Cantar o hino à la francesa: um possível caminho para os anos que se abrem no Brasil

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Arco do Triunfo ocupado e pichado com a frase “Os coletes amarelos triunfarão”. De quebra, um lembrete para Emmanuel Macron do filósofo Michel de Montaigne (1533-1592): “Mesmo no mais alto trono do mundo, ainda estamos sentados sobre o nosso rabo”. 

Diga o que se dizer dos franceses, mas eles têm uma clara tradição de ligar patriotismo às lutas pelos seus direitos, em vez de tornar patriotismo em uma razão para aceitar comodamente a subtração daquilo que foi duramente conquistado.

Uma demonstração disso está no vídeo abaixo quando os chamados “gilets jaunes” ou “coletes amarelos” se preparavam para mais uma rodada de enfrentamentos nas proximidades do “Arco do Triunfo” com as forças policiais que tentam reprimir com violência os protestos contra os aumentos  abusivos nos combustíveis que foi determinado pelo governo de Emmanuel Macron.

Para quem não conhece o refrão do início francês que o “gilets jaunes” entoavam quando o “pau quebrou”, o mesmo diz “Às armas, cidadãos”. Pelo jeito, na França, os trabalhadores levam o seu hino à sério.

E o que isto nos diz? Que talvez seja a hora de se levar o hino nacional brasileiro à sério, especialmente e especificamente no que deveria representar para os direitos dos trabalhadores.

 

O levante dos “gilets jaunes” na França mostra o caminho adiante para o Brasil

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Nos últimos dias cenas de confrontos violentos entre policiais e os chamados “gilets jaunes” ou “coletes amarelos” nas ruas da França tem levantado muitas questões para aqueles que, no Brasil, veem as manifestações de 2013 como um ponto de partida para a tomada do poder pela extrema direita personificada por Jair Bolsonaro.

Esses chamados para a precaução em torno do apoio aos manifestantes franceses se dá, aparentemente, por um receio de que também na França as manifestações sejam capturadas pela extrema direita e eleger candidatos ligados à Frente Nacional de Marine Le Pen.

Bom, primeiro eu diria que é preciso que se examine os motivos que levaram os coletes amarelos às ruas francesas e a resposta é simples: as políticas e austeridade de Emmanuel Macron que fica mais evidente no ataque de seu governo aos direitos trabalhistas e na aposta da elevação dos preços de combustíveis como forma de alavancar a economia francesa.

A mobilização dos coletes amarelos não representa assim uma ressonância das políticas da Frente Nacional, mas uma negação delas.  Além disso, se existem infiltrados da extrema direita na manifestação, as ações da polícia francesa (como foi o caso do Brasil em 2013) é que tem iniciado os principais confrontos e atos de vandalismo.  A repressão policial visa claramente legitimar mais repressão para conter a revolta da população contra os ataques do governo Macron contra direitos que foram duramente conquistados.

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Agora, o risco que se tem na França é de se repetir a postura que se teve no Brasil de não apenas se negar o diálogo com os manifestantes, mas de se optar pela repressão policial que acabou sendo dirigida aos militantes de esquerda, abrindo espaço para que a extrema direita monopolizasse as manifestações.  

Esse cenário de “abrasileirisação” das manifestações francesas felizmente é ainda baixo, visto que há uma esquerda combativa na França que não está domesticada pelas políticas setoriais que paralisaram, e continuam paralisando, boa parte dos movimentos sociais e sindicatos.  É que se a França não tem apenas a Frente Nacional nas ruas, mas também a França Insubmissa que está se mobilizando para exigir a anulação das políticas de carestia dos combustíveis.  Se no Brasil, uma ação de massa da esquerda combativa tivesse ocorrido em 2013, é bem provável que não tivéssemos desembocado no cenário trágico de 2018.

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Mas mais do que se pensar no que não foi feito em 2013, o que o levante dos coletes amarelos franceses nos mostra é o caminho de que deveria ser seguido em 2019 pela esquerda que queira merecer esse rótulo no Brasil.  É que com Bolsonaro no poder não haverá mais espaço para meias soluções que resolvam apenas temporariamente o problema da ultra concentração da renda que o Brasil possui.  Por isso, como já vem ocorrendo com a adesão de sindicatos combativos ao movimento dos coletes amarelos, o caminho para a esquerda no Brasil é o das manifestações de rua. Ou é isso ou teremos uma regressão ao século XIX em termos de direitos sociais e trabalhistas.