu interlocutor brasileiro é o ministro do Meio Ambiente do Bolsonaro, Ricardo Salles, que supervisionou o pior desmatamento em mais de uma década

Salles está pedindo um bilhão de dólares a cada 12 meses em troca, pelo que, diz ele, o desmatamento da floresta seria reduzido em 30 a 40 por cento. Sem o caixa estrangeiro extra, ele diz que o Brasil não será capaz de se comprometer com uma meta de redução .

Apenas um terço do dinheiro iria diretamente para a proteção da floresta, com o resto sendo gasto no “desenvolvimento econômico” para fornecer meios de subsistência alternativos para aqueles que dependem da extração de madeira, mineração ou agricultura na Amazônia. Isso gerou preocupações de que Salles canalizaria dinheiro para o eleitorado fortemente bolsonarista de fazendeiros e grileiros, recompensando-os por invadir, roubar e queimar florestas.

Na terça-feira, um grupo de 199 grupos da sociedade civil publicou uma carta conjunta ao governo dos EUA dizendo que qualquer acordo com o governo brasileiro seria equivalente a um apaziguamento. “Não é razoável esperar que as soluções para a Amazônia e seu povo venham de negociações feitas a portas fechadas com seu pior inimigo”, dizia a carta. “O governo Bolsonaro tenta a todo custo legalizar a exploração da Amazônia, causando danos irreversíveis aos nossos territórios, povos e à vida no planeta.”

Os cientistas dizem que a ação internacional está muito atrasada na maior floresta tropical do mundo. A Amazônia é essencial para a estabilidade do clima, mas a atividade humana está transformando a região em uma fonte – ao invés de um sumidouro – de carbono atmosférico. Algumas áreas estão perto de um ponto crítico onde a floresta encolhe, seca e se degrada irreversivelmente em uma savana.

Os próximos meses devem ser a melhor oportunidade para reverter isso em muitos anos. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, convidou líderes mundiais para uma cúpula do clima em Washington em 22 de abril, tendo prometido US $ 20 bilhões para as florestas tropicais durante sua campanha eleitoral. No final do ano, o Reino Unido sediará a COP26, a mais importante conferência climática da ONU desde Paris, em Glasgow. Nesse meio tempo, os líderes mundiais devem se reunir em Kunming, na China, para definir metas de biodiversidade para os próximos 10 anos.

Mas não pode haver solução sem a Amazônia, o que significa que quem busca o progresso tem que lidar com Bolsonaro e seus ministros, apesar de suas políticas nacionalistas, anticientíficas e antiambientais.

“O Brasil é importante demais para ficar fora da mesa de negociações”, disse uma fonte familiarizada com as negociações. “Muitos na sociedade civil dizem ‘não negocie com o governo brasileiro’. Mas os EUA dizem que precisam lidar com líderes eleitos porque não podem adiar a discussão sobre o desmatamento por dois ou mais anos ”.

Esse é um risco para Biden, que está prestes a fazer o que Trump nunca fez: dar dinheiro a um presidente brasileiro que estripou agências de proteção florestal, administrou de forma fatal a crise de Covid e é visto como um perigo não só para o Brasil, mas o mundo .

Izabella Teixeira, a ex-ministra do Meio Ambiente do Brasil, disse que os EUA e o Reino Unido estão prestes a pagar um governo que está mantendo o planeta como resgate. “Eles têm que oferecer dinheiro ao governo de Bolsonaro para que ele não bloqueie as reuniões da COP”, disse Teixeira, que representou o Brasil em várias conferências internacionais durante a gestão de Dilma Rousseff.

Ela disse que o foco de Salles nos mercados de carbono e pagamentos por serviços ecossistêmicos tem apoio entre a ala mais conservadora do setor de agronegócio e pode gerar dinheiro para uma versão reinventada do programa de benefícios sociais Bolsa Verde na Amazônia e em outros lugares. Esse dinheiro e o prestígio de um acordo internacional podem fornecer uma tábua de salvação política para o Bolsonaro, cuja popularidade está caindo. Nos últimos meses, o presidente perdeu ou demitiu seu ministro da Justiça, ministro das Relações Exteriores, ministro da Defesa e os comandantes das três forças armadas.

Salles, um confidente de Bolsonaro, está liderando negociações e tweetando capturas de tela de suas reuniões virtuais com a equipe dos EUA, liderada por Jonathan Pershing, e o presidente da COP26 do Reino Unido, Alok Sharma. Entre outras propostas, ele está procurando mais apoio estrangeiro para um esquema que incentive a adoção corporativa de parques nacionais, maior uso de créditos de carbono e pagamentos de serviços ecossistêmicos a agricultores para manutenção de florestas e plantio de árvores.

Mas Salles, que se tornou ministro do Meio Ambiente em 2019, não tem credibilidade com quem defende a floresta. Ele tentou monetizar a região e promoveu a mineração e o agronegócio e, sob sua supervisão, o livro de regras para a proteção da Amazônia, que reduziu o desmatamento em 80%, foi arquivado, agências de monitoramento foram evisceradas, 15.000 quilômetros quadrados de floresta foram desmatados e O Brasil retrocedeu em seu compromisso internacional de reduzir as emissões de carbono.

Salles já tem acesso a fundos internacionais substanciais. Cerca de US$ 3 bilhões da Noruega e da Alemanha ficam ociosos no Fundo Amazônia, que foi congelado pelo ministro do Meio Ambiente porque ele não gostou das condições estritas de desmatamento que vieram com ele. Isso levanta questões sobre como os novos fundos seriam usados ​​e por quem.

Ativistas e acadêmicos dizem que qualquer negócio deve envolver pagamentos por resultados, o dinheiro deve ser canalizado por meio de governadores estaduais e não do governo federal, não deve recompensar proprietários de terras simplesmente por obedecer à lei e recursos para fiscalização devem ser na forma de guardas ambientais especializados, em vez de recrutas para a força policial pró-Bolsonaro.

Eles querem que o Brasil forneça um plano detalhado para atingir o desmatamento zero. O mais importante, dizem eles, é que a distribuição de fundos deve se concentrar na proteção de florestas antigas existentes em territórios indígenas, em vez de novas plantações em terras desmatadas por agricultores. Um acordo eficaz, eles argumentam, precisaria envolver as comunidades tradicionais da floresta, que provaram ser as melhores guardiãs do meio ambiente.

Fontes próximas às negociações dizem que se não houver acordo bilateral com o Brasil até abril, os EUA provavelmente farão uma declaração forte, mas ampla, de apoio às florestas tropicais em todo o mundo. Isso seria uma cenoura para encorajar as nações amazônicas a competir por fundos com reduções quantificáveis ​​do desmatamento. O Brasil pode perder para seus vizinhos Colômbia, Bolívia ou Peru.

Isso faz parte de um esforço diplomático coordenado. Um grupo de cinco embaixadores dos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Noruega e UE se reuniu recentemente com Salles e outros ministros para transmitir a mensagem de que as políticas da Amazônia precisam mudar e o desmatamento deve diminuir se o Brasil quiser chegar a um acordo e perder sua reputação internacional prejudicial como um vândalo ambiental.

As pressões do tempo podem enfraquecer a determinação. Biden deseja anunciar o sucesso em sua cúpula do clima no final deste mês, e o Reino Unido buscará avanços na COP-26 em novembro. Ambientalistas temem que um acordo apressado com um parceiro de negociação insincero possa ser pior do que nenhum acordo. A menos que os pagamentos sejam fortemente atrelados aos resultados da redução de emissões, eles podem ser desperdiçados em duvidosos créditos de carbono, vagos planos de desenvolvimento, benefícios para grileiros e um enorme novo sistema de lavagem verde para empresas de combustíveis fósseis.

A maneira de evitar isso, dizem eles, é tornar as negociações transparentes e convidar publicamente o envolvimento da sociedade civil. Atualmente, Bolsonaro é o único participante brasileiro convidado para a cúpula do clima de Biden, que envia um sinal preocupante para aqueles que há muito lutam pela proteção das florestas.

“O Brasil é hoje um país dividido. Por um lado, existem indígenas, quilombolas [descendentes de escravos afro-brasileiros], cientistas, ambientalistas e pessoas que trabalham contra o desmatamento e pela vida ”, disse Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório Brasileiro do Clima, uma rede da 50 organizações da sociedade civil. “De outro, está o governo Bolsonaro, que ameaça os direitos humanos, a democracia e coloca em risco a Amazônia. Biden precisa escolher de que lado ficará. ”

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo Earth Island Journal [Aqui!].

De: Brasil, Para: Joe Biden, com carinho

biden

Enquanto o governo dos EUA liderado pelo presidente democrata Joe Biden tenta negociar sigilosamente um acordo com o Brasil para tentar conter o avanço da franja do desmatamento que se move para áreas interiores da Amazônia, um vídeo produzido em inglês procura alertar o lado estadunidense sobre os riscos envolvidos em ter negociar com o governo Bolsonaro.

Esse tipo de pressão política certamente cria embaraços para os membros do governo Biden que durante a campanha eleitoral prometeram defender a Amazônia e cobrar uma nova postura por parte do presidente Jair Bolsonaro.