Lá se ia o ano de 1989. Às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, Fernando Collor e Lula estavam diante das câmeras da TV Globo. Collor tinha uma pilha de pastas, entre elas a rosa, que ficaria mais famosa. Nunca se soube o que elas continham, mas a edição meticulosa da emissora fez parecer que ali havia segredos que Lula temia ver expostos durante o debate. Com a edição das imagens, Collor venceu a eleição. Depois, confiscou as cadernetas de poupança e sofreu impeachment, tudo em rápida sucessão. Ficou a demonstração de que, quando queria, as Organizações Globo podiam eleger quem bem entendessem.
Trinta e sete anos depois, com outra eleição presidencial em curso, assistimos a uma espécie de fantasma da TV Globo tentando operar mais uma disputa. Mais uma vez, Lula se defronta com o aparente escolhido dos irmãos Marinho: o controverso Flávio Bolsonaro. Diante dele, duas perspectivas: tornar-se presidente e ganhar imunidade temporária ou enfrentar um número indefinido de pendências judiciais, algumas com potencial para levá-lo à prisão. Nada no currículo do primogênito de Jair Bolsonaro, porém, parece abalar a preferência dos irmãos Marinho, que têm trabalhado consistentemente para oferecer a Flávio a melhor cobertura, na expectativa de derrotar Lula mais uma vez.
No meio do caminho, surgiu outro debate, para o qual a TV Globo havia preparado um roteiro cheio de armadilhas para Lula. A coisa parecia tão evidente que Lula, supostamente contrariando até sua equipe de campanha, decidiu dar de ombros para a emissora e gastar seu tempo no Flow, um podcast com público expressivo, mas sem a amplitude da cobertura da TV Globo. A emissora se preparou para tirar o melhor proveito da ausência: colocou uma cadeira vazia com o nome do presidente e abriu espaço para perguntas dirigidas ao “participante fujão”.
Tudo ia bem até o TSE e o STF entrarem em campo para retirar a cadeira e as perguntas e ainda colocarem no debate o estrepitoso candidato do Missão, Renan Santos, de quem Flávio Bolsonaro parece ter mais pavor do que de Lula. Com isso, o primogênito de Jair também resolveu fugir do palco da TV Globo e se dedicar a uma transmissão ao vivo em seu próprio canal no YouTube. Restou à emissora suspender o debate. O resto é história.
Uma história que marca uma mudança profunda na forma de fazer comunicação no Brasil — e talvez no mundo. Como o próprio Lula disse, com bastante acerto, o formato da TV Globo, com muitos candidatos, já não acompanha as formas e a velocidade que a comunicação de massa assumiu na era das lives e dos podcasts. Enquanto a emissora e muitos outros veículos da mídia corporativa ainda lutam para se ajustar, a decisão inicial de Lula mostrou-se particularmente aguda e sintonizada com esses novos tempos.
A esquerda, em geral, já deveria ter percebido que a banda agora toca assim. Mas ainda insiste em formas ultrapassadas de comunicação, abrindo espaço para a hegemonia da extrema direita nesse terreno.
Para os irmãos Marinho, a manhã desta sexta-feira deve estar sendo particularmente dura. Não apenas pela suspensão de um debate de primeiro turno, mas porque ficou mais claro do que nunca que a TV Globo, seus articulistas e seus produtores de conteúdo perderam a hegemonia que mantiveram por décadas — e que agora estamos diante de uma nova fronteira da comunicação, mais caótica e acelerada. Pensando bem, só por isso já valeu a pena acompanhar eleições que pouco discutiram os grandes desafios postos diante da sociedade brasileira.
Como diz a frase: “O rei está morto. Viva o rei!”








