A política climática do Brasil está numa encruzilhada

O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, durante cerimônia de assinatura do contrato de navios da Transpetro para o Programa de Renovação da Frota Naval do Sistema Petrobras. Estaleiro Ecovix, Rio Grande. Imagem: Palácio do Planalto

Por Monica Piccinini para o The Ecologist 

O Brasil vive um momento crucial na história como anfitrião da 30ª Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) das Partes (COP30). 

Em novembro, os holofotes estarão voltados para Belém, capital do Pará, que sediará a COP30, reunindo líderes mundiais, ativistas, corporações e formuladores de políticas para enfrentar os desafios ambientais mais urgentes do mundo, onde os riscos nunca foram tão altos.

Isto é mais do que apenas uma cúpula global: é uma oportunidade para a nação se estabelecer como líder na agenda climática e dar um exemplo para o mundo. 

Urgente

Com os desastres climáticos se intensificando e o desmatamento ameaçando os ecossistemas mais críticos do planeta, o Brasil tem a responsabilidade e o poder de promover mudanças reais.

Para o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, a COP30 representa um momento decisivo. É uma chance de tomar medidas ousadas e decisivas, protegendo a rica biodiversidade do Brasil, interrompendo o desmatamento e a degradação da floresta amazônica e fechando a porta para uma maior expansão dos combustíveis fósseis. 

O mundo está observando para ver se o Brasil vai intensificar políticas concretas e execução que protejam seus recursos naturais. Se Lula aproveitar este momento, o Brasil não estará apenas sediando a COP30, mas estará liderando a carga em direção a um futuro mais sustentável e resiliente.

Cássio Cardoso Pereira, ecologista , biólogo conservacionista e editor dos periódicos BioScience , Biotropica e Nature Conservation , compartilhou sua perspectiva sobre a COP30.

Ele disse: “O Brasil está em uma encruzilhada. Eventos como COPs podem gerar ideias, mas sem um compromisso real, eles não conseguirão impulsionar a mudança urgente de que precisamos. 

Troca

“Declarações vazias sobre ter a maior floresta tropical do mundo e abundantes recursos renováveis ​​não significam nada se ignorarmos os incêndios, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e a destruição implacável que os ameaçam.”

Em 2024, o mundo testemunhou novos recordes alarmantes nos níveis de gases de efeito estufa e no aumento das temperaturas da superfície do ar e do mar, conforme monitorado pelo Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus. 

Essas mudanças desencadearam eventos climáticos extremos em todo o mundo, inclusive no Brasil, destacando a necessidade urgente de as nações eliminarem gradualmente os combustíveis fósseis. 

No entanto, em vez de tomar medidas decisivas, os países, incluindo o Brasil, estão aumentando a produção de combustíveis fósseis, levando o planeta ainda mais para a crise.

O caminho do Brasil é profundamente preocupante. De acordo com o Ministério do Comércio do país, as exportações de petróleo subiram para US$ 44,8 bilhões neste ano, superando a soja como a principal exportação do país. 

Esta é uma oportunidade para o Brasil se manter firme e priorizar proteções ambientais, ações climáticas e direitos indígenas. 

Degradação

Projeções da Rystad Energy indicam que até 2030, a produção de petróleo do Brasil ultrapassará sete milhões de barris de óleo equivalente por dia (boepd), elevando o país do sétimo para o quinto maior produtor de petróleo do mundo.

Em 2024, a gigante petrolífera estatal Petrobrás atingiu um nível de produção impressionante de 2,4 milhões de barris de petróleo por dia. Com o apoio total de Lula , a empresa está avançando com planos controversos para expandir a exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas, uma região ecologicamente frágil. 

Este projeto ameaça recifes de corais vitais, extensos manguezais e os meios de subsistência de comunidades indígenas e locais. Além desses perigos imediatos, os riscos de vazamentos de óleo e o aumento das emissões de gases de efeito estufa podem ter consequências globais catastróficas.

Pereira enfatizou que as escolhas do Brasil hoje determinarão se ele conterá o colapso ambiental ou acelerará uma catástrofe climática.

Ele disse: “O Brasil deve promover um diálogo inclusivo e transparente, que ouça todas as vozes, especialmente as comunidades indígenas, em vez de ser abafado por desinformação e intolerância. Enquanto o desmatamento ganha as manchetes, a crise mais profunda da degradação florestal continua sem controle. 

Acelerando

“E agora, projetos imprudentes, incluindo a rodovia BR-319, a ferrovia Ferrogrão e a proposta desastrosa de perfuração de petróleo na foz do Amazonas, levam a floresta tropical mais perto do colapso.”

Ele acrescentou: “Se essas ameaças forem ignoradas e enterradas sob gentilezas diplomáticas, o Brasil não apenas falhará em suas metas de emissões, mas trairá sua responsabilidade com o planeta. A hora para uma ação real é agora,” 

rodovia BR-319 , um trecho de 885 km que liga a capital do Amazonas, Manaus, a Porto Velho, atravessa uma das regiões mais intocadas da floresta amazônica. 

Agora, com uma proposta de reconstrução de 406 km, esse projeto ameaça desencadear uma cadeia de destruição , transformando um ecossistema intacto em uma porta de entrada aberta para o desmatamento, o crime e a ganância corporativa. 

As consequências não seriam apenas locais, elas se espalhariam pelo Brasil e pelo mundo, acelerando o colapso climático e colocando as comunidades indígenas em risco extremo.

Reconstruída

No centro desse desastre iminente está a região da AMACRO , um hotspot de desmatamento que abrange os estados do Amazonas, Acre e Rondônia. Se a BR-319 for reconstruída, ela abriria um caminho direto entre essas terras fortemente desmatadas e o coração intocado da Amazônia. 

Com a floresta tropical já se aproximando de um ponto de ruptura irreversível, esta rodovia pode ser o gatilho que a levará ao limite. 

A floresta tropical, há muito considerada o “pulmão da Terra”, desempenha um papel crucial na estabilização das temperaturas globais. Destruí-la aceleraria a mudança climática, tornando eventos climáticos extremos ainda mais frequentes e devastadores.

Além da catástrofe ambiental, o custo humano é impressionante. A rodovia exporia 69 comunidades indígenas , mais de 18.000 indígenas, a invasões de terra, violência e deslocamento. 

A grilagem de terras , a mineração e a extração de madeira já causaram danos à Amazônia, mas com a BR-319 recém-reconstruída, essas atividades se expandiriam descontroladamente. 

Crescimento

Mais de 6.000 km de estradas ilegais já foram construídas na BR-319 e, com mais expansão, o crime organizado só fortalecerá seu domínio na região, colocando em perigo tanto a vida dos indígenas quanto a dos defensores da floresta tropical.

A ameaça se estende além da terra. A destruição da floresta tropical pode interromper os “rios voadores”, correntes de ar carregadas de água que trazem chuva para vastas áreas do Brasil. 

Sem elas, as secas poderiam devastar a agricultura e o abastecimento de água, afetando milhões de pessoas. Pior ainda, o desmatamento poderia criar condições para que novas doenças zoonóticas passassem da vida selvagem para os humanos, aumentando o risco de outra pandemia global . Em um mundo que ainda luta contra os efeitos da COVID-19, esse é um risco grande demais para ser ignorado.

Apesar dos alertas urgentes dos renomados cientistas Lucas Ferrante e Phillip Fearnside, o governo brasileiro permanece impassível. 

Com o total apoio do presidente e apoio de políticos, líderes empresariais e até mesmo de algumas ONGs , a pavimentação da BR-319 está sendo impulsionada em nome do crescimento econômico. 

Ecossistemas

Mas os verdadeiros beneficiários são as poderosas indústrias por trás do petróleo e gás, do agronegócio e da mineração, tanto legais quanto ilegais, enquanto a Amazônia e seu povo sofrem o preço final.

Lucas Ferrante, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), disse: “Isso é mais do que uma estrada; é um ponto de inflexão. 

“Desmatamento e degradação já são vistos ao redor da BR-319. Se a rodovia for reconstruída, isso pode desencadear uma reação em cadeia irreversível que devastará a Amazônia, prejudicará comunidades indígenas e acelerará as mudanças climáticas além do controle. 

“A escolha é clara: ou ouça a ciência e proteja a floresta tropical, ou deixe que os lucros de curto prazo destruam um dos últimos grandes ecossistemas do mundo. O mundo está assistindo e o que acontecer a seguir definirá o futuro da Amazônia, do Brasil e do planeta.”

Bioeconomia

Na COP30, o Brasil demonstrará seu comprometimento em construir uma bioeconomia forte, uma oportunidade para liberar sua vasta riqueza natural e impulsionar o crescimento econômico.

No centro dessa ambição está a expansão agressiva dos biocombustíveis, um pilar fundamental da estratégia de descarbonização do Brasil, reforçada pela Lei do Combustível do Futuro do presidente Lula, aumentando a obrigatoriedade dos biocombustíveis no país.

No entanto, esse caminho não é sem consequências . A crescente demanda por culturas de biocombustíveis, cana-de-açúcar, soja, milho e óleo de palma ameaça a segurança alimentar, impulsiona o desmatamento e coloca imensa pressão sobre ecossistemas vitais. 

A conversão de terras acelera as emissões de gases de efeito estufa, enquanto o esgotamento da água, a erosão do solo e a poluição pelo uso de agrotóxicos levantam sérias preocupações sobre a sustentabilidade desse modelo.

No Pará, a expansão do óleo de palma tem gerado conflitos , marcados por denúncias de crimes ambientais e violência contra comunidades indígenas e tradicionais.

Jorge Ernesto Rodriguez Morales , professor e pesquisador em política ambiental e governança de mudanças climáticas no Departamento de História Econômica e Relações Internacionais da Universidade de Estocolmo, disse: “A diplomacia do etanol do Brasil visa retratar a nação como consciente do clima, usando o biocombustível como alavanca nas negociações climáticas.

Carne bovina

“Muitos países seguiram o exemplo ‘bem-sucedido’ do Brasil ao integrar a bioenergia em suas políticas climáticas, embora seus custos sociais e ambientais sejam amplamente reconhecidos.”

O Brasil está em um momento decisivo. Sua bioeconomia estabelecerá um exemplo global de verdadeira sustentabilidade ou o progresso terá um custo irreversível?

Em 2024, o Brasil testemunhou uma crise ambiental catastrófica. De acordo com o monitor de incêndios do MapBiomas , impressionantes 30,8 milhões de hectares (119.000 milhas quadradas) de terra foram consumidos por incêndios, uma área maior que a Itália, marcando um aumento chocante de 79 por cento em relação a 2023. 

A Amazônia, já sob imensa pressão, enfrentou seu pior ano de incêndios em 17 anos. No centro dessa devastação estão os pecuaristas, limpando vastas extensões de terra para agricultura e pastagem.

Enquanto isso, o Brasil estabeleceu um recorde sombrio, exportando a maior quantidade de carne bovina de sua história: 2,89 milhões de toneladas avaliadas em US$ 12,8 bilhões, conforme relatado pela Associação Brasileira dos Exportadores de Carne Bovina (ABIEC). A maior parte dessa carne bovina foi para a China, seguida pelos EUA, Emirados Árabes Unidos e UE.

Violando

A pecuária é uma das principais responsáveis ​​pela destruição da Amazônia , sendo responsável por 88 % do desmatamento .

A ONG global Global Witness responsabiliza três grandes gigantes brasileiras de frigoríficos, JBS, Marfrig e Minerva, por grande parte dessa devastação. Essas empresas estão ligadas à destruição de vastas extensões de floresta no Mato Grosso, uma área maior que Chicago.

A JBS, maior exportadora de carne bovina do mundo e segunda maior produtora de carne bovina , emprega mais de 250.000 pessoas globalmente e gerou uma receita estimada de US$ 77 bilhões em 2024, contribuindo com cerca de 2,1% do produto interno bruto (PIB) do Brasil. 

No entanto, os lucros da empresa são construídos sobre uma base de degradação ambiental, desmatamento e exploração. 

A JBS foi acusada de greenwashing , promoção de práticas insustentáveis ​​e violação de direitos humanos, incluindo trabalho infantil em seus frigoríficos nos EUA.

Destruindo o clima

Um relatório da ONG Mighty Earth revelou a extensão chocante desses crimes. JBS, Marfrig e Minerva obtiveram gado de um fazendeiro acusado de desmatar ilegalmente 81.200 hectares de terra, uma área quase quatro vezes maior que Amsterdã. 

Este fazendeiro também foi relacionado ao uso de um produto químico tóxico, 2,4-D (um componente do Agente Laranja), para desmatar suas terras, marcando o maior caso de desmatamento já registrado no Mato Grosso.

João Gonçalves, diretor sênior da Mighty Earth para o Brasil, disse: “Nossa análise recente mostra que a JBS ainda está ligada ao desmatamento desenfreado em suas cadeias de fornecimento de carne bovina no Brasil e está na parte inferior do Scorecard da Mighty Earth quando se trata de lidar com o problema. 

“A admissão feita há algumas semanas de que tem ‘controle zero’ de sua cadeia de suprimentos significa que a JBS não se importa de onde obtém sua carne, incluindo de fazendas que estão destruindo a Amazônia. 

“A JBS está mexendo nos limites da exigência de rastreabilidade até os fornecedores de gado, ao mesmo tempo em que expande maciçamente suas operações de carne que destroem o clima. 

Estratégias

Ele acrescentou: “Isso inclui um grande acordo com a China, que tem o apoio do presidente Lula, que prometeu acabar com o desmatamento na Amazônia até 2030, mas seu apoio à expansão da JBS pode levar a Amazônia para mais perto de um ponto de inflexão irreversível. 

Os olhos do mundo estarão voltados para o Brasil na COP30 e a ótica já não é boa com as mensagens confusas e ações contraditórias do governo.”

Em 2023, Lula estabeleceu o “Conselhão“, um conselho voltado para a promoção do desenvolvimento socioeconômico sustentável (CDESS). Este grupo, composto por cerca de 250 representantes de vários setores e da sociedade civil, foi formado para fornecer orientação sobre o desenvolvimento de políticas e estratégias econômicas, sociais e “sustentáveis”.

Entre os membros do grupo consultivo do CDESS estão grandes corporações como JBS, Copersucar, Cargill, Cosan, Raízen, Comgás, Novonor (antiga Odebrecht), Unilever, Braskem, Meta, Google, Microsoft.

Sustentável

Também integram o grupo figuras de destaque como Eraí Maggi Scheffer, um dos maiores produtores de algodão e soja do Brasil; Erasmo Carlos Battistella, empresário ligado ao agronegócio e à produção de biodiesel; e Rosana Amadeu da Silva, presidente da Central Nacional das Indústrias de Cana-de-Açúcar e Biocombustíveis.

Quanta influência essas corporações realmente detêm sobre as políticas econômicas, sociais e ambientais do Brasil? Seu poder se estenderá para moldar o curso da COP30?

Enquanto o mundo se reúne neste momento crítico, a questão permanece: a COP30 se tornará mais um palco para as indústrias poluentes continuarem seus negócios normalmente, ou o Brasil aproveitará a oportunidade para demonstrar seu comprometimento com o futuro do planeta?

Esta é uma chance para o Brasil se manter firme e priorizar proteções ambientais, ações climáticas e direitos indígenas sobre as forças do desenvolvimento irresponsável, lucro e ganância. Os riscos estão mais altos do que nunca, e o mundo está observando de perto. 

As promessas do presidente Lula serão mais do que apenas palavras, e elas evoluirão para as ações ousadas e transformadoras de que nosso planeta precisa tão urgentemente? O momento para uma ação decisiva é agora. O mundo está esperando que o Brasil lidere com integridade, coragem e uma visão para um futuro sustentável.

Esta autora

Monica Piccinini é colaboradora regular do The Ecologist e escritora freelancer focada em questões ambientais, de saúde e direitos humanos.


Fonte: The Ecologist

Com Lula ruim, sem ele pior? A capitulação como ferramenta política nunca é boa conselheira

Li hoje um arrazoado feito por um dirigente do PSOL que conheci há mais de 40 anos  nos corredores do movimento estudantil da UFRJ que é um desses primores da capitulação política antecipada. Segundo esse dirigente, que não vou citar o nome porque a mensagem dele é mais importante do que o personagem, o PSOL deveria apoiar (provavelmente a reeleição do) presidente Lula porque segundo ele se “estamos mal com Lula, estaremos muito pior sem ele”.

Para não deixar dúvidas, esse dirigente coloca a culpa desse verdadeiro beco sem saída na classe trabalhadora que teria sido conquistada pelas ideias neoliberais e anti-estado que culminam no desprezo pela “carteira assinada”. Por isso, diz ele,  “no atual período político não existe esse espaço, pois “o que resta de classe trabalhadora orientada pela esquerda pode ser insuficiente para derrotar a extrema direita e é esta que se coloca como alternativa.” Alguma palavra sobre os erros políticos cometidos por Lula e as políticas pró-banqueiros do seu govenro?  Nenhuma.

Outro aspecto é a crítica feita aos setores do PSOL que rejeitam a tese do “mal com Lula, pior sem ele”. Para estes, resta a acusação de que estão em uma “campanha de desconstrução, tanto em relação ao governo como em relação às principais figuras públicas do PSOLque está na base do governo.” A questão aqui é que de uma forma bem explícita, a intenção é interditar o debate sobre a necessidade de uma nova orientação para a esquerda no Brasil, uma que rejeite o social neoliberalismo que é a marca registrada do terceiro mandato de Lula e seu governo de frente amplíssima com a burguesia.

O que me parece interessante é que não há qualquer menção ao processo eleitoral alemão, onde em condição de “pari passu” com o crescimento da extrema-direita, ocorreu um crescimento do “Die Linke”, partido de esquerda oriundo do antigo Partido Comunista da Alemanha Oriental, que desafiando os anúncios precoces de sua morte, teve uma votação que praticamente duplicou suas cadeiras no parlamento alemão. É que pela lógica desse dirigente do PSOL, o pessoal do “Die Linke” deveria ter se resignado com o destino apontado nas pesquisas eleitorais e aberto mão de sua campanha em nome da candidatura morimbunda de Olaf Scholz.

A verdade é que se continuarmos abraçando a concepção de que “mal com Lula, pior sem ele”, as chances da extrema-direita vencer as eleições gerais de 2026 com folga não são nada desprezíveis. E isso está se desenhando por causa das políticas de Lula que favorecem o sistema financeiro e punem a classe trabalhadora. Assim, em vez de ficarmos aceitando o mal menor, há que se começar a assumir a necessidade de termos candidaturas de esquerda e anti-neoliberais. Com isso, haveria a possibilidade de educar os segmentos da classe trabalhadora atualmente sob influência da extrema-direita, e de também empurrar Lula para a esquerda.

Mudanças climáticas, exploração de petróleo na Foz do Amazonas e o PIB: as sinapses que faltam

Por Marijane Vieira Lisboa,  Tomás Tarquinio Togni e Jean Marc von der Weid para o “68naluta”

Crescem as pressões para que o IBAMA conceda licença para a pesquisa sobre o petróleo na Foz do Amazonas. Lula pressiona Marina, dizendo que certamente não é ela quem está criando problemas (leia-se, é o Rodrigo Agostinho do Ibama?); Marina rebate a bola dizendo que não tem nada a ver com uma decisão a respeito, já que o licenciamento é um ato técnico  e o Lula volta a afirmar que o Brasil quer explorar o petróleo e uma das razões para isso é financiar a transição energética. Outros argumentos esgrimidos pela turma dos “dedos sujos de petróleo” é o esperado aumento do PIB e a provável falta de petróleo daqui há dez anos quando nossas reservas se esgotarem.

Tudo muito estranho, porquê:

1.Abrir novas fontes de exploração de petróleo, inclusive as da Margem Equatorial, não são decisões técnicas, mas decisões transcendentais na área de política ambiental. Ou caminhamos para uma política de abandono das fontes fósseis – carvão, petróleo e gás – ou insistimos no rumo suicida da catástrofe climática. A Agência Internacional de Energia afirma que o Planeta não deveria abrir nenhuma nova exploração de energias fósseis se quiser manter a elevação da temperatura média até 2º. Assim, não há porque a ministra Marina dizer que não tem nada a ver com isso, aliás foi ela quem quis acrescentar ao nome do Ministério de Meio Ambiente a expressão “Mudanças Climáticas”. Se formos explorar petróleo na Margem Equatorial, escolhemos o rumo suicida e ela terá sido responsável por isso, por omissão.

2. Não precisamos  explorar petróleo para financiar a transição energética. Energia eólica, solar, eficiência energética e outras soluções são bem mais baratas do que abrir novos poços, plataformas marítimas e construir a infraestrutura necessária para isso. Eventuais rendas do petróleo extraído na Margem Equatorial só começariam a fluir daqui uns dez anos, quando, aliás, será bastante tarde para tocar um programa de transição energética.

3. O argumento de que precisamos de explorar o petróleo para aumentar o PIB também não se sustenta porque aumentos de PIB não significam automaticamente melhora da qualidade de vida de um país ou região. Tudo depende de para quem vai e como um Estado distribui a riqueza que ele arrecada. A exploração do Pré-Sal não fez do Estado do Rio de Janeiro uma região mais desenvolvida, com melhores escolas, saúde e moradia. Mas certamente mais poluída, custo de vida e moradias mais caras e até maior criminalidade. Se vamos gastar dinheiro para construir plataformas, estradas, portos, oleodutos para explorar petróleo, melhor construir escolas, hospitais, avançar no saneamento, pagar salários melhores a professores, assistentes sociais e médicos. O PIB aumentará igualmente, mas irá diretamente para os bolsos da população em vez de se perder por aqueles meandros que conhecemos.

4. Finalmente, se o problema é o temor de ficarmos sem petróleo daqui a dez anos, melhor guardar o que temos em vez de exportá-lo, pois o petróleo tem sido uma das principais commodities da nossa pauta de exportação, além da soja, do ferro e da carne.

Assim, à falta de sinapses para justificar a abertura de novos poços de petróleo justamente quando o governo Lula diz reconhecer que estamos enfrentando uma emergência climática, não há porque não desconfiar de outros motivos ocultos para tal. Obras tem impacto a curto prazo, gerando um fluxo de dinheiro que alimenta campanhas eleitorais, emendas parlamentares e outras coisas menos confessáveis. Não é à toa que Alcolumbre é um dos maiores interessados nesse assunto.

Não, Marina, explorar a Margem Equatorial não é apenas uma decisão técnica. Antes do licenciamento, há uma decisão sobre a política brasileira de enfrentamento das Mudanças Climáticas que precisa ser tomada. Diga a que você veio.

Não, Lula, o Brasil não quer explorar a Margem Equatorial. Não fale em nosso nome. Isso não estava no seu programa eleitoral e você não nos consultou.

Marijane Vieira Lisboa é Socióloga, ambientalista, Professora da PUC-SP,  Tomás Tarquinio Togni e Antropólogo, ambientalista, e Jean Marc von der Weid é Ex-presidente da UNE entre 1969 e 1971,  Fundador da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) em 1983,  Membro do CONDRAF/MDA entre 2004 e 2016 e Militante do movimento Geração 68 Sempre na Luta


Fonte: 68naluta

Com seu ataque ao Ibama, Lula chancela que a COP30 será (mais uma) COP das petroleiras

O ataque de nervos do presidente Lula em relação à cuidadosa análise técnica que os técnicos do Ibama estão realizando no processo de licenciamento ambiental feito a pedido da Petrobras já garante pelo menos uma coisa sobre a  30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) que deverá ser realizada na cidade de Belém entre os dias 10 e 21 de novembro: esta será mais uma COP que será controlada pelas empresas de petróleo, com a benção direta do presidente do Brasil.

Ao atacar a capacidade técnica dos servidores do Ibama porque estão fazendo o que deveriam estar fazendo e somar a isso um discurso claramente pró-combustíveis fósseis, o presidente Lula faz claramente o jogo das grandes multinacionais que hoje controlam a exploração da camada Pré-Sal. E, pior, usa a Petrobras como uma espécie de espantalho nacionalista que visa pressionar os servidores do Ibama para não fazerem corretamente o seu trabalho.

Além disso, Lula tenta disfarçar seu compromisso com a continuidade da exploração do petróleo, seja onde for, com o discurso de que o óleo e gás que saírem dos eventuais poços instalados na Margem Equatorial irá financiar a transição energética brasileira. Esse é um discurso que não resiste a um exame mínimo de realidade.  A verdade nua e crua é que Lula acredita piamente na continuidade da exploração do petróleo como fonte de geração de crescimento econômico, independente dos danos ambientais e sociais que isso causa.

Assim, aos que já perceberam que beiramos o colapso climático e que vivemos as evidências disso a partir de temperaturas cada vez mais altas, o melhor a fazer é não cair na ideia de que algo de positivo saíra da COP30. O máximo que vai acontecer é a produção de mais documentos protelatórios, enquanto se assista ao circo literalmente pegando fogo.

E o que fazer então? Eu diria é que precisamos concentrar esforços na produção de uma massa crítica que seja capaz de explicar a gravidade do momento a quem mais tem a perder com as mudanças drásticas no clima da Terra.

E Lula no meio disso tudo? Ele certamente fará algum discurso bonito na abertura da COP30, mas que terá o mesmo valor de uma nota de 2 dólares.

O Brasil sob o Lula III: uma economia fóssil e fortemente (agro) tóxica

Quem ouviu o discurso da terceira posse do presidente Lula ficou com a impressão que haveria algum nível de ruptura com o período de Jair Bolsonaro, fosse na pauta de costumes ou na ancoragem da economia brasileira. Passados pouco mais de dois anos, aquele discurso jaz abandonado nas práticas e costumes das ações práticas do governo Lula.

E, pior, o que se vê é o reforço do apoio às ações do latifúndio agro-exportador e sua agricultura envenenada, e ainda pressões explícitas para o avanço das explorações petrolíferas na região da foz do Rio Amazonas, uma área tão biodiversa quanto perigosa para a instalação das estruturas que tratam da extração de petróleo e gás.

Pouca gente nota, mas no Lula III até o discurso neodesenvolvimentista foi jogado para escanteio, e ninguém no atual governo faz sequer menção à ideia de que precisamos desenvolver o Brasil e não simplesmente correr atrás de superávits na balança comercial.  Vivemos uma época de realismo trágico, pois o que parece importar mesmo é garantir que Lula III vire Lula IV, sem que isso nos ofereça qualquer janela para um futuro menos poluído, quente e catastrófico como se antevê com o aprofundamento da crise sociambiental que as mudanças no clima da Terra estão trazendo.

O presidente Lula sequer nos aponta para o simulacro de utopia que seu discurso de posse sinalizou. Lula agora é uma versão garoto-propaganda da economia fóssil que se cala com os crimes cometidos contra os povos originários que são a nossa última barreira de defesa contra a perda das florestas tropicais. Há ainda que se lembrar que ao insistir na pavimentação da BR-319, Lula fornece a justificativa ideológica que todos os tipos de aventureiros existentes na Amazônia avancem de forma decidida para destruir o último grande bloco de reservas relativamente intacto que ainda escapou da sanha devastadora dos desmatadores. Mais ainda, fornece uma via de acesso fácil para que a destruição se espalhe, em que pesem todas as evidências científicas do que a destruição da floresta amazônica traz para o Brasil.

Curiosamente quem se arrisca a falar o óbvio sobre as ações práticas do Lula III ainda corre o risco da demissão sumária como foi o caso do economista David Deccache que foi demitido do posto de assessor da bancada federal do PSOL por ousar criticar o viés neoliberal do ministro Fernando Haddad.  Esse caso é uma expressão de como a visão fóssil e (agro) tóxica está enraizada na esquerda institucional que parece ter capitulado sem nenhuma vergonha a um modelo econômico que apenas reforça as profundas desigualdades historicamente existentes no Brasil.

Mas em meio a essa situação tão desafiadora é preciso dizer que não há tempo para lamentações. As tarefas postas pela perpetuação pela economia fóssil e (agro) tóxica precisam ser enfrentadas de forma urgente, até porque esse modelo é garantia de que continuaremos caminhando para um cenário climático catastrófico para a classe trabalhadora brasileira.  É preciso informar, dialogar e mobilizar todas as forças sociais que se opõe ao modelo neoliberal que controla o Estado brasileiro neste momento, independente de quem esteja no controle da máquina federal.  A verdade é que as consequências para a inação são fortes demais para que deixemos tudo como está, como se não houvesse outra saída. A verdade é que as saídas existem, mas não será com a continuidade de Lula como garantidor de um futuro melhor que isso vai acontecer. E quanto antes entendermos isso, mais fácil será iniciar a construção dos instrumentos que a crise social e climático nos demanda nesta conjuntura histórica.

Ah, sim, quando acenarem com o espantalho da extrema-direita, lembrem que tanto Hugo Motta quanto David Alcolumbre foram eleitos por uma aliança cada vez mais corriqueira entre o PT de Lula com o PL de Jair Bolsonaro.

A guerra tarifária de Trump alcançará o Brasil e colocará desafios para o governo Lula e para a extrema-direita

Pressionados por um déficit comercial considerável e pela necessidade de reverter esse quadro desfavorável, o presidente Donald Trump anunciou que vai começar a aumentar as tarifas de importações dos principais parceiros comerciais dos EUA, incluindo o Brasil.  O tamanho da facada ainda não se sabe, mas isso deverá ser anunciado nos próximos dias.

A opção por aumentar o nível das tarefas cobradas por produtos importados é o tipo “faca de dois gumes”, pois para os EUA só funcionará se os países e blocos visados pela ira tarifária de Trump não tomarem medidas reciprocas. E como a maioria das economias nacionais não vive um grande momento, a simples ideia de que não haverá reciprocidade é pouco crível.

O fato do Brasil estar na mira de Donald Trump gerará consequências inevitáveis para o governo do presidente Lula, já que os EUA são o segundo parceiro comercial do nosso país. Mas há que se lembrar que a balança comercial brasileira, ao contrário do caso chinês, possui um déficit na relação com os EUA. Assim, se Trump exagerar no sal tarifário com o Brasil, Lula terá a possibilidade de exercer uma reciprocidade que poderá doer mais lá do que as tarifas estadunidenses doerão por aqui.

O problema com o governo Lula é se haverá disposição de enfrentar a diplomacia do canhão que Trump ameaça usar contra todos aqueles que contrariarem seus planos de reestabelecer a hegemonia econômica dos EUA, cada vez mais ameaçada pela ascensão chinesa.

Um problema a mais é que Trump espertamente aliviou a mão na hora de assinar as tarifas contra a China, pois o agronegócio dos EUA tem todo interesse em competir com o brasileiro por uma fatia maior das importações chinesas de produtos agrícolas.  Aí talvez a coragem de enfrentar Trump receba algum anabolizante, pois será uma situação do tipo “bola ou bulica”, dada a atual dependência da balança comercial brasileira da exportação de commodities agrícolas e minerais.

A extrema-direita e seus próprios problemas com a diplomacia das tarifas de Trump

Congressistas brasileiros se reuniram em hotel para assistir à cerimônia de posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos | Divulgação - 20.jan.2025

Sem convites para o palco principal da posse de Trump, parlamentares da extrema-direita se reuniram em hotel para assistir à cerimônia de posse do presidente dos Estados Unidos

Se Trump pesar demais a mão contra o Brasil, a situação da extrema-direita brasileira também será de saia justa. É que praticando uma forma curiosa de nacionalismo adesista aos interesses dos EUA- lembremos aqui a ida de vários parlamentares do PL para celebrar a posse de Donald Trump (ainda que tenham ficado em locais de menor importância)-,  a extrema-direita agora terá de assistir ao terror tarifário que atingirá os principais financiadores de suas campanhas políticas. Será interessante ver como os Nikolas e Eduardos da vida vão explicar isso à base ruralista/evangélica que os sustenta. 

Uma das nuances dessa sinuca de bico é o fato de que o preço das commodities continua caindo em combinação com as perdas causadas por eventos climáticos extremos. Assim, sofrer a imposição de taxações salgadas poderá agravar a situação de várias empresas que sustentam o funcionamento do latifúndio agro-exportador que majoritariamente apoia políticos da extrema-direita. 

Assim, fiquemos prontos para ver como vai reagir a extrema-direita, já que não será possível culpar o governo Lula pela perda de competividade nos EUA, com a possibilidade de que ainda se tenha de brigar para manter ou ainda aumentar o acesso ao mercado chinês de commodities. 

Em suma, a extrema-direita tem pela frente um interessante desafio para seu modelo de nacionalismo adesista.

O blefe de Donald Trump para deportar imigrantes com voos militares só dará certo se for respondido com covardia

Como sou leitor do blog “The Proof” do jornalista Seth Abramson, posso compartilhar o fato de que toda a gritaria do governo Trump em torno dos voos militares para retornar imigrantes considerados ilegais esconde um blefe salgado para os contribuintes dos EUA.  Segundo Abramson, os governos de Barack Obama e Joe Biden expulsaram muito mais imigrantes considerados ilegais do que Trump o fez durante seu primeiro mandato.  A diferença é que tanto Obama quanto Biden não utilizaram voos militares para mandar de volta os imigrantes, mas voos de carreira com empresas aéreas civis.

Essa opção por voos militares, além de desrespeitar a soberania dos países que podem sim recusar a chegada de aeronaves com forças estrangeiras em seus territórios nacionais, esconde o fato de que o plano de deportação em massa que Donald Trump diz que realizará não custará os US$ 3 bilhões anunciados na campanha eleitoral, mas salgados US$ 86 bilhões. Com isso, os contribuintes americanos estão pagando 300% a mais pelo plano de imigração de Trump do que deveriam.  Como essa diferença  teria que sair de um orçamento para lá de estourado, toda a pantomima em torno de exigências mínimas de civilidade no retorno de imigrantes indesejados só serve para Trump blefar em cima de outros governos nacionais.

A resposta, ainda que limitada do presidente da Colômbia, Gustavo Petro, é um exemplo de como se portar frente à imposição dessa intrusão de voos militares no seu espaço aéreo  vai no sentido totalmente oposto ao que foi adotado até agora pelo governo do Brasil. As cenas vindas de Manaus onde um voo militar teve que parar por razões técnicas são acima de tudo humilhantes não apenas para os deportados, mas para um governo que se diz de esquerda.

A verdade é que uma resposta mais dura do Brasil teria criado mais dificuldades para Donald Trump, na medida em que o valor dos intercâmbios comerciais entre nós e os EUA é muito mais significativo do que aquele representado pela Colômbia.  Mas ao invés de recusar o uso de voos militares que aviltam a nossa soberania nacional, o governo Lula preferiu uma saída meia boca que foi realizar as medidas óbvias de retirar algemas e correntes e de colocar os brasileiros em voos da FAB.  Para os EUA mesmo, só sobrararam muchochos. 

Quem um dia participou de um jogo de pôquer sabe que em toda mesa existente um blefador contumaz cuja única chance de ganho é amedrontar os outros membros da mesa. É exatamente essa a postura que Donald Trump está adotando e que nos seus primeiros dias de governo está servindo para deixar a mesa em polvorosa. A saída mais óvia seria chamar o de chamar cada blefe do blefador, mas até agora, no caso da América do Sul, o único jogado com um mínimo de capital para chamar o blefe está preferindo se fazer de morto. Resta saber até quando.

De John Reed para Lula: um livro para se conhecer a Revolução Russa

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Foto da Assembleia da fábrica Putilov em apoio à Revolução, Petrogrado, julho de 1920

Durante o ato realizado no dia de ontem para relembrar a tentativa de golpe de estado ocorrido no dia 08 de janeiro de 2023, o presidente Lula reservou uma parte do seu discurso para apontar para uma suposta ausência de trabalhadores no processo revolucionário que materializou a Revolução de 1917. Nesse sentido, o presidente Lula disse que “Se você pega a fotografia da Revolução Russa de 1917, não tem um operário na foto (…) porque historicamente sempre se pensou que trabalhador não prestava para nada a não ser para trabalhar”. 

Como o presidente Lula não é uma pessoa desinformada sobre processos revolucionários, a menção à ausência de trabalhadores no processo revolucionário russo aparentemente se presta a dois tipos de exercícios retóricos. O primeiro é de colocar em xeque o papel dos intelectuais na formulação de ideias e programas que possam alavancar a luta dos trabalhadores, inclusive para impulsionar a realização de processsos revolucionários.  O segundo parece estar ligado que o modelo burguês de democracia é uma espécie de ápice do que se pode fazer em termos de organizar a relação social dos seres humanos. Algo como sentido do que foi expresso pelo filósofo alemão Georg Hegel que via no Estado uma espécie de superiodade moral sobre formas anteriores de organização política da sociedade.

Eu nem vou perder tempo com o primeiro exercício sobre os intelectuais, pois Lula já expressou posições de desdém contra os intelectuais, apesar de ter tido sempre o apoio destes para sua própria formação e para a criação do Partido dos Trabalhadores (PT).  A questão que me parece mais importante é a defesa da democracia burugesa como ápice, pois ao fazer isso, Lula indica aos membros do PT que não há espaço para transgressões do tipo da Revolução Russa e que o negócio é manter tudo como está no quartel de Abrantes. 

O problema é que para fazer isso, teremos ainda mais ataques contra os direitos dos trabalhadores, na medida em que o modelo de democracia burguesa, especialmente o praticado no Brasil, se encaminha para ampliar ao limite o processo de concentração da riqueza nas mãos de uma ínfima minoria de pessoas, os chamados ultrarricos. E para isso se manter nos moldes democráticos burgueses vigentes, um grau ainda maior de violência será aplicado contra a classe trabalhadora.

Mas eu estou devendo uma indicação de leitura para o presidente Lula que é um homem dos livros.  Eu estou pensando em comprar uma cópia do livro “Os 10 dias que abalaram o mundo” do jornalista estadunidense John Reed para enviá-la para Lula. Afinal, para quem leu o livro, como o fiz há mais de 40 anos, a mera ideia de que os trabalhadores russos foram meros espectadores da primeira revolução operária do mundo é pulverizada. 

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Eu não tenho ilusão de que a leitura do livro de Reed irá mudar a posição ideológica de Lula. Mas como ele é uma pessoa inteligente, a minha expectativa é de que se ele ler, não volte a desafiar a inteligência alheia daqueles que sabem minimamente como ocorreu a Revolução Russa.

E antes que me esqueça, John Reed foi um dos fundadores do Partido Trabalhista Comunista da América e participou, pouco antes de sua morte, do congresso do III Internacional Comunista, que advogava pelo comunismo internacional, na capital russa.

As palavras convencem, mas os exemplos arrastam

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Por Douglas Barreto da Mata
Quero pedir licença para discordar do texto do Professor Marcos Pedlowski, publicado aqui. Goste-se ou não das políticas públicas implementadas pelo atual prefeito Wladimir Garotinho, reeleito com nada menos que mais de 192 mil votos, uma coisa é certa: ele nunca disse que faria o contrário.
 
Desde a mais tenra hora do seu primeiro mandato, ele tem se comprometido com as teses da responsabilidade fiscal, com o saneamento das contas municipais, mesmo que isso implicasse em sacrifícios para a parte mais pobre dos munícipes, e também, em detrimento dos direitos dos servidores. Eu ouso dizer que o problema não é do Prefeito.
 
A questão principal é a agenda política que se estabeleceu, em 2003, quando a “esquerda” assumiu o poder. Soterrado pela própria capitulação frente ao mercado, com a Carta aos Brasileiros, onde o PT disse que seria um partido bem comportado e cumpriria todas as ordens da banca, já estabelecidas na famigerada Lei de Responsabilidade Fiscal, o PT e a esquerda foram incapazes (e se isentam, desde sempre) de qualquer debate que buscasse mostrar o óbvio:
 
A chamada responsabilidade fiscal nada mais é que um instrumento de sequestro dos direitos sociais dos mais pobres, já que a conta dos pagamentos dos juros mais altos e extorsivos do planeta não entram no cálculo das obrigações estatais de controle de gastos.
 
Ou seja, retiram dos pobres, suprimindo ao máximo os investimentos e gastos sociais para colocar no saco sem fundo da dívida pública, que, como vimos recentemente, só cresce a golpes de chantagem explícita do “mercado”, da mídia, e dos sócios no Congresso.
 
Mesmo assim, a cada passo na direção oposta, ou seja, quando o governo federal tenta inverter essa lógica, o mundo desaba, os dólares somem, e o Banco Central, obediente, aumenta os juros, e claro, a quantidade de dinheiro pago aos rentistas.
 
É um círculo vicioso e criminoso, mas que não enfrenta nenhuma voz dissidente no governo chamado de “esquerda”, até porque, se alguém se atrever, será enviado para algum “gulag” político.
 
Para sermos justos, não podemos cobrar de Wladimir Garotinho esse embate, afinal, ele é de direita! 
 
Como cobrar a Wladimir que adote bandeiras da esquerda, quando a própria esquerda as abandona, e implementa aquelas caras à direita?
 
O pacote de medidas de Wladimir Garotinho, frente ao que Haddad e Lula fizeram com os mais pobres que ganham salário mínimo, BPC, PIS/PASEP, etc, parece até um passeio pela Disneylândia.
 
No campo político, além de subtraírem do debate qualquer chance de oposição a este fiscalismo assassino, ao rentismo abutre, o PT de Lula ainda incorporou a defesa dos estandartes do establishment, perdendo as bandeiras das críticas antissistema para a extrema-direita.
 
O PT e Lula hoje (e já faz tempo) flertam com a Globo, defendem os juros altos, o poder judiciário, e passam a mão na cabeça de militares golpistas.
 
Dilma fazendo omelete com Ana Maria Braga (lembram?), ou Dilma dizendo que a melhor forma de controle social da mídia era o controle remoto (lembram?), e Lula saindo do hospital para ser achincalhado no Fantástico são exemplos recentes.
 
Para se diferenciar da extrema-direita, ao invés de propor teses de esquerda, o PT e Lula querem se parecer cada vez mais com a direita, como se a extrema-direita não fosse uma variação desta!!!!!
 
Ora, todos sabem que os atos do presidente irradiam pela coluna cervical das instituições e da vida política do país. Logo, é possível dizer que Lula e Wladimir estão cada vez mais próximos. Wladimir segue o exemplo de Lula, e do PT, por mais que isso soe estranho.
 
Se dermos uma olhada para Maricá, o conjunto de atos administrativos baixados pelo novo-velho prefeito QuaQuá não ficou distante dos aplicados aqui. Como se não bastasse a covardia política explicitada pelo PT, o que temos assistido aqui em Campos dos Goytacazes é ainda pior.
 
É a impregnação dos gestos e costumes do bolsonarismo pela turma petista, fenômeno que ganhou corpo desde a eleição de 2024, quando uma estranha simbiose se deu entre o PT e a candidata de extrema-direita da cidade.
 
Por último, no afã de atacar o prefeito, o PT de Campos lançou uma nota acusando o Prefeito de demissão dos agentes de endemia, contratados de forma emergencial, quando qualquer imbecil sabe que esses servidores são custeados pelo governo federal, e este já não supre o que a lei manda há tempos.
 
O que está ruim, como vemos, sempre pode piorar: o PT de Campos usando métodos da extrema-direita.

O PT do Rio e o de Campos dos Goytacazes: do casamento de interesses à solteirice por rejeição (do eleitorado)

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Lula e Eduardo Paes e a tratativas de um casamento de interesses que colocou o PT do Rio de Janeiro em um buraco muito profundo

Por Douglas Barreto da Mata

Antes que as feministas se irritem, eu vos digo, não se trata de corroborar um arquétipo machista, mas sim de reconhecer que essa era uma categoria (de pessoas) que estavam sujeitas a uma ordem patriarcal, no chamado de “mercado matrimonial”.

Sim, sempre foi costume, que ainda persiste em alguns cantos, a “arrumação” de casamentos, a partir da lógica de conveniências econômicas e sociais (“famílias tradicionais”), onde ao pai, principalmente, cabia decidir qual das filhas iria casar com quem, e quando seria, caso fosse mais de uma.  As moças mais velhas, com grandes diferenças de idade para as irmãs mais novas, eram colocadas como tutoras dessas caçulas, não raro, dividiam com as mães o cuidado da casa, e por isso, quase sempre eram preteridas na ordem do mercado do matrimônio. Como se dizia, de forma ofensiva e jocosa, ficavam para “titias”.

Hoje, algumas mulheres ou não têm essa opção, como as negras e pobres, geralmente “cabeças das famílias”, por abandono de seus parceiros, ou têm a opção (classe média e classe alta) de ficarem sozinhas, e não raro, optam por maternidade solo. 

O PT do Rio, assim como o PT do Brasil, e como não poderia deixar de ser, o de Campos dos Goytacazes, parece que se encaminha para a solteirice por rejeição. Rejeição do eleitor, diga-se.

Vamos ao caso do Rio de Janeiro.  O PT da cidade do Rio se ofereceu (e foi oferecido por Lula), de todos os modos, para Eduardo Paes, e teve nele (Lula, o pai) um intermediário tão insistente que alguns, mais ácidos, diriam que beirou a cafetinagem política.  Há comentários de que essa união também teria a predileção da mãe (Janja), que adora os convescotes e o ambiente tipo Leblon/Gávea, com artistas e socialites que o moço prefeito proporciona. 

O PT do Rio nada conseguiu que já não tivesse, ou seja, uns carguinhos de menor importância na administração municipal carioca, e quem sabe, mais e mais promessas de “casamento futuro”, já que Lula insiste em desidratar o PT do Rio para ceder terreno ao prefeito carioca. 

É como se Lula pagasse o dote ao prefeito carioca Eduardo Paes, mesmo sem ele ter aceitado casar-se com a “noiva”, mas a “moça” fosse mantida como mera serviçal para agradar os favores e desejos do prefeito. Agora, a “noiva”, o PT do Rio, mesmo preterida, teve que se deitar com o prefeito, para satisfazer as suas demandas políticas, sobre a cruel justificativa de que é o preço de ser governo. 

Um preço alto, é verdade, que vai corroer o resto de capital político do partido em sua base sindical. Vejam bem, não há nenhum problema nessas, digamos, “promiscuidades”, o problema é não levar vantagem alguma, não obter nenhum ganho a curto, médio, e longo prazos, que permitam que, um dia, quem sabe, possam reverter essa condição de subordinação vergonhosa.  É o caso do PT no planalto central, que de tanto se abaixar para o centro e para o mercado, ninguém mais consegue distinguir se é o PT ou se é um PSD com “orégano”.

O resultado: não são reconhecidos pelos eleitores de direita, que preferem a direita original, e são rejeitados pelos que sempre votaram no PT, porque o partido deixou de representar qualquer demanda dessa parte da sociedade. 

Em Campos dos Goytacazes, a vergonha é ainda maior.  Em nome de uma desastrada estratégia eleitoral, ficaram sem um vereador, justamente o que era o argumento para se unirem ao pior espectro político possível, servindo-lhes de “força auxiliar”.

Novamente eu afirmo, nada demais, mas fica a pergunta, era necessário?  Claro que não, as chances de ter mais ou menos votos para eleger um vereador não residiam na alternativa de puxar o saco da ultra direita local, e terem levado um sonoro tapa na cara da deputada estadual, que em plena campanha, aderiu a essa candidatura protofascista. 

E agora, José? Agora é o de sempre.  Os vestidos das “noivas” estão puídos, amarelados, e restará ao PT nacional, estadual e campista a triste tarefa de trocar as fraldas geriátricas dos “patriarcas da direita”.