Depois de Luís Inácio: quem está pensando o mundo que virá?

A dependência eleitoral de uma liderança de 80 anos expõe uma crise mais profunda: enquanto o capitalismo aprofunda desigualdades e empurra o planeta para o colapso climático, a esquerda brasileira parece incapaz de construir um projeto político para além da administração do presente

O presidente Luís Inácio é, sem dúvida, um fenômeno da política brasileira. Do alto dos seus quase 81 anos, Luís Inácio tem a chance de ser eleito pela quarta vez para exercer um mandato do qual sairá como um dos presidentes mais velhos da história brasileira. A trajetória de Luís Inácio o habilita a ocupar um lugar entre os principais quadros políticos da história do país, algo que ganha contornos ainda mais impressionantes quando se leva em conta o ponto de onde começou sua história pessoal, marcada pela pobreza extrema.

Mas, se olharmos para o futuro, essa predominância de Luís Inácio na política brasileira inevitavelmente criará um grande vácuo quando ele decidir que finalmente chegou a hora de pendurar as chuteiras ou, pelo menos, continuar jogando de fora das quatro linhas, como outros políticos já fizeram ou continuam fazendo, a exemplo de José Sarney, aos 96 anos, e Michel Temer, aos 85.

A questão se torna ainda mais preocupante se considerarmos o contexto histórico em que a retirada de cena de Luís Inácio deverá ocorrer: um período marcado por uma profunda crise política em escala global, tendo como pano de fundo um sistema climático em vias de colapsar.

Alguém poderá me acusar de etarismo, de ser apologista do terror climático ou até de ambas as coisas. Entretanto, o que estou tentando realizar é um exercício básico de prognóstico político, até porque admiro a vitalidade física e mental que Luís Inácio ainda demonstra possuir. O problema é que, com toda a sua vitalidade, ele não é eterno, e a vida política brasileira continuará depois de sua saída de cena.

O que considero mais grave é que nem na esquerda que aceita os limites da política institucional, nem naquela que se pretende antissistema, parece existir qualquer discussão consistente sobre a preparação para um futuro sem Luís Inácio e, pior ainda, para um mundo no qual enfrentaremos um período particularmente desafiador para a espécie humana.

Essa inércia da dita esquerda advém, a meu ver, de uma espécie de preguiça política daqueles que se encontram adaptados às formas de funcionamento do sistema democrático burguês ou, no outro extremo, de uma profunda fragilidade programática por parte daqueles que se apresentam como combatentes empenhados na destruição do sistema.

De qualquer forma, o fato é que não vejo ninguém realizando uma crítica verdadeiramente estrutural à crise do capitalismo que agoniza diante dos nossos olhos, muito provavelmente porque sequer se consegue avançar para uma discussão mais séria sobre a necessidade objetiva de superar suas formas de produção e reprodução.

Em outras palavras, o problema não está apenas no fato de tantos parecerem satisfeitos e adaptados a um cenário em que Luís Inácio continua sendo apresentado como a única opção eleitoral capaz de derrotar a extrema-direita. O problema mais profundo é que inexiste hoje uma discussão política séria sobre a necessidade de avançarmos para uma fase de negação concreta das condições sociais, econômicas e ambientais que estão nos conduzindo à beira de um colapso societário. E essas condições não surgiram do nada: elas são produzidas e continuamente reproduzidas pelas próprias formas de produção e consumo engendradas pelo capitalismo.

Preparar-se para um futuro sem Luís Inácio, portanto, não significa simplesmente procurar outro nome capaz de ocupar seu lugar nas urnas, como se o problema pudesse ser resolvido pela fabricação de um novo líder eleitoral. O desafio é muito maior: passa pela reconstrução de organizações políticas e sociais capazes de produzir ação coletiva, pela formação de novas lideranças que não dependam exclusivamente do carisma individual, pela recuperação do debate programático e, sobretudo, pela elaboração de um projeto de transformação que enfrente simultaneamente a desigualdade social, a concentração da riqueza, a destruição ambiental e a crise climática. Isso exige que as diferentes vertentes da esquerda abandonem tanto o conforto da administração permanente do possível quanto a retórica antissistêmica desprovida de capacidade concreta de organização e transformação.

Um futuro sem Luís Inácio chegará, queiramos ou não, e a verdadeira questão é saber se estaremos preparados para enfrentá-lo com um projeto coletivo capaz de disputar os rumos da sociedade ou se descobriremos, tarde demais, que passamos décadas dependendo de um homem quando deveríamos estar construindo alternativas para um mundo que será muito mais difícil do que aquele em que ele se tornou o principal personagem da política brasileira.

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