Exploração de lítio no Vale do Jequitinhonha tem mais casas rachadas do que promessas cumpridas

Moradores preferem deixar a região a conviver com impactos da Sigma, que enfrenta dificuldades financeiras

No Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, moradores de uma comunidade colada em uma mina de lítio, entre os municípios de Araçuaí e Itinga, temem que o teto caia sobre suas cabeças. Há semanas não se escuta o barulho da mineradora, mas a preocupação com as rachaduras das casas, causadas por anos de detonações, é maior do que o alívio momentâneo. Ninguém sabe o que vai acontecer daqui para frente.

Os representantes da empresa, que chegou ao Jequitinhonha prometendo mundos e fundos, disseram que as operações retornariam em novembro, mas o prazo não foi cumprido. Os impostos e royalties que viriam com a exploração do lítio, um dos chamados minerais críticos para a transição energética, secaram no último ano. Mesmo o aumento da oferta de empregos sofreu um revés: a Fagundes Construção e Mineração, empreiteira terceirizada, demitiu 500 funcionários e se retirou da operação minerária por falta de pagamento de um montante que chegaria a R$ 115 milhões.

A 1.800 km dali, em um evento paralelo à Conferência do Clima da ONU (COP30), em Belém (PA), a fundadora e CEO da Sigma Lithium, a maior produtora de lítio do Brasil, exaltou a responsabilidade social da empresa, afirmou ter a mina “mais sustentável do mundo” e diz que a chegada da companhia mudou a história da região, que “não tinha absolutamente nenhuma atividade econômica”.

Leia na íntegra: Agência Pública 

Exploração de lítio amplia contaminação do solo e da água em Minas Gerais

Pesquisadores alertam para o risco de consumo excessivo de alumínio entre os moradores do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais

Mina de extração de lítio operada pela Sigma Lithium, próxima à comunidade Piauí Poço Dantas, em Itinga (MG). Rebeca Binda 

Por Enrico Di Gregorio para “Revista Pesquisa Fapesp”

Os municípios de Araçuaí, com 35 mil habitantes, e Itinga, com 15 mil, ambos no Vale do Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais, vivem a perspectiva de aumento de empregos e de renda, mas também de contaminação do solo e da água. Tanto o desenvolvimento econômico quanto os problemas ambientais estão associados à exploração do lítio, elemento químico estratégico para a produção de baterias e para a transição energética (ver Pesquisa FAPESP nº 285).

Em 2023, o governo de Minas Gerais lançou o programa Vale do Lítio, para promover a exploração do mineral. Até aquele ano, uma empresa privada nacional, a Companhia Brasileira de Lítio (CBL), era a única a operar na região. Depois, a mineradora canadense Sigma Lithium iniciou a produção. A também canadense Lithium Ionic, a norte-americana Atlas Lithium, a australiana Latin Resources e a chinesa BYD adquiriram áreas para pesquisa mineral na região.

No Brasil, o lítio é extraído principalmente do espodumênio, mineral encontrado em rochas chamadas pegmatitos. O problema é que a exploração química e mecânica das rochas e minerais para a retirada do lítio libera nanopartículas minerais com alumínio, elemento químico potencialmente tóxico que compõe o espodumênio.

“Os resíduos descartados contendo alumínio ficam empilhados em montes de rejeitos a céu aberto e, quando chove, são levados pela água superficial e se infiltram no solo”, conta o engenheiro-agrônomo Alexandre Sylvio Costa, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Com seus colegas da universidade, ele percorreu a região e buscou formas de resolver o problema.

O grupo da UFVJM examinou as possibilidades de uso do silicato de alumínio, resíduo gerado após o espodumênio passar por um aquecimento a altas temperaturas, a chamada calcinação, e por uma solução com ácido sulfúrico, formando sulfato de lítio. Em parceria com a CBL, os pesquisadores desenvolveram um silicato de alumínio não reativo, que, por causa de suas propriedades iônicas, atrai partículas dispersas na água, em um processo chamado floculação, ajudando a purificá-la, como detalhado em um estudo publicado em outubro no International Journal of Geoscience, Engineering and Technology.

A mineração do lítio amplia a liberação de elementos químicos e, portanto, os riscos de contaminação ambiental”, reforça o geólogo Edson Mello, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele e o geólogo Cássio Silva, da Companhia de Recursos em Pesquisas Minerais (CRPM), coletaram amostras de solo, vegetais e água nos arredores das cidades de Araçuaí e Itinga em 2008 e 2009 e, em todas, identificaram teores de alumínio acima do recomendado.

Os resultados das amostras próximas à mina apresentaram valores de alumínio similares aos regionais. Em pouco mais da metade (60%) das amostras coletadas, a concentração média era de 30,7 miligramas (mg) de alumínio por quilograma (kg) no solo, quase o dobro dos 17,7 mg por kg de áreas sem exploração de lítio. Na água, a média é de 0,405 mg por litro (L), bem acima dos limites de 0,05 mg/L a 0,2 mg/L de água potável recomendados pelo Ministério da Saúde, como detalhado em um artigo publicado em agosto de 2025 na Journal of Geological Survey.

Pegmatito, rocha da qual é extraído o mineral que contém lítioLéo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

Silva estimou que cerca de 50 mil moradores da região estão expostos ao risco de contaminação por alumínio, cujo excesso prejudica o funcionamento dos ossos, músculos e do sistema nervoso central. Preocupado com a situação, ele enviou os resultados para as empresas e órgãos públicos de Minas Gerais. As prefeituras de Araçuaí e Itinga e a Sigma não responderam às reiteradas solicitações de entrevistas de Pesquisa FAPESP.

Outras áreas do Vale do Jequitinhonha também apresentam sinais de impacto social e ambiental. Em novembro de 2024, ao percorrer o Vale do Jequitinhonha, a socióloga brasileira Elaine Santos, do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), em Portugal, também deu razão aos protestos dos moradores, expressos em uma reportagem da Agência Brasil, de outubro de 2025. “Nas paredes das casas, vi rachaduras que os moradores diziam ser causadas pelas explosões das mineradoras”, afirma. “Eles relatavam que, o tempo todo, havia poeira e barulhos de máquinas.”

Na província de Yichun, na China, a maior produtora mundial de lítio, além da contaminação da água, a mineração aumentou a concentração de partículas com diâmetro de até 2,5 micrômetros na atmosfera para mais que o dobro dos níveis recomendados naquele país, concluíram pesquisadores do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG). As análises foram detalhadas em um artigo publicado em abril de 2025 na revista EixosTech.

Problemas semelhantes inquietam os habitantes no noroeste da Argentina. Nessa região, o problema é a retirada de grandes quantidades de água, reduzindo o fluxo dos aquíferos subterrâneos que abastecem os moradores, alertaram pesquisadores das universidades nacionais de Salta (UNSa) e de La Plata (UNLP) em um artigo publicado em fevereiro de 2025 na revista Heliyon. De acordo com esse trabalho, uma das minas, na província de Jujuy, consome cerca de 51 metros cúbicos (m³) de água por tonelada de carbonato de lítio. Esse volume corresponde a 30% da água doce do complexo de salinas conhecido como Salar de Olaroz-Cauchari, de onde se extrai o lítio.

O que fazer?
“Simplesmente parar de usar lítio não é uma opção”, antecipa Santos. A partir de 2011, a extração do mineral ganhou importância em todo o mundo ao ser amplamente usado em baterias que duram mais tempo e em fontes renováveis de energia. Para ela, não se deveria criar grandes empreendimentos sem investir em serviços de saúde e agentes de fiscalização: “É preciso desenvolver uma infraestrutura que possa suportar as consequências da mineração”.

Mello, da UFRJ, ressalta a necessidade de mais transparência, audiências públicas, estudos de impacto ambiental e acompanhamento da mineração. “Precisamos mostrar claramente os riscos ao ambiente e aos moradores, que raramente são ouvidos”, diz. “Os estudos geológicos prévios também precisam ser debatidos com as comunidades para que possamos ter uma mineração com o mínimo possível de impactos ambientais.”

As resoluções nº 001/1986 e nº 237/1997 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) definem a participação popular no licenciamento ambiental de atividades de mineração como princípio fundamental e instrumento jurídico obrigatório. O artigo da EixosTech, porém, observa que a escassez de fiscais e de recursos da Agência Nacional de Mineração (ANM) dificulta a implementação dessas leis.

Em setembro de 2025, o procurador Helder Magno da Silva, do Ministério Público Federal (MPF), recomendou formalmente à ANM a suspensão e revisão de todas as autorizações de pesquisa e extração de lítio no Vale do Jequitinhonha e solicitou “uma consulta prévia, livre, informada e de boa-fé” das populações locais antes de qualquer nova concessão para exploração de lítio.

Artigos científicos


ANDRADE, G. S. et alImpactos da mineração de lítio: Análise comparativa entre Vale do Jequitinhonha e YichunEixosTech. v. 12, n. 2. abr-jun. 2025.

HERON, T. et alValuation of lithium mining waste for water treatment: An experimental study and broader implications of residual aluminum silicate (Al2SiO5) as an artificial zeolite. International Journal of Geoscience, Engineering and Technology. v. 12, n. 1. 31 out. 2025.
PAZ, W. F. D. et alThe water footprint of lithium extraction technologies: Insights from environmental impact reports in Argentina’s salt flatsHeliyon. v. 11, n. 4. 28 fev. 2025.
SILVA, C. et al. Exposure of aluminum in the Araçuaí-Itinga Lithium Pegmatite District, Minas Gerais, Brazil: Contaminant and toxicological effects on populations established nearby mining activities. Journal of Geological Survey. v. 8, n. 2. 7 mar. 2025.


Fonte:  Revista Pesquisa Fapesp

Justiça barra licenciamento ambiental de projeto da Atlas Lithium, no Vale do Jequitinhonha

Licenciamento de projeto da Atlas Lithium, no Vale do Jequitinhonha, é barrado pela Justiça; entenda

Vista aérea do Vale do Jequitinhonha | Crédito: Pixabay 

Por Thyago Henrique para o “Diário do Comércio” 

O licenciamento ambiental concomitante (LCA) do projeto Anitta, da Atlas Lithium, em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha – que envolve lavra a céu aberto, pilha de rejeito/estéril e estrada para transporte de minério – estava previsto para ser votado pela Câmara de Atividades Minerárias do Conselho Estadual de Política Ambiental (CMI/Copam) em reunião na sexta-feira (29), mas foi barrado pela Justiça Federal em Minas Gerais.  

Na véspera, o juiz Antônio Lúcio Túlio de Oliveira Barbosa, da Vara Federal com Juizado Especial Federal (JEF) Adjunto de Teófilo Otoni, determinou que o Estado de Minas Gerais suspendesse imediatamente a deliberação e votação do processo, bem como se abstenha de pautá-lo em reuniões futuras até que seja proferida uma nova decisão judicial.

O pedido de tutela de urgência foi proferido no âmbito de uma ação civil pública (ACP), movida pela Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais (N’Golo) contra a Atlas, o Estado e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Os réus foram procurados, mas apenas a Advocacia-Geral do Estado de Minas Gerais (AGE) retornou, informando que “irá se manifestar nos autos do processo”.

Na ACP, a N’Golo alegou que a Atlas não realizou o Estudo do Componente Quilombola (ECQ) e a consulta prévia à Comunidade Quilombola de Giral, Malhada Preta, Água Branca e Santa Rita do Piauí, certificada pela Fundação Cultural Palmares, cujo território se encontra a cerca de 5,55 quilômetros (Km) da Área Diretamente Afetada (ADA). A federação ainda acusou a empresa de prestar informação falsa no Estudo de Impacto Ambiental (EIA), ao afirmar que a comunidade estaria a mais de oito Km do projeto.

Ao acatar o pedido da N’Golo, o magistrado, na prática, proíbe o Estado de deliberar sobre o licenciamento ambiental do Anitta até que a mineradora elabore o ECQ e a consulta livre a comunidade quilombola. Cabe ressaltar que os réus podem contestar a deliberação.

O que disse o magistrado

O magistrado apontou na decisão que a consulta prévia dos povos e comunidades tradicionais é obrigatória e disse que, no próprio EIA, a Atlas traz um mapa indicando que a comunidade quilombola está a menos de oito Km do Anitta. O juiz também mencionou uma controvérsia da Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam).

Segundo Barbosa, o parecer do órgão ambiental reconhece que a comunidade quilombola  está a 5,55 Km da ADA do projeto. Ele ainda afirmou que a justificativa do órgão para dispensar a consulta baseada na existência de uma “barreira natural, a Chapada do Lagoão”, “parece, à primeira vista, insuficiente para afastar uma presunção estabelecida em norma federal e o dever imposto por um tratado internacional de direitos humanos”.

Para a federação, a decisão representa uma importante vitória das comunidades

A N’Golo recebeu com satisfação a decisão da Justiça. Conforme nota assinada pelo advogado da federação, Matheus Mendonça Gonçalves Leite, “a decisão judicial representa uma importante vitória das comunidades quilombolas na resistência à expansão da mineração predatória no Vale do Jequitinhonha, vergonhosamente denominado pelo governador do Estado de Minas Gerais como Vale do Lítio”.

Leite destaca que o Jequitinhonha é o vale da riqueza, da solidariedade e do bem-viver dos povos e comunidades tradicionais. Para o advogado, o Estado de Minas Gerais, “subserviente aos interesses do capital minerário, está violando, de modo sistemático e generalizado, os direitos humanos e fundamentais das comunidades quilombolas nos licenciamentos ambientais de empreendimentos minerários”.


Fonte:  Diário do Comércio

Comunidades do Vale do Jequitinhonha denunciam violações de direitos com a mineração de lítio

Exploração do mineral cresceu 562%; comissão da CNBB lança nota contra “colonialismo energético” na região

litio mgNa semana passada, uma audiência pública na ALMG debateu as violações sofridas pelas comunidades da região – Foto: Luiz Santana/ALMG 

Por Ana Carolina Vasconcelos para o Brasil de Fato MG

“Se o lítio é nosso e a riqueza é nossa, por que nossos asfaltos estão esburacados?”, indagou Lucas Martins, do quilombo Córrego Narciso, que fica a 25 km de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha. 

O questionamento foi feito em audiência pública, na última semana, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), sobre as violações sofridas pelas comunidades da região, em decorrência da intensificação da extração do lítio. 

Superlotação de equipamentos públicos de saúde, adoecimento mental e físico, contaminação das águas, danos nas estruturas das casas e modificações das estradas são alguns dos impactos relatados pelos moradores dos municípios onde está localizada a maior reserva do mineral no Brasil. 

“Não somos contra o desenvolvimento ou a exploração do lítio, mas somos a favor das comunidades. Temos direito às riquezas que estão no nosso solo. Nós não construímos nossas casas para as mineradoras racharem, mas para morar gente. Ali tinha gente”, continuou Lucas Martins. 

Processo desenfreado

No ano passado, o governador Romeu Zema (Novo) lançou na bolsa de valores Nasdaq, em Nova Iorque, o projeto ‘Vale do Lítio’, que é a tentativa de ampliação da exploração de lítio nas regiões Norte, Vale do Jequitinhonha e Vale do Mucuri. 

A proposta engloba 14 municípios: Araçuaí, Capelinha, Coronel Murta, Itaobim, Itinga, Malacacheta, Medina, Minas Novas, Pedra Azul, Virgem da Lapa, Teófilo Otoni e Turmalina, Rubelita e Salinas. Segundo informações do governo, a área possui 45 depósitos do mineral.

No atual contexto de emergência climática, o lítio é considerado um dos principais minerais críticos para a transição energética, sendo utilizado para a fabricação de baterias de veículos elétricos, em alternativa aos motores à combustão. O minério retirado de terras mineiras ainda é de alta pureza. 

Entre 2022 e fevereiro deste ano, a mineração de lítio nos vales do Jequitinhonha e Mucuri cresceu 562%, chegando à quantidade de 1377 processos minerários junto à Agência Nacional de Mineração (ANM). 

Todavia, a região onde se encontra a reserva também possui uma das maiores riquezas do país: a grande diversidade de comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas. 

Nídia Miranda, moradora da comunidade Poço Dantas, que fica em Itinga, relata um processo desenfreado que, além de destruir a natureza, retira a paz das famílias.

“Estão minerando a poucos metros das casas. A água do rio onde nós íamos com as crianças não serve mais. Hoje, eu não posso mais levar a minha neta na minha casa, porque ela tem alergia à poeira”, explicou. 

Impor limites

A deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT), que solicitou a realização do debate na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da ALMG, acredita que o poder público precisa impor limites à atividade minerária, criando condições para a preservação social, ambiental e cultural da região.

“O poder econômico não pode chegar em uma cidade e colocar as suas regras desconsiderando as comunidades. É preciso mecanismos de proteção. Se nós não fizermos isso agora, só ficaremos com as consequências. Precisamos parar com essa mania de compensar depois da destruição. Temos que proteger as pessoas, o meio ambiente e a água”, enfatiza a parlamentar. 

Atualmente, existe um inquérito civil público no Ministério Público Federal (MPF) para apurar as violações aos povos tradicionais dos municípios atingidos pela extração do lítio. 

Segundo o procurador Helder Magno da Silva, o órgão observará se foi garantido às comunidades o direito à consulta livre, prévia e informada, estabelecida pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da qual o Brasil é signatário, que exige a escuta dos povos tradicionais para a realização de obra, ação, política ou programa que possa afetá-los.

“No entender do MPF, se isso não foi observado, implica na nulidade de tudo o que foi formulado e deferido pela ANM e pelos órgãos ambientais”, destacou. 

Colonialismo energético

A Comissão Episcopal Regional para Ecologia Integral e Mineração da Conferência Nacional Dos Bispos Do Brasil (CNBB) publicou uma nota, no dia 4 de julho, criticando o avanço da mineração de lítio, justificado pela suposta “transição para uma energia dita como limpa”. 

“É falso afirmar que se trata de uma verdadeira transição para energia limpa. Na realidade, trata-se de mais mineração nos territórios, causando sérios danos ecológicos e sociais”, diz o documento. 

A comissão ainda destaca que, enquanto as comunidades sofrem com as consequências, os capitalistas lucram, em um processo de  “colonialismo energético”. 

“No Vale do Jequitinhonha, o chamado colonialismo energético se manifesta pela desapropriação, fragmentação e transformação de terras e territórios por meio de megaprojetos de mineração. Esse modelo de exploração imposto à região é o mesmo que se espalha por toda Minas Gerais. Não existe mineração verde ou sustentável”, explica.

“A mineração consiste em arrancar o minério da terra, exportá-lo, às vezes processá-lo e deixar um rastro de destruição. Essa prática causa profundos impactos nas práticas e valores culturais, ecológicos e agrícolas, perpetuando um modelo econômico extrativista que beneficia poucos no norte global, em detrimento das populações locais”, continua o texto. 

Edição: Lucas Wilker


Fonte: Brasil de Fato MG

Sigma Lithium, uma empresa canadense com presença ostensiva de brasileiros no seu “Board of Directors”, pode mudar de mãos em breve

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Desde ontem, o “Blog do Pedlowski” está tendo um acesso massivo e recebendo dezenas de comentários sobre uma postagem feita acerca de um comentário produzido por um TV alemã sobre a extração de lítio no Vale do Jequitinhonha. Eu vinha tratando a Sigma Lithium, empresa que realiza a exploração de lítio nos municípios de Itinga e Arucuaí como alemã, mas um comentarista fez a devida correção e informou que a mesma está sediada no Canadá.

Como o leitor deste blog é quem geralmente envia informações que viram pistas para apurações interessantes, resolvi acessar o site corporativo da Sigma Lithium e pude verificar que não apenas a empresa está realmente sediada no Canadá, mas como também boa parte dos membros do seu “Board of Directors” são brasileiros com larga experiência na área financeira e da mineração.

Quem acessar as diferentes abas da página da Sigma Lithium notará que ali está o que há de melhor em termos de vender uma boa imagem de governança sócio-corporativa, misturando responsabilidade social com preocupações ambientais. Assim, se não fosse pela exposição que está ocorrendo pelo documentário do canal SWR, tudo continuaria muito tranquilo para as operações da Sigma Lithium que poderia continuar aplicando seus métodos “arrasa quarteirão” enquanto vende uma imagem de responsabilidade e sustentabilidade.

O interessante é que checando a internet por informações publicadas pela mídia corporativa, o que se sobressai é essa imagem bem moldada de responsabilidade socioambiental na produção de uma elusivo “lítio verde”.  Além disso, como o governo de Romeu Zema vem primando por um amplo desmanche do sistema de regulação ambiental, não fica difícil entender como os métodos da Sigma Lithium estão ocorrendo sem que haja grandes repercussões em tornos dos seus impactos ambientais e sociais. E tudo isso, é claro, em nome de uma indústria automobilística que produzem veículos “sustentáveis”.

O mais peculiar é que em setembro de 2023, o jornal “Estado de Minas” publicou uma matéria indicando a possível venda da Sigma Lithium, tendo o dono da Tesla, Elon Musk como um dos possíveis interessados na compra. Ainda  em dezembro de 2023, apesar das negativas iniciais, o “Board of Diretors” da empresa indicou que efetivamente estavam em curso negociações para a sua venda. Esse tipo de transação não é de forma alguma surpreendente, pois estamos em uma fase de grande adensamento das operações em torno da produção de carros elétricos e smartphones.

Mas é aí que mora o perigo de todas essas empresas que exploram recursos minerais estratégicos em países do Sul Global. É que o compromisso delas não é com o desenvolvimento sustentável que apregoam em suas páginas  para vender seus “green bonds” (que de verde só têm a tinta onde são impressos) ou, tampouco, com as populações que têm o azar de entrar no caminho dos seus projetos minerários. Para essas populações, o que sobra é deslocamento e ambientes totalmente inviabilizados para seus modos de vida tradicionais. 

A mineração de lítio coloca o Vale do Jequitinhonha à beira do abismo, mostra documentário

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Há uma corrida em curso pela exploração do lítio na América Latina, e o estado de Minas Gerais está no centro das disputas que ocorrem entre corporações nacionais e multinacionais e as populações que historicamente vivem nos territórios selecionados para exploração.

Recebi o vídeo abaixo do meu colega Klemens Laschefski,  o geógrafo e professor do Departamento de Geologia da UFMG.  O documentário produzido pelo canal alemão SWR mostra o avanço de uma nova forma colonialismo nos municípios de Araçuaí e Itinga onde está concentrada sob um disfarce esperto a mineração do lítio.

O documentário mostra que sob a escusa de uma mineração sustentável e responsável se esconde a mais aguda negação da sociobiodiversidade do Médio Jequitinhonha que ameaça destruir uma rica biodiversidade e expulsar comunidades que ali vivem há centenas de anos.

O lado sujo da política climática da Europa

Para a sua transição energética, os países da UE precisam de matérias-primas em abundância. A América Latina deve entregá-las – e lidar com as consequências do desmantelamento

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No “triângulo de lítio” da América Latina entre Chile, Argentina e Bolívia: mineração de lítio no deserto chileno de Atacama. Foto: Martin Bernetti/AFP
Por Gerhard Dilger, Buenos Aires, para o Neues Deutschland

A província andina argentina de Jujuy, na fronteira com a Bolívia, está em estado de emergência há quatro semanas. As comunidades indígenas organizaram doze bloqueios de estradas e os viajantes podem passar a cada três horas. Os protestos são dirigidos, entre outras coisas, contra uma constituição provincial que foi aprovada em tramitação acelerada, o que facilita o despejo de indígenas em favor de projetos de lítio. O lítio é uma matéria-prima para carros elétricos que está em demanda em todo o mundo, e os países da União Europeia (UE) também estão procurando novas fontes de abastecimento .A polícia é brutal, buscas e prisões domiciliares foram realizadas novamente na quarta-feira, ativistas estão sendo criminalizados e intimidados. “Os saques devem ser legalizados”, diz o último manifesto dos manifestantes contra a constituição. “Somos os legítimos proprietários desta terra.”

O contraste com as declarações encorpadas feitas antes da reunião de cúpula dos chefes de estado e de governo da UE e dos Estados da América Latina e do Caribe na segunda e na terça-feira dificilmente poderia ser maior. “A reunião de cúpula oferece uma excelente oportunidade para construir confiança e dar um novo impulso às relações”, disse o chefe de política externa da UE, Josep Borrell, no início de junho, quando apresentou a nova agenda da Comissão Europeia para a América Latina. A Câmara Alemã de Indústria e Comércio promete »novos impulsos de crescimento«.

Juntamente com o hidrogênio verde, que será enviado para a Europa em apenas alguns anos da Argentina e do Chile, mas também da Colômbia e do Brasil, o lítio é celebrado como um símbolo da transição energética. Perde-se de vista o que significa a extração de matérias-primas para as regiões. É claro que os principais políticos da UE e seus estados membros estão atualmente tentando garantir o acesso a matérias-primas para a economia europeia. Os críticos suspeitam que se trata de um extrativismo verde neocolonial que está roubando da América Latina seus recursos naturais como vem fazendo há 500 anos: antigamente ouro, prata e estanho – hoje “ouro branco”, água, vento e sol. O que está acontecendo especificamente no momento e como os governos latino-americanos estão se posicionando?

Na Argentina, duas das três fábricas de lítio estão em Jujuy, mas também há uma corrida do ouro nas províncias vizinhas. Dezenas de outros projetos estão nas gavetas dos ministérios. Príncipes provinciais, isso é um segredo aberto, ganham muito. O metal leve é ​​considerado uma bala de prata para a transição energética. A indústria automotiva vai substituir o motor de combustão interna por um elétrico.Para produzir uma bateria de íon-lítio para um carro elétrico, são necessários de dez a 20 quilos de carbonato de lítio, entre outras coisas.

Os políticos europeus têm peregrinado em massa à América Latina nos últimos meses – uma ofensiva de charme sem precedentes, na qual não poderia faltar a invocação de “valores comuns”. Sem exceção, os convidados também enfatizaram que os acordos de livre comércio da UE, que ainda não foram totalmente negociados, gostariam de ser assinados e selados até o final do ano. Especificamente, trata-se do acordo com os países do Mercosul Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, que vem sendo objeto de luta desde 1999, e da modernização dos acordos com Chile e México.

Quando o chanceler Olaf Scholz viajou para a Argentina e o Chile com uma grande delegação empresarial em janeiro, ele não escondeu o interesse das empresas alemãs no lítio, mas prometeu ajudar na criação de cadeias de valor locais. Porque, embora cerca de 60% dos recursos mundiais estejam armazenados nos lagos salgados andinos do triângulo de lítio Chile-Bolívia-Argentina, o processamento em baterias até agora ocorreu principalmente na China, Coréia do Sul ou Japão.

Os custos ambientais da reviravolta “ecológica”

A BMW, o único grande player alemão no negócio de lítio na América do Sul, se gaba de obter metal leve extraído de forma “particularmente sustentável” da Argentina. Em 2021, a empresa automóvel de Munique assinou um contrato com a multinacional norte-americana Livent para a compra de lítio no valor de cerca de 285 milhões de euros. Até agora, nem a Livent nem a BMW conseguiram refutar os indícios de um enorme consumo de água doce e um maior rebaixamento do nível do lençol freático no extremo oeste da província de Catamarca. Tudo indica que Livent está destruindo lenta mas seguramente o frágil ecossistema de Puna e, portanto, os meios de subsistência dos agricultores locais de lhamas – para que a reviravolta “ecológica” do transporte na Europa possa progredir.

As empresas alemãs também estão começando no Chile: K-Utec Salt Technologies da Turíngia e Aci Systems de Baden-Württemberg prometem “lítio verde”. , subsídios da UE incluídos.

Em geral, o Chile é um dos parceiros preferenciais da Europa, como demonstrou durante a visita de Ursula von der Leyen em junho. »Sem lítio não haveria turbina eólica, sem matérias-primas críticas não haveria bateria. É por isso que concordamos em trabalhar em uma parceria estratégica para matérias-primas sustentáveis ​​e para toda a cadeia de valor”, disse o presidente da Comissão Europeia em Santiago. Também anunciou um fundo para hidrogênio verde de 225 milhões de euros, dos quais 100 milhões virão como um empréstimo do Kreditanstalt für Wiederaufbau (KfW).

Segundo o site do Banco Europeu de Investimento, esta plataforma de financiamento deve “promover a descarbonização da economia chilena, criar empregos verdes, abrir oportunidades de negócios para empresas chilenas e europeias, ao mesmo tempo em que atende à demanda europeia por hidrogênio limpo” . Von der Leyen garantiu que a UE quer produzir dez milhões de toneladas de hidrogênio verde anualmente até 2030 e importar a mesma quantidade. Esse hidrogênio é chamado de verde porque é produzido usando energia solar e eólica.

A plataforma de hidrogênio H2LAC da Sociedade Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) está ativa em 13 países da América Latina, incluindo Uruguai e Argentina. Na província argentina de Rio Negro, a Sociedade Fraunhofer, também muito presente, apresentou um estudo otimista sobre o potencial do hidrogênio. Os ambientalistas estão se mobilizando contra os parques eólicos necessários para isso. Isso também seria necessário para que a Europa possa importar o combustível “limpo”.

No Chile e no Uruguai, a empresa HIF Global produz e-combustíveis a partir do hidrogênio com o acionista Porsche. Para a inauguração da fábrica Haru Oni ​​​​no sul da Patagônia, para a qual o ex-ministro de Assuntos Econômicos Peter Altmeier iniciou o subsídio multimilionário, a Porsche voou no verde Baden-Württemberg Ministro dos Transportes, Winfried Hermann – para um piloto projeto que é uma farsa do ponto de vista da política climática. Porque em vez de extrair da atmosfera o dióxido de carbono necessário para o processo, como anunciado, os operadores aparentemente usam CO 2 fóssil, “reciclado” . Além disso, mais tarde haveria rotas de transporte longas e prejudiciais ao meio ambiente para a Europa.

Alejandro Stipanicic, presidente da empresa estatal Ancap, que está envolvida no segundo projeto do HIF, admitiu a uma estação de rádio uruguaia que o combustível sintético supostamente neutro para o clima era “muito caro”. Não é para o mercado local.”

No Brasil e na Colômbia, o ministro da Economia, Robert Habeck, e a ministra das Relações Exteriores, Annalena Baerbock, elogiaram o grande potencial de energias renováveis, como a solar e a eólica, que serão usadas para produzir hidrogênio para a Europa – eles aparentemente não estavam interessados ​​nos problemas de aceitação local para parques eólicos. Após o discurso de Baerbock, o jornal liberal “Folha de São Paulo” apontou incisivamente “o apetite por energia e lítio”.

E os »valores comuns«? Na América Latina, é bem lembrado o quão pouco a UE estava disposta a fornecer vacinas acessíveis ou mesmo abrir exceções à proteção de patentes durante a pandemia de Covid-19 – em muitos países, Rússia e China intervieram. Portanto, é compreensível que as pessoas sejam céticas sobre declarações de amizade e alérgicas a demandas decretadas unilateralmente – o presidente brasileiro está fazendo isso com mais clareza.

Enquanto a maioria dos líderes latinos só expressa sua inquietação a portas fechadas, Luiz Inácio Lula da Silva não faz de seu coração um antro de assassinato. Ele está ciente de que o acordo UE-Mercosul visa principalmente abrir novos mercados para empresas europeias e facilitar o acesso a velhas e novas matérias-primas, como cobre e lítio. Em troca, Lula promete negócios brilhantes para o agronegócio brasileiro, problemas ambientais ou não. Acima de tudo, porém, ele teme que as indústrias nacionais falissem se as empresas europeias tivessem livre acesso ao mercado ou não tivessem nenhuma chance de se desenvolver.

O presidente Lula fala publicamente em linguagem simples com seu colega francês Emmanuel Macron, com von der Leyen ou Scholz. A base para uma parceria em pé de igualdade não deve ser a desconfiança ou a ameaça unilateral de sanções, explica. Lula e outras autoridades latino-americanas estão atrapalhando as exigências ambientais moldadas pelo Acordo Verde Europeu, especialmente para a agricultura, que a UE quer incluir em um protocolo adicional ao acordo UE-Mercosul. As sanções provavelmente seriam possíveis, pelo menos em teoria – apenas algumas pessoas sabem exatamente porque, como sempre, esses textos permanecem secretos até serem assinados.

As negociações do protocolo estão sendo extremamente duras, porque se suspeita de protecionismo no Mercosul. O obstáculo mais importante para o acordo de livre comércio do lado europeu são, de fato, as associações de agricultores na França, Áustria, Bélgica e Irlanda, que temem mais do que nunca a concorrência de importações agrícolas baratas produzidas em condições negligentes.

Em abril, o Parlamento Europeu também aprovou uma lei de combate ao desmatamento em todo o mundo, que entrou em vigor no início de julho. Segundo ela, a partir de 2024 as empresas da UE não poderão mais importar madeira, carvão vegetal, impressos, café, cacau, borracha, óleo de palma, gado ou soja produzidos em terras que serão desmatadas a partir de 2021. Colonialismo Verde?

É assim que os latinos veem, porque também é uma medida unilateral. O que é politicamente fatal, porém, é que Lula & Cia. não podem se dar ao luxo de mexer com o agronegócio produtor de divisas. Um acordo de livre comércio ratificado, portanto, também aceleraria a destruição das florestas, porque se e quando as empresas serão realmente solicitadas a pagar no futuro é uma incógnita.

Representantes de dezenas de organizações ambientais e de direitos humanos da Europa e da América Latina também falarão na cúpula na segunda e terça-feira em Bruxelas. Nas ruas e em eventos paralelos, eles exigirão uma ordem ecossocial econômica e comercial e ficarão felizes porque pelo menos nada sairá do acordo neocolonial UE-Mercosul tão cedo.

E até que ponto a UE está aberta às preocupações dos seus “parceiros naturais”? O chefe de estado colombiano Gustavo Petro – um pioneiro no continente com sua planejada “transição energética justa” e também muito cortejado pelo governo federal – provavelmente fará novamente campanha por uma nova política de drogas e alívio da dívida para proteção das florestas. Com essas questões, os europeus podem mostrar que se preocupam com mais do que matérias-primas.

Gerhard Dilger mora na América do Sul desde 1992, de 2000 a 2012 foi correspondente no Brasil, depois gerente do escritório da Fundação Rosa Luxemburgo em São Paulo e Buenos Aires. Hoje é jornalista freelancer e consultor em Buenos Aires.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Europa e seu neocolonialismo verde na América Latina

Relações econômicas: A presença da União Europeia na América Latina está em declínio. Os acordos de livre comércio visam garantir a exploração dos recursos naturais com capa verde

rockwoodVista aérea da instalação de Rockwood no deserto de Atacama, no norte do Chile, o maior depósito de lítio do mundo

Por Joerg Kronauer para o JungeWelt

Bruxelas está comemorando, mas na América Latina é recebida com duras críticas de alguns: o acordo de livre comércio renovado e significativamente ampliado entre a União Europeia (UE) e o Chile, que ambos os lados concordaram em 9 de dezembro. Em termos puramente formais, trata-se de uma atualização do acordo de associação existente desde 2002, que já dá aos estados da UE e suas empresas acesso privilegiado ao mercado chileno. No entanto, vai muito além das regras anteriores. Concede aos investidores da UE no Chile os mesmos direitos que os investidores locais. Também priva o governo de Santiago de opções para limitar a exportação de matérias-primas chilenas. Isso é extremamente favorável para a transição energética germano-europeia: mais de 60% das importações de lítio da UE vêm do Chile; entregas futuras de hidrogênio verde também estão em discussão. Segundo Bruxelas, o acordo de livre comércio ajudará a garantir um futuro ecológico para a Europa.

Mais perto da China

Então tudo bom? De jeito nenhum. Mais de 500 organizações e indivíduos já assinaram um apelo que tem uma visão negativa do novo acordo – e por boas razões. O apelo, iniciado por críticos chilenos e assinado, por exemplo, pela organização internacional de pequenos agricultores Via Campesina ou pelo político de esquerda francês Jean-Luc Mélenchon, toma como exemplo o hidrogênio verde que Bruxelas planeja importar do Chile. Para produzir um quilo dele, são necessários dez litros de água doce e grandes quantidades de energia renovável, que devem ser geradas com sistemas solares e eólicos em terras agrícolas, diz o apelo; em vez de produzir alimentos para países em desenvolvimento e emergentes, ganha-se fontes de energia para motoristas do ocidente rico, que poderiam muito bem usar o transporte público. O novo acordo de livre comércio é simplesmente “uma expressão do neocolonialismo”, que neste caso serve “a eletromobilidade da UE”, ou seja, propósitos “verdes”.

O acordo de livre comércio ampliado que Bruxelas assinou com o Chile – que agora precisa ser ratificado pelos estados membros da UE – é bastante característico da nova relação entre a América Latina e a UE. No geral, como disse recentemente a pró-governamental Fundação para Ciência e Política de Berlim (SWP), a relação “perdeu intensidade e relevância, especialmente na última década”. A América Latina está cada vez mais ligada à China e, por exemplo, ao usar a tecnologia Huawei para 5G, afirma-se cada vez mais contra a resistência dos EUA. A China é agora o segundo parceiro comercial e, na América do Sul, é ainda o maior; a UE está apenas em terceiro lugar e, embora ainda seja a número um em termos de legado de investimentos diretos, dificilmente mostra qualquer impulso econômico real. “Faltam projetos que deem sentido e propósito à cooperação”, afirma o SWP; resumindo: a Europa está em declínio na América Latina, onde outrora prosperou no turbilhão dos Estados Unidos.

Difícil reviver

O que fazer? A UE está atualmente focada em duas coisas. Por um lado, ela quer ampliar os acordos de livre comércio existentes e concluir novos. Além do com o Chile, também será ampliado o acordo de livre comércio com o México; também há planos de usar a mudança de poder no Brasil de Jair Messias Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva para finalmente ratificar o acordo de livre comércio com o Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai). O objetivo é dar impulso às relações econômicas lentas. Além disso, pelo menos alguns países latino-americanos possuem matérias-primas importantes para a transição energética, especialmente o lítio; Chile, Argentina e Bolívia têm grandes quantidades. Fortalecer o próprio acesso a ele está na moda em Berlim e Bruxelas.

Essa dualidade – livre comércio mais “parcerias de commodities” – será suficiente para reviver o antigo relacionamento entre a UE e a América Latina? Alguém pode estar cético: afinal, os acordos de livre comércio com o Chile e o México, por exemplo, não são novos; e “parcerias de matéria-prima” com o Chile e o Peru foram concluídas pela Alemanha há quase dez anos sem dar um real impulso às relações. “Sem uma reorientação fundamental”, assume o SWP, “as relações alemãs e europeias com a América Latina não podem ser revitalizadas.” No entanto, uma reorientação não está à vista na UE; até mesmo suas importações de lítio e hidrogênio permanecem nas estruturas do neocolonialismo, embora desta vez em um manto verde.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “JungeWelt” [Aqui!].

Mina de lítio da Rio Tinto: milhares de manifestantes bloqueiam estradas em toda a Sérvia

Multidões gritavam slogans condenando o governo de Aleksandar Vučić, que apóia a planejada mina anglo-australiana de US $ 2,4 bilhões

serbiaManifestantes bloquearam uma rodovia no sábado para protestar contra o plano da Rio Tinto de minerar lítio na Sérvia. Fotografia: AFP / Getty Images

Agence France-Presse

Milhares de manifestantes bloquearam estradas principais em toda a Sérvia no sábado, enquanto a raiva aumentava em relação a um plano apoiado pelo governo para permitir que a mineradora Rio Tinto extraísse lítio.

Na capital, Belgrado, os manifestantes invadiram uma grande rodovia e ponte ligando a cidade aos subúrbios enquanto a multidão gritava slogans antigovernamentais enquanto alguns seguravam cartazes criticando o projeto de mineração.

Protestos menores foram realizados em outras cidades sérvias, com pequenas brigas entre manifestantes e contra-manifestantes em Belgrado e na cidade de Novi Sad, no norte, de acordo com relatos da mídia local.

“Eles permitiram que empresas estrangeiras fizessem o que quisessem em nossas terras. Eles nos colocaram em uma bandeja para todos que podem simplesmente vir e levar o que quiserem ”, disse Vladislava Cvoric, uma economista de 56 anos, durante o protesto.

Manifestantes acenam chamas durante uma manifestação em Belgrado contra a proposta do governo para uma mina de lítio.

Manifestantes acenam chamas durante uma manifestação em Belgrado contra a proposta do governo para uma mina de lítio. Fotografia: Zorana Jevtic / Reuters

O tenista sérvio Novak Djokovic compartilhou uma fotografia do protesto no Instagram e comentou que “ar puro, água e comida são fundamentais para a saúde”.

Os protestos seguiram-se a manifestações semelhantes na semana passada, durante as quais homens mascarados atacaram uma reunião em Sabac, no oeste da Sérvia – gerando indignação nas redes sociais e acusações de que o governo estava usando hooligans para reprimir o movimento.

Depósitos substanciais de lítio – um componente-chave para baterias de carros elétricos – foram encontrados ao redor da cidade de Loznica, onde a empresa anglo-australiana está comprando terras, mas ainda aguarda a luz verde final do estado para começar a mineração.

A Rio Tinto descobriu reservas de lítio na região de Loznica em 2006.

A empresa pretende investir US $ 2,4 bilhões (€ 2,12 bilhões) no projeto, de acordo com Vesna Prodanovic, diretora da Rio Sava, empresa irmã da Rio Tinto na Sérvia.

Os críticos acusaram o governo do presidente Aleksandar Vučić de preparar o terreno para apropriações ilegais de terras e ignorar as preocupações ambientais.

As manifestações ocorrem meses antes das prováveis ​​eleições nacionais de 2022, com críticos dos protestos acusando os organizadores de gerar polêmica para minar Vučić antes das urnas.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].