Porque uso o termo “Tsulama” para definir os incidentes de Mariana e Brumadinho

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Um amigo na rede social Facebook me alertou hoje para uma possível compreensão do termo “Tsulama” como sendo uma forma de pilheria indevida. Em outras palavras, eu estaria passando a impressão de que estou fazendo piada com o tipo de incidente ambiental que ocorreu em Mariana e Brumadinho ao caracterizar ocorrido como “Tsulama”.

Se em algum momento algum leitor pensou que eu estou usando o termo “Tsulama” como uma forma humorada de caracterizar esses incidentes, pense de novo. Quando pensei em criar o termo ‘Tsulama” me orientei por anos de sala de aula em que um dos tópicos da disciplina de “Geografia I” que ministro regularmente é a ocorrência das ondas “Tsunâmi” em situações de movimentação de placas tectônicas.

Mas o que vem a ser um “Tsunâmi”? Um Tsunâmi é uma série de ondas causada pelo deslocamento de um grande volume de um corpo de água, como um oceano ou um grande lago.  No Oceano Pacífico, os Tsunâmis são uma ocorrência frequente  onde existe grande atividade sismológica que gera esses deslocamentos fabulosos de água do mar que causam grande devastação que afeta estruturas naturais e antrópicas e regularmente implicam um enorme número de mortos.

Tendo isso em mente é que pensei em criar o termo “Tsulama”, pois isto para mim caracteriza melhor o que de fato ocorre quando um mega reservatório de rejeitos explode e libera toda a sua carga tóxica na paisagem.  O exemplo do Tsulama de Brumadinho me parece perfeito para mostrar isso, pois se estima que a onda inicial de rejeitos atingiu a incrível velocidade de 85 km/hora, o que impediu qualquer reação mais rápida de centenas de pessoas que se encontravam logo abaixo das estruturas que romperam ( ver vídeo abaixo).

Além disso, Tsulama passa a ideia de um movimento colossal e avassalador, e nada tem de acidental como o uso das palavras  “acidente” e “tragédia” tende a impregnar nas nossas consciências. Além disso, quando se fala do que se saiu do interior dos reservatórios como “rejeitos” fica uma ideia genérica do que escapou, quando de fato o que invade a paísagem é uma lama formada por uma mistura de água, sedimentos e compostos químicos altamente tóxicos.

Não é por outra razão que os rios que são invadidos pela primeira fase do “Tsulama” são rapidamente afogados em lama, não havendo condição para a manutenção da vida que ali existia. Em outras palavras, como se fosse um Tsunâmi oceânico, o Tsulama produz uma destruição avassaladora e em proporções apocalípticas.

Finalmente, para mim o termo “Tsulama” traz impregnada a responsabilidade das empresas que os causam e dos governos que permitem que isso ocorra.  

Dito isto, espero que agora fique ainda mais evidente porque estou e continuarei usando o termo “Tsulama” para tratar dos incidentes (algo que ocorre porque alguém que sabia da possibilidade de sua ocorrência não agiu para impedir a sua manifestação) como os de Mariana e Brumadinho. Com isso, espero ainda estar alertando para o espectro que ronda muitas cidades brasileiras, especialmente nas dezenas de barragens reconhecidamente inseguras que existem neste momento no estado de Minas Gerais.

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