Um ano de Brumadinho e os efeitos de Kurumi: quando as corporações reinam, a Natureza padece e os pobres sofrem

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Hoje se completa um ano do rompimento da barragem do Córrego do Feijão em Brumadinho que causou a morte de cerca de 300 pessoas, algumas das quais continuam com seus corpos soterrados na lama oriunda das operações de mineração da Vale.  Mas se lembrar do crime cometido em função da ganância corporativa não fosse suficiente para azedar o dia, ouve-se e lê-se os informes dos efeitos devastadores das chuvas causadas pelo ciclone Kurumi em parte de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Alguém bem intencionado poderá perguntar qual é o nexo, se algum, entre os dois fatos apontados acima.  Eu diria que o nexo é pleno, na medida em que vivemos em uma sociedade dominada pelos interesses das grandes corporações que fazem da exploração da Natureza sua via fundamental de concentração de riqueza, ainda que impondo enormes custos ambientais e humanos.  Na prática, quando mineradoras como a Vale entulham rios e retiram suas águas para seus processos rudimentares, as consequências devastadoras dessa forma de apropriação da Natureza acabam sendo sentidas cedo ou tarde. 

As cenas de devastação que as chuvas estão criando em dezenas de municípios não decorrem apenas da manifestação das mudanças climáticas, mas de um modelo de sociedade que ignora as questões ambientais para maximizar a concentração da renda. Nesse caso, os pobres são relegados aos locais mais indesejados de cidades cada vez mais impactadas pelo  modelo de sociedade segregada em que vivemos. Por isso, as cenas de devastação raramente são mostradas a partir de mansões, mas normalmente de casas humildes onde os residentes acabam de perder tudo o que possuíam, mesmo antes de se recuperarem de perdas anteriores. 

Esse é o ciclo da nossa miséria socioambiental: as corporações abusam da Natureza, causam o colapso de delicados balanços naturais, criam cidades segregadas onde aos pobres é reservado os custos pesados de um modelo de sociedade que não se sustenta sem causar muita dor e sofrimento.

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Mas em meio a cenas de destruição e desespero também há gente que se movimenta para denunciar o modelo vigente e buscar formas de superar a estrada sem saída em que estamos metidos.  Por exemplo, centenas de pessoas marcham hoje  sob a liderança do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) em direção à Mina do Córrego do Feijão para denunciar o crime cometido pela mineradora Vale e sua consequente omissão frente às responsabilidades com os atingidos e o meio ambiente.

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Esses que marcham que marcham em Brumadinho estão lançando sementes para que possamos superar esse modelo de sociedade em que alguns vivem no luxo absoluto às custas da desgraça alheia.  Aos que marcham, o meu agradecimento.

Kurumi poderá ser teste de “pior cenário” nas barragens de mineração em Minas Gerais

kurumiFormação do ciclone Kurumi poderá gerar teste real de “pior cenário” nas barragens de mineração que estão instáveis em Minas Gerais

A possibilidade de que tenhamos altos volumes de chuvas em função da formação do ciclone Kurumi está causando certo alarme dado o montante que está sendo esperado, e pelo fato no litoral da região Sudeste estão sendo esperados ventos de até 100 km/h e intensidade 7, numa escala que vai de 1 a 9., sendo que nas áreas continentes os ventos poderão chegar a 60 km/h e causar estragos estruturais (ver abaixo simulação de possíveis montantes de chuva que deverão atingir Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito).

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Pois bem, ainda que até agora tenhamos apenas valores teóricos obtidos a partir de modelagens, os mesmos não são nada desprezíveis e obviamente criam apreensão, especialmente em áreas que contenham barragens de rejeitos de mineração que possuem problemas conhecidos de estabelecidos, especialmente no Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais (ver imagem abaixo).

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A questão que muitos moradores estão se colocando neste momento como as várias das barragens que, desde o início de 2019, estão sendo monitoradas por indicações de instabilidade. Um dos casos é o da mina Mar Azul no município de Nova Lima, que já foi analisada aqui mesmo neste espaço.

Pois bem, o que se tem até para Mar Azul é um comunicado da mineradora Vale  no dia de ontem apontando que “a barragem B3/B4, da Mina Mar Azul, em Macacos, continua com parâmetros inalterados, mesmo com as chuvas intensas dos últimos dias” (ver imagem abaixo).

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A verdade é que com a incidência das chuvas associadas ao Kurumi, os padrões de chuvas intensas deverá ter uma modificação para muito maior, o que torna o informe da Vale algo como se fosse um exercício de otimismo corporativo. 

O problema é que, desde que desde a primeira vez que as sirenes de alerta foram acinonados na Mina Mar Azul em fevereiro de 2019, os habitantes das localidades e municípios próximos estão vivendo em contínuo sobressalto, além de estarem acumulando perdas econômicas causadas pela possibilidade de rompimento de uma ou mais barragens associadas à Mina Mar Azul.  

Por outro lado, as informações que me chegaram desde o distrito de Macacos dão conta que, na prática, a Vale pouco fez para efetivamente aumentar os níveis de segurança de suas estruturas, o que aumentou o nível de desconfiança e apreensão dos habitantes das áreas que podem ser diretamente ou indiretamente afetadas caso a B3/B4 venha a romper.

Agora com a possível chegada de chuvas acima das médias históricas causadas pelo Kurumi, mesmo para períodos chuvosos, veremos como resiste não apenas o sistema de barragens da Mina Mar Azul, mas também de outras minas cujos depósitos vêm sendo monitorados desde os ocorridos em Mariana e Brumadinho.   Nesse sentido, Kurumi poderá oferecer a materialização do que se convenciona chamar de “pior cenário”. E salve-se quem puder!