Flávio Bolsonaro e Luis Inácio: duas faces da mesma moeda fiscal

Enquanto as campanhas disputam o campeonato de arremesso de lama, ambas escondem do eleitor o arrocho preparado para começar em 2027

A estas alturas do campeonato, parece estar ficando claro que o torneio de arremesso de lama entre as campanhas de Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio  beneficia ambos, ainda que abra algum espaço para um crescimento não pactuado dos votos em Augusto Cury.

Além desse ganho comum, a fixação nos supostos poderes demoníacos das duas candidaturas majoritárias serve apenas para esconder que, na pauta comportamental, uma delas é essencialmente a versão piorada da outra. O que permanece obscurecido em meio à trama das acusações recíprocas de corrupção é que ambas carregam programas de arrocho fiscal prontos para entrar em vigor já no primeiro dia de 2027. Sob o ruído cuidadosamente alimentado da polarização, Flávio Bolsonaro e Luis Inácio aparecem, assim, como faces distintas de uma mesma moeda fiscal.

O desconhecimento dessa convergência pela maioria dos eleitores acaba contribuindo para o avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas. Além de enfrentar o desgaste inerente a quem governa, o governo de Luis Inácio vem tornando cada vez mais difícil que milhões de brasileiros consigam se proteger debaixo do cobertor, já curto, dos programas sociais que deveriam minimizar seu sofrimento. Essa é uma das principais razões para a aproximação de Flávio Bolsonaro. Embora os planos do primogênito de Jair Bolsonaro apontem para encurtar ainda mais esse cobertor, a maioria vive as urgências do presente e dispõe de poucos elementos para avaliar um futuro que se anuncia cinzento, seja qual for o candidato escolhido.

Por isso, a tentativa de Luis Inácio de chegar a um quarto mandato somente se tornará viável se ele disser com clareza o que pretende fazer, objetivamente, para melhorar a vida daqueles que mais vêm perdendo sob sua batuta. Não bastará afirmar que Flávio Bolsonaro representa algo pior, sobretudo quando o presente oferecido pelo governo Lula já se mostra ruim para quem vive do próprio trabalho e não participa das festinhas animadas do andar de cima. É justamente aí que a porca torce o rabo: quando chega a hora de abandonar o campeonato de lama e apresentar uma alternativa concreta ao arrocho fiscal, as diferenças entre as duas principais candidaturas começam a parecer bem menores do que seus marqueteiros gostariam que o eleitor percebesse.

Depois de Luís Inácio: quem está pensando o mundo que virá?

A dependência eleitoral de uma liderança de 80 anos expõe uma crise mais profunda: enquanto o capitalismo aprofunda desigualdades e empurra o planeta para o colapso climático, a esquerda brasileira parece incapaz de construir um projeto político para além da administração do presente

O presidente Luís Inácio é, sem dúvida, um fenômeno da política brasileira. Do alto dos seus quase 81 anos, Luís Inácio tem a chance de ser eleito pela quarta vez para exercer um mandato do qual sairá como um dos presidentes mais velhos da história brasileira. A trajetória de Luís Inácio o habilita a ocupar um lugar entre os principais quadros políticos da história do país, algo que ganha contornos ainda mais impressionantes quando se leva em conta o ponto de onde começou sua história pessoal, marcada pela pobreza extrema.

Mas, se olharmos para o futuro, essa predominância de Luís Inácio na política brasileira inevitavelmente criará um grande vácuo quando ele decidir que finalmente chegou a hora de pendurar as chuteiras ou, pelo menos, continuar jogando de fora das quatro linhas, como outros políticos já fizeram ou continuam fazendo, a exemplo de José Sarney, aos 96 anos, e Michel Temer, aos 85.

A questão se torna ainda mais preocupante se considerarmos o contexto histórico em que a retirada de cena de Luís Inácio deverá ocorrer: um período marcado por uma profunda crise política em escala global, tendo como pano de fundo um sistema climático em vias de colapsar.

Alguém poderá me acusar de etarismo, de ser apologista do terror climático ou até de ambas as coisas. Entretanto, o que estou tentando realizar é um exercício básico de prognóstico político, até porque admiro a vitalidade física e mental que Luís Inácio ainda demonstra possuir. O problema é que, com toda a sua vitalidade, ele não é eterno, e a vida política brasileira continuará depois de sua saída de cena.

O que considero mais grave é que nem na esquerda que aceita os limites da política institucional, nem naquela que se pretende antissistema, parece existir qualquer discussão consistente sobre a preparação para um futuro sem Luís Inácio e, pior ainda, para um mundo no qual enfrentaremos um período particularmente desafiador para a espécie humana.

Essa inércia da dita esquerda advém, a meu ver, de uma espécie de preguiça política daqueles que se encontram adaptados às formas de funcionamento do sistema democrático burguês ou, no outro extremo, de uma profunda fragilidade programática por parte daqueles que se apresentam como combatentes empenhados na destruição do sistema.

De qualquer forma, o fato é que não vejo ninguém realizando uma crítica verdadeiramente estrutural à crise do capitalismo que agoniza diante dos nossos olhos, muito provavelmente porque sequer se consegue avançar para uma discussão mais séria sobre a necessidade objetiva de superar suas formas de produção e reprodução.

Em outras palavras, o problema não está apenas no fato de tantos parecerem satisfeitos e adaptados a um cenário em que Luís Inácio continua sendo apresentado como a única opção eleitoral capaz de derrotar a extrema-direita. O problema mais profundo é que inexiste hoje uma discussão política séria sobre a necessidade de avançarmos para uma fase de negação concreta das condições sociais, econômicas e ambientais que estão nos conduzindo à beira de um colapso societário. E essas condições não surgiram do nada: elas são produzidas e continuamente reproduzidas pelas próprias formas de produção e consumo engendradas pelo capitalismo.

Preparar-se para um futuro sem Luís Inácio, portanto, não significa simplesmente procurar outro nome capaz de ocupar seu lugar nas urnas, como se o problema pudesse ser resolvido pela fabricação de um novo líder eleitoral. O desafio é muito maior: passa pela reconstrução de organizações políticas e sociais capazes de produzir ação coletiva, pela formação de novas lideranças que não dependam exclusivamente do carisma individual, pela recuperação do debate programático e, sobretudo, pela elaboração de um projeto de transformação que enfrente simultaneamente a desigualdade social, a concentração da riqueza, a destruição ambiental e a crise climática. Isso exige que as diferentes vertentes da esquerda abandonem tanto o conforto da administração permanente do possível quanto a retórica antissistêmica desprovida de capacidade concreta de organização e transformação.

Um futuro sem Luís Inácio chegará, queiramos ou não, e a verdadeira questão é saber se estaremos preparados para enfrentá-lo com um projeto coletivo capaz de disputar os rumos da sociedade ou se descobriremos, tarde demais, que passamos décadas dependendo de um homem quando deveríamos estar construindo alternativas para um mundo que será muito mais difícil do que aquele em que ele se tornou o principal personagem da política brasileira.

A conta do ajuste fiscal: candidatos miram saúde e educação enquanto os juros engordam a dívida

A corrida presidencial recoloca o “ajuste fiscal” no centro do debate, mas quase ninguém explica por que saúde, educação e funcionalismo entram primeiro na conta enquanto os juros da dívida ultrapassam R$ 1 trilhão por ano

À medida que a eleição presidencial se aproxima, uma velha expressão volta a ganhar espaço no discurso dos candidatos e de suas equipes econômicas: “ajuste fiscal”. Com diferentes graus de intensidade, vários candidatos anunciam que o próximo governo precisará conter despesas para impedir o crescimento da dívida pública. O problema não está em discutir a sustentabilidade das contas públicas, algo obviamente necessário, mas em observar quais despesas entram imediatamente na mira do ajuste e quais permanecem praticamente intocadas.

Essa contradição ganha uma dimensão particularmente incômoda no governo Lula. O presidente reivindica corretamente aumentos do salário mínimo, expansão do emprego e programas de transferência de renda como marcas de um governo voltado para a classe trabalhadora. Entretanto, sua equipe econômica opera o chamado novo arcabouço fiscal, que limita o crescimento real das despesas e estabelece uma trajetória de superávits primários. Para 2027, o governo já propôs uma meta de superávit de R$ 73,2 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB, ao mesmo tempo que prepara mecanismos para restringir o crescimento das despesas obrigatórias.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, deixou essa orientação bastante clara. Ele afirmou que o governo Lula realizou um ajuste equivalente a aproximadamente 2% do PIB e que um eventual novo mandato deverá realizar esforço semelhante. Dario Durigan também defendeu a continuidade do arcabouço fiscal e afirmou que será necessário seguir “limitando o gasto obrigatório” para abrir espaço às despesas discricionárias.

Aqui aparece uma contradição política que não deveria ser escondida por argumentos técnicos. Um governo que reivindica representar prioritariamente trabalhadores, aposentados e os setores populares aceita uma arquitetura fiscal que coloca sob pressão justamente as despesas das quais esses grupos mais dependem. Saúde pública, educação, Previdência, universidades, salários do funcionalismo e investimentos públicos aparecem como variáveis que precisam caber dentro do limite fiscal, enquanto o custo financeiro da dívida recebe tratamento muito diferente.

O elefante chamado juros

Os números ajudam a entender o tamanho do problema. Nos doze meses encerrados em junho de 2026, o setor público brasileiro acumulou déficit primário de aproximadamente R$ 157 bilhões, equivalente a 1,19% do PIB. No mesmo período, os juros nominais ultrapassaram R$ 1,16 trilhão, chegando a 8,8% do PIB. Isso significa que, para cada R$ 1 de déficit primário, o setor público contabilizou aproximadamente R$ 7,40 em juros.

A evolução da dívida mostra a mesma coisa. A dívida bruta chegou a aproximadamente R$ 10,8 trilhões em junho. No primeiro semestre de 2026, os juros acrescentaram cerca de 4,9 pontos percentuais do PIB à dívida, enquanto o crescimento nominal da economia atuou na direção contrária e retirou 2,7 pontos.

Portanto, os próprios números oficiais indicam que os juros constituem atualmente um dos principais motores do crescimento da dívida pública brasileira. E aí surge uma pergunta bastante simples: se o diagnóstico aponta para o enorme custo financeiro da dívida, por que o remédio começa pela contenção das despesas primárias?

Lula e a contradição de um ajuste supostamente progressista

Essa questão assume peso especial no governo do presidente Luís Inácio porque não estamos diante de um governo que se apresenta como liberal ou defensor de um Estado mínimo.  Luís Inácio construiu sua trajetória política vinculando sua imagem à defesa dos trabalhadores, do salário mínimo, dos serviços públicos e da redução das desigualdades. Justamente por isso, existe uma contradição maior quando seu governo submete essas mesmas políticas à busca de superávits primários enquanto o custo dos juros permanece extraordinariamente elevado.

O governo já sinaliza concretamente essa direção para 2027.   O ministro da Fazenda também afirma que o crescimento do gasto obrigatório precisa ser controlado e cita explicitamente saúde, funcionalismo e Previdência dentro dessa discussão. Uma das mudanças aprovadas deverá reduzir em mais de R$ 10 bilhões a expansão das despesas obrigatórias em 2027, enquanto o crescimento real das despesas com pessoal poderá ficar limitado a apenas 0,6%.

Não se trata de afirmar que toda despesa pública seja eficiente ou que privilégios existentes no Estado devam permanecer intocados. Supersalários, aposentadorias privilegiadas, gastos tributários sem justificativa e inúmeras distorções precisam entrar na discussão. O problema aparece quando a necessidade de “ajuste” começa a alcançar direitos sociais e serviços públicos antes de provocar um debate igualmente contundente sobre o custo financeiro da dívida.

A contradição fica ainda mais evidente porque o próprio Durigan reconhece que os juros elevados pressionam o endividamento. Ainda assim, o governo propõe responder ao problema fundamentalmente pela obtenção de superávits e pelo controle das despesas obrigatórias.

Saúde e educação não são apenas despesas

Considero que existe ainda outro problema. Educação, saúde, ciência, tecnologia e infraestrutura representam parte essencial da capacidade produtiva de qualquer país. O Brasil não poderá avançar em inteligência artificial, biotecnologia, transição energética, produção de medicamentos, agricultura tecnologicamente avançada ou adaptação às mudanças climáticas comprimindo universidades, institutos de pesquisa e investimentos públicos.

O crescimento econômico também ajuda a controlar a relação dívida/PIB. Os próprios números recentes mostram isso. Portanto, cortar investimentos capazes de aumentar a produtividade e sustentar o crescimento para obter superávit no curto prazo pode produzir um resultado contraditório: o governo melhora temporariamente determinado indicador fiscal enquanto reduz a capacidade futura da economia de sustentar sua própria dívida.

O novo arcabouço fiscal não possui a brutalidade do antigo teto de gastos, que congelava as despesas federais em termos reais. Mas isso não significa que seja neutro. A própria literatura  científica já aponta riscos do novo regime para o financiamento da educação, inclusive porque o crescimento das despesas permanece submetido a limites inferiores ao crescimento potencial de determinadas necessidades sociais.

Afinal, quem será “ajustado” em 2027?

Essa deveria ser uma das perguntas centrais da campanha presidencial. Não basta perguntar aos candidatos se pretendem realizar um ajuste fiscal. Precisamos perguntar quem eles pretendem ajustar.

E Lula não deveria receber uma dispensa dessa pergunta simplesmente porque seu governo possui políticas sociais importantes ou porque seus adversários apresentam propostas potencialmente ainda mais regressivas. Pelo contrário: justamente porque Lula reivindica representar a classe trabalhadora, seu governo precisa explicar a contradição entre esse compromisso político e uma política fiscal que coloca saúde, educação, Previdência, funcionalismo e investimentos públicos sob crescente pressão para produzir superávits primários.

Há uma diferença fundamental entre melhorar as contas públicas retirando privilégios tributários, combatendo supersalários, aumentando a progressividade da tributação e enfrentando o extraordinário custo financeiro da dívida e fazer isso comprimindo despesas que sustentam serviços utilizados majoritariamente pelos trabalhadores.

A discussão sobre 2027 deveria começar exatamente nesse ponto. O Brasil contabiliza mais de R$ 1 trilhão por ano em juros, mas boa parte do debate político continua procurando algumas dezenas de bilhões de reais na saúde, na educação, na Previdência e no funcionalismo.  Se os juros constituem uma das principais forças que impulsionam a dívida, mas o ajuste começa pelos serviços públicos, alguma coisa está fora do lugar.

E para um governo que reivindica falar em nome da classe trabalhadora, essa contradição se torna ainda mais difícil de explicar. Afinal, todo ajuste fiscal tem classe social, mesmo quando seus formuladores preferem apresentá-lo apenas como uma necessidade técnica.