Mineradora australiana BHP perde recurso em tribunal inglês em caso de mais de US $ 6 bilhões por causa do rompimento da barragem em Mariana (MG)

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Uma pequena figura de brinquedo e imitação mineral são vistas na frente do logotipo da BHP nesta ilustração tirada em 19 de novembro de 2021. REUTERS/Dado Ruvic/Illustration

Por Agência Reuters

LONDRES, 8 de julho (Reuters) – A gigante global de mineração BHP Group (BHP.AX) perdeu um recurso em um tribunal de Londres que buscava bloquear um processo de mais de 5 bilhões de libras (6 bilhões de dólares) de 200.000 brasileiros sobre um rompimento de barragem em 2015 que desencadeou o pior desastre ambiental do Brasil.

No que os advogados demandantes descreveram como um “julgamento monumental”, o Tribunal de Apelação revogou na sexta-feira julgamentos anteriores e decidiu que o processo coletivo – um dos maiores da história jurídica inglesa – poderia prosseguir em tribunais ingleses.

“Os dias das grandes corporações fazendo o que querem em países do outro lado do mundo e se safando disso”, disse Tom Goodhead, sócio-gerente do escritório de advocacia PGMBM, que representa brasileiros, empresas, igrejas, municípios e povos indígenas .

A BHP, a maior mineradora do mundo em valor de mercado, disse que consideraria um recurso da Suprema Corte.

O rompimento da barragem de Fundão, de propriedade do empreendimento Samarco entre a BHP e a gigante brasileira de mineração de minério de ferro Vale (VALE3.SA) , matou 19 pessoas quando mais de 40 milhões de metros cúbicos de lama e resíduos de mineração foram lançados no rio Doce, destruindo vilarejos e atingindo o Oceano Atlântico a mais de 650 km (400 milhas) de distância.

O processo é o mais recente a estabelecer se as empresas multinacionais podem ser responsabilizadas em seu próprio território pela conduta de subsidiárias no exterior, emulando casos movidos em Londres contra a mineradora Vedanta e a gigante do petróleo Shell (SHEL.L) por suposta poluição e derramamentos de óleo na África. .

A BHP considerou o caso inútil e inútil, dizendo que duplica procedimentos legais e programas de reparação e reparo no Brasil, que já custarão cerca de 30 bilhões de reais (US$ 5,6 bilhões) até o final do ano.

Mas os advogados reclamantes argumentam que a maioria dos clientes não entrou com processos no Brasil ou buscou uma compensação que os exclua dos processos ingleses e que o litígio brasileiro é muito longo para fornecer reparação total em um prazo realista.

O caso teve um início turbulento depois que o Supremo Tribunal e, inicialmente, o Tribunal de Apelação o bloqueou por ser “irremediavelmente incontrolável”. Consulte Mais informação

Mas na sexta-feira, juízes de alto escalão disseram que havia uma perspectiva realista de um julgamento futuro gerando uma “vantagem real e legítima” para os requerentes.

A responsabilidade e qualquer indenização por danos serão decididas em julgamentos futuros, na ausência de qualquer acordo.

(US$ 1 = 0,8333 libras)

(US$ 1 = 5,3500 reais)

Reportagem de Kirstin Ridley Edição de Jason Neely, David Goodman e Louise Heavens


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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Começa hoje audiência do Caso do Tsulama de Mariana na Inglaterra: assista!

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  • Ocorre de hoje até sexta 8, a audiência do Caso de Mariana na Inglaterra. Assista aqui:
    A busca por justiça para as vítimas do desastre de Mariana continua viva nos tribunais ingleses.
  • O Caso de Mariana na Inglaterra busca responsabilizar a BHP, empresa Anglo-australiana, com sede na Inglaterra, por seu papel no rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 2015, considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil. A BHP, junto com a Vale, controla a Samarco, joint-venture responsável por administrar a barragem.
  • O escritório PGMBM representa mais de 200 mil pessoas (físicas e jurídicas) pede indenização avaliada em bilhões de reais para as vítimas da tragédia de Mariana, no maior caso já protocolado nas cortes inglesas.
  • Hoje, 4 de abril, o escritório de advocacia PGMBM representa seus clientes na audiência no Tribunal de Apelação em Londres perante três juízes que determinarão se o caso contra a mineradora BHP poderá ser julgado pela corte inglesa.
  • A audiência dura cinco dias, e uma decisão será anunciada pelos juízes posteriormente, após avaliação das evidências e argumentos apresentados por ambas às partes.
  • Se a jurisdição inglesa for aceita, o caso deve seguir para a fase de mérito, em que será avaliada a responsabilidade das rés e a extensão dos danos para determinar a compensação justa para os atingidos pelo rompimento da barragem.
  • O processo começou em 2018.
  • Em julho do ano passado, o PGMBM obteve o direito de reabrir o caso após decisão anterior que negava a jurisdição no país.
  • O PGMBM busca reparação integral para seus clientes, que incluem moradores de cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo localizadas ao longo da Bacia do Rio Doce e que hoje, seis anos depois, ainda vivem sob os efeitos da tragédia em seu dia a dia.

Desastre aconteceu há seis anos

Considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil, o rompimento da barragem do Fundão em Mariana aconteceu há mais de seis anos, e até hoje muitos continuam à espera de serem adequadamente compensados pelas suas perdas.

Em 2018, o escritório PGMBM entrou com uma ação contra a BHP Group Plc (antiga BHP Billiton PIc) e BHP Group Limited, controladoras da Samarco, na Inglaterra, país sede da BHP.

Em julho de 2021, um painel de juízes do Tribunal de Apelação (formado pelo Lord Justice Geoffrey Vos, Chefe da Divisão Civil do Tribunal de Apelação, Lord Justice Nicholas Underhill, Vice-presidente do Tribunal de Recursos, e Lady Justice Sue Carr), reabriu o processo e concedeu permissão para recorrer da decisão negativa de 2020. Em Abril de 2022, o Tribunal de Apelação de Londres decidirá se o caso pode ser julgado na Inglaterra.

Sobre o PGMBM

PGMBM é uma parceria única entre advogados britânicos, brasileiros e americanos, motivados a defender vítimas de delitos cometidos por grandes corporações, com escritórios em Londres, Estados Unidos, Holanda e Brasil. O escritório é especializado em casos de poluição e desastres ambientais originados no Brasil e em outras partes do mundo, tratando de reclamações decorrentes dos desastres de Mariana e Brumadinho, bem como de vários outros desastres ambientais significativos. O PGMBM também está na vanguarda das reivindicações dos consumidores no Reino Unido, representando milhares de pessoas afetadas por grandes corporações. Essas reivindicações incluem processos contra Volkswagen, Mercedes, British Airways, EasyJet, Bayer AG, Johnson & Johnson e outras grandes empresas multinacionais.

Tsulama de Mariana: movido por escritório britânico em nome de 200 mil clientes, processo contra a mineradora BHP terá audiência no dia 4 de abril

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No próximo dia 4 de abril, o Tribunal de Apelação da Inglaterra inicia audiência da maior ação civil coletiva em número de clientes já apresentada nas cortes inglesas. Trata-se também de uma das 10 apelações mais importantes do ano, segundo a revista especializada inglesa The Lawyer.

O Caso de Mariana na Inglaterra, ajuizado pelo escritório multinacional PGMBM contra a mineradora anglo-australiana BHP, envolve mais de 200 mil autores. Entre eles, estão moradores de várias cidades de Minas Gerais e Espírito Santo, membros da comunidade indígena Krenak, 25 prefeituras, cinco autarquias, 530 empresas e 6 instituições religiosas.

No processo intitulado “Município de Mariana & Ors v BHP Group, BHP Billiton and BHP Group”, o PGMBM busca reparação integral para os danos causados aos atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco, localizada em Mariana (MG), em 2015. O desastre causou a morte de 19 pessoas e devastação generalizada em dezenas de cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo. Os rejeitos de minério de ferro liberados pela barragem se espalharam por quase 700 quilômetros ao longo da bacia do Rio Doce, desde Mariana (MG) até Linhares (ES), alcançando o Oceano Atlântico. A calamidade é considerada o maior desastre ambiental do Brasil.

“As multinacionais obtêm grandes lucros em suas operações internacionais e devem ser responsabilizadas pelos prejuízos que causam com essas atividades. A melhor maneira de fazer isso acontecer é que elas sejam responsabilizadas nas cortes de seus países de origem”, afirma Tom Goodhead, sócio-administrador do PGMBM. Por meio de joint venture com a Vale, a anglo-australiana BHP é coproprietária da Samarco, operadora da Barragem de Fundão que rompeu em 2015. 

O PGMBM, que é especializado em litígios de grande porte e causas coletivas contra grandes corporações, também move ação na Alemanha contra a empresa certificadora TÜV SÜD, responsável pelo laudo de estabilidade da Barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, que se rompeu em 2019, causando a morte de 270 pessoas.

Entenda o caso

Em 2018, o escritório PGMBM ajuizou uma ação coletiva na Inglaterra contra a BHP Group Plc (antiga BHP Billiton PIc) e BHP Group Limited, coproprietária da Samarco junto com a Vale, representando mais de 200.000 clientes.

Em julho de 2021, um painel de juízes (formado pelo do Tribunal de Apelação (Divisão Civil), Lord Justice Geoffrey Vos ; o Vice-presidente do Tribunal de Apelação Lord Justice Nicholas Underhill; e a e Lady Justice Sue Carr) reabriu o processo e concedeu permissão para recorrer da decisão negativa de 2020 sobre a jurisdição na Inglaterra. A próxima audiência está prevista para o dia 4 de abril e vai durar cinco dias inteiros, perante três juízes que então decidirão se o caso do PGMBM contra a mineradora BHP poderá ser julgado pela corte inglesa.

Sobre o PGMBM

O escritório PGMBM é uma parceria única entre advogados britânicos, brasileiros e americanos, motivados a defender vítimas de delitos cometidos por grandes corporações, com escritórios em Londres, Estados Unidos, Holanda e Brasil. O escritório é especializado em casos de poluição e desastres ambientais originados no Brasil e em outras partes do mundo, tratando de reclamações decorrentes dos desastres de Mariana e Brumadinho, bem como de vários outros desastres ambientais significativos. O PGMBM também está na vanguarda das reivindicações dos consumidores no Reino Unido, representando milhares de pessoas afetadas por grandes corporações. Essas reivindicações incluem processos contra Volkswagen, Mercedes, British Airways, EasyJet, Bayer AG, Johnson & Johnson e outras grandes empresas multinacionais.

‘Trata-se de sobrevivência’: um inglês de Yorkshire em busca de justiça pelo desastre da barragem de Mariana

mariana 1Área do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, destruída após o rompimento da barragem de Fundão em novembro de 2015. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Por Deborah Linton para o “The Guardian”

Em 2015, o pior desastre ambiental do país forçou Jonathan Knowles a deixar sua casa brasileira. Agora, ele e 200.000 outras vítimas esperam ganhar um processo de £ 5 bilhões em um tribunal inglês

O brilho amarelo pálido do sol da primavera do Brasil se pondo sobre o Rio Doce em uma noite de sexta-feira em outubro de 2015, a vida para Jonathan Knowles era tão boa quanto antes. A vida modesta que ele levava de um negócio de válvulas de água o fez terminar cada semana de trabalho da mesma maneira, com sua esposa Sheila e seu filho de quatro anos, Enzo. Eles arrumavam cadeiras no jardim de sua casa de dois quartos, uma construção nova nos arredores de Governador Valadares, no interior de Minas Gerais, onde pegavam carne marinada na churrasqueira e exibiam videoclipes dos anos 80 de um projetor para uma parede. “Adorávamos nossa vida”, lembra Knowles, um yorkshire que se mudou para o Brasil por amor.

Uma semana depois, às 15h45 do dia 5 de novembro, a barragem de rejeitos de Fundão estourou na cidade de Mariana, a 240 quilômetros de distância, liberando cerca de 40m 19 pessoas, deixando centenas de desabrigados e desencadeando o maior desastre ambiental do país . Aldeias, meios de subsistência, fazendas, peixes e vida selvagem foram obliterados. Ele destruiu, danificou ou contaminou tudo em seu caminho, os tribunais ouviram desde então.

Moradores olham para o bairro de Bento Rodrigues, submerso na lama após o rompimento da barragem

A vila de Bento Rodrigues ficou completamente submersa na lama após o rompimento da barragem. Centenas ficaram desabrigados e 19 mortos na área. Fotografia: Ricardo Moraes/Reuters

Torrentes de água poluída correram por 650 km (400 milhas) no Oceano Atlântico, causando um prejuízo estimado de £ 2,5 bilhões na biodiversidade da região e deixando para trás uma limpeza que deve levar mais de uma década.

“A vida era fenomenal – até que se tornou sobre sobrevivência”, diz Knowles, 57, que está entre as mais de 200.000 pessoas que entraram com um processo de US$ 6,9 bilhões (£ 5 bilhões) – entre as maiores ações coletivas da história jurídica inglesa – contra a mineração anglo-australiana. multinacional BHP , que era dona da Samarco em conjunto com a gigante brasileira de mineração de minério de ferro Vale.

O caso deve ser reavaliado no tribunal de apelação no próximo mês, na última etapa de uma luta legal de três anos e meio em solo britânico que busca “reparação completa e justa” em nome de mais de 190.000 indivíduos, 530 empresas, 150 membros das comunidades indígenas Krenak, 25 municípios e 15 instituições religiosas, incluindo a arquidiocese católica romana de Mariana. Para as vítimas, é uma “oportunidade de justiça de verdade”, disse no ano passado o procurador-geral da região, Frederico de Assis Faria .

Para Knowles, a visão do rio imediatamente após o desastre deixou uma marca indelével: “A água estava marrom como uma sopa grossa de chocolate; uma avalanche de lama. Veio como ondas gigantes. Com o passar dos dias, toda a superfície até onde você podia ver se tornou um cobertor de peixes mortos. Vacas e cavalos flutuavam sem vida em suas costas, apenas suas pernas visíveis acima da água.

Vista aérea de detritos e lama ao longo de um vale após o rompimento das barragens

A devastação em Bento Rodrigues no dia seguinte à catástrofe. Fotografia: Felipe Dana/AP

“Aquela água costumava ser tudo. É onde as pessoas se reuniam para pescar, voar de asa delta e praticar esportes aquáticos, caminhar e correr nos finais de semana. De seus bancos férteis cresceram dez variedades diferentes de manga; macacos viviam em uma ilha em seu centro.”

Após o colapso, tornou-se um lugar a temer, diz ele. “Mesmo agora, seis anos depois, você pode colocar um ímã em um saco plástico e, se tocar na lama ao redor do rio, ele gruda.”

Uma vida revirada

Knowles e Sheila, nascida no Brasil, se conheceram em Harrogate, Inglaterra, em 2009, quando ela era passageira do ônibus que ele dirigia. Eles se mudaram para o Brasil no ano seguinte, enquanto ela estava grávida de Enzo: “Nós nos instalamos no meio do nada. A terra é plana como uma panqueca, exceto por uma enorme montanha que fica, como uma espinha, nos arredores.

“O rio de uma milha de largura serpenteia pela paisagem e a área tem seu próprio clima único. Um calor constante e parado bate do chão.”

Um casal senta-se com seu filho em um banco de parque

Jonathan Knowles e sua esposa, Sheila, com seu filho de 10 anos, Enzo, em Harrogate, North Yorkshire. Fotografia: Richard Saker/Guardian

Knowles, que trabalhava na construção civil, chegou ao Brasil durante um boom de construção. Em março de 2015, ele começou a importar válvulas que havia desenvolvido para ajudar a população local a regular as contas de água flutuantes. Em setembro – dois meses antes do rompimento da barragem – ele havia vendido um quarto de seu estoque e empatado.

A notícia do desastre chegou no início da manhã de 6 de novembro. “Na vila, eventos de mudança de vida foram anunciados por um carro fornecendo informações por Tannoy. Era a primeira coisa da manhã e estávamos dentro de casa. Entrei no jardim da frente e reconheci a descrição, em português, de uma avalanche de água. Então veio uma palavra que eu não tinha ouvido antes – ‘barragem’, português para barragem.”

Os moradores foram orientados a armazenar água em banheiras, bacias e recipientes para durar um mês. “Enchemos uma lixeira de 1.000 litros e, algumas semanas depois, mais 2.000 litros de um poço fora da cidade. Durante seis semanas, tomamos banho em baldes, usamos água engarrafada para escovar os dentes, lavar e ferver legumes e usar água da torneira para limpar. Caminhões que ofereciam garrafas de água gratuitas estacionados todos os dias e as pessoas faziam fila na rua.

“As pessoas pararam de sair. A indústria de hospitalidade alimentar parou. A Starbucks parou de servir porque não conseguia lavar os copos.”

Nos dias que se seguiram, os cientistas identificaram metais tóxicos, incluindo arsênico, mercúrio, níquel e alumínio no abastecimento de água, que foi rapidamente tratado. Um estudo de dezembro de 2021 com mais de 300 pessoassobre o impacto desses metais na população local encontrou um “risco elevado para a saúde das comunidades que vivem nas áreas vizinhas”. Incluiu relatos de distúrbios de saúde mental, lesões de pele, distúrbios gastrointestinais, dores ósseas e mal-estar, todos potencialmente ligados ao desastre.

Uma mulher brasileira na margem de um rio laranja altamente poluído

A lama tóxica poluiu o rio Doce, usado por indígenas brasileiros como a tribo Krenak para pescar, mas também como local religioso. Fotografia: Heriberto Araújo/Guardian

Knowles se lembra de um esforço para fazer as pessoas confiarem no abastecimento de água. “Muito da população confia em Deus, e a igreja estava encorajando as pessoas a não entrarem em pânico, mas a escrita estava na parede”, diz ele. “Eu não podia mais confiar que a água em que bebíamos e nos banhamos, o chão em que andávamos, era seguro. A construção foi interrompida e ninguém estava comprando válvulas de água. Meu negócio iria embora; nosso dinheiro acabaria”.

Logo após o Natal de 2015, com suas últimas 1.000 libras, Knowles comprou um voo de volta para Harrogate, em Yorkshire. Ele chegou em março de 2016 com uma mala e um cartão de crédito. Sheila e Enzo ficaram no Brasil na casa dos pais dela. Eles se juntaram a ele na Inglaterra em 2018, assim que ele conseguiu pagar as passagens aéreas.

Foto aérea de gaivotas voando sobre um rio marrom-avermelhado

Gaivotas sobrevoam a foz do poluído Rio Doce, próximo a Regência. Fotografia: Ricardo Moraes/Reuters

Knowles, que também tem três filhos adultos e cinco netos de seu primeiro casamento, diz: “Deixar meu filho no Brasil me destruiu por dentro. Eu estava com medo de que se eles não saíssem, eles morreriam. Eu tive que voltar para a Inglaterra e ganhar dinheiro para nós. Eu não podia ficar sentado esperando por um milagre.”

Ele arrumou um emprego de lavador de louças, vivendo com £ 1 por dia: “Eu ficava na prateleira ‘vendida por’ em Asda esperando que os pedaços finais fossem reduzidos a 10 p. Eu encheria minha bolsa com o que quer que aparecesse.

“Eu economizei para renovar minhas licenças de ônibus e caminhões, depois consegui meu antigo emprego de volta na empresa de ônibus. Eu estava me concentrando na sobrevivência; não havia tempo para desmoronar.”

Ele dormiu no sofá de um amigo, depois alugou um quarto vago barato, onde ainda mora. Sheila, 52, e Enzo, agora com 10, moram em um pequeno apartamento alugado a 10 minutos de distância. É o único arranjo de vida que a família pode pagar.

Jonathan Knowles com Sheila e filho Enzo

Jonathan Knowles com Sheila e seu filho, Enzo, no Brasil. Eles dizem que o processo judicial reaberto é sua última esperança de ter dinheiro suficiente para viver como uma família sob o mesmo teto. Fotografia: Cortesia de Jonathan Knowles

Knowles diz: “Levá-los para a Grã-Bretanha foi um grande passo. Antes de eles chegarem, nos comunicávamos diariamente pelo WhatsApp. Eu tentaria explicar a Sheila meus temores de saúde a longo prazo para Enzo. As pessoas estavam compartilhando imagens em grupos de mídia social de erupções cutâneas que desenvolveram e peixes com desfigurações que você esperaria de um incidente nuclear. Tentei explicar que o que afetou os peixes hoje pode deixar um legado para os humanos no futuro.”

O processo judicial, diz ele, é sua única esperança de reunir sua família sob o mesmo teto. A luta legal foi lançada em 2018 pelo escritório de advocacia internacional PGMBM em nome de seus mais de 200.000 reclamantes. O caso foi arquivado pelo tribunal superior em janeiro de 2021, após uma contestação da BHP, e depois pelo tribunal de apelação em março de 2021, em apoio ao caso da BHP de que reivindicações e um esquema especial de compensação já estavam em andamento no Brasil .

No entanto, os juízes de apelação concederam uma rara oportunidade de reabrir o caso em julho passado, abrindo caminho para outra decisão, prevista para abril. Os juízes descreveram o caso como de “excepcional importância, tanto pelo número de reclamantes quanto pela importância para eles de obter a indenização a que possam provar ter direito”.

O tribunal acrescentou “que, de qualquer forma, a situação enfrentada pelo tribunal era difícil e nova” e “se beneficiaria de uma consideração completa e completa por este tribunal”. A BHP sustentou que o processo não pertence ao Reino Unido.

A família de Knowles não recebeu nenhuma compensação no Brasil, onde a Samarco, a BHP e a Vale estabeleceram a Fundação Renova para mitigar as consequências ambientais do colapso e indenizar indivíduos e algumas pequenas empresas por perdas e danos. Destina-se a fornecer reparação total, mas foi criticado por sua constituição, velocidade e justiça, o tribunal de apelação ouviu. O tribunal também observou deficiências no sistema de justiça brasileiro.

Equipes de resgate em um mar de lama com uma caminhonete meio enterrada ao fundo.
Equipes de resgate buscam vítimas do desastre em Bento Rodrigues em 2015. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

A BHP disse ao Guardian que, até novembro de 2021, a Renova gastou mais de R$ 19,6 bilhões em projetos de reparação e reabilitação ambiental e econômica, incluindo R$ 7,78 bilhões em compensação e ajuda financeira a 359.000 pessoas. Eles introduziram um novo sistema simplificado de indenização em agosto.

A casa da família Knowles ainda está de pé, mas eles não conseguiram vendê-la. “O que aconteceu não pode ser reparado ou colocado de volta, então tudo se resume à sobrevivência. Minha família e eu não temos mais um lugar próprio para morar; perdemos a coisa mais fundamental – um teto sobre nossas cabeças.

“Para ver este caso e receber dinheiro suficiente para um depósito, para começar de novo, corretamente, é tudo o que ousamos esperar.”

Encontre mais cobertura sobre a idade da extinção aqui e siga os repórteres de biodiversidade Phoebe Weston e Patrick Greenfield no Twitter para obter as últimas notícias e recursos


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Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [   ].

Rio Doce: Grupo de amigos cria jogo “Rio de Lama” para manter viva memória do desastre de Mariana

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O rompimento da barragem de contenção de rejeitos do Fundão, em Mariana/MG, está prestes a completar 6 anos no próximo mês de novembro. A lama vazada se perpetuou como o maior desastre ambiental de todos os tempos no Brasil. Tamanha tragédia que varreu vilarejos, matou pessoas, e atravessou Minas Gerais e o Espírito Santo, se transformou numa grande mancha de lama que impactou a biodiversidade de uma das mais importantes bacias hidrográficas do país que incorpora 184 municípios. O Rio Doce teve dos seus 853 km, 600 km atingidos pelos rejeitos, chegando até o seu desaguamento no oceano Atlântico.

Em 2016, alguns meses após o desastre em Mariana, o designer gráfico, programador e mestre em Artes pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Felipe Mattar se juntou com alguns amigos/sócios, dentre eles, Huemerson Leal e Rapahael Gaspar, para criar um jogo, mas que até então não tinha sido desenvolvido. Foi com o lançamento da Lei Aldir Blanc, que o grupo viu a oportunidade de resgatar as ideias antes pensadas e propor sua realização. Assim, nasceu o jogo Rio de Lama: O Resgate do Rio Doce, que tem a proposta de dar visibilidade e manter viva a memória do ocorrido, a fim de não cair no esquecimento e possa contribuir de alguma forma para que não ocorra novamente. “O projeto se propõe de uma forma indireta e ficcional, utilizando dos acontecimentos reais como inspiração para o contexto geral do universo do game”, explica Felipe Mattar.

Já disponível em digital 2D no mobile para o Android, e na versão de computador para o Windows, Linux e Mac, o Rio de Lama é um jogo que leva uma mensagem que não só retrata a realidade do Rio Doce, conforme explica Mattar. “A ideia é da mensagem que quero transmitir com o jogo é de todos os rios do planeta que sofrem pela má-conduta de pessoas e empresas que se utilizam do meio ambiente de maneira irresponsável necessitam de nosso cuidado e de nosso respeito”, enfatiza.

Vamos ao jogo?

Felipe conta que em “Rio de Lama: O Resgate do Rio Doce”, também disponível em inglês: “Mud River: The Sweey River Rescue”, o jogador controla uma nave espacial com objetivo de destruir os inimigos em fases que precisam ser desbloqueadas. Basicamente, a missão contará com duas armas principais com munição infinita e mais três armas secundárias que podem ser usadas com a quantidade de esferas de energia que o jogador conseguir coletar.

“A história do jogo consiste que há milhares de anos, ‘Pacal, o grande’ abandonou o Planeta Terra com a sua espaçonave para fugir de um dilúvio. No entanto, ele volta para cá em busca de artefatos preciosos que ficaram escondidos na América. Acontece que antigos templos sagrados se transformaram em hostis indústrias poluidoras comandadas pelo ambicioso e de poder absoluto, Dr. Welin”, conta.

Felipe Mattar explica que o seu personagem Pacal se enfurece com a profanação dos locais sagrados e com a destruição do meio-ambiente e aciona reforço com uma inteligência artificial conhecida como Zacharias. “No jogo, o Rio Doce era um paraíso para a humanidade e para os animais, mas como se tornou um território destruído por atividades inescrupulosas do Dr. Wellin, o objetivo do Pacal é impedir a destruição completa do rio tomado pela lama. Tem muita emoção e desafios para poder concluir estes desafios”, revela o desenvolvedor que ainda adianta: “É preciso passar por trilhos de fogo, afim de conquistar a relíquia sagrada e salvar o Rio Doce”, conclui.

Todo o trabalho para a concepção e o lançamento do game, além de Felipe Mattar, teve ainda o suporte de um time de profissionais, dentre eles, Ana Clara Gouvêa Calmon (Designer Gráfico), Huemerson Leal Cota (Ilustrador e efeitos especiais), Fernando Boechat (trilha sonora) e Raphael Gaspar (autor do enredo, redator e produtor executivo).

O “Rio de Lama: O Resgate do Rio Doce” é uma produção da distribuidora Rocpain Games, que tem o apoio do Instituto Últimos Refúgios para a conservação ambiental, Governo do Estado do Espírito Santo, Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo, e desenvolvido com os fundos da Lei Aldir Blanc de apoio à cultura.

Estudo aponta excesso de manganês em peixes no estuário do rio Doce

docePesquisadores registram aumento de 880% no conteúdo desse elemento químico dissolvido em água em comparação a valores observados em 2015, dias após a chegada dos rejeitos provenientes da barragem de Fundão, em Mariana (foz do rio Doce semanas após o rompimento da barragem; foto: Arnau Aregio/Wikimedia Commons)

Agência FAPESP* – Integrantes do Grupo de Estudo e Pesquisa em Geoquímica de Solos do Departamento de Ciência do Solo (GEPGEoq) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP) e do projeto Rede SoBEs Rio Doce – Rede de Solos e Bentos na Foz do Rio Doce vêm estudando os impactos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), no estuário do rio Doce.

O mais recente estudo realizado pelo grupo, em parceria com pesquisadores da University of California em Riverside (Estados Unidos), mostra que dois anos após a chegada dos rejeitos há uma liberação constante de manganês dos solos do estuário para a água.

“Os dados apontam para um aumento de 880% no conteúdo de manganês dissolvido em água em 2017 em comparação aos valores observados em 2015, dias após a chegada dos rejeitos”, afirma Hermano Queiroz, pesquisador da Esalq-USP que realizou sua tese de doutorado com bolsa da FAPESP, sob orientação do professor Tiago Osório Ferreira, do Departamento de Ciência do Solo. Segundo os pesquisadores, os valores encontrados em 2017 foram cinco vezes maiores do que o limite definido pelas diretrizes brasileiras de qualidade da água (Conselho Nacional do Meio Ambiente, 2005).

Consequentemente, altas concentrações de manganês tem sido observadas em duas espécies de peixes, o bagre amarelo (Cathoropus spixii) e o peixe-gato marinho (Genidens genidens), ambas comumente consumidas pela população local. Segundo os pesquisadores, tal fato representa um risco crônico para a saúde das comunidades ali presentes.

Os resultados evidenciaram concentrações de manganês duas vezes maiores nos peixes do rio Doce em comparação às de peixes de outros locais conhecidamente contaminados por manganês.

Esse elemento químico é abundante na natureza e por isso muitas vezes não é percebido como tóxico, mesmo quando encontrado em elevadas concentrações no solo e na água. De acordo com os pesquisadores, não existem valores limites de manganês para solos, apesar de as pesquisas apontarem efeitos tóxicos em plantas, animais e seres humanos. Concentrações elevadas estão associadas a doenças como o Alzheimer, além de outros distúrbios neurodegenerativos e do sistema nervoso central.

O estudo foi publicado na revista Environment International. Além da FAPESP, a pesquisa também contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santos, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além da colaboração de pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo, Universidade Federal Fluminense e da Universidade de Santiago de Compostela da Espanha.

O artigo Manganese: The overlooked contaminant in the world largest mine tailings dam collapse pode ser acessado em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S016041202032239X.

* Com informações da Divisão de Comunicação da Esalq-USP.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui!].

Após 5 anos, Samarco volta a operar em Mariana, sem que a justiça tenha sido feita aos afetados pelo Tsulama de Bento Rodrigues

bento-2Depois de cinco anos do Tsulama em Mariana, a Samarco (Vale + BHP Billiton) volta a operar em Mariana. Enquanto isso, os moradores afetados pelo incidente socioambiental de 2015 continuam sua sina de desabrigados e o Rio Doce sofre com a contaminação crônica de suas águas

Em meio ao caos sanitário causado pela COVID-19,   tivemos o retorno das atividades de mineração da Samarco (Vale+BHP Billiton) no Distrito de Bento Rodrigues. Esse retorno ocorre sem que haja qualquer perspectiva de que os habitantes da área destruída pelo Tsulama de Novembro de 2015. Essa combinação de fatos mostra quais são as prioridades que guiam as ações do Estado no Brasil, pois está evidente que a Samarco está saindo praticamente ilesa dos graves danos sociais e ambientais que sua opção pelo lucro causou em Mariana.

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Outro detalhe preocupante é que as práticas que resultaram nos Tsulamas de Mariana em 2015 e de Brumadinho em 2019 não só permanecem no lugar, como continuam a ameaçar a geração de novos incidentes ambientais de grande impacto em diferentes partes do território de Minas Gerais. 

A situação de dezenas de barragens de rejeitos que hoje apresentam evidências de que não se encontram estáveis poderá piorar ainda mais em 2021, dependendo do que ocorrer em termos de precipitação atmosférica.  Por isso, há que se acompanhar com cuidado as chuvas que ocorrerem ao longo de janeiro de 2021, visto que dependendo da intensidade delas, barragens que já se encontram em estado crítico poderão alcançar o ponto de rompimento.

Mas para as donas da Samarco, Vale e BHP Billiton, o que importa mesmo é continuar “cavocando” o minério de ferro ainda existente em Bento Rodrigues para aumentar ainda mais os seus lucros bilionários. E tudo isso com a benção de quem governa o Brasil e Minas Gerais. 

Mariana, cinco anos e muitas tragédia

Descaso e negligência causadoras do rompimento da Barragem de Fundão, que matou 19 pessoas, seguem atormentando população; metais pesados envenenam Rio Doce e Justiça morosa deixa 100 mil pessoas à espera de indenização

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Vista do alto da região de Bento Rodrigues, distrito de Mariana: tragédia impune, cinco anos depois. Foto de Christophe Simon/AFP

Por Cristina Serra para o Projeto Colabora

O desastre da Barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em Mariana (MG), começou em 5 de novembro de 2015 – quando matou 19 pessoas – e ainda não acabou. São 1.825 dias de uma tragédia que invadiu o cotidiano dos moradores da bacia do rio Doce, área quase do tamanho de Portugal. Eles convivem até hoje com o mesmo descaso e negligência que estão na origem do rompimento, simbolizados agora nos metais pesados que envenenam o rio, na falta de indenizações justas e no vazio dos povoados em ruínas.

Cinco anos depois do colapso da barragem, não há explicação plausível para as três comunidades mais devastadas não terem sido reconstruídas. Nem mesmo a pandemia serve de justificativa, considerando que a previsão inicial de conclusão das obras era muito anterior à chegada do coronavírus. Foram três os lugares mais atingidos: os distritos rurais de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, ambos em Mariana, e Gesteira, no município vizinho de Barra Longa. Os moradores permanecem em casas alugadas pela Fundação Renova, entidade criada pelas mineradoras e governos estaduais e federal para reparar os danos do desastre.

Trata-se de uma população acostumada com o meio rural e nem todos se adaptaram às características da cidade. Nos seus terrenos, criavam animais, plantavam, tinham árvores frutíferas, pescavam nos rios próximos. Tudo isso teve que ser substituído pelas compras no supermercado, mudança que nada tem de trivial, com muitos impactos na saúde física e mental das vítimas. E aí chegamos a mais um ponto dessa trama de violências cotidianas.

Até hoje, não existe estudo abrangente sobre os efeitos do desastre na saúde dos moradores. As consequências são diferentes ao longo da bacia. Há os que tiveram contato direto com a lama e/ou respiraram o pó do rejeito quando ele secou. Outros continuam usando a água do rio para consumo próprio e dos animais. E a pesca segue, apesar do perigo e da proibição judicial.

A falta de solução para a maioria das indenizações também é fator de muito estresse emocional. Eu mesma percorri duas vezes os 660 quilômetros, do local da barragem até a foz do rio Doce, em Regência, no Espírito Santo, e ouvi muitos relatos sobre depressão, problemas respiratórios, renais e dermatológicos.

marianaMural na Escola Municipal Caetano Barbosa, em Paracatu de Baixo: devastação. Foto de Cristina Serra

Difícil de entender é que, passados cinco anos, os governos de Minas Gerais e Espírito Santo, as prefeituras e a Fundação Renova não tenham se articulado para avaliar esses impactos. Não custa lembrar: Vale e BHP, acionistas da Samarco e financiadoras da Fundação Renova, estão entre as maiores mineradoras do mundo. Talvez a ausência de estudos sobre a saúde das comunidades (se eles existem, não foram divulgados), esteja relacionada às indenizações – ou, melhor dizendo, à falta delas. Como calcular uma justa compensação, se os impactos não foram devidamente dimensionados?

Catástrofe Judicial

Segundo a força-tarefa Rio Doce, do Ministério Público Federal, cerca de 100 mil pessoas ainda não tiveram resposta da Fundação Renova aos pedidos de indenização. Por outro lado, muitos dos atingidos, cansados de esperar tanto tempo, estão aceitando acordos que violam seus direitos, conforme revelado pela força-tarefa, em entrevista semana passada. Segundo o MPF, o juiz da 12ª Vara Federal e Agrária de Belo Horizonte, Mário de Paula Franco Júnior, encarregado dos processos cíveis, está homologando acordos de indenização com cláusulas prejudiciais aos atingidos.

O MPF afirma que nesses acordos as pessoas só recebem os pagamentos se assinarem para a Fundação Renova a quitação definitiva e a desistência de qualquer ação futura no Brasil e no exterior. A cláusula chama atenção porque a justiça britânica está para decidir se aceitará ação bilionária contra a BHP, que tem sede no Reino Unido. Um escritório britânico, com sócios brasileiros, representa 200 mil atingidos, alegando a morosidade do judiciário brasileiro em indenizar as vítimas.

O MPF entrou com mandado de segurança no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília, pedindo a anulação de atos do juiz nesses acordos. Procurei o juiz Mário de Paula Franco Júnior, mas ele disse que não vai se manifestar.

O MPF argumenta também que as indenizações foram fixadas em tempo recorde, sem prévia análise de danos e em valores irrisórios. O dano moral, por exemplo, foi calculado em R$ 10 mil. Os procuradores também levantam suspeitas de “lide simulada” entre o escritório de advocacia que lidera os pedidos de indenização (constituído em junho deste ano) e as mineradoras, que de forma inusual, não contestaram as sentenças.

A outra ponta dessa tragédia judicial ocorre na Justiça Federal em Ponte Nova (MG), encarregada do processo criminal. Das 22 pessoas denunciadas pelo Ministério Público, 15 já conseguiram se livrar. Os que ainda estão no processo e mais quatro empresas (as três mineradoras e a consultoria que emitiu o laudo de estabilidade da barragem) estão isentas da acusação de homicídio doloso. Eles respondem, entre outros crimes, por inundação e desmoronamento seguido de morte e delitos ambientais. O processo anda a passo de tartaruga. As testemunhas de acusação foram ouvidas há dois anos. Já a defesa dos réus arrolou 140 testemunhas e nenhuma prestou depoimento até agora.

Mariana-GustavoBasso-NurPhotoCenário de destruição em Bento Rodrigues, quatro dias após o rompimento da barragem, a 70 km de Mariana. Foto de Gustavo Basso/NurPhoto

Rio Doce Contaminado

O reservatório de Fundão tinha capacidade para armazenar cerca de 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro, lama suficiente para encher mais de vinte mil piscinas olímpicas. Quando a barragem rompeu, na tarde de 5 de novembro de 2015, a lama vazou do reservatório como uma hemorragia incontrolável, que engoliu córregos, riachos e ribeirões até alcançar o Rio Doce e chegar à sua foz, no Oceano Atlântico. No percurso de 660 km, a lama provocou fenômeno chamado pelos especialistas de “ressuspensão” de metais pesados, depositados há séculos no leito dos rios, desde o começo do ciclo da mineração, em Minas Gerais.

É isso que explica a presença de metais pesados em trechos do Rio Doce, segundo estudos recentes, apesar das substâncias não fazerem parte da composição da lama de rejeitos. Pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo, reunidos na Rede Rio Doce Mar, apresentaram relatório para a Fundação Renova, ao qual tive acesso, mostrando a gravidade da contaminação. Os dados, coletados em 2019, são os mais recentes sobre a situação da água no trecho capixaba e no litoral do Espírito Santo e sobre a contaminação de peixes e outros animais. As coletas de amostras foram interrompidas em 2020 por causa da pandemia.

Segundo o estudo, foram encontradas altas concentrações de metais como cádmio, manganês, arsênio, ferro, zinco, cromo e cobre nas lagoas de Monsarás, Nova e Areal. O Rio Doce, em Linhares, apresentou aumento de cromo e manganês em comparação com dados anteriores ao desastre. Nos peixes, os pesquisadores encontraram sinais de exposição a metais pesados, como danos morfológicos, entre eles lesões no fígado dos animais, inflamações e congestão de vasos sanguíneos.

No ambiente costeiro-marinho, o levantamento chegou a conclusões igualmente preocupantes sobre duas unidades de conservação, o Refúgio de Vida Silvestre Santa Cruz e a Área de Proteção Ambiental Costa das Algas. Diz um trecho: “O relatório aponta que a APA Costa das Algas e o RVS de Santa Cruz foram as principais UCs afetadas pelos rejeitos de minério que chegaram à região costeira. Os sinais do impacto puderam ser observados nas concentrações de metais (ferro, cobre, mercúrio, níquel, zinco, alumínio, manganês) e arsênio (As) na coluna d’água, nas frações dissolvida e total, e no sedimento. Foram verificados níveis de concentração de metais em não conformidade com os limites estabelecidos pela CONAMA”. O estudo também detectou arsênio no músculo de camarões e peixes e cádmio em peixes, em concentrações acima do permitido pela Anvisa.

Quando publiquei o livro “Tragédia em Mariana”, em 2018, tinha a esperança de que ele servisse de alerta para não acontecer outro caso semelhante. Estava enganada. Em 2019, aconteceu a inimaginável tragédia de Brumadinho, com seus 270 mortos. O descaso humano, social e ambiental está na origem dessas duas catástrofes, com todo seu histórico de omissões, irregularidades e gestão de risco, que privilegia os lucros em detrimento da segurança dos trabalhadores e das comunidades em volta dos complexos industriais.

Eram tragédias anunciadas. O pior, depois de cinco anos, é ver que pouca coisa mudou. A legislação de segurança de barragens melhorou, mas ainda tem muitas lacunas. A fiscalização do poder público está longe do ideal e o modelo extrativista da atividade mineral continua exatamente o mesmo, mantendo municípios e comunidades praticamente reféns de grandes empresas, com enorme poder político e econômico.

A Samarco está prestes a voltar a operar enquanto as vítimas vivem os efeitos da devastação de lama todos os dias. O desastre de Mariana é considerado o maior do mundo no setor de barragens por três motivos: a extensão percorrida pelo rejeito, a quantidade vazada e os prejuízos provocados. Ao que tudo indica, também tem tudo para bater um triste recorde: o de impunidade. Uma desonra às 19 pessoas assassinadas naquela tarde. Em sua homenagem, aqui estão seus nomes, para que nunca sejam esquecidos:

Aílton Martins dos Santos, 55 anos

Antônio Prisco de Souza, 74 anos

Claudemir Elias dos Santos, 41 anos

Cláudio Fiúza da Silva, 41 anos

Daniel Altamiro de Carvalho, 53 anos

Edinaldo Oliveira de Assis, 40 anos

Edmirson José Pessoa, 48 anos

Emanuelle Vitória Fernandes Izabel, 5 anos

Marcos Aurélio Pereira Moura, 34 anos

Marcos Roberto Xavier, 32 anos

Maria das Graças Celestino, 64 anos

Maria Eliza Lucas, 60 anos

Mateus Márcio Fernandes, 29 anos

Pedro Paulino Lopes, 56 anos

Samuel Vieira Albino, 34 anos

Sileno Narkievicius de Lima, 46 anos

Thiago Damasceno Santos, 7 anos

Vando Maurílio dos Santos, 37 anos

Waldemir Aparecido Leandro, 48 anos.

fecho

Este artigo foi inicialmente publicado pelo Projeto Colabora [Aqui!].

Restauração de 77 mil hectares de áreas degradadas poderá movimentar mais de R$ 23 milhões por ano no Alto Rio Doce

Estudo da fundação Renova e do WRI Brasil aponta que intervenções florestais de baixo carbono em área atingida podem gerar melhores oportunidades de restauração

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Técnicas de restauração florestal e práticas de agricultura de baixo carbono podem ser aplicadas com sucesso na recuperação da Bacia Hidrográfica do Rio Gualaxo do Norte, em Minas Gerais, que foi impactada pelo rompimento da barragem do Fundão em 2015. É o que mostra um estudo realizado a partir do projeto Renovando Paisagem, uma parceria entre a Fundação Renova, o WRI Brasil, o Icraf Brasil e a Fazenda Ecológica. De acordo com as análises, a restauração de 77,2 mil hectares de áreas degradadas na bacia pode gerar um valor adicionado de R$ 23,5 milhões por ano distribuído por 8 municípios e reduzir 281,2 mil toneladas de emissões de gases de efeito estufa na atmosfera.

O objetivo é recomendar ações e estratégias da retomada das atividades agropecuárias na região mais atingida, em propriedades localizadas em Mariana, Barra Longa, Acaiaca, Oratórios, Ponte Nova, Dom Silvério, Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado e regiões, a partir da implantação de 25 Unidades Demonstrativas (UDs), onde foram desenvolvidos Sistemas Agroflorestais (SAFs), silvicultura de espécies nativas e práticas de manejo ecológico de pastagem. Essas unidades, implantadas dentro de propriedades atingidas, servem de modelo para outros produtores.

Para se chegar aos resultados, foi aplicada a metodologia ROAM, sigla que significa, em português, Metodologia de Avaliação de Oportunidades de Restauração. A técnica é usada na identificação das melhores oportunidades de restauração em uma paisagem e já serviu de base para a elaboração de planos de restauração no Brasil e no mundo.

O estudo mostrou também que intervenções de restauração como as que foram implantadas nas UDs, como a silvicultura de espécies nativas, o manejo ecológico de pastagens e os sistemas agroflorestais, poderiam ser implementadas na bacia. O retorno econômico para cada uma dessas intervenções foi estimado e varia de acordo com o arranjo produtivo. Um dos exemplos propostos pode gerar uma renda de quase 180 mil reais por hectare num horizonte de 12 anos através de produtos madeireiros e não madeireiros. É importante ressaltar que o sucesso da implementação depende de incentivos e medidas como segurança jurídica, assistência técnica e extensão rural (Ater), acesso a mercados e pesquisa e desenvolvimento para melhorar a produtividade e retorno econômico. Logo, o estudo mostra que a restauração na escala da paisagem é uma alternativa viável para a região.

A ROAM é aplicada a partir de análises socioeconômicas e biofísicas provenientes de bancos de dados já produzidos no território a ser reparado. Um núcleo de articulação e engajamento com os atores relevantes no tema e proprietários rurais discute os dados e planeja as ações para restauração da paisagem.

“Para subsidiar a tomada de decisão, ao longo do processo são construídos vários mapas com base em informações primárias e secundárias com o total envolvimento dos proprietários rurais da região, ribeirinhos do Gualaxo, Carmo e Piranga (Alto Rio Doce). Ou seja, o território ganha informações que subsidiam o planejamento territorial ou a visualização de oportunidades com análises e mapas biofísicos e socioeconômicos”, afirma Vitor Hermeto, especialista do Programa de Uso Sustentável da Terra da Fundação Renova.

Foram envolvidos pesquisadores, professores e extensionistas agroflorestais que atuam localmente, implementadores de projetos socioambientais que estão em busca de novos recursos para apoiar suas ações, associações e cooperativas de agricultores e agricultoras que demandam apoio técnico para o desenvolvimento de atividades no meio rural. Em seguida, essas informações foram levadas a outros fóruns, como os Conselhos Municipais e os de Comitês de Bacia Hidrográfica para ajudar no refinamento de planejamentos existentes que visem o melhor uso do solo no meio rural, considerando que florestas trazem ganhos diversos, tanto socioeconômicos como ambientais. Os dados levantados também servirão de base para atuação de órgãos públicos, como o Instituto Estadual de Florestas (IEF), entre outros.

Segundo Mariana Oliveira, do WRI Brasil, o estudo mostra que o sucesso da restauração depende de conhecer as motivações e atender as expectativas e necessidades da população. “A promoção da restauração na escala da paisagem deve ser abraçada pelos governos municipais e lideranças locais e, também, deve buscar a valorização da produção local e resgate do conhecimento popular e promoção de trocas de conhecimento e experiências e engajamento das comunidades” diz.

Além da obrigatoriedade legal de reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem, os principais benefícios que as pessoas esperam das florestas e que foram identificadas no estudo são a melhoria da qualidade da água, a complementação da renda rural e as oportunidades de engajamento e interação social.

O projeto Renovando Paisagem, do Programa de Uso Sustentável da Terra da Fundação Renova, está de acordo com o Termo de Transação e de Ajustamento de Conduta (TTAC), que prevê a retomada de atividades agropecuárias de forma integrada com a adequação ambiental.

Agenda global de restauração

O estudo foi feito a partir da aplicação da Metodologia de Avaliação de Oportunidades de Restauração (ROAM, na sigla em inglês). Essa metodologia já foi aplicada em várias regiões brasileiras, como nos estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Pernambuco, Santa Catarina, Pará e no Distrito Federal. Uma das grandes vantagens da metodologia é o componente de engajamento e participação social das lideranças locais no processo de tomada de decisão.

A aplicação do diagnóstico participativo auxilia os tomadores de decisão dos municípios afetados pelo rompimento da barragem a otimizar a implementação e aplicação de recursos, identificando as áreas com o melhor custo-benefício da recuperação de áreas degradadas e reflorestamento. Isso permite que a restauração na região atenda aos interesses da comunidade local e ainda ajuda no cumprimento do compromisso assumido pelo Brasil no Acordo de Paris de restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de áreas e florestas degradadas até 2030.

No mundo há cerca de 2 bilhões de hectares de áreas e florestas degradadas que podem se beneficiar de investimentos públicos e privados para recuperar sua funcionalidade e produtividade. Coincidentemente, 2 bilhões de hectares é a área necessária para atender à demanda global por alimentos e fibras até 2050, logo, a restauração de paisagens e florestas é uma das estratégias mais efetivas para atender necessidades fundamentais para o bem-estar da sociedade, tanto local como globalmente.

Pesquisa da Unifesp revela impacto da exposição ao mercúrio na memória de longa duração

Substância neurotóxica encontrada em agrotóxicos e em desastres ambientais revela necessidade de maior preocupação com políticas públicas ligadas ao meio ambiente

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e com a Universidade Nacional Autônoma de Honduras, revelou os impactos nocivos que a exposição ao mercúrio tem sobre a saúde humana.

Tópico ainda pouco abordado no meio acadêmico, o estudo relaciona o metal, mesmo exposto em baixas concentrações, às consequências no comportamento e na memória de longa duração de roedores. A pesquisa foi publicada no periódico Environmental Science and Pollution Research.

“Os compostos de mercúrio conseguem atingir o cérebro e são de difícil eliminação, o que leva à bioacumulação desse metal e a alteração do funcionamento normal das células no sistema nervoso”, explica Carla Scorza, pesquisadora do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Unifesp.

O mercúrio é absorvido e acumulado gradativamente no organismo humano, e mesmo em baixas concentrações, representa uma grande ameaça à saúde humana, com grande impacto nas populações cuja dieta tem peixes como consumo principal. “Dejetos ricos em compostos de mercúrio, como os encontrados em desastres ambientais como o de Mariana (MG), ao atingirem os rios acabam por se acumular em peixes e outros animais desse ecossistema. Dessa forma, populações ribeirinhas, que têm na pesca sua principal fonte de alimentação, acabam mais expostas a esses metais”, explica Leandro F. Oliveira, pesquisador do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Unifesp.

O estudo teve início em 2015, ano em que houve o trágico rompimento da Barragem em Mariana (MG), o que fez com que a equipe de pesquisadores também observasse como os desastres ambientais deixam dejetos resultantes da mineração que aumentam a exposição dos seres humanos ao mercúrio.

“A contaminação do meio ambiente por mercúrio é motivo de preocupação. Além dos desastres ambientais, e aqui podemos citar não só esse de Mariana como também, mais recentemente, os incêndios na região Amazônica”, explica Carla Scorza. “Outra fonte perigosa de mercúrio está na agricultura, por meio dos agrotóxicos. Eles fazem com que cada vez mais pessoas vivenciem uma espécie de contaminação silenciosa, sob risco de sofrerem impactos no sistema nervoso”, complementa.

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Na prática, o estudo revelou que a exposição crônica ao mercúrio por um período de 30 dias, prejudica a memória de longa duração de roedores, que é a capacidadede reter certa quantidade de informação por longo período de tempo. O metal também provoca mudanças no comportamento, ampliando quadros de ansiedade.

Testes em ratos

Para comprovar a relação entre o metal e o prejuízo à memória de longa duração, os pesquisadores fizeram testes em 22 ratos. Metade destes animais foi injetada com baixas doses de cloreto de mercúrio, no período de 30 dias, enquanto que os demais roedores receberam solução salina.

Todos os animais foram testados em um aparato (labirinto em cruz elevado) para avaliar a ansiedade e a memória. Os ratos que receberam mercúrio apresentaram aumento do comportamento tipo ansioso e prejuízo da memória de longa duração. As memórias derivam de alterações na transmissão sináptica entre os neurônios. Então, por meio de estudos da atividade eletrofisiológica no hipocampo, uma estrutura do cérebro localizada nos lobos temporais, os pesquisadores avaliaram a potenciação de longa duração, um fenômeno cerebral implicado na formação da memória, e verificaram que o mercúrio prejudica a plasticidade sináptica.

Por fim, os pesquisadores detectaram o aumento do estresse oxidativo no hipocampo dos ratos expostos ao metal tóxico, um evento deletério que pode causar a morte de células cerebrais nos animais.

Os autores concluíram que mesmo as baixas concentrações de mercúrio não devem ser subestimadas, uma vez que são capazes de prejudicar o funcionamento cerebral. Dessa forma, o grupo chama atenção para a importância do fortalecimento de políticas públicas ambientais, maior fiscalização e prevenção da contaminação, capaz de impactar, de forma irreversível, as populações expostas ao mercúrio e outros metais pesados tóxicos.

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By  Ex-Libris Comunicação Integrada/ Matheus Campos – (11) 3266-6088 (201) e Denis Dana — (11) 3266-6088 (208)