Lançado na Europa mapa do envenenamento de alimentos no Brasil

Em exposição crônica aos agrotóxicos, brasileiro corre mais risco de morte e desenvolvimento de doenças

Por Ivanir Ferreira

 

larissa 1O atlas de envenenamento foi lançado em Berlim, Alemanha, país que sedia as maiores empresas agroquímicas do mundo: a Bayer/Monsanto (incorporada pelo grupo Bayer) e a Basf, que dominam a produção de toda a cadeia alimentar – sementes, fertilizantes e agrotóxicos – Fotomontagem: Moisés Dorado

Um ousado trabalho de geografia que mapeou o nível de envenenamento dos alimentos produzidos no Brasil foi lançado em maio, em Berlim, na Alemanha, país que contraditoriamente sedia as maiores empresas agroquímicas do mundo. Quem estava presente no lançamento do atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia ficou perplexo com a informação sobre o elevado índice de resíduos agrotóxicos permitidos em alimentos, na água potável, e que, potencialmente, contamina o solo, provoca doenças e mata pessoas. A obra, que já foi publicada no Brasil, é de autoria da geógrafa Larissa Mies Bombardi, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

O Brasil é campeão mundial no uso de pesticidas na agricultura, alternando a posição dependendo da ocasião apenas com os Estados Unidos. O feijão, a base da alimentação brasileira, tem um nível permitido de resíduo de malationa (inseticida) que é 400 vezes maior do que aquele permitido pela União Europeia; na água potável brasileira permite-se 5 mil vezes mais resíduo de glifosato (herbicida); na soja, 200 vezes mais resíduos de glifosato, de acordo com o estudo, que é rico em imagens, gráficos e infográficos. “E como se não bastasse o Brasil liderar este perverso ranking, tramita no Congresso nacional leis que flexibilizam as atuais regras para registro, produção, comercialização e utilização de agrotóxicos”, relata Larissa.

A pesquisadora explica que o lançamento do atlas na Europa se deu pelo fato de a Alemanha sediar a Bayer/Monsanto e a Basf, indústrias agroquímicas que respondem por cerca de 34% do mercado mundial de agrotóxicos. A Monsanto, recentemente incorporada ao grupo Bayer, é a líder mundial de vendas do glifosato, cujos subprodutos têm sido associados a inúmeras doenças, incluindo o câncer e o Alzheimer. “Queríamos promover discussão sobre a contradição de sediarem indústrias que controlam toda a cadeia alimentar agrícola – das sementes, agrotóxicos e fertilizantes – e serem rigorosos quanto ao uso de mais de um terço dos pesticidas que são permitidos no Brasil. Eles são corresponsáveis pelos problemas gerados à população porque vendem e exportam substâncias sabidamente perigosas, porém, proibidas em seu território”, diz.

larissa bombardiGeógrafa Larissa Bombardi, autora da pesquisa que deu origem ao atlas da Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Intoxicação e suicídios

Segundo a geógrafa, as perdas não se limitam à contaminação de alimentos e dos cursos d’água. O atlas traz informações de que, depois de extensa exposição aos agrotóxicos, ocorrem também casos de mortes e suicídios associados ao contato ou à ingestão dessas substâncias.

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Atlas: Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, de Larissa Mies Bombardi – Laboratório de Geografia Agrária da FFLCH – USP, São Paulo, 2017

Entre 2007 e 2014, o Ministério da Saúde teve cerca de 25 mil ocorrências de intoxicações por agrotóxicos. O atlas mapeia as regiões mais afetadas: dos Estados brasileiros, durante o período da pesquisa, o Paraná ficou em primeiro lugar, com mais de 3.700 casos de intoxicação. São Paulo e Minas Gerais ficaram na segunda colocação, com 2 mil. Das 3.723 intoxicações registradas no Paraná, 1.631 casos eram de tentativas de suicídio, ou seja, 40% do total. Em São Paulo e Minas gerais o porcentual foi o mesmo. No Ceará, houve 1.086 casos notificados, dos quais 861 correspondiam a tentativas de suicídio, cerca de 79,2%. Os mapas de faixa etária mostram que 20% da população afetada era composta de crianças e jovens com idade até 19 anos. Segundo Larissa, no Brasil, há relação direta entre o uso de agrotóxicos e o agronegócio. Em 2015, soja, milho e cana de açúcar consumiram 72% dos pesticidas comercializados no País.

O atlas Geografia do uso de agrotóxicos no Brasil e conexões com a União Europeia, em português, foi lançado no Brasil em 2017 e traz um conjunto de mais de 150 imagens entre mapas, gráficos e infográficos que abordam a realidade do uso de agrotóxicos no Brasil e os impactos diretos deste uso no País. A pesquisa que deu origem à publicação teve o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Em Berlim, o lançamento aconteceu na sede do ENSSER (European Network of Scientists for Social and Environmental Responsability), rede europeia sem fins lucrativos que reúne cientistas ativistas responsáveis ambiental e socialmente, em Glasgow, Escócia. O suporte financeiro para o lançamento do atlas na Europa foi da FFLCH e da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP.

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Entre 2000 e 2010, o Brasil aumentou em 200% o consumo de agrotóxicos. A soja foi a cultura que mais consumiu pesticidas

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Mapa de intoxicação por agrotóxicos de uso agrícola (2007-2014)

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Uso de malationa (inseticida) na cultura do feijão – Limite máximo de resíduos permitido no Brasil e nos países da comunidade europeia

Mais informações: Larissa Mies Bombardi, larissab@usp.br ou pelo telefone (11) 3091-3769. Atlas versão em português – Atlas versão inglês

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Este artigo foi iniciado publicado pelo Jornal da USP [Aqui!].

Como agrotóxicos proibidos na Europa são encontrados em sucos, café e refeições dos europeus via o Brasil

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Por Guy Pichard para o Basta !

239 novos agrotóxicos foram legalizados e colocados no mercado brasileiro desde que o presidente de direita Jair Bolsonaro chegou ao poder em 1º de janeiro de 2019. Mais de um por dia! Um registro que vem além de ser o maior consumidor mundial de agrotóxicos, com mais de 500 mil toneladas por ano. Em 2017, o Brasil respondeu por 18% do mercado global de agrotóxicos. A presença muito grande de grupos agrícolas industriais e seus lobbies no parlamento brasileiro explica essa louca corrida. Mas a que preço? Uma pessoa morre quase a cada dois dias no Brasil envenenada por agrotóxicos [1]. Claro, os trabalhadores agrícolas são os mais expostos. Um drama sanitário que a nova ministra da Agricultura brasileira, Tereza Cristina da Costa, explica pelo fato de, segundo ela, “os trabalhadores agrícolas estarem abusando dos produtos”.

Antes de entrar no governo Bolsonaro, Tereza Cristina da Costa liderou a bancada “ruralista” no Parlamento brasileiro. Este grupo reúne MPs e senadores que se encarregam de defender os interesses do agronegócio. Na mesma linha, a ministra definiu os agrotóxicos como “um tipo de medicamento” e acrescentou que “as plantas estão doentes e precisam dessas drogas”. Mas de onde vêm essas chamadas drogas que matam trabalhadores agrícolas e o Brasil está espalhando centenas de milhares de toneladas em suas terras? Alguns desses agrotóxicos são produzidos na Europa por empresas européias e depois são exportados para o Brasil. Alguns desses produtos são apenas para exportação. Isso por uma simples razão: eles são tão tóxicos que seu uso é proibido na Europa.

A rota dos pesticidas tóxicos: da Europa para o Brasil, depois do Brasil para a Europa

“Muitos grupos industriais que vendem produtos pesticidas são europeus. Mas muitos dos produtos que vendem no Brasil são proibidos em seu próprio país “, diz Larissa Mies Bombardi, geógrafa e professora da Universidade de São Paulo. Ela estuda a questão dos pesticidas em seu país há quase dez anos. Utilizando dados das importações de agrotóxicos no Brasil, seu uso em diferentes regiões e para diferentes culturas e dados de exportação para esses produtos, ela desenvolveu um Atlas de Usos de Praguicidas no Brasil, e suas conexões com Europa. Um trabalho inédito para alertar a opinião pública européia e brasileira sobre a periculosidade de muitos produtos consumidos e exportados por seu país para o nosso continente.

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Todos os dados e números do seu atlas  vêm de fontes públicas. “A ideia deste atlas é denunciar as contradições desse sistema”, continua ela. Porque, em termos de pesticidas e equipamento militar, a Europa não é mesquinha com a hipocrisia. Assim, este ano, o Reino Unido forneceu aos agricultores brasileiros mais de 200 toneladas de paraquat, um herbicida proibido na Europa desde 2007 [2]. “Estudos mostraram que a exposição crônica ao paraquat pode causar danos a longo prazo, tais como prejuízo da função pulmonar, dermatoses da pele, doenças neurodegenerativas”, diz a ONG suíça Public Eye sobre os efeitos tóxicos da doença. este produto. Da mesma forma, a Itália vendeu para o Brasil em 2019 mais de 200 toneladas de um herbicida proibido na União Européia desde 2004: a atrazina. Por um montante de pouco mais de 750.000 dólares (660.000 euros) [3].

Pelo menos 25 substâncias tóxicas proibidas na Europa vendidas pela Bayer e pela BASF no Brasil

A Alemanha não fica de fora, com a gôndola dirigindo os dois gigantes da química Bayer e BASF. De 2016 a 2019, as duas empresas viram suas vendas de pesticidas proibidas na Europa, mas destinadas ao Brasil: + 50% das vendas da Bayer e + 44% da BASF. Pelo menos uma dúzia de substâncias tóxicas proibidas na Europa são vendidas pela Bayer no Brasil, sob diferentes marcas de pesticidas [4]. “Em 2016, comecei a rever produtos que a Bayer vende no Brasil. Nós renovamos essa revisão três anos depois. Como resultado, o número de produtos que a Bayer vende no Brasil e que são proibidos na União Europeia não diminuiu, mas aumentou entre 2016 e 2019 “, disse o ativista alemão Christian Russau em abril de 2019 aos acionistas Bayer na reunião anual da empresa química multinacional. Christian Russau é um membro da Associação de Acionistas Críticos (Dachverband Kritische Aktionäre), um grupo de ativistas alemães que tentam alertar sobre os erros de empresas alemãs em questões ambientais, paz, condições de trabalho. Ele também é um conhecedor do Brasil [5].

A ONG alemã fez o mesmo trabalho para a outra grande empresa alemã que vende agrotóxicos no Brasil, a BASF. As conclusões são semelhantes. Em 2016, a BASF vendeu nove pesticidas proibidos para a UE no Brasil. Em 2019, esse número subiu para treze … [6]

agrotox 3Um extrato do Atlas de Agrotóxicos no Brasil: o mapa de intoxicações por agrotóxicos no Brasil entre 2007 e 2014.

Dezenas de pesticidas proibidos usados ​​para cultivar laranjas, soja e café

Suco de laranja, café e soja. Este é o pódio dos produtos mais exportados pelo Brasil para os países da União Européia. Quase 80% das laranjas brasileiras são destinadas à Europa, grande consumidor de suco de frutas e, em particular, suco de laranja (22 litros por pessoa por ano na França [8]). A laranja é o produto de exportação mais abundante para resíduos de agrotóxicos: os padrões brasileiros permitem vinte vezes mais do que aqueles em vigor na Europa!

Quanto ao café, 25% dos agrotóxicos utilizados para o cultivo no Brasil são proibidos na Europa. Em 2016, a França importou quase 90 milhões de euros em café brasileiro. E a Alemanha, maior importadora de café brasileiro da Europa, mais de 850 milhões de euros. A cafeicultura no Brasil usa 30 substâncias tóxicas proibidas na Europa, como o Paraquat. Mais de 30 agrotóxicos proibidos na Europa também são pulverizados no Brasil para cultivo de soja que, novamente, Paraquat.

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Intensivamente cultivada e parcialmente responsável pelo desmatamento na Amazônia, a soja brasileira é 98% transgênica. As culturas de OGM são proibidas na Europa, por isso a soja brasileira é proibida para consumo humano, mas é permitida na alimentação de animais, como galinhas, porcos ou gado que produzem o nosso leite. Em 2016, a França e a Alemanha importaram mais de 600 milhões de euros em soja brasileira [9]. Os padrões brasileira também permitem à soja brasileira 200 vezes mais resíduos de glifosato – o que ainda não é proibido na Europa – do que na nossa antiga Europa. “Em grande parte da soja importada do Brasil, podemos ter certeza da presença do glifosato”, observa Larissa Mies Bombardi.

“A União Européia precisa urgentemente fortalecer seus controles sobre todos os produtos do Brasil e fazer campanha por sua harmonização global”, afirmou a pesquisadora. As leis da UE relativas a produtos exportados são aleatórias e não há sanções se os produtos não forem cumpridos. Quando muito está acima dos padrões autorizados, ele será devolvido, mas continuaremos a comprar este produto “, explica. Isso é preocupante quando um acordo de livre comércio entre a União Européia e o Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) acaba de ser concluído, apesar do clima imperativo, da oposição e dos protestos.

 Na Suécia, uma cadeia de supermercados tomou a iniciativa de remover todos os produtos brasileiros de suas prateleiras e não mais comercializá-los, enquanto a política agrícola do presidente Bolsonaro estiver baseada em tantos agrotóxicos [10]. O CEO desta empresa de supermercados, Paradiset, Johannes Culberg, chegou a explicar essa escolha em voz alta através de um vídeo em português que fez muito barulho do outro lado do Atlântico.

No Brasil, “em dez anos a principal causa de morte será o câncer”

Se a Europa está sob a ameaça de seus próprios agrotóxicos, que ela proibiu em seu solo, a situação no Brasil é ainda mais grave. No Brasil, 5000 vezes mais resíduos de pesticidas são permitidos em alimentos e água corrente! Lavar frutas, tomar banho e até mesmo cozinhar pode, portanto, ser uma fonte de alta exposição a esses produtos tóxicos. Até mesmo a água engarrafada pode estar potencialmente contaminada porque a água subterrânea também pode estar poluída, de acordo com Larissa Mies Bombardi.

As pessoas que vivem em áreas rurais estão ainda mais expostas. No estado de Mato Grosso, um estudo da Universidade Federal do Mato Grosso mostrou que nos municípios localizados próximos a campos de soja, milho e algodão, a taxa de câncer de estômago, esôfago e pâncreas era 27 vezes maior que a das cidades não expostas. “Em dez anos, a principal causa de morte no Brasil será o câncer”, alerta Larissa Mies Bombardi.

Guy Pichard, com Rachel Knaebel

Foto de um: © Guy Pichard

Notas

[1] Ver este artigo do jornal O Globo, o que equivale a 164 o número de pessoas mortas em 2017, como resultado da exposição à agrotóxicos.

[2] Veja uma descrição do Paraquat no site da ONG suíça Public Eye.

[3] Em 2017, 1340 toneladas de atrazina foram vendidas pela Itália para o Brasil.

[4] Em particular: carbendazim, cyclanilid, Etiprol, etoxissulfuron, fenamidona, indaziflam, ioxinil, oxadiazon, propinebe, thidiazuron, tiodicarbe, tirame …

[5] Christian Russau escreveu umlivro inteiro sobre os erros das empresas alemãs no Brasil.

[6] Ver o texto de Christian Russau, Português, maio de 2019, no site da Campanha Permanente contra agroquímicos.

[7] Ver a decisão do Conselho Constitucional aqui, na seção “Sobre os artigos 17 e 18”.

[8] De acordo com os números da União Interprofissional Nacional de Sucos de Frutas (Unijus).

[9] Fonte: Atlas dos Agrotóxicos.

[10] Veja este artigo do Guardian.

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Este artigo foi originalmente publicado em francês pela Basta! [Aqui!].

Larissa Bombardi e a comparação do uso de agrotóxicos entre Brasil e a União Europeia

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Série de entrevistas com a professora Larissa Mies Bombardi esclarece a grave situação dos agrotóxicos no Brasil.

A professora da Universidade de São Paulo (USP) Larissa Mies Bombardi é hoje uma das principais experts na questão do uso de agrotóxicos, muitos deles banidos em outras partes do planeta, na agricultura brasileira. É dela a obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” que compara a situação comparada entre o uso de agrotóxicos do Brasil e na União Europeia.

Abaixo posto o primeiro vídeo de uma série produzida pelo jornalista Bob Fernandes com a professora Larissa Bombardi sobre a crítica situação que está ocorrendo no Brasil em função do vício da agricultura brasileira, principalmente naquelas propriedades destinadas às monoculturas de exportação, por compostos altamente tóxicos.

Não nos enganemos, como bem diz a professora Larissa Miers Bombardi a situação causada pelos agrotóxicos no Brasil é gravíssima. E é preciso tratar a situação pelo que ela é em função dos graves danos ambientais e sociais que a dependência da agricultura brasileira em relação a essas substâncias altamente perigosas que hoje contaminam águas, solos e os alimentos que os brasileiros e as populações dos parceiros comerciais do Brasil consomem.

O Atlas do uso de agrotóxicos no Brasil: uma obra fundamental para entendermos o quanto estamos sendo envenenados

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A obra “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia” de autoria da professora Larissa Mies Bombardi do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP) foi lançado em 2017, mas permanece injustamente desconhecida da maioria dos brasileiros.

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Felizmente agora todos os interessados em entender o que eu chamo de geopolítica do veneno poderão baixar gratuitamente a versão eletrônica do atlas produzido pela professora Larissa Bombardi. Segundo o que está posto no blog que a pesquisadora mantém na internet, a disponibilização da versão e-book visa permitir que as informações contidas no atlas “possam circular e possam ser um importante instrumento de conscientização e, também, de suporte para políticas públicas que envolvam a proteção da população exposta aos agrotóxicos.”

Como alguém que vem estudando as formas e a intensidade do uso de agrotóxicos no Brasil há mais de uma década, considero que esta obra nos entrega informações preciosas sobre a disseminação territorial destas substâncias, e dos impactos já identificados sobre a saúde dos trabalhadores que as manuseiam cotidianamente.

Para baixar a obra da professora Larissa Bombardi, basta clicar [Aqui!]

Agrotóxicos: Brasil libera quantidade até 5 mil vezes maior do que Europa

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O debate sobre o uso de agrotóxicos ganhou um novo capítulo, e ele não é bom para o Brasil. Estudo inédito revelou o abismo que existe entre a legislação brasileira e a da União Europeia sobre o limite aceitável de resíduos na água e nos alimentos. A contaminação da água é o que mais chama a atenção, com a lei brasileira permitindo limite 5 mil vezes superior ao máximo que é permitido na água potável da Europa. No caso do feijão e da soja, a lei brasileira permite o uso no cultivo de quantidade 400 e 200 vezes superior ao permitido na Europa.

Esses são os resultados do estudo “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, da pesquisadora Larissa Mies Bombardi, do Laboratório de geografia Agrária da Universidade de São Paulo. “Infelizmente, ainda não é possível banir os agrotóxicos. Por isso, é importante questionar por que o governo brasileiro não usa parâmetros observados no exterior”, afirma Bombardi, para quem a permissividade em relação à água “é uma barbárie”. Enquanto a União Europeia limita a quantidade máxima que pode ser encontrada do herbicida glifosato na água potável em 0,1 miligramas por litro, o Brasil permite até 5 mil vezes mais.

O Brasil tem, segundo o estudo, 504 agrotóxicos de uso permitido. Desses, 30% são proibidos na União Europeia – alguns há mais de uma década. Esses mesmos itens vetados estão no ranking dos mais vendidos. O acetato, tipo de inseticida usado para plantações de cítricos, é o terceiro da lista. Uma nota técnica da Anvisa citada no estudo de Bombardi mostra que o acetato causa a chamada “síndrome intermediária”. Entre os danos à saúde estão fraqueza muscular dos pulmões e do pescoço. Em crianças, o risco é mais acentuado. “A nossa legislação é frouxa no que diz respeito aos resíduos e à quantidade permitidos na União Europeia”, diz Bombardi. Para Brian Garvey, da Universidade de Strathclyde, da Escócia, e orientador de Bombardi na pesquisa, as autoridades brasileiras “lavam as mãos da toxidade”.

Como resultado, o mapa aponta ainda que oito brasileiros são contaminados por dia, se levarmos em conta os números oficiais, que são subnotificados. Uma pesquisa da Fiocruz estima que, para cada caso registrado, 50 não o foram. O que significa que, entre 2007 e 2014, mais de um milhão de brasileiros foram intoxicados por agrotóxico – um quinto das vítimas é criança ou adolescente. Para piorar, em 2015, o governo deixou de publicar os casos de intoxicação por agrotóxicos. Desde então, ficou mais difícil estudar os casos de vítimas intoxicadas dentro ou fora do trabalho, como nos casos de pessoas que moram em áreas pulverizadas.

Bombardi se refere aos casos de intoxicação como a “ponta do iceberg”. “A intoxicação representa 2% do total de problemas de saúde que podem acometer a sociedade. As doenças crônicas não são estudadas como deveriam.” Procurado no sábado, a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde respondeu que recebeu a demanda na segunda (dia 27) e que até o final do dia mandaria esclarecimentos.

A Anvisa, por e-mail, informou que “realiza a avaliação toxicológica dos agrotóxicos, antes dos mesmos serem registrados pelo Ministério da Agricultura” e que há uma série de restrições para registros de agrotóxicos no país, como nos casos em que não há antídoto ou tratamento eficaz no Brasil. Em relação à quantidade de resíduos presentes, a Anvisa afirmou que uma análise feita entre 2013 e 2015 mostrou que quase 99% das amostras de alimentos analisadas “estão livres de resíduos de agrotóxicos que representam risco agudo para a saúde”.

 Consumo de agrotóxicos aumentou

Desde 2008 o Brasil é o país campeão mundial em uso de agrotóxicos. Consumimos 20% do que é comercializado mundialmente. Não bastasse o manuseio não parou de crescer. Entre 2000 e 2014, mostrou o estudo, o Brasil saltou de cerca de 170 mil toneladas para 500 mil, aumento de 194% em quinze anos.

Segundo o estudo, nos estados de Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Mato Grosso o consumo do herbicida glifosato fica entre 9 kg e 19 kg por hectare. Análises feitas com animais mostraram que a exposição ao produto causou câncer de mama, necrose de células e reduziu o tempo de vida dos bichos. Em setembro deste ano, a França anunciou que banirá o glifosato até 2022. “O primeiro-ministro Edouard Philippe decidiu que este produto será proibido na França – assim como todos os que se pareçam com ele e que ameaçam a saúde dos franceses”, disse o porta-voz Christophe Castaner em entrevista a um canal de televisão.

Mesmo em casos em que o agrotóxico é permitido lá e cá, a quantidade usada é menor, como é hoje o caso do glifosato, o líder brasileiro de vendas. Enquanto na Europa é permitido usar até 2 kg de glifosato por hectare, a média brasileira fica entre 5 kg e 9 kg. Entre 2009 e 2014, o consumo subiu 64%, de 118 mil toneladas para 194 mil. Em 2014, o Mato Grosso liderou as compras, seguido por Paraná e Rio Grande do Sul.

Bombardi aponta ainda que o aumento do uso de agrotóxicos não aumentou a produção de alimentos por hectare no Brasil. O crescimento do consumo do produto aconteceu em paralelo a um outro movimento: o aumento da concentração de terras e da plantação de produtos que usam grandes quantidades de herbicidas. Em 2003 as fazendas declaradas com área superior a 100 mil hectares ocupavam 2% de todo o território destinado a imóveis rurais no país, em 2015, o número saltou para 18%. Em 13 anos, a área cultivada de soja aumentou 79% no Brasil.

O aumento da produção rural também ajuda a entender esse crescimento no consumo de agrotóxicos. Em 2014, os produtos básicos assumiram a liderança das exportações, com 48% do total. Dos dez produtos mais vendidos pelo Brasil no exterior, sete vêm do campo. A pesquisadora aponta ainda a política de incentivos às empresas produtoras de agrotóxicos, que têm 60% de desconto no imposto relativo à circulação de mercadorias no Brasil, dentre outros benefícios.

Lei permissiva, culpa do agricultor

Embora a lei brasileira seja permissiva, as autoridades tendem a jogar no produtor rural a culpa pelos casos de contaminação. Em audiência pública realizada na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados em agosto de 2017, tanto o governo quanto a Anvisa atribuíram a contaminação por agrotóxicos à utilização inadequada.

O mesmo argumento foi usado pela coordenadora do Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes do Ministério, Rosana Vasconcelos, em reportagem da Agência Câmara: “Quando se depara com o problema de uma praga, de uma doença na sua cultura, ele [produtor] não quer saber se é permitido para o mamão, ele quer saber se mata aquela praga para ele não perder a produção”, afirmou. Na mesma reportagem, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento informa que “o uso de agrotóxicos no Brasil está dentro dos padrões internacionais, mas reconheceu que há uma utilização equivocada que pode levar à contaminação.” Procurados, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento sugeriu enviar os questionamentos à Anvisa.

O estudo confirma a informação de que os trabalhadores rurais são as principais vítimas de contaminação, seguidos por quem vive em regiões próximas às plantações, sendo as áreas pulverizadas as mais suscetíveis. No estado de São Paulo, 75% da área é pulverizada. Por fim, o último elo da cadeia revela as consequências da contaminação por quem consome. “O agrotóxico não tem público alvo”, afirma Lombardi.

 

Fonte: http://www.informaluz.com.br/agrotoxico-alem-do-limite-no-brasil