Associação Brasileira de Antropologia emite nota sobre o Tsulama da Vale em Brumadinho

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A Associação Brasileira de Antropologia (ABA) lançou uma nota que mistura repúdio à Vale pelo Tsulama em Brumadinho e solidariedade aos que foram atingidos pelo incidente causado pela ruptura do sistema de represas de rejeitos que causou enorme perda de vidas humanas e de degradação aos ecossistemas naturais por onde a onda de lama está passando.

A nota aponta ainda a responsabilidade da Vale em relação ao Tsulama da Mineradora Samarco que destruiu o Distrito de Bento Rodrigues (Mariana, MG) em Novembro de 2015, e também causou uma verdadeira hecatombe ambiental na bacia hidrográfica do Rio Doce.

A ABA denunciou ainda a flexibilização das normas ambientais em geral, e dos procedimentos do licenciamento em específico, como atos de descaso planejado insegurança administrada que provocam cada vez mais desastres como os ocorridos em Mariana e Brumadinho.

Abaixo segue a nota da ABA em sua íntegra.

 

Nota de Repúdio da ABA ao Desastre da Vale em Brumadinho-MG  e de Solidariedade Aos Atingidos

A Associação Brasileira de Antropologia (ABA), por meio do seu Comitê Povos Tradicionais, Meio Ambiente e Grandes Projetos, vem a público manifestar o seu pesar pelas vítimas do desastre ocasionado pelo rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais. A ABA se solidariza com os atingidos, familiares das vítimas e toda a população de Brumadinho e de Minas Gerais pela ocorrência de mais esta brutal tragédia que ceifou centenas de vidas humanas, aniquilou existências e a vida na bacia do rio Paraopeba, afluente do Rio São Francisco que abastece a região metropolitana de Belo Horizonte.

Três anos se passaram desde o desastre da Samarco, que tem a Vale como uma de suas associadas. Vidas e ambiente foram destruídos em Mariana e a bacia do Rio Doce comprometida por mais de 600 Km até a foz no litoral Capixaba. Comunidades tradicionais, pescadores, agricultores, povos indígenas entre outros foram prejudicados por esse desastre e lutam até os dias atuais pela justa reparação e a reconstrução de suas vidas. A Vale barganha o reconhecimento dos danos e sua reparação, enquanto seus acionistas e os da BHP Billinton, outra associada da Samarco, não deixaram de receber os seus dividendos em outras partes do mundo. Sabemos que os desastres não se esgotam no evento catastrófico que os enseja, mas perduram por muito tempo, através do sofrimento social imputado às vítimas pelas infindáveis e inconclusivas negociações. A história se repete em Brumadinho. Uma barragem da Vale se rompe e leva consigo centenas de vidas humanas, a maioria de trabalhadores da própria empresa.

Ao longo de décadas, antropólogas e antropólogos brasileiros têm empreendido esforços na compreensão da lógica desenvolvimentista que alimenta as escolhas econômicas e as práticas do Estado, tendo como ênfase os grandes projetos de infraestrutura associados à hidroeletricidade, ao agronegócio e à mineração. As situações etnográficas revelam que comunidades tradicionais, povos indígenas e classes populares em geral têm seus direitos ambientais, culturais, territoriais e humanos flagrantemente violados. Invariavelmente, os agentes dessa violação são os responsáveis pelos empreendimentos privados orientados para a acumulação de capital, tal como na produção de commodities minerais. As práticas governamentais do Estado têm desempenhado papel essencial, de apoio aos interesses predatórios e expropriadores do capital. São várias as formas pelas quais o Estado realiza esse papel, e a concessão de licenciamentos ambientais, não raro mediante a desconsideração de pareceres técnicos e dos protestos das populações vilipendiadas, é uma das principais. Ao longo dos anos, observamos a naturalização do desbalanço dos direitos territoriais dos diferentes grupos sociais, o que enseja a desproteção continua dos lugares mais ameaçados, e a sua exposição a desastres recorrentes e cada vez mais catastróficos.

Os estudos demonstram, assim, que os conflitos ambientais e os desastres que muitas vezes os acompanham resultam de falhas graves da governança ambiental, tanto no que concerne às normativas (leis, regras, instituições), quanto ao modus operandi que alimenta sua operacionalização. Vê-se, por um lado, uma falta de controle dos órgãos governamentais em relação ao cumprimento das leis vigentes, uma legislação robusta que vem sendo solapada por mecanismos desreguladores e por propostas de crescente flexibilização. Por outro, uma governança corporativa incapaz de garantir o planejamento e a gestão sustentável e socialmente responsável dos empreendimentos.

A ABA denuncia a flexibilização das normas ambientais em geral, e dos procedimentos do licenciamento em específico, como atos de descaso planejado insegurança administrada que provocam cada vez mais desastres, colocando em risco a vida de humanos, não-humanos e dos ecossistemas. Repudia a impunidade dos culpados, as manobras políticas que tornam a participação da população frente às obras que ameaçam suas vidas cada vez mais difícil e inócua. Repudia o jogo da mitigação e da compensação ambiental que tem “adequado” formalmente os megaprojetos econômicos perante a burocracia, enquanto as localidades se tornam espaços de vulnerabilidade e risco para os que ali vivem há dezenas e centenas de anos, com seus modos de ser e fazer.

A ABA exige que as responsabilidades civis e criminais por mais esse desastre de trágicas dimensões sejam apuradas de forma ágil e rigorosa, para que haja uma punição exemplar dos responsáveis. É preciso que se faça justiça. Os atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana e ao longo do Rio Doce, permanecem ainda hoje reféns de um jogo infindável de negociações que protela a justa reparação dos danos. Que as protelações cessem imediatamente, e que o mesmo jogo não se repita em Brumadinho.

Por fim, a ABA se soma a outros setores da sociedade brasileira para exigir o fim das barragens de rejeitos, que ameaçam pessoas, comunidades e ecossistemas inteiros. A vida deve ser critério prioritário na avaliação da viabilidade dos empreendimentos minerários.

Brasília/DF, 29 de janeiro de 2019.

Nada mais emblemático: enquanto o Rio Paraopeba está morto, minério segue saindo de Brumadinho

Uma das principais, e talvez mais significativas, lições do que aconteceu em Mariana em 2015 quando eclodiu o Tsulama da Mineradora Samarco (Vale+ BHP) foi a necessidade de que pesquisadores e ativistas de movimentos sociais saíssem do seu isolamento relativo em relação a cada um e partissem para construir uma rede de cooperção que pudesse documentar o que estava lá acontecendo.

Aquele processo de cooperação inicial causado pelo Tsulama da Samarco gerou um processo de rápida documentação do que está se passando agora na região de Brumadinho. A verdade é que há um esforço gigantesco para furar o bloqueio imposto pela Vale, com apoio dos governos do estado e federal, para impedir que se documente o que está acontecendo na área que já foi atingida pelos rejeitos que vazaram do complexo de barragens da Mina do Córrego do Feijão. E o bom é que este esforço está gerando uma vasta documentação visual, bem como de coleta de material (água e sedimentos) que servirão como importantes ferramentas para exigir da Vale que cumpra com suas obrigações civis e criminais que sua ganância corporativa causou em Mariana e Brumadinho.

Um dos vídeos mais reveladores a que tive acesso até agora mostra não só como o Rio Paraopeba e seus afluentes estão sendo duramente impactados pelo rejeito tóxico da Vale, mas como, apesar disso, o processo de circulação do minério de ferro extraído naquela região continua ocorrendo, como se nada de anormal estivesse ocorrendo. Este vídeo produzido por uma pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) é a síntese de como os interesses das corporações estão apartados das populações e do ambiente que são impactados pelas atividades de mineração.

A boa nova é que há uma clara mobilização em curso em Minas Gerais no sentido de não deixar mais esse Tsulama causado pela Vale passar em brancas nuvens.  Essa mobilização está envolvendo não apenas ativistas ambientais e pesquisadores, mas também (e principalmente) a população em geral que, justificadamente, se sente na condição de ser a “próxima vítima” das mineradoras.

Apoiar essa mobilização será fundamental para que finalmente se faça um levantamento sério da condição das centenas de barragens que as mineradoras possuem no território de Minas Gerais e, mais importante ainda, que se estabeleça um plano estadual para desativar as várias mega represas que possuem capacidade de destruir regiões inteiras, levando junto uma parte importante da história colonial brasileira e a população que vive nas cidades que correm hoje um risco claro e iminente.

Leonardo DiCaprio usa novamente Instagram para falar sobre o Brasil

Ator demanda ações concretas para impedir a repetição da destruição causada pela Vale em Brumadinho

dicaprio

A mensagem mais do que atual de Leonardo DiCaprio: pensem na vergonha que cada um de nós terá de carregar quando nossos filhos e netos olharem para trás e concluírem que nós tivemos todos os meios para parar esta devastação, mas simplesmente não tivemos a vontade política para agir.

O ator Leonardo DiCaprio que já havia usado a sua conta na rede social Instagram para denunciar o avanço do desmatamento no estado de Rondônia, agora veio a público em uma série de fotos para demandar ações concretas por parte de governos e corporações para impedir a repetição das cenas de destruição que estão correndo o mundo desde Brumadinho (MG).

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Segundo DiCaprio, o colapso dos reservatórios que liberou de 13 milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos deixou um rastro de destruição e tristeza, e que isso ocorre apenas 3 anos depois do maior desastre ambiental de história do Brasi que foi o Tsulama da Mineradora Samarco em Mariana (MG).

Segundo DiCaprio, “enough is enough”, o que quer dizer que já passou do limite tolerável. Por isso, ele disse que governos e corporações DEVEM parar de colocar lucros acima da vida das pessoas e da natureza.

As fotografias postadas por Leonardo DiCaprio são acompanhadas pelas “hashtags” #Brumadinho, #forçabrumadinho, #SOS Brumadinho, #Brazil, #Mariana, #Vale, #semlicençaparadestruir, #environment, #greenpeace, #nature, #environmentaldisaster.

Em menos de 48 horas a postagem de DiCaprio sobre o Tsulama de Brumadinho já ultrapassou 1,1 milhão de curtidas, o que certamente ampliará as dificuldades da Vale fora do Brasil, onde as práticas corporativas destrutivas são bem menos toleradas.

Grupo canadense lança relatório sobre colapsos dos reservatórios de rejeitos de Mount Pauley e Mariana

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O projeto “Corporate Mapping Project” que reúne pesquisadores de diversas instituições canadenses (e que se foca na investigação do poder da indústria dos combustíveis fósseis)acaba de lançar o relatório “Tailings dam spills at Mount Polley and Mariana: Chronicles of disasters foretold” (em portugues leria como sendo “Os derramamentos em Mount Polley e Mariana: crônicas de desastres anunciados”.

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Esse relatório conta ainda com a colaboração do  Grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS) que reúne pesquisadores de diversas instituições brasileiras, incluindo a UFJF, a UFRJ e da UEG.

O desastre de Mount Polley, també, mina localizada na Colúmbia Britânica, ocorreu em agosto de 2014, quando uma barragem que continha rejeitos tóxicos de mineração de cobre e ouro colapsou, causando o maior desastre ambiental na história da mineração do Canadá.  Em Novembro de 2015 ocorreu maior desastre envolvendo mineração na América Latina, em Mariana, Brasil, quando houve o rompimento de um reservatório de rejeitos ainda maior, da empresa Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton).  

Em ambos os casos, o relatório argumenta que os desastres eram evitáveis e ocorreram em função do comportamento irresponsável das mineradoras envolvidas, que contaram com a disposição dos seus respectivos governos que, entre outras coisas, simplificaram os processos de revisão e aprovação das licenças ambientais, reduziram a supervisão da operação dos reservatórios de rejeitos, e facilitaram as exigências regulatórias para empresas de energia e mineração.

Quem desejar acessar este relatório, basta clicar [Aqui!], enquanto o seu sumário executivo pode ser baixado [Aqui!]

TsuLama da Samarco: acionistas entram com ação coletiva contra a BHP Billiton na Austrália

TSULAMA

AFP/Archivos / Yasuyoshi Chiba

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A empresa de mineração australiana BHP informou nesta segunda-feira (23/07) que vai se opor a uma ação coletiva movida na Austrália, que a acusa de violação das suas obrigações de informação e de mentir no desastre ecológico mortal causado no Brasil pela sua controlada Samarco.

Dezenove pessoas morreram em consequência do tsunami de lixo tóxico causado pela ruptura de uma barragem em uma mina em Minas Gerais em 2015.

A BHP e a Vale, co-proprietários da Samarco, chegaram no mês passado brasileiro a um acordo com as autoridades brasileiras para resolver uma ação civil por um preço de R$ 20 bilhões   (US$ 5,3 bilhões) por causa dos custos trazidos pela tragédia.

A ação coletiva australiana alega que houve problemas com a barragem nos anos anteriores a 2015 e que a BHP deveria ter considerado os riscos e informado os seus investidores.

Na semana passada, a BHP anunciou que provisionou US $ 650 milhões em relação à catástrofe ocorrida no Brasil.

O desastre causou uma queda acentuada nas ações da BHP, e por causa disso cerca de 3.000 investidores se juntaram para entrar com essa ação coletiva.

FONTE: https://www.afp.com/es/noticias/838/demanda-judicial-colectiva-en-australia-contra-bhp-por-catastrofe-en-brasil-doc-17v2k82

Relatório vê cumplicidade de bancos europeus em Mariana

Reuters/R. Moraes

Vista aérea do distrito de Bento Rodrigues (MG), coberto de lama após o rompimento da barragem de Fundão em 2015

Para ONG alemã, grandes instituições financeiras europeias foram coniventes com o desastre ao manterem relações comerciais com a BHP e a Vale, acionistas da Samarco

Deutsche Welle

Grandes instituições financeiras europeias também têm uma parcela de culpa no desastre de 2015 em Mariana, por não excluírem de suas relações comerciais a BHP Billiton e a Vale, acionistas da Samarco, acusa um relatóriodivulgado nesta sexta-feira (11/05) pela ONG Facing Finance, de Berlim.

A ONG afirma que 25,8 bilhões em investimentos, empréstimos e títulos foram disponibilizados por bancos europeus às duas empresas entre 2010 e 2017, apesar de já haver evidências de falhas no gerenciamento da represa desde 2007.

O relatório considera dois bancos como cúmplices da tragédia: o francês BNP Paribas e o inglês HSBC. Para a ONG alemã, ambos contribuíram com os impactos adversos do colapso da barragem ao fornecerem os meios financeiros para que a Samarco continuasse suas atividades. Só entre 2011 e 2014, as duas instituições, segundo o estudo, emitiram um total de 537 milhões de euros em títulos e empréstimos para a empresa.

O caso da Samarco é apenas uma parte do problema apontado. Ao longo de 86 páginas, o relatório da ONG analisa ainda como os principais bancos de cinco países europeus são coniventes com desastres ambientais mundo afora ao financiarem atividades de multinacionais que sistematicamente incorrem em violações de direitos humanos e ambientais.

Infografik Facing Finance Vale por ano POR

Já em sua sexta versão, o documento anual intitulado Schmutzige Profite (lucros sujos) analisou dez das maiores empresas de commodities globais (Anglo American, BHP Billiton, Barrick Gold, Eni, Gazprom, Glencore, Goldcorp, Grupo México, Grupo Rio Tinto e Vale) e suas relações financeiras com os dois maiores bancos de cada um dos seguintes países: Reino Unido (HSBC e Barclays), Alemanha (DZ Bank e Deutsche Bank), França (BNP Paribas e Credit Agricole), Holanda (ING e Rabobank) e Suíça (UBS e Crédit Suisse).

Os resultados mostram que mais de 100 bilhões de euros foram disponibilizados às dez empresas pelos dez bancos na forma de capital novo (créditos, ações e bônus de subscrições) no período estudado.

O documento ressalta que, embora seja improvável que instituições financeiras causem violações de direitos humanos, elas são propensas a contribuírem ou estarem diretamente ligadas a violações por meio de suas relações de negócios.

Infografik Facing Finance BHP por ano POR

“O presente relatório mostra que a maioria dos bancos europeus não faz o suficiente. Eles não incentivam as empresas de recursos naturais a melhorarem no que diz respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente, nem estão dispostos a estabelecerem seus métodos ou limites para excluir essas empresas”, afirma o estudo.

Os bancos alemães aparecem entre os quatro maiores detentores de participações acionárias nas companhias extrativistas analisadas, com o Deutsche Bank na segunda posição (1,6 bilhão de euros) e o DZ na quarta (700 milhões de euros). Nenhum deles incluiu em sua lista negra qualquer uma das empresas extrativistas presente no relatório.

 

A Alemanha, no entanto, foi um dos países que menos contribuiu com provisões de capital. Ao total, foram cerca de 11 bilhões de euros, deixando o país atrás da França (30,1 bilhões), do Reino Unido (28,3 bilhões) e da Suíça (19,8 bilhões). Os bancos holandeses forneceram as menores contribuições, totalizando 10 bilhões.

Ainda de acordo com o relatório, o BNP Paribas e o HSBC foram os únicos que providenciaram financiamento direto à Samarco no período analisado.

O maior desastre ambiental do Brasil

O rompimento da barragem da mineradora Samarco, em 5 de novembro de 2015, deixou um rastro de destruição de mais de 650 quilômetros. Os rejeitos soterraram comunidades inteiras, deixaram 19 mortos e centenas de desabrigados. O acidente devastou a vegetação local e contaminou a bacia do Rio Doce, no maior desastre ambiental da história do Brasil.

Infografik Facing Finance Vale por banco POR

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) evita dar previsões para a recuperação efetiva da região, e ainda faltam estudos sobre os impactos concretos para a saúde dos moradores e para o meio ambiente.

As atividades da Samarco no Complexo Minerário de Germano, onde ocorreu a tragédia, continuam paralisadas, e se restringem apenas à conservação dos ativos e obras para melhorar a segurança operacional, reparar, recuperar e controlar os impactos provocados pelo rompimento. Ainda não há, no entanto, previsão para o retorno das operações industriais da Samarco, que segue à espera de novo licenciamento.

Programas de reassentamento, pagamento de indenizações, manutenção da qualidade da água na bacia do Rio Doce, obras de infraestrutura e retomada da atividade econômica dos municípios afetados foram assumidos pela Fundação Renova, criada em 2016 para este fim e a partir de acordo firmado entre a empresa, a União e os estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Infografik Facing Finance BHP por banco POR

Até o momento, a fundação afirma já ter destinado cerca de 850 milhões de reais em indenizações e auxílios financeiros, além de 3,6 bilhões de reais em aportes para as ações de reparação dos danos. Outra medida é a recuperação e proteção de 5 mil nascentes da bacia do Rio Doce ao longo de dez anos.

O rompimento da barragem de Fundão resultou em 67 multas contra a Samarco, chegando a valores que ultrapassam 715 milhões de reais. Do montante, apenas uma começou a ser paga (o chamado “multão”, dividido em 60 parcelas), quitando cerca de 3,6% do total em reais.

Desde o episódio, a Justiça Federal aceitou denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra 22 pessoas e quatro empresas Samarco, Vale, BHP Billiton e a consultoria VogBR (responsável pelo laudo que atestou estabilidade para a barragem) no processo que investiga as causas da tragédia.

FONTE: http://www.dw.com/pt-br/relat%C3%B3rio-v%C3%AA-cumplicidade-de-bancos-europeus-em-mariana/a-43724312

Como o pior desastre ambiental do Brasil ainda está afetando milhares de pessoas

O que pode ser pior que uma catástrofe socioambiental? Outra subsequente. Enquanto o poder econômico dominar o jogo político fatalmente isto voltará acontecer.

Photo: @portalconfluencias

Por Gustavo Lermen Silva**

Em 5 de novembro de 2015 rompeu a barragem do Fundão, localizada no subdistrito de Bento Rodrigues, a 35 km do centro do município brasileiro de Mariana, Minas Gerais. Mais de 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro vazaram do complexo de mineração operado pela Samarco, percorreram 55 km do rio Gualaxo do Norte e outros 22 km do rio Carmo até o grande Rio Doce. No total, a lama viajou 663 km até encontrar o mar, foi caracterizado por especialistas como o maior desastre ambiental do país, alterou profundamente os ecossistemas ao longo da bacia e afetou mais de 23 mil famílias.

Dois anos depois do rompimento da barragem que devastou a maior bacia hidrográfica da região sudeste do Brasil, os mecanismos do sistema foram alterados para pior com uma flexibilização do Código de Mineração por parte do Governo Federal, com o argumento que atrairá investimentos.

O que aconteceu não foi um acidente e sim um crime cometido pelas mineradoras com a cumplicidade do Poder público. O Ecocídio que deveria servir de alerta para evitar outros, apenas expôs a face mais perversa e a lógica desumana aplicada por companhias como Vale/Samarco e BHP Biliton. Grande parte da mídia também faz parte do esquema e está a serviço dessas empresas inescrupulosas. De acordo com o Relatório de Segurança de Barragens, publicado pela Agência Nacional de Águas em 2016, estima-se que 85% das barragens do Brasil não são corretamente fiscalizadas e não possuem um responsável legal. Há mais de 600 minerações empresariais em Minas Gerais, mais de 60 denúncias de barragens em alto risco de desabamento, a barragem do Fundão que ruiu em 2015 já havia sido denunciada dez anos antes e mesmo com tantas irregularidades praticadas e risco iminente de ruir, a empresa conseguiu renovar suas licenças. Nenhuma medida de segurança foi tomada, simplesmente por ser muito mais barato pagar alguma eventual multa do que investir em prevenção de acidentes. Ironicamente, os valores das multas são estipulados por eles próprios, ainda assim recorrem aos Tribunais para não pagá-las e muitas vezes conseguem, mesmo se a Vale tivesse pago todas as multas ao longo da sua história seria insuficiente. Pagar uma multa é muito diferente do que reparar danos; o impacto social causado em um desastre dessa magnitude tem valor incalculável. O descaso com a vida alheia é tanto, que sequer havia uma sirene para alertar a população em caso de rompimento da barragem, o número de mortes só não foi maior porque alguns heróis pegaram em suas motos e correram para avisar que o tsunami de lama tóxica estava a caminho. A empresa afirmou que os resíduos das barragens não são tóxicos e não oferecem risco à saúde, chegaram até a propor que lama fosse utilizada na confecção de tijolos para construção civil.

O esquema começa com megacorporações financiando campanhas eleitorais, elegem os representantes dos seus interesses, infiltram-se em todas as esferas políticas, encaminham e aprovam seus projetos megalómanos disfarçados de altruísticos, sempre tudo em nome do progresso do país e claro, das suas contas bancárias. A população não é consultada nas tomadas de decisões e assiste impotente a doença e a morte espalhar-se. Metais pesados fluem pelo falecido Rio Doce até a sua foz e continuarão afetando nocivamente todos os ambientes atingidos por muitas décadas, talvez séculos. Em breve estarão provocando doenças degenerativas e a indústria farmacêutica já deve estar contabilizando seus futuros clientes; com a água contaminada não se pode irrigar as plantações e acontece um êxodo populacional. O envenenamento do ‘Watu’ que significa rio na língua Krenak transformou completamente a vida das 126 famílias indígenas que viviam da agricultura, caça e pesca. Os índios Krenak perderam a sua identidade, são acometidos por alcoolismo, depressão e agora compram comida em supermercados. Estão impedidos de realizar os seus rituais e tem que se afastar do rio sagrado até para buscar as sementes de obá, necessárias para confeccionar artesanatos. Leonir Boka é o chefe da aldeia Atorã, seu nome significa “peixe”, tem um jeito tímido, mas para defender seu povo fala com desenvoltura e vontade, “Não tem casa, não tem dinheiro ou qualquer coisa que pague o que fizeram com o rio, o que fizeram com nossa gente. Se fosse para escolher qualquer coisa nesse mundo, a gente queria o rio de volta”, diz.

Recentemente, a relação entre o surto de febre amarela e este desastre entrou na narrativa da mídia tradicional, o biólogo e ambientalista Augusto Ruschi predisse há 27 meses atrás que isto iria acontecer. De acordo com dados do Ministério da Saúde, entre janeiro de 2017 e janeiro de 2018 registrou-se tantos casos quanto nos últimos 30 anos. A sopa química acabou com a vida do rio, que sem peixes e sapos para comer as larvas dos mosquitos, criou um ambiente favorável ao surgimento do surto que está se espalhando para outras regiões do país. Macacos estão sendo dizimados pela febre e por pessoas desinformadas que os matam por pensar serem transmissores do vírus, não são. O Governo age com ineficácia na informação dos procedimentos a serem tomados e a população enfrenta grande filas para a vacinação; um fato ocorrido recentemente no Rio de Janeiro chamou a atenção, traficantes de drogas sequestraram duas técnicas de enfermagem de um posto municipal de saúde para aplicar a vacina contra a febre amarela em sua quadrilha. “É um facínora, mas deu um banho de organização no serviço público!”, comentou um ex-ministro do meio ambiente no twitter. A lama carcinogênica depositada no leito e nas margens do rio continua a chegar incessantemente ao oceano, como mostra a monitoração por satélite. Os peixes do mar, cetáceos e corais estão contaminados da Bahia a São Paulo e a área atingida aumenta a cada dia no Atlântico Sul.

É chocante constatar que as vítimas atingidas diretamente não são indenizadas com justiça e sim constantemente enganadas por quem deveria protegê-las. A Fundação Renova opera com mesma lógica de quem a criou, é permeada em todos os escalões por antigos funcionários das empresas criminosas e foi criada pelas empresas acusadas especialmente para reparar os danos causados às pessoas e ao ambiente, mas parece ser na prática mais uma artimanha das empresas envolvidas para posar de benfeitoras. A Renova foi um dos primeiros artifícios para preservar a imagem da Samarco/Vale, retirando-as dos holofotes.

Até agora todos os 22 acusados não foram condenados, a Justiça Federal suspendeu a ação criminal que tornava os acusados em réus por homicídio no desastre de Mariana, 19 pessoas morreram. Como era de se esperar, os acusados são amparados por um exército de advogados que usam uma infinidade de recursos para protelar as decisões da justiça, recorrem em todas as instâncias para ganhar tempo e conseguem a prescrição de muitos processos. Preparam novos projetos monstruosos, como uma barragem 4 vezes maior que a colapsada em 2015, sempre com a condescendência de parte da comunidade e autoridades locais, o pressuposto é que será benéfico para a região a nível econômico.

Procuradores da República e Promotores de Justiça se aliaram e proibiram uma outra Fundação chamada Getúlio Vargas (FGV) de medir os danos causados pela tragédia de 2015. O motivo para essa proibição foi um conflito de interesses no contrato. A Companhia Vale que é controladora da Samarco, ocupa uma vaga na instituição FGV. O cinismo é tão grande que a empresa causadora do dano, queria fazer a avaliação econômica do mesmo.

No livro, e seqüencialmente documentário, The Corporation: The Pathological Pursuit of Profit and Power, os autores canadenses Mark Achabar; Jenifer Abbott e Joel Bakan (2003) apresentam um histórico do crescimento das grandes corporações mundiais, em que são abordadas questões sociais e ambientais como a utilização de produtos perigosos e nocivos à biosfera, à saúde humana e a dos animais, destruição do seu habitat natural, lixo tóxico, poluição, produtos químicos sintéticos, fazendas industrializadas, experiências, aplicação de hormônios artificiais para aumentar a capacidade de produção do animal, devastação florestal, emissão de CO2, lixo nuclear, questões econômicas e políticas, assim como a responsabilidade das corporações no mundo contemporâneo e seu compromisso com o desenvolvimento e a formação da sociedade. Nele, foram ouvidos mais de 40 depoimentos de altos executivos de multinacionais, operadores de bolsa, professores universitários, historiadores, cineastas, espiões de empresas, etc. A reflexão traz a seguinte questão: se as corporações fossem pessoas, que tipo de pessoas elas seriam?

Elas não têm uma alma, um ser moral, nem um corpo para ser contido ou preso. Não têm compromisso com a vida humana, nem com a dos animais ou com o meio ambiente. Só se comprometem com o lucro. Mentem e patrocinam mentiras para construir a imagem de benfeitoras, de bem intencionadas, e escondem a exploração, a manipulação política, a destruição moral, instrucional, ambiental, entre tantas outras destruições. Não existe o conceito de lealdade. Não há preocupação com as consequências, desde que não afetem os lucros.

Assim como as pessoas, as empresas podem apresentar sintomas de psicopatia, como: descaso pelos sentimentos alheios; incapacidade de manter relações duradouras; repetidas mentiras e trapaças para obter lucro; incapacidade de seguir normas sociais de conduta dentro da lei.

Robert Hare, atual membro do conselho do Centro de Pesquisas sobre Serial Killers do FBI desenvolveu – The Psycopathy Checklist – Revised (PCL –R) – que pode ajudar a detectar comportamentos de risco em indivíduos: eis alguns semelhantes assumidos por corporações criminosas; sentimentos insuflados de importância pessoal; manipulação e chantagem; atração pelo poder; ausência de remorso ou culpa; emoções superficiais; ausência de empatia com os outros; estilo de vida parasita; controles comportamentais precários; impulsividade; irresponsabilidade; incapacidade de se responsabilizar por suas ações. Hare (2003).

Corporações regidas por esse tipo de raciocínio deveriam ser boicotadas e punidas exemplarmente, mas não são e mais uma vez fica evidente para os transgressores que o crime ainda compensa.

Felizmente a mudança de paradigmas preconizada por Fritjof Capra em 1982 no livro The Turning Point está acontecendo e a vigente visão de mundo mecanicista vem sendo questionada e revista, abrindo cada vez mais espaço a um novo paradigma denominado holístico ou ecológico. Apesar de não apresentar soluções, o livro mostra claramente a importância de mudarmos de atitude, ou seja, abandonar as nossas concepções e as nossas narrativas de separação, dominação e competição e substituí-las pelas de interligação, co-evolução e cooperação.

Há uma nova geração de diretores e investidores iluminada pelo chamado ‘pensamento sistêmico’ citado por Capra e com a percepção que as propriedades essenciais de um organismo encontram-se no todo e na sua organização, que tudo decorre das relações entre suas partes e dentro de um contexto mais amplo do mundo que integra as sociedades humanas e as suas atividades com o ecossistema planetário do qual dependemos.

** Artigo publicado originalmente em inglês no site The Inertia [Aqui!]