Jogos Olímpicos: a ressaca depois da festa e as dívidas impagáveis

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O jornal inglês “The Guardian” publicou hoje uma ampla matéria escrita pelo cientista político Luís Eduardo Soares sobre a ressaca que inapelavelmente se abaterá sobre o Rio de Janeiro após o encerramento dos Jogos Olímpicos  (ver imagem monstrando uma reprodução parcial da matéria).

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A abordagem tomada por Luís Eduardo Soares vai além dos clichês patrióticos que ressaltam uma suposta capacidade do brasileiro em produzir grandes coisas, desafiando desconfianças que apenas refletiriam um suposto complexo de vira lata no plano interno, e de um imperialismo cultural no plano externo.

Luis Eduardo Soares também vai além ao colocar a herança problemática para além das dívidas impagáveis quando ressalta o tipo de transformação segregacionista que foi operada na cidade do Rio de Janeiro, deixando como resultado uma cidade ainda mais dividida e, pior, sem liderança ou direção a seguir. 

Luis Eduardo Soares encerra dizendo que  o Rio de Janeiro é bom quando apresenta sua face espetacular, mas com problemas graves no seu cotidiano. E essa característica, somadas todas as dívidas e obras inacabadas é que seriam a base de uma ressaca que começará já nesta segunda-feira.

Quem desejar ler a matéria completa, basta clicar (Aqui!)

Nissan, a dos Jogos Olímpicos, e as “generosidades fiscais” do (des) governo Pezão

Nissan cars at the Rio 2016 Olympic fleet / Credit: Nissan

O blog Transparência RJ revelou ontem (16/8) outra generosidade de 50 anos que foi concedida pelo (des) governo Pezão à uma das principais fornecedoras da montadora Nissan (Aqui!)

O pessoal do Transparência RJ nos lembra que novamente uma montadora de automóveis e empresas a elas ligadas (no caso em tela se trata da PPG Industrial do Brasil Tintas e Vernizes Ltda) são agraciadas com um benefício que gerará um prejuízo enorme na arrecadação de ICMS para o estado e municípios do Rio de Janeiro por um grande período de tempo (ver extrato abaixo).

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Outro aspecto que foi apontado é que, coincidências das coincidências, a Nissan é a patrocinadora oficial dos veículos dos Jogos Olímpicos que estão realizados na cidade do Rio de Janeiro.

Particularmente acho escandaloso que se distribua mais essa “generosidade fiscal” enquanto escolas, hospitais e universidades continuam sendo relegadas a um processo de sucateamento total. Isto sem falar na situação dos salários de servidores da ativa, aposentados e terceirizados.

De toda forma, quando a coisa voltar a esquentar após o recesso da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), pelo menos não teremos que ouvir a ladainha de que a crise financeira envolvendo o tesouro estadual é por causa da redução nas receitas do petróleo. É que está mais do que claro que a raiz da crise está firmemente presa nessa política de isenções fiscais que abrem mão do principal elemento de receita por exatas cinco décadas!

Ah, sim, toda vez que virmos um desses eventos do megaevento esportivo do COI, há que se lembrar que a Nissan é quem está ganhando a medalha de ouro das generosidades fiscais do (des) governo Pezão/Dornelles.

TsuLama: 9 meses de impunidade para a Vale e a BHP Billiton

Coincidência ingrata maior seria impossível. Enquanto hoje é aberto o megaevento bilionário do Comitê Olímpico Internacional (COI) na cidade do Rio de  Janeiro, os moradores das comunidades atingidas pelo TsuLama da Samarco (Vale + BHP Billiton) sofrem com uma inteira gestação de descaso e impunidade dos responsáveis pelo maior incidente ambiental em escala mundial da mineração nos últimos 300 anos!

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Não esquecer desse megadesastre é uma obrigação, especialmente num país onde as corporações mineradoras continuam reinando livremente. Se não for cobrada a devida responsabilidade da Vale e da BHP Billiton, uma coisa é certa: outros tsulamas virão! E o reservatório de Candonga está ai para nos lembrar dos riscos que persistem.

Copa e Olimpíada deixarão Rio endividado por 10 anos, diz estudo

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© Fornecido por New adVentures, Lda.

Qual o legado que a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos deixarão para a cidade do Rio de Janeiro?

 O pesquisador suíço Christopher Gaffney, da Universidade de Zurique, levantou esse questionamento em um novo estudo, entitulado “Transforming Rio – for the benefit of whom?”, em que revela que a dívida deixada por esses grandes eventos demorará 10 anos para ser paga pela cidade.

Segundo o pesquisador, o modelo de negócios desses grandes eventos precisa mudar para se adequar à realidade da população local, que acaba sofrendo com a dívida deixada.

Gaffney conta que o Comitê Olímpico Internacional e a FIFA oferecem às elites locais grandes promessas ao sediar tais eventos, no entanto, ao contrário do que parece, não conseguem entregar infraestruturas úteis aos moradores desses países.

FONTE: http://www.msn.com/pt-br/esportes/olimpiadas/copa-e-olimp%C3%ADada-deixar%C3%A3o-rio-endividado-por-10-anos-diz-estudo/ar-BBvgwlH?li=AAggXC1

Divulgando a Jornada de Lutas contra os Jogos da Exclusão  de 01 a 05/08 na cidade do Rio de Janeiro

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A Rio 2016 já vai começar e o (não)legado está claro. Uma cidade segregada, na qual bilhões são gastos, com qual resultado? Juventude negra sendo morta nas favelas, colapso do transporte, Estado quebrado sem pagar salários e golpe no governo federal para garantir ainda mais dinheiro na repressão.

A lista de violações é grande, mas a resistência também será! Na Copa das Confederações em 2013 e na Copa do Mundo em 2014 estávamos nas ruas e agora voltaremos à luta contra todas as violações cometidas em nome dos megaeventos!

De 1 a 5 de agosto: JORNADA DE LUTAS CONTRA RIO 2016, OS JOGOS DA EXCLUSÃO.

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Serão cinco dias intensos de atividades, culminando em um grande ato no dia da abertura dos Jogos.

Abaixo a programação que começa na segunda- feira (01/08) c0m a Vigília da Dignidade, que ocorrerá das 14h às 21h, no Centro do Rio, e continuará no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ de 02 a 04/08

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E lembrando que, no dia 05/08 haverá o Ato “Rio 2016 – Os Jogos da Exclusão”

Em uma cidade onde o abismo da desigualdade cresce cada vez mais, a base de tratores, tiros e bombas, é fundamental prosseguir e avançar na luta pelo direito à cidade, pela democracia e pela justiça social.

Vamos denunciar este projeto de cidade segregada, Rio Olimpíada 2016: os Jogos da Exclusão!

FONTE: https://www.facebook.com/events/1763662637246720/

Três matérias que mostram que no Rio de Janeiro se concentram todos os aspectos mais tenebrosos do mundo neoliberal: poluição, segregação, violência contra os pobres, e apropriação privada do Estado

Vivendo ao longo de quase quatro décadas no estado do Rio de Janeiro, vivo sempre dividido entre a admiração pelas suas maravilhas e seu povo generoso e o pasmo com a capacidade de suas elites políticas e econômicas de transformá-lo em um imenso caldeira de injustiças sociais, econômicas e ambientais.

Mas seja pela crise financeira em que o Neoliberalismo de oportunidades seletivas que os sucessivos (des) governos do PMDB criaram ou pela visibilidade cada vez mais das impressionantes distorções de investimentos que o megaevento de propriedade do Comitê Olímpico Internacional (COI) ajudou a desvelar sobre nossa situação catastrófica, estamos sendo expostos à situação como ela  realmente é por diferentes matérias jornalísticas e informações vindas da chamada blogosfera.

Como exemplo inicial a matéria assinada pelo jornalista David Goldblatt para o jornal britânico “The Guardian”  (Aqui!) cujo subtítulo diz que “as preparações (Jogos Olímpicos) tem sido muitas vezes uma bagunça, mas a do Rio de Janeiro poderá ser a mais desordenada da história, e não importa quão especial seja o evento, um desastre de proporções inéditas já ocorreu“. Mas para quem acha que Goldblatt se ocupou apenas de desancar a bagunça reinante na edição dos jogos que começará no dia 05 de Agosto, na verdade ele produziu uma Raio X inclemente do significado social do megaevento a partir do que ocorreu em diferentes edições em termos de violência, deslocamentos forçados, massacres de ativistas e gentrificação. E Goldblatt vaticina que no Rio de Janeiro todos esses males foram combinados e potencializados.

O segundo exemplo que seleciono para mostrar essa convergência de males é um novo velho escândalo que ocorre sob os narizes cúmplices das autoridades e teima em chover sobre as cabeças dos moradores da Zona Oeste do Rio de Janeiro.  Falo aqui da escandalosa situação envolvendo a Companhia Siderúrgica do Atlântica do grupo alemão ThyssenKrupp que vem funcionando com base numa fictícia licença de pré-operação, a qual não possui guarida legal.  Em função disso, como a agência Reuters informou ontem (Aqui!) que o Ministério Público do Rio de Janeiro iniciou uma ação para impedir que a TKCSA possa continuar operando sem que sejam feitas análises sobre os impactos da poluição que ela sabidamente emite, de modo a garantir que sejam feitas modificações nos sistemas emissores de rejeitos que sabidamente são ineficientes. O verdadeiro escândalo aqui é que a TKCSA vem operando sem a requerida Licença de Operação desde 2010! De lá para cá, sabe-se lá quantas pessoas adoeceram (ou até morreram) por causa de suas emissões poluentes, enquanto o (des) governo do Rio de Janeiro assiste impassivelmente à violação das leis ambientais que ele deveria fazer observar por esse grupo multinacional.

O terceiro exemplo que, para mim, sintetiza as interrelações pouco republicanas que dão margem a que literalmente quase tudo possa ser permitido aos detentores do capital no Rio de Janeiro vem do blog Transparência RJ que nos informa que a concessão da operação do Teleférico do Alemão será entregue a uma empresa do Sr. Tiago Cedraz que, por sua vez, é filho do presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Aroldo Cedraz (Aqui!). E a equipe de responsáveis do Transparência RJ também nos informa que a empresa do Sr. Cedraz também já opera o teleférico do Morro da Providência, tornando-o basicamente um monopolista deste serviço nas comunidades que possuem este tipo de serviço de transporte. 

O que esses três exemplos mostram mais uma vez é que não apenas a aludida crise em que o Rio de Janeiro está imerso é extremamente seletiva em termos de ganhadores e perdedores, mas que se examinarmos com um mínimo de cuidado, veremos que muitos dos personagens estão bem juntos e misturados numa busca pela maximização dos ganhos econômicos, normalmente com a transferência dos ônus resultantes de suas operações para os mais pobres e politicamente desempoderados.

E se olharmos tudo isso pelo prisma do que o presidente interino Michel Temer que impor nos próximos meses, veremos que o Rio de Janeiro foi transformado num imenso laboratório de medidas cujo intento é fazer o Brasil regredir ao Século XVI. Simples assim!

Matéria da Bloomberg joga luz sobre assassinato da geógrafa Priscila Pereira no Rio de Janeiro

Jornalistas apontam combate à corrupção nos projetos da despoluição da Baía da Guanabara como causa mais provável.

Em artigo publicado no dia de hoje (28/07) pela Bloomberg News, os jornalistas David Biller e Michael Smith oferecem uma visão completa das prováveis causas do assassinato da geógrafa Priscila de Góes Pereira no dia 05 de Outubro de 2015 nas proximidades da estação Maria da Graça do metrô do Rio de Janeiro (Aqui!) (ver reprodução parcial abaixo).

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E a versão que emerge desta matéria bem cuidada nada tem a ver com as insinuações levantadas na época de que Priscila Pereira teria a ver com questões passionais, mas sim com a postura que a geógrafa assassinada tinha em suas funções profissionais no “PROGRAMA DE SANEAMENTO DOS MUNICÍPIOS DO ENTORNO. DA BAÍA DE GUANABARA(PSAM) (Aqui!).

Ainda que a matéria não aponte para os potenciais mandantes do assassinato de Priscila Pereira, o que os jornalistas da Bloomberg mostram é que ela era pressionada para receber propinas que possibilitassem, entre outras coisas, a cobrança por serviços prestados nos esforços feitos para despoluir a Baía da Guanabara até o início dos Jogos Olímpicos.

Em outras palavras, o assassinato de Priscila Pereira nada teria tido a ver com paixões mal resolvidas, mas sim com sua indisposição para tolerar e aceitar propinas. 

O interessante é que agora chegamos à exposição deste crime e de suas potenciais ligações com o fracasso do programa de despoluição da Baía da Guanabara pelas mãos de dois jornalistas que trabalham para a Bloomberg, e não para um dos grandes veículos mantidos pela mídia coporativa brasileira.  Aliás, essa é a primeira notícia que esta matéria traz: a mídia estrangeira fazendo jornalismo investigativo de qualidade, enquanto a brasileira segue tentando nos distrair com cenas de grandeza que não resistem a um escrutínio minimamente sério. 

No meio disso tudo há que se ter na memória a pessoa de Priscila Pereira que teve sua vida ceifada por se comportar de forma honrada e ética. Essa perda somada à condição deplorável em que a Baía da Guanabara se encontra são parte de nossa tragédia cotidiana.

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No período em que foi assassinada, a geógrafa Priscila Pereira desenvolvia pesquisas na área do planejamento governamental sob a perspectiva do desenvolvimento territorial e regional, através do grupo de Pesquisa do Laboratório Estado, Economia e Território (LESTE/IPPUR/UFRJ).

Pelo menos com essa matéria da Bloomberg o que eu espero é que a investigação desse assassinato tenha a prioridade que merece, e até hoje não teve.

Brasil 247:Olimpíada gera isenção fiscal de R$ 3,8 bilhões para 780 empresas

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Lei assinada pela presidente eleita Dilma Rousseff em 2013 concede isenção de impostos para um total de 780 empresas envolvidas nos jogos olímpicos da Rio 2016; entre elas estão o Comitê Olímpico Internacional (COI), a Globo, a Odebrecht, o Bradesco, a Coca-Cola e a Nike. É uma exigência do COI ao país-sede, compromisso firmado na candidatura do país, e praxe em outras edições; no Brasil, o total previsto é de R$ 3,8 bilhões

247 – Uma lei assinada pela presidente eleita Dilma Rousseff em 2013 concede isenção de impostos para um total de 780 empresas envolvidas nos jogos olímpicos da Rio 2016. 

Entre elas estão o Comitê Olímpico Internacional (COI), a Globo, a Odebrecht, o Bradesco, a Coca-Cola e a Nike. É uma exigência do COI ao país-sede, compromisso firmado na candidatura do país, e praxe em outras edições. No Brasil, o total previsto é de R$ 3,8 bilhões.

“A Lei tem o propósito de criar incentivos fiscais para o comitê organizador. Isso é nos moldes da Copa do Mundo para desonerar custos da realização”, informou o comitê ao blog do jornalista Rodrigo Mattos. “O Rio-2016 requer as habilitações. Só as empresas que estão com regularidade fiscal que podem ser incluídas, e só em notas para pagamento do Rio-2016.”

As isenções se restringem aos serviços ou produtos usados pelas empresas ou entidades para os Jogos, no período de janeiro de 2013 e 2017. Cada empresa passa a ter o direito a não pagar os impostos a partir do momento em que a Receita a inclui na lista. No caso das empresas nacionais, elas não precisam pagar nenhum imposto de importação para produtos ou serviços vindos do exterior. Também não pagam IPI de produtos adquiridos no país para realizar os Jogos, nem têm de quitar PIS/Pasep e Cofins por serviços contratados. Firmas vinculadas ao COI não têm de pagar nem imposto de renda.

A Globo Comunicações foi incluída na lista da Receita em maio de 2015 como prestadora de serviços e transmissora oficial do evento. O pagamento da importação de equipamentos também está isento. A emissora disse que ganhos com publicidade não estão livres de impostos. Com cotas de R$ 255 milhões, a Globo ganhará R$ 1,5 bilhão só em propaganda direta com os Jogos. “O valor da desoneração das emissoras é pequeno em relação ao total da isenção prevista em lei”, disse a assessoria.

FONTE: http://www.brasil247.com/pt/247/economia/244945/Olimp%C3%ADada-gera-isen%C3%A7%C3%A3o-fiscal-de-R$-38-bilh%C3%B5es-para-780-empresas.htm

Rio de Janeiro, uma cidade imersa no caos. E o pior ainda não chegou!

Ontem (18/07) tive um daqueles momentos para nunca mais esquecer porque decidi não viver numa metróple: dirigi duas vezes pelo centro da cidade do Rio de Janeiro. A pouco menos de três semanas do início dos Jogos Olímpicos de 2016, o que vivenciei como motorista foi a mais pura manifestação do caos urbano. Desde ruas completamente fechadas a pessoas atravessando em qualquer ponto das ruas, estava lá a expressão mais pura de uma reforma urbana anti-popular.

Alguns poderiam dizer que depois dos Jogos Olímpicos, com as obras enfim terminadas, as coisas vão melhorar. Aliás, é isso que promete o serelepe prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Mas até o mais ingênuo dos cariocas já sabe que esse caos será uma herança que vai marcar o cotidiano da cidade por algum tempo, pois o que não foi feito antes dos Jogos certamente vai entrar em um compasso ainda mais lento, pois o que se avizinha é também uma crise financeira em nível municipal. 

E tudo isso é para quê? Pelo que eu pude antever das mudanças já realizadas na paisagem, e isso não é novidade alguma para quem está pesquisando o assunto, a cidade do Rio de Janeiro está sendo preparada para se tornar de vez uma cidade global para os ricos.  A primeira coisa é que os pobres estão sendo varridos dos locais que passam por essa transformação globalizante num evidente processo de gentrificação. Depois, apenas haverá espaço para aqueles que podem pagar para desfrutar das modernidades globalizadas e caras que estão sendo impostas na paisagem urbana carioca.

Para complicar ainda mais essa realidade de exclusão e segregação, é quase inevitável que uma grave crise financeira venha a se abater sobre essa Rio de Janeiro transformada. E como sempre não serão as empreiteiras e as corporações financeiras que vão arcar com os custos desta crise que é, essencialmente, planejada para acontecer.  

Agora, como tudo isso está aí para ser visto, vamos ver como se comportam no futuro os que não foram convidados para esta festa. Mas, por enquanto aos menos para mim, a próximida ida ao Rio de Janeiro não será de carro.

Entrevista da BBC escancara a crise do modelo de cidade dos megaeventos. Edição do Rio de Janeiro dos JOs deverá ser divisor de águas

Nos últimos dias temos ouvido e assistido declarações aparentemente contraditórias do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, indicando que as Olimpíadas estão se tornando uma “oportunidade perdida” para a cidade que ele governa  (Aqui!). 

Alguns críticos de Eduardo Paes rapidamente apontam para o cinismo das declarações, já que o prefeito não só foi um dos maiores entusiastas da vinda deste megaevento para o Rio de Janeiro, mas como tratou de forma fortemente centralizadora todos os aspectos relativos aos mínimos detalhes em relação à implantação das infraestruturas físicas e logísticas definidas para garantir a realização do mesmo.

Aliás, quem não se lembra da imagem épica de Eduardo Paes, em companhia dos filhos, de Pezão e do seu pupilo Pedro Paulo) apertando a alavanca de detonação do elevado da Perimetral no final de 2013,?

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Entretanto, não considero que os posicionamentos públicos de Eduardo Paes sejam só cinismo, mas sim uma tentativa de ocultar todas as facetas negativas que certamente emergirão durante a realização dos Jogos Olímpicos e, principalmente, após o seu encerramento. Nesse sentido, posto abaixo a íntegra de uma entrevista realizada pelo BBC com o professor Jules Boykoff, doutor em ciência política e professor da American University, de Washington DC.  

De cara, considero que as diferentes nuances abordadas nesta entrevista revelam a real face desse megaevento, não apenas na sua edição Rio de Janeiro, mas ao longo do tempo em que os Jogos Olímpicos foram vendidos como um megaevento esportivo capaz de resolver problemas urbanísticos acumulados, apenas para gerar condições ainda mais precárias e antidemocráticas nas cidades-sedes.

O fundamental aqui é entender que do ponto de vista das empreiteiras e das corporações essa edição dos Jogos Olímpicos já é um sucesso de vendas. Felizmente, como mostra o professor Boykoff, o jogo (desculpem-me o trocadilho) ainda está sendo jogado em termos dos processos de resistência e enfrentamentos com o modelo de cidade que se associa a este megaevento. E talvez seja isto o que realmente preocupa Eduardo Paes.

Rio 2016 escancara crise do modelo dos Jogos Olímpicos ‘como nunca antes’, diz pesquisador dos EUA

Militares em frente à placa Cidade Olímpica
AFP. Para especialista, cada vez menos cidades se interessam em sediar Jogos

A Rio 2016 será marcada como a Olimpíada em que “o verniz das relações públicas se desfez de forma inédita na história dos Jogos, como nunca antes”, na opinião do pesquisador Jules Boykoff, doutor em ciência política e professor da American University, de Washington.

Em entrevista à BBC Brasil, ele disse que problemas surgidos na preparação dos locais sede – “privilégios para os mais ricos, remoções de muitas pessoas do seu local de moradia e militarização do espaço público” – não são novos, mas que no Rio “você vê essas tendências aumentadas, e com clareza muito maior”.

Ele diz, como exemplo, que no Rio “jamais houve a mínima ilusão” de que a Vila dos Atletas seria revertida, após os Jogos, em alguma projeto de valor social, como foi o caso em Olimpíadas anteriores.

Jules Boykoff, BRIAN LEE. Jules Boykoff escreveu livro sobre história política dos Jogos

“A Olimpíada como megaevento está lentamente entrando em crise, e você vê elementos desta crise se apresentando com força maior no Rio.”

Em seu livro recém-lançado, Power Games: A Political History of the Olympics(“Jogos de Poder: Uma História Política das Olimpíadas”) ainda sem título oficial em português, Boykoff descreve o que vê como uma crise estrutural no modelo dos Jogos, da escolha da cidade-sede ao descompasso orçamentário e às promessas de legado não cumpridas.

Para o especialista, o COI (Comitê Olímpico Internacional), é parte do problema, por encorajar projeções de custo irreais no momento da candidatura das cidades-sede e por guardar seu próprio orçamento a sete chaves. Ele acredita que o Rio avançou muito pouco após dez anos sediando megaeventos.

Em entrevista à BBC Brasil, Boykoff, que jogou no time olímpico de futebol dos Estados Unidos nos anos 1990, diz que há cada vez menos cidades interessadas em sediar as Olimpíadas e que a tendência é que o COI encontre cada vez mais dificuldades em achar candidatos.

Veja os principais trechos da entrevista:

Vista do Rio
PA.  Estudioso diz que ‘verniz das relações públicas’ caiu no Rio

BBC Brasil – A Rio 2016 enfrentou problemas como promessas não cumpridas na área ambiental, remoções de comunidades para dar lugar a obras, além de projetos que ficaram mais caros e atrasos em áreas importantes, como a expansão do metrô linha 4. São problemas que vêm se tornando rotina paras as cidades-sede ou tratam-se de questões específicas do Rio?

Jules Boykoff – A Olimpíada do Rio segue um padrão de problemas que estamos vendo em diversas cidades-sede nos últimos anos, e estes incluem os privilégios para os mais ricos, remoções de muitas pessoas do seu local de moradia e militarização do espaço público. Eu diria que no Rio você vê essas tendências aumentadas, e com clareza muito maior. No Rio o verniz das relações públicas dos Jogos se desfez de forma inédita na história das Olimpíadas, como nunca antes.

A Vila dos Atletas é um bom exemplo disto. Em Olimpíadas anteriores, os organizadores escolheram esta área para se obter um valor social positivo após os Jogos, com a transformação em moradias sociais. No Rio, jamais houve a mínima ilusão de que isto aconteceria.

Desde o início o plano foi converter os apartamentos em condomínios de luxo. O contexto em torno das Olimpíadas mudou de forma muito drástica. Elas estão agora numa crise que vai além dos Jogos do Rio 2016. A Olimpíada como megaevento está lentamente entrando em crise, e você vê elementos desta crise se apresentando com força maior no Rio.

Vila dos Atletas
GETTY IMAGES. Vila dos Atletas será transformada em condomínio de luxo.

BBC Brasil – Quais são os principais aspectos desta crise estrutural que o senhor identifica para a forma como as Olimpíadas vêm sendo projetadas e geridas?

Boykoff – Um grande indicativo é que cada vez menos cidades estão interessadas em sediar as Olimpíadas. Olhe para o processo de seleção para os Jogos de Inverno de 2022. Você vê que no final sobraram apenas dois locais: Almaty, no Cazaquistão, e Pequim, na China. Nenhuma das duas conhecidas como bastiões da democracia. E Pequim ganhou.

Se você olhar para trás, verá que todas as vezes que os cidadãos tiveram a oportunidade de dar sua opinião, num processo democrático, eles disseram não a sediar os Jogos. Isso aconteceu em Cracóvia, na Polônia, em Estocolmo, na Suécia, e em dois cantões da Suíça.

Em Oslo, deputados noruegueses também rejeitaram sediar a Olimpíada. O que se percebe é que, cada vez mais, se o processo de decisão é aberto à população ou a Casas parlamentares, numa consulta democrática, a resposta é não a sediar a Olimpíada.

BBC Brasil – A Olimpíada é vista por especialistas como o evento que mais extrapola o orçamento em comparação com qualquer outro grande evento. Sempre foi assim, ou é uma tendência recente?

Boykoff – Ao menos desde 1960 todas as Olimpíadas ultrapassaram o orçamento. Em parte, isso se deve ao fato de que as Olimpíadas se tornaram tão grandes. É o que alguns especialistas que estudam os Jogos chamam de “gigantismo”. E por causa disso os Jogos continuam crescendo mais e mais, acrescentando novos esportes, e conforme se tornam um alvo em potencial para grupos terroristas, o orçamento de segurança também aumenta.

As cidades são estruturalmente encorajadas a reduzirem o valor de tudo nos seus dossiês de candidatura. Oferecer estimativas menores do que os Jogos vão custar é crucial porque as cidades precisam de apoio da opinião pública durante o processo de candidatura.

Velodromo do RioGETTY IMAGES. Especialistas criticam gigantismo dos Jogos

BBC Brasil – Atualmente é praticamente impossível uma cidade-sede conseguir manter o orçamento previsto no processo de candidatura. Como o COI poderia ajudar a evitar este descompasso orçamentário?

Bookoff – Eu acho que o COI realmente é parte do problema porque tem demonstrado uma grande facilidade espontânea em ser enganado. Eles acreditam em qualquer coisa que qualquer candidato diga. Trata-se de um pensamento mágico por parte do COI, já que eles não fazem perguntas duras para as cidades candidatas.

O COI precisa ser muito mais transparente sobre o processo de votação das cidades-sede. Há a montagem de comitês e são produzidos relatórios técnicos sobre cada cidade, mas no final das contas as pessoas que votam podem ignorar toda essa documentação técnica e decidir porque têm uma relação com o presidente do país ou porque gostam do prefeito da cidade-sede.

BBC Brasil – Houve avanços no combate à corrupção no processo de seleção das cidades-sede? O COI diz que não pode divulgar informações sobre orçamento e gastos devido a contratos com parceiros comerciais e patrocinadores. Por que há tanta falta de transparência sobre as finanças do COI?

Barco a vela em Sydney REUTERS. Candidatura de Sydney e outras cidade teve muita corrupção, diz especialista

Boykoff – É muito difícil saber por ser um processo tão cinzento e cheio de segredos. Houve muita corrupção em torno das candidaturas de Sydney, na Austrália, e de Nagano, no Japão. Eles destruíram todos os documentos em Nagano, então nem sabemos o que aconteceu. A corrupção saiu do controle na candidatura de Salt Lake City, nos EUA, para os Jogos de Inverno de 2002, eles foram pegos, e o escândalo levou a algumas reformas no COI.

Hoje em dia, os membros do COI não podem fazer visitas especiais às cidades-sede antes da votação, que era justamente quando muito da corrupção ocorria. A corrupção parece estar menos disseminada atualmente na relação do COI com os processos de candidatura. Eu aplaudo o COI por recentemente ter começado a ser um muito mais transparente com relação aos seus gastos. Eles revelaram alguns dos benefícios do presidente da entidade, Thomas Bach, e de quanto são as diárias de alguns dos diretores do comitê quando estão em viagem.

Se você é um membro executivo do COI e vem ao Rio para reuniões, além de ficar no Hotel Copacabana Palace, você pode receber uma diária de US$ 900 para seus gastos pessoais. Se você é um membro normal, a diária é de US$ 400. Compare isso ao rendimento médio de um morador da Rocinha, de US$ 240 por mês.

Só por estar dentro da lei não significa que é ético, e só por estar sendo revelado não significa que não é chocante. O COI precisa ser mais responsável com o legado e os impactos dos Jogos para as cidades-sede. Muitas vezes, o COI diz que não pode divulgar informações sobre orçamento devido a contratos com seus patrocinadores. Trata-se na verdade de um escudo atrás do qual o comitê se esconde para justificar que por isso não pode compartilhar informações financeiras.

BBC Brasil – Quando é que os Jogos começaram a perder seu apelo para as cidades?

Boykoff – Eu acho que 1976 foi o ano mais decisivo para a história política do COI, primeiro por conta de Montreal, quando o prefeito disse que os Jogos custariam US$ 125 milhões, e disse que seria mais fácil um homem ter um bebê do que a Olimpíada entrar em deficit orçamentário. Ela acabou custando US$ 1,5 bilhão e levou 30 anos para que a dívida deixada pelos Jogos fosse paga pelos contribuintes.

No mesmo ano, no processo de candidatura dos Jogos de Inverno, os cidadãos de Denver, nos EUA, se posicionaram, fizeram protestos e conseguiram exigir um plebiscito no qual votaram contra sediar os Jogos, dizendo que isto acabaria com o meio ambiente e traria dívidas, e o COI teve que mudar a sede para Innsbruck, na Áustria.

Pira em Montreal
GETTY IMAGES. Dívida dos Jogos de Montreal demoraram 30 anos para serem pagas

BBC Brasil – O senhor ressalta vários pontos negativos e problemas em sediar as Olimpíadas, mas quais são os benefícios que uma cidade pode obter ao sediar os Jogos?

Boykoff – Olhando para as Olimpíadas recentes eu diria que um dos maiores ganhos para uma cidade que sedia os Jogos pode ser o avanço na rede de transporte público. Veja o caso de Atenas, em 2004. A maior parte das pessoas viu os Jogos de Atenas como um desastre total. É fato que eles mal terminaram as obras antes dos Jogos, mas melhoraram o sistema de metrô, e isso é algo que todos os cidadãos de Atenas podem usufruir todos os dias.

Se a linha 4 for concluída, no caso do Rio este seria um grande ganho para o transporte público. Já em quesitos ambientais e de sustentabilidade o COI precisa melhorar. Se as promessas ambientais tivessem sido cumpridas no Rio este seria um grande ganho para os cariocas.

Trabalhador na obra do metrô na Barra
REUTERS. se concluída, linha 4 do metrô pode ser legado para cidade

BBC Brasil – O Rio acaba de sair de um ciclo de dez anos como sede de grandes eventos. Houve os Jogos Panamericanos, Jornada Mundial da Juventude, Rio+20, Jogos Mundiais Militares, Copa das Confederações, Copa do Mundo e agora Olimpíada. Se houvesse tantos avanços com a realização desses megaeventos, a cidade não deveria ser, a esta altura, muito melhor e com problemas muito mais resolvidos, em setores como transporte público e saneamento básico?

Boykoff – Sim, poderíamos esperar que após dez anos de megaventos o Rio estaria num outro patamar de transporte público, com melhor saneamento básico, tratamento de esgoto e questões de sustentabilidade resolvidas. Haveria maior avanço se muitas das promessas feitas para cada um desses eventos tivessem sido cumpridas.

Mas, dez anos depois, aqui estamos nos perguntando como foi possível gastar todos esses bilhões de dólares e como muito desse dinheiro público acabou servindo para proporcionar vantagens aos segmentos mais ricos da população carioca, as elites econômica e políticas. É doloroso refletir sobre todo esse dinheiro usado em megaeventos no Rio e o pouco que se conseguiu de beneficio para os cariocas.

Barcos na Baia de Guanabara
AP. Megaeventos não resolveram problemas da cidade

BBC Brasil – O senhor diria que os países que optam por pagar pelas arenas e instalações olímpicas, em vez de criar parcerias com a iniciativa privada, e depois usufruem 100% dos locais e podem dar finalidades coletivas a eles, acertam mais do que o modelo escolhido no Rio, onde em troca dos recursos para construção das arenas, grandes empreiteiras receberam o direito de explorar as regiões com empreendimentos de luxo, como na Vila dos Atletas, Campo de Golfe e parte do Parque Olímpico?

Boykoff – Eu acho que este seria um passo potencialmente muito positivo a ser tomado. Em geral a cidade-sede paga por essas construções, mas há um risco envolvido. O ideal seria o Estado pagar e depois poder usufruir 100% das instalações no plano de legado.

Caso o Rio tivesse usado lições de Olimpíadas anteriores nos aspectos onde houve avanços, poderia ter chegado a um plano muito bom. Usando, por exemplo, o sistema de transporte público de Atenas, e o estádio de natação de Londres. De forma geral, nenhuma Olimpíada recente serviu muito para o bem coletivo, e essa é uma das maiores enganações.

BBC Brasil – Seis meses após os Jogos, corre-se o risco de que o Estado e a Prefeitura do Rio se colocaram em dívidas muito maiores do que o imaginado por conta da Olimpíada?

Boykoff – Fazer predições é algo muito difícil, sobretudo num ambiente tão volátil e com tantas mudanças como a política e a economia do Estado e da cidade do Rio, onde há tantas turbulências constantes. Mas eu diria que o futuro ainda está em aberto no Rio, e há muito espaço para mudanças. Há diversas cartas sobre a mesa, e oportunidade de agitar e transformar. Resta saber se esta oportunidade será tomada.

FONTE: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36770268?ocid=socialflow_facebook