Maçãs podres com colete branco

Um estudo examina a proporção das exportações de soja e carne do Brasil para a UE que vêm de áreas desmatadas ilegalmente.

tratores soja

Por Norbert Suchanek para o “Neues Deutschland”

O estudo “As maçãs podres da agricultura brasileira”, realizado por uma dezena de cientistas do Brasil, dos Estados Unidos e da Alemanha, ganhou recentemente as manchetes em todo o mundo. De acordo com a pesquisa publicada na revista Science, apenas um quinto das exportações anuais de soja e carne do Brasil para a União Europeia (UE) vêm de áreas anteriormente desmatadas da floresta amazônica e do cerrado. Em troca, a equipe de pesquisa certifica que a maioria das exportações e 80% dos negócios agrícolas no Brasil são “limpos”.

“Até agora, o agronegócio e o governo brasileiro afirmam que não podem monitorar toda a cadeia produtiva ou distinguir entre desmatamento legal e ilegal. Isso não é mais possível «, explica o autor principal do estudo, Raoni Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais. A equipe internacional de pesquisa desenvolveu um software especial que usa mapas e dados disponíveis gratuitamente para diferenciar entre o desmatamento legal e ilegal para a produção de soja e carne e, assim, separar as “maçãs podres das maçãs boas” no agronegócio brasileiro.

Esta avaliação por computador – o trabalho de pesquisa apoiado pelo Conselho Brasileiro de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, a Fundação Alexander von Humboldt e o Ministério Federal de Educação e Pesquisa – chega à conclusão de que 20 por cento da soja e pelo menos 17 por cento das exportações de carne bovina da Amazônia e do Cerrado para a UE originam-se do desmatamento não autorizado. Por outro lado, os pesquisadores certificam que a maioria das fazendas no Brasil produz “sem desmatamento”.

Mas esse resultado tem um vazio problemático: a equipe internacional de cientistas só considerou o desmatamento depois de 2008. O desmatamento consideravelmente maior dos anos anteriores foi deixado de fora.

“Nos concentramos no desmatamento ilegal e legal a partir de 2008 porque essas áreas desmatadas (e seus donos) não se beneficiaram com as anistias”, confirma o diretor de pesquisa Raoni Rajão. De fato, em 2008 o governo Lula da Silva legalizou por lei toda a extração ilegal de madeira até então, transformando as “maçãs podres” em boas.

De acordo com dados oficiais, o maior desmatamento na Amazônia ocorreu nos anos de 1988 a 2008, com picos de quase 30.000 quilômetros quadrados em 1995 e quase 28.000 quilômetros quadrados em 2004. De 2008 a 2017, no entanto, as taxas anuais de desmatamento foram consistentemente abaixo de 8.000 quilômetros quadrados . A situação é parecida com o cerrado, vítima da expansão da soja desde 1970. Aqui, também, as maiores clareiras registradas ocorreram de 2001 a 2008, com picos de quase 30.000 quilômetros quadrados anuais de 2001 a 2004. De 2008, a destruição anual do cerrado permaneceu em média em torno de 10.000 quilômetros quadrados.

Outra captura do estudo é a própria Lei Florestal Brasileira, com sua definição de desmatamento legal e ilegal. De acordo com o “Código Florestal”, os proprietários de terras estão legalmente autorizados a limpar até 80 por cento da área na região do Cerrado e até 20 por cento na região amazônica. O restante da floresta deve ser protegido como uma chamada reserva florestal.

Até o momento, porém, ninguém foi capaz de provar que as milhares de reservas florestais não contíguas que resultam dela são ecologicamente sensíveis e viáveis ​​a longo prazo. Raoni Rajão: »Este é realmente um debate importante sobre conectividade florestal e biodiversidade. No entanto, não incluímos esta análise em nosso estudo. “

Toda a região da Mata Atlântica no sul dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná também não foi considerada pelos pesquisadores, embora esta seja uma das principais áreas de cultivo de soja desde a década de 1940 e onde foram registrados neste ano os maiores incêndios florestais em décadas . O estudo também não inclui na avaliação o desmatamento indireto e o deslocamento de terras desencadeados pelo agronegócio. Colegas de pesquisa como Philip Fearnside, do Instituto de Pesquisas da Amazônia (INPA), sediado em Manaus, há muito provaram que a construção de estradas e portos para o transporte e exportação da colheita da soja e das metades do gado resulta em um desmatamento considerável.

Assim, a afirmação final de Raoni Rajão e sua equipe de cientistas, “O Brasil certamente tem todos os elementos para fornecer ao mundo uma agricultura sustentável que combata as mudanças climáticas e proteja as regiões com a maior biodiversidade do mundo”, fica em terreno instável.

fecho

Este artigo foi publicado originalmente em alemão pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Science revela as maçãs podres do agronegócio brasileiro

as maças podres

A prestigiosa revista Science publicou nesta 5a. feira (16/07) um artigo na seção “Forum Policy” que deverá levantar ainda mais rugas nas testas do presidente Jair Bolsonaro e de seus auxiliares mais fiéis. Sob o título de “The rotten apples of Brazil´s agribusiness” (ou em bom português, “As maçãs podres do agronegócio brasileiro”, o artigo que tem como autor principal o professor Raoni Rajão, do Departamento de Engenharia de Produção  da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apresenta um minucioso mapeamento que relaciona a produção de soja, que em parte considerável acaba exportada para a União Europeia, em terras ilegalmente desmatadas nos biomas da Amazônia e do Cerrado (ver mapa abaixo).

maças podres

Como os próprios autores adiantam no texto, os resultados desse estudo certamente criarão embaraços para o agronegócio brasileiro, não apenas com seus parceiros europeus, mas eventualmente com os chineses. É que dada a sensível situação que foi criada com a política do “passa boiada” engendrada pelo presidente Jair Bolsonaro e levada a cabo com inegável maestria pelos ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Tereza Cristina (Agricultura), agora ficará evidente que parte nada desprezível da soja brasileira está sendo produzida em áreas onde há forte possibilidade de que a remoção da vegetação nativa (floresta tropical ou Cerrado) foi feita de forma ilegal, ao arrepio do que determina a própria legislação brasileira.

Os autores do artigo incluíram ainda um cálculo sobre emissões de gases estufa associados à produção de commodities agrícolas produzidas em áreas desmatadas ilegalmente, o que deverá expor o papel indireto que a União Europa no aquecimento global por “não restringir as importações e consumir produtos agrícolas produtos contaminados com o desmatamento, ilegal ou não”.  O cálculo feito para a emissão de gases estufa apenas a partir da importação de soja  mostra que a União Europeia (UE) poderia ser responsável pela emissão indireta “de 58,3 ± 11,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente (MtCO2e) do desmatamento legal e ilegal nos principais biomas brasileiros entre 2009 e 2017“. Os autores apontam ainda que “é provável que a parte da UE aumente como resultado de acordos comerciais Mercosul-UE e EUA-China“.

Uma curiosidade na publicação deste artigo e de outros que devem estar ainda nas prensas é que todo movimento para conter as informações produzidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) são inúteis, e que informações ainda mais danosas para os interesses comerciais podem ser produzidas por equipes de cientistas que não estão sob o controle estrito do governo Bolsonaro. Nesse sentido, a marcha da ciência é, digamos, imparável. 

Quem desejar ler este artigo e os materiais suplementares publicados pela Science, basta clicar [Aqui!] e [Aqui!].