O segundo turno será a última chance para a Amazônia?

Sob Flávio Bolsonaro haveria a aceleração do desmatamento, militarização e carta branca para a mineração na Amazônia

Enorme reservatório de carbono, flora e fauna impressionantes e lar de muitas pessoas: a floresta amazônica é de enorme importância. Quais seriam as implicações de eleger Flávio Bolsonaro como presidente do Brasil?  Fonte:Alexey Yakovlev/Wikimedia Commons Licença:CC-BY-SA-2.0 

Por Ulrike Bickel para Amerika21

O segundo turno presidencial brasileiro em 25 de março. Outubro de 2026 será o foco dos debates ambientais internacionais porque o resultado tem consequências de longo alcance para a Amazônia e para a política climática global. Candidato conservador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, promete retomar as medidas anti ambientais do seu pai. Ele quer acelerar o desmatamento da floresta amazônica e incluir o Brasil na iniciativa US‑ “Escudo das Américas”, cujo objetivo é garantir cadeias de abastecimento de terras raras e outros minerais críticos, necessário para a transição energética e para sistemas de defesa,  e para reduzir a dependência da China.

Segundo Flávio Bolsonaro, a cooperação com os EUA e a abertura ao investimento estrangeiro no setor de mineração devem ser uma prioridade. Com o segundo maior depósito de terras raras, o Brasil é considerado um parceiro-chave em todo o mundo depois da China. A partir de 2022, começou um boom de aplicação de concessões mineiras. Cerca de metade dos pedidos provêm de subsidiárias de empresas estrangeiras na Austrália, nos EUA e no Canadá. A degradação está associada ao alto consumo de água e energia, bem como ao uso de produtos químicos tóxicos que poluem solos e corpos d’água.

No Brasil, os pedidos de autorização para explorar depósitos de terras raras se sobrepõem em grande parte às áreas de assentamento rural de pequenos agricultores: que há muito se caracterizam por conflitos sobre apropriação de terras, mineração de ouro, pecuária extensiva, cultivo de soja e uso de pesticidas. Se Flávio Bolsonaro vencer, os projetos extrativistas seriam acelerados e mais capital estrangeiro seria atraído para investimento. O presidente e candidato Inácio Lula da Silva também tem como alvo a mineração, mas com o objetivo de fortalecer as indústrias locais de processamento de terras raras para que as empresas estrangeiras por si só não se beneficiem.

O futuro da Amazônia está em jogo no segundo turno presidencial do Brasil. As eleições já resultaram em uma mudança significativa no equilíbrio de poder no Congresso, com facções fortalecidas defendendo a mineração em terras indígenas e diluições da proteção territorial e ambiental.

Vários deputados eleitos nos estados amazônicos manifestaram-se a favor da mineração, inclusive nas terras indígenas, e a favor do enfraquecimento mais uma vez da proteção ambiental: Fernando Maximo, um senador eleito do Partido Liberal (PL) de Rondônia rejeitou as descobertas científicas sobre a poluição por mercúrio da mineração ilegal de ouro como “falsidades” Tais posições vão além do partido de Bolsonaro. O senador Plínio Valério, do Partido Social Democrata, de centro-direita, que foi reeleito no estado do Amazonas, pediu a legalização da mineração.

Dinâmica ilegal de mineração e desmatamento

Sob o governo de Jair Bolsonaro (2019 – 2022), as taxas de desmatamento na Amazônia atingiram níveis recordes. O controle foi severamente enfraquecido por cortes nas autoridades ambientais. A situação melhorou sob o atual governo de esquerda de Lula. Apesar disso, a mineração ilegal de ouro e o desmatamento e a agricultura de corte e queima para a pecuária continuaram a avançar, de acordo com um recente  análise pelo instituto de pesquisa sem fins lucrativos Amazon, a mineração de ouro em áreas indígenas quase aumentou sete vezes entre 2016 e 2024. Os preços recordes do ouro provocaram um novo boom mineiro na Amazónia nos últimos anos, levando a um aumento da desflorestação e da poluição por mercúrio entre os vizinhos dos rios e as comunidades indígenas.

O programa de monitoramento por satélite‑ para a área andina ‑Amazon‑ (Maap) para 2024 mostra que incêndios recordes que devastaram cerca de 2,8 milhões de hectares e aumentaram as taxas de desmatamento em 34 por cento.2025 viu uma recuperação parcial, com a área desmatada caindo para seu nível mais baixo na última década. No geral, cerca de 13% do bioma Amazon( foi destruído desde o início do programa Maap )2015‑. Flávio Bolsonaro levantaria as restrições anteriores.

Paralelos regionais

Atualmente, grande parte do bioma Amazon‑ é controlada por governos que priorizam a exploração de recursos em detrimento da conservação. Governos de direita foram estabelecidos em muitos países da Amazônia nos últimos anos, com chefes de Estado se manifestando contra a proteção ambiental e a favor da militarização, da mineração e da expansão da indústria agrícola.

 

Na Bolívia, o presidente Rodrigo Paz aboliu o Ministério do Meio Ambiente em 2026 e relaxou o controle sobre os projetos de mineração. O Peru é liderado desde julho por Keiko Fujimori, que quer combater as atividades ilegais de mineração com força militar, mas rejeita o Acordo Ambiental Escazú. A Colômbia escolheu como presidente o ultradireitista Abelardo de la Espriella, que enfatiza a militarização da Amazônia e cortou pela metade o orçamento para investimentos ambientais. No Equador, o Environment‑ e o Ministério da Energia foram fundidos e novas leis para facilitar os projetos de mineração‑ e petróleo foram aprovadas. No caso da eleição de Flávio, até 95%  da região amazônica seria governada por governos de direita, incluindo Bolívia, Equador, Peru, Colômbia e Venezuela.

Se a conservação deixasse de ser uma prioridade regional, o futuro das organizações intergovernamentais que trabalham para o desenvolvimento sustentável e os direitos dos povos indígenas também seria posto em causa, como a organização do Tratado de Cooperação Amazônica (Otca). Por outro lado, os projectos de infra-estruturas transamazónicas, que têm sido fortemente criticados pelos efeitos nocivos sobre o ambiente e os povos indígenas, poderão ganhar impulso, medos Márcio Astrini, diretor executivo do Observatório do Clima do Brasil (OC), uma coalizão de organizações não governamentais de defesa das mudanças climáticas.

Direitos indígenas e violência contra ativistas ambientais e de direitos humanos: mulheres

Como mencionado acima, uma análise do Ipam, que a mineração de ouro está se expandindo mais rapidamente nas áreas da população indígena da Amazônia brasileira. A área ocupada pela mineração de ouro nos territórios indígenas (TI) na região amazônica cresceu 562% entre 2016 e 2024, tornar esta categoria de terras proporcionalmente a mais afetada pela mineração ilegal.

De acordo com a legislação brasileira, qualquer mineral‑ ou atividade de mineração em terras indígenas requer consulta às comunidades afetadas e aprovação do Congresso. O novo parlamento (Congreso), que tomará posse em 2027, decidirá sobre a futura concepção destes regulamentos. Facções de extrema-direita no parlamento já anunciaram que vão relaxar as leis que permitem a mineração em territórios indígenas. Organizações indígenas alertam que uma vitória de Flávio abre um precedente em que a própria terra não é mais claramente atribuída aos povos indígenas, mas a empresas privadas de mineração.

Entretanto, a violência contra os defensores do ambiente e dos direitos humanos: as mulheres estão novamente a atingir níveis recorde em vários países da América Latina. De acordo com o novo relatório do Testemunha Global a partir de 2026, dos 124 assassinatos documentados de ativistas ambientais: 39 cometidos na Colômbia em todo o mundo, seguidos por 26 no Brasil. O crescente Militarização  da Amazônia sob Bolsonaro também incentivou o comércio ilegal de madeira e o tráfico de drogas, em vez de proteger a floresta.

Perspectiva

Desde a sua eleição em 2023, Lula da Silva reduziu a taxa de desflorestação para o mínimo de dez anos no seu terceiro mandato, criou um ministério para os povos indígenas e reestruturou a autoridade para os assuntos indígenas. No entanto, algumas das suas promessas, como a demarcação clara das terras indígenas, bem como as reformas agrárias das terras abandonadas em favor das famílias sem terra, estavam longe de ser plenamente concretizadas. As organizações indígenas apoiam Lula apesar das críticas porque o vêem como o menor perigo em comparação com um possível governo Bolsonaro‑.

O resultado do escoamento brasileiro será crucial para saber se o progresso provisório de Lula na conservação da natureza será revertido. Uma vitória de Flávio Bolsonaro aceleraria as tendências de aumento do desmatamento, expansão da mineração, enfraquecimento das leis ambientais e militarização da Amazônia. Ao mesmo tempo, a integração na estratégia de terras raras dos EUA aumentaria os incentivos económicos para a exploração de mercadorias.

Mesmo que Lula seja reeleito, os desafios continuarão grandes: a limitada margem de ação do governo, a presença contínua de atores ilegais e o crescente poder político das facções de direita dificultam a proteção sustentável da Amazônia e dos direitos dos povos indígenas. Um sinal claro da comunidade internacional, apoiar o meio ambiente‑ e as organizações de direitos humanos, bem como incorporar dados atualizados dos programas de monitoramento, são necessários, segundo a sociedade civil brasileira, para combater a regressão iminente.


Fonte: Amerika21

Lula desafia Flávio Bolsonaro e coloca em xeque o monopólio do discurso anticorrupção da extrema-direita

Ao desafiar Flávio Bolsonaro a abrir seus sigilos bancário e telefônico, Lula procura inverter o jogo político e colocar o bolsonarismo diante de uma contradição: quem exige transparência dos adversários está disposto a praticá-la?

O desafio lançado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Flávio Bolsonaro para que abra seus sigilos bancário e telefônico possui um significado político que ultrapassa a disputa eleitoral imediata. Ao anunciar a abertura de seus próprios sigilos e dos seus cinco filhos, Lula procura realizar um movimento estratégico: retirar das mãos da extrema-direita brasileira o controle do discurso de combate à corrupção, que foi uma das principais armas utilizadas pelo bolsonarismo para conquistar e manter influência política.

Durante anos, Jair Bolsonaro e seus seguidores transformaram a denúncia da corrupção em uma espécie de patrimônio exclusivo da direita radical. Sob o argumento de combater os privilégios e a suposta degeneração moral da política tradicional, construíram uma narrativa na qual seus adversários eram permanentemente colocados sob suspeita, enquanto os integrantes do próprio campo político apareciam como representantes de uma moralidade superior. O problema é que essa pretensão de superioridade moral nem sempre resistiu ao confronto com os fatos, as investigações e as controvérsias envolvendo personagens do próprio bolsonarismo.

É precisamente nesse terreno que o desafio de Lula pode produzir seus efeitos mais importantes. Em vez de permanecer na posição defensiva, respondendo às acusações que historicamente alimentaram a propaganda bolsonarista, o presidente procura inverter os papéis e transferir ao adversário o ônus político da transparência. A pergunta deixa de ser apenas o que Lula tem a explicar e passa a incluir aquilo que Flávio Bolsonaro está disposto a revelar.

A situação é particularmente delicada para Flávio Bolsonaro porque sua trajetória política já foi marcada por controvérsias relacionadas às movimentações financeiras de seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, incluindo o conhecido caso das chamadas rachadinhas. Embora investigações, acusações e decisões judiciais não possam ser confundidas com comprovação de culpa, esses episódios tornam ainda mais relevante a cobrança pública de coerência entre o discurso anticorrupção e as atitudes concretas de quem pretende governar o país.

Caso Flávio Bolsonaro se recuse a aceitar o desafio, a contradição política será evidente. Afinal, como justificar que um candidato que se apresenta como herdeiro de um movimento supostamente comprometido com a moralização da vida pública não esteja disposto a adotar a mesma medida de transparência que exige de seus adversários? O velho bordão tão utilizado pela direita brasileira poderá, então, retornar como um bumerangue: quem não deve, não teme.

Evidentemente, a recusa em abrir sigilos protegidos por lei não constitui prova de irregularidade. Entretanto, no terreno da disputa política, a diferença entre defender publicamente a transparência e resistir a praticá-la pode representar um desgaste considerável, sobretudo para quem construiu parte de sua identidade eleitoral na suspeição permanente dos adversários.

O movimento de Lula também revela uma compreensão importante sobre a disputa de narrativas. Não basta denunciar o uso seletivo da pauta anticorrupção pela extrema-direita. É necessário demonstrar que o compromisso com a integridade pública não pertence a nenhuma corrente ideológica e que todos os agentes políticos devem estar submetidos aos mesmos padrões de fiscalização, responsabilidade e prestação de contas.

Nesse sentido, o desafio a Flávio Bolsonaro pode representar uma tentativa de desarmar um dos instrumentos mais eficazes da propaganda bolsonarista: a ideia de que a corrupção é um problema exclusivo dos adversários e nunca daqueles que se apresentam como seus combatentes.  A questão agora é saber se Flávio Bolsonaro aceitará o desafio ou se seus apoiadores terão de explicar por que a transparência, tão exigida quando se trata de Lula, deixaria de ser necessária quando o personagem cobrado pertence à própria família Bolsonaro.

Afinal, se a regra é que quem não deve não teme, por que ela não deveria valer também para Flávio Bolsonaro? Eis uma pergunta que o bolsonarismo poderá encontrar dificuldades para responder sem expor suas próprias contradições.

Meta, algoritmos e eleições: a democracia brasileira não pode ficar refém de Zuckerberg

Testes revelam tratamento desigual da inteligência artificial entre Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto denúncias de interferência eleitoral chegam ao TSE e a organismos internacionais. Mas a resposta decisiva ao poder das big techs terá de vir das ruas

As denúncias de interferência da Meta nas eleições presidenciais brasileiras ganharam uma dimensão particularmente grave nesta quarta-feira (14). Testes realizados pela Folha de S.Paulo, pela Veja e pelo Brasil de Fato demonstraram que a inteligência artificial da empresa, integrada ao WhatsApp, aceitava produzir peças eleitorais favoráveis a Flávio Bolsonaro, mas recusava solicitações equivalentes envolvendo o presidente Lula. A situação torna ainda mais preocupante o poder concentrado nas mãos da corporação de Mark Zuckerberg, que controla Instagram, Facebook e WhatsApp.

Não estamos mais diante apenas de reclamações sobre redução de alcance, bloqueios de contas ou dificuldades para compartilhar conteúdos políticos. Os testes jornalísticos identificaram uma assimetria concreta no funcionamento da Meta AI, justamente durante o segundo turno de uma eleição presidencial. A empresa reconheceu problemas técnicos e afirmou ter adotado medidas corretivas, mas negou qualquer favorecimento deliberado. A distinção é importante: o tratamento desigual foi documentado, enquanto a existência de uma estratégia intencional de manipulação eleitoral ainda precisa ser demonstrada.

A gravidade da situação já levou o Tribunal Superior Eleitoral a exigir explicações da Meta sobre as restrições denunciadas pela campanha de Lula. Entre os questionamentos estão possíveis limitações à distribuição de publicações, dificuldades no impulsionamento de conteúdos e a existência de centenas de perfis falsos que teriam produzido milhões de visualizações com ataques ao presidente e à primeira-dama. A campanha petista também anunciou que levará suas denúncias à Agência Nacional de Proteção de Dados, à Organização dos Estados Americanos e a observadores internacionais.

Outro elemento que torna esse cenário ainda mais inquietante envolve o argentino Fernando Cerimedo, conhecido por sua atuação no universo da comunicação política da extrema-direita latino-americana e pela disseminação de questionamentos infundados sobre o sistema eleitoral brasileiro. Reportagens recentes trouxeram denúncias de sua ex-companheira, Nadia Beller, sobre supostas atividades políticas transnacionais e sua disposição de atuar em favor de Flávio Bolsonaro. Também surgiram alegações sobre possíveis conexões privilegiadas com integrantes da Meta. Essas últimas acusações, entretanto, ainda carecem de comprovação independente e não permitem afirmar que Cerimedo tenha organizado uma operação interna da empresa para interferir nas eleições brasileiras.

O que já está suficientemente claro, porém, é que a concentração da infraestrutura de comunicação nas mãos de uma única corporação representa um problema estrutural para a democracia. Quando uma empresa estrangeira pode alterar unilateralmente a visibilidade de conteúdos, bloquear canais de comunicação e definir critérios opacos de funcionamento de sua inteligência artificial, a igualdade de condições na disputa eleitoral fica perigosamente dependente de decisões privadas.  Não se trata de exigir que as plataformas favoreçam Lula ou qualquer outro candidato. Trata-se de exigir que não favoreçam ninguém, que seus critérios sejam transparentes e que eventuais irregularidades sejam investigadas e corrigidas. A alegação genérica de problemas técnicos não pode funcionar como salvo-conduto permanente para uma empresa cujo poder de interferência na circulação de informações alcança dezenas de milhões de brasileiros.

Mas há uma conclusão política que considero ainda mais importante. A esquerda brasileira não pode continuar depositando nos algoritmos das big techs a esperança de derrotar a extrema-direita. Uma campanha que depende excessivamente de visualizações, curtidas e compartilhamentos entrega parte de sua capacidade de comunicação justamente às corporações cujo poder precisa ser enfrentado.  É por isso que venho insistindo na necessidade de aprofundar a conexão entre redes e ruas. As manifestações populares, a organização sindical, os movimentos sociais, as universidades e o trabalho político nos bairros e locais de trabalho possuem uma capacidade que os algoritmos não conseguem controlar integralmente: produzir encontros reais, debates diretos e vínculos coletivos que ultrapassam as bolhas digitais.

A mobilização nas ruas não elimina a influência das plataformas, tampouco dispensa a exigência de fiscalização rigorosa da Meta e das demais big techs. Mas pode reduzir a dependência política em relação a elas, disputar a narrativa pública fora dos ambientes digitais e transformar indignação em força social organizada.  A experiência histórica demonstra que transformações políticas profundas não resultam apenas da circulação de mensagens, mas da capacidade de milhões de pessoas se organizarem e agirem coletivamente. As redes podem potencializar essa organização, mas jamais deveriam substituí-la.

Se Zuckerberg e seus algoritmos possuem o poder de limitar o alcance de uma postagem, não possuem o mesmo poder sobre uma avenida ocupada por milhares de pessoas. É precisamente nessa diferença que reside a possibilidade de conter e até reverter o poder político acumulado pelas big techs.

A democracia brasileira não será defendida apenas com reclamações dirigidas à Meta. Será defendida com investigação, transparência, responsabilização e, sobretudo, mobilização popular.  Afinal, os algoritmos podem até controlar as telas. Mas as ruas, quando efetivamente mobilizadas, continuam sendo território da política e da ação coletiva.

Kássio desliga o canal, mas não pode desligar as ruas

Kássio Nunes Marques voltou a suspender o canal “Exército do Lula”, administrado pelo deputado André Janones, agora invocando, entre outros fundamentos, a ausência de comunicação formal de seu endereço à Justiça Eleitoral. A decisão sucede um relatório técnico que não encontrou os conteúdos denunciados no período examinado, embora tenha identificado lacunas decorrentes de mensagens apagadas ou editadas. Isso não equivale a uma absolvição de toda publicação, mas tampouco autoriza transformar suspeitas em comprovação de uma estrutura de desinformação.

O problema político é imediato: interromper um canal com milhões de seguidores na reta final do segundo turno reduz a capacidade de circulação de informações e de mobilização em favor de Lula. Sem precisar atribuir ao ministro uma intenção que não podemos demonstrar, é possível reconhecer que o efeito favorece seu adversário. Uma exigência administrativa pode ser corrigida; o tempo eleitoral perdido não pode ser devolvido. Cabe cobrar a proporcionalidade da medida e a aplicação dos mesmos critérios a todas as candidaturas.

Esse episódio reforça a necessidade de aprofundar a conexão entre redes e ruas. Uma campanha dependente de plataformas privadas e de canais sujeitos a interrupções permanece vulnerável justamente quando mais precisa alcançar a população. A comunicação digital precisa alimentar conversas presenciais, debates públicos e organização coletiva, enquanto a experiência das ruas deve fornecer conteúdo e perguntas às redes. Defender a liberdade de comunicação também significa construir meios de exercê-la para além da autorização de uma empresa ou de uma decisão individual.

E há matéria concreta para esse debate, começando pelo pagamento por horas trabalhadas defendido por Flávio Bolsonaro e sua base política. Conforme reportagem de Carlos Juliano Barros, no UOL, a proposta de Rogério Marinho prevê direitos proporcionais, mas especialistas alertam para a ausência de garantia de renda mensal e para dúvidas sobre o descanso semanal remunerado. O risco é transferir ao trabalhador a oscilação da demanda empresarial: menos horas oferecidas podem significar menos salário, mesmo quando suas despesas permanecem intactas.

Não é necessário inventar o fim automático das férias ou do 13º para expor a gravidade desse projeto. Basta perguntar quem decidirá quantas horas serão contratadas e quem suportará os períodos de menor movimento. O aluguel não diminui porque o patrão ofereceu menos trabalho; a alimentação dos filhos também não pode esperar a próxima convocação. A suposta liberdade de negociar individualmente ganha outro significado quando uma das partes controla o emprego e a outra precisa dele para sobreviver.

É esse conteúdo que precisa circular, com documentos, exemplos compreensíveis e debate público. A disputa eleitoral não pode ficar aprisionada ao vaivém de liminares enquanto propostas de precarização passam embaladas em slogans. Se Kássio interrompe o canal, a resposta precisa ampliar a presença nas ruas e a circulação de informação verificada. Porque o trabalhador tem o direito de saber, antes de votar, o que acontece quando seu salário vira variável e suas contas continuam fixas.

Nunes Marques censura canal pró-Lula, e bolsonaristas esquecem a liberdade de expressão

Editorial da Folha de S.Paulo denuncia censura pró-Flávio e expõe os riscos da interferência judicial e das big techs na disputa presidencial

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, manteve a derrubada de um canal de WhatsApp associado à mobilização eleitoral em favor de Lula, que reunia milhões de participantes. A decisão, justificada por alegações de irregularidades na divulgação de pesquisas e conteúdos eleitorais, foi duramente criticada em editorial da Folha de S.Paulo, intitulado “Nunes Marques insiste em censura pró-Flávio”. Para o jornal, a Justiça Eleitoral está extrapolando suas atribuições e assumindo um perigoso papel de tutora da informação política.  É evidente que a Justiça Eleitoral deve combater fraudes e ilícitos eleitorais. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre responsabilizar autores de infrações comprovadas e eliminar um canal inteiro de comunicação em plena campanha presidencial. Nesse segundo caso, a intervenção pode comprometer a igualdade de condições entre os candidatos, especialmente quando atinge instrumentos de mobilização com milhões de participantes.

A situação se torna ainda mais preocupante quando associada à atuação das grandes plataformas digitais. Tenho relatado no Blog do Pedlowski os problemas que enfrentei com a Meta, incluindo o bloqueio temporário de minha conta no Instagram após uma onda de ataques contra uma publicação crítica às propostas associadas à candidatura de Flávio Bolsonaro. Também recebi relatos de restrições ao compartilhamento de conteúdos políticos pelo WhatsApp. Embora esses episódios não comprovem uma operação coordenada, levantam dúvidas legítimas sobre a transparência e a aplicação uniforme das regras dessas empresas.

O que estamos presenciando é uma combinação potencialmente perigosa: de um lado, decisões judiciais que restringem canais de mobilização eleitoral; de outro, corporações privadas que controlam, por mecanismos pouco transparentes, a circulação de informações políticas. Não é necessário demonstrar uma conspiração entre magistrados e big techs para reconhecer que os efeitos dessas intervenções podem convergir e favorecer determinados interesses eleitorais.

Também chama atenção a aparente tranquilidade de setores da extrema-direita que denunciam uma suposta ditadura judicial sempre que suas próprias redes são atingidas, mas parecem perfeitamente confortáveis quando restrições semelhantes prejudicam seus adversários. Afinal, a liberdade de expressão não pode ser um direito absoluto para os aliados e dispensável para os adversários.

O editorial da Folha merece destaque justamente por colocar em discussão um princípio democrático fundamental: a Justiça Eleitoral deve garantir a legalidade do processo eleitoral, não substituir a capacidade dos cidadãos de avaliar criticamente as informações que recebem. Em um país onde a comunicação já é fortemente concentrada nas mãos de grandes grupos econômicos, acrescentar uma tutela judicial excessiva sobre a informação amplia os riscos de manipulação da disputa política.

A pergunta que fica é inevitável: se a extrema-direita considera censura qualquer restrição à sua comunicação política, por que o mesmo princípio não deveria valer quando o prejudicado é Lula?  Uma democracia não pode conviver com uma liberdade de expressão de mão única. Muito menos quando o acesso dos eleitores à informação passa a depender, simultaneamente, de decisões judiciais e dos algoritmos de empresas privadas. Caso contrário, continuaremos realizando eleições formalmente livres, mas sob condições de circulação da informação cada vez menos democráticas.

Das redes às ruas: a juventude mostra o caminho, mas a campanha de Lula precisa agir

A campanha do presidente Lula neste segundo turno está diante de uma oportunidade política que não pode ser desperdiçada. As mobilizações que vêm ocorrendo em diferentes partes do país, muitas delas impulsionadas espontaneamente pela juventude, demonstram uma disposição de participação política que ultrapassa as estruturas partidárias tradicionais. Os jovens não estão apenas comparecendo aos atos: estão ajudando a convocá-los, organizá-los e dar-lhes uma linguagem própria.

Esse protagonismo precisa ser reconhecido pela direção do PT e pela coordenação da campanha de Lula. O pior caminho seria tentar enquadrar essa energia espontânea nas  estruturas partidárias, transformando jovens mobilizadores em figurantes de eventos organizados de cima para baixo. A juventude não está pedindo autorização para participar da política. Ela já está mostrando sua capacidade de organização.

Entretanto, é fundamental construir uma verdadeira simbiose entre redes e ruas, especialmente diante do enorme poder das big techs sobre a circulação de informações. A comunicação digital não pode ser o único meio de acesso às propostas em disputa nesta eleição.  É nesse ponto que cabe cobrar uma ação concreta da direção nacional do PT e da coordenação da campanha: produzir e disponibilizar imediatamente materiais impressos, com linguagem acessível, informações verificáveis e referências às propostas efetivamente apresentadas pelos candidatos. Esses materiais devem permitir que a população conheça e compare as consequências das diferentes propostas sobre remuneração por hora trabalhada, direitos previdenciários, proteção social, educação e condições de trabalho.

Para isso, não basta anunciar uma campanha de comunicação. É necessário estabelecer um calendário público de produção e entrega dos materiais, disponibilizar arquivos para impressão local, garantir recursos às estruturas regionais e criar canais pelos quais coletivos juvenis e organizações sociais possam solicitar apoio logístico. Tudo isso com transparência e respeito à autonomia dos participantes.

A juventude não pode ser tratada apenas como força auxiliar para carregar bandeiras e preencher fotografias de manifestações. Seu protagonismo precisa ser reconhecido também na definição das formas de participação e organização, sem submissão automática às estruturas partidárias.  O segundo turno exige mais do que grandes atos, discursos e disputas de audiência nas plataformas digitais. Exige condições materiais para que o debate político ultrapasse as telas e alcance os espaços públicos, com informações claras e possibilidades reais de participação.

A juventude já demonstrou capacidade de transformar indignação em mobilização. Cabe agora à direção do PT demonstrar que consegue oferecer apoio concreto sem sufocar essa autonomia. Afinal, seria um desperdício político monumental ver a juventude ocupando as ruas enquanto a direção da campanha permanece ocupada apenas em administrar agendas, discursos e fotografias.

A tarefa é simples de enunciar: imprimir, disponibilizar, organizar e prestar contas. Porque algoritmo nenhum substitui organização popular.

A Paulista lotada, a Globo mostrando robôs: a seletividade da televisão em plena eleição presidencial

Enquanto milhares de brasileiros ocupavam a Avenida Paulista em defesa da democracia, a cobertura das grandes redes de TV levantou dúvidas sobre suas prioridades editoriais e os efeitos políticos da invisibilidade de uma manifestação popular

Neste domingo, 11 de outubro, milhares de brasileiros ocuparam a Avenida Paulista na chamada Marcha pela Democracia, em uma demonstração expressiva de mobilização popular em apoio à candidatura do presidente Lula. Segundo reportagem do UOL, a manifestação ocupou sete quarteirões da avenida, reunindo estudantes, movimentos sociais, artistas e lideranças políticas. A concentração foi tamanha que a estação Trianon-Masp do metrô precisou ser temporariamente fechada. Entretanto, o que deveria ser um acontecimento de grande destaque na televisão brasileira parece não ter recebido, nas principais redes abertas, uma cobertura proporcional à sua dimensão. Essa discrepância merece ser examinada, especialmente quando estamos a apenas duas semanas de um segundo turno presidencial marcado por intensa polarização.

Um exemplo particularmente revelador dessa situação foi a opção da TV Globo de dedicar espaço a uma competição universitária de robótica realizada em São Paulo, conforme demonstra vídeo disponibilizado pela própria emissora no portal G1. Nada tenho contra competições de robótica, muito pelo contrário. O problema está na hierarquia das prioridades jornalísticas. Enquanto milhares de pessoas ocupavam a principal avenida de São Paulo, em um ato de evidente importância política, a Globo encontrou espaço para mostrar robôs. A existência dessa reportagem não comprova, isoladamente, que tenha ocorrido uma substituição deliberada da cobertura da manifestação. Mas o contraste é suficientemente significativo para exigir uma pergunta: por que uma mobilização dessa magnitude não recebeu uma cobertura televisiva à altura de sua relevância?

A resposta pode estar nas escolhas editoriais dos grandes conglomerados de comunicação, que estão longe de ser politicamente neutras em seus efeitos. Não é necessário que uma emissora declare apoio a Flávio Bolsonaro para que suas decisões sobre o que mostrar, quanto mostrar e quando mostrar possam produzir consequências favoráveis à sua candidatura. A reduzida visibilidade de uma manifestação em apoio a Lula, caso confirmada por uma comparação sistemática da programação, representa uma desvantagem objetiva na circulação de imagens e informações sobre a mobilização de seus apoiadores. Em uma disputa eleitoral tão polarizada, a capacidade de demonstrar força nas ruas é parte importante da construção da percepção pública sobre as candidaturas. Limitar essa visibilidade pode, portanto, produzir efeitos eleitorais, ainda que não seja possível demonstrar uma intenção deliberada de favorecer determinado candidato.

Há outro aspecto que torna a cobertura televisiva dessa manifestação especialmente relevante: a forte presença da juventude. As imagens da Paulista desafiam a narrativa de que a esquerda brasileira perdeu sua capacidade de mobilização e de diálogo com as novas gerações. O protagonismo de estudantes e de coletivos juvenis é, por si só, um acontecimento político relevante, independentemente das preferências partidárias de quem o observa. Não deixa de ser pertinente perguntar se uma manifestação de dimensão semelhante organizada por apoiadores de Flávio Bolsonaro receberia o mesmo tratamento das grandes redes de televisão. A resposta exigiria comparar as coberturas, mas a própria necessidade dessa comparação revela a importância de submeter as decisões editoriais ao escrutínio público.

É preciso reconhecer que veículos como UOL, Folha de S.Paulo e CNN Brasil noticiaram a manifestação. Entretanto, publicar uma notícia em um portal e oferecer cobertura robusta na televisão aberta são coisas distintas. A televisão continua sendo um instrumento poderoso de construção da percepção coletiva, sobretudo entre os segmentos da população que não acompanham continuamente as redes sociais. Nesse contexto, a decisão de conceder maior ou menor visibilidade a uma manifestação pode interferir na compreensão pública da realidade política. Não se trata de exigir que as emissoras promovam Lula ou qualquer outro candidato, mas de questionar critérios editoriais que possam resultar em tratamento desigual de acontecimentos de relevância comparável.

A situação é ainda mais preocupante porque a concentração do poder de informar nas mãos de poucos grupos empresariais constitui um problema estrutural da democracia brasileira. A existência de transmissões independentes, como as realizadas pela DiaTV e pela TVT, permite que acontecimentos pouco destacados pela televisão convencional alcancem outros públicos. Entretanto, essa alternativa também depende de plataformas digitais controladas por grandes corporações, cujos algoritmos e mecanismos de moderação podem restringir a circulação de conteúdos. Assim, entre as escolhas editoriais dos conglomerados televisivos e o poder das big techs, a sociedade brasileira permanece sujeita a filtros privados que influenciam profundamente o que pode ser visto, conhecido e debatido.

O que aconteceu neste domingo na Avenida Paulista deveria servir como oportunidade para uma discussão mais ampla sobre o papel político das grandes redes de televisão. Não é necessário comprovar uma conspiração entre emissoras para reconhecer que a hierarquização das notícias possui consequências políticas e que essas consequências podem prejudicar uma candidatura em benefício de outra. A questão fundamental é saber se os critérios utilizados para definir a importância dos acontecimentos estão sendo aplicados de maneira consistente, especialmente durante uma eleição presidencial.

Afinal, o problema não é a Globo mostrar robôs. O problema é a possibilidade de que uma multidão de brasileiros nas ruas receba menos atenção televisiva do que merece. E quando a visibilidade de manifestações políticas depende das conveniências editoriais de grandes corporações, o que está em jogo não é apenas a cobertura de uma eleição, mas a qualidade da própria democracia brasileira.

ADUENF indica voto em Lula: defender a universidade pública exige uma escolha

Decisão aprovada em assembleia parte da defesa dos direitos sociais, da educação pública e da soberania nacional — compromissos que, neste segundo turno, levam ao voto em Lula

A assembleia docente da Associação dos Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (ADUENF), realizada em 8 de outubro, aprovou, por maioria, o posicionamento público da entidade em apoio a Lula no segundo turno das eleições presidenciais. Conforme o informe divulgado pela associação, a decisão está vinculada à defesa da educação pública, à oposição às privatizações e aos cortes orçamentários, ao enfrentamento da extrema direita e à proteção dos direitos sociais dos trabalhadores. Também integra esse posicionamento a defesa das reservas de terras raras e da soberania nacional. Trata-se, portanto, de uma escolha alicerçada em compromissos programáticos que dizem respeito às condições de existência da universidade pública e ao projeto de sociedade que se pretende defender.

Esse ponto é central porque uma entidade sindical não pode tratar a disputa presidencial como se as alternativas fossem indiferentes aos interesses da categoria e da classe trabalhadora. Quem assume a defesa da educação pública, do financiamento das universidades, dos serviços públicos e dos direitos sociais precisa extrair desses compromissos suas consequências políticas. Dentro desse conjunto de critérios e diante das alternativas colocadas neste segundo turno, a única indicação de voto coerente seria em Lula. Uma posição de neutralidade deixaria sem consequência eleitoral justamente os princípios que orientam a atuação da entidade, como se fosse possível defender a universidade e ignorar as ameaças políticas à sua manutenção.

Isso não significa conceder um cheque em branco a Lula, muito menos suspender as críticas às políticas de seu governo. Apoiar sua candidatura a partir de uma perspectiva programática implica preservar a autonomia sindical e continuar cobrando financiamento adequado para a educação, valorização dos servidores, proteção dos direitos trabalhistas e medidas efetivas em defesa da soberania nacional. O voto não encerra essas disputas, nem substitui a mobilização. Ao contrário, precisa estar associado à disposição de enfrentar qualquer governo quando suas decisões contrariem os interesses dos trabalhadores. A coerência está em combinar a escolha eleitoral com a independência necessária para cobrar o cumprimento dos compromissos que a justificam.

No caso da UENF, essa compreensão ganha uma dimensão concreta. O informe da assembleia registra preocupação com ameaças ao financiamento das universidades, possíveis cortes orçamentários e falta de diálogo com o Governo do Estado, além da necessidade de intensificar a mobilização pela aprovação do PCV. Estas  são questões que demonstram como as escolhas políticas chegam ao cotidiano da universidade, às condições de trabalho e à capacidade de atender à sociedade. A decisão da ADUENF reconhece essa ligação e assume uma responsabilidade que não pode ser terceirizada: se o programa defendido é o da educação pública, dos direitos sociais e da soberania nacional, o voto precisa acompanhar essa defesa. Neste segundo turno, isso significa indicar o voto em Lula e manter a organização da categoria para as lutas que continuarão depois das urnas.

As ruas despertaram, os estudantes entraram em cena e o bolsonarismo já arreganha os dentes

Enquanto mobilizações estudantis desafiam o domínio dos algoritmos sobre a política, ameaças contra universidades revelam a dificuldade de setores bolsonaristas em conviver com a democracia

A repentina aparição de milhares de estudantes nas ruas brasileiras em defesa da candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve estar surpreendendo os dois lados da disputa presidencial. Afinal, parece que finalmente temos uma campanha eleitoral que ganhou as vias públicas e começou a escapar dos grotões das redes sociais, onde o debate político tem sido crescentemente condicionado pelos algoritmos e pelos interesses econômicos das chamadas big techs. O que estamos assistindo pode representar uma inflexão importante no processo eleitoral, na medida em que a política deixa de ser exercida exclusivamente por meio de telas e mensagens eletrônicas e volta a ocupar um dos seus espaços históricos mais importantes: as ruas, as praças e os ambientes de convivência coletiva.

Duas coisas me chamam particularmente a atenção nesse processo. A primeira é uma pergunta que vale vários milhões de dólares: por que raios isso só aconteceu agora, e não ao longo do primeiro turno, que mais pareceu um velório da democracia brasileira do que uma disputa entre dois projetos aparentemente antagônicos de gestão do Estado brasileiro? A segunda se refere à rápida reação de setores do bolsonarismo, que já recorreram à manjada tática de ameaçar para constranger, inclusive mediante referências à violência física e à utilização de explosivos. Essa reação é especialmente preocupante porque sugere que determinados grupos continuam considerando a intimidação como um instrumento legítimo de intervenção política, especialmente quando percebem que estão perdendo o monopólio da mobilização e da ocupação dos espaços públicos.

A propósito dessa retomada das ruas, chamou-me a atenção uma coluna publicada por Josias de Souza no UOL, em 7 de outubro, sob o título “Na era do algoritmo, Lula ainda aposta em adesivos e panfletos”. O jornalista questiona a estratégia de comunicação da campanha de Lula, contrapondo a utilização de materiais tradicionais de propaganda eleitoral à crescente importância das plataformas digitais. Reconheço que os algoritmos possuem uma força extraordinária na formação das percepções e preferências eleitorais, mas discordo da ideia de que a eficácia de uma campanha possa ser medida prioritariamente pela quantidade de dinheiro despejada nos cofres das big techs. Os algoritmos se tornam particularmente decisivos quando a política abandona as ruas, as praças, os locais de trabalho e as universidades, deixando que a formação da opinião pública seja crescentemente monopolizada por empresas privadas cujos interesses nem sempre coincidem com os da democracia.

Aliás, talvez esteja justamente aí uma das lições mais importantes dessas mobilizações estudantis. Os algoritmos podem ampliar o alcance de mensagens, mas não substituem a experiência política construída no contato direto entre as pessoas. Um panfleto entregue durante uma conversa, uma assembleia estudantil ou uma manifestação de rua podem produzir algo que milhões de visualizações não necessariamente conseguem: o estabelecimento de vínculos sociais e políticos que não dependem da mediação de uma plataforma digital. Não se trata de defender o abandono das redes sociais, mas de compreender que a comunicação digital deve servir como instrumento de ampliação da mobilização popular, e não como substituta da organização coletiva. Talvez o verdadeiro atraso político não esteja em distribuir panfletos na era dos algoritmos, mas em imaginar que a democracia pode ser exercida exclusivamente por meio de curtidas, compartilhamentos e conteúdos patrocinados.

Mesmo na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), que não possui uma cultura estudantil marcada por disputas políticas particularmente virulentas, já tivemos relatos de ameaças de bombas e de morte atribuídas a um grupo que se identificou como “Campistas por Bolsonaro” (o campista aqui se relaciona ao fato de que o campus principal da Uenf está localizado na cidade de Campos dos Goytacazes). Como professor da Uenf há quase 30 anos, esse episódio me chamou particularmente a atenção, pois não imaginava que algo dessa gravidade pudesse ocorrer logo na primeira semana do segundo turno presidencial. Evidentemente, a autoria dessas ameaças precisa ser investigada, mas sua ocorrência já representa um fato suficientemente grave para exigir uma resposta institucional firme em defesa da segurança da comunidade universitária e da liberdade de manifestação.

O caso da Uenf é particularmente revelador das contradições históricas e políticas de seus próprios estudantes bolsonaristas. A universidade foi criada por Leonel Brizola, teve seu desenho institucional formulado por Darcy Ribeiro e a estrutura arquitetônica do seu principal campus projetada por Oscar Niemeyer. Estamos falando, portanto, de uma instituição cuja própria existência está profundamente associada a personagens históricos situados no campo oposto à tradição ideológica reivindicada pelo bolsonarismo. Se fosse para levar essa contradição às últimas consequências, um bolsonarista raiz deveria fugir da Uenf como o diabo foge da cruz. Entretanto, a universidade não apenas possui professores alinhados ao bolsonarismo, como também abriga estudantes que compartilham dessas posições, o que, por si só, não constitui qualquer problema. O problema começa quando a divergência política deixa de ser expressa por meio de argumentos e passa a assumir a forma de ameaças destinadas a impedir que outros integrantes da comunidade universitária exerçam seus direitos de manifestação.

De toda forma, penso que é muito melhor termos um ambiente politicamente contraditório e agitado no segundo turno do que aquilo que se viu na primeira rodada da eleição presidencial. Pelo menos agora começa a existir alguma possibilidade de discussão pública sobre as propostas dos candidatos e suas consequências concretas para a população brasileira. No caso das universidades públicas, esse debate é ainda mais necessário, pois estamos falando de instituições responsáveis pela parcela predominante da produção científica nacional e pela formação de profissionais e pesquisadores indispensáveis ao funcionamento do país. O futuro dessas instituições não pode ficar subordinado a slogans eleitorais ou a campanhas de desinformação. É preciso discutir financiamento, autonomia universitária, valorização dos servidores, políticas de permanência estudantil e o papel estratégico da ciência e da tecnologia na construção de um projeto nacional.

Entretanto, há um sinal de alerta que merece especial atenção e que foi reforçado pelo incêndio no prédio que abrigava a Diretoria de Inovação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O episódio, que deverá ser investigado com todo o rigor, ocorreu em um contexto de relatos de ameaças atribuídas a grupos bolsonaristas descontentes com manifestações favoráveis à candidatura de Lula naquela instituição. Até que as investigações sejam concluídas, não é possível afirmar que exista uma relação causal entre as ameaças e o incêndio. Entretanto, o ambiente de intimidação relatado justifica preocupação e exige esclarecimentos transparentes. É fundamental que as administrações universitárias, os órgãos de segurança pública e a Justiça Eleitoral atuem para assegurar que o segundo turno transcorra em um ambiente de liberdade e segurança, sem que ameaças sejam utilizadas para afastar estudantes e professores dos espaços de participação política.

Há, finalmente, uma dimensão especialmente promissora nesse despertar estudantil. Uma geração que participa diretamente de mobilizações políticas tem a oportunidade de experimentar algo que nenhuma plataforma digital consegue substituir integralmente: o encontro com pessoas reais, portadoras de opiniões, experiências e interesses distintos. É nas ruas, nas assembleias e nos debates presenciais que se aprende que a política não se resume a compartilhar conteúdos com aqueles que já concordam conosco. A experiência democrática exige ouvir argumentos contrários, defender posições publicamente e reconhecer que o conflito de ideias é legítimo, desde que não seja substituído pela violência. Por isso, espero que a movimentação estudantil não seja apenas um fenômeno passageiro, destinado a desaparecer assim que forem contabilizados os votos do segundo turno.

Se o primeiro turno pareceu um velório da democracia, talvez o segundo esteja oferecendo sinais de que ainda há disposição social para ressuscitar a política como atividade coletiva. Isso, por si só, já seria uma excelente notícia. Afinal, os algoritmos podem influenciar eleições, manipular percepções e até produzir resultados eleitorais surpreendentes, mas seu poder não é absoluto. Quando as pessoas recuperam as ruas e a disposição de conversar olho no olho, a política deixa de ser apenas uma mercadoria comercializada pelas big techs e volta a ser uma atividade exercida diretamente pelos cidadãos. E talvez seja justamente essa possibilidade de devolver a política às pessoas, e não aos algoritmos, que esteja provocando tanto desconforto entre aqueles que preferem uma sociedade silenciosa, intimidada e confinada às telas dos celulares.