10 de maio de 1933: nazistas começam a queimar livros por toda a Alemanha (Foto: reprodução)
Por Douglas da Barreto da Mata
Em conversa reservada com um amigo, professor universitário e estudioso da ciência política, chegamos a uma conclusão. Os intelectuais e acadêmicos dessa cidade têm uma responsabilidade histórica, refletida na tarefa de estabelecer um limite que parece turvo, nesses tempos de realidade “líquida”, e de relativizações permanentes, aquilo que se convencionou chamar de pós-verdade.
Eu fui um pouco além, e lhe disse que diagnosticar essa pós-verdade, e com ela a ameaça ao que se chama de processo democrático, não basta, fica parecendo aquele alcoólatra que reconhece o vício, mas nada faz para aderir a algum tipo de tratamento.
Consensuamos que a “democracia” não é algo acabado, e que por isso mesmo, requer, sempre, um cuidado permanente, e que há um perigo mundial, nacional e local rondando todos aqueles que, de uma forma ou de outra, estão no campo do antifascismo.
Aqui na planície temos a Ku Klux Kampos, uma franquia municipal atualizada da extrema-direita nacional, representada na candidatura da delegada. Um fenômeno que se corresponde com o imbecil que diz que, dentre outras bizarrices, vai ressuscitar gente, em um misto de estelionato religioso e eleitoral. Esta figura atende pelo nome de Marçal, mas que bem poderia ter uma alcunha adicionada, Marçal, o boçal.
Neste ponto da conversa avançamos para a demanda urgente que se impõe para a academia de Campos dos Goytacazes, tão ensimesmada recentemente, incapaz de praticar o que diz ser correto fazer, isto é, debater, refletir e influir no jogo político.
Há uma hierarquia infértil no pensamento acadêmico, que confina as melhores mentes em estado de narcisismo e individualismo muito parecido com as raízes do pensamento liberal que tanto criticam. É mais ou menos assim, somos os melhores entendedores da realidade, mas somos tão bons que não vale a pena nosso esforço em mudá-la (a realidade), ou isso não é tarefa para gente tão boa como nós.
Chegou a hora de botar o pé na porta, eu argumentei com o meu estimado interlocutor. Não é possível que a academia campista se exonere do dever de dizer o que ninguém mais diz: A tolerância não pode ser usada com os intolerantes, enfim, o Estado de Direito resguarda aos defensores da democracia os meios para afastar essa gente.
A política também carrega em si, por sua definição, as possibilidades de negação dos fascistas, e a negativa em tratar politicamente com eles.
Caberá aos intelectuais, doutores, mestres, professores, a missão de dizer que há opções mais ou menos ao centro, ou mais ou menos à esquerda, dependendo da referência de quem olha.
No entanto, a candidatura da Ku Klux Kampos, da delegada que solidariza com Marçal, o boçal, deve ser execrada de todas as formas por essa frente intelectual.

Lembrei, por fim, que a diferença entre um palhaço e Hitler é o resultado. A omissão, lembramos, também é crime.



