COVID-19: se as universidades estão fechadas, por que as escolas estão abertas?

pergunta

O jornal “Terceira Via” decidiu fazer uma matéria muito curiosa a partir de uma premissa ainda mais curiosa envolvendo a decisão das instituições de ensino superior da cidade de Campos dos Goytacazes de não retomar as aulas presenciais. É que segundo os redatores do “Terceira Via”, se crianças estão tendo aulas em meio a uma pandemia letal, por que jovens adultos não podem também (ver imagem abaixo)?

escolas abertas

Eu que convivo há um ano e meio com aulas virtuais e noto a angústia que se apossou dos meus estudantes em não poderem estar frequentando o campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), já que a maioria deles reconhece que isso seria um convite à contaminação em um país em que menos de 45% da população completou a rotina vacinal.

Assim, a pergunta que o “Terceira Via” deveria estar se fazendo é sobre como as aulas estão sendo ministradas em escolas municipais, na medida em que quem escreveu a referida matéria não se deu ao trabalho de fazer um levantamento mínimo sobre casos de infecção pelo coronavírus na rede municipal de ensino, tanto entre profissionais de educação quanto entre os estudantes cujos pais optaram por enviar os seus filhos às aulas presenciais.

O curioso é que no dia de hoje o mesmo “Terceira Via” noticiou o falecimento de mais um empresário campista em função da COVID-19. Aliás, eu já perdi a conta de quantos proprietários de estabelecimentos comerciais de Campos dos Goytacazes já morreram em função das complicações causadas pela infecção causada pelo SARS-Cov-2.  Sobre isso, não me lembro de ter lido matéria do Terceira Via.

Se estivessem dispostos a contribuir para a educação da população sobre os riscos de menosprezar as regras de isolamento social e do uso de equipamentos de proteção individual, os editores da Terceira Via iriam gastar o tempo dos seus repórteres com informação e não com tentativas mal enjambradas de pautar os dirigentes de instituições de ensino superior para atender os interesses de sabe-se lá quem.

Eu aproveito para devolver a questão proposta pelos redatores do Terceira Via: se as universidades não estão abertas para diminuir a possibilidade de mais casos de COVID-19, por que raios as nossas crianças estão sendo encurraladas em aulas presenciais?

Jornal Terceira Via aborda a dramática situação causada pela extrema pobreza em Campos dos Goytacazes

aldeiaMoradia precária na Estrada do Jacu, no Parque Aldeia, em Guarus (Foto: Carlos Grevi)

Em meio o que considero um ambiente árido que impera na mídia campista, eis que o Jornal Terceira Via resolveu introduzir com maestria o necessário debate sobre a miséria extrema em que estão imersas 45 mil famílias em Campos dos Goytacazes, um dos municípios mais ricos da América Latina (ver reprodução abaixo), a começar pelo seu editorial.

extrema pobreza

Pela lavra do jornalista Ocinei Trindade, pesquisadores e gestores foram ouvidos pelo “Terceira Via” não apenas sobre a natureza de um problema tão grave quanto inaceitável, mas também das possíveis soluções para que seja retomado um mínimo de dignidade para aquela parte da população que teve o chão tirado debaixo de seus pés quando o jovem prefeito Rafael Diniz (Cidadania) resolveu exterminar todas as políticas sociais herdadas de administrações.  

Eu não tenho a menor dúvida de que o extermínio das políticas sociais e o aprofundamento da miséria extrema em Campos dos Goytacazes estão umbilicalmente ligadas.  Tal constatação torna risível o mote de campanha de Rafael Diniz que nos instiga a apoiar a coragem que ele nunca teve para atacar de frente os privilegiados de sempre.

Com essa reportagem, o “Terceira Via” coloca a campanha eleitoral que se inicia no terreno que deve estar, qual seja, a necessidade de se resolver a questão premente da pobreza, começando pela imperiosa tarefa de recolocar os pobres no orçamento municipal, lugar de onde nunca deveriam ter sido retirados para começo de conversa. 

Enquanto isso tem “órgão de imprensa” que se jacta de ter ouvido supostos representantes de uma sociedade civil que só existe na cabeça do proprietário.  Ainda que nesse caso em tela, o Terceira Via cumpriu o que se espera de um veículo de imprensa sério: colocou um problema crucial para ser debatido sob diferentes ângulos, habilitando aos seus leitores a se posicionarem de forma informada sobre um assunto tão sério.