A conta do ajuste fiscal: candidatos miram saúde e educação enquanto os juros engordam a dívida

A corrida presidencial recoloca o “ajuste fiscal” no centro do debate, mas quase ninguém explica por que saúde, educação e funcionalismo entram primeiro na conta enquanto os juros da dívida ultrapassam R$ 1 trilhão por ano

À medida que a eleição presidencial se aproxima, uma velha expressão volta a ganhar espaço no discurso dos candidatos e de suas equipes econômicas: “ajuste fiscal”. Com diferentes graus de intensidade, vários candidatos anunciam que o próximo governo precisará conter despesas para impedir o crescimento da dívida pública. O problema não está em discutir a sustentabilidade das contas públicas, algo obviamente necessário, mas em observar quais despesas entram imediatamente na mira do ajuste e quais permanecem praticamente intocadas.

Essa contradição ganha uma dimensão particularmente incômoda no governo Lula. O presidente reivindica corretamente aumentos do salário mínimo, expansão do emprego e programas de transferência de renda como marcas de um governo voltado para a classe trabalhadora. Entretanto, sua equipe econômica opera o chamado novo arcabouço fiscal, que limita o crescimento real das despesas e estabelece uma trajetória de superávits primários. Para 2027, o governo já propôs uma meta de superávit de R$ 73,2 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB, ao mesmo tempo que prepara mecanismos para restringir o crescimento das despesas obrigatórias.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, deixou essa orientação bastante clara. Ele afirmou que o governo Lula realizou um ajuste equivalente a aproximadamente 2% do PIB e que um eventual novo mandato deverá realizar esforço semelhante. Dario Durigan também defendeu a continuidade do arcabouço fiscal e afirmou que será necessário seguir “limitando o gasto obrigatório” para abrir espaço às despesas discricionárias.

Aqui aparece uma contradição política que não deveria ser escondida por argumentos técnicos. Um governo que reivindica representar prioritariamente trabalhadores, aposentados e os setores populares aceita uma arquitetura fiscal que coloca sob pressão justamente as despesas das quais esses grupos mais dependem. Saúde pública, educação, Previdência, universidades, salários do funcionalismo e investimentos públicos aparecem como variáveis que precisam caber dentro do limite fiscal, enquanto o custo financeiro da dívida recebe tratamento muito diferente.

O elefante chamado juros

Os números ajudam a entender o tamanho do problema. Nos doze meses encerrados em junho de 2026, o setor público brasileiro acumulou déficit primário de aproximadamente R$ 157 bilhões, equivalente a 1,19% do PIB. No mesmo período, os juros nominais ultrapassaram R$ 1,16 trilhão, chegando a 8,8% do PIB. Isso significa que, para cada R$ 1 de déficit primário, o setor público contabilizou aproximadamente R$ 7,40 em juros.

A evolução da dívida mostra a mesma coisa. A dívida bruta chegou a aproximadamente R$ 10,8 trilhões em junho. No primeiro semestre de 2026, os juros acrescentaram cerca de 4,9 pontos percentuais do PIB à dívida, enquanto o crescimento nominal da economia atuou na direção contrária e retirou 2,7 pontos.

Portanto, os próprios números oficiais indicam que os juros constituem atualmente um dos principais motores do crescimento da dívida pública brasileira. E aí surge uma pergunta bastante simples: se o diagnóstico aponta para o enorme custo financeiro da dívida, por que o remédio começa pela contenção das despesas primárias?

Lula e a contradição de um ajuste supostamente progressista

Essa questão assume peso especial no governo do presidente Luís Inácio porque não estamos diante de um governo que se apresenta como liberal ou defensor de um Estado mínimo.  Luís Inácio construiu sua trajetória política vinculando sua imagem à defesa dos trabalhadores, do salário mínimo, dos serviços públicos e da redução das desigualdades. Justamente por isso, existe uma contradição maior quando seu governo submete essas mesmas políticas à busca de superávits primários enquanto o custo dos juros permanece extraordinariamente elevado.

O governo já sinaliza concretamente essa direção para 2027.   O ministro da Fazenda também afirma que o crescimento do gasto obrigatório precisa ser controlado e cita explicitamente saúde, funcionalismo e Previdência dentro dessa discussão. Uma das mudanças aprovadas deverá reduzir em mais de R$ 10 bilhões a expansão das despesas obrigatórias em 2027, enquanto o crescimento real das despesas com pessoal poderá ficar limitado a apenas 0,6%.

Não se trata de afirmar que toda despesa pública seja eficiente ou que privilégios existentes no Estado devam permanecer intocados. Supersalários, aposentadorias privilegiadas, gastos tributários sem justificativa e inúmeras distorções precisam entrar na discussão. O problema aparece quando a necessidade de “ajuste” começa a alcançar direitos sociais e serviços públicos antes de provocar um debate igualmente contundente sobre o custo financeiro da dívida.

A contradição fica ainda mais evidente porque o próprio Durigan reconhece que os juros elevados pressionam o endividamento. Ainda assim, o governo propõe responder ao problema fundamentalmente pela obtenção de superávits e pelo controle das despesas obrigatórias.

Saúde e educação não são apenas despesas

Considero que existe ainda outro problema. Educação, saúde, ciência, tecnologia e infraestrutura representam parte essencial da capacidade produtiva de qualquer país. O Brasil não poderá avançar em inteligência artificial, biotecnologia, transição energética, produção de medicamentos, agricultura tecnologicamente avançada ou adaptação às mudanças climáticas comprimindo universidades, institutos de pesquisa e investimentos públicos.

O crescimento econômico também ajuda a controlar a relação dívida/PIB. Os próprios números recentes mostram isso. Portanto, cortar investimentos capazes de aumentar a produtividade e sustentar o crescimento para obter superávit no curto prazo pode produzir um resultado contraditório: o governo melhora temporariamente determinado indicador fiscal enquanto reduz a capacidade futura da economia de sustentar sua própria dívida.

O novo arcabouço fiscal não possui a brutalidade do antigo teto de gastos, que congelava as despesas federais em termos reais. Mas isso não significa que seja neutro. A própria literatura  científica já aponta riscos do novo regime para o financiamento da educação, inclusive porque o crescimento das despesas permanece submetido a limites inferiores ao crescimento potencial de determinadas necessidades sociais.

Afinal, quem será “ajustado” em 2027?

Essa deveria ser uma das perguntas centrais da campanha presidencial. Não basta perguntar aos candidatos se pretendem realizar um ajuste fiscal. Precisamos perguntar quem eles pretendem ajustar.

E Lula não deveria receber uma dispensa dessa pergunta simplesmente porque seu governo possui políticas sociais importantes ou porque seus adversários apresentam propostas potencialmente ainda mais regressivas. Pelo contrário: justamente porque Lula reivindica representar a classe trabalhadora, seu governo precisa explicar a contradição entre esse compromisso político e uma política fiscal que coloca saúde, educação, Previdência, funcionalismo e investimentos públicos sob crescente pressão para produzir superávits primários.

Há uma diferença fundamental entre melhorar as contas públicas retirando privilégios tributários, combatendo supersalários, aumentando a progressividade da tributação e enfrentando o extraordinário custo financeiro da dívida e fazer isso comprimindo despesas que sustentam serviços utilizados majoritariamente pelos trabalhadores.

A discussão sobre 2027 deveria começar exatamente nesse ponto. O Brasil contabiliza mais de R$ 1 trilhão por ano em juros, mas boa parte do debate político continua procurando algumas dezenas de bilhões de reais na saúde, na educação, na Previdência e no funcionalismo.  Se os juros constituem uma das principais forças que impulsionam a dívida, mas o ajuste começa pelos serviços públicos, alguma coisa está fora do lugar.

E para um governo que reivindica falar em nome da classe trabalhadora, essa contradição se torna ainda mais difícil de explicar. Afinal, todo ajuste fiscal tem classe social, mesmo quando seus formuladores preferem apresentá-lo apenas como uma necessidade técnica.

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