Porque uso o termo “Tsulama” para definir os incidentes de Mariana e Brumadinho

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Um amigo na rede social Facebook me alertou hoje para uma possível compreensão do termo “Tsulama” como sendo uma forma de pilheria indevida. Em outras palavras, eu estaria passando a impressão de que estou fazendo piada com o tipo de incidente ambiental que ocorreu em Mariana e Brumadinho ao caracterizar ocorrido como “Tsulama”.

Se em algum momento algum leitor pensou que eu estou usando o termo “Tsulama” como uma forma humorada de caracterizar esses incidentes, pense de novo. Quando pensei em criar o termo ‘Tsulama” me orientei por anos de sala de aula em que um dos tópicos da disciplina de “Geografia I” que ministro regularmente é a ocorrência das ondas “Tsunâmi” em situações de movimentação de placas tectônicas.

Mas o que vem a ser um “Tsunâmi”? Um Tsunâmi é uma série de ondas causada pelo deslocamento de um grande volume de um corpo de água, como um oceano ou um grande lago.  No Oceano Pacífico, os Tsunâmis são uma ocorrência frequente  onde existe grande atividade sismológica que gera esses deslocamentos fabulosos de água do mar que causam grande devastação que afeta estruturas naturais e antrópicas e regularmente implicam um enorme número de mortos.

Tendo isso em mente é que pensei em criar o termo “Tsulama”, pois isto para mim caracteriza melhor o que de fato ocorre quando um mega reservatório de rejeitos explode e libera toda a sua carga tóxica na paisagem.  O exemplo do Tsulama de Brumadinho me parece perfeito para mostrar isso, pois se estima que a onda inicial de rejeitos atingiu a incrível velocidade de 85 km/hora, o que impediu qualquer reação mais rápida de centenas de pessoas que se encontravam logo abaixo das estruturas que romperam ( ver vídeo abaixo).

Além disso, Tsulama passa a ideia de um movimento colossal e avassalador, e nada tem de acidental como o uso das palavras  “acidente” e “tragédia” tende a impregnar nas nossas consciências. Além disso, quando se fala do que se saiu do interior dos reservatórios como “rejeitos” fica uma ideia genérica do que escapou, quando de fato o que invade a paísagem é uma lama formada por uma mistura de água, sedimentos e compostos químicos altamente tóxicos.

Não é por outra razão que os rios que são invadidos pela primeira fase do “Tsulama” são rapidamente afogados em lama, não havendo condição para a manutenção da vida que ali existia. Em outras palavras, como se fosse um Tsunâmi oceânico, o Tsulama produz uma destruição avassaladora e em proporções apocalípticas.

Finalmente, para mim o termo “Tsulama” traz impregnada a responsabilidade das empresas que os causam e dos governos que permitem que isso ocorra.  

Dito isto, espero que agora fique ainda mais evidente porque estou e continuarei usando o termo “Tsulama” para tratar dos incidentes (algo que ocorre porque alguém que sabia da possibilidade de sua ocorrência não agiu para impedir a sua manifestação) como os de Mariana e Brumadinho. Com isso, espero ainda estar alertando para o espectro que ronda muitas cidades brasileiras, especialmente nas dezenas de barragens reconhecidamente inseguras que existem neste momento no estado de Minas Gerais.

Rio de Janeiro tem exposição e debate no Paço Imperial sobre o TsuLama

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Durante a exposição fotográfica ‘A Lama – De Mariana ao Mar’, de Cristiano Mascaro e Pedro Mascaro, em exibição no Paço Imperial, a revista piauí promove uma série de encontros para discutir, sob diferentes perspectivas, as causas e as consequências do maior desastre ambiental da história do Brasil: o rompimento da gigantesca barragem de rejeitos de minério de ferro, em Minas Gerais, pertencente à empresa Samarco, controlada por duas das maiores mineradoras do mundo – a brasileira Vale e a australiana BHP Billiton.

O primeiro encontro acontecerá entre a repórter Consuelo Dieguez, da revista piauí, e Mariana Queiroz, da GloboNews.

Consuelo Dieguez, repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, publicada pela Companhia das Letras. Trabalhou no jornal O Globo, Jornal do Brasil, TV Globo e nas revistas Veja e Exame. Recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1996, pela reportagem Guerrilha no Araguaia, publicada no jornal O Globo.

Em julho deste ano, Consuelo publicou na piauí a reportagem ‘A onda’, acompanhada de um ensaio fotográfico de Cristiano Mascaro e Pedro Mascaro, feito sob encomenda para a revista. Dividida em duas partes, a matéria inicia com o depoimento de sete sobreviventes e, na segunda metade, enfoca onde estavam e o que faziam as autoridades responsáveis pela administração e fiscalização da barragem.

Nesta terça-feira, dia 18, Consuelo Dieguez vai falar sobre o trabalho de reportar um acontecimento dessa magnitude com a jornalista Mariana Queiroz. Repórter da GloboNews, Mariana foi enviada a Minas Gerais logo que a barragem se rompeu, e lá ficou por mais de uma semana cobrindo as consequências mais imediatas do acidente.

Essa experiência será o ponto de partida de Mariana Queiroz para entrevistar Consuelo Dieguez sobre o compromisso com a apuração, a importância da denúncia feita pela imprensa e a sensibilidade na abordagem das vítimas numa história que se tornou um marco nas coberturas jornalísticas.

A entrada é franca. Mais informações sobre o evento Aqui!

Incidente em Mariana: quanto mais se apura, mais irresponsabilidade aparece

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Apesar da maioria da mídia corporativa estar enterrando rapidamente o incidente envolvendo a Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) para debaixo da lama que escorre pelo Rio Doce afora, as informações que continuam aparecendo principalmente nos jornais publicados em Minas Gerais confirmam que a barragem do Fundão era uma hecatombe esperando para explodir.

Um primeiro artigo assinado pelo jornalista Mateus Parreiras mostra que nos  15 meses que antecederam a explosão da barragem do Fundão, a a Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) havia aumentado havia aumentado em 80% a deposição de rejeitos no local (Aqui!).  Segundo o que apurou Mateus Parreiras,  “entre 2013 e 2014, o ritmo de despejos foi de 250 mil metros cúbicos de rejeitos a cada 30 dias, passando de 27 milhões acumulados para 30 milhões. Neste ano (2015, grifo meu), o acúmulo cresceu 83%, chegando a 55 milhões, o que dimensiona média de 1,7 milhão de metros cúbicos por mês entrando na Barragem do Fundão.

Um segundo artigo assinado pela jornalista Sandra Kiefer, mostra que pari-passu  ao aumento da deposição de rejeitos, uma série de remendos foram feitos de forma aparentemente desqualificada na barragem do Fundo, sem sequer informar os órgãos ambientais (Aqui!). No artigo é apresentada a informação apurada pelo  promotor de Justiça Carlos Eduardo Ferreira Pinto, coordenador do Núcleo de Resolução de Conflitos Ambientais (Nucam) do Ministério Público de Minas Gerais que teria apurado “que a mineradora Samarco fez uma série de reparos na Barragem de Fundão, comparados a remendos, que não eram informados aos órgãos de defesa ambiental e que às vezes sequer tinham projetos, mas que tornaram comprometidas as condições de segurança da estrutura”.

Combinadas essas duas matérias explicitam um quadro de completa irresponsabilidade por parte da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) que privilegiou o lucro em nome da segurança, e de descontrole por parte dos órgãos ambientais. A simples informação de que os projetos de segurança eram preparados pela Samarco e chancelados pelos órgãos ambientais reforça ainda mais essa combinação de (ir) responsabilidades que resultaram no TsuLama que atingiu a calha do Rio Doce e o mar do Espírito Santo.

E pensar que depois disso tudo ainda tenhamos assistido o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), enviar e aprovar um decreto que retira de fato os frágeis controles que existiam no processo de licenciamento ambiental de barragens e outros empreendimentos com potencial poluidor!

Diante desse cenário, é essencial que, ao contrário de casos anteriores, não deixemos o TsuLama da Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) ser esquecido e empurrado para debaixo do tapete. Afinal, uma sociedade que não aprende com seus erros, tenderá a repeti-los. Será que é isso que queremos?

A lama do desenvolvimento

Por Roberta Traspadini

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A ideia de sustentabilidade defendida nos discursos propagandistas das grandes empresas produtivas e midiáticas cai por terra quando as catástrofes, nada naturais, ocorrem. O caso do rompimento da barragem em Mariana expõe:

  1. A vulnerabilidade de um grupo expressivo de trabalhadores, que vivem ou da venda de sua força de trabalho ou da condição de “autogestores” de sua sobrevivência, como as populações ribeirinhas, em tempos de acentuação da precarização do trabalho;
  2. a participação orgânica das esferas públicas em associação direta com os grandes capitais, tanto na proposta quanto na execução das políticas do desenvolvimento;
  3. a necessidade, do capital, de participação conjunta entre esferas públicas e privadas para a resolução de situação como estas. No momento da catástrofe, o discurso de Estado mínimo não existe e apontam como natural algo produzido socialmente.
  4. A grande mídia protagonista de notícias intencionalmente construídas que expressam e reforçam uma comoção nacional, sem abrir um debate sobre os impactos ambientais e sociais do modelo que visa o lucro sobre a vida.
  5. A centralidade posta na solidariedade, como única alternativa comum próxima da consigna “um por todos, todos por um”, em substituição às políticas de socorro às reais vítimas: os trabalhadores.

Mas e quando não há catástrofe, apenas lucro? O lucro da Vale pertence a todos? Não pertence a poucos, frente a muitos “nenhuns”

O desenvolvimento é uma questão sempre em aberto. Urge ser debatido com profundidade, pois expõe, nos momentos de dramas como as catástrofes sociais, a história das mazelas do subdesenvolvimento. A catástrofe atinge vários sujeitos e coloca na pauta do dia a discussão sobre o que se tem e o que se quer. Mas não o faz fora da perspectiva de classe, pois, ainda que muitos sejam atingidos, não o são na mesma magnitude.

O debate sobre desenvolvimento apresenta problemas históricos que se acentuam ao longo dos desdobramentos do capital no Brasil: latifúndio, monocultivo, contaminações de toda ordem, trabalho precarizado, fome, dívida, desemprego, diferenças de acesso às políticas públicas etc.

A hegemonia da ideia de progresso levada a cabo no Brasil, desde 1940, manifesta a atual centralidade do complexo agroindustrial, que exige: a consolidação contínua de grandes barragens; um sistema logístico que escoe suas mercadorias; a transposições de rios; a ampliação do extrativismo; a remoção de famílias de áreas que entram na valorização imobiliária; a especulação de tudo que possa se tornar mercadoria, entre outros feitos do capital financeiro nos territórios.

Na ode aos megaprojetos, o grande capital não se preocupa com as múltiplas poluições da natureza somadas à acentuação da superexploração da força de trabalho.
Para o capital, desenvolvimento narra sua moral consolidada de forma objetiva: o lucro. Logo, seu único temor é a baixa do lucro. Seu único projeto é a ampliação do lucro. A qualquer custo, desde que o mesmo seja calculado por eles e fiscalizado pelo Estado – parceiro manifesto nos financiamentos de campanhas. E, caso algo saia da rota, compartilha-se o prejuízo entre todos, de forma “mosqueteira”.

A tragédia, cujas fissuras foram abertas em Mariana e se propagaram para outras regiões de Minas Gerais e Espírito Santo, é um exemplo real do sentido que a burguesia dá ao desenvolvimento. Esses poucos gigantes, ainda que momentaneamente afetados no bolso, não correm riscos de vida nessa catástrofe. Pois, o capital acumulado ao longo da história, às custas do sangue e suor dos trabalhadores e da extração dos recursos naturais, permite que eles se recuperem em pouco tempo da perda econômica gerada por sua própria negligência.

E no caso dos trabalhadores afetados por tais catástrofes? Quem garante a retomada de suas vidas? Como se recuperam de um dano dessa dimensão?

O Governo Federal modificou legalmente um artigo para poder incluir a catástrofe social como processo natural. Com isso, permite que o trabalhador saque o FGTS para reconstrução de suas casas. Mas esse é o único caminho viável? Mesmo que seja legal, é justo? Não explicita a forma como o governo lê quem deve pagar as contas de uma catástrofe social como esta, cujos protagonistas são evidentes? Todos sofrem da mesma maneira? Todos correm os mesmos riscos? Quem paga a conta, por trás do conto da solidariedade?

O debate sobre o desenvolvimento exige explicitar as coisas como elas de fato são: processo desigual e combinado, ancorado em uma estrutura de coisificação da força de trabalho e da natureza. No progresso ou na crise, os donos do capital manifestam a equação social sobre quem paga a conta do progresso, na opulência depredadora de poucos gigantes proprietários privados.

Em tempos de ideias pós-modernas, a catástrofe social e histórica na lama do desenvolvimento nos exige parar de discutir sobre o menos pior e voltar a pensar sobre o inédito, necessário e viável processo de reconstrução de outros projetos de desenvolvimento para além do capital. A relação entre os seres humanos, demais seres vivos e natureza neste modelo de desenvolvimento não é sustentável e nunca será. Suas bases são enraizadas na sangria dos corpos e no veneno da terra.

A catástrofe de Mariana, narra, nas raias da louca corrida pela ampliação dos lucros pelo capital financeiro monopolista que compõe a Vale, o terror do desenvolvimento capitalista desmedido, que utiliza a natureza e o ser humano como objetos para a produção de riqueza na forma de propriedade privada de poucos.

É lastimável que em tempos de crises, alguns, na defesa do ideal, não sejam capazes de expor e tomar partido sobre as reais condições de vida do povo numa sociedade como essa. Sem tomar partido, sem diferenciar um processo de outro, o tema concreto ganha valores morais e as ideias, em vez de serem debatidas como projetos societários de disputa de poder, transformam-se em caminhos coletivos de socorros comuns.

Mas não há igualdade possível numa sociedade que se ancora na desigualdade. Nem liberdade concreta quando os mecanismos de escravização significam a obtenção de rendas mínimas para consumos desnecessários máximos. Frente à catástrofe, se abre um debate sobre a política, a natureza do modelo de desenvolvimento e a possibilidade do porvir.

Roberta Traspadini é professora da Universidade Latino-Americana de Integração (UNILA) e da Escola Nacional Florestan Fernandes.

FONTE: http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=11248%3Aa-lama-do-desenvolvimento&catid=72%3Aimagens-rolantes

O desastre de Mariana é o retrato do Brasil

Por Wilson de Figueiredo Jardim

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O rompimento da barragem de rejeitos de minério de ferro da Samarco ocorrido em 05/11 pode ser considerado o maior desastre ambiental já causado pelo homem no Brasil. Um número relativamente pequeno de vítimas frente à dimensão do evento, seguido por uma comoção mundial frente aos atentados terroristas em Paris que ocorreram na semana seguinte serviram para desviar as atenções do problema brasileiro. Similar ao que ocorreu quando do assassinato do então prefeito Toninho de Campinas, morto um dia antes do ataque às Torres Gêmeas em Nova Iorque , cuja atenção mundial acabou sombreando a morte do ex-prefeito.

No entanto, o evento de Mariana serviu para mostrar a negligência e a inoperância dos órgãos governamentares frente aos eventos desta natureza. Mesmo para quem não tem formação técnica, um simples passeio pela região mineradora e siderúrgica de Minas Gerais mostra a degradação ambiental em todas suas formas: uma forte contaminação atmosférica associada a um passivo ambiental visível nos solos e águas, onde a fiscalização pelos órgãos governamentais (DNPM e FEAM) fica muito aquém do esperado. Nestas regiões a riqueza é para poucos, enquanto que a degradação ambiental é democratizada. Se as Normas Reguladoras da Mineração estivessem sendo seguidas na sua totalidade pela Samarco, este evento não deveria ter ocorrido.

Quando o mar de lama desceu como uma avalanche para atingir o rio Doce, levando tudo no seu caminho, o governo descobriu que não sabia como agir, e começou o festival de barbaridades que não deve terminar tão cedo. Ibama, Ministério Público Federal e Estadual, agências ambientais estaduais, concessionárias de água, aventureiros, cada um falando sua linguagem própria. Afinal, qual era mesmo o material contaminante?

A primeira ação conjunta que se esperava do governo era a identificação rápida e precisa do material que jorrou da barragem. Granulometria, densidade, composição química, potencial de lixiviação de intoxicantes, dentre outros para só assim poder avaliar os possíveis impactos para a saúde humana e a biota. Como isso não foi feito, surgiram especulações sobre a toxicidade, o arsênio se tornou metal (é um metalóide), o material particulado se tornou solúvel, e assim o mar de lama invadiu também o bom senso.  Isso mostra a inoperância do governo, incapaz de colocar um único interlocutor para coordenar as ações remediativas. Interessante é que tanto na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) como na UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) há uma série de dissertações e teses que mostram a caracterização e reuso desta lama. Mas parece que a desinformação é mais interessante do que a informação.

O ápice do festival de barbaridades técnicas foi o uso de bóias de contenção de material flotante (principalmente óleos e borras de derrame de petróleo) para conter o material particulado que compõem o rejeito, o qual tem um diâmetro médio de 10 µm, e evitar sua dispersão no mar. Só faltou alguém sugerir o uso de um grande macaco hidráulico para levantar a foz do rio Doce e fazer o rio correr para a cabeceira. Humor à parte, o desencontro é tão grande que não seria possível descartar esta eventualidade.

O material mais fino que compõe a lama de rejeitos irá se dispersar com o tempo ao longo do rio e no mar, causando um impacto transiente que já mostrou sua força. O fato é que temos agora um passivo ambiental residente de grandes proporções para tratar, visando restaurar ao máximo suas condições pré-acidente. A lama, contendo uma parcela apreciável de sílica, devastou as matas ciliares e ali se depositou, pelo menos em pontos mais próximos à barragem, e deve impedir a recomposição destas matas se não for removida ou recoberta com solo fértil. O leito do rio Doce recebeu uma quantidade de rejeito que deve atuar como se fosse um selo físico, impedindo trocas na interface água/sedimento, processo esse de vital importância para a saúde do sistema aquático.

A recuperação desta bacia é processo de longo prazo, e somente terá sucesso se houver um plano de ação coeso, envolvendo vários atores que trabalhem num projeto factível, integrado, multidisciplinar, usando ao máximo todo o conhecimento que já está disponível visando o sucesso desta remediação. E por favor, esqueçam as técnicas mirabolantes e pirotécnicas, e concentrem-se na fiscalização efetiva e na prevenção.

Wilson de Figueiredo Jardim é professor aposentado do Departamento de Química Analítica (DQA), do Instituto de Química da Unicamp

FONTE: http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2015/11/23/artigo-o-desastre-de-mariana-e-o-retrato-do-brasil

Desgraça maior do que a antecipada: lama da Samarco (Vale+ BHP Billiton) já toma 77 km do litoral capixaba

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A situação de pior cenário que foi antecipada ontem aqui neste blog já se confirmou nesta segunda-feira. Segundo a matéria abaixo do jornal Estado de Minas  indica que os rejeitos tóxicos estão se espalhando de forma irregular em diferentes direções, sendo que a área mais atingida fica ao norte da foz do Rio Doce.

Essa distribuição dos rejeitos deve estar obrigando a que os especialistas “muy amigos” das mineradoras Vale e BHP Billiton  refaçam seus cálculos para explicar porquê as consequências da chegada da lama tóxica liberada em Mariana está se dando desta forma no mar, atingindo uma extensão tão expressiva.

Entretanto, como a própria matéria já aponta, o problema começa, mas não termina em  terra. E o pior deverá ter uma longa capacidade de residência na totalidade da interface continente-oceano. Em outras palavras, a contaminação não só se dará tanto na calha do rio como no assoalho ocêanico, estendendo assim os efeitos na cadeia trófica flúvio-marinha, e com efeitos incalculáveis na população humana que dele depende para gerar sua renda e sustento alimentar.

Em suma, uma cagada mais do que completa!

Lama de rejeitos já toma mais de 77 quilômetros do litoral do Espírito Santo

A lama com rejeitos de minério vinda pelo Rio Doce atingiu o mar no domingo. Prefeitura de Linhares interditou as praias de Regência e Povoação

Por Estado de Minas

Gabriela Biló/Estadão Conteúdo

A lama de rejeitos da mineradora Samarco já tomou mais de 77 quilômetros do litoral do Espírito Santo. De acordo com o governo do estado, são 70 quilômetros ao norte, sete ao sul e 10 mar a dentro. A prefeitura de Linhares interditou as praias de Regência e Povoação após a chegada lama e colocou placas ao longo das praias informando que a água está imprópria para o banho.

A lama com rejeitos de minério vinda pelo Rio Doce atingiu o mar no domingo, segundo informações da prefeitura. A população de Regência e Povoação vive da pesca e do turismo e tem as atividades prejudicadas com a água barrenta que avança sob o mar.

Na sexta-feira (20) o titular da 3ª Vara Civil de Linhares, juiz Thiago Albani, determinou que a Samarco retirasse as boias de contenção instaladas e abrisse a foz do Rio Doce para que a lama de rejeitos se dissipe no mar. Para a decisão, foram ouvidos técnicos ambientais do município e de órgãos como o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema).

A Samarco divulgou nota informando que toma as providências definidas pelo Ministério Público, Iema, Instituto Chico Mendes e Tamar, de modo a direcionar a lama para o mar e proteger a fauna e flora na foz do Rio Doce.

De acordo com a nota, a empresa fornece equipamentos para abertura do banco de areia que impede a chegada do rio ao mar no lado sul da foz. “Quatro máquinas trabalham 24 horas por dia nas escavações, com apoio de uma draga e bombas que ajudam no bombeamento da pluma”.

O documenTo informou também que a barreira de contenção continua sendo instalada nas margens do rio com o objetivo de proteger a fauna e flora, sem impedir o escoamento da lama para mar.

FONTE: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/11/23/interna_gerais,710713/lama-de-rejeitos-ja-toma-mais-de-77-quilometros-do-litoral-do-espirito.shtml

Desvendando a “lama inerte” que vazou da barragem da Samarco em MG

Por Rogério Jordão |

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É inadmissível que, 14 dias depois do rompimento da barragem da Samarco, em Mariana (MG), a empresa, sociedade da Vale com a BHP, não tenha ainda apresentado ao público um laudo químico completo e detalhado sobre o que continham os rejeitos de beneficiamento do minério de ferro. Foram 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos, cuja avalanche deixou até aqui 11 mortos (4 não identificados), 12 desaparecidos, mais de 600 pessoas desabrigadas e um mar de lama que escorrega em direção ao Atlântico pelo rio Doce. Seu impacto ambiental e social ainda está longe de ser mensurado.

A Samarco disse em seu site que o rejeito é “inerte”, composto em sua maior parte por sílica (areia), e que “não apresenta nenhum elemento químico que seja danoso à saúde”. OK, mas é muito pouco para um desastre desta natureza. Por que a empresa não apresenta o laudo químico completo?

O diretor de um sindicato de trabalhadores em mineração da região me explicou por telefone que a empresa usava reagentes químicos como amido, amina e soda em seu processo industrial. Somente a Samarco pode informar se estes produtos químicos, independentemente de serem inertes, estavam dentro da barragem que vazou. No dia seguinte ao rompimento, um repórter de O Globo escreveu: “o cheiro da tragédia era de barro misturado com soda caustica”. Além de areia, o que havia exatamente ali? Já sabemos que a maior parte era sílica, OK, mas e o resto? Em quais quantidades e concentrações?

A informação é fundamental para dar segurança às populações diretamente impactadas. Não à toa pessoas em Governador Valadares (MG), por onde passaram os rejeitos há 7 dias, não querem tomar a água tratada do rio. Mas não só isso. Conforme os rejeitos descem pelo rio Doce – a esta altura a mais de 700 quilômetros do local da barragem rompida – a lama vai carregando poluições outras, de forma que fica impossível estabelecer o que veio da Samarco e o que veio de outras fontes, pois há outras indústrias no caminho. “Sem o laudo químico original será impossível estabelecer, ao longo do rio, a pegada de poluição da mineradora”, me explicou Moacyr Duarte, pesquisador do Grupo de Análise de Risco Tecnológico e Ambiental (Garta) da Coppe/UFRJ.

Falei também Gergely Simon, do Greenpeace em Budapeste, na Hungria. Simon acompanhou de perto um desastre ambiental na cidade húngara de Kolontar, no ano de 2010, quando vazou o material de uma indústria de alumínio para o rio Danúbio. Mostrei a ele o resultado da análise de água encomendada pela prefeitura do Baixo Guandu (ES), quando a lama passou por lá alguns dias atrás – e que indicou alta porcentagem de ferro, arsênio e bário. Mas como a lama já havia viajado mais de 400 quilômetros até o momento da coleta, Simon fez a pergunta óbvia: “mas e o laudo químico do que continha a barragem? Sem esta informação, a análise fica comprometida, inclusive para se detalhar a extensão da responsabilidade dos envolvidos no vazamento em relação aos efeitos no percurso do rio. Sem este DNA, investigações futuras serão falhas”, alertou.

Em breve a lama inerte chegará ao Atlântico. Transformar seu conteúdo original em mistério será um acinte. Que autoridades ambientais federais e estaduais de Minas Gerais não estejam cobrando isso publicamente das empresas de forma enérgica é incompreensível (depois não se sabe de onde vem a profunda crise de representação que vivemos).

Mal comparando, é como se após um desastre de avião com vítimas fatais, a companhia aérea ignorasse a existência da caixa preta. É tragável?

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Imagem:FredLoureiro/Secom-ES/AgBrasil

FONTE: https://br.noticias.yahoo.com/blogs/rogerio-jordao/desvendando-a-lama-inerte-que-vazou-da-barragem-141241773.html

Porto do Açu terá aumento de calado para receber superpetroleiros. E para onde vai essa lama?

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Em meio a todo o tsunami de lama envolvendo o colapso das barragens de rejeitos tóxicos em Mariana (MG), uma notícia publicada pelo jornal O Globo (Aqui!) sobre a expansão das atividades no Porto do Açu trouxe uma informação de forma singela e sem a devida discussão sobre suas implicações sociais e ambientais.  É que segundo o ministro Helder Barbalho da Secretaria Especial de Portos (SEP) “em 2016, o Porto do Açu, investimentos de R$ 600 milhões para aumentar sua profundidade e torná-lo capaz de receber navios gigantes para transporte de petróleo.” 

A coisa que me intriga é a seguinte: vai haver o devido licenciamento ambiental para isso ou a lama que será dragada será, digamos, jogada para debaixo do tapete? É que nessas idas e vindas de mudanças de projetos e adições de variantes não previstas no projeto do Porto do Açu, há que se cobrar a devida transparência sobre mais essa “novidade”. É que para aprofundar o calado do Porto do Açu mais algumas toneladas de lama e areia terão de ser dragadas. E para onde vai ser jogado esse material todo?

Como qualquer dragagem traz impactos ambientais e sociais, o correto seria que o ilustríssimo ministro Barbalho já tivesse nos dado essa informação crucial para a vida dos pescadores que trabalham (ou melhor, tentam trabalhar) nas áreas que ainda estão disponíveis no entorno das áreas de exclusão do Porto do Açu. Áreas de exclusão que deverão ser aumentadas, já que está se falando sobre o trânsito de superpetroleiros!

Outra curiosidade sobre os impactos desta dragagem tem a ver com o aumento do processo de erosão costeira na região de influência direta do Porto do Açu. Como existe uma relação direta entre velocidade de correntes e profundidade do solo oceânico, não é impensável que uma nova conformação batimétrica possa agravar a situação já em curso na Praia do Açu.

Me perdoem os áulicos do Porto do Açu e seus benfeitores no interior do governo Dilma, mas pressinto que sem o devido acompanhamento da sociedade civil e do Ministério Público, o que já está ruim para a comunidade de pescadores sanjoanenses promete piorar, e muito! Enquanto isso,  a EIG Global Partners (sob o nome de fantasia de Prumo Logística) vai continuar com a sua dança dos bilhões e com seus relatórios financeiros para investidor gringo ler.

Vice Media: Especialistas Especulam Sobre o Futuro de Mariana Pós-Desastre

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Por Débora Lopes, Repórter

A história de Minas Gerais mudou para sempre na quinta-feira passada (5), quando duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco se romperam e uma quantidade absurda de lama destruiu o subdistrito de Bento Rodrigues, localizado na cidade histórica de Mariana. De acordo com a Defesa Civil de Minas Gerais, seis pessoas morreram e 19 estão desaparecidas. Os executivos da Vale e da anglo-australiana HP Billiton, donos da Samarco, falaram publicamente pela primeira vez na quarta-feira (10), quase uma semana depois do acontecido.

Ontem (12), após sobrevoar a área afetada, a presidente Dilma Rousseff (PT) anunciou que a mineradora será multada em R$ 250 milhões.

A tragédia afetou a vida de centenas de moradores da região, abrigados temporariamente em hotéis. A lama percorreu mais de 300 km e chegou até o Espírito Santo, afetando diversas cidades que dependiam do Rio Doce para abastecimento de água. Pelo menos 800 mil pessoas ficaram sem água tratada nos últimos dias. Enquanto diferentes esferas do governo lidam com a questão, o Brasil permanece em choque, assistindo aos depoimentos e ao horror vivido pelas vítimas da tragédia. Depois do desastre, Mariana conseguirá se reerguer?

A VICE pediu que especialistas brasileiros de áreas diferentes vislumbrassem um futuro para a cidade histórica de Minas Gerais. Leia os depoimentos editados abaixo:

Marcos Pedlowski, graduado e mestre em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutor em Planejamento Regional pela Virginia Polytechnic Institute and State University (Estados Unidos) e professor na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF)

“O que aconteceu em Mariana não foi acidente, foi incidente. Era previsível. O dano ambiental naquela região é incalculável. Esses dejetos não são inertes, são extremamente tóxicos. Esse material tende a ficar parado no leito do rio e modificar sua forma. As minas eram uma fonte importante pra cidade. Para aquelas comunidades que perderam as casas e a agricultura, o cálculo geral é monstruoso em termos de perdas econômicas e sociais.

“Com R$ 250 milhões não se começa nem a resolver o problema da descontaminação e da retirada da lama”, afirma o geógrafo Marcos Pedlowski sobre o valor de multa que deverá ser pago pela Samarco

Minha preocupação agora é que esse assunto fique na escala da multa de R$ 250 milhões que a presidente anunciou ontem (12). Porque, com R$ 250 milhões, não se começa nem a resolver o problema da descontaminação e retirada da lama – que, fisicamente, vai ser um trabalho muito difícil. Não é uma estratégia só de prefeitura, porque a prefeitura de Mariana não tem capacidade pra reagir sozinha. Vai ter de ter uma articulação de diferentes esferas de governo e, principalmente, da BHP Billiton e da Vale, porque essa é uma responsabilidade das duas, que são as duas maiores mineradoras do mundo.

O impacto não é só em Mariana, mas também no litoral capixaba, que está a 600 km de trânsito desses dejetos. E a escala temporal de recuperação ambiental é de décadas, no mínimo. Mas nada disso aparece na mídia.”

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Foto: Corpo de Bombeiros de Minas Gerais

Dalce Ricas, cientista econômica, fundadora da AMDA (Associação Mineira de Defesa do Meio Ambiente)

“Medir a dimensão do impacto é até difícil. As consequências ambientais se dão no próprio relevo. Independentemente de ser tóxica ou não, a lama mata. Ela corta a possibilidade de fotossíntese. Ela representou, talvez, um dos últimos golpes de morte sobre o Rio Doce, que já está morrendo por causa do desmatamento, da erosão do solo, do esgoto e do lixo jogado pela população, pelas prefeituras.

Se foi negligência ou não, a Samarco é responsável por tudo o que aconteceu. E, se não foi negligência, significa que fatores não controláveis agiram.

A duração dos impactos será a memória viva de uma tragédia que não pode ser esquecida e que tem, obrigatoriamente, de ser um marco de mudanças ambientais em Minas Gerais e no país”, relata Dalce Ricas, fundadora da AMDA (Associação Mineira de Defesa do Meio Ambiente)

A duração dos impactos será a memória viva de uma tragédia que não pode ser esquecida e que tem, obrigatoriamente, de ser um marco de mudanças ambientais em Minas Gerais e no país. Não só no que se refere à atividade mineradora, mas no que se refere à construção de barramentos, inclusive para a exploração de água para irrigação, geração de energia elétrica e abastecimento doméstico. Todas elas estão sujeitas. De qualquer maneira, uma barragem, mesmo sendo de água limpa, pode arrebentar, matar e causa danos.

Considerando a topografia do Quadrilátero Ferrífero [maior região produtora de ferro em Minas Gerais], nós entendemos que a mineração com esse tipo de projeto, de destinação de resíduos em barragens tem de acabar. Têm de haver novas tecnologias pra destinar os rejeitos sem fazer barragem.”

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Foto: Corpo de Bombeiros de Minas Gerais

Bruno Milanez, graduado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Engenharia Urbana pela Universidade de São Carlos (UFSCar), doutor em Política Ambiental pela Lincoln University (Nova Zelândia), professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e coordenador do grupo PoEMAS (Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade)

“O problema de Mariana, como boa parte das cidades mineradoras do Quadrilátero [Ferrífero], é que ela tem uma forte dependência da mineração. Então, provavelmente, o que será de Mariana em termos de continuidade de vida vai depender de quanto e quando a mineração vai ser retomada. Talvez haja um deslocamento de pessoas da Samarco pra outras mineradoras da Vale na região a curto prazo. Mas isso torna tudo mais complicado por conta da demanda pelo minério. Então, pode ser também que a Vale segure ainda mais a volta da produção pra esperar o mercado de minério voltar a se aquecer.

A questão das vidas das pessoas vai além do que a empresa vai poder fazer. O que foi perdido do ponto de vista histórico é irrecuperável. Na verdade, como boa parte dos impactos da mineração, é irreversível nesse aspecto. O que foi perdido, foi perdido.

O rejeito de minério de ferro é muito pobre do ponto de vista de nutriente e carbono. Então, apesar da natureza se recuperar, vamos botar aí séculos [para poder se recuperar]. Talvez alguns anos ou décadas – se houver um esforço, como a transferência de solo fértil de outras áreas pra cobrir aquela região. Será preciso começar um planejamento de recuperação da área com plantio de espécimes nativas e aí começar a recriar o sistema. O tempo que isso vai levar depende de quanto esforço vai ser feito. Com muito esforço, em 10, 20 anos. Isso pra ter mata nativa de novo. Com um esforço menor, esse tempo dobra ou triplica. Principalmente porque o solo é muito infértil. Isso compromete muito a capacidade de recuperação.

“Apesar de o Brasil ser o segundo maior exportador de minérios do mundo, o brasileiro não percebe o país como um país minerador”, relata Bruno Milanez, doutor em Política Ambiental pela Lincoln University (Nova Zelândia)

Em alguns estudos que fiz em outros países onde houve a criação de legislação que restringia a mineração de fato, um dos fatores que levaram a uma sensibilização maior foi uma sequência de eventos trágicos. Eles, aos poucos, construíram na sociedade a percepção de que a atividade minerária é uma atividade de risco e altamente impactante.

O Código Mineral está sendo debatido, e quase ninguém sabe disso. Diferentemente do Código Florestal, em que houve uma comoção. Apesar de o Brasil ser o segundo maior exportador de minérios do mundo, o brasileiro não percebe o país como um país minerador.”

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Foto: Corpo de Bombeiros de Minas Gerais

Cleuber Moraes Brito, graduado em Geografia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestre em Geofísica pela Universidade de São Paulo (USP), docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e consultor na área de mineração e meio ambiente

“Os rios por onde essa avalanche passou estão totalmente alterados. O leito já não é mais o mesmo. Provavelmente, até o percurso desse rio não é mais o mesmo. Teve vegetação e fauna soterradas, devastadas. Ou seja, há uma impactação imensa do ponto de vista físico e biótico – e com repercussões sociais.

O rio [Doce] perdeu, praticamente, toda sua capacidade biológica de peixes. Logicamente que já não era um rio de qualidade excelente, mas alguma vida ali dentro tinha. Há ainda uma instabilidade muito grande de taludes, margens, rios. Esses sedimentos que foram lançados são instáveis. Então, ainda vamos precisar de um tempo pra que isso esteja estabilizado. Será preciso levantar qual é a repercussão da vegetação: se é possível recuperá-la replantando, refazendo alguns nichos ecológicos que se tinha lá.

A lama é tóxica e prejudicial na medida em que aquilo é um resíduo de um processo. Essa lama fina carregada de óxido de ferro avançou nos terrenos. Você praticamente fecha os poros do solo, não tem mais essa dinâmica de um solo que respira, que infiltra água de chuva. Além disso, imagina quantas nascentes não foram soterradas? De um certo modo, a natureza vai assimilar isso. Mas eu não saberia dizer se em 5 ou 10 anos.

A questão é: como é que fica toda a repercussão da questão da bacia hidrográfica onde essa lama foi lançada? Como é que ficam as pessoas que tinham uma atividade nessa bacia? E as cidades que estão com dificuldades de abastecimento público? Como é que vai ser a própria reocupação dessa bacia? Porque agora existe um trauma de que não há segurança nessas barragens.

Temos que trabalhar sempre com a prevenção. Uma avalanche dessa não chega em segundos. Na hora em que arrebenta lá em cima, há algum tempo pra que você possa evacuar. Parece-me que isso não funcionou. Ou por falta de treinamento, ou por falta de um plano de contingência. Isso sem falar na própria avaliação técnica. Se essas barragens estavam seguras, se estavam bem construídas, se havia alguma situação anômala como, por exemplo, excesso de volume. Coisas que, até o momento, ninguém sabe.

“Algumas coisas são perdidas de vez, como por exemplo a memória. Tem gente que perdeu todas as fotografias da sua vida ou o que construiu ao longo do tempo. Está tudo soterrado hoje. Isso aí não tem volta”, diz Cleuber Moraes Brito, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e consultor em mineração e meio ambiente

O que se espera é o seguinte: que a empresa faça todo o levantamento da dimensão do acidente; apresente um plano de recuperação de área degradada envolvendo o meio físico, biótico; como irá recuperar a fauna, a flora, a questão da estabilidade da bacia, toda uma questão de ordem geotécnica; e as repercussões sociais, ou seja, os atingidos. Durante um período em que a solução não chega, como essas pessoas serão atendidas? Como fica a renda delas? Algumas coisas são perdidas de vez como, por exemplo a memória. Tem gente que perdeu todas as fotografias da sua vida ou o que construiu ao longo do tempo. Está tudo soterrado hoje. Isso aí não tem volta. Nesse plano, as pessoas têm de ser contempladas.

E que isso sirva de exemplo pra que, talvez, o poder público, junto com os empresários, trabalhe em situações como essa pra que se diminua, elimine ou minimize ao máximo isso. Principalmente pras pessoas. Nesse momento, as pessoas são as mais importantes.

Não temos um histórico de casos similares pra que pudéssemos fazer uma estimativa de tempo de recuperação. A água, de um certo modo, vai depurando. Os materiais vão assentando. Talvez precisemos de uns dois, três anos pra que a água volte ao normal, sem traços de poluente. A fauna, depende. De repente, hoje, os répteis e os mamíferos se afastem porque mudou tudo. Mas, daqui a uns cinco anos, a floresta cresce de novo, a coisa fica estável e os bichos começam a voltar. Acho que vamos precisar de pelo menos cinco anos pra termos algo avançado e amadurecido da recuperação. Mas para a recuperação plena, uns dez anos.”

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Foto: Corpo de Bombeiros de Minas Gerais

Raquel Ferreira Pacheco, graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-MG) e em Gestão Pública pela Universidade de Minas Gerais (UEMG) e integrante do Grupo de Trabalho em Emergências e Desastres, do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG)

“É importante observar e escutar as pessoas atingidas porque elas terão diversas reações agora, como pesadelos, não dormir bem, se sentirem inseguras o tempo inteiro, ter falta de concentração, alteração com qualquer ruído, qualquer barulho estranho – rememorando o momento das barragens vindo abaixo. Algumas podem querer ficar mais isoladas. Temos de ficar atentos com elas. Outros podem parecer indiferentes num primeiro momento.

“Tem de haver um trabalho de articulação para um atendimento a longo prazo. O que essas pessoas vivenciaram sobrepassa tudo que podemos imaginar”, informa Raquel Ferreira Pacheco, psicóloga integrante do Grupo de Trabalho em Emergências e Desastres do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais

No caso de Bento Rodrigues, eles não têm mais o local onde viveram, onde foram criados, os vínculos, os laços, a profissão. Muitos ali viviam do que produziam na terra. Portanto, o estresse pós-traumático é muito comum e não pode ser detectado de imediato. Essas famílias precisam, sim, ter uma orientação e atendimento. Tem de haver um trabalho de articulação para um atendimento a longo prazo. O que essas pessoas vivenciaram sobrepassa tudo que podemos imaginar.”

FONTE: http://www.vice.com/pt_br/read/especialistas-especulam-sobre-o-futuro-de-mariana-pos-desastre

Enquanto o povo sofre com chuvas, (des) governador Sérgio Cabral afunda na lama política

A matéria abaixo traz um retrato sinistro para o (des) governador Sérgio Cabral e seu vice Luiz Fernando Pezão que, depois de gastar milhões em propaganda, achavam que iam melhorar a avaliação de seu (des) governo. A verdade nua e crua desses números é que a situação dos dois é desesperadora e possui pouquíssima chance de ser revertida.  Só para começo de conversa, 61% dos consultados pelo IBOPE disseram que não aprovam a maneira como Cabral vem administrando o Rio, e 65% afirmaram não confinar nele.

Esses números apontam para um fato quase inexorável: Pezão não será o candidato a sucessão de Cabral. O escolhido para representar a continuidade desse (des) governo poderá ser o senador Lindenbergh Farias que poderia ser a aposta natural daqueles que querem a continuidade da aliança PT/PMDB também no Rio de Janeiro.

Mas como muita chuva teima em cair em terras fluminenses, muita água ainda poderá passar por debaixo da ponte. Agora, que Pezão e Cabral estão literalmente afundando na lama, isto estão. E daqui a pouco, se a coisa não mudar, o abandono da barca de Cabral será amplo, geral e irrestrito.

Em tempo: esta pesquisa foi feita antes do dilúvio que se abateu sobre a cidade do Rio de Janeiro nesta semana, onde ficou evidente o fracasso das obras feitas pelos (des) governos de Sérgio Cabral e Eduardo Paes!

Cabral tem a terceira pior avaliação entre os 27 governadores, diz CNI/Ibope

Jornal do Brasil

O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), foi o terceiro pior avaliado do país, de acordo com a Pesquisa Ibope/CNI divulgada nesta sexta-feira (13). De acordo com o levantamento, para 47% a avaliação é ruim ou péssima, para 33% é regular, e para 18%, é ótima ou boa.

Cabral está na frente apenas de Rosalba Ciarlini (DEM), do Rio Grande do Norte – considerada ruim ou péssima por 74% da população, e que está no cargo por força de uma decisão judicial -, e de Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, que tem uma reprovação de 62%.

De acordo com a pesquisa, 61% dos consultados disseram que não aprovam a maneira como Cabral vem administrando o Rio, e 65% afirmaram que não confiam  em Cabral. A saúde foi apontada por 63% dos entrevistados como a pior área administrada pelo Estado; 40% manifestaram preocupação com a violência; 36% com combate às drogas e 30% com o crescimento do Estado.

Para 47%, avaliação de Sérgio Cabral é ruim ou péssima
Para 47%, avaliação de Sérgio Cabral é ruim ou péssima

O levantamento ouviu 15.414 pessoas acima de 16 anos em 727 municípios, das 27 unidades da federação, entre os os dias 23 de novembro e 2 de dezembro.

FONTE: http://www.jb.com.br/rio/noticias/2013/12/13/cabral-tem-a-terceira-pior-avaliacao-entre-os-27-governadores-diz-cniibope/