A mão nada invisível dos think tanks na vida dos brasileiros comuns

Como institutos, empresários e organizações supostamente isentas influenciam na política, na economia, na educação e até em golpe de Estado

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Ilustração gerada por IA / Canva

Por Elstor Hanzen

O nome em inglês think tanks, traduzido como tanques de ideias, pode enganar, parecer distante ou vago, mas seus efeitos são concretos e próximos de todos nós. Empresários como Jorge Gerdau Johannpeter e Jorge Paulo Lemann (das Lojas Americanas, Ambev e 3G Capital, entre outros empreendimentos), organizações como Instituto Ling, Instituto de Estudos Empresariais, Movimento Brasil Livre (MBL), Movimento Todos pela Educação e Fundação Lemman, mais políticos e até professores, todos estão entre as forças que atuam para transformar essas ideias em realidade.

Os atores por atrás dessas instituições e ideias costumam maquiar seus interesses sob o manto da suposta neutralidade. Contudo, são de perfil ideológico claro e atuam com diversos braços, desde a educação até os golpes de Estado, representando uma forma de fazer política que vem se tornando cada vez mais importante nos últimos anos.

A partir da visão política ideológica liberal, eles influenciam sobre quem paga mais ou menos impostos; tipo de educação que as crianças recebem; serviços públicos que devem ser privatizados; o que é corrupção e o que não é.

“São grupos de interesses que se organizam para divulgar determinadas ideias, em geral, por fora das instituições políticas tradicionais, como partidos e sindicatos. Com isso, aparentam uma certa neutralidade, maquiando interesses próprios e setoriais. Representam, assim, uma forma de fazer política que vai se tornando cada vez mais importante nos últimos anos”, assegura o professor e pesquisador da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, que atua nos programas de Pós-graduação em História e Filosofia, Hernan Ramirez.

Essa é uma rede global com uma infinidade de fundações, institutos e associações, que promovem uma agenda compartilhada, além de movimentar grandes somas de dinheiro para combater as políticas de bem-estar social e fomentar a exploração econômica e a concentração de riquezas.

Segundo Ramirez, o empenho desses atores em formar candidatos em várias esferas para atuarem de acordo com suas premissas, dá-se pela dificuldade histórica que os burgueses têm para chegar ao poder mediante o voto.

“Por exemplo, impor ajustes não é um programa popular. Só na Argentina parece que eles venceram essa barreira com Milei, mas é um caso excepcional”, compara Ramirez.

“Em outros tempos, a chegada ao poder desses grupos era por meio de golpes, hoje é através dos think tanks”, afirma o professor da Unisinos.

Ele acrescenta ainda que por causa da crise dos partidos e do próprio Estado, que se transformaram em máquinas eleitorais e incapazes de formular políticas públicas como antes, tudo acaba facilitando a atuação destas estruturas alternativas.

Antony Fisher, empreendedor britânico e fundador da Atlas Network, é um pioneiro na venda do libertarianismo econômico à opinião pública. A estratégia era simples: nas palavras de um colega de Fisher, a missão era “encher o mundo de think tanks que defendam o livre mercado”.

Origem golpista

Um dos primeiros think tanks brasileiros foi o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), que esteve no comando do golpe de 1964. De lá para cá, outros surgiram, em especial, durante a transição democrática. Entre 1983 e 1986 se fundam os Institutos Liberais que, de certo modo, foram a continuidade do IPES e se tornaram nos mais atuantes, geradores de outros centros que advogam por tais ideias.

Em 2016, por exemplo, “vimos como surgiu o MBL no contexto do golpe contra Dilma Rousseff, liberado por Kim Kataguiri, que tivera financiamento do Liberty Fund. Muitos desses thinks tanks agem propulsando “talentos” que crescem como outsiders, amparados pela descrença na política tradicional, algo que eles mesmo têm ajudado a instalar”, lembra Ramirez.

Conforme Ramirez, esse renascimento coincide com a mudança política na Sociedade Mont Pèlérin, o mais importante think tank neoliberal, que assumia um papel mais ativo na disseminação de tal ideário, “agora numa sorte de cruzada, que, na América Latina, vai na contracorrente da onda que se abre com a recuperação democrática, pois suas políticas estavam associadas com as ditaduras, em particular a chilena e argentina”, avalia.

“Em tempos mais recentes, foram importantes em diversos momentos políticos, como na época de FHC e, claro, nos governos Temer e Bolsonaro, pois, na maioria dos casos, são antipopulares e contra o desenvolvimentismo, pois representam os interesses das nossas elites associadas ao capital estrangeiro”, afirma o professor da Unisinos.

Raízes transnacionais

Pesquisador da Unisinos, Ramirez enfatiza que o maior mentor de think tanks vivo é, sem dúvida, Jorge Gerdau Johannpeter, empresário e presidente do conselho de administração da Gerdau.

Ele esteve presente na fundação dos Institutos Liberais e diversas outras ramificações, como Junior Achievement, que propaga o empreendedorismo, ou o Movimento Todos pela Educação, conhecido por pregar pela introdução de parâmetros neoliberais nas escolas.

Outra frente dessa linhagem, aclamada até há pouco, eram os acionistas das Americanas, J.P. Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles, cuja loja agora está envolvida em uma fraude de R$ 25 bilhões, conforme investigação da Polícia Federal (PF).

Na década de 1990, o trio lançou a Fundação Estudar, que já formou mais de 70 mil alunos, informa site da organização. Na parte de apresentação da instituição, em Valores, há uma espécie de roteiro de autoajuda, desde sonhe alto até como deixar um legado. Lemann também está à frente da Fundação Lemann.

Jessé Souza, escritor, doutor em sociologia e professor universitário, observa que o trio sempre foi festejado como exemplos de empresários astutos e inovadores.

“Lehman, muito especialmente, é talvez o mais festejado multimilionário brasileiro e frequentemente tido como inspiração de muitos. A blindagem dos acionistas principais nos crimes e fraudes gigantescas é a marca distintiva do capitalismo brasileiro”, referindo que eles agora estão sendo poupados, tanto na investigação da PF como na divulgação dos seus nomes pela mídia brasileira.

“Aqui, no Rio Grande do Sul, temos o Instituto Ling, fundado pela família Ling, em que se destaca o herdeiro Winston Ling,  também um núcleo de relevância, que deu suporte ao bolsonarismo, inclusive na propagação de fake news”, cita Ramirez. Winston é autor da célebre frase “o Brasil precisa de mais desigualdade” e responsável por fazer a ponte entre Paulo Guedes e Jair Bolsonaro nas eleições de 2018.

Essa aliança é típica, segundo o especialista, porque o liberalismo que pregam é o de mercado, não titubeando em se aliar com personalidades antidemocráticas, como o fez Friedrich Hayek, vinculando-se a Augusto Pinochet ou Jorge Rafael Videla, mesmo quando sabia que atentavam contra os direitos humanos.

“Por isso, não é uma casualidade que em Porto Alegre tenha lugar o maior convescote neoliberal do Brasil, o declinante Fórum da Liberdade, que todos os anos faz um desfile de algumas das suas figuras de maior relevo”, exemplifica Ramirez.

Em geral, o financiamento provém do capital mais concentrado de grandes empresas. Além disso, essas organizações recebem aportes ou auxílio organizativo do capital transnacional.

“Isso remonta a épocas do IPES e tem se mantido de diversas formas, pois existe uma forte circulação, agindo em redes que perpassam as fronteiras nacionais”, destaca o professor Ramirez. Para ele, assim colonizam estruturas sociais e estatais, em particular universidades e órgãos internacionais de fomento, mas sempre o discurso da neutralidade.

A mão nada invisível dos think tanks na vida dos brasileiros comuns
Wagner Lenhart (Millenium, IFL e IEE), Jorge Gerdau Johannpeter (IE, Junior Achievement /Todos pela Educação), Hélio Beltrão (Mises) , Winston Ling (IEE) e Jorge Paulo Lemann (Lemman e Educar)

Fotos: Divulgação

Falta transparência

Doutor em Ciência Política e professor do Departamento de Ciência Política e dos Programas de Pós-Graduação em Ciência Política e em Estudos Estratégicos Internacionais da Ufrgs, Eduardo Munhoz Svartman produziu diversos estudos sobre os think tanks e orientou o trabalho de mestrado Na batalha de ideias: objetivos, meios e ações da Atlas Network no Brasil”, publicado em 2020.

Svartman afirma que essas instituições liberais brasileiras não têm transparência em relação a suas fontes de financiamento, nem quanto aos atores e interesses por trás de suas ações.

Entretanto, segundo o cientista político, sabe-se que grande parte das receitas dos think tanks vem de doações privadas e organizações internacionais.

Atlas Network, por exemplo, é uma dessas instituições que recebe recursos e os repassam para cerca de 500 think tanks espalhadas mundo afora, 15 delas no Brasil. Ela também é uma das poucas que divulga essas informações.

Atlas repassou um montante de aproximadamente US$ 35 milhões para promoção de atividades de think tanks e financiamento de ações de institutos espalhados por quase todas as regiões do mundo, de 2010 até 2018, conforme dados divulgados na dissertação por Lucas Araldi, na pesquisa orientada por Svartman.

Um dos 15 think tanks a receber dólares para vender suas ideias junto a políticos e convencer a opinião pública sobre a importância do individualismo e do liberalismo econômico foi o Instituto de Estudos Empresariais (IEE) de Porto Alegre.

O IEE foi fundado em 1984, formado por uma comissão de 20 integrantes. O Instituto se apresenta como um centro de formação de lideranças, que se concentra na promoção de princípios de liberdade e responsabilidade individuais, Estado de direito e propriedade privada. O principal produto que oferece é o Fórum da Liberdade, que reúne empresários, intelectuais e políticos, e ocorre na capital gaúcha desde 1988.

Um dos líderes do IEE é o diretor de Comunicação José Pedro Gomes, que publicou um artigo no meio da pior tragédia climática da história do RS defendendo o Estado mínimo e atribuindo aos voluntários todas as soluções.

“Durante os resgates, vimos que o voluntariado foi o grande responsável pelo salvamento da maioria das vidas, com pessoas de todas as classes sociais se mobilizando, em um tom de igualdade e de forma descentralizada, arregaçando as mangas e se dedicando a ajudar o próximo, doando seu tempo e dinheiro. Enquanto isso, vimos o Estado agir de forma ineficiente (como de praxe)”, escreveu.

Outra organização bastante influente é o Instituto Millenium, também conhecido pelo acrônimo Imil (ou IMIL). Trata-se de um think tank brasileiro, com sede no Rio de Janeiro. Foi criado em 2005 pela economista Patrícia Carlos de Andrade e pelo filósofo Denis Rosenfield – conhecido professor da Ufrgs – para difundir uma visão de mundo liberal bem mais à direita do espectro político.

Entre os patrocinadores temos nomes como a  Editora Abril (de Veja), O Estado de S. Paulo, Grupo RBS, Universidade Estácio de Sá, Gerdau, Suzano, Porto Seguro Seguros.

Também, fortemente ligados ao Imil temos o ex-ministro Paulo Guedes, o comentarista Rodrigo Constantino (ex-VejaO GloboValorIsto É e Jovem Pan), o jornalista José Roberto Guzzo e os comentaristas da Rede Globo Demétrio Magnoli e Carlos Alberto Sardenberg, entre outros.

Atualmente o Millenium tem como CEO Wagner Lenhart, ex-diretor Institucional do Banrisul (governo Leite), Secretário Nacional de Gestão de Pessoas no Governo Bolsonaro, ao lado de Paulo Guedes no Ministério da Economia. Ele preside o Conselho de Administração do BDMG, além de conselheiro deliberativo de think tank, o Instituto de Formação de Líderes (IFL-SP), e é associado honorário do Instituto de Estudos empresariais (IEE).

Disputas

Lucas Araldi aponta em sua pesquisa que a maioria dessas instituições se volta para a produção de conteúdo para sensibilizar e obter o apoio da opinião pública em prol das ideias neoliberais.

“Todos os think tanks vinculados à Atlas, no Brasil, desenvolvem atividades de cooptação, na medida em que mantêm publicações em redes sociais, blogs atualizados e promovem eventos regularmente. Isso envolve publicação de textos de opinião, produção de podcastswebinars e discussões sobre livros e artigos”.

Para o professor de pós-graduação em História e Filosofia da Unisinos Hernan Ramirez, a ideia de tudo é simples e efetiva, criminalizar a política, partidos e movimentos sociais tradicionais que estariam contaminados, seriam “ideológicos” e, portanto, os think tanks e seus membros estariam mais capacitados para prover soluções “técnicas”, “livres” da ideologia.

“Exemplo mais que manjado é a ladainha da independência do Banco Central, que vemos sempre puxar para os interesses mais concentrados e se aliar com personagens autoritárias”, cita.

Como um time de futebol

O presidente do Instituto Mises Brasil (IMB) Hélio Beltrão, outro think tank brasileiro, afirmou em entrevista em 2016 que essas instituições devem atuar como um time de futebol.

Segundo ele, a defesa seria a academia – professores e pesquisadores; os políticos, os atacantes; o meio de campo seria “o pessoal da cultura”, aqueles que formam a opinião pública.

Hernan Ramirez destaca, no caso Hélio Beltrão, filho do ex-ministro do Planejamento, Previdência e Desburocratização dos governos militares na Ditadura, o Hélio Beltrão pai.

“O pai dele foi membro do IPES, ou seja, a burguesia também herda cargos nas estruturas ideológicas. Campos Neto que o diga. E Beltrão pai e Campos avô foram filhotes da ditadura. Beltrão chegou a ser, pasmem, ministro da desburocratização! Sim, os neoliberais criam uma estrutura burocrática para acabar com estruturas burocráticas”, lembra.

De todo modo, mesmo se arvorando um think tank, pouco tem de criação de pensamento próprio, analisa Ramirez.

“A maioria deles só regurgita fórmulas vindas de fora, algo que os diferencia dos seus pares chilenos e argentinos, que têm sido mais originais, ou até guatemaltecos, pois naquele país centro-americano tem sede a instituição mais qualificada da todas”. A Universidad Francisco Marroquín, por exemplo, tem sido pioneira em formatar modelos dessa nova forma de fazer política.

Sonho brasileiro

Um dos produtos midiáticos mais bem-sucedidos dos think tanks é a cientista política guatemalteca Gloria Álvarez. Para os cientistas políticos ouvidos pela reportagem, ela é um exemplo que Kim Kataguiri e o MBL buscam imitar, característica comum a todas essas experiências.

“Se nos atemos aos títulos, os livros de Leandro Narloch remetem a bestsellers instalados no Continente por essa turma, tendo no Manual del Perfecto Idiota Latinoamericano sua obra mais acabada”, ressalta o pesquisador Hernan Ramirez.

Conforme os especialistas, há uma limitação criativa constante no pensamento neoliberal local. O Plano Real seria um caso tardio, que surfou na onda do Plano Brady.

“E de lá para cá parece que a fadiga de materiais nos pensadores neoliberais brasileiros só foi decrescendo. Paulo Guedes serve como ilustração, algo que nos alerta para sua dificuldade em construir um projeto hegemônico, tendo que se amarrar ou parasitar lideranças autoritárias”, conclui o professor de pós-graduação da Unisinos.


Fonte:  Extra.Classe

Americanas foi palco de uma das ‘maiores fraudes contábeis da iniciativa privada’, diz Bradesco

“Hoje, passadas duas semanas do evento, ninguém mais tem receio de dizer que o que se sucedeu nos livros da Americanas não foi um acidente”, aponta a ação do banco

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Beto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles (Foto: Reuters | Reprodução)

247 – A ação do Bradesco contra as Americanas, assinada pelo escritório Warde Advogados, não poupa a empresa pela fraude bilionária nem seus controladores Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles. “A Americanas foi palco de uma das maiores fraudes contábeis da iniciativa privada, afirmam os advogados do Bradesco em resposta a rede de varejo, que decidiu recorrer nesta sexta-feira, 27, ao Tribunal de Justiça de São Paulo da decisão do dia anterior, que determinou, entre outros pontos, a busca e a apreensão de e-mails de executivos e funcionários da rede de varejo, em caráter de urgência”, aponta reportagem do Estado de S. Paulo.

“Os advogados comentam que é difícil evitar a tentação de associar os R$ 20 bilhões do rombo que Americanas diz terem sumido dos seus balanços, ao longo de dez anos, com os R$ 2 bilhões que foram distribuídos aos seus acionistas no mesmo período, ou com os quase R$ 800 milhões que foram pagos aos seus administradores. A alegação na petição do banco é que o rombo da Americanas foi criado justamente para viabilizar dividendos e bônus aos principais executivos da empresa”, prossegue a reportagem.

“Hoje, passadas duas semanas do evento, ninguém mais tem receio de dizer que o que se sucedeu nos livros da Americanas não foi um acidente, fruto de um equívoco, de um erro cometido por um grupo de contadores e que teve o azar de se propagar inadvertidamente por anos e anos. Não, hoje ninguém mais economiza palavras para dizer o que já era intuído, mas ficou óbvio: a Americanas foi palco para uma das maiores fraudes contábeis da iniciativa privada”, escrevem os advogados.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo “Brasil 247” [Aqui!]

Lemann quebrou a Americanas e pode quebrar a educação pública brasileira

Os alertas estão piscando, a educação não deve estar no balcão de negócios de Jorge Paul Lemann, o maior magnata do país

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O bilionário Jorge Paulo Lemann visita uma sala de aula em uma escola em Sobral (CE)

Por Tarsila Amoras

A primeira quinzena de 2023 já rendeu manchetes internacionais de olhos no Brasil, uma das últimas anunciou o rombo de R$20bi das Lojas Americanas, número maior que o dobro de seu caixa. Controlada pelo grupo 3G Capital, tem entre seus comandantes Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil que detém uma fortuna avaliada em R$72bi. Tubarão do ramo cervejeiro, investidor de grandes marcas, organizador da privatização da Eletrobrás e construtor das bases da educação brasileira, Lemann é a escultura perfeita do neoliberalismo e do “consenso por filantropia” (TARLAU; MOELLER, 2020). Os alertas estão piscando, a educação não deve estar no balcão de negócios do maior magnata do país. 

Descendente de suíços e criado nas praias do Leblon, Lemann estudou em Harvard e trilhou o caminho privilegiado por ser filho de Paul Lemann (dono da empresa de laticínios, Lemann & Company, “Leco”) e Anna Yvette Truebner (de família de grandes exportadores de cacau da Bahia). A ambição por crescimento econômico e de poder é algo que acompanha a formação de seus planejamentos escandalosos, como é o caso da Americanas. Homenageado por alguns como pioneiro da meritocracia brasileira, é necessário compreender o que está em jogo quando deposita suas fichas na educação. Hoje é conhecido no ramo educacional pela Fundação Lemann, fundada em 2002, mas que começou a entrar em cena em 2012 e em 2015 já assinava como a fundação mais poderosa do Brasil. É reconhecida por ofertar bolsas de estudos em grandes universidades fora do país e por se propor a melhorar a educação pública à maneira tecnicista.

Como marca para liderar essas reformas educacionais, em 2012 a Fundação Lemann iniciou o debate nacional e internacional sobre a necessidade da criação da Base Nacional Comum Curricular, conforme avançava era mais possível a sua concretização, estando forte o bastante em 2014 com a adesão do então Secretário de Educação Básica e hoje presidente do INEP, Manuel Palácios e outros grandes nomes de chefes de estados e empresários. 

A aprovação da BNCC em 2017, no governo Temer, inaugurou o conglomerado da educação brasileira em meio a crise do pós impeachment de Dilma Rousseff e à direita se organizando no país. 

Lemann se forjou naquele período como um homem não apenas comandante de capital, mas também de poder político a partir do projeto RenovaBR, organizado por ele para formar jovens lideranças – como Tábata Amaral, eleita deputada federal (PDT) de SP em 2019 – que defendam seus ideais educacionais na expansão do setor privado e que consigam responder os problemas políticos com soluções técnicas. Para isso, vale dispor estrategicamente de recursos econômicos, materiais, produção de conhecimento, poder de mídia formal e informal para consolidar amplo apoio  suas iniciativas para a educação, esse movimento é chamado de “consenso por filantropia” e liderado por uma Organização Sem Fins Lucrativos, a Fundação Lemann.

A disputa da educação é também uma disputa de modelo de sociedade, pois, como subsistema do capitalismo, é desenvolvida para a manutenção do seu modo de produção e para formar gerações a partir de princípios éticos e morais. As inúmeras crises para a aprovação da BNCC em 2017 revelaram que essa padronização do currículo não é algo consensual entre os profissionais da educação. E, nessa história, Paulo Lemann possui lado, o de expandir mais seu acúmulo de capital, sendo necessário não tornar inseguro seu local indiscutível de homem mais poderoso do Brasil. 

Hoje o MEC está nas mãos de nomes que defendem o modelo de gestão empresarial da educação, ou, também conhecido como modelo Sobral, entre eles: Palácios, Izolda Cela, ex-governadora do Ceará e atual Secretária Executiva do MEC e Denise Pires de Carvalho, reitora da UFRJ que carrega a marca de rifar a universidade pública às investidas da privatização, assume a Secretaria de Educação Superior. Essa forma de gerir a educação baseada no ensino bancário, combatido por Paulo Freire, é implementado pelo coronelismo do Governo do Ceará há décadas para formar os alunos para testes padronizados e para serem os futuros trabalhadores em um mundo em que os filhos dos milionários, tornam-se bilionários, e os filhos dos trabalhadores tornam-se cada vez mais explorados.

É urgente que os estudantes, os sindicatos e os movimentos sociais tomem o controle do debate curricular da educação para combater os avanços da direita na privatização das universidades e na Reforma do Ensino Médio. Nesse cenário, chega a ser irresponsável acreditar que a educação pública está garantida por avanços progressistas no governo Lula, nosso papel é exigir a defesa de direitos e construir nas bases, nas ruas, um modelo de ensino livre das garras do capitalismo. Não há espaço para Lemann fazer da educação sua simetria. Não há espaço para os bilionários existirem.

Referência:

TARLAU, R.; MOELLER, K. O consenso por filantropia: como uma fundação privada estabeleceu a BNCC no Brasil. Currículo sem Fronteiras, v. 20, n. 2, p. 553-603, maio/ago. 2020


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Este texto foi originalmente publicado no site do coletivo Juntos! [Aqui! ].

A história não contada de Lemann: monopólio, abusos trabalhistas, dribles à lei eleitoral e agora fraude contábil nas Americanas

Dono de gigantes como Lojas Americanas, Ambev, Burger King e Submarino, Lemann acumula bilhões em dólares e denúncias trabalhistas

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Por Coletivo Pensar a História

Desde o falecimento do banqueiro Joseph Safra em dezembro de 2020, o empresário Jorge Paulo Lemann ocupa o posto de homem mais rico do Brasil. Lemann possui uma fortuna estimada em 23,8 bilhões de dólares – mais de 118 bilhões de reais. Ao lado dos seus dois principais sócios, Marcel Herrmann Telles e Beto Sicupira – terceiro e quinto mais ricos do Brasil -, Lemann comanda um dos maiores impérios do capitalismo global. O empresário é um dos coproprietários da AB InBev, a maior cervejaria do mundo, do conglomerado 3G Capital (que controla empresas como Lojas Americanas, Submarino, B2W Digital, Kraft Heinz e as redes Burger King, Popeyes e Tim Hortons) e do fundo GP Investments.

No site de sua “fundação filantrópica”, Lemann é descrito como um “self-made man” e um “herói da classe empresarial brasileira”. Existe, de fato, toda uma “hagiografia” corporativa devotada ao bilionário. Ele é considerado um dos ícones máximos da seita do empreendedorismo de palco e do nicho da autoajuda empresarial. A narrativa de Lemann como empreendedor que trabalhou duro, inovou e obteve excelência serve à dupla função de justificar fortunas obscenas e reforçar o mito da meritocracia. E, assim como ocorre com outros bilionários, Lemann também costuma ignorar os detalhes da história que contradizem a fábula do “self-made man“. A verdade é que Lemann já nasceu herdando uma das maiores empresas do Brasil. Ele, inclusive, descende de uma família de comerciantes europeus que se destacam economicamente há mais de 600 anos.

Oriunda da Suíça, a família Lemann atua no comércio de bens duráveis e na produção do laticínio do Vale do Emmental, desde a Alta Idade Média. No início do século XX, compelidos por uma crise econômica, três irmãos da família resolveram imigrar em busca de novos mercados. Um foi para os Estados Unidos, outro para a Argentina e Paul Lemann, pai de Jorge Paulo, para o Brasil. Aqui, Paul Lemann montou uma fábrica de sapatos e uma empresa produtora de laticínios, a Leco – abreviatura de “Lemann & Company”, que se tornaria uma das maiores empresas nacionais do setor. Por sua vez, a mãe de Lemann, Anna Yvette Truebner, é filha de um dos maiores exportadores de cacau do sul da Bahia.

Jorge Paulo Lemann cursou o ensino básico na Escola Americana do Rio de Janeiro, um dos colégios particulares mais exclusivos da então capital federal. Posteriormente, mudou-se para os Estados Unidos, onde estudou economia na Universidade de Harvard. Após se formar, mudou-se para a Suíça, país onde possui cidadania, e conseguiu uma indicação para trabalhar no Banco Credit Suisse, em Genebra. Entediado com as tarefas, pediu demissão após sete meses e passou alguns anos se dedicando a jogar tênis. De volta ao Brasil, Lemann adquiriu a Corretora Garantia, onde deu início à sua parceria com Marcel Telles e Beto Sicupira. Em 1976, durante o governo Geisel, o empresário obteve autorização do Banco Central para converter a corretora em uma instituição financeira, fundando o Banco Garantia. A empresa se tornaria um dos principais bancos de investimento do país, emulando o modelo de gestão do Banco Goldman Sachs.

Uma ode à exploração

Foi durante as duas décadas à frente do Banco Garantia que Lemann e seus sócios tiveram seus patrimônios multiplicados de forma exponencial. A gestão dos funcionários do banco já adiantava características comuns aos negócios de Lemann – salários abaixo da média do mercado, foco agressivo no cumprimento de metas ambiciosas, criação de ambientes corporativos insalubres e estímulo à produtividade por meio de pressão, assédio e humilhação. O Banco Garantia foi alvo de inúmeras ações por assédio moral, além de ter sido investigado pela Comissão de Valores Imobiliários (CVM) por irregularidades no mercado de capitais. O Banco Central multou a instituição pela prática de fraude cambial, operações irregulares e remessa ilegal de dinheiro para o exterior. A instituição também foi acusada de ter colaborado com o infame esquema de pirâmide financeira montado por Bernard Madoff.

Malgrado os escândalos, o banco prosperou enormemente. Com o capital acumulado pelo Banco Garantia, Lemann e seus sócios financiaram a compra de dezenas de empresas, dando início aos seus gigantescos conglomerados. Compraram as Lojas Americanas, em 1982, a Brahma, em 1989, e a Antarctica, em 1999. Em 2004, criaram a 3G Capital, passando a investir na aquisição de multinacionais, tais como as redes Burger King, Popeyes e Tim Hortons. Fundaram ainda a Innova Capital, voltada à criação de startups, e a Gera Venture, focada em educação.

Em 1999, independentemente das denúncias de desrespeito à legislação antitruste e ao princípio do direito de concorrência, o Conselho Administrativo de Defesa da Concorrência (CADE) autorizou Lemann a fundir as cervejarias Brahma e Antárctica, dando origem à Ambev, que passou a controlar 70% do mercado brasileiro de cerveja. Já em 2004, a Ambev se fundiu com a belga Interbrew, dando origem à AB InBev, maior cervejaria do mundo. Nas duas transações, a CVM voltou a identificar abuso de poder, negociações irregulares e uso de informação privilegiada para especular no mercado de ações. Lemann e os sócios pagaram multa de 18,6 milhões de reais à CVM para que os processos fossem encerrados.

As práticas empresariais abusivas, entretanto, se tornariam corriqueiras. Em 2004, a empresa foi multada em 229 milhões de reais por concorrência desleal, ao beneficiar comercialmente os pontos de venda que fechassem contratos de exclusividade ou que aceitassem diminuir a comercialização de produtos de concorrentes. Distribuidoras também acusam a empresa de tentar controlar o mercado, negociando preços menores com parceiros comerciais e forçando as companhias independentes à falência. Fora do Brasil, a AB InBev também está envolvida em inúmeros escândalos de corrupção e abuso do poder econômico. Na Índia, por exemplo, está sendo investigada por corrupção e pagamento de propina. Nos Estados Unidos, foi acusada de adulterar seus produtos. E na Argentina responde à acusação de sonegação de impostos.

Abusos trabalhistas

A AmBev também é acusada de praticar dumping social, eliminando direitos trabalhistas para diminuir seus custos de produção e tornar seus produtos mais competitivos. A empresa enfrenta uma enxurrada de processos por assédio moral e abusos de toda ordem. Funcionários que não cumprem metas são submetidos a constrangimentos, humilhações, xingamentos, discriminação e até mesmo agressões e castigos físicos. Os processos em que a empresa foi condenada incluem desde espancamento em “corredor polonês”, uso de fraldão e camisetas com frases ofensivas, xingamentos racistas e ameaças com arma de fogo, até o uso de filmes pornográficos e garotas de programa como “motivação” em reuniões corporativas.

Manipulação de registros de ponto, sonegação de pagamento de horas-extras e submeter os funcionários a jornadas desumanas também estão entre as acusações. Em um processo, ficou comprovado que empregados da AmBev eram obrigados a trabalhar por até 17 horas contínuas. Outras empresas de Lemann também costumam ser acusadas de abusos trabalhistas, sobretudo o Burger King. A rede é igualmente conhecida pelo hábito de pagar salários inversamente proporcionais às jornadas. Em 2020, o Burger King foi condenado a pagar multa de um milhão de reais por obrigar os seus empregados a cumprirem rotineiramente até 8 horas extras diárias e a trabalharem sem descanso semanal remunerado. A condenação foi confirmada em segunda instância.

Enquanto obriga seus funcionários a cumprirem jornadas de trabalho de até 17 horas por dia – consideradas desumanas já nos primórdios da Revolução Industrial -, Jorge Lemann tenta estabelecer a reputação de “filantropo”. Em 1991, o empresário criou a Fundação Estudar, uma ONG supostamente voltada a “incentivar a educação”. Sua atuação vem através da organização de cursos e palestras e da concessão de bolsas de estudo de graduação e pós-graduação. Em 2001, estabeleceu a Fundação Lemann voltada à “formação e lideranças” e ao apoio de “iniciativas úteis à resolução dos grandes desafios do país”. Além de lhe granjearem benefícios tributários e um verniz de “preocupação social” para atenuar as críticas às práticas nocivas de suas corporações, as ONGs de Lemann têm por função pressionar os governos a adotarem uma lógica empresarial no ensino público e a submeter as instituições do Estado aos interesse do capital financeiro. Tal estratégia está alinhada aos crescentes investimentos de Lemann no ensino privado, por intermédio da Gera Venture Capital e da holding Eleva Educação, e sinaliza interesses futuros na privatização dos sistemas públicos de ensino do Brasil.

Um filantropo mau

As fundações “filantrópicas” de Lemann operam como centros de formação de gestores para suas empresas e de fomento a lideranças e iniciativas alinhadas aos seus interesses econômicos e políticos. As fundações de Lemann financiaram, por exemplo, lideranças do MBL e do movimento Vem Pra Rua, além de outras organizações que ajudariam a insuflar os protestos antigovernamentais a partir de 2013 e a criar o ambiente de ruptura institucional que desembocou no golpe parlamentar de 2016. Uma reportagem da BBC Brasil comprovou que até mesmo o registro do site do movimento Vem Pra Rua havia sido adquirido pela Fundação Estudar.

As ONGs de Lemann também têm sido utilizadas para burlar a legislação eleitoral que proíbe o financiamento privado de campanhas. Por exemplo, infiltrando representantes alinhados aos seus interesses nos partidos políticos e nos órgãos de governo. Emulando iniciativas dos movimentos suprapartidários supostamente dedicados à “renovação da política”, tais como o RenovaBR, o Livres e o Movimento Acredito, o bilionário tem financiado a formação de seus próprios líderes. Uma vez eleitos ou empossados em cargos-chave, essas lideranças passam à defesa da agenda liberal e de medidas benéficas às grandes corporações, independentemente da orientação de suas legendas.

A “bancada Lemann”, eleita no pleito de 2018, inclui parlamentares do PDT, NOVO e do PSB, incluindo os deputados federais Tabata Amaral, Felipe Rigoni e Tiago Mitraud. Entre os deputados estaduais, estão Renan Ferreirinha e Daniel José. Todos estudaram em universidades como Harvard, Oxford e Yale, com subvenção da Fundação Lemann. E todos votaram em favor dos interesses do mercado nos projetos votados pelas atuais legislaturas.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo site “O Partisano” [Aqui!].

Rombo de R$ 40 bilhões das Lojas Americanas tritura mito da superioridade da iniciativa privada

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Da esq. para a dir.: os empresários brasileiros Carlos Alberto Sicupira, Jorge Paulo Lemann e Marcel Herrmann Telles (Foto: Divulgação/Forbes)

Os atos de vandalismo ocorridos em Brasília no dia 08 de janeiro vieram em boa hora para o trio de bilionários formado por Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles (detentores de um patrimônio conjunto de pelo menos R$ 180 bilhões), na medida em que consciente ou inconscientemente a mídia corporativa brasileira não deu a devida atenção à descoberta de que a tradicional empresa Lojas Americanas está afundada em uma dívida que gira em torno de R$ 40 bilhões.

A profunda encrenca financeira em que as Americanas estão metidas só veio à tona porque o seu então presidente, Sérgio Rial, renunciou após descobrir “inconsistências em lançamentos contábeis” da ordem de R$ 20 bilhões. Em palavras mais simples, Sérgio Rial pulou do barco após descobrir que o balanço das Americanas havia sido manipulado para ocultar uma situação que beira à insolvência financeira. E isso tudo após a famosa consultora PricewaterhouseCoopers (PWC) ter atestado a boa saúde da empresa (lembrando que a PWC foi quem tocou as avaliações utilizadas para a privatização da Eletrobras!).

O detalhe aqui é que Rial é ligado ao Banco Santander, onde foi presidente e ainda atua como presidente do conselho diretor da instituição. Mas a crise causada pelas revelações de Sérgio Rial atingem mais diretamente outros bancos, incluindo o Bradesco, o BTG Pactual e até o Nubank que mantinham relações de alto calibre com as Lojas Americanas. No meio disso tudo estão 44 mil funcionários da empresa, agora em condição de recuperação judicial, que estão imersos em perspectivas sombrias, já que quando empresas entram nessa situação, quem acaba perdendo o sustento são seus trabalhadores, e não os capitalistas que especularam e as endividaram.

A reação mais dura ao trio de bilionários não está vindo da justiça brasileira, mas do BTG Pactual que está acusando Lemann, Sicupira e Telles de terem cometido fraude e agora de estarem “pagando de malucos” para fugirem de suas responsabilidades e, ainda por cima, de estarem sendo protegidos por causa da fama de “super deuses do capitalismo brasileiro” (ver abaixo vídeo do economista Eduardo Moreira falando sobre alguns dos aspectos mais esquisitos que cercam a gestão feita pelo “trio de ouro” das Lojas Americanas).

E se Americanas fosse uma empresa pública, a leniência seria a mesma?

Algo que me parece inescapável de ser perguntado é sobre o que estaria acontecendo se as Lojas Americanas fossem uma estatal pega nesse mesmo tipo de situação embaraçosa? Por muito menos empresas públicas já foram jogadas na lama para serem posteriormente entregues ao setor privado na bacia das almas.

A verdade é que empresas privadas, mesmo aquelas que possuem em aparência boa condição financeira, são tratadas como meros instrumentos de acumulação por seus proprietários. E a aparente boa reputação e suposta melhor eficiência não passam de instrumentos ideológicos que servem muito bem para continuar garantindo a existência de um modelo social que beneficia apenas um pequeno grupo de pessoas em detrimento dos interesses da maioria da população humana.

Por outro lado, o que espero é que a mídia corporativa pare de passar pano para Lemann, Sicupira e Telles e apure todas as responsabilidades nessa situação escabrosa. De quebra, que as tentativas da Fundação Lemann de influenciar os rumos da educação brasileira sejam rejeitadas pelo ministro da Educação Camilo Santana a bem dos interesses da população brasileira, visto que Jorge Paulo Lemann não deve ter o mesmo tipo de influência que teve em governos passados.

Finalmente, restar saber o que os políticos que se elegeram com financiamentos da Fundação Lemann (Tábata Amaral, por exemplo) têm a nos dizer sobre os modos de agir de seu patrono.