A Globo perdeu a hegemonia!

Lá se ia o ano de 1989. Às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, Fernando Collor e Lula estavam diante das câmeras da TV Globo. Collor tinha uma pilha de pastas, entre elas a rosa, que ficaria mais famosa. Nunca se soube o que elas continham, mas a edição meticulosa da emissora fez parecer que ali havia segredos que Lula temia ver expostos durante o debate. Com a edição das imagens, Collor venceu a eleição. Depois, confiscou as cadernetas de poupança e sofreu impeachment, tudo em rápida sucessão. Ficou a demonstração de que, quando queria, as Organizações Globo podiam eleger quem bem entendessem.

Trinta e sete anos depois, com outra eleição presidencial em curso, assistimos a uma espécie de fantasma da TV Globo tentando operar mais uma disputa. Mais uma vez, Lula se defronta com o aparente escolhido dos irmãos Marinho: o controverso Flávio Bolsonaro. Diante dele, duas perspectivas: tornar-se presidente e ganhar imunidade temporária ou enfrentar um número indefinido de pendências judiciais, algumas com potencial para levá-lo à prisão. Nada no currículo do primogênito de Jair Bolsonaro, porém, parece abalar a preferência dos irmãos Marinho, que têm trabalhado consistentemente para oferecer a Flávio a melhor cobertura, na expectativa de derrotar Lula mais uma vez.

No meio do caminho, surgiu outro debate, para o qual a TV Globo havia preparado um roteiro cheio de armadilhas para Lula. A coisa parecia tão evidente que Lula, supostamente contrariando até sua equipe de campanha, decidiu dar de ombros para a emissora e gastar seu tempo no Flow, um podcast com público expressivo, mas sem a amplitude da cobertura da TV Globo. A emissora se preparou para tirar o melhor proveito da ausência: colocou uma cadeira vazia com o nome do presidente e abriu espaço para perguntas dirigidas ao “participante fujão”.

Tudo ia bem até o TSE e o STF entrarem em campo para retirar a cadeira e as perguntas e ainda colocarem no debate o estrepitoso candidato do Missão, Renan Santos, de quem Flávio Bolsonaro parece ter mais pavor do que de Lula. Com isso, o primogênito de Jair também resolveu fugir do palco da TV Globo e se dedicar a uma transmissão ao vivo em seu próprio canal no YouTube. Restou à emissora suspender o debate. O resto é história.

Uma história que marca uma mudança profunda na forma de fazer comunicação no Brasil — e talvez no mundo. Como o próprio Lula disse, com bastante acerto, o formato da TV Globo, com muitos candidatos, já não acompanha as formas e a velocidade que a comunicação de massa assumiu na era das lives e dos podcasts. Enquanto a emissora e muitos outros veículos da mídia corporativa ainda lutam para se ajustar, a decisão inicial de Lula mostrou-se particularmente aguda e sintonizada com esses novos tempos.

A esquerda, em geral, já deveria ter percebido que a banda agora toca assim. Mas ainda insiste em formas ultrapassadas de comunicação, abrindo espaço para a hegemonia da extrema direita nesse terreno.

Para os irmãos Marinho, a manhã desta sexta-feira deve estar sendo particularmente dura. Não apenas pela suspensão de um debate de primeiro turno, mas porque ficou mais claro do que nunca que a TV Globo, seus articulistas e seus produtores de conteúdo perderam a hegemonia que mantiveram por décadas — e que agora estamos diante de uma nova fronteira da comunicação, mais caótica e acelerada. Pensando bem, só por isso já valeu a pena acompanhar eleições que pouco discutiram os grandes desafios postos diante da sociedade brasileira.

Como diz a frase: “O rei está morto. Viva o rei!”

Globo arma o palco; os protagonistas fogem — e sobram as candidaturas anãs

Até poucas horas atrás, a ausência de Lula no debate da TV Globo era tratada como uma oportunidade para Flávio Bolsonaro ocupar sozinho o centro do palco. À esquerda, a crítica era direta: ao trocar o confronto com os adversários por uma entrevista no Flow Podcast, Lula deixaria o espaço televisivo aberto para que seu principal concorrente reinasse sem contestação. A decisão do TSE alterou esse roteiro. A ministra Estela Aranha proibiu a exibição do púlpito vazio reservado a Lula e também que os candidatos presentes lhe dirigissem perguntas, por entender que isso permitiria ataques sem resposta no próprio debate. Flávio Bolsonaro anunciou então que não participaria, chamando a decisão de censura.  

O episódio teve outro elemento judicial decisivo. O TSE autorizou a participação de Romeu Zema, do Novo, considerando a composição atual da bancada do partido. Renan Santos, do Missão, também tentou entrar no debate, mas seus pedidos foram rejeitados pelo TSE e pelo STF. A ausência de Lula, portanto, não abriu automaticamente uma vaga para Renan: a emissora tinha liberdade para convidar outro candidato, mas não obrigação de fazê-lo.  

O resultado é um roteiro que ninguém parecia ter previsto: Lula estará fora do estúdio, mas terá uma entrevista no Flow na mesma noite; Flávio, que inicialmente pretendia comparecer e explorar a ausência do presidente, agora também desistiu. O candidato que, segundo a leitura de seus estrategistas, poderia transformar o debate em confronto com Lula acabou sem o palco que esperava — e, ao menos por enquanto, com um vazio na agenda pública a poucos dias do primeiro turno.  

A cadeira que a Rede Globo não poderá mostrar para representar a ausência de Lula acabou ganhando uma irmã: a cadeira que ficará vazia porque Flávio Bolsonaro desistiu de comparecer. A emissora terá de se contentar com um debate que não reunirá nenhum dos dois principais candidatos à Presidência — um verdadeiro debate de candidaturas anãs, esvaziado justamente quando deveria concentrar a atenção do eleitorado. A ironia é que Flávio, que pretendia fazer da ausência de Lula o eixo de sua atuação, retirou-se depois que as condições do debate mudaram. Lula estará em outro palco, no Flow Podcast; Flávio, por ora, não estará em palco algum.

Isso não significa que a decisão de Lula esteja acima de crítica. Debates públicos são espaços importantes de prestação de contas, e o presidente poderia ter escolhido enfrentar diretamente seus adversários. Mas também é preciso reconhecer que ele não desapareceu da cena: optou por outro formato de comunicação, com grande alcance digital, enquanto a campanha adversária avaliou que o debate seria uma oportunidade de concentrar ataques sobre sua ausência. O eleitor terá de julgar as duas escolhas — comparecer a um podcast ou a um debate, e desistir de um confronto depois que suas condições mudaram.

Há aqui uma ironia política evidente. A cadeira vazia de Lula, que em 2006 foi exibida pela Globo e se converteu em poderosa imagem de campanha contra o então presidente, não poderá ser reproduzida neste debate. A decisão judicial limita a capacidade da emissora de transformar a ausência em peça visual e impede que os candidatos façam do presidente ausente um interlocutor fictício, sem direito de resposta. Flávio, que parecia contar com esse recurso, decidiu não comparecer.  

O episódio revela, ainda, uma transformação mais ampla na política brasileira. A Globo continua sendo uma organização de enorme alcance e capacidade de pautar o debate público, mas já não controla sozinha o palco, o formato e a audiência da disputa. Um candidato pode trocar seu debate por um podcast; decisões judiciais podem alterar as regras do espetáculo; e um concorrente pode abandonar o programa quando percebe que o roteiro previsto deixou de funcionar. Em um passado não distante, seria difícil imaginar que o debate final da maior emissora do país perdesse, na véspera, os dois candidatos mais votados nas pesquisas.  

A democracia brasileira aparece, nesse episódio, ao mesmo tempo resistente e vulnerável. Resistente porque há regras eleitorais, contestação judicial e limites à tentativa de converter a ausência de um candidato em arma unilateral de campanha. Vulnerável porque a discussão programática cede lugar à disputa por formatos, vantagens de imagem e controle da narrativa; porque os principais candidatos podem evitar o confronto direto; e porque decisões judiciais, ainda que fundamentadas, passam a definir em tempo real o desenho de um dos espaços mais visíveis da campanha.

No fim, a cadeira que não poderá ser mostrada acabou expondo outra ausência: a de um debate político capaz de reunir os principais concorrentes diante do eleitorado. A Globo terá uma cadeira a menos — a de Flávio Bolsonaro — e um debate sem Lula e sem Flávio, reduzido às candidaturas que restaram no estúdio. O fato de a emissora já não conseguir garantir esse encontro como acontecimento central talvez seja o sinal mais eloquente de que o sistema político e comunicacional brasileiro mudou. Resta saber se essa mudança amplia a pluralidade democrática ou apenas fragmenta ainda mais a esfera pública.

E salve-nos, Fábio Porchat

Quando um comediante precisa fazer o trabalho que a mídia e a esquerda institucional deixaram de fazer

Uma coisa me ocorreu sobre o resultado fenomenal do vídeo de Fábio Porchat que desvelou as relações íntimas entre Daniel Vorcaro e uma plêiade de figuras que transitam pela política nacional e por setores das igrejas evangélicas, às vezes juntos, outras vezes separados. Em pouco mais de meia hora, Porchat conseguiu transformar uma trama complexa, envolvendo relações financeiras, políticas, empresariais e religiosas, em uma narrativa compreensível para milhões de pessoas. O alcance do episódio não foi apenas resultado da dimensão das revelações, mas também da capacidade de comunicação de Porchat, que soube apresentar a teia de relações e, principalmente, mostrar como ela foi sendo construída ao longo do tempo. Crédito, portanto, a Porchat e à equipe que preparou o material investigativo que ele magistralmente soube traduzir para um público muito mais amplo.

Mas o sucesso de Porchat também revela algo muito mais incômodo: o fracasso não apenas da mídia corporativa brasileira, mas também do PT e de seus aliados, que vêm sendo progressivamente engolidos pela máquina de comunicação do bolsonarismo, a ponto de essa máquina conseguir dar sobrevida eleitoral a um candidato cercado por relações e episódios que, no mínimo, exigem explicações. O fenômeno Porchat expõe, assim, um vazio que não deveria existir. Quando um comediante consegue organizar e comunicar em poucas horas aquilo que uma parcela importante da imprensa não conseguiu — ou não quis — transformar em informação acessível para a maioria da população, há alguma coisa profundamente errada no funcionamento da comunicação política brasileira.

A posição da mídia corporativa pode ser explicada, em boa medida, pelos interesses que se entrelaçam com aqueles que agora foram deixados nus em praça pública pelo trabalho de Porchat, incluindo figuras centrais do bolsonarismo como Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira. O problema do PT, entretanto, é de outra natureza e talvez seja ainda mais profundo. O partido tem nas mãos a máquina federal e dispõe de ferramentas poderosas de comunicação, mas parece incapaz de utilizá-las para disputar de maneira consequente a narrativa política do país. E aqui não quero colocar a culpa apenas na incompetência das equipes de campanha de Lula ou nos dirigentes partidários que controlam cuidadosamente aquilo que pode ou não ser dito pelo presidente e pelos demais candidatos do partido. O problema, a meu ver, é mais estrutural: o PT se tornou também parte da irmandade que Porchat revelou, ainda que quase sempre na condição desconfortável de penetra.

É justamente por isso que é tão duro admitir que um comediante possa estar fazendo aquilo que a esquerda institucional e boa parte do jornalismo brasileiro deveriam ter feito há muito tempo. E digo isso sendo fã de Porchat desde muito antes do vídeo arrasador que agora está remexendo as placas tectônicas da campanha eleitoral de 2026. O problema, portanto, não é Porchat ocupar esse espaço. Pelo contrário. O problema é que tenha sido necessário um comediante ocupá-lo. Isso diz muito sobre a falência do projeto de esquerda capitaneado pelo PT e sobre a incapacidade de seus dirigentes de compreender que, na política contemporânea, não basta administrar o Estado: é preciso disputar a produção de sentidos, desmontar narrativas adversárias e falar com a sociedade em uma linguagem que ela efetivamente consiga ouvir.

O mais irônico é que o vídeo de Porchat demonstra que ainda existe uma enorme demanda por informação política capaz de conectar os pontos, revelar as relações e explicar aquilo que a avalanche cotidiana de notícias costuma fragmentar. A resposta do público foi gigantesca. O episódio chegou ao primeiro lugar do ranking Hype do YouTube em menos de 24 horas e seus cortes passaram a circular massivamente pelas redes sociais. Não se trata, portanto, de uma sociedade desinteressada pela política. Trata-se de uma sociedade que está sendo mal informada, mal atendida e, sobretudo, abandonada por aqueles que deveriam disputar esse espaço.

Por isso, mesmo reconhecendo a contribuição extraordinária de Porchat, é difícil não enxergar a ironia — e até a tragédia — de que um comediante tenha se transformado em um dos mais eficientes tradutores de uma trama política que envolve banqueiros, igrejas, empresários e candidatos à Presidência da República. Se um vídeo de humor precisa fazer o trabalho que partidos, governos e veículos de comunicação deveriam estar fazendo, talvez o problema não esteja apenas no bolsonarismo. Talvez esteja também em quem permitiu que o bolsonarismo ocupasse praticamente sozinho o terreno da comunicação política.

E é justamente aí que a questão deixa de ser apenas eleitoral. Mesmo que Lula vença as eleições, teremos de reconhecer que as perspectivas para a classe trabalhadora brasileira continuarão sendo obscuras se o projeto político que se apresenta como alternativa à direita continuar incapaz de enfrentar os mecanismos econômicos, midiáticos e políticos que produzem e reproduzem esse poder. Ganhar uma eleição não é o mesmo que recuperar a capacidade de disputar a sociedade. E administrar o governo tampouco significa reconstruir um projeto de transformação social.

Assim, resta reconhecer o que talvez seja a parte mais desconcertante de toda essa história: em uma campanha eleitoral na qual bilhões de reais, enormes estruturas partidárias, máquinas governamentais e exércitos de profissionais da comunicação estão mobilizados, foi um comediante quem conseguiu abrir uma fresta na cortina e mostrar ao público algumas das conexões que estavam sendo cuidadosamente embaralhadas.

E salve-nos, Fábio Porchat!

Donald Trump diante do Brasil: o predador que precisa olhar para a própria armadilha

A possibilidade de Donald Trump tentar interferir politicamente nas eleições presidenciais brasileiras de 2026 não pode ser simplesmente descartada. Documentos recentemente revelados mostraram que o governo norte-americano chegou a incluir, nas negociações realizadas com Brasília em 2025, exigências relacionadas às condições de participação de “dissidentes políticos” nas eleições brasileiras. Ao mesmo tempo, Lula já advertiu publicamente Trump para que não interfira no processo eleitoral brasileiro. Há, portanto, razões concretas para acompanhar com atenção os movimentos de Washington. 

Isso, entretanto, é diferente de afirmar que Donald Trump já decidiu não reconhecer uma eventual vitória de Lula. Até agora, não encontrei declaração pública que sustente essa afirmação. Pelo contrário, uma fonte do Departamento de Estado afirmou à CNN Brasil, em agosto, que os Estados Unidos respeitariam a escolha dos brasileiros em eleições consideradas livres e justas. O problema, portanto, não é antecipar uma ruptura que ainda não ocorreu, mas perguntar quanto espaço político Trump realmente terá para pressionar o Brasil caso Lula seja reeleito.

É nesse ponto que as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos entram na equação. Existe uma coincidência cronológica particularmente interessante: o primeiro turno brasileiro ocorrerá em 4 de outubro e o eventual segundo turno em 25 de outubro, enquanto os norte-americanos irão às urnas em 3 de novembro. Ou seja, quando o Brasil escolher seu presidente, Trump ainda não conhecerá o tamanho da bancada republicana que terá durante os dois últimos anos de seu mandato.

E os sinais disponíveis neste momento são desconfortáveis para a Casa Branca. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em setembro encontrou apenas 35% de aprovação ao desempenho de Trump e uma vantagem democrata de sete pontos — 44% contra 37% — na preferência nacional para o Congresso. A média do Silver Bulletin apontava vantagem democrata de 7,5 pontos em 18 de setembro. Outra pesquisa Economist/YouGov encontrou 51% dos eleitores considerados prováveis votantes inclinados aos democratas e 39% aos republicanos.

Esses números não significam que uma derrota republicana esteja determinada. Pesquisas nacionais de voto genérico não reproduzem automaticamente as disputas realizadas distrito por distrito para a Câmara e estado por estado para o Senado. A própria Reuters chama atenção para essa limitação. Além disso, os republicanos partem atualmente do controle das duas Casas: são 218 republicanos contra 214 democratas e um independente na Câmara, enquanto no Senado a composição é de 53 republicanos, 45 democratas e dois independentes.

Mas justamente aí aparece o problema político de Donald Trump. A margem republicana na Câmara é estreita, enquanto o próprio presidente apresenta índices baixos de aprovação. Uma perda do controle de uma das Casas — ou das duas — alteraria profundamente as condições políticas dos dois últimos anos de sua presidência. O Congresso não controla sozinho a política externa norte-americana, e Trump continuaria dispondo de instrumentos presidenciais relevantes. Mas uma administração pressionada internamente teria de dividir atenção e capital político entre disputas domésticas, orçamento, investigações parlamentares, nomeações, política econômica e suas ambições internacionais.  Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja simplesmente se Trump tentará interferir na eleição brasileira. A pergunta é em que condições políticas ele poderá fazê-lo.

Há ainda uma ironia temporal. Se Lula vencer em outubro, qualquer reação de Trump ocorrerá poucos dias antes de os próprios norte-americanos julgarem, nas urnas, os primeiros dois anos de seu segundo mandato. Trump poderia tentar projetar poder sobre Brasília justamente quando estaria enfrentando um teste decisivo de seu poder dentro dos Estados Unidos.  Isso modifica a imagem convencional de um presidente norte-americano todo-poderoso determinando unilateralmente os rumos políticos da América Latina. Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência do hemisfério e a Presidência norte-americana dispõe de instrumentos diplomáticos, comerciais e financeiros capazes de produzir custos reais para o Brasil. Seria um erro minimizar essa capacidade.

Mas também seria um erro analisar Trump como se ele atuasse num vazio político. Sua capacidade de pressionar o Brasil dependerá da economia norte-americana, de sua aprovação popular, da coesão do Partido Republicano e, sobretudo, da composição do Congresso que emergirá das urnas de novembro. É justamente aí que a metáfora do predador começa a ficar mais complicada. Trump pode tentar mostrar os dentes para o Brasil em outubro, mas terá de fazê-lo olhando constantemente por cima do ombro para as urnas que estarão esperando por ele nos Estados Unidos apenas alguns dias depois.

Talvez, portanto, a imagem mais adequada para outubro de 2026 não seja simplesmente a de Trump como predador ou como presa. É a de um presidente que ainda dispõe de enorme poder institucional, mas que tenta projetá-lo para fora enquanto enfrenta uma crescente contestação política dentro de casa. E isso pode fazer toda a diferença na quantidade de força que Washington conseguirá efetivamente mobilizar contra Brasília.

O neoliberalismo de esquerda e o preço ecológico da conciliação de classes

O artigo “As raízes vermelhas do neoliberalismo brasileiro”, publicado no portal A Terra é Redonda, oferece uma interpretação provocativa sobre a trajetória do Partido dos Trabalhadores (PT) desde sua chegada ao governo federal em 2003. O argumento central produzido pelo  seu autor,  Eduardo Luiz Zen, é que, longe de representar uma ruptura com o neoliberalismo consolidado nos anos 1990, os governos petistas construíram uma modalidade própria de gestão do capitalismo brasileiro, combinando políticas redistributivas e de inclusão social com a preservação dos pilares do modelo econômico baseado na financeirização, na exportação de commodities e na conciliação com as frações dominantes do capital.

Há, entretanto, uma dimensão que merece ser ainda mais enfatizada: a ecológica. Se existe um “neoliberalismo vermelho”, uma de suas expressões mais evidentes é aquilo que se poderia chamar de negacionismo ecológico sutil. Não se trata da negação explícita das mudanças climáticas ou da destruição ambiental, como ocorreu em outros governos. Pelo contrário, o discurso oficial frequentemente incorpora a linguagem da sustentabilidade, da transição energética e da proteção dos biomas. O problema reside justamente na distância crescente entre esse discurso e a continuidade de um modelo de desenvolvimento assentado na expansão do agronegócio exportador, da mineração em larga escala e das grandes obras de infraestrutura voltadas para a integração do Brasil aos mercados globais de commodities.

Desde o primeiro governo do presidente Luiz Inácio, em 2003, consolidou-se uma estratégia de convivência e acomodação com os interesses do latifúndio agroexportador. Esse movimento ocorreu paralelamente à ampliação das exportações agrícolas e ao fortalecimento político das grandes entidades representativas do agronegócio, sem que fossem enfrentadas questões estruturais como a concentração fundiária, a reforma agrária ou os impactos socioambientais da agricultura intensiva. Diversos estudos científicos apontam que essa orientação representou uma continuidade importante da inserção primário-exportadora da economia brasileira, ainda que acompanhada de políticas sociais redistributivas.

O mesmo padrão pode ser observado na mineração. Grandes empreendimentos minerais continuaram sendo tratados como vetores privilegiados do crescimento econômico, frequentemente recebendo apoio institucional e financeiro do Estado, enquanto conflitos territoriais envolvendo comunidades tradicionais, povos indígenas e populações atingidas permaneceram em segundo plano. A lógica predominante foi a da expansão da fronteira extrativa, compatível com a crescente demanda internacional por minério de ferro, ouro, bauxita e, mais recentemente, minerais estratégicos para a chamada transição energética.

No caso da agricultura, essa opção política possui consequências que hoje se tornam cada vez mais difíceis de ignorar. O avanço contínuo da monocultura baseada no uso intensivo de agrotóxicos, fertilizantes sintéticos e sementes geneticamente modificadas vem produzindo impactos expressivos sobre a biodiversidade, os recursos hídricos, a qualidade dos solos e a saúde pública. Ao mesmo tempo, a expansão da fronteira agropecuária permanece como um dos principais vetores de desmatamento, degradação florestal e emissões de gases de efeito estufa no Brasil. Ainda assim, essas contradições raramente aparecem como elementos centrais da estratégia de desenvolvimento defendida pelo governo.

É justamente aí que se manifesta esse negacionismo ecológico de baixa intensidade: reconhece-se a existência da crise climática, mas evita-se questionar o modelo econômico que a alimenta. Celebram-se metas ambientais em fóruns internacionais enquanto, internamente, preserva-se uma aliança política que impede mudanças mais profundas na organização da produção agrícola e mineral. Em vez de enfrentar os fatores estruturais da degradação ambiental, privilegia-se uma narrativa segundo a qual seria possível compatibilizar indefinidamente a expansão do extrativismo com a sustentabilidade.

Essa escolha política ajuda a explicar por que o Brasil continua apresentando enorme dificuldade para construir uma estratégia efetivamente pós-extrativista. Enquanto persistir a dependência das exportações de commodities agrícolas e minerais como principal eixo da inserção internacional do país, os conflitos ambientais tenderão a se aprofundar. O verdadeiro desafio, portanto, não consiste apenas em combater o negacionismo climático explícito, mas também em superar esse negacionismo mais sofisticado, que reconhece a emergência ecológica em seu discurso, ao mesmo tempo em que preserva as bases econômicas responsáveis por sua permanente reprodução.

A crise de Flávio Bolsonaro pode redefinir a eleição presidencial

 

O enfraquecimento de Flávio Bolsonaro altera o tabuleiro eleitoral e reabre o debate sobre a ausência de uma alternativa de esquerda ao lulismo

A bomba que caiu sobre a pré-campanha de Flávio Bolsonaro, após a revelação de que o filho primogênito do ex-presidente teria solicitado R$ 134 milhões ao agora desmoralizado ex-banqueiro Daniel Vorcaro, colocou o processo eleitoral em uma espécie de animação suspensa. Atingida de forma potencialmente letal pelas denúncias de favorecimento financeiro, a candidatura de Flávio Bolsonaro talvez sequer consiga ultrapassar a fase de pré-campanha.

Como as demais candidaturas de direita não têm conseguido empolgar no confronto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e um nome potencialmente forte como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, não se desincompatibilizou a tempo e, portanto, está impedido de disputar a Presidência da República, abre-se um cenário político bastante peculiar. O atual presidente, que previa enfrentar uma disputa dura e polarizada, pode acabar encontrando um caminho eleitoral significativamente menos turbulento diante da ausência de uma candidatura competitiva da direita ou da extrema-direita.

Por outro lado, é impossível ignorar, diante do descontentamento de uma parcela importante do eleitorado com o governo Lula III, o tamanho do erro estratégico cometido pelo Partido Socialismo e Liberdade ao aderir à candidatura petista já no primeiro turno. O partido corre o risco de ter pouca ou nenhuma relevância efetiva em uma eventual campanha de reeleição de Lula e, de quebra, comprometer sua própria viabilidade nas disputas proporcionais.

Ao abdicar de uma candidatura própria, o PSOL perdeu a oportunidade de dialogar diretamente com setores da classe trabalhadora que já não se sentem contemplados pela estratégia de um capitalismo de face supostamente humana, fórmula política que o Partido dos Trabalhadores adotou desde sua chegada ao poder, em 2003.

Nesse contexto, talvez exista uma janela importante para que uma candidatura situada à esquerda do PT deixe de ocupar a condição de mero “traço” nas pesquisas eleitorais. Mas isso dependerá da coragem e da disposição dos partidos que não aderiram ao governo de construir uma campanha voltada aos trabalhadores reais — e não apenas aos seus próprios círculos militantes.

Mas para que essa possibilidade se concretize, não bastará apenas ocupar um espaço eleitoral vazio deixado pelas crises da direita e pelas limitações do lulismo. Uma alternativa efetivamente de esquerda precisará apresentar propostas estruturais para enfrentar a brutal concentração de riqueza que marca a sociedade brasileira, recolocando no centro do debate temas como reforma tributária progressiva, valorização do trabalho, ampliação dos serviços públicos e democratização do acesso à terra e à moradia. Ao mesmo tempo, será inevitável abraçar uma agenda ecológica consequente, baseada na transição para um novo modelo agrícola menos dependente de monoculturas e agrotóxicos, bem como na implantação urgente de políticas de adaptação climática, especialmente nas grandes metrópoles, onde enchentes, ondas de calor e desastres ambientais já atingem de forma desproporcional as populações mais pobres.

Entre oportunismo e ruptura: o centrão troca o governo Luiz Inácio Lula da Silva por uma aliança de confronto

A união entre o “centrão” e o bolsonarismo, em meio a derrotas do Executivo, sinaliza inflexões no padrão de governabilidade e projeta incertezas para o ciclo eleitoral de 2026

Os episódios recentes envolvendo o Senado Federal do Brasil e o Congresso Nacional do Brasil, particularmente no que se refere à rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à mobilização para a derrubada de vetos presidenciais ao chamado PL da Dosimetria oferecem um ponto de observação privilegiado para a análise das dinâmicas contemporâneas de governabilidade no Brasil. Mais do que eventos isolados, tais movimentos sugerem uma reconfiguração das coalizões legislativas, com implicações institucionais relevantes.

No centro dessa inflexão encontra-se o comportamento do chamado “centrão”, um agrupamento heterogêneo de partidos e lideranças cuja atuação historicamente se caracteriza pelo pragmatismo e pela adesão contingente ao Executivo. Durante o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, esse bloco foi incorporado à base governista mediante a distribuição de recursos políticos e administrativos. No entanto, a recente convergência entre setores do centrão e parlamentares associados ao bolsonarismo indica uma alteração qualitativa nesse padrão de alinhamento.

Essa aproximação não deve ser interpretada apenas como uma oscilação tática. Ela aponta para um deslocamento mais profundo na estrutura de incentivos que orienta o comportamento legislativo. Em contextos de presidencialismo de coalizão, como o brasileiro, a estabilidade institucional depende da capacidade do Executivo de coordenar maiorias por meio de barganhas previsíveis. Quando esse mecanismo se fragiliza, abre-se espaço para arranjos alternativos que podem prescindir — ou mesmo se contrapor — à liderança presidencial. 

A atuação de figuras como Davi Alcolumbre, nesse cenário, ilustra o fortalecimento de polos autônomos de poder no interior do Legislativo. A capacidade de influenciar ou mesmo bloquear decisões estratégicas do Executivo, como indicações ao STF, sugere uma redistribuição de poder que tensiona o equilíbrio entre os poderes. Ainda que formalmente prevista no desenho institucional, a rejeição de indicações presidenciais ao STF permanece um evento de baixa frequência histórica, o que amplifica seu significado político.

A convergência entre centrão e bolsonarismo, por sua vez, introduz um elemento adicional de complexidade. Trata-se da articulação entre um bloco tradicionalmente pragmático e uma corrente política marcada por forte componente ideológico e mobilização social. Essa combinação potencializa a capacidade de obstrução e redefine os termos da disputa legislativa, ao incorporar tanto recursos institucionais quanto capital político mobilizado fora do Congresso. As implicações desse rearranjo transcendem o plano legislativo imediato. Ao sinalizar dificuldades do Executivo em manter uma coalizão estável, esses movimentos afetam expectativas de atores políticos em diferentes níveis, incluindo governadores, prefeitos e candidatos em disputa nas eleições de outubro. A percepção de fragilidade governamental tende a incentivar estratégias de distanciamento ou alinhamento seletivo, enfraquecendo ainda mais a coesão da base aliada criada por Lula a partir da distribuição massiva de benesses. Do ponto de vista institucional, o risco que se delineia não é necessariamente o de uma ruptura abrupta, mas o de uma erosão incremental da governabilidade. A formação de maiorias ad hoc, desvinculadas de compromissos programáticos com o Executivo, pode levar a um padrão decisório mais volátil e menos previsível. Em situações-limite, esse tipo de dinâmica pode evoluir para impasses recorrentes entre os três poderes, configurando um ambiente de instabilidade institucional.

Finalmente, é importante situar esse processo no contexto mais amplo da polarização política brasileira, intensificada desde a tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023. A aproximação entre centrão e bolsonarismo sugere que a clivagem ideológica não elimina, mas reconfigura, as lógicas pragmáticas de poder. O resultado é um arranjo híbrido, no qual interesses distributivos e agendas políticas mais radicalizadas passam a coexistir e, em certos momentos, a convergir. Nesse contexto, as eleições de outubro tendem a ser fortemente influenciadas não apenas por programas ou desempenho econômico, mas pela percepção de capacidade de governar. A reconfiguração em curso no Congresso, ao desafiar os mecanismos tradicionais de coordenação política, coloca em questão justamente esse atributo — com efeitos que podem se estender para além do ciclo eleitoral imediato.

Julius Trump Caesar: o Império atravessou o Rubicão, enquanto Lula tremeu

Donald Trump, em seu momento Julius Cesar

Por Douglas Barreto da Mata 

O que se pode depreender da nota divulgada pelo governo do Brasil sobre o ataque dos EUA à Venezuela? Cautela ou medo?  Medo. Na minha opinião, medo.  Vamos contornar as imbecilidades da mídia oficial, redes sociais e da direita brasileira.

Ditadores do mundo? Os EUA os colecionam e cevam a todos, desde muito tempo. Será que a Rede Globo pediria a invasão do nosso país pelos EUA de Jimmy Carter, eis que tínhamos um governo ilegítimo (termo usado para adjetivar maduro)? Acho pouco provável.  E uma invasão da Arábia Saudita dos maiores financiadores dos terroristas sunitas wahabistas, a monarquia teocrática e violenta? 

Pois é.  Narcotráfico?  Uai, então Donald Trump teria que fechar a CIA, a maior criadora de redes de narcotráfico do mundo, todas destinadas ao financiamento das máquinas de sabotagem geopolítica dos EUA. 

Então, vamos parar com essa baboseira e vamos ao que interessa. Petróleo.  Donald Trump quer petróleo.  A movimentação da China, e da sua afiliada Rússia, mostra que o insumo vai encarecer para os EUA.  A Venezuela é uma das últimas fronteiras nesse quesito. Talvez sejamos a próxima.

Por isso, Lula tremeu de medo. Não temos Forças Armadas, nem artefatos nucleares para dissuasão ou contenção.  Não adianta tentar “trocar” de dono e pedir pela ajuda chinesa, não vai adiantar, ao menos, por enquanto.  Por isso Lula se enche de medo.

A questão não é só de superioridade militar, óbvio, e a ação em solo venezuelano mostra isso.  Donald Trump não banca uma ocupação, não como primeira opção, porque a parcela de população hostil é muito grande, e isso refresca a memória estadunidense com os fracassos vietnamita, afegão e iraquiano.

Por isso Lula treme de medo. Com um governo bem mais próximo da direita, com um cacoete permanente para a submissão aos EUA (e qualquer outro com poder parecido), Lula imagina que não será sequestrado como Maduro, mas entregue pelo próprio povo brasileiro. 

Não é um delírio.  Assim, Lula mandou digitar sua manifestação oficial com muito cuidado, quase que pedindo desculpas por falar. De nada adiantará. 

O Império saiu às compras, e quem pagará a conta somos nós.

Indígenas Munduruku protestam em frente à Blue Zone na COP30 e cobram reunião urgente com Lula

Povos exigem revogação do Decreto 12.600/2025, cancelamento da Ferrogrão e proteção contra grandes empreendimentos dentro do território

Membros do movimento indígena Munduruku Ipereg Ayu aguardam do lado de fora do local da COP30 durante um protesto em Belém, Brasil, em 14 de novembro de 2025

Membros do movimento indígena Munduruku Ipereg Ayu aguardam do lado de fora do local da COP30 durante um protesto em Belém, Brasil, em 14 de novembro de 2025 (AFP/AFP)

Belém (PA), 14 de novembro de 2025 — Na manhã desta sexta-feira (14), indígenas do povo Munduruku, articulados pelo Movimento Ipereg Ayu, realizaram um ato em frente à entrada da Blue Zone da COP30 para cobrar uma reunião emergencial com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O grupo denuncia que o governo federal está avançando com projetos de infraestrutura que ameaçam diretamente o território Munduruku, bem como todos os povos da bacia do Tapajós e Xingu — sem consulta prévia, livre e informada, como determina a Convenção 169 da OIT.

Além dos megaempreendimentos, os Munduruku também protestam contra projetos de crédito de carbono e mecanismos de REDD+ jurisdicional que vêm sendo discutidos no âmbito da COP30 e em negociações governamentais. Para o movimento, tais iniciativas representam formas de “venda da floresta” que retiram autonomia dos povos, permitem a entrada de empresas e intermediários nos territórios e não enfrentam a raiz dos problemas climáticos: o desmatamento industrial, o garimpo, as hidrovias e a expansão da soja.

O principal alvo da manifestação é o Decreto nº 12.600/2025, que instituiu o Plano Nacional de Hidrovias e incluiu o Tapajós, o Madeira e o Tocantins como eixos prioritários para navegação de cargas. Para os Munduruku, o decreto “abre a porteira” para novas dragagens, derrocamento de pedrais sagrados e expansão acelerada de portos privados. “Esse decreto ameaça exterminar nosso modo de vida, porque transforma o rio em estrada de soja. Presidente Lula, o senhor precisa ouvir o nosso povo antes de decidir sobre nosso futuro”, afirma liderança do Movimento Ipereg Ayu.

Dados dos estudos do Inesc mostram que o corredor Tapajós–Arco Norte é hoje um dos principais vetores de avanço do agronegócio sobre a Amazônia. Entre 2010 e 2022, 68% de todo investimento federal em infraestrutura na região foi destinado a corredores de exportação, incluindo BR-163, Terminais de Itaituba/Miritituba e projetos de hidrovias no Tapajós. Em 2023, 47% das exportações de soja do Brasil já saíam pelos portos do Arco Norte — antes, eram 16% em 2010.

Na prática, isso tem efeito direto no território Munduruku. O Inesc e organizações parceiras apontam que:

 • A movimentação de cargas e adubos nas hidrovias do Tapajós explodiu: 167 mil toneladas em 2022, contra apenas 4 mil toneladas em 2019, um salto de mais de 4.000%.

• O crescimento dos portos e barcaças reduz pesca, contamina água e restringe circulação de comunidades ribeirinhas — impactos já denunciados por aldeias Munduruku ao longo dos rios Tapajós e Teles Pires.

• Dragagens emergenciais recentes no Tapajós, feitas sem consulta, mobilizaram sedimentos contaminados e afetaram igarapés usados por aldeias para pesca e navegação.

“Tudo isso acontece sem o Estado nos ouvir. Querem destruir o fundo do rio, querem explodir nossos pedrais sagrados, querem lotar o Tapajós de barcaças para levar soja para fora do Brasil. Quem mora aqui somos nós, não as empresas”, disse uma liderança Munduruku.

O movimento também cobra o cancelamento definitivo da Ferrogrão (EF-170) — projeto planejado para transportar soja desde Sinop (MT) até Miritituba (PA), onde as barcaças seguem pelo Tapajós. Segundo estudos do Ministério dos Transportes, a ferrovia pode multiplicar por seis o volume de grãos enviados pelo rio até 2049. Para os Munduruku, isso significará:

 • Mais portos próximos às aldeias (Miritituba, Itaituba e Trairão já concentram projetos em série);

 • Mais dragagens e risco de explosão de pedrais sagrados;

 • Expansão da soja sobre a borda das terras indígenas e aumento de conflitos fundiários;

 • Contaminação da água e dos peixes por agrotóxicos.

Os Munduruku também cobram do governo federal a aceleração da demarcação das terras indígenas, dos processos parados no Ministério da Justiça e na Casa Civil, e responsabilizam o Estado por conflitos que aumentaram com o avanço da soja.

“Presidente Lula, estamos aqui na frente da COP porque queremos que o senhor nos escute. Não aceitamos ser sacrificados para o agronegócio. Revogue o Decreto 12.600. Cancele a Ferrogrão. Demarque nossas terras. Fora crédito de carbono — nossa floresta não está à venda. Quem protege o clima somos nós, e a Amazônia não pode continuar sendo destruída para enriquecer grandes empresas”, finaliza.

Lula apresenta nova visão para a proteção da floresta amazônica, defende exploração de petróleo, e nega querer ser líder ambiental

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, fala durante uma entrevista com a imprensa estrangeira antes da COP30, a Cúpula do Clima da ONU, em Belém, estado do Pará, na terça-feira, 4 de novembro de 2025. (Foto AP/Eraldo Peres)

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, fala durante uma entrevista com a imprensa estrangeira antes da COP30, a Cúpula do Clima da ONU, em Belém, estado do Pará, na terça-feira, 4 de novembro de 2025. (Foto AP/Eraldo Peres) 

Por Maurício Savarese para a Associated Press 

BELÉM, Brasil (AP) — O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva apresentou na terça-feira sua visão de como a floresta amazônica deve ser protegida, um futuro que não depende de doações de nações ricas e grandes organizações filantrópicas, mas inclui um grande fundo que paga aos países para manterem as florestas em pé.

“Não quero mais usar a palavra doação”, disse Lula a jornalistas antes da cúpula climática das Nações Unidas , conhecida como COP30, que começa esta semana em Belém , cidade brasileira na orla da Amazônia.

“Se alguém nos desse 50 milhões de dólares, seria ótimo, mas não é nada”, disse ele. “Precisamos de bilhões para lidar com nossos problemas, os problemas das pessoas que vivem lá.”

Em Belém, Lula deverá lançar uma iniciativa chamada Fundo Florestas Tropicais para Sempre, com o objetivo de apoiar mais de 70 países em desenvolvimento comprometidos com a preservação. Até o momento, Colômbia, Gana, República Democrática do Congo, Indonésia e Malásia aderiram.Vista aérea de barcos de pesca da comunidade Caju Una pescando no riacho Porto, Ilha de Marajó, estado do Pará, Brasil, sábado, 1º de novembro de 2025. (Foto AP/Eraldo Peres)

Vista aérea de barcos de pesca da comunidade Caju Una pescando no riacho Porto, Ilha de Marajó, estado do Pará, Brasil, sábado, 1º de novembro de 2025. (Foto AP/Eraldo Peres)

Alemanha, Emirados Árabes Unidos, França, Noruega e Reino Unido estão ajudando a moldar o mecanismo e provavelmente serão seus primeiros investidores, o que Lula espera que ajude a impulsionar o interesse do setor privado. O presidente do Brasil não forneceu mais detalhes sobre como o plano será implementado.

O site oficial da COP30 descreve a iniciativa como um “fundo fiduciário permanente” que geraria cerca de US$ 4 do setor privado para cada US$ 1 investido. Não ficou imediatamente claro como isso aconteceria. No entanto, as florestas podem gerar renda de diversas maneiras além da extração de recursos, como o turismo e a compensação de carbono, que pode envolver empresas pagando para neutralizar sua poluição plantando árvores e protegendo florestas. 

Se a iniciativa funcionar, recursos serão enviados para países que preservam suas florestas tropicais.

“O Brasil já investiu US$ 1 bilhão, e isso trará retorno para os investidores”, acrescentou Lula. “É um fundo em que todos saem ganhando. Esperamos que, ao final da apresentação do TFFF, muitos outros países se juntem a nós.”


O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva colhe açaí durante um encontro com descendentes de escravos em um assentamento em Itacoa Miri, ilha de Combu, Belém, estado do Pará, Brasil, na segunda-feira, 3 de novembro de 2025, antes da COP30, a Cúpula do Clima da ONU. (Foto AP/Eraldo Peres)
 

O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva colhe açaí durante um encontro com descendentes de escravos em um assentamento em Itacoa Miri, ilha de Combu, Belém, estado do Pará, Brasil, na segunda-feira, 3 de novembro de 2025, antes da COP30, a Cúpula do Clima da ONU. (Foto AP/Eraldo Peres)

Lula também defendeu a recente decisão de seu governo de aprovar a perfuração exploratória pela gigante petrolífera estatal Petrobras perto da foz do rio Amazonas.

Acredita-se que a jazida da Margem Equatorial, localizada ao largo da costa do Brasil, que se estende da fronteira brasileira com o Suriname até uma parte da região Nordeste do país, seja rica em petróleo e gás.

O bloco de perfuração exploratória fica a 175 quilômetros (108 milhas) da costa do estado do Amapá, no norte do Brasil, que faz fronteira com o Suriname. A área, rica em biodiversidade, abriga manguezais pouco estudados e um recife de coral. Ativistas e especialistas afirmam que o projeto apresenta riscos de vazamentos que podem ser amplamente disseminados pelas marés e colocar em perigo o sensível ecossistema. A Petrobras alega há tempos que nunca causou vazamentos em suas perfurações.

“Se eu fosse um líder falso e mentiroso, esperaria a COP terminar (para dar a aprovação)”, disse Lula. “Mas se eu fizesse isso, seria um homem pequeno diante da importância disso.”

Um barco navega pela Baía de Guajara e pela cidade histórica de Belém, no estado do Pará, Brasil, na sexta-feira, 31 de outubro de 2025. (Foto AP/Eraldo Peres)
Um barco navega pela Baía de Guajara e pela cidade histórica de Belém, no estado do Pará, Brasil, na sexta-feira, 31 de outubro de 2025. (Foto AP/Eraldo Peres)
 

Lula, presidente do Brasil por dois mandatos no início dos anos 2000, antes de retornar para um terceiro mandato em 2023, sempre se apresentou como um defensor do meio ambiente e um político pragmático. O Brasil é um grande exportador de petróleo, e as receitas da Petrobras ajudam a financiar a agenda de qualquer governo. Ao mesmo tempo, o governo Lula tem trabalhado para conter o desmatamento e assumir um papel de liderança nas negociações climáticas, sediando a cúpula.

“Não quero ser um líder ambiental. Nunca afirmei ser”, acrescentou Lula. “Quero fazer o que é certo, o que os especialistas, a minha administração e a minha consciência dizem que temos de fazer. Seria incoerente, uma ação irresponsável, se eu dissesse que deixaremos de usar petróleo.”


Fonte: Associated Press